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  • I. Uma montanha no alto mar

    I. Uma montanha no alto mar

    BD de Lisa Lugrin | tradução de Júlio Henriques

    A invasão zapatista já começou. No início de Maio, uma delegação saída de Chiapas fez-se ao mar a bordo da Montanha Zapatista e, durante 50 dias, atravessou o Atlântico rumo à Europa. A 20 de Junho avistaram as costas da Península Ibérica e, a 22 de Junho, desembarcaram em Vigo, onde foram recebidas por centenas de pessoas. Deu-se assim início a esta invasão inversa, feita de centenas de encontros com as lutas e resistências de toda a Europa, agora rebaptizada “Terra Insubmissa”. 

    Para contar esta viagem, a desenhadora Lisa Lugrin tem vindo a publicar uma banda desenhada sobre a vinda dos Zapatistas à Europa em diferentes medias. A partir de hoje, numa colaboração entre a Flauta de Luz, o Jornal Mapa e a Guilhotina.info, publicaremos de 4 em 4 dias as traduções de Júlio Henriques para português das suas pranchas.

     



    Sobre a autora:

    Lisa Lugrin [1983, Thonon-les-Bains, França]. Estudou antropologia e cinema, interessando-se depois pela banda desenhada. Diplomada pela Escola de Banda Desenhada de Angoulême. Com o seu companheiro Clément Xavier, fundou a editora Na. Obteve o Prémio Revelação no Festival de Angoulême, em 2015, pelo álbum Yékini, le roi des arènes (Éditions FLBLB). É autora de várias BD, nomeadamente nas Éditions Delcourt (Géronimo, mémoires d’un résistant apache, Jujitsuffragettes, entre outros títulos).

  • Acendemos uma pequena Luz

    Acendemos uma pequena Luz

    chiapas

    Mais de 7000 mulheres encontraram-se de 8 a 10 de Março de 2018 nas montanhas de Chiapas. Este foi o primeiro encontro internacional convocado pelas zapatistas, no qual participaram mais de 2000 mulheres Zapatistas e 5000 mulheres de mais de 28 países.

    A 7 de março de 2018, a três horas de San Cristobal de las Casas, o Caracol de Morelia abre as suas portas para os milhares de mulheres que chegam em autocarros de todo o país. Em cima do portão, vigiado por mulheres do Exército Zapatista de Libertação Nacional (ELZN), está pendurada uma enorme faixa com a frase «Bem-vindas, mulheres do mundo» e em baixo outra faixa com a frase «proibido homens». Foi decidido colectivamente entre as zapatistas que os homens não podem entrar porque é importante haver encontros só entre mulheres, não para ser separatista, mas para criar uma oportunidade de conviver num espaço onde se organizem e se confrontem problemas que afetam unicamente as mulheres neste mundo patriarcal. «Pensamos que só assim, entre mulheres, podemos falar e ouvir, olhar, festejar sem o olhar dos homens, não importa se são homens bons ou homens maus». Este encontro foi organizado por assembleias constituídas unicamente por mulheres. Porque, como dizem elas, «Não é trabalho dos homens nem do sistema dar-nos a liberdade. Pelo contrário, o trabalho do sistema capitalista patriarcal é manter-nos dominadas. Se queremos ser livres, temos de conquistar a liberdade nós mesmas, como mulheres que somos». O objectivo do encontro foi partilhar a experiência de lutas contra os «maus governos que, não só nos utilizam, nos reprimem, nos roubam e nos desprezam como seres humanos, mas também que nos reutilizam, nos reprimem, nos roubam e nos desprezam por sermos mulheres».

    chiapas

    Durante três dias, mais de 7000 mulheres discutiram sobre saúde, educação, lesbianismo, racismo, etc., mas sobretudo falou-se da violência de género e da violência de estado. Desenvolveram-se mais de 180 workshops e debates, jogou-se futebol e basquetebol, viram-se obras de teatro, falou-se e pintou-se em conjunto. O encontro foi aberto pelas mulheres zapatistas com a apresentação dos 5 caracoles (centros administrativos do território e comunidades zapatistas) e da história de como, em cada um, começou a organização entre mulheres. A Insurgente Erika iniciou o discurso sublinhando que elas, mesmo não tendo os estudos e talvez não tendo lido tantos livros como as mulheres da cidade, têm tanta raiva e tanta coragem como todas as que sofrem chingaderas, porque vivem o desprezo, a humilhação, as burlas, a violência, os golpes e as mortes por serem mulheres, por serem indígenas, por serem pobres e agora também por serem zapatistas. E esta exploração e esta violência não são feitas unicamente por homens, senão também por mulheres que dela participam.

    Neste encontro, elas não querem julgar nem ser julgadas, nem pediram que lutem por elas, assim como elas não lutaram pelas outras. Afirmaram que existem muitas diferenças entre as lutas em várias partes do mundo, mas que uma coisa é certa: este «pincho sistema» capitalista existe em toda a parte. E que todas devem lutar contra um sistema que faz crer e pensar que as mulheres valem menos.

    chiapas

    No México vivem 15 milhões de indígenas que hoje em dia sofrem discriminação, enfrentam a pobreza, o difícil acesso à saúde pública, a falta de alimentos e o ensino institucional, que as educa a abandonar por completo o seu território, a sua cultura e a sua identidade. Um território estatal em que já 7,8% está em mãos de empresas mineiras ou de empresas dedicadas à exploração de terras. Muitas vezes estas terras pertencem a comunidades indígenas que acabam por ser expropriadas. Também em outras zonas de interesse turístico, as terras comunitárias (terras sem proprietário para uso das comunidades) são vendidas pelos municípios e pelos governos corruptos a investidores estrangeiros. A própria população indígena é afastada dos olhares dos turistas. Este encontro de mulheres abriu a possibilidade de organização e partilha de táticas de luta entre as diferentes comunidades indígenas e outras partes do mundo.

    Muitos debates focaram-se na auto-organização e em como recuperar velhos conhecimentos de maneira a afrontar um sistema neoliberal. Deu-se grande importância e voz às mães em luta cujos filhos e filhas foram assassinadas ou estão desaparecidas por causa de um estado que actua baseando-se na opressão, na criminalização, na violência e na morte.

    chiapas

    Mais de 10000 mulheres foram mortas nos últimos 5 anos no México, mas menos de 20% destes casos foram classificados como feminicídios. A maior parte dos crimes ficam por resolver, provavelmente, porque não é do interesse do estado. O feminicídio define-se como um acto de violência extrema contra as mulheres, que entra dentro de um conceito mais vasto que é a violência de género.

    «O feminicídio não é exclusivamente um acto homicida, mas estende-se também a um contexto mais complexo, que inclui a trama social e política que o encobre e que fornece os mecanismos para que este permaneça impune» (Julia Monarrez, 2009). Uma sociedade patriarcal que, através de estruturas, propaganda, rituais, tradições e ações quotidianas que reproduzem a dominação constante sobre as mulheres, faz com que aumente a violência de género, que serve ao próprio sistema para se manter em pé. O feminicídio é um crime de ódio: matar uma mulher pelo facto de ser mulher. Esta violência extrema estendeu-se a todo o país. Quase 7 mulheres são assassinadas por dia no México. O feminicídio segundo a lei: «Comete o delito de feminicídio quem, por razões de género, prive uma mulher da sua vida»; mas só 11 dos 32 estados da federação juntaram outras 7 razões pelas quais se define o feminicídio. Aliás, ainda há estados que aplicam «crime passional» em vez de feminicídio, em que a agressão é considerada como sendo feita sob um estado de «emoção violenta». Muitos feminicídios são cometidos por maridos ciumentos ou familiares e frequentemente são escondidos como suicídios. Esta impunidade está estreitamente ligada ao violento e corrupto governo Mexicano. As famílias que pedem justiça e o conhecimento da verdade encontram muitas vezes razões para desconfiarem das autoridades. No encontro, as familiares que lutam sustentam que nas zonas mais tensas, onde a taxa de feminicídios e de desaparecimentos é alta, como por exemplo na Ciudad Juárez, estes crimes estão relacionados com os grandes projetos governamentais ou estrangeiros de exploração de terras, como as indústrias mineiras ou as petrolíferas. É uma estratégia para aterrorizar a população em zonas economicamente débeis, para militarizá-las e posteriormente desalojá-las. Assim como o número de feminicídios, também o número de desaparecidas é altíssimo, igualmente encoberto pelo governo Mexicano. Entre elas, muitas ativistas e estudantes que são brutalmente assassinadas pela polícia federal, nacional ou pelos próprios militares. Estavam também presentes no encontro as mães dos 43 estudantes desaparecidos em Aotzinpa em 2014. Sabendo perfeitamente quem cometeu estes crimes, o governo quer encerrar as investigações e ainda ameaça as famílias que não se calam enquanto não se souber a verdade. Todas elas, juntamente com outras famílias de outros países, como por exemplo as «madres de mayo» da Argentina, prometeram encontrar-se no próximo ano.

    chiapas

    Em todos os debates e workshops estavam presentes pelo menos 10 zapatistas de maneira a levar os conteúdos às suas comunidades. O encontro em si estava muito bem organizado e não faltou nada, desde a comida até às casas de banho. Ao redor do caracol estava o ELZN, para vigiar a zona. Infelizmente, aconteceu uma companheira curda, algumas argentinas e também algumas gregas terem sido impedidas de entrar no México, pelas autoridades mexicanas no aeroporto, por irem participar no encontro.

    “Foi um encontro muito especial, carregado de emoções
    Com uma energia única de 7000 mulheres que LUTAM”.

    chiapas

    No primeiro dia, as mulheres zapatistas surpreenderam-nos brutalmente. Cada uma com uma vela na mão, 2000 mulheres em fila, deslumbraram-nos com estas palavras:

    Acendemos uma pequena luz.
    Leva-a, irmã e companheira
    Leva-a quando te sentes triste,
    quando tens medo,
    quando sentes que é muito dura a luta e a vida.
    Leva-a no teu coração,
    nos teus pensamentos,
    no teu interior,
    e não fiques com ela, irmã e companheira,
    mas Leva-a às desaparecidas
    Leva-a às assassinadas
    às prisioneiras
    às violadas
    às culpadas
    às abusadas
    Leva-a a todas as violadas de diferentes modos
    Leva-a às imigrantes
    às exploradas
    Leva-a aos mortos
    Leva-a e diz-lhes a todos e todas que não estão sozinhas,
    que lutarás por elas
    que lutarás pela verdade e pela justiça
    e que vale a pena a sua dor
    que lutarás tão forte que a sua dor não se repetirá em nenhuma outra mulher.
    Leva-a e transforma-a em raiva em coragem e em decisão
    Leva-a e une-a com outras luzes
    Leva-a
    E se continua nos teus pensamentos que não haverá nem justiça, nem liberdade
    no sistema capitalista patriarcal
    então voltaremos a encontrar-nos para incendiar o sistema
    e talvez te juntes a nós
    Cuidado que ninguém apague este fogo
    até que não fique nada mais que cinza.

    Texto e fotografias de Mimic

  • Não tem que se pedir permissão para se ser livre

    Não tem que se pedir permissão para se ser livre

    zapatistas_destaque

    [ Artigo originalmente publicado na edição de Janeiro de 2014 do CQFD (jornal mensal de critica e experimentação social.  http://cqfd-journal.org/) tradução: Teófilo Fagundes teofilofagundes@dev.jornalmapa.pt ]

     

    Na passada noite de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro, os zapatistas celebraram os 20 anos do retumbante “Ya Basta!” de 1994. Nos cinco caracoles[ref]Comunidades autónomas, geridas pelos “Conselhos de bom governo”. [/ref], as festividades foram alegres e sóbrias: prazer de acolher inúmeros visitantes e de dançar a té de manhãzinha, satisfação evidente de ter atravessado tantas peripécias e ainda estar ali. Ma s nada de anúncios espectaculares nem de grandes discursos recapitulativos: os factos e a experiênci a deviam falar por si mesmos. Foi por isso que, para este aniversário tão aguardado, o EZLN concentrou todos os seus esforços na organização da Escuelita zapatista, a “escolinha”, estrutura que permitiu que 4500 pessoas fossem acolhidas durante uma semana, nas povoações rebeldes, observassem e tocassem a construção deste outro mundo a que eles chamam “autonomia”.

    Breve regresso a uma aventura de duas décadas e tentativa de balanço.

     

    Dois momentos no processo zapatista

    A história do zapatismo a partir de 1994 pode ser sintetizada em duas grandes fases, dum lado e do outro da charneira dos anos 2001-2003. Durante o primeiro período, o EZLN entrou, depois de doze dias de combate, na etapa da palavra: trocas múltiplas com a sociedade civil, nacional e internacional, mas também diálogo com o governo federal, o que levou à assinatura dos Acordos de San Andrés sobre “direitos e culturas indígenas”, incluindo o reconhecimento da autonomia dos povos indígenas, a legalidade de formas específicas de governação e um determinado controlo sobre os seus territórios. Os esforços do EZLN concentraram-se então na reivindicação do reconhecimento destes acordos, cuja colocação em prática implicava o voto duma reforma constitucional, preparada por uma comissão parlamentar ad hoc, a Cocopa. No entanto, se o EZLN aceitou o texto preparado por esta última, o Presidente de então, Ernesto Zedillo, recusou-se, optando por uma estratégia de para-militarização com o objectivo de desestruturar as comunidades zapatistas. Foi então necessário multiplicar as iniciativas a favor dos Acordos de San Andrés, como a Marcha da Cor da Terra, que levou os comandantes rebeldes até à cidade do México, onde a comandante Esther falou à tribuna do congresso a favor da reforma preparada pela Cocopa. O entusiasmo suscitado pela Marcha, assim como a aparente disposição para o diálogo do governo de Vicente Fox faziam presumir que a constitucionalização dos Acordos de San Andrés seria, enfim, um facto. Ainda faltava a desilusão: algumas semanas mais tarde, os legisladores de todos os partidos, incluindo o Partido Revolucionário Democrático (esquerda parlamentar), extraíam os pontos essenciais do texto que lhes fora submetido e adoptavam o que o EZLN e o Congresso nacional indígena denunciaram como uma contra-reforma e uma traição. Amarga desilusão e rude lição.

    A primeira fase estava fechada. Depois de ter feito prova dum certo legalismo, ao bater-se por uma modificação das instituições existentes e um reconhecimento constitucional dos direitos dos povos indígenas, o EZLN estava no direito de concluir que todo o diálogo com os poderes instituídos era em vão. Foram, então, necessários dois anos de latência para digerir este revés e implementar um projecto político em parte transformado. Em 2003, o anúncio do EZLN da criação de cinco “Conselhos de Bom Governo”, significava que tinha chegado o tempo de colocar em prática, com os factos, a autonomia prevista nos Acordos de San Andrés, apesar da ausência de reconhecimento legal. Em 2005, a Sexta Declaração da Selva Lacando na passava da crítica ao neoliberalismo para uma postura anticapitalista radical e a “Outra campanha” iniciava a criação, em todo o México, duma rede de lutas “ em baixo e à esquerda”, ou seja, recusando uma concepção da política centrada no aparelho de Estado e o jogo dos partidos políticos. Durante esta fase, a dimensão internacional do zapatismo, que tinha conhecido o seu momento mais intenso com o Encontro Intercontinental Pela Humanidade e Contra o Neoliberalismo, em Julho-Agosto de 1996, tinha ficado menos visível. E, nos anos 2009-2001, a “Outra Campanha” vacilava. Quem não estava em condições de ver o esforço de construção da autonomia nos territórios zapatistas poderia pensar que o movimento desaparecia pouco a pouco. Para muita gente, o dia 21 de Dezembro de 2012 constituiu uma surpresa quase tão grande como a de 1 de Janeiro de 1994. Nesse dia, 40 000 zapatistas ocuparam de novo, mas desta vez de forma silenciosa e pacífica, cinco cidades de Chiapas. Longe de estar em agonia, o EZLN fazia uma demonstração de força impecável e anunciava novas iniciativas , como a Escuelita Zapatista – que é tudo menos uma escola no sentido habitual do termo[ref]As três primeiras sessões da Escuelita tiveram lugar em Agosto e Dezembro de 2013, depois em Janeiro de 2014. Serão organizadas outras sessões durante o ano de 2014 em datas brevemente definidas. [/ref] –  e o apelo à criação da “la Sexta”, uma rede planetária de lutas , sem distinção entre o domínio nacional mexicano e o resto do mundo, como tinha sido o caso desde a proclamação da Sexta Declaração.

     

    zapatistas_interior3O que é o balanço do zapatismo, 20 anos depois?

    Um dos primeiros méritos dos zapatistas é terem lançado uma declaração de guerra ao governo e ao exército do México – e, para além disso, a “um mundo de injustiças”, como recordaram as palavras dos comandantes na noite do vigésimo aniversário. É também terem sobrevivido a todas as tentativas para os aniquilarem, através da intervenção militar directa ou da brutal para-militarização dos anos 1997-2000, depois através da perseguição doutras organizações indígenas, incitadas pelos governos sucessivos a expulsar os zapatistas das suas terras ou das suas casas. Também se podem citar os programas de ajuda governamental destinados a iludir as famílias rebeldes, assim como todas as tentativas de divisão e difamação imagináveis, sem esquecer a capa de chumbo do silêncio mediático.

    Terem resistido enquanto cresciam, pouco a pouco, as sementes da autonomia (e muito particularmente as jovens gerações nascidas depois de 1994 e hoje aptas a ter um papel de relevância, com uma capacidade criativa literalmente decisiva para o futuro), não é coisa pouca. Mas o zapatismo não se contentou com resistir, sobretudo avançou e construiu.

    Se perguntassem aos zapatistas o que tinham feito com os seus 20 anos, certamente vos responderiam: venham à Escuelita, é lá que está a nossa resposta. De facto, a Escuelita permite ser-se acolhido, durante uma semana, no seio duma família zapatista, enquanto um “Vótan-anjo da guarda” individual está à disposição de cada um par a responder a todas as questões. A manhã é o momento para participar nos trabalhos dos campos e outras tarefas colectivas. A tarde é consagrada às explicações sobre o funcionamento das comunidades autónomas e dos “Conselhos de Bom Governo”, com os seus cargos não remunerados, colegiais, revogáveis e rotativos, com os seus complexos mecanismos de tomada de decisão pela consulta das assembleias regionais e, se necessário, de cada aldeia. As trocas e as discussões também se podem concentrar na forma como as autoridades fazem a justiça (preferindo as formas de reparação ou de trabalho colectivo às penas de prisão que não servem a ninguém), sobre as centenas de escolas primárias onde trabalham os “promotores da educação” autónomos, ou ainda sobre a condição das mulheres. Estas empenham-se em evidenciar os espaços de participação que conseguiram conquistar, como conseguiram transformar as mentalidades tradicionais e tudo o que ainda falta fazer. Em resumo, entre trabalhos quotidianos, reflexões sobre a autonomia e momentos festivos, a Escuelita é a ocasião de constatar e experienciar como rebeldes humildes e dignos se organizam fora de todas as estruturas do Estado para dar vida, num amplo território, a uma outra realidade colectiva.

    Nenhum modelo aqui: os zapatistas cuidaram muito bem de especificar que o que eles conseguiram não é directamente reproduzível noutro lado, o que não impede que se tirem ensinamentos úteis para outras latitudes. “Eles têm medo que descubramos que somos capazes de nos governarmos a nós mesmos”, atira Eloisa, maestra da escolinha. Esta “descoberta”, que é uma das lições mais fortes da experiência zapatista, tem de facto como consequência irritante para os de cima demonstrar a sua nociva inutilidade! É também um resumo perfeito do que é a autonomia para os zapatistas, a saber, uma democracia real de auto-governo, uma forma política sem Estado, constituindo-se a partir de baixo e na qual a separação entre governantes e governados se reduz tanto quanto possível. Mas atenção, “a autonomia não tem fim”: não há uma sociedade perfeita em vista. Trata-se, sim, de entrar num processo sem fim de “caminhar colocando questões”, sem receita prévia e alterando sem parar a forma de organização que as assembleias e as autoridades eleitas tomam. “ Resistimos e construímos ao mesmo tempo”, explicam ainda. Seria ingénuo pretenderem fazer o esquisso duma outra realidade sem se preocuparem com fazer frente aos ataques sistémicos que daí decorrem. No entanto, a experiência zapatista demonstra que é possível criar espaços libertados, autónomos, sem perder mais tempo a tentar em vão arranjar o sistema existente, que a engrenagem da lógica capitalista conduz ao desastre.

    “E vocês, vocês sentem-se livres?”, pergunta finalmente um dos maestros da Escuelita. Para os zapatistas, apesar das dificuldades extremas – que estão longe de ter ficado para trás, uma vez que o actual Presidente Peña Nieto poderá em breve fingir relançar o diálogo e reconhecer os direitos indígenas a fim de colocar o EZLN numa posição delicada -, a resposta é clara: eles escolheram a liberdade. Decidem da vida deles e inventam a sua própria forma de se governarem. É precisamente este ar de liberdade que se respira em terras zapatistas, cujo contágio a Escuelita pretende garantir. Um conselho: acima de tudo, não vão lá. Arriscam-se a voltar perigosamente carregados de energia rebelde e dotados de argumentos sólidos de apoio ao nosso desejo partilhado de criar outros mundos libertados da tirania capitalista.

     

    Jérôme Baschet