Desculpa, mas não encontramos nada.
Desculpa, mas não encontramos nada.
Lendo: Deligny e os putos ineducáveis
«Gostávamos muito deles. Não nos ensinavam nada ou bem pouco» 1. É assim que Émile Copfermann, órfão que viveu a experiência dos albergues de juventude da Grand Cordée, se refere aos educadores de Fernand Deligny, um dos principais pedagogos libertários do século XX. Na França do pós-guerra, judeus alemães e intelectuais sem identidade fugidos «dos esgotos do gueto de Varsóvia» aliaram-se às crianças e adolescentes «difíceis» 2 que ingressavam em lares de jovens e outras instituições, não para as amar, mas para as ajudar. Deligny: escreve «o amor virá em seguida, e essa não é a recompensa» 3. Para entendermos a recompensa que buscava, temos de seguir o rastro que nos deixou.

Deligny permanece na companhia de crianças e jovens autistas na aldeia de Graniès, que nunca mais deixará até à sua morte em 1996.
Deligny conta-nos que é filho de um oficial morto na Primeira Guerra Mundial e que levou uma vida pequeno-burguesa da qual procurou constantemente escapar. 4 A mãe era funcionária do Banco de França, e os seus privilégios deixavam-no desconfortável. Os operários pareciam-lhe «homens de outra raça», mas não conseguia viver como eles porque necessitava de «ver a luz do céu». Procurou afastar-se da «sua tribo» e extirpá-la da cabeça, e para isso escolheu o sítio mais longe possível, um longe não geográfico mas sim mental: por volta de 1934 refugiou-se no asilo de Armentières que ficava a poucos quilómetros de onde cresceu, em Lille, onde seria educador especial após adaptar a pedagogia libertária do casal Freinet ao ensino de crianças «atrasadas».
Deligny abomina os castigos que levam a uma escalada de violência nos reformatórios que termina na colocação das crianças em solitárias onde morrem à fome para deixar os funcionários em paz, «o cúmulo da adaptação social»
O asilo não foi a primeira tentativa de abandonar a tribo: antes tinha-se filiado no Partido Comunista, mas não era feito «da mesma massa da qual são feitos os comunistas», era feito de carne. Estes procuravam as palavras de ordem para mudar o mundo, mas Deligny está convencido de que as palavras são a escolha de quem não sabe o que viver. Ele quer cortar ardentemente as amarras que o prendem à tribo pequeno-burguesa sem abandonar os outros e procura pontos de vista diferentes para a mudança social. Em Armentières acompanha os asilados que se arrastam pelos corredores, sem mover nada além de si. Será com eles que aprenderá a ser profundamente crítico das instituições. Observou que estes «doentes mentais», quando saíram do asilo devido à mobilização do pessoal hospitalar para a Segunda Guerra Mundial, sobreviveram à guerra e à sociedade. De regresso ao asilo pôs fim ao regime de sanções e organizou atividades com os asilados e os vigias. Em 1943 sai do asilo tendo aprendido o que a psiquiatria tinha para oferecer: janelas que não abrem e um ambiente estéril desprovido de experiências essenciais à vida, que descreve no livro Pavillon 3. 5 No mesmo ano, no final da Ocupação Nazi, foi destacado para trabalhar com crianças, adolescentes e adultos delinquentes, e abre nos bairros antigos de Lille uma pequena rede de lares de prevenção em casas decretadas inabitáveis, onde os educadores das crianças são os próprios vizinhos. Em 1945 cria o primeiro Centro de Observação para crianças inadaptadas da região de Lille, que será fechado pela administração cerca de um ano depois. Põe em prática o que aprendeu com os asilados: retira as sanções disciplinares e procura criar circunstâncias para os jovens se envolverem em trabalhos e atividades. No livro seminal «Semente de Crápula – conselhos aos educadores que gostariam de cultivá-la» 6, Deligny expõe em aforismos os princípios da sua pedagogia: abomina os castigos que levam a uma escalada de violência nos reformatórios que termina na colocação das crianças em solitárias onde morrem à fome para deixar os funcionários em paz, «o cúmulo da adaptação social» 7, ironiza. Continua a não acreditar no poder das palavras e dos sermões e procura outras formas de intervenção, fazendo-as cantar, rir e dançar. A sua postura não é romântica: «onde estão, belos rudes delinquentes, anarquistas, olhos negros, corpos cálidos dilacerados por cicatrizes? Aqueles que verá serão glutões e bajuladores, e desmaiarão se os vacinar» 8. A forma de Deligny chegar às crianças é sem armas nem couraça, sem castigos nem recompensas. Se vos atacarem, mudem de profissão, recomenda aos educadores. Sugere-lhes que abandonem os modelos morais do escutismo e as expectativas sobre aquilo em que as crianças se poderão tornar. O trabalho do educador é de prudência, organização e de perguntar a que se vai brincar, não é corrigir os defeitos das crianças para serem como o resto do mundo: «Deus sabe como é feio o mundo e aí está o seu ideal».
O trabalho do educador é de prudência, organização e de perguntar a que se vai brincar, não é corrigir os defeitos das crianças para serem como o resto do mundo.
A experiência do Centro de Observação de Lille é contada no livro «Os vagabundos eficazes – operários, artistas, revolucionários: educadores». 9 A sua voz contra a ordem social podre está mais forte: detesta as administrações burguesas e burocráticas que infetam as crianças miseráveis com desejos de obediência civil e conformismo. Enfrenta a tecnologia médico-jurídico-social que nasce para corrigir a juventude «anormal» ou «desviante» e insiste em manter as crianças vivas e não castradas. Os seus métodos suscitam o ceticismo da administração, que questiona acima de tudo o caráter moral dos educadores, que são operários: «Se digo: “as crianças são como os pais as fizeram e as educaram…”, deparo-me com o consentimento universal. Se prossigo: “os pais são como a atual sociedade os força a ser. Seria preciso ver como mudar realmente as condições de vida”, fecham-me a boca e o Centro que dirijo, sob o pretexto de que alguns dos seus operários não têm o aspeto, que coisa!, de verdadeiros educadores». 10 Deligny criou circunstâncias de vida e o seu Centro tornou-se num bairro em miniatura, onde circulavam cigarros e cerveja: «O serviço administrativo decidiu que cerveja num centro para jovens delinquentes é um luxo inútil e muito caro. Ora, beber água é, para as crianças, um dos sinais sensíveis de miséria social, e um lanche com pão seco, sinónimo de prisão. O que faz o educador que encontra jarros de água na mesa? Leva todas as crianças ao tasco e envia a conta à administração. Não há absolutamente nenhuma outra solução». 11
Deligny prefere ver o Centro fechado do que sujeitar-se às regras morais da administração. Após o fecho, educadores e jovens partem em debandada e, em 1948, Deligny dedica-se a uma nova aventura em Paris, a Grand Cordée, desta vez com um aliado e amigo, Henri Wallon, psicólogo de desenvolvimento e ativista marxista. O propósito era criar uma rede de estadias experimentais para a cura livre das crianças fora dos asilos e lares especializados. As estadias tinham lugar em albergues de juventude – estalagens abertas por pequenos grupos de alberguistas sem dinheiro que acolhiam jovens, operários e estudantes que organizavam colónias de férias e «transformavam tudo em coisa comum». Mais uma vez fracassará, não por falta de mérito pedagógico, mas porque não tem a flexibilidade necessária para conseguir contratos com a segurança social, subsídios ou subvenções familiares de uma administração que lhe causa arrepios, composta por almas caridosas, escuteiros e psiquiatras abusivos. A relação com o Partido Comunista também é tensa, pois Deligny não alinha no catecismo pedagógico que a filiação exige, e tampouco se subordina aos especialistas, preferindo grupos e movimentos a psicólogos. O seu triplo inconformismo – político, institucional e pedagógico – será fatal para a Grand Cordée.

Deligny e os seus colaboradores começaram a seguir seus companheiros autistas à medida que avançavam pelo terreno rochoso de Cévennes, fazendo desenhos de linhas rudimentares para indicar a direção do seu movimento através do acampamento rural e na natureza selvagem circundante.
Após o fim da rede, Deligny opta por viver afastado das cidades, mas não é esquecido. Nos anos 60, convidam-no para trabalhar na clínica La Borde que é gerida pelos «pacientes» junto com a equipa médica e restantes funcionários, onde se encontra Félix Guattari. Deligny mantém-se à margem das terapias e análises, e dedica-se a outras atividades como um cineclube onde exibe filmes ativistas. Encaminham-lhe os pacientes «incuráveis» com quem a equipa não sabe o que fazer, e no final de 1966 conhece uma criança autista de 12 anos, Janmari, que o fascina por não ter linguagem verbal. Deligny pretende explorar abordagens que vão além da linguagem e da comunicação verbal subjacentes à prática clínica de La Borde, e muda-se para as montanhas Cévennes, em Monoblet, onde Guattari tem uma propriedade 12, para criar na aldeia vizinha de Graniès uma rede que acolhe pessoas autistas, tendo em vista a vida comunitária. A rede é composta por agricultores e assistentes sociais não especializados e sobrevive sem apoio público através da criação de cabras e de doações ocasionais, como as da banda Pink Floyd 13. Entre 1972 e 1975 documenta a experiência no filme Ce gamin, là 14, que se tornará num emblema da luta contra a institucionalização e o confinamento. Será uma das referências para a criação da rede Lugares de Vida que existe em França até hoje – pequenas estruturas médico-sociais que oferecem acolhimento e apoio a crianças em dificuldades familiares e psicológicas. Mas Deligny permanece na companhia de crianças e jovens autistas na aldeia de Graniès, que nunca mais deixará até à sua morte em 1996. Lá escreveu diversos livros e artigos para revistas, e a sua obra atraiu o interesse de Gilles Deleuze, que se inspirou nele para pensar o rizoma, a territorialização e a desterritorialização.
Deligny não procurou curar estas crianças. Certamente que o seu passado lhe permitiu estar bem com a ausência de expectativas. Ao não impor nada, dedicou-se a ajudá-las a florescer, procurando entender a sua forma de ser. Analisou os movimentos das pessoas autistas ao longo do tempo e traçou mapas com os seus trajetos. Escreveu «O aracniano» 15, onde refletiu sobre as redes que existem fugazmente e desaparecem quando os planos e os projetos se impõem, expandindo simultaneamente o conceito de linguagem e de ser humano para lá do simbólico e do querer. Suspeito que Deligny encontrou junto das pessoas autistas a recompensa que buscava: uma maneira de conviver radicalmente distinta da sociedade burguesa, que lhe permitiu continuar a ver o céu. As suas obras merecem ser recordadas não só pelos académicos que estudam a sua filosofia, mas pelos que poderão continuar o seu trabalho.
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Texto de Borboleta Azul, publicado no Jornal MAPA nr. 43 [Out. – Dez. 2024]
Notas:
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