shop-cart

Lendo: Ateus, libertários e iconoclastas

Ateus, libertários e iconoclastas

Ateus, libertários e iconoclastas


As últimas décadas trouxeram muitas surpresas e uma das mais sinistras foi o regresso do fanatismo religioso. Como ateu e libertário, um dos componentes do discurso anarquista que mais me motivou na minha militância inicial foi o anti-clericalismo e a crítica da religião. Os textos de Proudhon, Bakunin e Sebastian Faure ou, entre nós, de Tomás da Fonseca e Roberto das Neves foram decisivos na minha formação. Se já não conheci o pior do catolicismo tradicional, ainda frequentei, em criança, as igrejas escuras cheirando a morte, incenso e bafio e convivi com o catolicismo reaccionário português anterior ao Concilio do Vaticano II. Vi com os meus olhos como a igreja portuguesa ficou incomodada com a queda da ditadura e saiu da sua acomodação salazarista naqueles anos do PREC, mobilizando os camponeses do norte para manifestações e incêndio de sedes de partidos de esquerda, como o havia feito, no passado, contra o liberalismo e a república.

Apesar disso, com o tempo, acabei reconhecendo as mudanças ocorridas no cristianismo e conheci pessoas como o iconoclasta Padre Mário Oliveira, o meu amigo Carlos Diaz, cristão anarquista, descobri pensadores judeus libertários, como Martin Buber, e travei relações com cristãos das comunidades de base ligados à Teologia da Libertação, no Brasil. Não puseram em causa as minhas convicções ateias, mas contribuíam para que eu visse as religiões de um ponto de vista mais favorável, e compreendesse o papel da espiritualidade e da mística religiosa para muitas pessoas. Passei a reconhecer que o problema da mudança social não passa hoje pela luta, como foi no passado, contra a religião em si mesma, mas contra as classes dominantes que são, em grande medida, materialistas. As nossas alianças já não podem ser, como no século XIX e começo do século XX, com a burguesia “progressista” e anti-clerical que, por trás dessa modernidade iluminista, escondia a sua sede de poder. O ajuste de contas histórico na Revolução Espanhola com o clero reaccionário, com fuzilamentos e incêndio de igrejas, que não foi exclusivo dos anarquistas, pode compreender-se dentro da guerra social que opunha as diferentes classes e grupos sociais na Espanha moderna, e pela história da Igreja, mas está longe do que são os objectivos de uma mudança libertária radical. Tudo isso é passado.

Assistimos também à falência das sociedades materialistas do chamado socialismo real, onde se impunha o marxismo-leninismo como religião e dogma, o que nos ensinou que o ateísmo não é algo que possa ser ensinado nas escolas e menos ainda imposto burocraticamente pelo Estado a uma comunidade.

Chegados ao novo século, mas não de repente, porque o fundamentalismo cristão vinha a crescer nos EUA desde os anos 70, e os ayatollahs haviam tomado conta do poder no Irão nos anos 80, o fanatismo religioso reentrou nas nossas vidas de forma ameaçadora. Os fanáticos cristãos, judeus, hindus e islâmicos querem impor novamente as suas convicções sectárias e apropriar-se do Estado para o tornar um instrumento das suas crenças. Quando parecia que nos tínhamos livrado, pelo menos na Europa, das Inquisições, da censura religiosa, do fanatismo religioso, do imperialismo papal, do estado confessional, regressam essas ameaças através de grupos religiosos das mais diversas origens.

É tempo de os libertários retomarem urgentemente o seu discurso anti-clerical, questionando todo o reacionarismo religioso e todas as estruturas de poder religiosos

Nos EUA e no Brasil, as seitas evangélicas e pentecostais, autênticas empresas de extorsão, adquirem uma força e poder impensáveis há uns anos, que se começa a espalhar pela América Latina e África. Da mesma forma, o poder sectário dos ortodoxos regressou após a queda dos Partidos Comunistas no Leste da Europa, regressando também os católicos fundamentalistas na Polónia ou os fanáticos judeus em Israel. Por todo o lado, do Islão agressivo e fanático que se espalha como uma mancha de óleo sujo. Todos estes movimentos formam uma vaga sinistra que ameaça a liberdade e o livre-pensamento em todas as sociedades.

É neste contexto de desastre que alguns intelectuais, em nome do multiculturalismo, recusam a crítica das religiões e defendem as práticas sectárias e reaccionárias dos grupos religiosos arcaicos em nome da diversidade. O que, no passado, foi combatido tenazmente, o conservadorismo e reaccionarismo do cristianismo, hoje temos de tolerar nos grupos fundamentalistas das outras religiões, em nome desse tal multiculturalismo. Do véu à burka, do machismo à homofobia predominantes no Islão conservador, dos casamentos negociados às práticas rituais de excisão feminina, da extorsão das esmolas à fabricação dos milagres dos ditos cristãos pentecostais, tudo pode ter cobertura em nome da liberdade de crença e da diversidade cultural. Só podemos, eventualmente, criticar os cristãos e o clero romano e suas práticas de abuso e pedofilia, pois se o fizermos em relação aos muçulmanos e judeus, seremos acusados de islamófobicos ou anti-semitas.

É, pois, o tempo de os libertários retomarem urgentemente o seu discurso anti-clerical, questionando todo o reacionarismo religioso e todas as estruturas de poder religioso. Se, no passado, o foco era Roma e o papado, hoje devem ser as novas igrejas cristãs fundamentalistas, o Islão, o hinduísmo e o judaísmo fanático. Particularmente o Islão, pois tem um projecto político agressivo e expansionista que pretende impor por todo o lado através da guerra santa.

Não é aceitável que, em nome da diversidade e da liberdade de crença, valores caros aos libertários, se pretenda impor uma mordaça às críticas ao fanatismo religioso agressivo e a costumes arcaicos, que já deveriam ter sido enterrados pela história. As práticas violentas e autoritárias religiosas, mais ainda o terrorismo religioso, não são aceitáveis para nenhum libertário, e o poder teocrático não é menos ameaçadoras do que as classes e elites dominantes racionalistas e agnósticas do ocidente, pelo contrário, representam o retorno a formas arcaicas de dominação.

Reconhecer, principalmente nós os ibéricos, que o Islão, tal como o Cristianismo, produziu ao longo da história coisas admiráveis na arte, na cultura e no pensamento, é uma demonstração de que se conhece a história com todos os seus percursos contraditórios, mas não podemos esquecer as tragédias, ódio, violência e dor imperdoáveis provocadas por essas mesmas religiões. Sabemos que, também nos movimentos religiosos, houve uma diversidade de histórias e uma pluralidade de correntes, com as suas heterodoxias e dissidências, mesmo dentro das religiões monoteístas. No judaísmo, no cristianismo, no islamismo e no hinduísmo tem havido do melhor e do pior. Mas hoje, mais que em qualquer outra época, é importante que as sociedades tenham uma fobia real em relação a todo o fanatismo religioso, tal como ao fanatismo político, seja ele qual for. Não podemos dar nenhum espaço aos que querem, em nome do seu deus, queimar, torturar, assassinar, aterrorizar ou reduzir à submissão gentios, pagãos e descrentes. Do que se trata realmente é de saber se as nossas sociedades podem aceitar que as religiões voltem a ser protagonistas totalitárias que nos querem impor dogmas, crenças e costumes que têm a sua raiz num passado arcaico em que nos arrastávamos sobre a Terra sem ter a ciência como uma vela no escuro, na bela imagem de Carl Sagan.

 


Texto de  M. Ricardo de Sousa
Ilustração [em destaque] de  Ricardo Jorge [https://www.ricardo-jorge.com/]


Artigo publicado no Jornal MAPA, edição #30, Março | Maio 2021.


Written by

Jornal Mapa

Show Conversation (0)

Bookmark this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

0 People Replies to “Ateus, libertários e iconoclastas”