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Lendo: Requiem pela alma de um movimento libertário desaparecido

Requiem pela alma de um movimento libertário desaparecido

Requiem pela alma de um movimento libertário desaparecido


Na recente apresentação de um livro, na Biblioteca Nacional, incluída nas comemorações do centenário da CGT e d’A Batalha, um dos presentes, que nos anos 70 chegou a ser um entusiasta activista anarquista, provavelmente nostálgico da sua juventude satânica, interrogava-se sobre as razões por que não se conseguiu construir em Portugal um movimento anarquista significativo no pós-25 de Abril. Era uma pergunta retórica, mas que correspondia a dúvidas que persistem ainda nessa geração de libertários.

Já passou um século após a fundação da Confederação Geral do Trabalho e do jornal A Batalha, que foram duas das criações, juntamente com as organizações específicas – Juventudes Sindicalistas, União Anarquista Portuguesa e Federação Anarquista da Região Portuguesa –, mais emblemáticas do movimento operário de raiz sindicalista revolucionária e anarquista.

Deveríamos já ter suficiente informação, e a necessária reflexão crítica, para compreender como e porquê o movimento anarquista não conseguiu sobreviver aos longos anos da ditadura, nem se reerguer, apesar da acção dedicada dos militantes da primeira república que reapareceram após o 25 de Abril de 1974, mesmo reforçados por um grupo de intelectuais formados no exílio em França e por um numeroso grupo de jovens, que constituíam a primeira geração libertária após o derrube da ditadura.

As causas do esmorecimento do movimento libertário em Portugal têm algumas particularidades: uma longa ditadura, a profunda ruptura geracional ocorrida nesse quase meio século, a ausência de uma organização específica duradoura, a ressaca da derrota da Revolução Social em Espanha e divergências estratégicas entre os militantes. Após o derrube da ditadura, a situação ficou ainda mais complicada pelo surgimento em força do PCP e dos grupos marxistas-leninistas, que atraíram largos sectores da juventude, ocupando todo o espaço do anticapitalismo, deixando uma margem reduzida para que os poucos trabalhadores libertários fossem capazes de levar a estratégia sindicalista revolucionária novamente ao movimento operário.

No entanto, os problemas com que o anarquismo estava confrontado em Portugal não deixavam de ser idênticos aos enfrentados pelo movimento noutros países europeus onde existiu uma significativa presença histórica: Espanha, França e Itália ou, no caso da América Latina, México, Argentina, Uruguai e Brasil. Em nenhum dos casos conseguiu o movimento anarquista, mesmo com todas as diferenças, desde logo no caso emblemático de Espanha, retomar a estratégia anarco-sindicalista, nem voltar a ser um movimento popular socialmente significativo. Perdeu a disputa teórica e social com os Partidos Comunistas, que nos anos 60-70 continuavam hegemónicos no movimento operário e entre as classes trabalhadoras, baseados na grande mistificação nascida a partir de 1917 de uma revolução social vitoriosa que se afundou no pântano do leninismo e do estalinismo.

Mas, mais importantes ainda, eram as profundas alterações na realidade -socioeconómica que vinham ocorrendo na segunda metade do século xx: as mudanças introduzidas no capitalismo e no Estado após a Segunda Guerra Mundial, dando origem, nos países europeus, à consolidação do Estado de Bem-Estar Social e ao acesso de largos sectores das classes trabalhadoras à chamada sociedade de consumo, geraram um crescente consenso interclassista em torno do modelo liberal de sociedade. Acresciam também as rápidas mudanças tecnológicas que não só deram uma nova vida ao capitalismo como introduziram alterações profundas na composição das classes trabalhadoras, mudando completamente o perfil e a composição do movimento operário nascido da revolução industrial.

O Maio de 68 e as lutas sociais autónomas dos anos 60-70 não foram capazes de interromper, e menos ainda alterar, essa situação, pelo que as suas derrotas só viriam a tornar-se ainda mais desastrosas quando a queda imprevisível do campo soviético deixou soterradas debaixo do muro, em 1989, não só as formas autoritárias e terroristas de dominação patrocinadas pelos Partidos Comunistas, como asfixiou também as correntes dissidentes, comunistas e anarquistas, que haviam mantido uma crítica sistemática desses regimes, apontando a alternativa da autogestão generalizada e do socialismo libertário.

Só o optimismo incorrigível de alguns poderia permitir imaginar que após a derrota dos Partidos Comunistas seria possível regressar a uma situação em que os movimentos sociais iriam retomar ideias libertárias que vinham sendo debatidas de forma apaixonada desde do século xix.

Com a derrocada do modelo russo de ditadura do proletariado, no começo dos anos 90, era um ciclo que se fechava, o das revoluções sociais assentes num movimento operário com uma forte identidade anticapitalista. O ciclo fechava-se não só para os marxistas-leninistas, como para as dissidências comunistas (luxemburguistas, conselhistas, situacionistas) e também para as várias correntes anarquistas.

Era o fim das ideologias, ou o fim da história, que alguns intelectuais da moda apregoavam? Certamente que não, como pudemos verificar nas décadas seguintes. Havia ainda espaço para elaborar um novo pensamento crítico, anticapitalista e antiestatista, adequado ao século xxi, e para desenvolver práticas assentes numa leitura da experiência histórica e da tradição libertária, mas abandonando de vez ilusões, falsos optimismos e crenças, quase religiosas, que já não faziam sentido.

Como a história não pára, coincidindo com a actual vaga reaccionária, novos movimentos de contestação tomaram conta das ruas nos mais diversos países, demonstrando que, apesar de tudo, a revolta e o desejo de mudar as instituições, e a vida, retornam ciclicamente.

Por essa razão, é sempre possível que os movimentos libertários sobrevivam de forma difusa, ou reapareçam, se transformem de forma camaleónica, se esvaziem e voltem a ganhar uma presença social significativa, seja em Portugal ou no lugar mais recôndito deste planeta – até porque existe na história o acaso, a imprevisibilidade e a entropia –, sem sequer serem totalmente explicáveis as razões desse crescimento ou definhamento.

Uma coisa é certa, este problema da pouca relevância actual do movimento anarquista só o chega a ser para os defensores de um anarquismo social, ou seja, os que acreditam que a Revolução Social continua a ser um objectivo fundamental para a transformação radical das sociedades e que essa revolução exige um movimento anarquista estruturado, uma quase-vanguarda, imitando, em alguns casos, um leninismo mumificado. Para os anarquistas individualistas o problema está resolvido a priori: são anarquistas independentemente da época, região ou conjuntura social e política, são anarquistas mesmo sendo os únicos. Entre estes dois pólos, existem muitas outras matizes libertárias que, sem abdicar de uma visão revolucionária, ou pacifista, entendem que se podem materializar desde já projectos associativos, de cultura, de produção e convivenciais, que se traduzem em cooperativas e comunidades, estruturados pelas ideias anarquistas, autênticos territórios libertados enquistados nos reinos do Estado e do Capital.

Apesar disso, para todos os anarquistas, associativistas ou individualistas, filhos dilectos de Sísifo, impõe-se, hoje e sempre, um imperativo categórico: o do «eterno recomeço».

Por isso mesmo é precipitado que amigos e, principalmente, inimigos do ideal libertário mandem celebrar um requiem pelo desaparecimento desse movimento que deixou marcas profundas na história social dos dois últimos séculos. No dobrar da esquina do tempo, ele vai estar lá.

 


Texto de M. Ricardo de Sousa
Ilustração de Emma Andreetti


Artigo publicado no JornalMapa, edição #26, Fevereiro|Abril 2020.


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