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Lendo: Vidas Singulares de Resistência e Luta

Vidas Singulares de Resistência e Luta

Vidas Singulares de Resistência e Luta


Adolfo Kamisnky foi um especialista na falsificação de «papéis» e José Hipólito dos Santos foi o seu primeiro aluno português e um dos últimos a quem deu formação nesta arte, em França. A publicação recente da biografia de Kaminsky e a sua relação com Portugal e os movimentos de libertação das ex-colónias são motivos de sobra para uma evocação.

Adolfo Kaminsky foi um dos mais importantes falsificadores de «papéis» da resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial, pese embora a sua juventude. Produzia documentos falsos para salvar a vida de crianças e adultos judeus perseguidos e para facilitar a acção clandestina de todos os movimentos de resistência, para os quais trabalhava indistintamente.

Acabado o conflito, manteve esta actividade clandestina nas três décadas seguintes, fornecendo ou ensinando a fazer documentação falsa a lutadores das mais diversas causas, dos movimentos anti-coloniais africanos (Argélia, Guiné, Guiné-Bissau, Angola e África do Sul), aos movimentos revolucionários da América Latina (Argentina, Brasil Venezuela, Salvador, Nicarágua, Colômbia, México, Peru, Uruguai e Chile), objectores de consciência norte-americanos durante a guerra do Vietname, até aos opositores das ditaduras instaladas em Espanha, Grécia e Portugal.

Esta actividade foi dada a conhecer publicamente, em 2010, com a publicação do livro Adolfo Kaminsky, une vie de faussaire, da autoria da sua filha, Sarah Kaminsky, nascida alguns anos depois de o pai ter cessado as falsificações, em 1971, e de se ter instalado na Argélia, onde iniciou uma relação amorosa, que ainda hoje perdura, com a sua mãe, Leïla, uma estudante tuaregue envolvida no apoio aos movimentos de libertação das colónias africanas, que passaram a dispôr de representações permanentes em Argel depois da declaração de independência daquela ex-colónia francesa.

No mesmo ano do lançamento em França desta biografia, Adolfo Kaminsky deslocou-se a Lisboa para participar numa apresentação da obra, a convite de José Hipólito dos Santos 1, «um dos alunos excelentes» que teve e o primeiro português a quem ensinou as artes da falsificação, como conta na entrevista que aquí publicamos. Naquele evento, José Hipólito apresentou-o assim:

«É com grande emoção que me sento aqui ao lado de Adolfo Kaminsky. Conheci-o em 1969. Fora-me indicado por gente ligada à guerra pela independência da Argélia e devia ajudar-me na criação de um serviço de falsificação de papéis para as actividades da LUAR. Só mais tarde vim a saber quem era a personagem, um falsificador pelas boas causas, sempre mergulhado em situações paradoxais: Filho de pais russos, é argentino. Manteve a nacionalidade argentina, mas só lá viveu até aos 5 anos. Foi internado num campo de concentração, em Drancy, França, mas conseguiu escapar à deportação para Auschwitz. Foi oficial do exército francês e até condecorado, sem ser francês e sem ter feito o serviço militar, tinha então 19 anos. Quando acaba a guerra, demite-se. Judeu de nascimento, colaborou com grupos judeus que impuseram a implantação do estado de Israel, mas, quando este se tornou um estado religioso, afastou-se. A sua colaboração inicial fá-lo integrar o quadro dos «justos». Tornou-se herói da guerra da independência da Argélia, um moudjahidine condecorado. Casou com uma mulher muçulmana militante anti-colonialista. Militante pacifista, salvou da morte milhares de pessoas, participando em muitas guerras sem usar uma arma. Só tinha a instrução primária, mas foi professor da Escola Superior de Belas Artes de Argel. Falsificou muito dinheiro, ainda que tenha vivido sempre com grandes dificuldades financeiras. Por isto tudo, só conseguiu a nacionalidade francesa com quase 70 anos!».

O meu envolvimento em todas estas lutas foi a sequência lógica da minha acção durante a Resistência.

Neste breve relato Hipólito sintetiza a vida extraordinária deste homem e atiça a vontade de conhecer pormenores. Esta curiosidade pode ser satisfeita na leitura da recente edição 2 em língua portuguesa da obra que nos mergulha no âmago de uma história de clandestinidade, de implicação, de suspense. Em pano de fundo, o espectro de um século em que se confrotam poderes politicos, ódios raciais, ideologias e lutas de povos pela sua liberdade e pela dignidade humana. Adolfo implicou-se nesses combates, arriscando a vida e pagando o preço de grandes sacrifícios, fiel às suas convicções humanistas e à sua vontade de participar na criação de um mundo justo e livre.

Adolfo Kaminsky iniciou-se em 1943, com apenas 17 anos de idade, no fabrico artesanal de documentos falsos, graças aos conhecimentos de química adquiridos nos 3 anos anteriores numa tinturaria. Participa desde então na luta contra o tempo para salvar o maior número possível de judeus do extermínio. Não sabia ainda que entrava numa engrenagem infernal, numa corrida contra o relógio, contra a morte, em que cada minuto tem o valor de uma vida. Poucos meses depois, Kaminsky tinha-se tornado num importante perito em «papéis» falsos da Resistência, na cidade de Paris ocupada pelos nazis, mantendo esta actividade até depois da expulsão do exército alemão. Nos trinta anos seguintes, fazendo justiça ao seu princípio de que «tudo o que foi feito e imaginado por um homem pode certamente ser reproduzido por outro» (pag. 126) executará a actividade meticulosa de falsificador para inúmeras causas, sem nunca tirar proveito económico.

Kit de falsificação de carimbos

Kit de falsificação de carimbos. Fotografia do Centro Documentação 25 de Abril U. C. – Arq. J. Hipólito Santos.

Àqueles que não compreendem os motivos do seu envolvimento posterior à Segunda Guerra Mundial (o apoio às redes de evasão dos judeus para a Palestina, aos republicanos espanhóis no exílio, a sua integração na rede Jeanson 3 de apoio à independência da Argélia e em todas as outras causas já referidas) e que questionavam: «se já não está em perigo, para quê continuar a arriscar-se a ser preso ou assassinado por causa de conflitos longínquos?», Adolfo Kaminsky responde a fechar esta biografia: «O meu envolvimento em todas estas lutas foi a sequência lógica da minha acção durante a Resistência. Em 1944, compreendi que a liberdade se poderia conseguir com a determinação e a bravura de um punhado de homens. A ilegalidade, desde que não desrespeitasse nem a honra nem os valores humanistas, era um meio sério e eficaz a considerar. À minha maneira e com as únicas armas de que dispunha – as dos conhecimentos técnicos, da invenção e das utopias inabaláveis –, combati, durante quase trinta anos, uma realidade muito penosa de observar ou sentir sem nada fazer, graças à convicção de deter o poder de modificar o rumo das coisas, que havia um mundo melhor para criar e que eu podia contribuir para ele. Um mundo onde ninguém mais precisasse de um falsificador. Continuo a sonhar com ele».

Com a quantidade imensa de seres humanos confinados em campos de refugiados ou deambulando nas imediações das fronteiras por todo o planeta, fica-nos a impressão de que estamos cada vez mais longe do mundo sonhado por Kaminsky e haverá que continuar, como ele, «defendendo firmemente a ideia de qualquer indivíduo, em especial se é perseguido e a sua vida está em perigo, poder beneficiar do direito de circular livremente, atravessar fronteiras e escolher o destino do seu exílio» (pág. 85).

 


Texto de Irene Hipólito dos Santos e Fernando Silva

Fotografia [em destaque] do Centro Documentação 25 de Abril U. C. – Arq. J. Hipólito Santos. “Estojo de falsificação que Kaminsky deu a José Hipólito dos Santos no final da sua formação”


Artigo publicado no JornalMapa, edição #31, Julho|Setembro 2021.


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Notas:

  1. A Constância de José Hipólito dos Santos. Artigo publicado na edição nº 19 do Jornal MAPA. Pode ler-se aquí: https://www.jornalmapa.pt/2018/02/28/in-memoriam-constancia-jose-hipolito-santos/
  2. Adolfo Kaminsky: o falsificador, por Sarah Kaminsky. Bertrand Editora. Setembro, 2020. Lisboa.
  3. Perante a passividade da esquerda francesa face à guerra colonial declarada na Argélia (o socialista François Miterrand era o ministro do interior neste período e o Partido Comunista Francês só nas vésperas da independência tomou uma posição clara contra a guerra), a oposição foi protagonizada por sectores cuja influência na sociedade francesa era minoritária. A rede clandestina mais importante de apoio, em França, à FLN (Frente de Libertação Nacional argelina) foi criada por Francis Jeanson e era formada por individualidades anti-colonialistas oriundas da esquerda revolucionária, anarquistas e cristãos. O seu objectivo era «ajudar os argelinos a ganhar a guerra pela independência o mais depressa possível, para poupar às duas partes perdas humanas inúteis». Considerados traidores pelo regime e por uma parte relevante da opinião pública, dedicavam-se principalmente ao apoio logístico, ao fabrico de documentação falsa e a conseguir e transportar fundos.

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Jornal Mapa

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