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Lendo: Rádio de proximidade

Rádio de proximidade

Rádio de proximidade


A 20 de Dezembro passado, nessa catedral portuense da música que é o Centro Comercial STOP, onde a Rádio Manobras tem o seu estúdio, o programa O som é a enxada festejava o seu 100º episódio. Durante quatro anos, como os próprios afirmam, «percorremos o país de lés-a-lés (e além) capturando registos e conversas sobre a agricultura de proximidade: desde a horta mais estapafúrdia às grandes questões políticas e ecológicas do nosso tempo…». Para (dar a) conhecer melhor esta experiência, o Jornal MAPA desafiou O som é a enxada para responder a umas quantas perguntas, sabendo que tanto o programa como a própria Rádio Manobras são merecedores de mais espaço neste jornal.

radiomanobras.pt / somenxada.tumblr.com

A primeira reacção ao tomar conhecimento do programa foi a de questionar o porquê de uma rádio citadina, com uma forte ligação ao Porto, ter um programa sobre agricultura na sua grelha. Ou talvez a questão fosse a inversa, a de perceber qual a razão que leva um programa sobre agricultura a escolher uma rádio como a Manobras. Para qualquer pessoa urbana, essa questão vinha, claro, acoplada a uma outra, a de saber o que é isso de agricultura de proximidade…

Sob o termo «agricultura de proximidade» tenta-se apelar a uma forma mais directa e equilibrada de produção e consumo de alimentos, guiada pelas ideias práticas de agroecologia, alimento enquanto bem comum (e não mercadoria) e sem intermediários entre produtores e consumidores. Sob a expressão «vasculhar a cidade», a Manobras tenta livrar o meio rádio da inacessibilidade promovida pelos adquirentes das licenças, ou seja, tenta cultivar o mesmo equilíbrio no usufruto dos bens comuns e a mesma relação de escala humana que se defende na agricultura de proximidade. Quanto à nossa história, ela pode contar-se assim: a Manobras estava por perto quando aconteceu o 1º Encontro Nacional das Associações para a Manutenção da Agricultura de Proximidade (AMAP), em 2015, e foi desafiada a participar. Inventou-se então o nome do programa, apenas para dar identidade à documentação sonora do encontro. Mas, afinal, fomos dando continuidade, mantivemo-nos próximos. E assim passaram quatro anos e chegamos ao 100.

Um programa quinzenal, principalmente um programa deste tipo, com entrevistas, deslocações, edições, montagens, escolha de músicas e tanto mais que é necessário, é uma empreitada de respeito. Como se organiza o colectivo para produzir o programa?

A equipa foi sendo mutante, adaptando disponibilidades e vontades em cada momento. Por isso também viajámos de muitas formas e ritmos: semanal, mensal, quinzenal… sonoridades da natureza, cantares populares, literatura… leitura de declarações e manifestos, dicas, entrevistas… E munimo-nos de gestos práticos. Por exemplo, cada um de nós passou a ponderar ter um gravador à mão sempre que uma viagem, um evento ou a presença de alguém prometia trazer sons enxadeiros. A rotina, a partir de finais de 2017, quando a rádio conseguiu finalmente ter estúdio, incluía trocas de mails preparatórios, encontro-jantar no estúdio antes dos programas, e distribuição flexível de tarefas de recolha, alinhamento, comunicação, pós-produção, etc. Mas, neste momento, tal como o chuchu lá da horta, estamos em hibernação meditativa sobre as enxadadas porvir.

Que papel acham que uma rádio comunitária pode ter que não seja preenchido já pelas rádios tradicionais. Ou, colocando as coisas doutra forma, qual o papel e a importância das rádios comunitárias em Portugal (e o que é que as faz diferentes das rádios mainstream)?

Não há rádios comunitárias em Portugal, pelo menos assim reconhecidas formalmente. Existem activismos-rádio que tentam vingar no espaço apertado que lhes deixa o esquema exclusivista público-comercial vigente. Por exemplo, e como se não bastasse o controlo das frequências FM que a pretexto da ecologia das frequências favorece a lógica da «sustentabilidade financeira», agora até as rádios online estão a ser perseguidas com a obrigação de cadastro pela ERC. Parece-nos este um indício grave qb para vislumbrar a importância destas militâncias radiofónicas face ao mainstream.

Porquê a escolha de utilizar exclusivamente música livre no programa?

É um princípio da Manobras cuja explicação está indiciada nas respostas anteriores. Digamos, de modo prosaico, que não nos apetece ter negócios com a SPA. Na prática, o princípio tem sido motivador de agradáveis vasculhos sonoros e musicais.


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