Desculpa, mas não encontramos nada.
Desculpa, mas não encontramos nada.
Lendo: Os cigarros de Mário Castelhano
«Foi quando iamos enrolar os cigarros, um 1.º sarg. de Infantaria n.º1, armado em forte e mau (…) diz: ninguém fuma!… Pobre diabo, como se fôsse ele que mandasse na nossa vontade, ou o tabaco fôsse dele! (…) Mário Castelhano que não fumava, saca de um maço de cigarros três 20 20 20, e diz: rapazeada!… Agora toda a gente fuma, mas é dos feitos que eu ofereço, dezendo isto, pôs o maço a correr e toda a nossa gente acendeu o cigarro!… O nosso 1.º sarg., cujo nome ignoramos e, não nos interessa, pois gente parva há tanta por esse mundo fora!… Mas como o homem ferido na sua dignidade de 1.º sarg. e, na presença dos seus soldados, nos ameaçasse, todos começámos a cantar a Internacional Trabalhadora!» 1
Quem escreve estas palavras é o sindicalista António Gato Pinto, em 1934, na Casa de Reclusão da Trafaria. A sua neta, Antónia Gato Pinto, encontrou os escritos após a sua morte. Através deles, ficamos a conhecer alguns dos acontecimentos vividos pelos presos na sequência da greve revolucionária de 18 de janeiro do mesmo ano, entre os quais a marca de cigarros que Mário Castelhano não fumava.
É impossível saber hoje a que sabiam os três vintes: 20 cigarros, 20 gramas, 20 tostões, tabaco do mais barato e do mais forte. O que sabemos é que eram da marca Tabaqueira, fundada por Alfredo da Silva em 1927, ano em que Mário é preso e deportado para Angola, por ser secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT) e redator-principal do jornal A Batalha.
É impossível saber hoje a que sabiam os três vintes: 20 cigarros, 20 gramas, 20 tostões, tabaco do mais barato e do mais forte.
Além da Tabaqueira, Alfredo ficou para a história por ser o fundador da Companhia União Fabril (CUF), no Barreiro. Desde o início da Primeira República que se recusou a conversar com «comissões de trabalho e outras fantasias de ocasião» 2. Tinha apoiado o Governo de João Franco que terminou com o regicídio cometido por membros da Carbonária. Quando a Monarquia caiu, tem em curso a construção de um bairro operário, com as ruas simbolicamente nomeadas com os produtos do parque industrial, como a Rua do Ácido Sulfúrico e a Rua dos Superfosfatos 3. Uns anos mais tarde, Alfredo apoia Sidónio Pais, que será assassinado por José Júlio da Costa, em retaliação pelas punições aos trabalhadores rurais de Vale de Santiago aquando da greve de 1918. Em maio de 1919, Alfredo despede os promotores da associação de classe da CUF, e uns meses depois é vítima de dois atentados com bombas de dinamite e tiros 4, que falharam, por membros em solidariedade com os grevistas não readmitidos na CUF. Em 1921, circula pelas ruas de Lisboa a «camioneta fantasma» na «noite sangrenta» de 19 de outubro, libertando José Júlio da Costa e assassinando os traidores dos ideais republicanos. Por razões de segurança, Alfredo exila-se em Espanha e gere a CUF à distância, vindo a Portugal para visitas pontuais. Numa destas visitas, despede o descarregador da CUF Bernardino de Carvalho porque o viu a ler A Batalha 5. Alfredo apoia a Ditadura Militar após o golpe de 28 de maio de 1926 e, em 1927, com a promessa de «estabilidade», volta definitivamente a Portugal para um dos negócios mais rentáveis, o do tabaco, que vinha das colónias africanas. A Tabaqueira prosperou por meio de um duopólio que vigorou durante o Estado Novo de Salazar e de Marcello Caetano. Alfredo foi procurador à Câmara Corporativa sob Salazar, e bateu-se ferozmente contra as oito horas de trabalho.
A força operária era maioritariamente feminina, e recebia salários inferiores aos dos homens.
A fábrica da Tabaqueira onde se faziam os três vintes ficava no Poço do Bispo, meia hora a pé de Xabregas, onde a Companhia Nacional de Tabacos, rival de Alfredo, estava localizada. Os cigarros feitos eram enrolados por cigarreiras. A força operária era maioritariamente feminina, e recebia salários inferiores aos dos homens. Muitas mulheres cuidavam de filhos pequenos e viviam em vilas, becos e casebres em redor da fábrica. Na ausência de creches, as operárias tinham de pagar a amas para cuidarem das crianças. Algumas eram também lavadeiras, criadas ou costureiras para completar o orçamento familiar. Ouviam diariamente ofensas obscenas dos dirigentes das fábricas, incluindo as menores, «ao alcance de qualquer capataz». Laboravam em condições insalubres, sem iluminação adequada, e a tuberculose prosperava. A mortalidade infantil era um flagelo e a classe médica alertava para os perigos da degenerescência da raça 6.
As operárias participam ativamente em associações mutualistas, como as associações de socorros mútuos. A Associação de Classe dos Manipuladores de Tabaco cria A Voz do Operário, jornal onde escreve Angelina Vidal, ativista pelos direitos das mulheres, sempre apoiada pelas operárias do tabaco. A Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário instala diversas escolas para as crianças das classes populares, e providencia assistência médica e farmacêutica. Lucinda Duarte, com quem Mário se casa antes de ser deportado para Angola, será uma das professoras.

Diz-nos Manuel Rijo, seu companheiro e biógrafo 7, que a casa de Mário era uma verdadeira escola anarquista, propagada não nas ideias, mas nos atos. Durante as prisões, as irmãs de Mário e esposa procuravam providenciar-lhe todo o apoio possível, como bens alimentares, medicamentos, papel e tabaco. Nas palavras de um dos presos: «o fumar mais de que um vício, era, nas nossas condições, uma tentativa de evasão breve, um narcótico passageiro, que nos ajudava a vencer as situações depressivas» 8. Porque não fumava Mário, então?
Comecemos por especular que Mário não era dado à depressão. Em 1932, publica o seu primeiro livro, Os Organismos de Transportes na Revolução Social, pelas Edições do Pensamento Acrata 9. Mário escreve repleto de otimismo. A revolução social era uma certeza, e a queda da sociedade burguesa inevitável. O sistema continha em si próprio o gérmen que o haveria de destruir; só os trabalhadores podiam construir a sociedade futura. O Sindicalismo Revolucionário e a organização operária seriam a liga indestrutível de solidariedade que permitiriam a emancipação do proletariado, mas tinha de ser o trabalhador a realizar a obra. Doutra forma, entregaria o esforço a organismos políticos que só determinam ordens, para serem cumpridas sem qualquer oposição, que fariam dele um perpétuo autómato condenado a obedecer a quem está em cima. As armas do proletariado eram a organização e a greve geral insurrecional expropriadora. «O que agora parece uma dificuldade insuperável para muitos, aparecerá amanhã relativamente desobstruída, no estabelecimento da forma sindicalista encontrada.»
Mas desde a Ditadura Militar que a organização sindical estava fortemente debilitada. A CGT experimentava conflitos internos, e a repressão policial sobre os sindicalistas, com prisões e espancamentos sem qualquer motivo, era frequente. A Batalha era censurada e apreendida, enfrentava enormes dificuldades financeiras e processos judiciais. Anarquistas e sindicalistas foram presos às centenas e deportados, levando a organização ao limite, obrigando-a a romper com a solidariedade aos presos sociais. O movimento operário dividiu-se entre anarco-sindicalistas e comunistas, e havia um desalento coletivo 10. Mário era profundamente conhecedor da situação. Os sindicatos lutavam para manter a adesão dos trabalhadores às greves. Foi expulso do seu próprio sindicato por ser revolucionário, mas a Federação Ferroviária nomeia-o delegado da CGT no momento mais crítico da organização. É proposto pelo Conselho para o Comité Confederal e para diretor do jornal A Batalha. Aceita o cargo, e poucos meses após tomar posse, a CGT foi ilegalizada, a sede do jornal A Batalha assaltada, e Mário foi deportado dois anos para Angola. Em setembro de 1930 foi transferido para os Açores, e em 1931 para a Madeira, conseguindo fugir para Lisboa como clandestino, na banca do carvão de um navio. No regresso, além de escrever o livro mencionado, escreve as suas memórias, que serão publicadas postumamente pelo seu filho, em 1975, sob o nome Quatro Anos de Deportação 11.

Sabia Mário o que o esperava? Como poderia saber? Da terceira vez que esteve preso, a 5 de fevereiro de 1927, foi libertado da prisão pelos revolucionários dois dias depois. Em 1931, enquanto deportado, participa na revolta da Madeira que lhe permite a fuga, e uns meses depois, a 26 de agosto, vivencia o seu eco no continente. Ambas falham, mas ao invés de se deixar tomar pelo desânimo, pensa apenas, ainda não foi desta, será doutra. Como revolucionário, Mário existe no futuro, e a luta pelo futuro é a vida. A sua geração é a do sacrifício. Sente solidariedade com gente que ainda não nasceu, com pessoas que não conhece. Nas suas memórias, relata um caso que o chocou: em Cabo Verde, um transportador negro, «mais farrapo humano do que gente», cobiça avidamente uma côdea de pão. Dão-lhe o pão e ele come-o sem dizer palavra. Mário fica condoído não só com a miséria, mas também com a ignorância da injustiça.
A greve de 18 de janeiro de 1934 vale-lhe nova prisão. Recebe alimentação de casa, mas divide a comida com os companheiros. Após a prisão em Angra do Heroísmo, é levado para o campo de concentração do Tarrafal, sempre envolvido na organização dos presos. No campo, um dos principais problemas era o acesso ao tabaco, confiscado pelo diretor. Fazem todos os esforços para o conseguir, incluindo a invenção de máquinas para corte das folhas. Alguns presos deixam de fumar, para escaparem à escravidão do tabaco 12.
Entretanto, os negócios de Alfredo prosperaram. Entre 1936 e 1938 detém a maior frota nacional de navios. Ajuda Franco na Guerra Civil de Espanha a pedido de Salazar, trazendo as tropas franquistas de Marrocos, transportando gasolina e dezenas de milhares de armas de portos europeus para o exército nacionalista. Faz da Rádio Clube Português uma emissora de propaganda pró-franquista, e envia doações anónimas a Franco. Participa na organização dos Viriatos, voluntários armados patrocinados pelo Estado Novo que se juntam aos franquistas.
Alfredo fica conhecido como «o maior amigo dos trabalhadores» pela sua obra de assistência social. Um dos gestos de humanidade que lhe foi reconhecido foi permitir a uma mulher operária comer o seu pão para trabalhar 13.

Mário morre de febre intestinal no Tarrafal a 12 de outubro de 1940, desgostoso por não saber os pormenores da Guerra Civil Espanhola. A sua perda é inestimável entre os revolucionários, e não é esquecida. A revolução chega a 25 de abril de 1974. Em 30 de junho de 1980, foi condecorado com o grau de Grande-Oficial da Ordem da Liberdade. Em 1989, foi atribuída uma subvenção vitalícia aos cidadãos que participaram na revolta de 18 de janeiro de 1934 14. Os crimes cometidos no Tarrafal nunca foram punidos. As famílias experimentam trauma intergeracional 15.
A 26 de maio de 2025, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, condecorou, a título póstumo, Alfredo, entregando as insígnias da Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique aos seus descendentes.
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Texto de Borboleta Azul, publicado no Jornal MAPA nr. 47 [Out. – Dez. 2025]
Imagens: arquivo histórico-social
Retratos anteriores: “As cartas do Unabomber“, “Deligny e os putos ineducáveis“, “Mary Wollstonecraft e a correção dos males humanos“, “Os monstros de Mary Shelley“, “Simona Kossak, a mãe da natureza“
Notas:
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