shop-cart

Lendo: Do chicote ao paternalismo

Do chicote ao paternalismo

Do chicote ao paternalismo


Num mesmo dia, no passado 16 de Abril, a Motamineral repetiu momentos de uma hostilidade que parece ser estratégica e a Minerália experimentou a estupefacção de estar perante pessoas inteligentes. Embora provenientes de ângulos diferentes, estas reacções à contestação demonstram, acima de tudo, que a indústria mineira tem uma visão civilizadora sobre o mundo rural, uma abordagem tipicamente colonial, que vai do chicote ao paternalismo.

 

Motamineral aposta na intimidação

Há pouco, no artigo “Caulinos: quando o crime compensa”, dávamos conta de uma empresa mineira que «desenvolveu actividade extractiva fora das áreas apresentadas no Plano de Lavra», que se manteve, durante anos, a laborar de forma irregular e que, para solucionar essa situação, se propunha, com a anuência do Estado, aumentar a sua área de laboração em 24,3 hectares.

Sobre este mesmo assunto, o deputado bloquista José Maria Cardoso convocou os jornalistas para o local das concessões, no passado dia 16 de Abril, onde afirmou que a DGEG [Direção Geral de Energia e Geologia], em vez de punir as ilegalidades, poderia mesmo «beneficiar o infractor» e onde anunciou que «o Bloco de Esquerda vai chamar a DGEG ao Parlamento para esclarecer toda esta situação».

No local, marcaram também presença representantes do Movimento SOS Terras do Cávado e do Movimento SOS Serra d’Arga. Este último afirmou que, apesar de estarem na via pública, ainda antes do início da conferência de imprensa, «alguns jornalistas foram ameaçados por um motorista de pesados da empresa mineira e o director técnico da mesma empresa abordou-nos, a mim, representante do Movimento SOS Serra d’Arga, e a alguns repórteres, em tom hostil. Estávamos, claro, na via pública e não havia qualquer razão para este comportamento de intimidação». Acrescentando que «este é o comportamento habitual dos funcionários desta empresa, que actuam nas imediações da concessão como se fossem uma autoridade».

Caulinos

Representantes do Movimento SOS Terras do Cávado e do Movimento SOS Serra d’Arga no exterior da mina da Motamineral

Minerália: as sessões de esclarecimento que o não foram

O nervosismo do lobby da mineração teve outro ponto alto no mesmo dia. A empresa Minerália – Minas, Geotecnia e Construções, Lda. promoveu, nesse mesmo 16 de Abril, duas sessões de esclarecimento sobre o processo de exploração na Borralha, onde pretendia «esclarecer a população da Borralha e agentes associativos do baixo Barroso sobre os detalhes da futura exploração», de acordo com as palavras de Adriano Barros, gerente da empresa.

BorralhaAs sessões foram intensas. A empresa vinha preparada para apresentar o seu discurso de extração de minério «quase sem impacto na segurança das populações e no ambiente», de «reaproveitamento e recirculação de águas», de «sem o uso de químicos». Talvez por subestimarem a inteligência no mundo rural, o que transpareceu foi que tudo se limitou a um procedimento cosmético, de mero protocolo, feito contra a vontade e, por isso, generalista, pobre e incapaz de responder à mais pequena dúvida que saísse do seu guião. A população e os movimentos contestatários, por outro lado, têm há muito a lição bem estudada, sabem exactamente como funciona o verde teatro publicitário da indústria mineira e iam à procura de desmontar os argumentos contrários.

No debate, dois dos oradores perderam as estribeiras. Os representantes da Mineralia não conseguiram responder a qualquer das dúvidas levantadas pelas populações, limitando-se a remeter mais explicações para o futuro Estudo de Impacto Ambiental. Isto quando não se limitaram, simplesmente, a ignorar as questões ou a desviar a conversa. As sessões acabaram, assim, por ser muito pouco de «esclarecimento». Pelo menos, no sentido tradicional. Porque, bem vistas as coisas, muito acabou por ficar esclarecido.

BorralhaA autarquia de Montalegre e a Junta de Salto são definitiva e incondicionalmente a favor da mineração e têm mais tendência para ser agressivos com os concidadãos que oficialmente representam do que com os gestores das empresas de mineração. Para além disso, esta pequena «vitória», este pequeno episódio de «não esclarecimento», indica também que a indústria, a exemplo do governo, acha que está a lidar com uma «cambada de gente humilde», que é como chamam a quem consideram ligeiramente pouco educado, quando não bronco ou até atrasado mental. Esta visão insultuosa das populações rurais é, neste momento, um dos grandes focos aglutinadores da luta. Tanto quanto não querer minas, estas populações estão fartas de ser tratadas como irrelevantes e dispensáveis, a quem nunca ninguém pergunta nada antes de lhes alterar profundamente o modo de vida.

Uma outra coisa que se pode retirar daqui é que, do lado de quem se opõe ao plano de fomento mineiro, os conhecimentos sobre os processos ecológicos e burocráticos são crescentes e a consciência de que o modelo de desenvolvimento extractivista é uma ameaça a toda a existência humana torna-se geral. Para além de que, mais uma vez, a «solidariedade entre os montes» foi notória. Uma luz de optimismo para quem acredita que as populações, se assim o quiserem, têm a capacidade de, em conjunto, se entre-educarem de forma a que o conhecimento assim criado lhes permita ter uma noção do que lhes é mais favorável, a capacidade de agir em conformidade e a de rebater os argumentos preguiçosos de quem lhes ameaça os territórios e a vida tal como a escolheram viver.


Written by

Teófilo Fagundes

Show Conversation (0)

Bookmark this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

0 People Replies to “Do chicote ao paternalismo”