shop-cart

Lendo: Kyriakos vive! – o caso de Ambelokipoi

Kyriakos vive! - o caso de Ambelokipoi

Kyriakos vive! – o caso de Ambelokipoi


Na véspera do 25 de Abril, é na outra ponta do Mediterrâneo que termina o julgamento do «caso de Ambelokipoi», um dos casos mais relevantes para a cena anarquista ateniense dos recentes anos. Marianna Manoura acaba condenada a 19 anos de prisão e Dimitra Zarafeta a 8, enquanto que Nikos Romanos, A.Z. e Dimitris são ilibados, após um ano e meio de prisão à espera de julgamento.

Foi a 31 de Outubro de 2024 que ocorreu uma explosão num apartamento em Ambelokipoi, uma zona central de Atenas. A explosão deixou Kyriakos Ksymitiris sem vida e Marianna Manoura com ferimentos graves, que levariam à sua hospitalização. Na sequência desta explosão, foram presas Marianna e as restantes pessoas acima mencionadas, tendo sido criada por parte do aparelho estatal e dos media toda uma narrativa para demonizar o movimento anarquista e para tentar enquadrar estas pessoas como parte de uma «organização terrorista». Este artigo procura dar seguimento a um texto publicado pelo Jornal MAPA sobre o mesmo tema – o seu intuito é contar os acontecimentos e contextualizá-los, assim como honrar a memória de Kyriakos e a luta das companheiras ao longo deste processo.

Kyriakos Ksymitiris
Um de nós/ dos nossos
Companheiro para sempre
Nas ruas de fogo
– tradução de um dos cânticos ouvidos no último ano e meio em eventos e manifestações anarquistas em Atenas.

O Caso

«No dia 31.10, no terceiro andar de um apartamento na Rua Arkadias (Atenas), durante o manuseamento de explosivos pelo meu camarada e guerrilheiro Kyriakos Ksymitiris, ocorreu uma explosão com a trágica consequência da sua morte. (…) Percebi que mesmo que a linha de ação do meu camarada tivesse sido abruptamente interrompida, a sua vida e as suas escolhas na luta seriam um flash histórico de resistência determinada, consistência e dedicação.» (Marianna Manoura, em «O que dá sentido à vida dá sentido à morte», disponível em athens.indymedia.org).

No seguimento desta explosão, Marianna foi levada para o hospital Evangelismos, ficando entubada e inconsciente durante os 3 dias seguintes. Mal acordou, começou o assédio por parte dos agentes da polícia, que procuravam obter amostras de sangue e que insistiam em estar presentes na sala onde se encontrava durante as visitas de 5 minutos da sua família.

Retomou a consciência e, passados 5 dias, foi subitamente levada para uma ala de isolamento, vigiada 24/7 por polícias estáticos e outros quantos móveis nos corredores que levavam à ala. A 15 de novembro, apenas um dia após a segunda operação a que foi submetida, Marianna foi levada para a prisão feminina de Korydallos, com condições sanitárias deploráveis e sem acesso aos cuidados médicos e medicação necessários.

Começava assim a preparação da narrativa «anti-terrorista», colocando Marianna e Kyriakos no centro e acrescentando amigos, camaradas e estranhos conforme fosse necessário para justificar esta mesma narrativa.

Em sequência disto, Dimitra foi detida (com toda a pompa e circunstância) ao apresentar-se voluntariamente no aeroporto de Atenas,em regresso do estrangeiro onde residia há anos. A «pista» que a incriminava: ter entregue as chaves do apartamento a Marianna e Kyriakos, sob o pretexto de hospedar conhecidos destes que vinham de fora do país. Dimitris, por sua vez, foi detido simplesmente por ter sido ele a entregar as chaves do apartamento ao proprietário do imóvel, algo que lhe tinha sido pedido por Dimitra. Nikos Romanos e A.K. foram também detidos 20 dias depois, com base em alegadas impressões digitais parciais num saco de plástico encontrado no apartamento.

Estavam assim reunidas as condições para a acusação de «organização terrorista» sob o artigo 187A, que define que uma tal organização só pode ser legalmente qualificada a partir de 3 membros integrantes.

Luta armada em território grego

É de relembrar que este evento não é isolado naquilo que é a história anarquista, nomeadamente em território grego. Para além das muitas ações diretas e confrontos diários com a polícia nas ruas ao longo dos últimos 50 anos, o movimento anarquista grego tem sido marcado pela luta armada de diversos grupos, particularmente na primeira década dos anos 2000, entre eles a Luta Revolucionária (EA), Vontade do Povo, ENEDRA, Conspiração das Células de Fogo (SPF), 6 de Dezembro, Continuação Revolucionária, OPLA, Fação de Revolucionários, Thanasis Klaras, Incendiários de Consciência, Rocinante, Proteção de Guerrilheiros Proletários, incluindo de outras tendências que não a anarquista.

Hoje em dia, a luta mantém-se ativa neste campo. Estes grupos, indivíduos e ações, provenientes de várias correntes anarquistas e anti-autoritárias, são inseparáveis da história do anarquismo grego. Juntamente com a infinidade de okupações, cantinas comunitárias e todo o tipo de formas de luta que caraterizam o movimento neste território, formaram e continuam a moldar aquilo que é a luta anarquista na Grécia.

Julgamento

O julgamento decorreu entre os dias 1 e 24 de Abril de 2026, após 17 meses de adiamento, tendo terminado com a condenação das duas companheiras a penas especialmente pesadas, tendo em conta os factos apurados. Durante todo o julgamento, uma multidão reuniu-se antes das sessões à porta do tribunal em apoio aos arguidos, onde foi recebida por todo um aparato policial, levando a confrontos no dia 24, quando a sentença foi dada e a polícia tentava levar as companheiras presas.

Se a libertação de Nikos, Dimitris e A.K. podem ser consideradas uma vitória, as penas longas aplicadas a Marianna e a Dimitra são um murro no estômago. Estas duas companheiras mantiveram-se firmes nas suas convicções durante todo o processo, fazendo chegar cá fora vários textos escritos a partir da prisão de Korydallos, denunciando as condições das suas prisões e de todo o processo judicial, revelando a importância da luta, da memória de Kyriakos e da coragem que é necessária para arriscar a vida na luta por novos mundos.

Este foi um julgamento altamente politizado, desde a construção do processo pelo Ministério Público e pela polícia, até aos testemunhos das famílias de Kyriakos e Marianna. O estado grego adoptou uma estratégia para tentar esmagar o movimento anarquista: tentou enquadrá-lo no seu todo como «terrorista» para tentar virar o povo contra ele, negou cuidados médicos a Marianna e arrastou os limites legais em que podiam ser mantidos os companheiros presos sem julgamento, e apelou a penas pesadas de forma vingativa para pressionar legal e psicologicamente todas as pessoas envolvidas na resistência.

Em simultâneo, o estado grego tem procurado acelerar gentrificação de Exarcheia através da construção de uma estação de metro na praça principal do bairro, agora fechada aos moradores, e do policiamento militarizado 24/7 das suas ruas. Tem perseguido okupas por todo o país nos últimos anos, com detenções massivas processos em tribunal abertos quase diariamente envolvendo membros do movimento, entre várias outras medidas. O estado intensifica assim a sua perseguição a todas as que ousam desafiá-lo, tentando derrubar tudo no caminho.

Agora

Hoje, a luta continua – o movimento grego enfrenta estes dias um outro importante julgamento pelo caso da resistência ao despejo da comunidade de okupas de Koukaki, e as ações não param. Caso daí resultem penas de prisão, serão as primeiras na Grécia no que diz respeito a okupações. Em Atenas, tal como em todo o sítio onde exista vida, continuará a haver quem resista – e quem, não se limitando a isso, ataque. Quem acredite que tomar conta das nossas vidas e expandir a nossa ação a todas as frentes é algo que não pode ser deixado para amanhã.

Que a memória de Kyriakos, de Sara Ardizzone, de Alessandro Mercogliano, de Alfredo Costa e dos mártires de Chicago, assim como de todas as anarquistas que morreram a lutar contra o estado e o sistema capitalista, nos fortaleçam e inspirem – rumo ao que há de vir.

«Atacar o sistema é uma decisão voluntária de profunda empatia». «Se algo é certo, é que o nome do camarada Kyriakos Ksymitiris ficará marcado na memória ao inspirar todos os que lutam por um mundo de liberdade, igualdade e solidariedade. Lutando dentro e fora dos muros contra toda a exploração, opressão e isolamento. Aqueles que sonham com um amanhã diferente. Até que um sorriso de satisfação encontre o eco da libertação social e de classe».
– Dimitra Zarafeta.

«Mas ele olhou em redor, e viu o que se passava no mundo. Viu e sentiu que as pessoas sofriam com ansiedade da sua vida diária, com dificuldades económicas, com a exploração dos poderosos, de racismo, da iminente ameaça de guerra – todas estas dificuldades que, infelizmente, nunca estiveram ausentes das sociedades humanas. E ele tomou uma posição quanto a todos estes problemas. Escolheu lutar. (…) Eu não vim aqui para ver o meu filho julgado. Estou aqui para vos dar uma imagem dele e para que sintam a sua presença. No final das contas, ele tomou as suas responsabilidades a peito, da maneira mais exemplar. (…) Crianças que podiam viver uma vida fácil, sem grandes preocupações, mas escolheram lutar pelo que está certo, sentir a dor do outro como se sua fosse, e agir em solidariedade, lado a lado. Tal como fez o nosso filho. Encontro conforto em saber que o meu filho viveu e vive completo entre estas pessoas. E assim a sua falta torna-se uma presença».
– excerto do depoimento dado no julgamento pela mãe de Kyriakos.

«Que o dia 31.10 seja lembrado como um dia de luta, um dia de responsabilidade, um momento de resistência. Porque na luta não há espaço para cedências; não há espaço para barreiras e egos. Não há espaço para leis, convenções e limites. Porque a luta precisa de determinação e visão. Precisa de fé e compromisso, precisa de relações verdadeiras e generosas. Porque a luta precisa de pessoas humildes e prontas. Pessoas que são essencialmente rebeldes e consistentes. Pessoas como o Kyriakos, aquele ser humano maravilhoso que encheu o céu com a sua estrela ao lado de tantos camaradas que com a sua luz – mesmo atrás das grades – conseguem iluminar as nossas noites mais escuras. Estamos certos, vamos vencer.
Kyriakos Ksymitiris vive.
O estado e o capital são os únicos terroristas.
Força e solidariedade a todos os camaradas presos.
A solidariedade é a arma do povo.»
– Marianna Manoura, em «O que dá sentido à vida dá sentido à morte» (disponível em athens.indymedia.org)

___________

AUTOR: Nuno Bosque
FOTOS: Alexandros Zampitoglu (@alex.zampitoglu) e athens.indymedia.org


Written by

Jornal Mapa

Show Conversation (0)

Bookmark this article

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

0 People Replies to “Kyriakos vive! – o caso de Ambelokipoi”