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Lendo: Campanha pelo Boicote às Commodities Brasileiras

Campanha pelo Boicote às Commodities Brasileiras

Campanha pelo Boicote às Commodities Brasileiras


Em maio de 2022, chegou até os movimentos internacionais de apoio e suporte à resistência indígena uma denúncia chocante. Na comunidade Yanomami de Aracaçá, na Terra Indígena Yanomami em Roraima, já notoriamente acossada pela extração ilegal de minério, um grupo de garimpeiros realizou um ataque, violando e assassinando uma criança de 12 anos. Uma mulher da aldeia com o seu bebê teria sido atirada no rio, e o paradeiro de ambos seria desconhecido. A denúncia conseguiu romper o cerco informacional mantido pelas elites contra os povos indígenas pelas redes bem construídas dos Yanomami, que requisitaram intervenção do governo federal. Uma comitiva foi montada com representante de órgãos do governo e de organizações apoiadoras para visitar a aldeia de difícil acesso. Ao chegar lá, encontraram a aldeia destruída, incendiada até o chão, e nenhum sinal dos Yanomami. O caso ocorre meses após duas crianças Yanomami, de 4 e 7 anos, terem sido sugadas e mortas por uma draga de garimpo, maquinário utilizado na extração do ouro, em rio ocupado pelo extrativismo na Terra Indígena Yanomami.

No Mato Grosso do Sul (MS), a milhares de quilômetros de distância de Roraima, resistem os Guarani e Kaiowá frente a outro tipo de extrativismo: as monoculturas de soja, milho e cana-de-açúcar, e a pecuária. No dia 24 de junho, o Batalhão de Choque da Polícia Militar do MS, a mando do secretário de segurança pública, Antonio Carlos Videira, realizou um massacre contra os Guarani Kaiowá após a retomada de terra ancestral — Guapo’y Mirin Tujury — na região da Reserva Indígena de Amambai. Na ocasião, Vitor Fernandes, de 42 anos, foi assassinado por dois tiros de fuzil e mais de 30 pessoas ficaram feridas, incluindo crianças. Somente em 2022, além de Vitor, mais dois companheiros Guarani Kaiowá foram assassinados: Alex Lopes, de 18 anos, executado no dia 22 de maio por coletar lenha em área de floresta nas cercanias de uma fazenda que incide sobre seu território; e Márcio Moreira, uma das lideranças da Retomada de Amambai, executado em emboscada no dia 15 de julho. A fazenda retomada em Amambai é vinculada a Waldir Torelli, envolvido em redes transnacionais de exportação de carne e grãos para países asiáticos e europeus.

ANA_MENDES

A mineração ilegal de ouro é uma das principais responsáveis pela violência sofrida pelos povos amazónicos, junto com a retirada ilegal de madeira e a apropriação indevida de terra por fazendeiros para o plantio de soja e a criação de gado. No caso dos Guarani Kaiowá, as monoculturas espremem e violentam os Guarani e Kaiowá em pequenas reservas e nas beiras das estradas, restando a eles nenhuma alternativa que o movimento de retomar as suas terras ancestrais. Em nome do mercado internacional de commodities — matérias-primas oriundas da mineiração, agricultura ou pecuária, que possuem os seus preços fixados pelo mercado global e que podem ser comercializados em bolsas de valores —, em torno de 500 indígenas já foram mortos somente no MS desde 2003, como consequência da violência estatal e empresarial através de fazendeiros, seguranças privados, jagunços e policiais militares. A maior parte das exportações provenientes do MS atendem aos mercados europeus, asiáticos e dos Estados Unidos.

É quase impossível rastrear que ouro do Brasil provém de origem legal e qual provém de garimpo ilegal. O ouro proveniente de origem ilegal é maquiado de forma a parecer que vem de minas regularizadas. A mineração, em todos os casos, é uma forma de extrativismo irreformável, configurando-se como séria ameaça em muitos calendários e geografias. No caso da monocultura de grãos, cana-de-açúcar e pecuária, não existe produção em grande escala que não provoque danos socioambientais, em especial contra povos indígenas e tradicionais. As fronteiras agrícolas, em constante expansão, alimentam a sempre crescente fome do mercado de commodities, que especula em cima da destruição e da transformação de tudo que existe em mercadoria. 

A Europa é coautora do genocídio e destruição através de seu financiamento direto. O processo extrativista do ouro e da madeira e da produção de soja e carne bovina está inserido em um mercado global.

Não há no Brasil, por parte do Estado, nenhuma força ou mecanismo capaz de regular ou atenuar as consequências violentas das forças do capital. O Estado Brasileiro, de forma mais acentuada com o advento do bolsonarismo, alia-se com os grandes fazendeiros e intermediários do extrativismo para reprimir os povos e facilitar a sua exploração e a destruição da natureza. O que vivem os povos indígenas e tradicionais nesta situação é um verdadeiro genocídio. Em tempos de crise ambiental generalizada, devemos ter presente que a única força capaz de preservar os diferentes biomas de Abya Yala contra a ganância do capital e a mercantilização da vida são os povos indígenas e tradicionais que lá vivem.

A Europa é coautora do genocídio e destruição através de seu financiamento direto. O processo extrativista do ouro e da madeira e da produção de soja e carne bovina está inserido em um mercado global e num sistema de acumulação em prol dos países centrais do capitalismo. Em tempos de guerra na Ucrânia, onde vemos a comunidade internacional se mobilizando em prol de um boicote ao óleo russo, nos perguntamos o que falta para uma ação da mesma magnitude contra as commodities brasileiras. Apenas com uma pressão a nível internacional, aliada à resistência indígena ancestral, é possível barrar a destruição e o genocídio. 

Por isso, o Comitê de Solidariedade entre os Povos está propondo a construção de uma Campanha pelo Boicote às Commodities Brasileiras, direcionada ao ouro, à soja/milho, cana-de-açúcar e à carne bovina exportada pelo Brasil, enquanto não seja revertido o processo de genocídio e não seja assegurada a vida dos povos indígenas e tradicionais e a preservação das florestas e outros biomas brasileiros. A proposta é que haja um embargo internacional contra estes produtos, tornando ilegal a sua importação para o território europeu. Pretendemos construir essa campanha via iniciativa popular, através de um processo a médio prazo de conscientização que construa um grande movimento de solidariedade com os povos indígenas, em defesa das lutas anticoloniais por terra e liberdade, para então pressionar as instâncias decisórias do Estado português. A campanha já começou através da colagem de cartazes e alguns eventos de denúncia, e nos próximos meses lançaremos a petição de iniciativa legislativa para a Assembleia da República. Todo o apoio é necessário. Quem quiser se somar a essa iniciativa, entre em contato via e-mail ou redes sociais.

A solidariedade e o internacionalismo são mais que palavras escritas!

 


Texto do Comité de Solidariedade Entre os Povos — Portugal. [comitedesolidariedade@protonmail.com]
Fotografias de  Ana Mendes [apublica.org]


Artigo publicado no JornalMapa, edição #35, Setembro|Novembro 2022.


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