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Lendo: Cem anos depois: A Batalha

Cem anos depois: A Batalha

Cem anos depois: A Batalha


 

Cem anos depois, falar do jornal anarquista A Batalha significaria falar da história portuguesa contemporânea, cujas lutas sociais e de emancipação se forjaram no sindicalismo revolucionário, no anarco-sindicalismo e no imponente movimento anarquista das primeiras décadas do séc. XX. Mas, cem anos depois, falar d’A Batalha é importante sobretudo para conhecermos o seu rejuvenescimento.

Um rejuvenescimento que se traduz num recomeço mais discreto, mas não menos promissor do que o ocorrido no 25 de Abril. Neste centenário, um novo colectivo redactorial vira a página a um jornal que, nos últimos anos, não conseguia descolar do seu peso histórico. Na sua última edição (VI série, ano XLV, nº 283), o jornal bimensal em papel editado pelo Centro de Estudos Libertários demarca-se do «jornalismo reactivo curvado perante o imediato», esse que efectivamente (nause)abunda no imediato online, e do «jornalismo manifesto», enquanto «carta de intenções cheias de certezas em como pastorear os homens em direcção à boa comunidade». Perante esses jornalismos complementares da «domesticação do leitor consumidor», A Batalha demarca-se e declara não pretender oferecer «informação» aos leitores, mas sim «as ferramentas para que estes possam exercer de forma autónoma o seu julgamento critico sobre o mundo». Razão de sobra para algumas perguntas por parte do Jornal MAPA que, por sua vez, se diz de «informação critica»…

Filipe Nunes: Que nova dinâmica é essa e o que orienta agora o jornal?

A Batalha: A Batalha pretende ser um jornal de expressão anarquista, tal como é logo referido na primeira página. Isto significa que, num tempo em que a ideia de «um anarquismo» parece cada vez mais obsoleta, um jornal anarquista só pode ser um periódico que permita o diálogo entre diversas tendências, ou «anarquismos». É a isto que vem A Batalha. Por isso, não nos interessa apenas continuar a carregar a canga do anarco-sindicalismo, ou sermos memorialistas dos patronos do anarquismo clássico, mas revelar outras expressões contemporâneas, que não se esgotam no decrescimentismo. Nestas correntes que enformam os anarquismos contemporâneos estão as críticas radicais da representatividade, não só a nível político, mas também estético. Aqui também convergem as críticas radicais à concepção de dominação, que não está só confinada aos mecanismos da máquina capitalista, nem à acção vigilante e repressora do Estado, nem sequer à ideia de poder, que pode ter um avatar produtivo na resistência. A dominação não está só presente nas relações laborais ou no controlo estatal, mas em todos os processos de dominação quotidiana, seja na informação, no mercado cultural ou na família. Os aparatos de dominação são o principal objecto de análise desta fase do jornal.

FN: Uma das coisas mais notórias é que não existe efectivamente um espaço de comunicação da «expressão anarquista» no território português, enquanto ponto de discussão das suas iniciativas e grupos. Porém, não me parece que seja essa a vossa meta actual, que se mantém mais na esfera alargada da «cultura libertária».

AB: Não consideramos que A Batalha seja um jornal confinado a esse guarda-chuva da «cultura libertária». Porém, também não desprezamos a absoluta relevância da cultura para compreender as estruturas de dominação que ela, aliás, enforma. Significa isto que, por exemplo, divulgar a diversidade de edições que escapam ao radar normalizador é um acto eminentemente político e não pode ser desvalorizado. É também uma tarefa do jornal resgatar alguns autores marginalizados ou esquecidos pela própria «cultura libertária». Mas isso não implica que A Batalha abdique de analisar os fenómenos próprios que emergem do activismo tradicional. Nem implica que se possa considerar a reabilitação da sátira e da caricatura como parentes pobres de uma acção política de tendência libertária, como se esses géneros não fossem tão merecedores de entrar nas páginas de um jornal de expressão anarquista. A uniformização da linguagem jornalística é, aliás, uma das nossas principais preocupações: a sua desconstrução é, de direito próprio, um acto político e uma arma de expressão anarquista contra o processo de homogeneização em curso.

FN: Ponto de honra e meritório é a nova opção gráfica e o papel da ilustração no jornal.

AB: Era essencial dar-se uma roupagem diferente ao jornal. Preferimos pensar em «opções gráficas», no plural, visto que ao longo dos últimos cerca de três anos temos experimentado várias modalidades, entre o improvisado e o propositado. Também entendemos que não nos interessa propriamente criar uma marca de estilo, ao ponto de cada um dos números do jornal se tornar indistinto um do outro – A Batalha não quer ser uma publicação de prateleira. A Batalha tem, do ponto de vista gráfico, uma vantagem: o logótipo é sempre o mesmo e facilmente identificável – em bom rigor, anda por cá há 100 anos… – e isso permite-nos brincar um bocado com a coisa.


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Filipe Nunes

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