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Lendo: Silêncios, Resistência e Liberdade

Silêncios, Resistência e Liberdade

Silêncios, Resistência e Liberdade


Na Fortaleza de Peniche, emblemática prisão do Estado Novo (1934-1974), o silêncio do agora Museu Nacional Resistência e Liberdade, relativamente ao papel dos anarco-sindicalistas e dos anarquistas no combate ao fascismo, suscitou uma onda de protestos perante o que pode ser considerado não apenas mais uma grave omissão na transmissão da nossa história, mas um deliberado e premeditado uso da memória.

Quando em 2016 a onda de indignação rapidamente obrigou a reverter a antiga intenção de transformar a fortaleza num hotel, uma das petições públicas clamava «a recuperação da Fortaleza de Peniche, garantindo àquele espaço a dignidade e o rigor histórico que a memória colectiva da Resistência e da luta pela Liberdade merecem.» Dois anos depois de acolhida a sugestão de um «espaço-memória», a exposição temporária “Por Teu Livre Pensamento” foi inaugurada a 27 de Abril de 2019 (a data simbólica da libertação dos presos em 1974). As críticas incidem agora, por esta exposição não ter sabido cumprir com o rigor histórico dessa memória colectiva ao omitir factos e os intervenientes anarquistas. E sublinhando, consequentemente, a versão histórica da resistência centrada no Partido Comunista Português.

Desde Outubro passado que têm ecoado várias tomadas de posição contra este apelidado branqueamento. Como referia o editor Eduardo Sousa, em missiva que lançou o protesto, o catálogo da exposição temporária contempla uma indesculpável omissão do «papel da Confederação Geral do Trabalho (CGT), a mais importante organização do movimento operário português até ao final dos anos 30, confederação a que pertenciam a maioria dos presos políticos, sindicalistas revolucionários e anarquistas, nos primeiros anos da ditadura». Incrédulo que na actualidade «ainda sejam possíveis visões distorcidas, manipuladas do ponto de vista ideológico, que querem passar a ideia que o movimento operário e a resistência à ditadura nasceram com o PCP nos anos 40.» A situação surge ainda mais destacada quando simultaneamente em 2019 a Biblioteca Nacional evocava em exposição o centenário da fundação da CGT e do seu jornal A Batalha, o qual ainda hoje é publicado por uma nova geração de anarquistas.

Militantes anarco-sindicalistasMilitantes anarco-sindicalistas presos na Fortaleza de Peninche pela sua ação no movimento de 18 de janeiro de 1934.

A Direcção Geral do Património Cultural (DGPC), responsável pela Fortaleza de Peniche, respondeu tratar-se a exposição da primeira fase de um projecto que «pretende-se que venha a ser muito mais aprofundado na etapa seguinte». O que não escusa reconhecer-se, ora uma incrédula incapacidade historiográfica de síntese – fazendo justiça aos actores principais da Resistência da primeira metade do séc. XX –, ora a vontade de prosseguir o velho guião comunista açambarcador do antifascismo.

Em 2018 o «guião para os conteúdos» fora entregue por Paula Silva, directora da DGPC que presidia à Comissão de Instalação dos Conteúdos e da Apresentação Museológica (CICAM), junto com o autarca de Peniche, Henrique Bertino e Jorge Leonardo do Gabinete do Ministro da Cultura. Da comissão integravam em representação do Partido Comunista Português Adelaide Pereira Alves e Manuela Bernardino, a que se somam também do PCP os ex-presos políticos Domingos Abrantes e José Pedro Soares (pela União dos Resistentes Antifascistas Portugueses). A estes juntavam-se outros «históricos» como Raimundo Narciso (do movimento Não Apaguem a Memória) e Fernando Rosas, este último acompanhado no ofício de historiador ainda por João Bonifácio Serra. A CICAM deu origem ao Comité Executivo do Museu de Peniche (CEMP) para acompanhar «as questões relacionadas com a operacionalização do Guião de Conteúdos». Presidido por Paula Silva, conta com o museólogo Fernando Batista Pereira, a antropóloga Teresa Albino, o director-geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, Silvestre Lacerda, o arquitecto João Barros Matos, Domingos Abrantes do PCP e os historiadores Fernando Rosas e José Pacheco Pereira.

>O programa museológico pretende ser um «testemunho vivo do que foi a repressão nas prisões do regime fascista, mas também da luta pela liberdade e pela democracia». Abordando a «História da Ditadura e dos seus Sistemas Repressivos e na História da Prisão», evocará os «olhares e sentires relativos às experiências dos antigos presidiários». Neste encadeamento, conforme definido pelo guião do CICAM, no «capítulo» da «luta contra a ditadura militar e o advento do fascismo» poderão surgir no futuro Museu Nacional Resistência e Liberdade vislumbres de alguns dos episódios e actores, lapsos que “Por Teu Livre Pensamento”, a exposição, optou por omitir.


Fonte da fotografia: Projecto Mosca


Artigo publicado no JornalMapa, edição #26, Fevereiro|Abril 2020.


Written by

Filipe Nunes

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