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  • O Berço do Daesh

    O Berço do Daesh

    Texto e fotografias: Ana Gonçalves

    O Iraque moderno surge de um velho hábito colonialista de desenhar nações a régua e esquadro: a 16 de Maio de 1916 foi ratificado o acordo de Sykes-Picot, entre a Inglaterra e a França, que dá origem ao mapa de nações do Médio Oriente que hoje conhecemos. Ou conhecíamos. Foi já em 2014 que o aparelho mediático do Estado Islâmico nos anunciava o fim das fronteiras desenhadas por Mark Sykes, quando os seus mujahideen estrangeiros destruíam os postos fronteiriços entre a Síria e o Iraque.

    Esse mapa, desenhado na mesma sala onde hoje se senta David Cameron, e que respondia à necessidade de dividir o derrotado Império Otomano, foi pensado com absoluto desrespeito pelas populações, as suas culturas, histórias e territórios. Foi este mesmo acordo que reservou uma área para os projectos Zionistas da criação do Estado de Israel, enquanto transformava os Curdos em não-povo, desmembrando as suas comunidades por quatro nações. São estas comunidades que Ana Gonçalves visitou. De lá trouxe as histórias das pessoas que são duplamente confrontados com um momento histórico único em que finalmente vislumbram a possibilidade de construir o Curdistão negado, enquanto travam uma luta de morte com um novo projecto fruto dos jogos imperialistas e colonialistas deste século: o Estado Islâmico.

    São algumas dessas histórias e relatos em primeira mão que o MAPA publica neste número, quando se assinalam os 100 anos do infame acordo Sykes-Picot, e na esperança que tenha de facto chegado ao fim não só o seu prazo de validade, mas também a sua influência colonialista no Médio Oriente.

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    Em Maio de 2015 comecei a escrever um artigo sobre migrantes provenientes de países instáveis por motivos de guerra, repressão política ou falta de liberdade. Sempre me fascinou a luta do povo curdo, apátrida desde há três mil anos que lutava praticamente sozinho contra a ameaça do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh). Através de vários contactos que fiz, conheci Karwan Kurdi, cidadão iraquiano proveniente do Curdistão Iraquiano, estudante de doutoramento de Engenharia dos Petróleos no Instituto Superior Técnico, que após breves minutos ao telefone me convidou para jantar em sua casa. Acabei por conhecer mais estudantes curdos, entre eles Hawreen, também estudante de doutoramento de Engenharia Civil, e figura maior da reportagem que fiz na altura. Naquele jantar em casa do Karwan, à mesa com o Curdistão, fiquei fascinada pela luta e amor que cada um daqueles jovens demonstrava em relação à causa curda. Nessa mesma noite, desenharam-se as primeiras linhas para a viagem ao Curdistão Iraquiano, que teria lugar dali a cinco meses. A pergunta foi simples e direta, queres vir ao Curdistão, ver o outro lado? A resposta foi imediata, sim!

    Erbil

    A quarta maior cidade do Iraque e capital do Curdistão Iraquiano, Erbil, é uma das urbes mais antigas do mundo, a sua origem remonta a 6000 a.C. A cidade tem uma vida intensa com vários restaurantes, esplanadas, cafés onde grupos de homens bebem chá ou fumam shisha, um bazar principal fervilhante composto por várias artérias onde facilmente nos perdemos numa tentadora loja de doces ou em lojas de tecidos de mil padrões diferentes provenientes da Índia, do Dubai, da Turquia, onde filas de mulheres entram e saem num corrupio alegre. Há ainda pequenas joalharias faustosas, em que o ouro predomina, lojas de brinquedos, de telemóveis, sapatarias e toda a espécie de pequenas bijuterias que enchem o espaço.

    Fora do bazar, ao ar livre, no parque Shar podemos comer fruta fresca, especialmente romã, que é vendida em pequenos copos, ou deliciar-nos com um refrescante gelado ou sumo fresco, bálsamos para um Verão quente que só ao cair da noite dá tréguas. Um comércio vivo a cada esquina transforma a cidade numa miscelânea de sons, cheiros e sabores que se confundem e inebriam a multidão que passa. Quando se circula pelo centro de Erbil dificilmente se pensa que Mossul, bastião dos extremistas, fica apenas a 80 Km dali, tal a descontração com que a vida decorre na capital do Curdistão Iraquiano.

    Desde a queda de Saddam Hussein, em 2003, operou-se um crescimento rápido em Erbil. Numa década construíram-se universidades, centros de investigação, arranha-céus, hotéis, centros comerciais, parques de diversões para as famílias, diversos jardins, com o sentido de melhorar a qualidade do ar. A cidade crescia próspera, atraindo cada vez mais investidores estrangeiros.

    Até que em Agosto de 2014, o Daesh (acrónimo árabe do autoproclamado Estado Islâmico) atacava em força a região do Curdistão Iraquiano e chegava às portas da capital. Os investidores, sempre presentes, tornaram-se receosos, as construções abrandaram ou pararam, os centros comerciais, à escala mundial, nunca chegaram a encher, o turismo tornou-se uma miragem, bem como os negócios auspiciosos. O crescimento anual foi em 2015 negativo quando antes atingia os 10%, os bancos começam a fechar por falta de liquidez e as pessoas preferiram manter o dinheiro em casa ou depositá-lo em bancos turcos. Além disso, os funcionários públicos continuam a receber salários com seis meses de atraso, numa região onde 75% da população trabalha para o Estado.

    De Bagdad, as notícias que chegam também não são animadoras. O Governo Central, que deveria cobrir 17% do orçamento da Região do Curdistão, não disponibiliza qualquer ajuda já há vários anos, os preços do petróleo descem sistematicamente e, com toda a falta de verbas que existe, o sistema de saúde colapsou, e o sistema de ensino subsiste com muitas dificuldades, pois grande parte do orçamento serve para cobrir as despesas de guerra, como o pagamento de salários aos Peshmerga, armamento e manutenção dos checkpoints.

    Se a situação era má desde o início dos confrontos contra o Daesh, piorou quando os deslocados internos começaram a chegar. Cerca de 38% de toda a população de deslocados internos do Iraque, só em Erbil. Os curdos, que sempre foram reconhecidos por receberem de braços abertos todas as minorias e árabes que procuravam refúgio, debatem-se agora com problemas internos graves começando a notar-se algum constrangimento com a presença de cada vez mais árabes pelas ruas da capital.

    Para Mohamed, 28 anos, antigo professor de educação física, deslocado interno, dono de um pequeno restaurante kebab, já não é possível viver no Iraque. Vim para Erbil porque corria perigo de vida em Bagdad. As milícias ameaçaram matar-me, então fugi para o Norte, aqui não corro perigo, mas estou a poupar para ir para a Alemanha. O Iraque acabou, Bagdad acabou e era uma cidade tão bonita

    Noutro restaurante de Erbil, uma típica família de classe média almoça em silêncio. A minha filha e o marido daqui a poucas horas vão partir para a Turquia de autocarro e a partir daí vão tentar chegar à Europa, ainda não sabem como, se por mar ou por terra. A minha filha tem 23 anos, é professora, e não quer continuar no Iraque. Se tiver sucesso na viagem, em breve chama os irmãos para o pé dela”, conta o pai de família.

    Cerca de 4000 refugiados por dia, mesmo no Inverno, chegaram à Europa, um milhão de refugiados a terminar o ano de 2015, número que quadruplicou em relação a 2014, o maior fluxo migratório para a Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

    Viagem à linha da frente – os Peshmerga

    Sabin Sabir, 28 anos, Peshmerga destacado na aldeia de Tal Alwad, situada a sudoeste de Kirkuk, acompanha-nos até à frente. Estou de férias, mas sempre que o general Kak Azad precisa de mim, mesmo que seja a meio da noite, eu vou. Pego na minha arma, no meu equipamento, saio de casa e apanho um táxi, muitas vezes sem a minha mulher e os meus filhos perceberem”.

    Perante a passividade das potências internacionais ao avanço do Daesh, os Peshmerga, um grupo curdo armado, que combate pela criação de um Estado independente do Curdistão nas zonas do Iraque, Síria e Turquia, enfrentam na linha da frente fileiras de homens vestidos de negro, sem nacionalidade definida. Desde Agosto de 2014, cerca de 1300 Peshmerga já perderam a vida e mais de 7000 ficaram feridos na proteção de cerca de 1000 km de fronteira.

    Tal Alwad e as restantes aldeias próximas são controladas pelos Peshmerga, contudo toda a região continua a ser muito perigosa, visto que os extremistas controlam ainda várias cidades situadas a sudoeste de Mossul. À medida que nos aproximamos da base, Sabir chama-nos a atenção para as mudanças que se fazem notar. A paisagem muda, torna-se mais árida, desértica, a temperatura sobe, chega aos 47º C. Encontramo-nos na fronteira entre o deserto e as terras de cultivo, significa que nos aproximamos do sul, do imenso e impenetrável deserto do Sudeste.

    À nossa espera, na base de Tal Alwad, está o general Kak Azad, responsável maior pelas forças Peshmerga naquela zona. No topo de uma colina, com visão privilegiada sobre todo o território, vários Peshmerga de Kalashnikov na mão mantém as suas posições atrás de trincheiras improvisadas. Ao longe, avista-se um pequeno afluente do rio Tigre, uma fronteira natural que marca a separação entre os territórios.

    O general Kak Azad leva-nos para dentro de uma pequena caserna feita pelos seus homens e mostra-nos algumas armas químicas convencionais. Os meus homens não sabiam o que era isto e felizmente que nada aconteceu, porque não temos máscaras, nem equipamento para nos protegermos do gás”, explica o general.

    A utilização de armas químicas faz reacender pesadelos antigos, da altura em que Saddam Hussein, em 1988, lançou ataques com armas químicas contra os curdos. Muitas das fábricas de armamento, ainda do tempo de Saddam, foram deixadas ao abandono e à mercê dos jihadistas pelo exército iraquiano.

    Após a queda do regime do antigo ditador e o abandono das tropas americanas, o exército iraquiano ficou bastante fragmentado, de um lado Xiitas, do outro Sunitas. O Primeiro Ministro do Iraque, Nuri Al-Maliki agudizou a situação, já de si frágil, quando excluiu os oficiais e soldados árabes sunitas do exército, fazendo com que muitos deles engrossassem as fileiras do Daesh.

    No Verão de 2012, já sem tropas norte-americanas no terreno, o Daesh lançava no Iraque a operação Derrubar Muros destinada a tirar das prisões militantes e dirigentes sunitas. Foram os primeiros passos dados pelo Daesh no Sul do Iraque que, entre a ausência do Estado Iraquiano ou, por vezes, a sua estranha passividade, foi terreno fértil para os avanços das milícias. Mossul, uma cidade com cerca de dois milhões de habitantes, onde sempre conviveram Sunitas, Xiitas, Curdos, Yazidis e Cristãos, foi rapidamente dominada pelos extremistas, tornando-se assim o bastião do Califado no Iraque.

    Contudo, apesar de todas as conquistas já feitas pelos extremistas, o general Azad faz um retrato pouco abonatório das suas capacidades. Eles não têm um exército bem organizado, nem conhecem tácticas de guerra básicas, mas isso não os torna menos perigosos. Era bem melhor se pudéssemos lutar contra um exército organizado, disciplinado e conhecedor. A forma como eles atacam é através de ataques furtivos feitos por snipers, ataques suicidas ou carros armadilhados refere.

    A conversa continua na pequena caserna, vão-se juntando a nós cada vez mais oficiais e soldados. Atenciosamente, servem-nos água fresca e um chá quente antes de almoço, enquanto isso, vários Peshmerga mostram-nos vídeos e fotografias dos combates que travaram na frente, são as suas pequenas crónicas ali narradas, nos ecrãs dos pequenos telemóveis. Corpos sem vida saltam à vista, alguns rostos parecem extremamente jovens… Para se ser um soldado Peshmerga tem que se ter mais de 18 anos, pode ser-se ou não curdo, temos mesmo alguns estrangeiros que vêm como voluntários. Mas, na linha da frente do Daesh encontramos crianças e estrangeiros – europeus, paquistaneses, indianos, até japoneses. Sabemos isso pelos passaportes. O Daesh é um cancro, que destrói tudo”, assegura o general Azad.

    Shwan Shwane, 25 anos, estudante de Engenharia Civil na Universidade de Salahaddin, em Erbil, casado e com uma filha de um ano, teve de interromper os estudos por causa da guerra. Agora, é camionista e Peshmerga. Vamos sempre lutar contra o Daesh porque eles fazem mal às nossas mulheres, às nossas crianças. São assassinos brutais. Mas eles não nos vão conseguir vencer porque nós lutamos por uma causa, eles não diz Shwan.

    São três da tarde, está um calor que não dá tréguas, na frente as armas permanecem suspensas entre os sacos de areia, em trincheiras improvisadas. O movimento é praticamente inexistente, reina a calma, mas é uma calma enganadora. À medida que a noite cai, a situação torna-se cada vez mais perigosa, porque os extremistas têm melhor material, como óculos de visão nocturna e armas de longo alcance. Estamos a lutar pelo mundo todo aqui refere o General Azad ao nosso lado. Com poucos meios tentamos fazer muito, mas precisamos de mais apoio da comunidade internacional, não podemos fazer tudo sozinhos”.

    As despedidas aos Peshmerga são longas, emotivas, com muitas fotografias pelo meio, mas acabamos por ter de voltar à estrada.

    curdistao 3Estrangeiros nos Peshmerga

    Depois de uma longa viagem chegamos a Dakuk, cidade situada a Sul de Kirkuk, junto ao rio Tigre, base de um batalhão das forças Peshmerga que reúne cerca de 4000 elementos. Os ataques nesta área são contínuos, há inúmeras aldeias à volta completamente destruídas pelos ataques aéreos da coligação e os corpos das vítimas ainda lá estão, sem que ninguém se aventure para fazer a remoção dos destroços com receio de bombas controladas remotamente e minas antipessoais.

    Na base de Dakuk conhecemos dois ocidentais que há quatro meses ajudam os soldados Peshmerga na luta contra o Daesh. Oliver e Rebaz (nome fictício) são dois soldados que têm em comum a língua inglesa e a experiência militar. Oliver é canadiano, Rebaz norte-americano. O primeiro esteve oito anos no Afeganistão, o segundo seis anos no Iraque, em Bagdad. Mas o que sentem desde que chegaram ao território curdo do Iraque?

    A minha experiência aqui oscila entre expectativa, decepção, cansaço, surpresa, tudo junto, tudo misturado. Estou aqui como voluntário para ajudar os Peshmerga, mas, além disso, também estou a rodar um documentário (1) sobre a minha experiência na Região do Curdistão como soldado estrangeiro. Costumo dizer que tenho a minha arma numa mão e a câmara de filmar na outra, para mim a câmara é como uma arma, porque quero que o mundo saiba o que os Peshmerga fazem diariamente conclui Oliver.

    Há quatro meses, Rebaz deixou a casa, o emprego de oito horas, e o filho de três anos, e aterrou em Erbil. “Eu não conhecia o Curdistão e estive no Iraque seis anos a servir o exército dos EUA, mas não sabia que os curdos eram tão diferentes, eles são os nossos aliados no Médio Oriente. Em mais lado nenhum do mundo eu vi pessoas tão honradas e respeitosas, os oficiais estão sempre na linha da frente, podem ganhar mais, mas também morrem como os soldados. Vocês sabem quantos morrem todos os dias?.

    Rebaz é um jovem de 26 anos, mede cerca de 1.90, tem várias tatuagens espalhadas pelo corpo, olhos claros e barba ruiva comprida. A expressão é calma, como a de qualquer homem do exército bem treinado, e o discurso é fluente. Já dentro do carro, que avançava em grande velocidade pela terra batida, Rebaz tira do uniforme a fotografia do filho e da antiga namorada. Este é o meu filho de três anos e esta era a minha namorada, Lydia, que se suicidou. É por causa deles que eu estou aqui, no Curdistão. Fiz coisas muito más quando estive em Bagdad, muito más mesmo. Agora estou no local certo a fazer o que é correto. Lutar contra o Daesh”.

    Após cada ataque aéreo da coligação, os refugiados começam a aparecer. Mulheres, crianças e homens fogem das aldeias à procura de abrigo na base. Alguns homens que chegam têm a barba cortada, trazem mulher e filhos, mas têm um olhar frio, calmo. No meio do caos só um soldado consegue ficar assim. Pegamos nos telemóveis que trazem e vemos as fotografias que eles nunca apagam, e imediatamente percebemos que são militantes do Estado Islâmico. Eles não são muito espertos, mas têm nervos de aço. Aqui, na nossa base, sabemos sempre quem eles são, mas não sei como funciona nas outras. Eles misturam-se com as populações e em breve estarão noutro sítio qualquer”, conta Rebaz.

    Acompanhado sempre da sua arma, sorriso no rosto, conta-nos que demorou quase um mês a convencer o general a deixá-lo ir para a frente, sempre quiseram protegê-lo ao máximo e fazem isso com todos os estrangeiros que chegam ao Curdistão, são sempre hospitaleiros. “A roupa que tenho foi-me oferecida. Sempre que preciso de algo, fazem o máximo para que eu tenha tudo o que necessito. Ao contrário de outros soldados estrangeiros que pertencem à legião (são cinco atualmente e todos ingleses, que vivem separados do resto do grupo, que tem carros próprios e só atacam quando apoiados pela coligação), eu e o Oliver convivemos com os Peshmerga diariamente. É muito agradável. Querem todos aprender a falar inglês comigo e eu vou aprendendo curdo, anoto todas as palavras novas aqui, neste caderno”.

    O que levou o soldado norte-americano do Alasca a deixar o mundo ocidental e a querer combater no outro lado do globo? “Eu sou bom naquilo que faço, no exército, como militar. Não quero voltar a viver no Alasca, sinto-me mais livre aqui do que alguma vez fui lá, vivia para pagar contas… Agora, sinto-me realizado, combato, divirto-me com os meus companheiros e, ao mesmo tempo, estou a escrever um livro para o meu filho, para quando ele for adolescente e quiser saber quem foi o pai, onde é que eu estive, o que é que eu fiz e pode ser que assim ele compreenda melhor quem sou eu”. O livro é cuidadosamente guardado numa bolsa de couro, envolvido numa bandeira do Curdistão, guardado num saco de plástico para ficar protegido da água. “É o meu tesouro”.

    Falta tudo

    O campo é imenso, à volta é a desolação completa; aldeias destruídas a perder de vista, um silêncio pesado, nem um sinal de vida do outro lado, mas acredita-se que tudo esteja minado de explosivos e armadilhas. Para Rebaz, esta guerra é muito peculiar. Parece que estamos na Primeira Guerra mundial, o equipamento é o mesmo. Não há tanques, óculos de visão noturna, máscaras anti-gás, nada! Nem de um lado, nem de outro, trincheiras dos dois lados e ataques combinados, todos sabem quando é dia de ataque. Os Peshmerga não precisam de mais campos de treino, passaram anos em guerra, eles precisam de dinheiro, de equipamento, necessitam que o mundo saiba quem eles são”.

    curdistao 2Fomos convidados a passar a noite com os Peshmerga e à medida que as horas avançavam o camião da comida começava a distribuir a refeição, uma saborosa sopa de leguminosas. “É agradável durante os primeiros dias” diz-nos Rebaz, “mas depois de comermos o mesmo todos os dias, já não achamos assim tão bom”. Há jovens e homens mais velhos que se juntam à volta do camião. É ali que comem, convivem e dormem por turnos, pois não cabem todos na camarata. Depois do jantar há ainda jogos de dominó, sorrisos e histórias que enchem a noite. A guerra também se faz destes momentos.

    Na manhã seguinte tomamos um bom pequeno-almoço curdo, com fruta, ovos, frutos secos, mas começa a notar-se uma agitação que ainda não tinha sido vista. O general diz-nos que temos de ir embora. É dia de combates e apesar da insistência, não podemos ficar. Está na hora da despedida, para Rebaz o adeus é ainda mais sentido, apesar de dizer que não sente falta de nada no Curdistão, confessa que sabe bem falar inglês com alguém uma vez por outra.

    Viagem ao topo da Montanha – O PKK no Iraque

    A aliança entre o Governo Regional do Curdistão, no Iraque, e o governo de Ancara não satisfaz muitos curdos, que não esquecem a opressão do governo de Erdogan ao povo curdo na Turquia, cerca de 20 milhões, 55% de todos os curdos a viver no mundo, que não têm direito sequer a falar a própria língua, o curmânji. Por outro lado, na região do Curdistão Iraquiano há muitos simpatizantes do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) que têm combatido desde o primeiro instante as forças do Daesh, que combatem também com a mesma determinação e força as políticas de Erdogan.

    À medida que subimos em direção às montanhas de Qandil, no sul do Curdistão Iraquiano, que serve como base e campo de treino para homens e mulheres do PKK, olhamos para cima, sempre à espreita de drones. A linha da frente foi intensa, com o Daesh ali tão perto, mas a ida às montanhas fazia-se em silêncio com os olhos pregados ao céu.

    Ao fim de dois anos de tréguas entre o PKK e o governo de Erdogan, o ataque ocorrido em Suruç, em Julho de 2015, contra um grupo de jovens curdos que se preparavam para ir até Kobani, na Síria, em trabalho humanitário, reacendeu os conflitos. Estes jovens sofreram um ataque bombista reivindicado pelos homens de Abu Bakr al- Baghdadi, líder do Daesh, resultando na morte de 32 jovens curdos e mais de cem feridos. Várias organizações e partidos acusaram desde logo as autoridades turcas de terem colaborado, ou pelo menos “permitido” este ataque.

    As relações já tensas entre Ancara e o PKK acabaram por se agudizar de forma irremediável. Em resposta a este ataque e à inação do governo turco, houve ataques contra as forças militares turcas, levando aos bombardeamentos intensos por sua parte onde quer que existissem células ativas do PKK.

    O território do PKK começa agora, nas montanhas de Qandil, mas temos de telefonar ao meu contacto e se ele não nos atender é porque temos de voltar para casa”. Ir às montanhas em pleno mês de Setembro, quando os ataques turcos não abrandam, é extremamente perigoso, como o nosso guia não se cansa de repetir. Do outro lado do telefone, o nosso contacto diz-nos que podemos avançar. Suspiramos de alívio! A paisagem é maravilhosa, a serra pintada de castanho ocre ergue-se à nossa frente em todo o seu esplendor. Há oliveiras, pomares de romãzeiras e vinhas a perder de vista. A temperatura é amena, o sol não queima, parece que nos aproximamos do paraíso. No topo da montanha, o primeiro checkpoint controlado pelas forças do PKK. Rapazes quase imberbes com Kalashinov pedem-nos os documentos e dizem-nos para desligarmos os telemóveis. Até nós, vem Zagros Hewram, assessor de imprensa do PKK nas montanhas de Qandil, fala um inglês perfeito, sem qualquer sotaque. Há dez anos era professor de inglês no Irão. Com um olhar sagaz, um sorriso delicado e uma descontração que nos surpreende, abre-nos o caminho por entre as montanhas que albergam a guerrilha.

    Estão a ver aquele ponto branco ali no céu a piscar? São drones. Estamos a ser vigiados, vocês estão a ser observados”, conta-nos Zagros. Não conseguimos ver nada, mas mesmo que víssemos já não estamos preocupados por estarmos nas montanhas, este cenário idílico vale todos os perigos. A paisagem luxuriante da montanha faz-nos pensar que podíamos estar ali de férias a desfrutar de tudo o que a montanha tem para nos oferecer.

    Zagros leva-nos às ruínas de uma casa que foi atacada pelas forças turcas, uma família de sete pessoas morreu ali, um carro completamente queimado e escombros é tudo o que resta. Nós nunca andamos vestidos como civis para proteger a população, não queremos que a população sofra baixas por nossa causa, mas mesmo assim os aviões turcos não hesitam em atacar-nos”. Há livros, canetas e fotografias no chão, um pastor que passa por ali cumprimenta-nos e voltamos a olhar para o céu, para um ponto branco que esteja a piscar.

    Passaremos a noite na pacatez das montanhas em casa de uma família de agricultores, na manhã seguinte iremos ao encontro das guerrilheiras do PKK, ou melhor, elas virão ao nosso encontro. Antes do cair da noite ainda visitamos o cemitério e o mausoléu da guerrilha. Centenas de retratos e objectos pessoais de cada uma das mártires que perdeu a vida ao serviço da causa repousam ali, como tesouros para a eternidade. Pentes, carteiras, pequenos espelhos dispostos dentro de gavetas envidraçadas contam-nos histórias, falam. Ao centro, o retrato de Arin Mirkan, uma heroína de guerra, jovem mãe de 20 anos, comandante do YPG (Unidade de Defesa das Mulheres) que em Kobani, cercada de jihadistas e sem fuga possível, envolveu-se com explosivos e fez-se explodir levando consigo 23 membros do Daesh.

    À medida que anoitece, já em casa de uma família de agricultores, repousamos bebendo um chá. Um dos jovens da casa, o filho mais novo Dyare, tem 15 anos e quer ser astrónomo. Não é de estranhar, todas as constelações são visíveis a olho nu, como ver um drone num céu tão estrelado? Dyare é um rapaz sorridente, bonito, de olhos verdes, que gosta de Cristiano Ronaldo, mas acha que Messi é melhor jogador, diz-nos que está a preparar uma manifestação juntamente com os amigos. A escola perto de casa vai fechar porque não há professores e a outra escola fica muito distante. Todos querem sair do Iraque, são guerras atrás de guerras, nunca estamos em paz e as pessoas não querem viver assim”, desabafa o pai de Dyare.

    A seguir ao jantar, Omar, o irmão mais velho de Dyare, canta canções tradicionais, chamam-se Hairan. Grande parte dos cantores curdos usam poemas eróticos quando descrevem o corpo feminino e todo o processo de fazer amor, alguns artistas juntam também a religião, e isso torna esta expressão artística ainda mais poderosa. Cantam pela noite fora, pai e filho mais velho, que mais tarde nos diz que está apaixonado e costuma cantar para as estrelas, no terraço de casa, à medida que escreve poemas para a amada.

    São 7 horas da manhã, a noite passa depressa, sem sobressaltos e mãe e filha já preparam o pequeno-almoço. Na ombreira da porta, a montanha aparece imponente mesmo aos nossos pés, como é bom acordar e ver todos os dias esta paisagem. A vida no campo começa cedo é por isso que partimos em direção ao encontro das jovens combatentes do PKK, que abandonaram toda a sua vida comum para viverem ali nas montanhas sob os ideais de Abdullah Oçalan, um político guerrilheiro e revolucionário curdo, fundador do PKK, visto como o inimigo número um da Turquia, e preso único de uma ilha-prisão sob o olhar de centenas de guardas.

    Enquanto subimos de carro pela encosta escarpada, Zagros Hewram conta-nos que o PKK não tem nada a ver com os outros partidos do Curdistão, tem uma filosofia que assenta no comunitarismo, ou seja pequenos grupos na sociedade que se juntam e transformam a sua aldeia vila ou cidade. Depois de esperarmos cerca de uma hora na montanha e de termos entregue o nosso carro, cinco jovens mulheres curdas descem até nós, armadas, com um sorriso contagiante, falam curmânji e são da região de Batman, na Turquia.

    Correm até à fonte, vão buscar água e preparamos uma pequena ceia com queijo da serra e pão. Tudo o que comemos é a montanha que nos dá” explicam-nos as jovens guerreiras. A mais nova tem 17 anos e a mais velha 25. Não sinto falta de nada aqui. A minha família era muito pobre, a nossa vida era muito difícil, desde que aqui estou estudo, trabalho e ganhei uma família diz-nos a jovem líder do grupo que já combateu o Daesh. Se teve medo? Não, eles é que têm medo de nós”. Quando perguntamos se podemos ver onde dormem, elas dizem-nos que a vida na montanha é nómada, não têm um lugar certo. Todos os dias treinam, estudam e preparam-se para novas missões. É totalmente proibido o casamento ou relações sexuais entre os elementos, mas qualquer um pode abandonar a guerrilha se não concorda com estes termos. Num Médio Oriente em luta pela afirmação da mulher, a liberdade conquistada por estas jovens guerrilheiras é ouro.

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    Fuga para Duhok

    Cerca de 130.000 Yazidis chegaram à região de Duhok em Agosto de 2014, vieram através das montanhas quando o Monte de Sinjar, a nordeste de Mossul, junto à fronteira síria, foi invadido pelas milícias do Daesh. Muitos não conseguiram sobreviver às difíceis condições climatéricas: temperaturas que rondavam os 50ºc, sem água, comida ou medicamentos. Um genocídio foi evitado quando as forças Peshmerga curdas e os guerrilheiros do PKK, com o apoio aéreo dos EUA, abriram um corredor humanitário através das montanhas, evitando desta forma um massacre anunciado. Em Sinjar, segundo dados recentes das Nações Unidas, o Daesh mantém cativas cerca de 3000 mulheres e crianças Yazidis, transformadas em escravas sexuais e condenadas a uma vida de trabalho forçado.

    Em Sharia, distrito de Duhok, um vasto campo para desalojados, construído pelas autoridades turcas, alberga cerca de 9000 famílias Yazidis provenientes do Monte de Sinjar. Cerca de 800.000 Yazidis curdos encontram-se espalhados pelo Norte do Iraque, principalmente na zona de Sinjar, Mossul, e, mais recentemente, depois dos ataques do Daesh, também em Duhok, Erbil e Sulaymaniya.

    O campo de Sharia localiza-se num planalto nos arrabaldes da cidade, visto ao longe é uma massa compacta de tendas brancas que brilham sob o sol impiedoso. O primeiro passo é esperar à entrada enquanto mostramos os nossos documentos às autoridades, à espera de autorização para entrarmos. Somos desde logo acompanhados por dois trabalhadores humanitários que vivem no campo e falam inglês na perfeição.

    Junto a um dos portões, um grupo de crianças com baldes e garrafões encontra-se à volta de uma das torneiras do campo, enquanto as mães e as avós lavam a roupa. O campo é barulhento, ouve-se o riso das crianças, as vozes das mulheres que conversam, o barulho das máquinas escavadoras em obras, os homens que vendem nas bancas. Num muro do campo, o número 74 aparece escrito em letras encarnadas, é a 74ª vez que a minoria curda Yazidi é perseguida. As perseguições ao povo Yazidi tiveram início ainda no século XIX, durante o império otomano, e estenderam-se durante o regime de Saddam Hussein. Actualmente são um alvo fácil dos ataques de um inimigo sem rosto nem identidade, que os considera adoradores do Diabo. No entanto apesar de todas estas perseguições e massacres, a sua fé mantém-se inabalável.

    Khalaf Mahmood, residente no campo de deslocados internos de Sharia, 65 anos, conseguiu chegar a Duhok, mas a sua mulher e filhas ficaram nas mãos dos jihadistas. Não quero nada, nem ir para lugar nenhum, só quero a minha família de volta. Choro todos os dias e não consigo comer. Onze membros da minha família estão desaparecidos, não sei nada deles, mas sei que com 10.000 dólares americanos conseguia salvá-los a todos”.

    Através do recurso a contrabandistas é possível resgatar vários familiares ao Daesh, no entanto é uma tarefa difícil, perigosa e muito dispendiosa para as famílias. A SAIFO, uma ONG curda, é responsável pelo resgate e salvamento de vários Yazidis, das áreas ocupadas pelos jihadistas.

    É muito arriscado, primeiro temos de chegar aos contrabandistas, depois eles têm de chegar aos jihadistas e todo este processo é muito dispendioso para as famílias. Nós conseguimos juntar dinheiro através de donativos feitos pela sociedade civil, mas não temos quaisquer apoios das Autoridades para fazermos isto conta Diler Sinjary, director-executivo da SAIFO.

    O autoproclamado Estado Islâmico tem outros recursos financeiros para além da venda de petróleo, que atinge cerca de 500 milhões de dólares por ano, sendo o comércio de escravas sexuais um dos mais importantes e rentáveis. Não estará esta ONG, indirectamente, a ser uma fonte de rendimento do Daesh? O dinheiro nunca vai directamente para eles, pagamos a intermediários, temos de fazer qualquer coisa, não podemos abandonar os nossos argumenta Diler Sinjary.

    Maha Abduhalla (nome fictício) é uma jovem adolescente como tantas outras, que está agarrada ao telemóvel. Contudo, a vida de Maha Abduhalla sofreu um duro revés quando há um ano foi feita refém pelos jihadistas.

    Fui violada e vendida por três vezes. Um dos homens que me violou era sobrinho de um dos meus vizinhos, tentei falar com ele, «por favor, não faças isso, tens a idade do meu irmão», mas ele não fez caso. Uma das vezes em que fui capturada, telefonei ao meu pai, e o violador descobriu e espancou-me. O meu pai ligou-lhe então, a dizer que já tinha o dinheiro para me comprar de volta, 150.000 dólares, e no final da chamada ele olhou para mim e começou a rir, a dizer que quando o meu pai chegasse ia matá-lo e ficar com o dinheiro. Depois começou a rir-se de novo. Liguei ao meu pai e implorei-lhe que não viesse… Não há nada que me faça feliz neste momento. Não tenho namorado e nem quero, nem gostaria de ter filhos. Por causa da minha história, fui a Londres, aos estúdios da BBC, em Novembro. Vou agora para a Alemanha, onde vou receber apoio psicológico durante dois anos, e espero nunca mais voltar ao Iraque. Gostaria de estudar outra vez e ser engenheira” conta Maha.

    Quando lhe perguntámos como tinha sido a reação da sua família quando a voltou a ver, ela contou-nos que o pai passou vários dias a chorar agarrado a si. As mentalidades estão a mudar e, se antes do aparecimento do Daesh, havia códigos de honra bastante severos em relação às mulheres Yazidi, agora, os pais só querem ter as suas filhas de volta.

    Sheilman Shibo, 42 anos, líder de uma equipa numa organização humanitária em Duhok, afirma: “Tenho orgulho em ser Yazidi, mas sou uma pessoa em primeiro lugar. A minha fé está no meu coração. O que o Daesh faz connosco é um massacre, mas fazem o mesmo em Tal Afar e contra os curdos em Mossul, eles matam toda a gente,” argumenta.

    O Êxodo

    Mais de quatro milhões de pessoas já chegaram à Europa desde o início da guerra na Síria, em 2011, entre eles sírios, mas também iraquianos e afegãos procuram salvar as suas vidas. No entanto, as fronteiras continuam fechadas, por isso torna-se necessário empreender odisseias demasiado perigosas, que passam quase sempre pelo Mediterrâneo, em barcos sobrelotados.

    curdistao mapaDiria que mais de 95% das pessoas aqui no campo querem ir para a Europa. O meu filho tentou ir para a Alemanha através da Turquia, mas não conseguiu avançar mais. Acabou por voltar para o campo, sem os 10.000 dólares que levou para pagar aos contrabandistas. Agora, passa os dias agarrado ao telemóvel no facebook. O que é que eles hão-de fazer aqui? Não há nada para os jovens fazerem”, recorda Sheilman Shibo.

    Mais de metade da população deslocada na Região do Curdistão tem idade inferior a 18 anos, estas crianças e jovens vêem-se obrigados a trabalhar para ajudar no magro orçamento familiar, deixando a escola por falta de condições e dinheiro. As escolas, no campo de refugiados, não estão preparadas para o Inverno, os edifícios estão mal construídos, a chuva infiltra-se pelas paredes, não há mesas, cadeiras, livros, nem professores em número suficiente. Um grande número de crianças na região do Curdistão Iraquiano não vai à escola por falta de documentos e condições.

    Hussein, 42 anos, é professor no campo de deslocados internos Cover Two também situado em Duhok. Encontramo-lo à saída da escola, não era dia de aulas, só de entrega de presentes por parte das autoridades curdas. As crianças, sentadas no chão, ouviam os discursos de políticos e responsáveis de organizações não-governamentais. Cá fora, algumas centenas de crianças esperavam espreitando pelas grades, mas não puderam entrar.

    Isto não serve para nada, nada desabafa, Hussein. As autoridades (do Governo Regional do Curdistão) vêm cá muitas vezes mas não resolvem os verdadeiros problemas. Estas crianças são extremamente pobres; não têm sapatos para virem à escola, roupa, mochilas, não têm nada, porque os pais não têm dinheiro para gastar com elas. Há quatro escolas no campo e as turmas chegam a ser de 50 alunos, logo não há cadeiras nem mesas para todos e as salas são muito barulhentas. Às vezes, as crianças vêm à escola, mas acabam por não voltar. Para as encontrarmos basta darmos uma volta no mercado de Duhok. Estão lá, a trabalhar”.

    Uma menina agarra-se às pernas do professor, ainda não o largou. Hussein conta-nos que nenhuma daquelas crianças tem qualquer tipo de apoio psicológico e a maior parte delas estiveram nas montanhas, algumas viram os pais morrerem. “Muitas destas crianças precisam de apoio psicológico urgente. Elas estiveram nas montanhas sem comida ou água, algumas perderam a família. Antes dos ataques do Daesh tínhamos tudo: escolas, casas, carros, paz. Agora, não há qualquer lugar seguro em Sinjar. Costumávamos dizer que para o ano as coisas seriam melhores, mas agora já não há esperança aqui. Estamos a viver numa prisão”. Hussein acrescenta ainda: “Todos os professores que conheço estão a tentar chegar à Europa, a países seguros. Perdi dois filhos no Mediterrâneo, o terceiro sobreviveu e regressou, mas está a tentar ir de novo. Há famílias com 20 pessoas que compram um bilhete para um membro da família tentar a sua sorte. Eu tinha uma casa, um salário, e os meus dois filhos, agora não tenho nada”.

    ————————–

    A viagem aqui documentada teve o apoio da Tolerancy International (www.tolerancy.org), uma ONG curda. Fizeram parte da equipa Ana Gonçalves, Karwan Kurdi, Fabíola Prado (fotojornalista) e Luís Brás (realizador).

    Nota

    (1) O documentário e outros registos estão disponíveis em www.besideheroes.com.

  • Estivadores de Sines: entre o medo e a luta

    Estivadores de Sines: entre o medo e a luta

    Ilustrações de José Smith Vargas

    A “Guerra dos Portos” é uma “Guerra Social”. De um lado, estivadores na defesa da sua condição qualificada contra a condição precária que se pretende ser, mais do que apenas a norma legal, a coisa mais normal deste mundo para um trabalhador. De um outro lado, patrões portuários impondo a precarização através da liberalização do trabalho portuário: salários mínimos e grandes lucros. A luta dos estivadores é, portanto, uma luta social. Por isso, os media diabolizam o estivador e desinformam o quanto baste, de forma a que, em seguida, os patrões anunciem o despedimento coletivo sem qualquer base legal, contando com a costumeira ajuda da polícia e o discurso economicista cada vez mais amedrontado dos governos – seja antes da direita, seja agora da esquerda. Nisto tudo gagueja o sindicalismo engajado no jogo parlamentar, mas será cada vez mais ruidosa a solidariedade a esse outro sindicalismo que já ninguém esquece vindo dos 300 estivadores do Porto de Lisboa. E que se ouvirá no dia 16 de Junho nas ruas de Lisboa.O que se quer impor no Porto de Lisboa é o modelo da subalternidade e dos salários mínimos que já existe no Porto de Sines. No último número do MAPA – edição em papel – fazemos um retrato desse modelo portuário da precariedade a que se resume no fim de contas as razões da guerra dos portos, desta e de outras guerras sociais.

    Entrevista a Filipe Gonçalves (SETC/Sines). 20 estivadores estão a remar contra a maré em Sines entre centenas de estivadores imersos num sindicato amarelo (Terminal 21) e longe da força dos estivas do SETC de Lisboa.estiva_sines_terminal_XXI

    Em Portugal falar dos estivadores é sinónimo de combatividade. Mas se no Porto de Lisboa os estivadores já deram contas de quanto vale a solidariedade nas ruas, o que se passa em Sines? Falámos com Filipe Gonçalves, o delegado sindical dos 22 associados que, desde 2014, recusam o silêncio entre os 700 estivadores que trabalham naquele que é o modelo portuário de excelência, feito à custa de salários mínimos e da desqualificação profissional da estiva.

    Falar de sindicalismo hoje em dia resulta em falar de impotência. A lamúria está ao nível do descrédito que atinge a classe política e não poderia ser de outro modo. São cara e coroa da mesma moeda que edificou o sindicalismo de Abril num corpo de profissionais reformistas que se eterniza a si mesmo longe do mundo do trabalho. Os estivadores do Sindicato dos Estivadores, Trabalhadores do Tráfego e Conferentes Marítimos do Centro e Sul de Portugal (SETC) deixaram cair um (e mais do que um) petardo nesse sindicalismo. Desde o auge dos protestos em 2012 o sindicalismo dos estivadores é sinónimo de combatividade, solidariedade e internacionalismo. Não gritam “Um por Todos e Todos por Um” da boca para fora. O grito vem de dentro e esse orgulho de família incomoda as cliques partidárias – e a CGTP – perante uma verdadeira claque de trabalhadores. E claque, aqui, não desmerece o sentido de classe.

    O que está em causa desde o início permanece e é a razão das greves convocadas este ano. Como antes, está em jogo “uma ofensiva que tem como objectivo assegurar o poder patronal nos portos, de forma a generalizar a precariedade e a promover a desqualificação numa profissão submetida a condições de trabalho particularmente duras e perigosas” (1). A precarização tem a sua bandeira no modelo portuário de Sines. Aí o ruído dos estivadores não se ouve e a PSA, a multinacional Autoridade Portuária de Singapura, impôs a sua “paz social” com o controle do Sindicato XXI.

    Em 2014, Filipe Gonçalves, siniense de 38 anos e filho de estivador, disse basta. Deu um passo em frente, farto de “estar constantemente a ouvir mentiras de um sindicato que é do patrão e que defende meia dúzia”. Nunca mais teve uma vida fácil. Isso não o desmotiva, porém, de lutar nesse outro sindicalismo que foi encontrar no SETC. Não sem antes “ver se era viável ou não, quais as ideias deles, como funcionavam, se tinham algumas ligações à CGTP, UGT… tive esse cuidado pessoalmente. Acabei por perceber que eram um Sindicato apartidário, sem filiação a nenhuma dessas organizações; um sindicato que está ligado ao IDC [International Dockworkers Council], uma organização internacional muito bem estruturada por estivadores que fazem a luta do coração, pois para nós não há fronteiras, não há barreiras, não há muros, nem arames farpados e lutamos todos pela mesma causa.”

    Esse não é o espírito que prevalece em Sines, onde o SETC reúne neste momento apenas 22 associados num universo de 700 trabalhadores, dos quais cerca de 300 estão associados ao Sindicato XXI. É preciso entender como se chegou a esta situação.

    Filipe_GonçalvesA estiva em Sines

    A história que Filipe Gonçalves nos conta é relatada com indignação. Esta é também a história de Sines, cuja vocação piscatória foi relegada para último plano quando assumida, desde o Estado Novo ao Gabinete da Área de Sines dos anos 70, como a grande aposta da industrialização portuguesa, trazendo nos anos 80 e 90 “um grande desenvolvimento a Sines”. Algo que não se sente hoje à sua volta. Aqui, a grande aposta foi e continua a ser o sector portuário. “Em 2003, a PSA arranca com estivadores que já estavam no Porto de Sines, mas que eram estivadores que faziam carga geral no terminal do carvão. Nesse arranque e com essas pessoas conseguiu-se que os primeiros estivadores que vieram para o Terminal XXI tivessem um salário justo. A partir do momento em que há um conflito, os estivadores do terminal do carvão da Eporsines [empresa de trabalho portuário] separam-se da PSA, a PSA consegue contratar alguns desses estivadores para o grupo deles e, a partir daí, começam as negociações para liberalizar o trabalho portuário. Aliás, quando a PSA mostra interesse em se instalar em Sines com o governo da altura, tenta logo mudar as leis do trabalho de forma a ter mão de obra mais barata; não o conseguiu de uma forma, conseguiu-o de outra: o seu plano B que era criar um sindicato amarelo.” Aceitaram “que se criasse uma empresa fictícia que é a Laborsines, detida pela PSA. Os sócios gerentes da Laborsines, que é a empresa que me paga, são sempre administradores da PSA”. “Meia dúzia deles venderam o nosso futuro e deixaram-nos nesta situação. Foi essa luta em 2003 e 2004 que afastou o sindicato de Lisboa deste sindicato que se formou aqui, pois o sindicato de Lisboa sempre achou um absurdo passar de salários minimamente aceitáveis para salários mínimos nacionais. E este Sindicato diz, a dada altura, que é melhor um ordenado mínimo que um ordenado de 1000, 1200€.”

    Mencionámos a Filipe Gonçalves o obituário do advogado – e dirigente benfiquista – José António Martinez, falecido dias antes, e veiculado pela MSC (o armador suíço que opera em Sines elogiando o Terminal XXI pela “sua rápida operacionalidade, alheia a quaisquer constrangimentos”). O elogio fúnebre era o de ter sido a pessoa que “concebeu e negociou o acordo de estiva vigente no Terminal, dotando-o do mais avançado e eficiente contrato de trabalho deste sector no País. (…) modelo contratual [com] que a atual lei do trabalho portuário foi feita.” Tendo sido “determinante na relação com os trabalhadores deste setor do Terminal XXI, dirimindo questões e encontrando sempre soluções adequadas que garantiram a paz social vivida naquele Terminal”(2). A reacção é imediata: “É tudo mentira! Esse homem liberalizou o trabalho portuário, esse homem ameaçou estivadores e fez da estiva em Sines o que ela é hoje: as pessoas vivem no limiar da pobreza. Quando foi criada a Laborsines – empresa fictícia – dois dias antes de começar a trabalhar, esse homem dirigiu-se a nós pessoalmente, os primeiros trabalhadores, e disse-nos: ‘Quem tiver unhas vai tocar guitarra. Vocês neste momento estão com ordenado, incluindo o subsídio de turno, de 740€, mas daqui a 8 meses, quem mostrar que consegue ser estivador passará para um salário base de 950€.’ Atingi esse salário quase 9 anos depois! Esse homem mentia e juntamente com o Sindicato XXI e a empresa, liberalizou totalmente o trabalho portuário. Eu tenho um contrato sem termo de uma empresa de trabalho portuário para cedência de pessoal, coisa que era impossível ter acontecido se essa gente não tivesse criado esta situação.” A liberalização do trabalho portuário reside na “substituição dos actuais trabalhadores portuários por outros trabalhadores a contratar, não só em condições precárias, como também em condições remuneratórias substancialmente inferiores” com o “intuito de aniquilar os actuais profissionais da classe” como consta do pré-aviso de greve de Abril deste ano do SETC.

    PortosPortugalO modelo portuário que querem vender

    E é “precisamente este o modelo que eles querem implementar em Lisboa. É contra este modelo que neste momento os estivadores em Lisboa, Setúbal e na Figueira da Foz lutam”; um modelo defendido por “todos os governos que têm passado, o que para mim não faz sentido. Uma cidade que vive com salários mínimos e no limiar da pobreza, não é uma cidade que se vai desenvolver, muito pelo contrário, vai afundar-se socialmente cada vez mais. Como é que uma cidade se desenvolve quando os milhões e milhões de euros que aquela empresa gera desaparecem de lá, não sei se para o Panamá ou para onde… Eu sei é que a população de Sines em nada beneficia com aquilo. Há emprego, mas com salários de 530€; 10% dos trabalhadores têm bons salários, os restantes ganham o ordenado mínimo.”

    A diferença salarial da estiva de Sines a par da desqualificação profissional é a principal luta do Sindicato dos Estivadores. Perguntamos, pois, que sentido faz hoje o título do jornal Público em 2012, no auge das lutas: “Porque são os estivadores de Lisboa ricos e fortes e os de Sines pobres e fracos” (3)? “Faz todo o sentido. Pegando nas declarações do responsável do Sindicato XXI na altura (o mesmo ainda hoje) vemos que ele assume que o sindicato foi criado para defender os interesses do patrão e da empresa. Assim continua hoje tirando um pequeno sector, os operadores de grua, que com esta última direcção, em três meses, definiram o seu futuro. São eles 6 ou 7% dos trabalhadores, ficando todos os outros à parte e não havendo qualquer negociação. Tens um vencimento que é o ordenado mínimo, que são 530€, incluindo sábados, domingos e feriados. Porque é que os estivadores de Lisboa são ricos e os de Sines pobres? Porque estivadores que tinham as mesmas condições dos estivadores de Lisboa e que estavam em Sines entregaram a estiva para preços do salário mínimo nacional.”

    Para Filipe Gonçalves “as prioridades aqui são um salário igual a todos os estivadores nacionais. E toda a gente se queixa disso e está contra os salários aqui praticados, mas só no facebook. Ninguém tem coragem para lutar directamente e no terreno”. O que pesa nas suas palavras é, no fundo, a diferença entre Sines e os estivadores em Lisboa, cerca de “300 que funcionam em família”. “Esse espírito de família foi quebrado aqui em Sines. Desde logo porque criaram categorias profissionais dentro da empresa, dividindo para reinar. A dada altura, quem era de Sines não era contratado. Iam buscar pessoal às aldeias mais próximas – e não é que as pessoas das aldeias sejam menos do que nós, atenção. O problema é que essas pessoas dos montes, dos sítios isolados, que trabalham e não falam, que estão habituadas a andar atrás dos animais, que não estudaram muito, não reivindicam, não sabem o que é a cidadania, o que são direitos e o que são deveres. Assim se foi recrutando pessoal, bem como através dos que já lá estavam e indicavam que esta ou aquela era boa pessoa para lá… Tudo isto foram factores que bloquearam. Esta coisa do sindicato, juntamente com a empresa, dividir as pessoas por sectores fez com que houvesse uma divisão. Criaram-se nichos dentro da própria empresa de trabalhadores de elite e trabalhadores reles e isso foi a estratégia mais eficaz que eu vi ali. É o mesmo que o capitalismo. Ainda que não concorde com ele, está melhor do que nunca: o rico cada vez mais rico, o pobre cada vez mais pobre.”

    img_4Dividir para reinar. Isolar para reprimir.

    Da entrada do SETC em Sines, recorda Filipe Gonçalves, que logo “aquando da primeira reunião houve chefes de turno a ameaçar diretamente o pessoal que mudasse. Mudámos em Julho [2014], e em Setembro os que mudámos de sindicato fomos todos submetidos a testes de urina presenciais, coisa que é ilegal. Chamados todos em frente a médicos, enfermeiros: toma lá um frasco e agora mija para aí. As ameaças, e depois os testes, levaram a que de um universo de mais ou menos 100 homens que queriam dar um passo em frente, no final ficassem só 15 e agora, passados dois anos, somos 22. Temos vindo a conseguir muito lentamente mais alguns associados e também perdemos alguns devido às ameaças e à pressão”.

    Razão para em Janeiro deste ano terem-se reunido em Sines os estivadores do SETC e da IDC vindos de toda a Europa numa conferência sobre o trabalho portuário. Semanas depois apresentaram uma queixa à PSA referindo não apenas a intimidação à liberdade de associação, assédio e ameaças de chefias superiores, como a segurança deficiente e os acidentes (a queda e morte em 2013 de um estivador, sem ter sido ainda concluída a causa do acidente, tal como outro acidente em Outubro de 2015) (4). Quanto a Filipe Gonçalves, este foi em 2015 retirado de funções: “estou a trabalhar numa portaria, mas tenho capacidades para fazer mais e isto foi feito de forma a estagnar o meu salário. Eu ali não tenho evolução salarial e sou o exemplo para os outros”.

    O que faz a diferença?

    Para este delegado sindical “há uma diferença abismal. Nós defendemos os estivadores como um todo, se vais para a estiva tens a tua carreira, mas ao contrário de outros sindicatos que defendem as pessoas sector por sector – dividir para reinar – defendemos o sector portuário como um todo. E depois defendemos outras coisas, nós defendemos as outras profissões e uma vida melhor para o nosso país e então acabamos por sair um pouco para além da estiva. Ontem os nossos colegas do IDC fizeram uma doação de 20 000€ para o combate ao cancro infantil em Espanha. Há toda a componente solidária, toda a preocupação com o bem-estar, com o futuro do ser humano. O ser humano tem o direito a ter uma vida digna e já que trabalha tem direito a um salário, tem de ter direito a estar com a família. E é toda esta filosofia e o facto de não estarmos ligados a nenhum partido político que nos dá mais liberdade para criticar… mais liberdade para sermos quem nós queremos ser ao fim e ao cabo.”

    Para a historiadora Raquel Varela, na comunicação apresentada na conferência de Janeiro de Sines: “os estivadores não são excepcionais. Excepcional e suicidário foi o padrão de sindicalismo que se viveu em Portugal nas últimas décadas e que sistematicamente negociou a conservação de direitos para os que estavam e aceitou a precarização dos que vinham.” Os estivadores apenas defendem o mais elementar e básico, pois “um sindicato ou é para ganhar direitos para quem trabalha ou não serve para nada. Este é um exemplo, aliás, de reformismo sindical. Os estivadores não colocaram directamente em causa o poder político, nem estão associados a uma estratégia revolucionária de derrube do Estado. Não questionaram o modo de acumulação capitalista, nem pediram a nacionalização dos portos. Fizeram o mínimo para si e para os seus, e esse mínimo, hoje, paradoxalmente, surge como revolucionário, tão baixo é o padrão de onde partimos ao fim de quatro décadas de pacto social, moldados pela incapacidade de lutas sociais que ganhem direitos laborais mínimos de civilização.” A independência do Sindicato dos Estivadores para Raquel Varela, ligada a este de perto, “manteve-o longe da estratégia de subordinar as lutas ao fortalecimento dos partidos da oposição, à ideia de uma saída eleitoral para as questões laborais. Ao fim de 40 anos de democracia representativa, é por demais óbvio que os direitos laborais nunca foram aí conquistados, mas aí, sim, perdidos. O tema é tabu, mas não podemos deixar de abordá-lo: o sindicalismo em Portugal não é sequer um sindicalismo reformista clássico, muito virado para lutas corporativas e de sector, ele é, maioritariamente, uma correia de transmissão da estratégia eleitoral dos partidos políticos e essa estratégia eleitoral, que oferece a quimera de que é nas eleições de quatro em quatro anos e não nos locais de trabalho que se muda a vida, tem sido uma estratégia suicidária.”(5)

    PORTO-DE-SINES_terminal_XXI

    Solidariedade sem fronteiras

    O dia seguinte à conferência foi para Filipe Gonçalves um dia normal. No fim de contas “a PSA também tem consciência que a nível mundial somos muitos, tem consciência que ainda que eu seja um pobre rato no meio disto tudo tenho muito apoio. Tenho consciência por isso que se algum dia eu me dessindicalizasse no outro dia a seguir estava na rua. A minha garantia é o sindicato, tanto o nacional como o internacional”. Esse sentido de solidariedade é a marca dos estivadores. Recorda por isso a luta de 2012 e como esse internacionalismo foi fulcral: “Sines é amarelo, aceita os navios desviados, Leixões é amarelo e aceita os navios desviados. Só que o navio que foi carregado pelos fura-greves e sem categoria profissional, chega a Algeciras e os nossos do IDC dizem: ‘este navio pode atracar aqui, mas nós não vamos trabalhar nele’. O navio vai para França. Em França disseram logo: ‘nós não descarregamos esse navio’; e vai para a Dinamarca e novamente: ‘nós não descarregamos esse navio’… Foi assim que os nossos companheiros europeus disseram: esse navio carregado pelos fura-greves aqui não descarrega. E foi aí que começaram as negociações com o sindicato. É essa a força que nós temos.”

    Mas nessa marca de solidariedade sem fronteiras, a manifestação de nacionalismo expresso pelos estivadores quando é visto como de direita surge como um incómodo, aliás, manifestado pelo coordenador europeu do IDC, Anthony Tétard, perante uma fugaz intervenção nesse sentido de um estivador de Lisboa na conferência de Janeiro em Sines. O discurso de nacionalismo – seja ele de direita, seja ele patriota de esquerda – resulta claramente numa contradição que se adivinhe não ser consensual no sindicato. “Não é de todo consensual”, diz-nos Filipe Gonçalves, “eu sou um cidadão europeu, um cidadão do mundo. Preocupo-me com a estiva na minha terra, em Lisboa, em Espanha ou na Argentina. Quando um estivador está mal eu estou mal também, e é com esse espírito e essa filosofia que luto e é o que defendo. A pergunta é pertinente, muita gente já a fez e muita gente afirma que existe nacionalismo dentro do nosso sindicato. Obviamente que, como cada um é livre de ser aquilo que quer, eventualmente poderá haver. Acusam-nos de ser os No Name Boys, a Juve Leo, isto e aquilo, mas muito sinceramente não me revejo nisso, nem tenho facilidade em responder acerca disso porque nunca o senti.”

    Não faltam ao pequeno grupo de associados de Sines provas de solidariedade. “No mês passado [Março] recebemos um comunicado de toda a costa Este dos Estados Unidos a dizer que estão dispostos a parar os portos deles, dispostos a não carregar nem a mandar nada para Sines por solidariedade para connosco. Temos todos os portos europeus com essa vontade também, mas claro que eu digo que não. E não porquê? É preciso massa crítica, é preciso pessoas, é preciso termos associados suficientes. Não nos serve de nada os outros portos pararem ou tomarem uma ação de luta para nos ajudarem quando os de Sines não têm coragem para se associar e não têm coragem para lutar.”

    Coragem e Capitalismo

    Para Filipe Gonçalves a situação na estiva de Sines não é desligada das condições sociais mais amplas. “O que falta aqui é coragem das pessoas. É o zé povinho português de uma vez por todas dizer basta. Está-se sempre a dizer ‘cuidadinho, cuidadinho… se tu mudas de sindicato estás lixado, se tu mudas estás lixado’. Estão sempre lá as vozes de consciência que são muitas, desde o pessoal do sindicato amarelo a chefias e diretores, e isso retrai as pessoas, bem como a tal mentalidade: ‘ganhas 600€, vives na casa do pai e vais comprar um carro e ficas com uma prestação de 500€ e 10 anos a pagar 500€ de um carro topo de gama’. Durante esses 10 anos vão estar calados de certeza. Assim se mantém o povo sereno… endivida-te meu filho, que é para estares caladinho e trabalhares a preço baixo.”

    Haverá então lugar no sindicalismo para a crítica ao capitalismo? “Poderá existir. Eu não critico o capitalismo por si, eu critico é a exploração e escravatura das pessoas. O capitalismo existe e temos de viver com ele, agora não temos de ser escravos do capitalismo e podemos e devemos combater isso mesmo”. No mesmo sentido responde quando perguntamos que atenção merece o enquadramento geoestratégico de Sines enquanto estrutura portuária com maior crescimento na actualidade; para lá do Plano Estratégico de Transportes e Infraestruturas nacional, enquanto peça essencial da estratégia mundial do tráfego marítimo e das suas grandes corporações, reflectida em acordos como o TTIP (Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento). A preocupação é “muita, ainda que as pessoas não tenham conhecimento do que é o TTIP, o que é absurdo com as coisas que se estão para aí a criar. Porque ao fim e ao cabo, as grandes corporações, as grandes empresas a nível mundial vão estar no topo da cadeia alimentar e essa cadeia alimentar desaparece porque as pequenas por si só desaparecem. Todos os direitos conquistados a nível de trabalho, a nível social, todos esses direitos irão ser-nos retirados por acordos a que nós nem sequer temos acesso, feitos na coisa mais escura e sombria”. Por isso “o sector portuário pode desempenhar um papel fulcral e essencial. Acho que deve ser feita alguma coisa. Tenho feito essa questão a mim próprio, mas também posso e tenho de colocar essa questão em sede própria, em sede internacional em Miami onde vamos ter a nossa assembleia geral da IDC.” Tratando-se de uma questão que lida com toda a forma de organização do trabalho portuário e o facto de este ser nevrálgico na circulação e infraestruturas do mundo económico, a actuação dos estivadores poderá desempenhar um importante papel, pela sua forma e dinâmica solidária, em “levar a outros a essa engrenagem”.

    Notas:

    (1) Ricardo Noronha (2012) “A internacional dos estivadores”: http://goo.gl/zQ7357
    (2) http://goo.gl/0S4hIl
    (3) http://goo.gl/K30Fna
    (4) https://goo.gl/FZ6Uvg
    (5) Comunicações da Conferência “O Mundo do Trabalho Portuário” realizada em 14 de Janeiro de 2016, no blog do SETC https://oestivador.wordpress.com/

  • O Mundo Possível

    O Mundo Possível

    (Editorial da edição #13 em papel)

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    A chamada esquerda parlamentar viabilizou o orçamento de estado apresentado pelo PS. Com a viabilização do orçamento, viabilizou-se também a permanência do Partido Socialista no governo. Era essa, aliás, a consequência desejada. Uma novidade histórica. Um orçamento que, dois ou três anos antes, seria rejeitado por ser ainda demasiado na linha dos anteriores, conseguiu passar com os votos da franja anti-austeritária do parlamento. Explicaram-nos que isto era o que pediam os tempos excecionais que vivemos, em que a escolha se resume a um muito mau ou a um mal menor. Não era o orçamento ideal, longe disso. Era o orçamento possível. E, por consequência, o governo possível. Há pouco, o governo possível assinou, como membro da UE, um acordo com a Turquia de reenvio para território turco dos novos migrantes e refugiados que cheguem às ilhas gregas. Um acordo que não cumpre o direito internacional de asilo e que muitas personalidades e organizações ligadas aos direitos humanos consideram próximo duma sentença de morte para milhares de pessoas. Que teve até a oposição do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Poucos dias depois, a esse gesto de assinatura por procuração que quase pode parecer dum automatismo etéreo, o governo possível acrescentou o bem mais real envio de 34 peritos do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) para “apoiar as autoridades gregas na implementação do processo de readmissão para a Turquia”, de acordo com nota de 1 de Abril do Ministério da Administração Interna liderado por Constança Urbano de Sousa. O mesmo governo possível que, ainda a nível europeu, prepara medidas draconianas de controlo, vigilância e repressão e que as aplica já numa militarização inaudita das ruas das cidades, onde a presença de polícias de metralhadora em punho deixou de ser estranha. O governo possível que, há dias, exigiu serviços mínimos aos estivadores em greve, pactuando com o despedimento colectivo encapotado que o porto de Lisboa tenta levar a efeito. A chamada esquerda parlamentar aproveitou para demarcar o seu território. Insurgiu-se contra o acordo UE-Turquia, terá criticado o envio dos 34 peritos do SEF, vilipendiará o policiamento demasiado visível e agressivo das urbes, franzirá o sobrolho aos serviços mínimos que o governo decretou para quebrar a greve dos estivadores. Mas não pensa que essas são questões que podem transformar o governo em impossível. E mantém o apoio parlamentar. O fundamental, depreende-se, é evitar que uma direita vil imponha doses impiedosas de austeridade. Só isso parece interessar. Tudo o resto, mesmo que implique uma vida em estado de emergência permanente, mesmo que signifique a morte de milhares de seres humanos, parece submeter-se à gestão do monstro austeritário. Esta redução da política à economia é talvez a marca mais visível da derrota absoluta da opção eleitoral de projectos que se pretendam de transformação social. A imagem de António Costa, ladeado por Catarina Martins e Jerónimo de Sousa, a enviar agentes do SEF para ajudarem Tsipras a devolver refugiados para a morte certa de que tentavam escapar seria um belo retrato fúnebre. Mapear as experiências que hoje, com as suas ideias e as suas práticas, as suas construções e as suas resistências, nos propõem possibilidades futuras parece-nos bastante mais acertado do que perder tempo com o jogo parlamentar. Experiências que acreditem nas pessoas ao ponto de proporem a sua auto-organização. Que enviem a economia para o seu papel de ferramenta e que identifiquem a ideologia do crescimento económico infinito como um elemento de insustentabilidade e não de salvação do que quer que seja. Que coloquem a vida, nos seus sentidos biológicos e filosófico, como farol das acções. Um Mapa que mostre trilhos que nos permitam imaginar caminhos no actual deserto.

  • Nas ruas mais um número do Jornal Mapa.

    Nas ruas mais um número do Jornal Mapa.

    CapaMAPA13

    O número 13 de Jornal mapa está nas ruas.Com um especial Em Transição sobre iniciativas que crescem de norte a sul de Portugal nascidas de preocupações ambientais e propondo construir comunidades locais mais resilientes e solidárias. Um olhar a partir do Porto de Sines para a luta dos estivadores. Coordenadas sobre o aparelho repressivo  que se instala como norma na europa, com uma foto-reportagem sobre os acampamentos de imigrantes de Calais e reflexões sobre o que fervilha nas ruas de França. E noutras latitudes um olhar sobre o Brasil e uma viagem em primeira mão no Jornal MAPA ao berço do Daesh. Entre muito mais.

  • A pacificação do movimento e os travões à continuação

    A pacificação do movimento e os travões à continuação

    De Paris-Luttes.Info
    Tradução Mário Rui

    Distinguir o activismo pacifista da pacificação do movimento.

    Porquê pensar e afirmar que o “pacifismo” assumido do comício quotidiano da “Nuit Debout” na Place de la République é precisamente o que poderá prejudicá-lo, quando se é um militante pacifista?

    Porque uma grande parte das pessoas ditas “pacíficas” naquela praça não são “militantes pacifistas”. A maioria não tem nada a ver com o combate antimilitarista e não fazem nada contra as guerras, o imperialismo e o colonialismo. Aliás, dizem que é preciso combater o “DAESH”, como se o EI (Estado Islâmico) fosse um monstro extraterrestre que não tivesse origem nos negócios industriais dos fabricantes de armas que lucram com as guerras ocidentais, das quais é preciso lembrar que a França é um dos maiores fornecedores. O inimigo externo é assim também o inimigo aqui criado. Um militante pacifista pela Paz é legítimo nas suas acções quando estas visam destruir os bens materiais que são o símbolo das violências da guerra, as mais mortíferas do capitalismo. Destruir uma espingarda, antiga imagem ícone dos resistentes à guerra, é um acto pacifista. Destruir os multibancos, as montras das agências imobiliárias ou arrancar os painéis publicitários da JC Décaux, que aliás não se importa de divulgar as campanhas de recrutamento do exército ou da polícia, também são actos pacifistas, atitudes de autodefesa que vão no sentido da Paz social e mundial. Os ajuntamentos ditos “pacíficos” distinguem-se do pacifismo na medida em que são a pacificação e a via para o adormecimento de um movimento que tem pela frente uma realidade social das mais duras, em pleno estado de emergência, consequência directa dos bombardeamentos imperialistas do exército francês no estrangeiro.

    multibancoEnquanto estivermos todos sentados numa praça a discutir um filme sobre a violência patronal ou policial, a votar utopias imaginárias (que às vezes se contradizem) ou a dizer parvoíces dignas de imbecis (alguns mesmo situados à direita) do género “este movimento é apolítico”, então nada mudará e o movimento não conseguirá nunca ter os meios eficazes contra o que combate: a violência do mundo do trabalho e das empresas, e a violência do mundo inteiro que tomou aquela como modelo. Greves, bloqueios e sabotagens são igualmente elementos tangíveis que é necessário ter em conta para lutar. Um movimento social de confrontação com o Poder deve estar preparado para se bater contra a violência do Estado. É preciso estar preparado, apesar de pacifistas, para contrariar esta violência através da sabotagem económica generalizada. E para isto é preciso estar preparado para perturbar a ordem pública e fazer frente às forças da ordem e à empresa. Entretanto, e voltando aos propósitos das “noites em pé pacíficas”, esta pacificação parece mais uma procura de passividade, uma passagem a ferro das rugas, um nivelamento do cardiograma da luta, servindo mais para chamar a atenção da classe média pacificada, instalá-la num conforto que a desresponsabiliza, um pouco como num sofá em frente à televisão. Esta mesma classe irá certamente votar nas próximas eleições, fará sempre a distinção entre os desordeiros e os manifestantes, e evitará sempre o confronto com o poder e as suas violências estatais, aceitando as suas acções por mutismo ou pelo seu papel de espectador. Dizem-se pacíficos, mas acham necessários esses tipos que se passeiam de armas na mão e que se chamam polícias, gendarmes, soldados, etc. e que são os pilares da repressão e os escudos do capitalismo, do Estado e das suas instituições. “Todo a gente detesta a polícia”, certo, mas alguns mais do que outros.

    É urgente pensar a violência, sobretudo quando esta vem de um só lado e obriga à autodefesa. É preciso responder-lhe através de acções políticas directas, pacifistas ou não, e recusar a pacificação do movimento pelos ajuntamentos “pacíficos” onde todo a gente está de forma legal, respeitando as autorizações da Prefeitura da Polícia, alcançando apenas um vazio ideológico incapaz de decisões e ineficaz perante a violência policial.

    Eis a diferença entre pacifistas e pacíficos. Os primeiros estão prontos para se baterem contra a guerra e o estado de guerra, os segundos, não se sabe muito com o que contar. É uma bonita palavra, “pacífico” e a sua família de derivados, bastante bela para não se esconderem detrás e deixarem andar. Então não sejamos mais papistas que o papa (que abençoa os exércitos), nem mais pacificador que um pacifista. Mesmo Casimir (?) teria sido desordeiro!

  • A agricultura na grande encruzilhada

    A agricultura na grande encruzilhada

    Texto: Júlio Henriques
    Ilustrações: Tiago Baptista

    «A terra nutriente é hoje o elemento mais desprezado e ignorado pela grande maioria da comunidade científica, dos intelectuais, dos políticos, dos artistas, dos religiosos e do povo em geral. No entanto, a terra nutriente é o princípio essencial sem o qual nada mais pode existir.» ‒ Pierre Rabhi

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    Na sua análise da evolução da agricultura portuguesa entre as décadas de 1950 e 1990, publicada em 1996
    [1], o Prof. Fernando Oliveira Baptista descreve extensamente os processos que alteraram de forma fundamental os trabalhos e a produção agrícolas, a ocupação do território e a relação do homem rural com a terra do ponto de vista produtivo e social. Essas alterações consistiram na penetração mais acentuada do capitalismo nos campos, em particular através do seu cavalo de Tróia que são as tecnologias industriais, que não incluem apenas máquinas, mas também as chamadas «sementes melhoradas», os produtos químicos de síntese e sistemas laborais decorrentes da lógica fabril.

    Retrospectivamente, é interessante notar que ele o faz a partir do paradigma do produtivismo como orientação normal, e normalizadora, registando-o como um fenómeno inevitável e de índole virtuosa, embora problematize seriamente diversos aspectos dessa evolução geral.

    Segundo a sua análise, o êxodo das populações rurais desde os anos 60, acelerando «a transformação tecnológica da agricultura», generalizou o uso do tractor, do motocultivador, da ceifeira-debulhadora e até do avião, aplicado na monda e na adubação do arroz e do trigo nas zonas onde estes cultivos eram mais concentrados. Nessa enumeração de processos transformadores, em que refere a substituição dos aparelhos tradicionais de elevação de água pelo motor de rega, o incremento da utilização de adubos químicos, fungicidas e insecticidas de síntese, a incentivação do recurso às «sementes melhoradas» e aos alimentos concentrados para animais, este grande estudioso das questões agrárias sublinha a diminuição das horas de trabalho necessárias à produção agrícola.

    Ao mesmo tempo, a substituição de gado de trabalho pela motorização, levando a uma quebra na produção de estrume e à diminuição generalizada de fertilizantes orgânicos, ao contribuir para o incremento dos adubos químicos (introduzidos em Portugal nas duas últimas décadas do século XIX e cujo consumo aumentara quase quatro vezes entre 1950 e 1990), terá permitido «uma maior liberdade na relação do agricultor com a natureza». Ou seja, «a melhoria e manutenção da fertilidade da terra deixaram de depender apenas dos equilíbrios fabricados na sua exploração e passaram a poder ser doseadas e corrigidas com maior autonomia relativamente ao espaço onde se desenrola a actividade agrícola. Esse maior domínio do agricultor sobre o meio decorreu também da vulgarização dos fungicidas e pesticidas no combate às pragas e doenças que afectam plantas e animais».

    Além disso, o acréscimo na utilização das tais sementes melhoradas e sobretudo o grande aumento do recurso a alimentos concentrados para animais tiveram como consequência a constituição de um sector de unidades de pecuária sem terra (pocilgas e aviários) e um aumento substancial das importações agrícolas.

    Uma adesão imperiosa

    A adesão a estas transformações ter-se-á imposto aos agricultores como uma necessidade inelutável, para poderem continuar a exercer a sua actividade no contexto sociopolítico em que ela passou a decorrer a partir da década de 1960, cujo efeito colateral mais notório foi a emigração em massa. Aos agricultores que não conseguiram proceder a essa imperiosa reconversão técnica restaram apenas três soluções: abandonarem a agricultura; alterarem profundamente a produção, em geral fazendo culturas extensivas para minimizar os investimentos; ou resistirem sacrificando a remuneração do trabalho familiar, solução esta que só terá sido possível aos que estavam mais protegidos das dinâmicas dos mercados.

    Este último aspecto é de salientar, sendo reconhecido que as explorações de pequena dimensão resistem melhor às crises e mudanças, tendo em conta que a remuneração do trabalho dos membros do agregado familiar é frequentemente muito menor do que se fosse contabilizada aos preços do mercado laboral, e que o seu sustento, em grande parte, é obtido directamente da terra agricultada.

    Nesse balanço de 40 anos relativo às pessoas que trabalham na agricultura em Portugal, o Prof. Fernando Oliveira Baptista distinguiu algumas tendências muito claras. O número dessas pessoas, em finais dos anos 90, era metade do que fora nos anos 50. Aumentara o número de mulheres na agricultura, por força da guerra colonial e da emigração, e aumentara o envelhecimento geral desta população. Os trabalhadores familiares tinham passado a ser a maior parte da população agrícola e cultivavam mais de metade da superfície agrícola útil. E a maior parte das famílias ligadas a explorações agrícolas vivia também de rendimentos exteriores às unidades de produção.

    Entretanto, tinha-se acentuado o recurso das explorações agrícolas a equipamentos exteriores e a empresas de serviços (tais como de contabilidade ou de projectos), e tinham declinado a entreajuda e os trabalhos sazonais migratórios, mantendo-se todavia os das vindimas, da apanha da azeitona ou do figo.

    Naquilo a que se chama reconversão tecnológica integra-se a adopção das chamadas «sementes melhoradas». Vale a pena lembrar o caso do milho, hoje tão ameaçado pelos cultivos de transgénicos. Nos anos 60 e 70, num primeiro passo para substituições futuras como a dos OGM, a política estatal aconselhou e apoiou a substituição dos milhos regionais por milhos híbridos, em particular no Minho. Mas deparou com grandes resistências. Os híbridos eram mais exigentes na fertilidade dos solos e nos cuidados culturais, em especial no tocante à rega e à intensidade das adubações. O dispêndio em dinheiro com adubos e sementes era cinco vezes superior e o subsídio estatal cobria, no máximo, um terço desse aumento da despesa. Foi com certeza graças a essa resistência que em Portugal ainda continuam a ser cultivados milhos locais, a cuja identificação e preservação a associação Colher Para Semear tem dedicado os esforços possíveis.

    Cartilha da adesão

    A visão positiva da passagem da agricultura para formas mais integradas na economia canónica, ou seja, no capitalismo puro e duro, sem contemplações nem «estados de alma», passou desde então a ser uma cartilha, ministrada por um grande número de catequistas presentes em diversas instâncias e quase sempre pagos para isso. O lema principal desta catequese reside naquilo a que chamam realismo, assente nas «regras do mercado», na «produtividade», na «exportação», nas «economias de escala». Este discurso omnipresente, beatamente acolhido e aplaudido em quase toda a parte, é um elemento substancial da ideologia dominante ‒ ou não fosse ele o refrão geral do capitalismo como religião, cujo grande eixo central assenta nisto: acumular capital para acumular ainda mais capital.

    É também por isso que os grandes problemas decorrentes da situação da agricultura contemporânea precisam de ter respostas políticas. Não no sentido estreito e amiúde estéril de políticas partidárias, mas no sentido mais fundo, de filosofia política, relativo ao necessário enfrentamento das questões públicas e colectivas que as práticas agrícolas implicam. Com efeito, a agricultura não se resume ao nome oficial de «sector primário» que lhe foi atribuído pelos gurus da economia, tendendo a designá-la como algo de inferior, que rebaixa quem a pratica ao estatuto de atrasado – excepto, claro está, quando se trata de empresários donos e senhores de mão-de-obra ou, melhor ainda, de latifundiários como os que continuam a mandar em Portugal. A agricultura, considerada como civilização agrária que mantém os humanos próximos da sua fonte de vida, é antes de mais uma cultura, de cuja perda não se pode esperar nada de bom. Paralelamente à crítica da mercantilização da saúde humana, é importante encarar-se a agricultura como parte essencial da saúde da terra. Tal como a saúde do corpo humano não deveria ser objecto de mercantilização, a saúde do corpo da Terra (dos solos), intimamente associada à agricultura, deve ser vista a partir da lógica íntima desta actividade, que é múltipla, de dimensão ecológica, e não redutível, como no capitalismo, à mera produção de mercadorias.

    agricultura_mapa_2Visão contaminada

    A visão que em geral hoje se tem da agricultura está excessivamente contaminada pela centralidade que o imaginário do mundo urbano tem vindo a impor em todos os aspectos da existência. Isto provém da dimensão quantitativa do mundo urbano, resultante do facto de em 2008, pela primeira vez na história da humanidade, ter passado a haver mais habitantes nas cidades do que no campo. Mas resulta também, e talvez sobretudo, da dimensão qualitativa que a visão urbana ou citadina passou a ter, na sequência do deperecimento do mundo rural camponês nos países ocidentais. A cidade, lugar de concentração, antes de mais militar e policial, teve sempre um papel imperial, foi sempre o centro do poder. Mas entretanto, com o desenvolvimento das tecnologias formatadoras de comportamentos conformistas e «anémicos», a cidade adquiriu uma supremacia que pretende ser inquestionável, encarando a ruralidade como o lado obsoleto da evolução humana – ou, na melhor das hipóteses, como paisagem ou reserva para exploração turística. De resto, foi o olhar urbano, auto-referencial, que escreveu a História, que determinou o que é relevante e memorável, que definiu o que significa cultura. Segundo essa perspectiva, o campo é um ambiente residual, uma realidade muda, vestígio de um tempo ultrapassado.

    E isto apesar de a «digestão» urbana depender inteiramente do que acontece no campo. Tanto dos alimentos como de outras coisas que ali se produzem. Para as actuais jovens gerações, cujo referencial básico passou a ser essa entidade endeusada a que é dado o nome de Novas Tecnologias (e o seu respectivo mundo exterior ao solo [2]), é muito menos evidente a dimensão rural que a própria cidade sempre teve até tempos recentes. Como lembra um autor espanhol, Marc Badal, num livro admirável [3], a que aqui recorro por diversas vezes, essa dimensão rural presente na cidade está hoje contida no pensamento e na recordação dos que saíram das suas aldeias sem as terem abandonado por completo, na vontade que têm de lá voltar sempre que podem, dos homens e mulheres que se sentem exilados na cidade. Porque os camponeses do nosso tempo foram-se das suas terras em silêncio, expulsos por algo que era implacável mas que, por assim dizer, não tinha rosto; por um inimigo que não parecia facilmente identificável e que quase sempre era associado ao destino ou à fatalidade. Segundo Pierre Clastres, o etnocídio é aquilo que destrói um povo no espírito, do mesmo modo que o genocídio o aniquila no corpo. Foi isso que em parte aconteceu com aqueles a quem chamamos camponeses, embora entre si eles se designassem com o nome de lavradores. E agora, ao mesmo tempo que a cidade contemporânea oculta as últimas características da sua ruralidade, vêem-se no campo, com nitidez cada vez maior, os sinais de identidade que a sua nova condição urbana vai importando, em grande parte também através das omnipresentes e quase sacras «novas tecnologias».

    Neste contexto, há um aspecto, muitíssimo marcante na sociedade portuguesa, que convém ser tido em consideração: aquilo a que podemos chamar «complexo da doutorice». Este «complexo», desde os anos 80, quando na ressaca da derrota do movimento revolucionário do 25 de Abril a velha sociedade voltou ao de cima com as suas caquéticas mas renovadas hierarquias de dótores, alastrou a uma grande parte da juventude, que desdenha o campo, mesmo ou sobretudo quando nele vive, podendo até dar-se ao luxo de sentir-se superior aos seus ascendentes se estes forem «gente do campo». Isto explica o facto de haver, comparativamente, menos jovens portugueses do que estrangeiros que optam por tornar-se agricultores ou artesãos, exprimindo nisso o grande medo (o terror) de estarem «a andar para trás» ‒ porque as ordens ladradas pela ideologia que domina são sempre no sentido da adesão ao que houver de «mais moderno».

    Necessidade de uma visão política

    A necessidade de visão política, a que antes aludi, deve-se também ao facto de a agricultura ser sobretudo abordada como técnica ou conjunto de técnicas, e de que se a discute amiúde a partir do que se concebe como um mero pragmatismo básico (produzir alimentos), pondo de parte o que ultrapassar essa bitola. Mas, citando Pierre Rabhi, «para compreendermos o grande impasse em que nos encontramos, não podemos limitar-nos a constatar a problemática agrícola. Se a agricultura moderna é tão destruidora e tão ignorante das leis da vida, é porque se inscreve num movimento geral da sociedade que parece igualmente crucial compreender e repensar».

    Em 2005, na revista Coice de Mula, um co-fundador da Colher Para Semear, Ricardo Paredes, chamou a atenção para uma questão importante: a agricultura biológica não é uma panaceia. «A noção de subdesenvolvimento agrícola a que a agro-indústria, de produção mercantilista, reduz a agricultura de bons velhos hábitos, tem suscitado a propagação (e aceitação) da ideia de que a agricultura tradicional, arcaica, é coisa obsoleta, para depois se poderem inventar (e autenticar) novos processos produtivos. É frequente assistirmos, através de directrizes da União Europeia, à valorização das áreas cultivadas no chamado regime biológico, fomentando-se por incúria o desaparecimento do minifúndio pluricultural, arreigado nas comunidades apontadas como estando aquém do chamado desenvolvimento. Ganha assim ascendente uma nova forma de ideologia agrícola escudada em si mesma que funciona através de códigos de conduta transformados num selo de avalização para o consumidor, na crença cega de que isso legitimaria o “bom consumo”. Convém notar que a própria denominação de Agricultura Biológica é já uma marca de registo, com direito ao uso exclusivo de uma dada terminologia, tal como as expressões biológico, ecológico, amigo do ambiente, etc.»

    Com efeito, a chamada agricultura biológica, embora constitua uma evolução positiva em relação à agricultura industrial, não significa necessariamente um avanço que possamos aplaudir de olhos fechados. Uma boa parte dela, a mais transaccionada e integrada no sistema da subsidiação, por vezes constituída por monoculturas assentes em latifúndios, já faz parte do capitalismo verde.

    O que me parece necessário sublinhar é que a agricultura do nosso tempo não constitui uma questão secundária, uma coisa porventura simpática mas muito inferior aos planos de desenvolvimento que os governos cozinham em perfeito conluio com as empresas predadoras. A agricultura, precisamente por ser a mais essencial e vital de todas as actividades humanas, está no âmago dos grandes questionamentos que começaram a pôr em causa os fundamentos desta civilização e que hoje interrogam radicalmente o imaginário produtivista decorrente das revoluções industriais, de que resultaram organismos e entidades massificados, sobredimensionados, incontroláveis pelos cidadãos comuns, os quais (como argumentam todos os governos) só podem ser administrados com base numa teia de corpos especializados de técnicos e peritos, abarcando-se nestes, para começar, grandes forças policiais e militares dissuasoras de qualquer oposição séria aos ditames governativos.

    Civilizados

    Quando nos países chamados civilizados as despesas de saúde já estão em vias de ultrapassar as despesas com a alimentação, isto revela que as bases desta civilização são altamente criticáveis, não só em palavras mas sobretudo em actos. Que se impõe mudar, não de governo, mas de civilização. Mas é nisto, precisamente, que muitos de nós podemos sentir-nos paralisados, porque um tal cometimento, certamente necessário e cuja necessidade se mostra cada vez mais urgente, parece inalcançável, devido à sua aparente desmesura.

    Dos agricultores espera-se que os seus produtos não sejam nocivos à saúde humana. Mas hoje sabemos que essa esperança se vem tornando cada vez mais aleatória, e que em muitos lugares do mundo as pessoas que partilham entre si uma refeição, em vez de proferirem o tradicional «bom apetite», são levadas a desejar aos seus comensais um novo voto: «boa sorte!»

    As artificializações tecnicistas consubstanciais à propagação sem fim da sociedade industrial, alicerçada na intensificação do lucro por todos os meios e no correlativo desenvolvimento de máfias empresariais e políticas, têm levado muita gente a esquecer que a vida humana depende directamente da agricultura, no único planeta que podemos habitar. A produção de alimentos, tal como é levada a cabo de forma maioritária, tornou-se em si mesma um problema de graves dimensões, tendo a agro-indústria passado a constituir um desastre programado.

    São muitos os factores que contribuem para isso. Lembremos alguns: concentração no sector agroalimentar de corporações financeiras transnacionais que impõem as suas directivas a governos nacionais e internacionais (caso da União Europeia); monoculturas intensivas e extensivas vocacionadas para a exportação, concebida como panaceia económica; açambarcamento de terras por empresas multinacionais ou estatais em diversas partes do mundo, levando à expulsão de camponeses dos seus próprios habitats e meios de vida; utilização de maquinaria cada vez maior e mais «sofisticada», dispendiosa e pesada; recurso exponencial a pesticidas, herbicidas e outros ecocidas; desenvolvimento imparável de organismos geneticamente modificados cujas incidências patológicas têm sido documentadas; dependência estratégica de combustíveis fósseis e das guerras que a sua posse fomenta; incessante esgotamento dos solos; incontrolável poluição das águas; desvitalização dos alimentos «normais»; doenças provocadas entre trabalhadores do agronegócio e consumidores dos seus produtos; transportes colossais decorrentes dos processos da comercialização mundializada; influência de tudo isto nas alterações climáticas.

    Um tal conjunto de factores representa um dos aspectos da encruzilhada civilizacional em que a agricultura se encontra. Um outro aspecto são as alternativas que têm vindo a ser criadas a esta predatória produção de alimentos.

    É aqui que entram as práticas agrícolas e de acesso aos alimentos opostas à massificação e à racionalidade do capitalismo, configuradas na agroecologia de dimensão humana, que procura relocalizar as actividades produzindo e consumindo localmente.

    No mundo inteiro, desde há décadas, são muitos os grupos de pessoas e movimentos que lutam contra o estado de coisas imposto pelas grandes empresas transnacionais e pelos governos ao seu serviço, promovendo práticas que estão a edificar, através de uma outra agricultura, uma visão do mundo diferente, suscitando formas mais justas e saudáveis de acesso aos produtos alimentares. Este movimento geral, que não aparece nos noticiários nem é dado a conhecer pelos média dominantes, resulta de um longo processo de consciencialização que encara a terra, não como uma coisa de que os homens podem apoderar-se a seu bel-prazer, mas como uma entidade nutriente que devemos respeitar, proteger e venerar, considerando-a sagrada.

    Nas práticas destes novos conhecimentos e capacidades estão a emergir novas relações: dos seres humanos com a terra e dos seres humanos entre si.

    NOTAS

    [1] Em «Declínio de um tempo longo», na obra colectiva O Voo do Arado, Museu Nacional de Etnologia – Instituto Português de Museus, Ministério da Cultura, Lisboa, 1996.

    [2] Exterior, note-se, só em aparência. O fabrico de material electrónico não só depende da predação intensiva de substâncias existentes nos solos, como está na origem de guerras prolongadas, como no caso do apoderamento e exploração de coltan na República Democrática do Congo, onde, segundo a ONU, a disputa por esse «ouro azul» já terá causada a morte de milhões de pessoas.

    [3] Marc Badal, Vidas a la intemperie, editorial Campo Adentro, Madrid, 2014.