Desculpa, mas não encontramos nada.
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Lendo: DISOBEY! Deixar a marca – práticas urbanas de criação e desobediência
«Geco é mesmo um sujador (imbrattatore), não um artista como o são todos aqueles que, com os seus murais, embelezam os muros das nossas cidades com as suas obras. O que incomoda é ver uma série de writers a defendê-lo. Eu tenderia precisamente a separar as duas coisas: uma coisa é a arte do mural, que embeleza a cidade lançando uma mensagem, exprimindo também um trabalho profissional com o uso de cestos elevatórios e, portanto, com o apoio da administração; outra coisa é o sujador (imbrattatore)».
As palavras são de Virginia Raggi, então presidente da câmara de Roma, que após a detenção de Geco reforçava a velha fronteira entre arte e vandalismo, entre quem contribui para o decoro urbano e quem, supostamente, o ofende. Tudo em nome da lei. O artigo 639 do Código Penal, legado do regime fascista, pune quem «deteriora ou suja (imbratta) coisas alheias» com pena de prisão de seis a doze meses, agravada pelas recentes e controversas atualizações da lei sobre segurança pública, aprovadas pelo parlamento italiano a 9 de junho de 2025.
Imbrattare. Sujar. A palavra nasce do dialeto lígure bratta – lama. Enlamear: um gesto que é, ao mesmo tempo, estético e moral. Mary Douglas, em “Pureza e Perigo”, recorda-nos que nada é sujo em si mesmo: sujidade é simplesmente uma «coisa fora do lugar», dependente de uma ordem vigente – uma construção social, cultural e histórica que a lei, a moral e o senso comum se encarregam de reafirmar, defender, reproduzir. Sujidade é sinal de desordem, sintoma de degradação, indício do perigo de se perder o controlo.
Quando os grafittis começaram a multiplicar-se nas cidades americanas entre os anos 70 e 80 foram rapidamente estigmatizados como um ataque à aparência de normalidade do espaço urbano. James Wilson e George Kelling, no célebre ensaio “Broken Windows”, associaram-nos a outros sinais de degradação – janelas partidas, lixo acumulado, pessoas sem-abrigo -, todos elementos que sugeriam ao «cidadão normal» a natureza incontrolada do bairro. Ed Koch, então prefeito de Nova Iorque, declarou guerra aos writers, apelando a que as pessoas «façam a diferença na sociedade, não sobre a sociedade». Mas, como respondia o writer Iz the Wiz, se a entrada na sociedade te é vedada, deixar uma marca sobre a sociedade é tudo o que te resta. E não é pouco.
Quando os grafittis começaram a multiplicar-se nas cidades americanas entre os anos 70 e 80 foram rapidamente estigmatizados como um ataque à aparência de normalidade do espaço urbano.
Mesmo quando denegridos, combatidos e perseguidos, os grafittis nunca deixaram de exercer uma estranha fascinação. Há algo de irresistível na sua capacidade de corroer a ordem, de transformar o espaço e a própria sociedade em palco de perigo, degradação, dissolução – mas também de desafio, resistência, desobediência.
Essa energia está explícita em “The Art of Disobedience”, documentário escrito, dirigido e interpretado por Geco, writer romano ativo entre Roma, Atenas e Lisboa. O filme mergulha-nos na dimensão arriscada e performativa do bombing, a prática que Geco escolhe. A sua tag – sempre igual, mas em dimensões e lugares diferentes – repete-se obsessivamente em spray, tinta ou autocolante, espalhada por muros, placas e persianas. Uma proliferação imparável, quase viral, que penetra a estética urbana como um vírus, evocando «algo de inexplicável, de mágico», como diz Valerio Mattioli. Geco, filmado sempre de costas, observa, salta, escala, pinta, deixando por toda a parte o traço inconfundível do seu ato, ao ritmo acelerado de uma disciplina composta e adrenalínica. A sua dedicação – a fixação pela repetição – transforma-se num estilo peculiar, que transborda da própria tag até se tornar escolha e forma de vida.
Os grafittis podem ser vistos como a convergência de três elementos: o gesto, com o seu estilo; a ação, com os seus perigos; e o produto, com os seus efeitos. “The Art of Disobedience” revela essa complexa e arriscada convergência, mostrando os riscos físicos e penais, mas também as múltiplas variações performativas que se escondem por trás da aparente monotonia de uma, cem, mil tags. Cada uma parece vazia, sem sentido, mas existe como forma cristalizada de atos que interrogam o espaço urbano e as possibilidades de expressão e repressão que ele oferece.
Então, trata-se de arte ou crime? Esta pergunta persegue o debate sobre grafittis há décadas, especialmente desde que a street art emergiu dentro desse universo. A street art é menos obscura, mais representacional e, por isso, mais facilmente aceite. Ela lança mensagens, embeleza a cidade – muitas vezes com o apoio das administrações locais. Aos poucos, inverteu a relação antagónica que os grafittis tinham com a ordem estética, moral e legal da cidade. Na street art, o produto final ganha centralidade, com o seu conteúdo estético e moral, em detrimento da dimensão efémera, arriscada, ilegal e aparentemente redundante do ato. Hoje, nomes como Banksy, Kobra, JR ou Blu são motivo de orgulho para as cidades, inevitavelmente integrados nos processos de valorização, musealização e city branding do capitalismo estético contemporâneo.
Então, trata-se de arte ou crime? Esta pergunta persegue o debate sobre grafittis há décadas, especialmente desde que a street art emergiu dentro desse universo.
Mesmo quem aprecia grafittis tem dificuldade em aceitar o bombing de Geco. Claudia Catalli, na revista Wired, distingue a obra de Banksy, que «comunica e denuncia», da de Geco, que «não comunica nada e só desperta perplexidade» 1. Despertar perplexidade — talvez seja isso que torna Geco ao mesmo tempo enigmático e irritante, incómodo e atraente. A repetição obsessiva, a ausência de conteúdo, a recusa em entrar no discurso moral, estético ou político, a insistência em não exprimir nada além do próprio ato de exprimir-se: Geco não pretende fazer nada certo ou errado, belo ou bom – apenas faz.
Será que essa prática é também uma expressão de autorreferencialidade, individualismo, até puro exibicionismo, como sugere Catalli? Talvez. O próprio Geco admitiu, numa entrevista ao jornal Corvo: «No meu caso, chega a ser uma verdadeira megalomania. Quero atrair a atenção de todos, provocar amor ou ódio. Só não quero passar despercebido» 2. Mas a psicologia individual, tal como a moral comum, é insuficiente para compreender o seu gesto. Os grafittis só ganham sentido se os entendermos na sua relação coessencial com o tecido urbano – com as suas formas, lógicas e normas. É dessa relação que emerge o seu verdadeiro significado.
Além do bem e do belo, essas tags colocam a questão de quem decide o que é bom, o que é sujidade, o que é publicidade. Essa questão torna-se cada vez mais central num espaço urbano remodelado por lógicas de branding, requalificação e embelezamento, que desencadeiam processos como gentrificação, turistificação, financeirização. Nesse contexto, os grafittis ocupam uma posição ambígua: são, ao mesmo tempo, emblemas de resistência, contestação e desobediência, e, paradoxalmente, especialmente no caso da street art, acabam por alimentar esses mesmos processos. É nessa ambiguidade que podemos ler essas tags, diante das fronteiras físicas (o muro), legais (a propriedade privada) e morais (o decoro) da cidade contemporânea. O sentido do seu «não-sentido» não está no conteúdo — uma tag contém apenas a si própria — mas na sua capacidade repetitiva de produzir diferença, rasgando as tramas estéticas, morais e políticas do tecido urbano, criticando o senso comum sem dizer nada, apenas mostrando a sua crise. Como Lucio Fontana questionava a tela ao rasgá-la, assim essas tags questionam o espaço público. O verdadeiro ponto em jogo não é a definição de arte ou crime, diz Andrea Mubi Brighenti, mas os limites do espaço público que elas desafiam a cada momento 3.
Além do bem e do belo, essas tags colocam a questão de quem decide o que é bom, o que é sujidade, o que é publicidade.
A chave para compreender o bombing de Geco está então na sua produção de valor «perversa»: não comercial, não comerciável, corrosiva, insensata, impossível de capturar pelas lógicas de mercado ou reduzir a mera denúncia social. Como na antiga parresía, é uma forma franca de expressão que põe em risco a própria vida. Para além da irritação causada pela sua imprudência, a proliferação dos gecos – desde os lugares mais mundanos até aos mais improváveis e inacessíveis – provoca também um sentimento de emancipação, de libertação face aos cercos jurídicos, económicos e morais que delimitam rigidamente o espaço urbano. Devolve «a quem vive a cidade», como diz Valerio Bindi no documentário, «o sentido da sua própria libertação, do espaço que pode reconquistar, da distância que pode ver, da capacidade de olhar para além dos cartazes publicitários. (…) Levantando um pouco o olhar, encontras alguém que te diz “hey, podias olhar para cima, podíamos andar pelo ar”». Um espaço reconquistado, um espaço tornado de novo comum.
“The Art of Disobedience” estreou na Sirigaita, em Lisboa, a 10 de abril de 2025. Não por acaso: a Sirigaita é um desses espaços onde a cidade ainda respira diferença e conflito, onde a experimentação social resiste aos processos de homogeneização. Como tantos outros, vive sob ameaça constante de despejo, pressionada por lógicas de mercado e leis de propriedade. Defendê-la não é apenas celebrar uma exceção, mas reconhecer a fragilidade e a importância desses interstícios urbanos – lugares onde o dissenso, a crítica e a desobediência ainda encontram espaço para existir, mesmo que precariamente. Talvez seja precisamente nesta precariedade, nesta tensão entre o risco e a possibilidade, que reside o verdadeiro valor de uma cidade viva. As tags de Geco e a persistência de espaços como a Sirigaita não oferecem respostas fáceis nem soluções definitivas. São antes sinais de que o urbano permanece um campo de disputa, onde a liberdade e o conflito, a criação e a repressão, se entrelaçam a cada dia. Defender esses espaços – e as práticas que neles germinam – não é celebrar uma vitória, mas reconhecer a necessidade de manter abertas as brechas por onde a cidade pode, ainda, reinventar-se.
Texto de Andrea Pavoni e Laura Sodini publicado na edição nr. 47 [Out. – Dez. 2025] do Jornal MAPA
Notas:
A story about
grafitti
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