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Lendo: MIL E UMA DIATRIBES E UM SOPRO DE VIDA

MIL E UMA DIATRIBES E UM SOPRO DE VIDA

MIL E UMA DIATRIBES E UM SOPRO DE VIDA


(Neo)fascismos, democracia liberal, e o devir-esperança
(PARTE III)

Sejamos nus e gratos e serenos na força herdada,
Ruy Duarte de Carvalho

A luta é também encantamento. O poema que aqui tem lugar não busca apenas desatar os nós do capitaloceno e transgredir o desencantamento produzido pelo regime liberal: versa o encanto. Contra a queda na pulsão de morte e no luto físico e cósmico-espiritual do capitaloceno, a invocação das práticas comunitaristas em Portugal é reivindicada como potência política e génese poética, raízes inseparáveis para problematizar as políticas acerca da vida. As perspectivas de reencantamento tornam explícita a necessidade de transcender a condição de morte e infertilidade que assolam os conhecimentos e as monologias dominantes. O devir-esperança é uma via aberta às descontinuidades históricas e à transgressão das formas de sentir, pensar e fazer. Abre possibilidades de uma vida social mais livre, descentralizada e comunitária, desembaraçada dos valores da acumulação material e predisposta a revalorizar a beleza de uma existência social simplificada e em contacto directo com o meio natural. Repto nu do enigma e da força política das amarrações.

Era depois de um sonho. William Guest desperta numa manhã para se encontrar algures no início do séc. XXI e depara-se com uma sociedade que se transformou para além do reconhecimento possível: a vida nas grandes cidades ruralizou-se, a indústria foi desmantelada, a propriedade privada dos meios de produção soçobrou, o regime político hierarquizado e burocrático passou à história, dando lugar a uma sociedade sem sistemas de classes, nem tribunais, nem prisões, nem casamento ou divórcio, e onde a educação das crianças é autogerida. As pessoas parecem pacificadas ao disfrutarem de um estilo de vida frugal, comunitário e desacelerado. A utopia de William Morris 1 veio a lume em 1890 e o autor inglês, através do sonho do protagonista, profetizou as etapas históricas que conduziram ao advento dessa sociedade idealizada, pós-industrial e comunitarista: inicialmente previu uma revolução da classe trabalhadora que incluiu um período de dual power 2, depois vaticinou a tomada de poder por um movimento fascista quando a classe dominante se sentiu ameaçada, anteviu também o papel-chave de manipulação dos meios de comunicação social e, finalmente, prenunciou uma mudança substancial no seio da classe trabalhadora, passando esta a adoptar formas de organização descentralizadas e horizontais e a ser expressão de uma visão crítica ao industrialismo, transformações que permitiram encetar um verdadeiro processo de transição pós-capitalista. Ao ter falecido em 1896, Morris não pôde testemunhar nem os progressos das lutas emancipatórias nem os totalitarismos do século XX, muito menos presenciar a actual decadência do capitaloceno. Porém, o romance utópico News from Nowhere teve a virtude de antever a sociedade pós-capitalista e a mestria de nos transportar, com 130 anos de antecipação, para o momento histórico de impasse que atravessamos, o limbo entre o colapso da civilização capitalística e o beco sem saída dos paradigmas obsoletos das lutas políticas sistémicas. Curioso por saber como se deu esse passo de transição política e económica, que viria a desembocar numa vida social livre de capitalismo, descentralizada e comunitária, desembaraçada dos valores da acumulação material e predisposta a revalorizar a beleza de uma vida social simplificada e em contacto directo com o meio natural, Guest pergunta a um velho sábio se esse processo revolucionário “se produziu pacificamente”. O ancião responde-lhe de imediato com uma pergunta retórica: “Seria possível a paz e o bem-estar no caos e na desdita do capitalismo?”. Não satisfeito com a sua própria resposta, o velho Hammond emenda a sua formulação e explica que só teria sido possível evitar a violência, “no terrível período de transição entre a escravatura comercial e a liberdade”, se tivesse havido esperança. “A esperança parecia um sonho até mesmo para aqueles que a haviam concebido” 3, conclui.

A esperança parece um sonho mesmo para aqueles que a sentem no corpo… Esperançar é dar força ao destino que escolhemos determinar. Nesse sentido, como defendia Camus, a esperança é a ascese da revolta. É isto que está em jogo no mito de Sísifo: a revolta não é apenas absurda já que contém em si a esperança de ser maior do que o penhasco ou de ser capaz de descer ao covil do inferno – ou dos deuses – por saber que vai subir ao cume dessa montanha cheia de noite. Nem sempre a revolta é infalível, mas trata-se do método mais profundo e extático de ultrapassar a tragédia da condição humana, de ser contra a (sua) condição humana. Tragédia que mais não é do que o preço da consciência quando esta vence a alienação. Abrem-se os caminhos e o(s) nó(s) da encruzilhada. 12 de Março de 2012. Lembram-se? Congelada num instante de efervescência, viemos dizer: “Isto aqui está num impasse!”. O peso de vencer a alienação tem dois grandes atalhos. É que um ser consciente não é necessariamente um ser (mais) livre. Nem sempre se finca o pé no atalho. Quando a encruzilhada pede vida há um poema iniciático a ser cruzado como jogo de possibilidades. É aí-agora que dói: ou se fica, voltando aos tombos para trás, ou se muda e supravive para se inscrever no tempo e no espaço. Ou se mata em nós (mais) uma convicção ou se vai à luta por ela. Afinal talvez a revolta nunca falhe. Ensina: ou nos descobrimos por dentro na derrota, ou acreditamos, esperançados, que um novo caminho se abre. Nesse instante, depois de pregarmos aos quatro ventos que isto aqui é um impasse, voltámos aos tombos para casa. Enfiámo-nos em casa e nem sequer nos olhámos ao espelho: afinal, nós éramos/somos o impasse. Não percebemos ainda a falta que nos faz uma identidade directa entre o nosso movimento e o sentido político de o fazer. Não há saber que se manifeste sem o suporte físico que o encarne e não há prática de saberes sem os seus praticantes. Certo, carregamos às costas séculos de paternalismo e de igrejas, da missa católica aos salmos dos comités centrais. Uma relação axial de submissão à estratosfera das bíblias que pode estar onde menos se espera. Os galegos e as galegas, contendo o sorriso, sabem-no bem: “Vocês até à sombra da palmeira de uma constituição revolucionária ficaram…”. Com o sotaque de Chaves, para amaciar tão dura verdade… Porque a política é a sua efectivação. Ou não é.

Dissonantes em vários posicionamentos, Foucault e Castoriadis dão as mãos para enfatizar que a História é criação no sentido mais forte do termo: a História é a produção de descontinuidades. Se a descontinuidade e a criação de novas subjectividades e suas práticas fazem parte da história, significa que a estrutura social sempre apresenta graus de liberdade e de capacidade de regeneração. E se não há movimento de libertação e de revolta/regeneração sem a “carne”, não há “carne” que afirme e produza descontinuidades sem que esta antes se finque cognitivamente. No espírito, se ainda me não enviaram para a fogueira do vosso auto-de-fé. É nessa via que a proposta de descontinuidades históricas e a transgressão das formas de sentir, pensar e fazer abrem possibilidades de encantamento da vida e do estar nela.

o projecto de colonização antropocêntrico é irreversível há 500 anos com a escravização e extermínio de milhões de seres humanos e é renovado, a cada dia que passa, com os mais de 20 milhões de refugiados anuais por motivos climáticos, para citar apenas uma face actual do problema

A tecnologia e o controlo social do imaginário

Em 1956, Orwell (ou décadas antes, as distopias de Zamiatin e London…) pôs-nos debaixo do “tacão de aço” do Grande Irmão; em 1937, Huxley predisse que o controlo bio-político estaria a ser preparado bem além da indústria da propaganda e do complexo militar através da ciência bio-química e atingiria um grau universal e omnipresente como nenhuma civilização passada pôde sequer imaginar; em 1890, Morris revela que a transição para o pós-capitalismo, essa revolução mais difícil de imaginar que o fim do mundo (Jameson), precisa de um elemento fundamental: a esperança.

Nas últimas décadas, o totalitarismo dos regimes de poder, o fanatismo como polarização social, a violência generalizada e o sadismo refinado são elementos distópicos rentabilizados até à exaustão pela indústria do entretenimento. Entretanto, a imaginação de um futuro apocalíptico saiu de supetão da Netflix para aterrar no quotidiano das nossas vidas. Um inesperado mérito atribuível à gestão da sindemia causada pelo corona vírus. Se uma virtude improvável teve a sindemia foi a de tornar verosímil, a uma vasta camada da população, que o colapso sistémico da civilização do capitaloceno pode muito bem acontecer. Resta saber que papel efectivo na indução política das massas tem o treino omnipresente do imaginário social através do transe hipnótico de centenas de séries, romances, filmes, bandas desenhadas, jogos de vídeo e notícias que apresentam um futuro distópico, em que a humanidade parece condenada a lutar pela sua sobrevivência – força totémica do liberalismo económico –, num ambiente devastado e dominado por regimes políticos próximos do fascismo.

Por um lado, a trip de imagens distópicas conduz a um efeito de distorção da realidade que nos leva a admitir na ficção a veracidade daquilo que recusamos ver na vida real. Ao insistir-se em projectar a realidade contra um imaginário simbólico, hiperbólico e brutal, a miséria do dia-a-dia passa a parecer um inferno menos mau e suportável, uma quarentena social com as suas imperfeições reformáveis, quiçá um paraíso de sofá traficado como numa lavagem de dinheiro através de uma ilha tropical. Talvez tudo afinal não passe de um mal-estar passageiro com o mundo até que caímos no tédio do nosso próprio poço, como Cnémon, o misantropo da mitologia grega, onde nos deixamos afogar sem desejo de voltar à tona. Por outro, mais grave, o público parece ser forçado a aceitar uma visão de futuro em que a maioria da população luta pela sobrevivência no meio da escassez e da opressão enquanto uma classe oligárquica podre de rica abandona o planeta para viver em comunidades espaciais, organizadas sob princípios de… democracia directa. Distopias para as massas e utopias marcianas para as elites.

Nunca a afirmação supersticiosa de que lutamos contra as forças do mal pareceu tão problemática de refutar mesmo para a tradição secular da crítica social. De acordo com as visões surreais geradas pela vanguarda capitalística, num contexto cultural dominado por uma visão apocalíptica da realidade do nosso futuro, a vida humana já não estaria confinada apenas à Terra, mas poderia expandir-se e colonizar diferentes partes do sistema solar. A repetição desta visão muskiana e bezonesca, inspirada nos rudimentos individualistas e antropogénicos do Iluminismo e amparada pela estética e técnica da Inteligência Artificial, permite estabelecer na opinião pública a ideia de que a legitimidade de uma colonização espacial guiada por interesses privados de enriquecimento é aceitável. Uma fantasmagoria que vai mais longe ao tornar admissível que, no caso de uma deterioração irreversível das condições de vida no planeta, aqueles que a si mesmos destinam essa distopia possam permitir-se-lo, independentemente do destino dos restantes 7,9 bilhões de seres humanos. Um curto passo atrás… Impõe-se rectificar que o projecto de colonização antropocêntrico é irreversível há 500 anos com a escravização e extermínio de milhões de seres humanos e é renovado, a cada dia que passa, com os mais de 20 milhões de refugiados anuais por motivos climáticos, para citar apenas uma face actual do problema. Este milenarismo liberal, esta missão desmesurada de expandir sem limites as possibilidades de um indivíduo, acima da natureza e contra toda a sociedade, é a continuação da ruptura histórica com o mundo natural. Apoteose da supremacia iníqua e pornográfica do indivíduo liberal sobre a Natureza e a Sociedade. O fio invisível de uma narrativa louvada de modo tempestuoso com nós de vapor e fibra de aço desde a ode marítima da Modernidade. A negação do natural fundamenta não só a ordem civilizada com o seu regime político de extermínio e escravização, mas institui um império epistemológico de como olhar para a existência (o corpo), uma técnica que coisifica o ser, separando-o da sua própria natureza e desfigurando-a a partir do mesmo ideal de expansão material. Destituídos dessa continuidade cultural e espiritual com a nossa própria natureza pelo triunfo da racionalidade ocidental, essa “monocultura da mentalidade” como diz Vandana Shiva, que organiza a vida num regime de serialidade e de atomização, o ser é também o contínuo que se perdeu. Não admira que num percurso de falsificações da vida humana – do sustento, da ecologia política das relações humanas, do regime sensível, da visão estética e da beleza, do amor e da espiritualidade –, o ser limitado que somos e ainda mais limitado por um mundo instrumentado, com funcionalidades que fascizam o corpo e a mente, tenha perdido a esperança. “Esse instinto de liberdade”, nas palavras de William Morris.

E agora José? E Josefina?

Não se acorda de um pesadelo interminável da noite para o dia, nem as populações se vão erguer de um sono duradouro com receitas infalíveis. Desaprender a condição de consumir a terra como reis do mundo e rebelar-se contra o estado de exploração e de dominação do outro demora mais do que riscar um fósforo. Entretanto, perdemos a magia da transcendência. Pisámos a terra, sujámos as águas, conquistámos as estrelas. Pior, calcámos a bondade animal da vagina. Tanto medo, para quê? Ninguém pode levar a mudança na hipótese nem levar a vida (só) na razão. É que a “crítica” não é a razão da nossa permanência 4, porque a nossa (im)permanência é a criação. Cria-acção. “Instinto de vida”. Não temam, o feitiço do(s) devir(es)-esperança não correrá o risco de ser elaborado como uma vacina mensageira dos “amanhãs-que-cantam”.

O anjo da História

O anjo da História de Benjamin tem de atravessar um caminho de sombras para descortinar os futuros que foram enterrados em momentos de ruptura histórica das sociedades. Uma virtualidade (ou a virtú de Maquiavel) que foi interrompida. Interrompida, desnaturada, humilhada, aniquilada… Emparedados, “há então os que ganham a ira e perdem o amor”, como lembrava António José Forte. Redescobrir os indícios desses futuros no passado e religá-los a um futuro no presente é uma tarefa árdua e solitária, e, ao mesmo tempo, nevrálgica e apaixonante. Um empreendimento que se presta à estupefacção e paternalismo das correntes progressistas de esquerda (incluindo as provenientes do meio libertário), amarradas à democracia liberal e ao bem-estar (?) consumista; e ao risco do desprezo da tara ordinária da pós-modernidade com a sua inexorável e conservadora repetição oca da inovação, do reformismo, do reajuste, criptograma da repetição e da assombralogia que produz uma psico-sugestibilidade, o tedioso e incessantemente reinado da renovação de um discurso que não é mais do que um autoritarismo da “mudança”, quando a única coisa que se renova e progride é a degradação humana, do meio natural e das relações ecossistémicas. Árduo e “solitário” porque o estudo dos indícios da nossa ancestralidade política, a visibilidade e o resgate da cultura comunitarista em Portugal, ainda tem tanto por fazer (ver os próximos artigos desta série). Nevrálgica porque é ela que permite a revogação das evidências e mistificações em que assenta a normalidade da dominação liberal e estatolátrica. Essencial porque ela nos faz parar de render a essa narrativa do fim do mundo, que nos faz sentir impotentes e desistir de outras formas de vida e de outros mundos possíveis. Por fim, apaixonante porque nela se encontram os sinais claros da reconstituição de um mundo sensível comum, de um habitat comum, porque resulta do entrelaçamento com um estado das coisas no qual a ideia de comunidade e partilha sensível voltam ao coração da política. Porque é preciso perder a ira e reganhar o amor… Apesar de frágeis e esparsos, esses indícios continuam inscritos na carne e na alma, agora e aqui, hic et nunc, não só latentes mas viventes. É nesse mundo profanado à nossa própria ancestralidade que podemos buscar condições de soberania e sentires mais humanos para criar outras formas de viver a vida… Como dizia um povo indígena do Cauca, “há algo pior do que a morte: é o fim do nascimento”.

o totalitarismo dos regimes de poder, o fanatismo como polarização social, a violência generalizada e o sadismo refinado são elementos distópicos rentabilizados até à exaustão pela indústria do entretenimento.

Assim Falou Transmonstro

Era depois do futuro. O medo é o principal inquilino que habita a divisão especulativa onde estamos encarcerados, mortificados por medidas sanitárias que neutralizam o que restava da nossa anima e aflitos por nos sabermos emparedados com o que resta da nossa alma. Ali encontramos em pânico a nossa própria vida nua. Encerrados neste espaço celular e solitário, assistindo até à exaustão às vertigens maquinais, descarregadas pelo Big-data de um Grande Irmão que hoje nos causa nostalgias improváveis, a quem obedecemos sem dor e ofertamos suspiros de graça, somos um corpo de exilados sem história. É esse corpo sem história e desunido – da memória do lugar, da ancestralidade, dos outros e, claro, de si mesmo –, esse monólogo de refugiados netf(l)iz-gado sob as estações orbitais 5G, que melhor se prestará a fio condutor do conto que o cyborguismo nos predestina, com a sua paixão triste, gargantuesca e narcísica. Clarice Lispector transitava: “O que nos distingue do cão é a nossa capacidade para futurizar”.

As mais simples ações do quotidiano – da orientação geográfica à gestão logística passando pela comunicação e a satisfação de necessidades – fazem-se mediar por dispositivos computacionais programados em função de um entendimento de vida – uma ideologia predatória – enquanto actividade orientada para a produtividade, extracção de lucro e optimização. Este nefasto processo sociológico avança sob o signo da omnipresença, da separação aumentada da realidade e da aceleração. Um futuro transhumano que nos coloniza, assapando a toda a fúria…

Ao contrário do discurso mitológico sobre as novas tecnologias, o economista Cédric Durand demonstra em Technoféodalisme: Critique de l’économie numérique como a digitalização do mundo não conduziu ao progresso humano, mas a uma gigantesca regressão em todos os âmbitos: restauração dos monopólios, manipulação política, privilégios e a legitimação fantasiosa de uma missão de predação global como verdadeira identidade da nova economia. Não é preciso ir a Delfos para ficarmos a saber em que assenta o mito do Vale do Silício (e das suas réplicas): acumulação escandalosa de lucros, desigualdades sociais inconcebíveis, desemprego crónico e precarização laboral, favorecimento das tecnoditaduras, um punhado de tecno-oligarcas que acumulam fortunas jamais vistas, perversão absoluta dos relacionamentos e o agravamento de toda a sorte de dependências como falsas soluções, lisas e efémeras, para as dores da perda da autonomia e do amor-próprio.

Envolto em ruído e fúria, o trans-Ele chega a toda a brida. A crítica também parece inapta a imunizar-se a este pós-futuro. Mesmo quando esta encontra a sua presa com surpreendente facilidade, tantas vezes perde a energia necessária para tecer trocas humanas de cuidados e afectos, incapaz de jurar compromissos políticos afins à subversão dos valores dominantes, pelo que a crítica e os gestos simbólicos se esgotam e afogam na sua própria impotência enquanto os rituais do capital permanecem intactos. Não há futuros interditos à figuração lucrativa, nem desobediência à dependência estatista, nem devires heterónomos à salvação no transhumanismo digital.

Na esteira da arqueologia do pensamento de Foucault, Guattari preferia a fórmula Capitalismo Mundial Integrado ao conceito liso de globalização, por precisamente o modelo cultural capitalístico ter colonizado o conjunto das sociedades, os seus territórios, as suas relações sociais e afectivas. Um processo de instrumentalização das mentalidades que industriou as forças do desejo, da criação e da acção como principais fonte de extracção da mais-valia, em lugar da simples exploração da força mecânica do trabalho. Duas realidades que são justapostas na sociedade contemporânea, numa espécie de simbiose e sincretismo trans-mercantilista. Trata-se de uma instância que tudo absorve e depois regurgita sob a forma de mercadoria, fetichismo, reificação, neurose, pânico e isolamento. Há uma besta indestrutível por toda a parte. Porquê? Porque, acima de tudo, está dentro de nós.

O espírito crava na carne o desejo que o supera

Como desconstruir a superstição do medo e o encantamento das promessas do capitaloceno? Mais do que isso, como devolver esperança aos seres únicos, integrais e sociais, processados pelo totalitarismo das almas (Lordon)?É aqui que esbarramos contra a absoluta ausência de pensamento utópico no mundo actual. É aqui que percebemos a principal razão pela qual a ideologia hegemónica (Gramsci), não só a cultura capitalística mas também as outras ideologias antagónicas cujos acordes continuam a modular o campo de acção das lutas sociais, conseguiu criar o presente contínuo em que vivemos, um presente em que não há espaço possível para qualquer acto de imaginação que procure ultrapassar estes muros. TINA. There is no alternative. Haverá esperança sem horizontes utópicos e heterónomos? Não há carne que afirme a descontinuidade sem que esta antes se tenha cravado no espírito.

Sabem quem aprendeu essa lição de cor? Não é por acaso que a política esvaziada na sua condição ontológica – o termo medroso que a epistemologia racionalista usa para evitar a palavra espiritualidade… – traduz em plenitude o conceito de bio-política, como mera gestão administrativa, jurídica e económica dos recursos humanos e populacionais à disposição do poder soberano. Tal condição evidencia segundo Agamben que o paradigma performativo das sociedades contemporâneas, mérito do dogma neo-liberal de entender a (ausência de) vida política, é o campo de concentração. O bio-poder capitalístico é mais do que um conceito carnal. Espezinha a totalidade do corpo ao esvaziá-lo de todos os seus (auto)desejos.

A sindemia causada pelo corona vírus apresentou-se como uma oportunidade para experimentos que assumem como objecto indivíduos e sociedades inteiras, com o intuito de afirmar o estado de exceção como técnica político-jurídica e administrativa permanente de governo. É a grande revelação política da gestão pandémica. Dois anos de suspensão intermitente de direitos básicos comprovam-no. Um tipo de administrabilidade gerido por estruturas de governança estatais e supra-estatais que submetem os interesses públicos, o bem comum e os bens de uso comum, aos interesses privados de indivíduos e corporações, impondo em plenitude a afirmação da bio-política e das estratégias de bio-poder, teorizadas em Homo sacer: O poder soberano e a vida nua, que incidem directamente, por meios de técnicas de poder e saber, sobre o governo da vida biológica de indivíduos e de populações. Decorridos dois anos de síndrome da excepção política, portadora de uma “global governance” autocrática, não colocar por hipótese o limiar de normalização política deste modelo e da sua correlativa aceitação social é menosprezar as evidências, uma pura superstição. “Além da situação de emergência ligada a um certo vírus que no futuro poderá dar lugar a outro”, Agamben desentranha essa lógica considerando que “está em questão o desenho de um paradigma de governo cuja eficácia supera muito a de todas as formas de governo que a história política do Ocidente já conheceu” 5.

A argumentação do filósofo italiano vai ao encontro de argumentos fundamentados na investigação ímpar levada a cabo pela escola de interpretação da etiologia da doença (Structural One Health), cuja finalidade é determinar como as pandemias na economia global contemporânea estão ligadas aos circuitos do capital, circuitos que estão a mudar rapidamente as condições do meio natural e da sua habitabilidade 6. Embora o ponto de partida do uso de métodos de bio-poder como controlo político das sociedades remonte pelo menos às experiências totalitárias e circunscritas dos anos 30 do século XX, actualmente o poder dominante passou um umbral ao aplicar as técnicas de bio-controlo de forma globalizada e irrestrita, transversalmente e em escala, a todas as faixas etárias e classes sociais, em todos os pontos geográficos… Todavia a bio-política não esconde a manifestação clássica da (outra) barbárie a que o capitalismo condenou a humanidade. A gestão neo-liberal da pandemia consumou-se também como um “genocídio de mercado”: enriqueceu ainda mais o segmento super-rico de 1% da população mundial enquanto condenou milhões de seres humanos no planeta à pobreza. Afinal estamos perante a continuidade da história contemporânea, o modelo de poder do capitaloceno amparado pelas estruturas estatais e trans-estatais: mercantilização, colonização e imperialismo. Essa “máquina-de-comer-mundos”, nas palavras do poeta Carlos Drummond de Andrade. Mundos escravizados e exterminados pelas formas capitalísticas e patriarcais.

A pós-modernidade reclama a infalibilidade do seu corpus técnico, além de reclamar o estatuto neutral da tecnologia. Por um lado, observamos a evidente contradição de um sistema que se vende como tecno-eficiente, omnisciente e omnipotente, mas que se revelou impotente para solucionar de forma sensata e rápida, humana e justa a pandemia da SARS-CoV-2. Por outro, não menos pertinente, de acordo com as investigações científicas prevalecentes que classificam o corona vírus como uma zoonose e inferem uma correlação do aparecimento do vírus com a degradação intensiva dos ecossistemas em nome da máxima rentabilidade no menor espaço de tempo, seria lógico adicionar que o aparato tecnológico, supostamente milagroso, é um dos vectores desta equação que conduz à monstruosa artificialização da vida como um todo e à tremenda degeneração fisiológica do ser humano, ao descarregar a sua mega-maquinaria, da linha de comandos à linha de montagem, em toda a superfície do planeta terra, uma constatação que deita por terra qualquer pretensão de elevar a techné a um estatuto de neutralidade. Se a Modernidade nunca foi moderna senão no seu próprio discurso – e nos hinos de Whitman e Campos… –, retóricas patriarcais de cobrição do seu signo constante (a colonização, a escravização e o genocídio), talvez um dia a História caracterize a Pós-Modernidade como a idade das trevas vintage, meta-equipada e sem fios…

Mas os fios que agora se romperam tocaram em cordas mais profundas do ser humano. Não ver para lá da suspensão intermitente de direitos básicos é perpetuar ainda um olhar colonizado pelas formas de pensar do capitaloceno. Preconceito civilizado da subjectividade liberal que habita a esquerda, da renúncia social-democrata às modulações contraditórias do anarquismo. Quebrou-se muito mais do que essas simples regras do jogo. Uma sociedade que manda os seus prisioneiros enterrar num ilhéu os mortos não reclamados é de uma perfídia que não tem nome. Uma sociedade que te impede de enterrar os teus mortos em paz é uma sociedade que destrói o renascimento. Uma sociedade que foi capaz até de controlar as tuas lágrimas, se podes ou não chorar e quando… é a sociedade que exige o regresso de Antígona. “Há algo pior do que a morte: é o fim do nascimento”. Um outro indígena, ancestral bem próximo de todas nós, variava a mesma frase dos nativos do Cauca mas a partir das fragas geresianas: “Nesse mundo sagrado [do comunitarismo], onde a vida é um rito demorado, até a morte era um segundo nascimento” 7.

[fim do artigo 1 da PARTE III]

 


Ilustraçōes de António Luís Catarino


Artigo publicado no JornalMapa, edição #34, Maio|Julho 2022.

Notas:

  1. Poeta, ilustrador, ambientalista de belos livros, William Morris (1834-96) foi um escritor socialista e um visionário empenhado, obsessivamente preocupado com a luta para alcançar uma sociedade perfeita. News from Nowhere, uma das obras mais significativas sobre o tema da utopia, foi escrito como uma resposta socialista libertária ao livro Looking Backward, que retrata um modelo de socialismo de estado que Morris abominava.
  2. Termo utilizado pela primeira vez pelo líder bolchevique Vladimir Lenin (1870 – 1924) num artigo do Pravda que pretendia sintetizar a coexistência de dois poderes distintos que disputavam a legitimidade política na sequência da Revolução de Fevereiro de 1917 na Rússia: os “sovietes” (conselhos de trabalhadores), particularmente o Soviet de Petrogrado, e a contribuição do aparelho de Estado oficial do Governo Provisório russo dos social-democratas.
  3. Noticias de ninguna parte, William Morris, Capitán Swing, Madrid, 2011, p. 157
  4. Alusão ao verso de António Maria Lisboa, “criticar, eis a nossa função positiva”.
  5. “Biossegurança e política”, Agamben. Disponível no link: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/598847-biosseguranca-e-politica-artigo-de-giorgio-agamben. Acedido em 24.06.2020
  6. Estudos amplamente citados e louvados num artigo de John Belamy Foster e Intan Suwandi, “Covid-19 y el capitalismo catastrófico”e que confirmam a tese central de David Quammen, escritor americano especialista em ciência e natureza que em 2012 na obra Spillover – Animal Infections and the Next Human Pandemic previu o aparecimento de uma pandemia zoonótipa.
  7. Requiem, Miguel Torga, Diário XI, 1968


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