Desculpa, mas não encontramos nada.
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Lendo: Pela vida e pela dignidade do povo do Irão
O movimento zapatista mundial, ou melhor, «grupos, colectivos e pessoas de diferentes cantos do mundo em resistência e rebeldia», lançou uma declaração onde enquadra a revolta e a repressão iranianas numa tempestade global: «a tempestade do capitalismo, do imperialismo, do patriarcado e dos Estados que administram a morte enquanto falam de ordem, estabilidade ou segurança».
Nessa declaração, onde se afirma «o direito inalienável dos povos à autodeterminação», é lembrado que «a liberdade não se exporta nem se negocia entre Estados» e também que «nenhuma intervenção imperial alguma vez trouxe justiça ou dignidade aos povos que diz “libertar”».
Serve esta declaração para estender a mão ao povo iraniano, «não para o tutelar», mas para lembrar a toda a gente que é necessário «unir as lutas de baixo, de nos reconhecermos no destino comum de quem resiste ao capital, ao imperialismo e a todas as formas de dominação». Sem nos deixarmos cair nos maniqueísmos dos que «justificam o regime iraniano em nome de um suposto anti-imperialismo, ignorando que esse mesmo regime aplica ao seu povo lógicas de ocupação, apartheid, pilhagem e neoliberalismo» ou dos «que promovem alternativas reaccionárias, autoritárias e dependentes, que prometem a salvação enquanto reproduzem a dominação».
Eis a declaração na íntegra:
PELA VIDA E PELA DIGNIDADE DO POVO DO IRÃO
Estamos a viver uma tempestade. Não é nova nem passageira. É a tempestade do capitalismo, do imperialismo, do patriarcado e dos Estados que administram a morte enquanto falam de ordem, estabilidade ou segurança. Nesta tempestade, os de cima disputam territórios, recursos e poder; os de baixo comprometem os seus corpos, as suas vidas, o medo e a esperança.
No Irão, hoje, essa tempestade abate-se com uma violência particular. O povo iraniano voltou a mobilizar-se contra o regime da República Islâmica, que não hesitou em reprimir violentamente quem saiu às ruas. Estas mobilizações não são nem um acto isolado nem uma reacção momentânea: são o resultado acumulado de décadas de opressão política, exploração económica, violência patriarcal, repressão sistemática e negação de direitos. São lutas que nascem na base, da vida quotidiana sufocante, de quem já não pode e já não quer continuar a sobreviver em silêncio.
Em cima, os governos e as potências avaliam a situação de um ponto de vista geopolítico. Calculam as vantagens, os equilíbrios regionais, as vias de abastecimento energético, as alianças oportunas. Em cima, o crime é normalizado, justificado ou dissimulado sob discursos de «estabilidade», «segurança» ou «realismo político». Em cima, mesmo quem se apresenta como inimigo do regime iraniano não hesita em legitimar o massacre, quando este serve os seus interesses.
Em baixo, por outro lado, o povo iraniano luta pela vida.
Em baixo, estão as mulheres que desafiam diariamente o controlo patriarcal.
Em baixo, estão os trabalhadores e as trabalhadoras empobrecidos pelas políticas neoliberais.
Em baixo, estão as dissidências sexuais, as minorias religiosas, os povos oprimidos, as pessoas que vivem nos subúrbios afectados pela crise da água, da habitação e do emprego.
Em baixo, estão os que saíram às ruas repetidamente, muitas vezes de mãos vazias, sem organizações amplas – destruídas pela repressão – e que, ainda assim, avançaram mais do que qualquer oposição institucional.
Denunciamos com firmeza a manipulação externa destas manifestações. Nenhuma potência estrangeira, nenhum governo do norte global, nenhum projecto imperialista tem o direito de usar o sofrimento do povo iraniano como um peça no seu tabuleiro. Essa instrumentalização não só distorce as lutas reais, como também coloca ainda mais em risco quem resiste, ao transformá-los em pretexto para uma repressão ainda mais brutal.
Reafirmamos o direito inalienável dos povos à autodeterminação. A liberdade não se exporta nem se negocia entre Estados. Nenhuma intervenção imperial alguma vez trouxe justiça ou dignidade aos povos que diz «libertar». A história ensina-nos isso, e as ruínas deixadas pelo seu rastro confirmam-no inúmeras vezes.
Há os que, de fora, olham para cima e não para baixo: que justificam o regime iraniano em nome de um suposto anti-imperialismo, ignorando que esse mesmo regime aplica ao seu povo lógicas de ocupação, apartheid, pilhagem e neoliberalismo; e há os que promovem alternativas reaccionárias, autoritárias e dependentes, que prometem a salvação enquanto reproduzem a dominação.
São falsas oposições. Os de cima contra os de cima. O poder contra o poder. Lá em baixo, o povo está preso entre duas forças que se dizem opostas, mas que agem em conjunto.
A nossa posição é clara: não estamos com os governos, estamos com os povos. Não com os Estados, mas com as pessoas que resistem. Não com as elites, mas com quem luta para viver.
Hoje, enquanto o povo iraniano enfrenta o corte das comunicações, o estado de sítio e a militarização da vida quotidiana, apelamos a que se escutem os avisos das nossas companheiras zapatistas: a tempestade é global; quem pensar que não lhes diz respeito, que não é afectado, está enganado. Perante esta tempestade, não há salvadores nem soluções vindas de cima. O que há é a possibilidade – urgente – de unir as lutas de baixo, de nos reconhecermos no destino comum de quem resiste ao capital, ao imperialismo e a todas as formas de dominação.
Estendemos a mão ao povo iraniano.
Não para o tutelar.
Não para falar em seu nome.
Mas para lhe dizer: não estão sozinhos.
Porque a luta no Irão é também a luta pela vida em todos os outros lugares. E porque só partindo de baixo, juntos, poderemos enfrentar a tempestade e imaginar o dia seguinte.
Janeiro de 2026
Para subscrever esta declaração, escreva para declaracion.iran@gmail.com
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Texto retirado de Enlacezapatista
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