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Lendo: Angústia em tempos de Covid

Angústia em tempos de Covid

Angústia em tempos de Covid


Um diálogo com Kierkegaard sobre a crise pandémica

A presente pandemia traduz um aspecto da condição humana que nem sempre estamos dispostos a encarar. A edificação das instituições que fundam a ideia civilizacional vigente pretende proteger-nos enquanto espécie do caos e da imprevisibilidade que os fenómenos naturais emanam. Uma certa dificuldade em lidar com a transmutação e fluidez da vida que tornam a vida humana permeável a forças que não são possíveis de controlar. Esta ideia de que a invenção do Homem tem como finalidade última a criação de um mundo humano diferente do mundo natural está tão enraizada em nós que sempre que uma catástrofe destas ocorre e impõe a sua lógica ficamos desorientados, incapazes de lidar com a vida no que ela tem de mais essencial.

Um evento deste tipo provoca, não só à escala de evento global, de grandeza abstracta, a contagem de milhares de pessoas que padecem de forma perfeitamente arbitrária, uma reverberação muito tangível nas narrativas pessoais de cada um – a súbita percepção de que podemos sofrer da doença ou da cura, tamanho o impacto sobre a economia e a sociedade que esta situação despoletou, lança-nos num estado de espírito que pode variar entre o pânico, a ansiedade ou a depressão, por muito que nos tenhamos habituado a evitar o confronto com estas emoções através de verdades apaziguadoras ou do entretenimento e do consumo.

Se o resultado fosse óbvio, não existiria escolha possível. O facto de ser incerto apela a que tenhamos a ousadia da escolha, independentemente de parecer a escolha vencedora ou perdedora. Se Kierkegaard estiver certo, o sentido da existência é o instante que sucede à reflexão.

Naturalmente, este problema não é novo e tem sido tópico de muitas discussões em torno da presença ou ausência do sentido da vida. Este confronto cru e nu com a realidade da vida é um dos tópicos centrais de uma corrente filosófica que a amiúde se chama de Existencialismo. Grosso modo, este termo designa uma atitude diferente daquela que procura a Essência como forma de resolver o problema do sentido – seríamos humanos porque somos seres racionais, ou seríamos humanos porque somos uma invenção divina, ou toda uma panóplia de soluções para a grande questão. Para os Existencialistas, somos os seres que se preocupam com este tipo de problemas existenciais, que se colocam a questão do para quê e do porquê da vida. Somos seres que se edificam a partir das narrativas que surgem a partir deste problema.

Uma pedra não tem forma de articular essa questão, um animal também dificilmente terá, ou pelo menos não encontramos manifestações muito claras disso. A forma como a vida se apresenta enquanto temporal e finita parece ser um traço exclusivo humano. Historicamente, considera-se que nos transformámos na espécie que sabe que sabe (homo sapien sapiens) quando se encontram os primeiros vestígios de ritos que envolvem a morte e a perseveração da memória dos mortos. Uma tentativa de enraizar a vida na permanência e longevidade que dá a origem à civilização e à cultura.

Essa consciência lança todo aquele que se debruça sobre o problema numa enorme angústia. Na sua obra, o filósofo existencialista Soren Kierkegaard remete muitas vezes para o problema da angústia, suas origens e as formas de lidar com ela. Julgo que em momentos de desorientação gritante como aquele que atravessamos poderá ser útil fazer eco dalgumas dessas ideias, a partir, claro está, da minha leitura pessoal, que estou longe de ser um especialista no assunto. Serei antes alguém que se interessa pelo assunto na óptica do utilizador.

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Desde já faço outra adenda: a linguagem que Kierkegaard utiliza é sobretudo teológica, mas julgo que esta linguagem serve o propósito de tentar levar estas questões às pessoas que constituíam as elites literatas da sociedade dinamarquesa e europeia do século XIX que o rodeavam. Neste texto, tentarei fazer uma leitura mais secular do tema, apesar de ser algo difícil abandonar totalmente a terminologia.

Para o filósofo dinamarquês, a angústia começa com a tomada de um tipo muito particular de consciência a que chama o modo de ser Religioso. Religioso aqui não é utilizado no sentido estrito relativo às instituições religiosas, das quais Kierkegaard era até bastante crítico, mas como referência a um certo estado de interioridade e de abertura à vida que permite expressar o divino. O divino seria uma relação muito próxima com o Ser autêntico, o Ser que se manifesta antes e depois de toda a conceptualização racional ou ética sobre o certo e o errado e que estaria em íntimo acordo com a existência, os seus paradoxos, as suas angústias e dificuldades.

Primeiro, o indivíduo entra enquanto indivíduo no mundo e desespera. Tem noção da alteridade porque sente a angústia que essa lhe provoca. Existem 3 modos de ser desesperado: o desesperado inconsciente de ser um indivíduo; o desesperado que não quer ser indivíduo; e o desesperado que tenta desesperadamente ser um indivíduo. Em qualquer um destes casos, o indivíduo no estado de desespero, parece-me, é aquele que pretende iludir a angústia e não se encontra disponível para colocar as questões essenciais que precisa de integrar ou resolver. Colocar essas questões significa dar-se conta da dependência do conjunto; da relação que o eu estabelece com qualquer coisa alheia a si mesmo. O que desde logo tem no centro a pergunta sobre se somos animados pelo livre arbítrio ou se as leis da natureza já estabelecem todas as possibilidades.

Existem 3 modos de ser desesperado: o desesperado inconsciente de ser um indivíduo; o desesperado que não quer ser indivíduo; e o desesperado que tenta desesperadamente ser um indivíduo.

Ao longo das páginas em que podemos ler sobre este tema, não é apresentada uma resposta fácil para esta questão. Apenas se expõe a relação do indivíduo com essa qualquer coisa alheia como uma tensão entre o infinito e o finito, o temporal e o eterno, a liberdade e a necessidade, colocando a ênfase, parece-me, na própria relação. Nesta forma de se fazer relacionando-se com o que pôs o conjunto da relação, Kierkegaad parece apontar-nos na direcção do caminho que nos leva a que nos realizemos nessa relação – não só enquanto indivíduo, subjectivo e destacado do mundo, mas ao mesmo tempo enquanto estando dentro desse mundo, diluído, participante desse jogo de forças orgânicas cuja natureza dificilmente podemos circunscrever.

Neste processo, a angústia é o elemento impulsionador, pois é apresentada como a vertigem da liberdade. O indivíduo conhece esta vertigem no momento em que a possibilidade se apresenta, e o ser-existencial é este ser-se orientado para a possibilidade. A possibilidade de construir e vir a ser uma série de outras coisas além daquelas que parecem ser possíveis ou razoáveis. O momento que vivemos é cheio de angústia porque, por se apresentar como uma encruzilhada, é um desses momentos cheios de possibilidades. Possibilidade de encontrar novos modos de vida ou de retrocedermos a velhas formas de despotismo e violência competitiva, possibilidade de superar o capitalismo ou do capitalismo se reforçar, possibilidade de reforçar o individualismo e o antropocentrismo, ou possibilidade de reconciliação com a natureza. Se o resultado fosse óbvio, não existiria escolha possível. O facto de ser incerto apela a que tenhamos a ousadia da escolha, independentemente de ser uma escolha clara, articulada e intelectualmente mediada pela razão. Se Kierkegaard estiver certo, o sentido da existência conhece-se no instante que sucede à reflexão.

 


Texto de  Tiago Sousa.
Ilustração de  Inês Xavier.


Artigo publicado no JornalMapa, edição #28, Agosto|Outubro 2020.


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