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  • Rojava: Guerra e Revolução

    Rojava: Guerra e Revolução

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    A Batalha de Kobanê

    O Estado Islâmico (EI) entrou definitivamente no léxico de toda a gente, graças à campanha militar com que tem conquistado e ocupado território no Iraque e na Síria. Um projecto de poder que escolheu a religião para se legitimar. O califado que diz querer fundar, se visto ao pormenor, é um território abundante no que são as riquezas da região: petróleo, gás, água. Terreno a partir do qual se pode fazer muito dinheiro, dominar as maiores reservas petrolíferas da área e controlar os rios Tigre e Eufrates a partir da Síria e do Iraque, ganhando um poder brutal sobre quem viva a jusante desses pontos.

    Nos últimos anos, a diminuição da precipitação e o aumento dos desvios de água reduziram o fluxo desses rios em cerca de 40%. A seca de 2007-2009 e as consequentes más colheitas terão sido uma das faíscas da guerra civil síria ao criarem desequilíbrios sociais, com agricultores a tornarem-se refugiados e os preços dos alimentos a subirem em flecha.

    O cantão de Kobanê, região curda no norte da Síria, encostado ao Eufrates quando este entra nesse país, fica no caminho do EI. Mais do que os outros dois cantões curdos, Afrin e Jazira. Também por ser da zona em que existe 60% do petróleo sírio, terra de oleodutos, e por estar em cima da auto-estrada Raqqah-Ayn Arab (Kobanê)-Jarablus que se assume como a única via livre para levar reforços de Raqqah, a capital do EI na Síria, para as suas tropas em Aleppo.

    Desde a sua instauração, em 2012, a região autónoma democrática de Rojava (o conjunto desses três cantões) tem sofrido um duro bloqueio económico e uma forte pressão militar, acima de tudo por parte da Turquia, talvez numa tentativa de fazer o projecto autonómico falhar.

    Para além do bloqueio, tem existido, desde há dois anos, um forte assédio por parte de grupos como a Frente Al Nusra e o Estado Islâmico. O mais recente ataque do EI a Kobanê e a actuação da Turquia perante essa ameaça de massacre não são mais do que o seguimento lógico do passado recente. O papel turco e a acção titubeante do Ocidente no apoio aos combatentes curdos só não foram completamente dramáticos pela excelente capacidade das milícias, compostas por curdos e curdas oriundos e oriundas de territórios da Turquia, Síria, Iraque e Irão, a maioria guerrilheiros experimentados na longa guerra do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) contra o estado turco.

    O EI voltou a Kobanê em força, de facto. Com dezenas de tanques e artilharia pesada de fabrico estadunidense, capturados às forças iraquianas, ameaçando matar ou escravizar toda a população. Contra estas armas e contra três frentes de ataque, as forças de defesa desta região autónoma curda (cerca de 10% da população, ou seja, toda a que não se refugiou) barricaram-se na única cidade desse cantão, a que lhe dá o nome, e lutam desesperadamente por esse naco de território, fazendo bastante mais do que se poderia esperar.

    Sabem que a sua resistência, se estiver isolada, só irá atrasar o avanço do EI, nunca impedi-lo. Por esse motivo, não hesitaram em pedir auxílio à coligação internacional que se organizara para combater esse mesmo EI no Iraque. Mas é preciso assinalar que o que os curdos pretendem não é uma intervenção militar. Precisam de armas. Precisam que a fronteira com a Turquia esteja aberta para deixar os refugiados partirem e para que se juntem a eles todos os que querem e ficam barrados. Precisam de comida e medicamentos.

     

    kobane3O Ocidente

    Poder-se-ia pensar que, pela sua localização estratégica, pelo simbolismo, pela possibilidade de quebrar o alastrar do território dominado pelo EI, as forças de defesa da região iriam receber auxílio ocidental a qualquer momento. Nada disso se passou.

    O exército turco mantém-se na fronteira a impedir que reforços, armas e munições cheguem aos defensores de Kobanê, ao mesmo tempo que abre poros para que jihadistas a atravessem. De facto, apenas sob uma enorme pressão interna e internacional, o governo turco permitiu que 150 soldados pershmergas entrassem em Kobanê. E apenas a 1 de Novembro. Pershmergas que são, lembre-se, parte das forças de segurança do governo regional curdo do Iraque, nacionalista e conservador, alinhado com as potências ocidentais e a própria Turquia. Membros do YPJ/YPG (Yekîneyên Parastina Jine – Unidades de Protecção de Mulheres / Yekîneyên Parastina Gel – Unidades de Protecção Popular) e voluntários continuam sem conseguir atravessar a fronteira de forma legal. Para além disso, há provas irrefutáveis de ajuda material concreta ao EI, que parece cada vez mais uma extensão da Turquia no seu afã de se vingar definitivamente dos curdos. Sabe que uma vitória curda nesta batalha irá fortalecer o seu velho inimigo PKK. E acredita que cada posição que as milícias perdem é uma quebra na capacidade na mesa de negociações. De facto, parece óbvio que o EI não teria crescido nem conquistado tanto sem o apoio da Turquia.

    A coligação liderada pelos EUA, por seu lado, reagiu tarde, já se disse. O cerco do EI a Kobanê começou em Julho. A coligação limitou-se a ver. Com o decorrer dos combates, a sua actuação passou a pesar no desenrolar dos acontecimentos. Calculava-se que Kobanê resistisse por pouco tempo. Com a resistência das milícias tiveram que agir, para não serem acusados de cumplicidade num massacre evitável. A questão para a lentidão é que sabem que as gentes desta parte do mundo deram à luz o poder do povo e provaram que é possível governarem-se a si mesmos sem governo, sem estado e sem dependência dos EUA, da União Europeia ou das instituições financeiras mundiais. Um projecto de autogestão que choca com os interesses estratégicos do Ocidente. E quanto mais preocupados estiverem em combate, menos se empenham na construção da sua democracia sem estado, um projecto de sociedade ecológica não subordinada ao neoliberalismo, que poderá alterar o acesso do Ocidente aos combustíveis fósseis da região.

    Dum lado, uma Turquia solícita às necessidades do EI. Do outro, uma coligação internacional interessada em garantir uma presença estratégica na Síria, sob capa humanitária, mas sem vontade de auxiliar povos em fuga do modelo capitalista de organização. No meio, os habitantes de Kobanê continuam a resistir. Nos últimos tempos, com aparente sucesso, abandonando a mera defesa e passando ao contra-ataque. No entanto, se aqui a situação militar parece melhorar, há um novo perigo sobre outro enclave curdo. A Frente Al-Nusra, espécie de al-Qaeda síria, está a deslocar-se para Afrim, cantão com cerca de um milhão de habitantes.

     

    rojava4Três pinceladas de História

    Excluídos das negociações e traídos pelo Tratado de Lausanne (1923), depois de os Aliados (da Primeira Guerra Mundial) lhes terem prometido um estado próprio, os curdos são a maior etnia do mundo que não o tem. Entre 27 e 36 milhões de pessoas[ref]Não é possível determinar o número exacto de curdos que vivem no Médio Oriente, principalmente devido à relutância dos vários governos das regiões habitadas por curdos em fornecer dados importantes.[/ref], na sua maioria muçulmanos sunitas, habitam uma região com cerca de 500.000 km². Vítimas das fronteiras forjadas pelo colonialismo, são mortos no Irão, assassinados na Turquia, gaseados no Iraque, massacrados na Síria.

    Até aos anos 70, os movimentos curdos de defesa de direitos nacionais eram dominados por chefes tribais, autoridades religiosas, ou elites urbanas. Uma fase caracterizada pela ausência de um projecto de alteração sócio-económica e demasiado confiante em apoios externos. Entretanto, o rápido crescimento capitalista da região, o aumento da urbanização e da literacia proporcionaram o nascimento de novas formações políticas que desafiavam radicalmente os moldes das forças nacionalistas tradicionais, nomeadamente o PKK, na Turquia, formado por um grupo de estudantes universitários desiludidos com os caminhos da luta nacional curda dos anos 70.

    Na sequência do golpe militar de 1980, que levou o exército turco ao poder, o PKK iniciou (1984) a luta armada por um estado curdo independente. Explorando a tensão geopolítica entre a Turquia (membro da NATO) e a Síria (pró-soviética), estabeleceu nesta última os seus campos de treino militar. A sua influência neste país é notória e reflectiu-se no rápido crescimento do seu aliado local, o PYD (Partiya Yekîtiya Demokrat – Partido da União Democrática), nascido em 2003.

    O fim da guerra fria levou os Assad, primeiro o pai, Hafiz, e, depois o filho, Bashar, a aproximarem-se do Ocidente. Ao mesmo tempo, a intensificação da via militar do PKK fez a Turquia aumentar as ameaças de intervenção armada se a Síria não deixasse de dar abrigo à liderança desse partido e aos seus campos de treino. Assad fechou esses campos e expulsou o líder do PKK, Abdullah Oçalan, que foi, consequentemente, capturado no Quénia pelos serviços secretos turcos, com a ajuda da CIA, a 15 de Fevereiro de 1999.

     

    Um novo ciclo

    Órfãos de líder e de modelo, com o desabar da experiência soviética, os partidários do PKK e do PYD começaram a ler artigos de filósofos, feministas, anarquistas e ecologistas sociais. A partilharem espaços e convivências há décadas, os curdos sabiam, pela experiência na Turquia, que nada se podia esperar do mercado. E, pela vivência na Síria, que o estado pouco mais tem para dar.

    Terá sido nessa tentativa de procurar alternativas ao capitalismo e à experiência soviética que Oçalan chegou a Bookchin[ref]A história que se conta nos meios de comunicação explica todas as alterações do PKK e do PYD unicamente através da “visão” de Oçalan. Diz-se que, na prisão, tropeçou em Murray Bookchin (escritor anarquista, percursor das ideias da ecologia social), adoptou o seu “municipalismo libertário” e, com algumas modificações, rebaptizou-o de “confederalismo democrático” e, mesmo atrás de grades, promoveu a criação do Grupo de Comunidades do Curdistão (Koma Civakên Kurdistan, ou KCK), uma experiência territorial do PKK de uma sociedade livre e de democracia directa.[/ref] e que outros chegaram ao zapatismo, ao feminismo, ao anarquismo[ref]Há, aliás, um texto que explora as semelhanças entre Rogava e Chiapas (http://roarmag.org/2014/07/rojava-autonomy-syrian-kurds/)[/ref]. Reduzir as influências ao teórico do municipalismo libertário e à centralidade do líder preso do PKK é a simplificação habitual de quem não consegue ainda entender uma organização sem figuras tutelares. De quem acredita ou quer fazer acreditar que as coisas acontecem isoladamente, sem ver ecos de Seattle, Génova, Chiapas, do 15M espanhol, do Occupy, dos protestos no Brasil dos mega- eventos ou da própria Primavera Árabe.

     

    koban2A revolução

    A partir de 2005, inspirado pela estratégia dos rebeldes zapatistas, o PKK declarou um cessar-fogo unilateral e iniciou uma estratégia não violenta que pretendia ganhar mais autonomia regional. Nessa altura, concentrou os seus esforços no desenvolvimento das estruturas que criava nos seus territórios. O PYD procedia da mesma forma. Ambos acreditando que é possível resolver a “questão nacional” através da chamada “autonomia democrática”, que envolve a rejeição do nacionalismo e que parte da ideia dum sistema de confederações autogeridas, fundado em comunas populares como órgãos base do exercício de democracia directa. Um sistema com uma grande preocupação com a igualdade de género e a protecção ambiental. A “autonomia democrática” foi a pedra de toque teórica para a formação e a administração dos cantões de Afrin, Jazira e Kobanê, na Síria (ou melhor, no Curdistão Ocidental, ou Rojava), depois da retirada do exército de Assad, no seguimento da militarização da revolução síria e do estalar da guerra civil[ref]Como curiosidade, refira-se que Janet Biehl, viúva de Bookchin, tem estudado as KCK no terreno e tem escrito sobre as suas experiências do site http://new-compass.net/. Também traduziu e publicou o livro Democratic Autonomy in North Kurdistan: The Council Movement, Gender Liberation, and Ecology (2013)[/ref].

    Um poder desaparecia e não era substituído por outro semelhante, mesmo que de sinal aparentemente contrário, como ocorre, de resto, na grande maioria daquilo a que nos habituámos a chamar de revoluções. Os curdos seguiram para caminhos novos, assentes em 4 pilares: a revolução deve começar na base da sociedade e não no topo; deve ser uma revolução ao mesmo tempo social, cultural, educacional e política; deve estar contra o poder, o estado e a autoridade; devem ser as pessoas das comunidades a terem responsabilidades na tomada de decisões. E organizaram-se em “Regiões Autónomas Democráticas” para dar corpo a uma confederação de curdos, árabes, assírios, caldeus, arameus, turcomanos, arménios e tchetchenos. Foram criadas assembleias populares enquanto órgãos decisórios. Os conselhos foram constituídos com uma grande preocupação de equilíbrio étnico. Existe um exército misto, o YPJ/YPG e brigadas feministas, a YJA Star (Yekîtîya Jinên Azad – União de Mulheres Livres – a estrela refere-se à antiga deusa mesopotâmica, Ishtar). As propriedades do regime sírio foram entregues a cooperativas geridas pelos trabalhadores. Uma democracia sem estado, antes baseada na criação de comunidades livres de autogoverno em gestão directa.

    Uma ideia consagrada na constituição de Rojava[ref]O texto completo da Constituição de Rojava pode ser encontrado em castelhano, por exemplo em http://www.resumenlatinoamericano.org/?p=5926[/ref], um documento verdadeiramente notável na história moderna do Médio Oriente, principalmente pelo seu enfoque na coexistência igualitária entre etnias, religiões e géneros. Ponto de partida para uma experiência colectivizadora. Uma revolução, sem dúvida. Talvez no único sentido que, hoje, verdadeiramente conta. Aquele em que se deixa, pura e simplesmente, de funcionar da forma que interessa ao poder e ao capital e se passa a organizar as coisas com base nas decisões das próprias pessoas. Um movimento aparentemente nacionalista que ultrapassou essa questão para se centrar na que realmente interessa: viver mandando na própria vida, independentemente da origem étnica, geográfica ou religiosa.

    Uma revolução que não nasce duma expressão de raiva. Que não é criada por ordem superior. Que não acontece em 24 horas e não é um golpe militar ou palaciano nem um levantamento bolchevique. E que não se limita a desmantelar a infra-estrutura económica da sociedade. Antes, tenta eliminar desejos de autoridade, dos campos às escolas e às famílias. Que esbate, de facto, as diferenças entre homens e mulheres. Uma revolução que se dá na vida social, na cultura, educação, mentalidade, comportamento e pensamento. Um projecto de criação permanente de rebeldes que vivam em harmonia e em ambiente de liberdade e abertura e se acostumem a uma cultura de vida colectiva, de dar e não só receber, de confiança e desafio, de crença no trabalho voluntário e na solidariedade. Uma cultura de tu primeiro e, depois, eu.

     

    Mas…

    Pintámos, decerto, um quadro a cores demasiado suaves. Porque a paisagem real deve ser bem menos harmoniosa. Não apenas pelo clima de guerra, também pela escassez de bens para além do trigo e do petróleo, numa zona sem indústria, por exemplo. As privações, mesmo partilhadas, serão muitas. Um quadro onde, apesar de tudo, é preciso reconhecer um marcado culto da personalidade. Oçalan é endeusado em muitas zonas e o próprio, que rejeitou o estado e a autoridade, ainda não criticou os que continuam a chamar-lhe grande líder. Para além do mais, sabemos que, a esta distância, as palavras são sempre ecos relativamente distorcidos da realidade. E que esta deve ser bem mais dura do que a que transparece.

    Para além disso, há aparentes contradições que despertam dúvidas. Sabendo-se que é o PYD que está por trás do movimento popular de autogestão e sabendo-se que um partido, lá como cá, é sujeito a interesses particulares, o que acontecerá se as decisões das comunidades, porventura, seguirem caminhos “errados”? E como fazer conviver estruturas com formas e naturezas diferentes como são os partidos, hierárquicos, e os órgãos decisórios que se pretendem implementar, de hierarquia invertida? Qual a importância que as lideranças do PYD e do PKK têm no desenvolvimento destas relações? Que outras forças e outras ideias podem surgir no terreno? Ou, de outro ângulo, é possível que uma revolução iniciada de cima para baixo desague numa sociedade organizada de baixo para cima?

    Finalmente, há a questão da existência de uma espécie de poder dual. O sistema de comunas e um parlamento que forma um governo transitório (até à realização de eleições) no qual estão representados todos os partidos políticos e grupos sociais. A estruturação deste poder dual está ainda em discussão. Das conclusões dependem muitas das possibilidades libertadoras da experiência de Rojava.

    O desenvolvimento futuro das comunas pode trazer luz a estas questões. Na melhor das possibilidades, alargarão as suas competências, deveres e poderes. Na pior, serão couto de funcionários de partidos a preocuparem-se, acima de tudo, com os seus interesses próprios.

     

    Funcionamento concreto do sistema de comunas
    A Primavera Árabe chegou à Síria em 2011 e expandiu-se em pouco tempo para Afrin, Jazira e Kobanê, onde se revelou forte e eficaz, a ponto de ter contribuído de forma decisiva para a retirada do exército sírio dos cantões curdos.
    Com o espírito assembleário bem presente, o povo dessas regiões, com o apoio do PYD e do PKK, formou o Tev-Dem (Tevgera Civaka Demokratîk – Movimento da Sociedade Democrática).
    Com a retirada do poder sírio, a situação ameaçava tornar-se caótica e o Tev-Dem iniciou a implementação dos seus programas.
    Programas extraordinariamente inclusivos, mas de organização pré-estabelecida a que se adere ou não. Programas com tudo antecipadamente pensado. Em primeiro lugar, criar uma quantidade de grupos, comités e comunas nos bairros, aldeias e cidades, com o papel de se envolverem em todos os aspectos da sua sociedade: questões de género, ambiente, educação, saúde.
    Hoje, estes grupos têm reuniões semanais onde falam dos problemas de onde vivem. Nas cidades, têm o seu representante no grupo principal, chamado “Casa do Povo”.
    As comunas foram criadas um pouco por todo o lado. Baseadas no princípio da participação directa na gestão das ruas, dos bairros, das aldeias e das cidades. São os lugares onde as pessoas com mais de 16 anos se organizam voluntariamente para falarem e procurarem soluções para os seus problemas sociais, políticos, ambientais e de segurança.
    O corpo executivo desta “auto-administração democrática” é eleito pela Assembleia Popular e tem autonomia para implementar e executar as decisões da Casa do Povo. Quase metade dos seus membros são mulheres. Está organizado de forma a que pessoas de todos os géneros, nacionalidades e crenças possam participar.
    Na maioria das zonas, as decisões são tomadas de acordo com os princípios do consenso. Há cuidados para que uma pessoa não domine os processos.
    Das suas mãos já saiu um Contrato Social, uma Lei dos Transportes, uma Lei dos Partidos. No Contrato Social, pode ler-se na primeira página: “as áreas de democracia autogerida não aceitam os conceitos de nacionalismo estatal, exército ou religião, gestão e governo centralizados, mas estão abertas a formas compatíveis com as tradições da democracia e do pluralismo”.
    Há dezenas de partidos. A maioria em oposição ao PYD, ao Tev-Dem e à auto-administração democrática. A única restrição que têm é a de não poderem ter guerrilheiros ou milícias sob seu comando.

     

    Teófilo Fagundes

     

    Artigo publicado na edição impressa (nº8, Dezembro de 2014)

     

  • “Não. Isto é uma verdadeira revolução” Entrevista com David Graeber sobre Rojava

    “Não. Isto é uma verdadeira revolução” Entrevista com David Graeber sobre Rojava

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    traduzido a partir de ZNET (entrevista originalmente publicada pelo diário Evrensel na Turkia)


     

    O anarquista e professor de Antropologia (London School of economics), David Graeber, escreveu em Outubro passado um artigo para o Guardian, durante a primeira semana dos ataques do ISIS (Estado Islâmico do Iraque e do Levante) a Kobane (norte da Síria), onde perguntava porque é que o mundo estava a ignorar os Kurdos Sírios revolucionários.

    Mencionando o seu pai, que se voluntariou para lutar nas Brigadas Internacionais na república espanhola em 1937, perguntou:

    “ Se existe hoje um paralelo com os assassinos falangistas, superficialmente devotos de Franco, quem será senão o ISIS? Se existe hoje um paralelo com as Mujeres Libres de Espanha, quem será senão as corajosas mulheres que defendem as barricadas de Kobane? Vai o mundo – e desta vez mais escandalosamente, a esquerda internacional- ser condescendente em deixar que a história se repita?

    De acordo com Graeber, a região autónoma de Rojava declarada com um “contracto social” em 2011, como três cantões anti-estado, anti-capitalistas, foi também uma notável experiência democrática desta área.

    No início de Dezembro, com um grupo de 8 pessoas, estudantes, activistas e académicos de diferentes partes da Europa e dos EUA, passou 10 dias em Cizire – um dos cantões de Rojava. Tiveram a hipótese de observar a prática da “democracia autónoma” no local e colocar várias questões.

    Graeber descreve agora a sua impressão desta viagem com questões maiores e explica por que é que esta “experiência” dos curdos sírios está a ser ignorada pelo mundo inteiro.

     

    No artigo para o Guardian perguntaste por que é que o mundo ignora a “experiencia democrática” dos curdos sírios. Depois da experiência de 10 dias, tens uma nova questão ou talvez uma resposta para isso?

    Bem, se alguém tinha dúvidas se isto era uma verdadeira revolução, ou só alguma “sombra”, diria que esta visita tira todas as dúvidas. Ainda existem pessoas a dizer: “Isto é só uma frente do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), na verdade são só uma organização autoritária estalinista, que apenas finge ter adoptado uma democracia radical”. Não. Isto é mesmo a sério. É uma revolução genuína. Mas de certa maneira, é exactamente esse o problema. Os grandes poderes têm-se entregado a uma ideologia que diz que as verdadeiras revoluções já não podem acontecer. Entretanto, muita da esquerda, mesmo a radical, parece tacticamente ter adoptado a política que assume o mesmo, apesar de parecerem superficialmente revolucionários. Assumem um tipo de “anti-imperialismo” puritano que assume que os únicos jogadores importantes são os governos e capitalistas, e que esse é o único jogo que vale a pena discutir. O jogo onde se batalha, se criam vilões míticos, se agarra petróleo e outros recursos, montam-se redes de patrocínios; é o único jogo da cidade. O povo de Rojava diz: “Nós não queremos jogar esse jogo. Queremos criar um novo”. Muita gente acha isto confuso e perturbador, então escolhem acreditar que não está a acontecer, ou que essas pessoas estão iludidas, são desonestas ou ingénuas.

    Desde Outubro que vemos uma crescente solidariedade vinda de vários movimentos políticos de todo o mundo. Houve uma grande e deveras entusiástica cobertura da resistência em Kobane pelos média mainstream internacionais. A posição política perante Rojava mudou no Ocidente, de certa forma. Existem sinais significativos mas estar-se-á a discutir suficientemente a autonomia democrática e as experiências nos cantões de Rojava? Que parte de “algumas pessoas corajosas a lutar contra o grande mal desta era, o ISIS” não estará a dominar esta aprovação e este fascínio? Acho que é notável que tanta gente no Ocidente olhe para estes quadros de feministas armadas, por exemplo, e nem sequer pense nas ideias por trás delas. Apenas se apercebem que assim aconteceu, por algum motivo. “Penso que é uma tradição curda”. De certo modo, claro que se trata de orientalismo, ou simplesmente racismo. Nunca lhe ocorreu que as pessoas no Curdistão possam estar também a ler Judith Butler. Na melhor das hipóteses pensam: “Oh, estão a tentar alcançar os padrões ocidentais da democracia e dos direitos das mulheres. Será que é a sério ou será só para os estrangeiros verem”. Não lhes ocorre que eles podem estar a levar as coisas bem mais longe que os “padrões ocidentais” alguma vez levaram; que acreditam genuinamente nos princípios que os Estados ocidentais apenas professam.

     

    Mencionaste a aproximação da esquerda sobre Rojava. Como é isso recebido nas comunidades anarquistas internacionais?

    A reacção da comunidade anarquista internacional tem sido decididamente diversa. De certa maneira, acho difícil de entender. Existe um grupo substancial de anarquistas – normalmente os elementos mais sectários – que insiste que o PKK ainda é um grupo nacionalista autoritário estalinista, que adoptou Bookchin, e outros partidários da esquerda libertária, para cortejar a esquerda anti autoritária na Europa e América. Parece-me uma das ideias mais parvas e narcisistas que já ouvi. Mesmo que a premissa estivesse correcta, e que um grupo Marxista-Leninista decidisse fingir uma ideologia para obter apoio estrangeiro, por que raio é que iriam escolher ideias anarquistas desenvolvidas por Murray Bookchin? Isso seria a jogada mais estúpida de sempre. Obviamente fingiriam ser islamitas ou liberais, já que são esses que conseguem armas e apoio material. De qualquer maneira, penso que muita gente na esquerda internacional, incluindo a esquerda anarquista, não quer basicamente ganhar. Não conseguem imaginar que uma revolução realmente acontecesse, e, secretamente, nem sequer a querem, uma vez que isso significaria partilhar o seu clube “fixe” com pessoas comuns; já não seriam especiais. Assim, até é útil para separar os verdadeiros revolucionários dos “poseurs”. Mas os verdadeiros revolucionários têm-se mantido firmes.

     

    Qual foi a coisa mais impressionante que testemunhaste em Rojava nos termos práticos desta autonomia democrática?

    Existem tantas coisas impressionantes. Acho que nunca ouvi falar de nenhum outro lado do mundo onde tenha existido uma situação de dualidade de poder, onde as mesmas forças políticas criaram ambos os lados. Existe a “auto-administração democrática”, onde existem todas as formas e armadilhas de um Estado – Parlamento, ministros, e por aí – mas foi criada para ser cuidadosamente separada dos meios do poder coercivo. Depois há o TEV-DEM (o Movimento da Sociedade Democrática) dirigido de raiz instituições de democracia directa. No final – e isto é fulcral – as forças de segurança respondem perante as estruturas que seguem uma abordagem de cima para baixo, e não de baixo para cima. Um dos primeiros locais que visitámos foi a academia de polícia (Asayis). Todos tiveram que frequentar cursos de resolução de conflitos não violenta e de teoria feminista antes de serem autorizados a pegar numa arma. Os co-directores explicaram-nos que o seu objectivo final é dar seis semanas de treino policial a toda a gente no país, para que em última análise se possa eliminar a polícia.

     

    O que responderias às várias críticas em torno de Rojava? Por exemplo: “Eles nunca fariam isto em tempos de paz. É por causa do estado de guerra”

    Bem, penso que a maioria dos movimentos, perante as condições horrendas da guerra, não iria no entanto abolir imediatamente a pena capital, dissolver a polícia secreta e democratizar o exército. As unidades militares, por exemplo, elegem os seus oficiais.

     

    E existe outra crítica, bastante popular nos círculos pro-governo aqui na Turquia: “O modelo que os Curdos – na linha do PKK e PYD (o Partido Curto de União Democrática) – estão a tentar promover não é na verdade seguido por todas as pessoas que lá vivem. Essa multi-… estrutura existe apenas à superfície, nos símbolos”

    Bem, o presidente do cantão de Cizire é árabe, é de facto o chefe da maior tribo local. Suponho que se possa dizer que ele é só uma figura. No sentido que todo o governo o é. Mas ao olhando para as estruturas organizadas de baixo para cima, é certo que não são só os curdos que estão a participar. Disseram-me que o único problema a sério é com algumas aldeias do “cinto árabe”, pessoas trazidas de outras partes da Síria pelos Baathistas nos anos 50 e 60, como parte de uma política de marginalização e assimilação dos curdos. Algumas dessas comunidades afirmaram-se bastante hostis à revolução. Mas os árabes cujas famílias já lá estão há várias gerações, ou os assírios, quirguizes, arménios, chechenos, mostram-se entusiasmados. Os assírios com quem falámos disseram que, após uma longa e difícil relação com o regime, sentiram que finalmente lhes era permitida autonomia cultural e religiosa. Provavelmente, o maior problema pode ser o da libertação das mulheres. O PYD e o TEV-DEM vêem-no como absolutamente central na sua ideia de revolução, mas também enfrentam o problema de lidar com alianças maiores com comunidades árabes que sentem que isto viola princípios religiosos básicos. Por exemplo, enquanto aqueles que falam siríaco têm a sua própria união de mulheres, os árabes não, e as raparigas árabes interessadas em organizar-se em torno de questões de género ou até assistir a seminários feministas têm de se juntar com os assírios ou mesmo com os curdos.

     

    Não é necessário estar preso no “quadro anti-imperialista puritano” que mencionaste antes, mas o que dirias em relação ao comentário que o Ocidente/imperialismo irá um dia exigir aos curdos sírios um pagamento pelo seu apoio? O que é que o Ocidente pensa exactamente sobre este modelo anti-estado e anti-capitalista? É apenas uma experiência que pode ser ignorada durante um estado de guerra, enquanto os curdos se aceitam voluntariamente combater um inimigo criado pelo Ocidente?

    É absolutamente verdade que os EUA e a Europa irão fazer o que poderem para subverter a revolução. Nem é preciso dizer nada. As pessoas com quem falei estão bem cientes disso. Mas não fazem grande diferenciação entre a liderança de poderes regionais como na Turquia, Irão ou Arábia Saudita, e poderes Euro-americanos como por exemplo França ou EUA. Assumem que são todos capitalistas e estadistas e portanto anti-revolucionários, que podem no melhor dos casos ser convencidos a apoiarem-nos mas que, em última análise, não estão do seu lado. Depois existem questões ainda mais complicadas da estrutura da chamada comunidade internacional, o sistema global de instituições como a ONU ou FMI, corporações, ONG’s, organizações humanitárias, em que todas presumem uma organização estadista, um governo que pode passar leis e detém o monopólio da aplicação coerciva dessas leis. Só existe um aeroporto em Cizire e está sobre o controlo do governo Sírio. Podem tomá-lo a qualquer altura, dizem. E há uma razão para não o fazerem: como iria um não-Estado dirigir um aeroporto? Tudo o que se faz num aeroporto é sujeito a regulamentos internacionais, o que presume um Estado.

     

    Tens uma resposta para o porquê da obsessão do ISIS com Kobane?

    Bem, eles não podem ser vistos a perder. Toda a sua estratégia de recrutamento é baseada na ideia que eles são imparáveis, e que a sua contínua vitória é a prova que representam a vontade de Deus. Serem derrotados por um monte de feministas seria a humilhação final. Enquanto estiverem a lutar em Kobane, podem dizer que os média mentem e que estão a avançar verdadeiramente. Quem pode provar o contrário? Se recuassem seria admitir a derrota.

     

    Tens resposta para o que Tayyip Erdogan e o seu partido estão a tentar a fazer na Síria e o Médio Oriente em geral?

    Posso apenas imaginar. Parece que Erdogan passou de uma política anti-Assad e anti-curda para uma estratégia quase puramente anti-curda. Repetidamente tem mostrado vontade de se aliar com fascistas pseudo-religiosos para atacar qualquer experiência de democracia radical inspirada no PKK. Ele vê claramente, como o próprio Daesh (ISIS), que o que está a ser feito é uma ameaça ideológica, talvez a única alternativa ideológica viável face ao islamismo de direita que se avizinha, e tudo fará para a eliminar.

     

    De um lado existem os curdos iraquianos com uma ideologia bem diferente em termos de capitalismo e noção de independência. Por outro lado, existe este exemplo alternativo em Rojava. E existem os curdos da Turquia que tentam manter um processo de paz com o governo… Pessoalmente, como vês o futuro do Curdistão a curto e a longo prazo?

    Quem pode dizer? Neste momento as coisas parecem surpreendentemente boas para as forças revolucionárias. O KDG até desistiu da enorme vala que estava a construir através da fronteira de Rojava, após o PKK intervir e salvar Erbil e outras cidades dos avanços ISIS, em Agosto. Um elemento do KNK disse-me que isso teve um grande impacto na consciência popular; que um mês criou tanta consciência como 20 anos. Os jovens estavam particularmente impressionados pelo facto de os seus próprios Peshmerga abandonarem o campo de batalha mas as mulheres do PKK não. Mas é difícil de imaginar como é que o território de KRG será contudo revolucionado num futuro próximo. Nem o poder internacional o permitiria.

     

    Apesar de a autonomia democrática não parecer estar em cima da mesa de negociações na Turquia, o Movimento Político Cudo tem estado a trabalhar nisso, especialmente ao nível social. Tentam encontrar soluções em termos legais e económicos para possíveis modelos. Quando comparamos, digamos, a estrutura de classes e o nível de capitalismo no Curdistão Ocidental (Rojava) e no Norte (Turquia), o que pensas sobre as diferenças destas duas lutas para uma sociedade anti-capitalista – ou para um capitalismo minimizado, como o descrevem?

    Penso que a luta curda é explicitamente anti-capitalista em ambos os países. É o seu ponto de partida. Conseguiram uma espécie de fórmula: não eliminar o capitalismo sem eliminar o Estado, e não podemos eliminar o Estado sem eliminar o patriarcado. No entanto, o povo de Rojava tem a questão simplificada em termos de classes porque a verdadeira burguesia, tal como existia numa região maioritariamente agrícola, desapareceu com o colapso do regime de Baath. Enfrentarão um problema a longo prazo se não trabalharem no sistema educativo, para assegurar que um estrato tecnocrata de desenvolvimento não tente eventualmente tomar poder, mas entretanto, é compreensível que se foquem de imediato nas questões de género. Na Turquia não sei tanto, mas tenho a sensação que as coisas são muito mais complicadas.

     

    Durante os dias em que as pessoas do mundo não podiam respirar por razões óbvias, a tua viagem a Rojava inspirou-te sobre o futuro? Qual achas que é o “remédio” para as pessoas respirarem?

    Foi extraordinário. Passei a minha vida a pensar em como poderíamos fazer coisas como estas num futuro remoto e a maioria das pessoas pensa que sou louco por imaginar que isto alguma vez vai acontecer. Estas pessoas estão a fazê-lo agora. Se eles provarem que pode ser feito, que uma sociedade genuinamente igualitária e democrática é possível, isto irá transformar completamente a noção de possibilidades humanas. Pessoalmente, sinto-me dez anos mais novo só de ter lá passado dez dias.

     

    Com que cena te irás recordar da tua viajem a Cizire?

    Existem tantas imagens impressionantes, tantas ideias. Gostei da disparidade entre o aspecto das pessoas e as coisas que diziam. Conhece-se alguém, um médico, que parece um militar sírio, vagamente assustador, de casaco de cabedal e expressão austera. Depois fala-se com ele e ele explica: “Bem, sentimos que a melhor abordagem à saúde pública é a prevenção, a maioria das doenças ocorre devido ao stress. Sentimos que se reduzirmos o stress, os níveis de doenças de coração, diabetes, e mesmo o cancro irão diminuir. Assim, o nosso plano final é reorganizar as cidades para terem 70% de espaços verdes…” Existem todos estes planos loucos e brilhantes. Mas depois vai-se ao médico ao lado e explica-nos que, graças ao embargo turco, não conseguem sequer obter equipamento ou medicamentos básicos, que todos os pacientes para diálise que não foram levados dali morreram… Esta disjunção entre as ambições e as incríveis e difíceis circunstâncias. E… A mulher que era efectivamente a nossa guia era uma vice-chanceler chamada Amina. A certa altura, pedimos desculpa por não termos trazido presentes melhores e ajudado a população de Rojava, a sofrer sob o embargo. E ela disse: “No final, isso pouco importa. Temos a única coisa que ninguém nos pode dar. Temos a nossa liberdade. Vocês não. Quem me dera que houvesse uma maneira de vos poder dá-la”.

     

    És por vezes criticado por seres demasiado optimista e entusiasta sobre o que está a acontecer em Rojava. Achas que és? Ou há alguma coisa que não entendem?

    Sou optimista de temperamento, procuro situações que carreguem alguma promessa. Não acho que existam garantias que isto resultará no final, que não será esmagado, mas certamente que não será se toda a gente decidir que nenhuma revolução é possível e se recusar a dar-lhe apoio activamente, ou até dedicar esforços a atacá-la ou aumentar o seu isolamento, como muitos fazem. Se existem alguma coisa da qual tenho consciência e os outros não, talvez seja o facto de a história não estar terminada. Os capitalistas têm feito um esforço enorme nos últimos 30 ou 40 anos em convencer as pessoas que os actuais acordos económicos – nem sequer o capitalismo, mas a forma de capitalismo semi-feudal, financializada, peculiar que temos hoje em dia – são o único sistema económico possível. Puserem mais esforços nisto do que em criar um sistema capitalista global viável. Como resultado, o sistema está a despedaçar-se à nossa volta no preciso momento em que toda a gente perdeu a capacidade de imaginar outra coisa. Bem, é bastante óbvio que em 50 anos, o capitalismo sob qualquer forma que conheçamos, e provavelmente sob qualquer outra forma, já não existirá. Terá sido substituído por outra coisa. Essa coisa pode não ser melhor. Pode até ser pior. Por esse mesmo motivo, parece-me que é nossa responsabilidade, enquanto intelectuais, ou simplesmente seres humanos pensantes, de pelo menos pensar como será uma coisa melhor. E se existem pessoas que estão verdadeiramente a tentar criar essa coisa melhor, é nossa responsabilidade ajudá-las.