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  • Uma Primavera Agroecológica

    Uma Primavera Agroecológica

    A Primavera AgroEcológica, tem lugar entre 21 de Março e 1 de Maio. A iniciativa pretende estimular o debate crítico sobre os caminhos para a transição Agroecológica. Uma iniciativa do GAIA co-organizada com mais de 20 parceiros/as e um programa com mais de 25 eventos – na sua maioria online – que irão abordar as dimensões práticas, éticas, cientificas, económicas, sociais, políticas e culturais da Agroecologia. 

     

    Programa Primaverae
    Clique para consultar o programa completo.
    As actualizações diárias e o desenrolar das conversas, debates e reflexões podem ser seguidas na pagina Facebook da PrimaverAE2021. O Jornal MAPA falou com os seus promotores, a associação ecologista GAIA.

    Filipe Nunes: De que agroecologia falamos e quem a pratica hoje em Portugal?

    Agroecologia
    cam camarena © 

    Essa é a pergunta a que a PrimaverAE quer começar a responder. Num projeto internacional de criação de um curso de agroecologia foi pedido ao GAIA que fizesse um levantamento da situação em Portugal. Percebemos que há entendimentos variados sobre o que é Agroecologia, que toma várias formas de agricultura ecológica e sustentável, como a Biodinâmica, Permacultura, Sintrópica, agricultura urbana, etc.. A pesquisa levou-nos à agricultura familiar e de pequena escala com as suas práticas agrícolas tradicionais mantidas ao longo de gerações, tendo sido como uma guardiã das paisagens. Estas práticas integram as tradições culturais do lugar, criando os ofícios, a gastronomia ou as celebrações, que mantêm comunidades unidas, com práticas de apoio mútuo estabelecidas. Mas também encontramos a chamada «Agroecologia Lixo», um termo que caracteriza o uso das técnicas agroecológicas por corporações não só como marketing verde, mas sobretudo como adaptação às alterações climáticas. Na academia, assistimos à emergência de uma disciplina que estuda e desenha sistemas alimentares sustentáveis, de forma transdisciplinar e participativa, promovendo o diálogo horizontal entre a academia e diferentes sistemas de conhecimento, como o tradicional ou o profissional. Finalmente, vimos a agroecologia como um movimento social político internacional, protagonizado por associações camponesas e comunidades locais, piscatórias ou pastoris, que lutam pelo direito de acesso à terra, às sementes, aos mercados e às políticas e a manterem o seu modo de vida tradicional, actualmente ameaçado pela agroindústria. É a este movimento que o GAIA gostaria de dar visibilidade, como um movimento com um fim de transformação social, baseado na solidariedade, justiça e dignidade de quem faz com e da terra o seu modo de vida.

    Falam de transição agroecológica num contexto planetário de crise ecológica e social. Atendendo à soberania alimentar e a crescente demanda alimentar demográfica, como responder à solução da industrialização da produção alimentar? É possível ir para lá da ideia de nichos de produção e consumo…

    Agroecologia
    cam camarena ©

    Nos ecossistemas vemos nichos como respostas naturais a determinados contextos seja de clima, nutrientes, solo ou seres que os habitam. E os próprios ecossistemas são em si nichos maiores. Num paralelismo com a forma como a humanidade se organiza, o problema estará na criação de nichos ou na globalização e mercantilização do que é comum? Grupos de consumo autónomos (com diversos nomes, AMAPs, CSAs, GAKs…) mostram-nos coletivos baseados em relações de proximidade. Essas relações desenvolvem formas de organização local, comunicando com a vizinhança, cuidando a terra, gerindo a água, conservando as sementes livres, nutrindo o solo. As respostas encontradas em autonomia e autogestão, dão origem à partilha de responsabilidades na interacção com o ecossistema em causa. E isso é um nicho que se torna resiliente na sua vivência com a constante mudança. Os sistemas de policultura agro-silvopastoris apresentam maior adaptação a perturbações externas com recuperação da produção. Ao contrário, a produção industrial intensiva e de monocultura está condenada pela sua baixa resiliência a perturbações, como a variação no preço do petróleo e fenómenos climáticos extremos. Enquanto o modelo agroindustrial é intensivo em consumos derivados do petróleo, o modelo agroecológico é intensivo em conhecimento e mão de obra, sendo central a sua dimensão social e comunitária. Sabe-se hoje que a fome no mundo não deriva da falta de produção mas de um problema estrutural de distribuição e acesso ao alimento. E a agricultura familiar e de pequena escala continua a ser responsável pela maior parte da produção alimentar mundial (mesmo detendo apenas 25% dos terrenos agrícolas). Políticas como a PAC, desenhadas para apoiar os mercados agro-alimentares globais, têm de ser revertidas para apoiar a agricultura familiar, de pequena escala e a criação de circuitos comerciais de proximidade, que sejam socialmente justos, biológica e culturalmente diversos, no sentido da auto-suficiência das regiões, construindo assim uma soberania alimentar resiliente às alterações climáticas.

    Agroecologia
    cam camarena ©

    A pandemia tornou evidente a indispensabilidade da proximidade dos circuitos alimentares. Nesse desenho de redes que se proporciona, qual o projecto social e político da agroecologia em contraponto ao delinear dessas redes pela mera lógica dos mercados?

    Assistimos a uma tensão entre dois modelos distintos de produção alimentar, o coorporativo e o camponês, seja tradicional ou neo-rural. A agroecologia reclama justiça nas relações ecológicas e sociais, afirmando-se feminista, anticolonialista e anti-imperialista pela soberania alimentar dos povos. Quer-se enraizada nos territórios, onde diferentes agroecologias se adaptam ao local. A sua base é a cooperação, com necessidades de mão-de-obra e de conhecimento, facilitadas por processos de educação de base comunitária e emancipatória, entre pares. A agroecologia reconhece a complexidade das várias inter-relações e interdependências dos ecossistemas a que pertencemos, diversificando e apoiando relações justas e procurando a viabilidade da produção aos níveis económico, social, cultural, espiritual e material. Esta é uma cosmovisão oposta à da agroindústria, que visa acumular capital económico de produção levando à degradação ambiental e do tecido social, enquanto a agroecologia integra as comunidades humanas nas comunidades ecológicas que, em inter-relação, tecem a teia da vida deste planeta.

     


    Texto de Filipe Nunes [filipenunes@jornalmapa.pt]  

    Fotografias de cam camarena © [http://www.camarenaphoto.com/]


    Entrevista publicada no Jornal Mapa, edição #30, Março 2021 | Maio 2021.

  • Piratas modernos e comunidades no mar

    Piratas modernos e comunidades no mar

    O Albarquel, retirado da água num estaleiro da Moita, vê um buraco aberto à martelada na proa. O Carina, tão perto de chegar a Lisboa, não pode senão aguentar ao largo que a tempestade amaine. O Tupamaro, sem cartas marítimas, encalha sucessivamente nos fundos lodosos da margem sul.
    As aventuras de três singulares veleiros cruzaram-se em dezembro na foz do Tejo, e Lisboa voltou a ter traços de cidade pirata. Dia 22, solstício de inverno, as três tripulações juntaram-se no GAIA em Lisboa, onde se falou de projectos de vela alternativos.

    “Velejar… um hobby de luxo para os privilegiados?”, questionava o convite para o jantar-conversa ‘Piratas modernos e comunidades no mar’. “Cada vez mais projectos e pessoas têm descoberto na vida no mar uma alternativa à sociedade consumista e uma experiência de autonomia e liberdade. Recuperam-se veleiros moribundos, içam-se velas, parte-se sem pressa, derrubam-se fronteiras, experimentam-se formas de vida comunitária e em harmonia com a natureza.”

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    À abordagem, por ordem alfabética:

    O Albarquel encontrava-se inutilizado em Sarilhos Pequenos, sítio do último estaleiro naval de madeira do Tejo. É um impressionante barco de madeira dos anos 50, que transportava sal desde o Sado até Lisboa. Mas tem levado uma vida incomum: resgatado por várias pessoas e para diversas vocações, já viajou pelas Caraíbas, América do Sul, mar da Noruega.

    Em dezembro passado, uma trupe de jovens franceses saltou a bordo para o reparar e o fazer navegar até Marselha. A palavra passou de boca em boca e motivou 15 pessoas – a maioria veio à boleia e só se conheceu já sobre o convés do Albarquel. “Somos todas muito diferentes. Algumas têm experiência em construção naval, para outras é a primeira vez num barco”, contam. Durante um mês geriram horizontalmente as reparações do barco, do casco ao alto do mastro, e aprenderam a viver em colectivo no pequeno espaço que outrora continha oitenta toneladas de sal.

    Para a chegada a Marselha, “estamos a organizar um projecto de uma semana com refugiados menores, e temos muitas ideias, desde cinema a um atelier de cerveja. Tudo está em aberto, depende dos sonhos das pessoas que se juntarem ao projecto.” Projecto que já adoptou o nome dum pequeno barco vizinho: “Logo se vê”.
    Procuram reutilizar tudo o que é possível e limitar os custos, para os quais fazem uma vaquinha entre todas e uma campanha de angariação de fundos. O actual proprietário cede-lhes o Albarquel por pelo menos um ano. “Ainda nem partimos e já ganhámos tanto com esta experiência. Vamos desfrutar, depois logo se vê.”

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    O Carina diz-se uma “passerelle flutuante utopista”. No porão do elegante barco em madeira vem uma âncora, uma vela e várias ferramentas para o Albarquel. Uma forma de transporte que é muito cara à sua tripulação. Em Setembro passado, resolveram resgatar uma velha tradição da Bretanha: “colhemos 600 quilos de cebolas biológicas que transportámos pelo mar, e vendemo-las pelas ruas da costa inglesa enquanto tocávamos música”.

    “É uma forma de poesia política”, dizem. “Hoje os cargueiros representam 80% das trocas mundiais, mas destroem a vida marinha. Com o Carina, mostramos uma forma alternativa de mover bens e ideias à vela. Gostávamos de transportar coisas para apoiar espaços colectivos.”
    Durante o verão, o grupo de amigos reparou o barco no estaleiro da associação AJD – ponto focal dos projectos de vela alternativos em França. Pagam a empreitada com trabalhos sazonais e uma campanha de crowdfunding.

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    Navegam numa “missão artística”. Acordeão, bandolim, clarinete e guitarra fazem parte do material de bordo. Antes de partir, encenaram “A sopa”, uma peça sem texto, para poder ser apresentada em portos, teatros ou praças e compreendida para lá de barreiras linguísticas.
    A rota está em aberto, mas surpresa não será se seguir por Marrocos, Senegal, Cabo Verde. “Queremos enraizar em cada porto para conhecer pessoas e participar na vida local. Esta não é só uma forma de viajar, é todo um mundo, onde o horizonte é imenso, onde os elementos são os únicos mestres”.

    O Tupamaro, veleiro indigente com nome de guerrilheiro sul-americano, não deixa de dar nas vistas: seja ao tentar entrar à bolina com a sua vela de estai meio desfeita pelo estreito canal da doca de Alcântara, seja ao atracar em plena Ribeira no centro do Porto, com a sua tripulação pé-descalça a emocionar a turba de turistas.
    É um dos barcos do colectivo Jean-Batollectif/ve : uma quinzena de pessoas com vontades comuns: navegar, reparar barcos, criar sinergias, fazer espectáculos, grupos corais, cantinas… Colectivizaram quatro veleiros, recuperados gratuitamente aos antigos proprietários, que não lhes davam uso.
    No Tupamaro foram cinco a deixar a Bretanha e atravessar o golfo de Biscaia – para buscar o calor doutras latitudes, arejar dos meios militantes, partilhar a arte da vela com quem a quiser descobrir e se juntar à dinâmica colectiva em torno do Albarquel.

    Os três veleiros vão zarpar juntos de Lisboa e em frota rumar a sul, até cada um seguir desenhando no espelho do mar sua própria aventura.

    logoseve.jimdo.com
    projetcarina.wordpress.com
    liberbed.net

    Outros projectos:

    AJD: belespoir.com
    Alternative World Sailing Community: alternativesailing.org
    Recla-Mar: cofradiareclamar.wordpress.com
    Festina Lente: festinalente2016.net

     

    Texto de Francisco Colaço Pedro [franciscocolacopedro@gmail.com]

  • Rede Cooperar – uma iniciativa de produtores e consumidores

    Rede Cooperar – uma iniciativa de produtores e consumidores

    reco_destaqueNas franjas da planície alentejana com as serras do sudoeste litoral, surgiu há um ano a Rede Cooperar (ReCo). Unidos pela agro-ecologia e por uma visão abrangente do território, com vista a criar uma comunidade de apoio mútuo entre produtores e consumidores.  

     

    Nasce a ReCo

    A sua formação deu-se na Aldeia das Amoreiras, onde em 2007 o GAIA (Grupo de Acção e Intervenção Ambiental) se instalara com o propósito de dar corpo a alternativas sustentáveis e criativas para o desenvolvimento rural. Contrariando o abandono do campo, pretendia estabelecer a ponte entre as comunidades locais e um fluxo de citadinos animados por um “regresso à terra”.

    Em torno da Aldeia das Amoreiras um outro contexto contribuía, sob idênticos pressupostos, para o nascimento da ReCo. Na zona – essencialmente entre Odemira e Ourique –, desde a década de 90 do século passado até aos nossos dias, têm vindo a estabelecer-se diversas “comunidades alternativas”, de projecção mais conhecida como a Tamera, a outra mão-cheia de projectos de menor dimensão. A estes juntara-se – tendo como fio condutor a agro-ecologia e a permacultura – um crescente número de quintas, projectos familiares ou individuais. Em todo este universo crescia a vontade de criar circuitos e relações de proximidade e entreajuda.

    Surge assim, em Dezembro de 2013, na Aldeia das Amoreiras, um encontro para pensar uma cooperativa informal de produtores/consumidores. Ao longo de um ano, a ideia foi ganhando forma em encontros, à volta de pequenos mercados, que acabam por desenhar uma geografia não encerrada da ReCo: passando pela Aldeia das Amoreiras, Alvalade do Sado, Tamera (Relíquias), São Luís, Vale do Vento, Ribeira do Salto, Messejana ou Castro Verde (e a que se juntam produtores de Ferreira do Alentejo e Lagos). A maior parte dos encontros é promovido directamente pelo grupo em formação, o qual nos últimos meses deste ano promoveu apresentações do projecto em outras tantas iniciativas de Beja a Lisboa.

    A ReCo apresenta-se, numa “definição possível (mas não definitiva)”, como “uma rede de confiança que vai nascendo entre várias pessoas, colectivos e associações, que abrange desde a produção alimentar até à forma de organização em sociedade, tomadas de decisão e resolução de conflitos, passando pela habitação, educação, saúde e cultura”. Os objectivos assim anunciados traduzem uma ambiciosa meta a atingir, formulada de modo propositadamente lato para incluir uma maior diversidade de intervenientes. Hoje haveria que enquadrar tamanhos objectivos, na verdade, a um processo em construção cujo desenlace não é ainda certo. O próprio princípio informal que está na sua base não permite que possamos descrever a ReCo à luz de modelos pré-definidos, como acontece no mesmo território com as associações de desenvolvimento local ou projectos de desenvolvimento rural e comunitário, que floresceram nos últimos anos a troco da manutenção de verdadeiros aparelhos de técnicos de “desenvolvimento local”. O inverter (informal e directo) precisamente dessa mediação (formal e representativa) marca a diferença, naquilo que aparenta à primeira vista objectivos similares.

    Rita, do Monte Mimo – projecto familiar de agricultura ecológica e permacultura em Alvalade do Sado –, olha para este ano que passou e assinala “um grupo de pessoas bem diverso e que no tempo também se transforma e regenera”. O que se foi atingindo “embora de forma atabalhoada por vezes e quase de fugida” ao longo dos vários encontros permitiu que a iniciativa não se esfumasse. Marcos, que chegou à Aldeia das Amoreiras há alguns anos como “activista” do GAIA, resume como “todo este processo é em si mesmo instituinte, ou seja, o próprio processo cria as condições necessárias ao seu desenvolvimento. À medida que as pessoas se vão organizando e criando aquilo que consideram necessário criar para terem uma boa vida enquanto indivíduos e enquanto colectivo, vão alargando a gama de possibilidades. Ao longo do processo desenvolvem as suas capacidades organizativas, dialécticas, empáticas, etc”.

     

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    Produtores e Consumidores

    O cabaz natalício Al-Cabaz contém uma proposta seleccionada de alguns produtores da ReCo, parte do “resultado daquilo que as pessoas que procuram viver no campo e do campo conseguem produzir”: as chouriças veggie, a tomatada e o tomate seco ao sol, grão-de-bico, e aboborinhas recheiam o cabaz, junto com o azeite biológico, os orégãos, mel, cactos e o vinho tinto maduro, num saco de produção própria (acompanhado de uma fanzine ilustrada). O escoamento assim concertado destes e de outros produtos (em mercados ou por contacto) espelha como o foco de acção da ReCo recai essencialmente sobre a produção, transformação e distribuição alimentares, abarcando desde produções familiares a produtos já registados no circuito do mercado “bio”. Alargado a outras produções artesanais, a preocupação é estabelecer uma rede de apoio e entreajuda. “Unindo e fortificando pequenos produtores ecológicos e consumidores”, citando Sara Serrão (a ilustradora – aproveite-se para assinalar – do presente artigo), como meta para 2015, ao mesmo tempo divulgando as alternativas ao modelo agro-industrial que vai tomando conta do território.

    No processo de criar uma plataforma de cooperação entre pessoas simultaneamente produtoras e consumidoras de bens e serviços, cedo a ReCo constatou a limitação da base de dados de ofertas e procuras estabelecida internamente. A necessidade de fortalecer a comunicação com a população local/rural, acentuando a boa vizinhança e a partilha de saberes, surge em conjunto com a criação de grupos de consumo. Esta última faceta foi aparentemente perspectivada pela ReCo mais para uma população citadina, em relação à qual, e a par do escoamento de produtos, foi apontada a contribuição na partilha de saberes e na discussão e trabalho crítico.

    A relação Campo/Cidade surge por esse motivo ao lado da relação Produtores/Consumidores. Uma questão partilhada pela ReCo no festival “Em Pratos Limpos”, organizado pela Assembleia pela Soberania Alimentar e pela Campanha pelas Sementes Livres, em Outubro em Lisboa. Aí, de alguma forma, tornava-se evidente que os passos seguintes da ReCo se dariam também no sentido de interagir com outras iniciativas similares e sobretudo com cooperativas de consumo, como pode ser o caso da Cooperativa de Consumo Bela Rama e a Cooperativa Boa na zona de Lisboa, entre outras. Esses movimentos traduzem, no final de contas, uma preocupação crescente com a chamada “soberania alimentar”, como espelha por um lado o programa da ONG portuguesa CIDAC, que da bandeira do “comércio justo” se lançou agora no debate “do campo para o prato, o direito à alimentação e à Soberania Alimentar”, ou, por outro lado, o levar à prática do Projecto 270, da iniciativa de Agricultura de Suporte Comunitário na zona do Pinhal Novo, entre outros exemplos possíveis.

    Em todo este debate e tendências actuais parecem ser generalizadas as questões que a ReCo coloca a si mesma: quais os papéis e os formatos desta relação Campo/Cidade e Produtores/Consumidores? Como expressar o significado, muitas vezes ambíguo, a atribuir à Soberania Alimentar? Talvez por isso, como referiu Rita no balanço de uma conversa tida em Novembro no espaço RDA (Lisboa), haja desde logo a necessidade de encontrar viabilidade económica na “venda de produtos sem intermediários, com base numa relação de proximidade/confiança a criar-se pelo trabalho em conjunto”. Uma procura de autonomia, sem perder de vista como “criar alternativas de mercado”. Recordando a importância do “olhar crítico de quem não está a recriar o modelo capitalista vigente mas sim alternativas para que a lógica de crescimento exponencial e do lucro sejam desmanteladas e se trabalhe na lógica da solidariedade social e da harmonia da vida neste planeta!” Daí que considere haver na ReCo alguns temas a trabalhar: a certificação participada (à margem das certificações institucionais); a moeda social; o criar novas oportunidades para as trocas (já realizadas nos mercados); ou os critérios de produção e consumo da rede.

     

    Por uma comunidade de apoio mútuo

    As questões ultrapassam daqui em diante a mera relação produção/consumo, numa discussão e posicionamento crítico que não parte de uma qualquer afinidade ideológica no seio da ReCo, e que carece de desenvolvimento. Os princípios da Rede estão ainda em formulação, o que não significa que não haja uma base comum de valores, tendo como “motivação a entreajuda e o apoio mútuo”. A dinâmica pretendida, expressa no último encontro da ReCo no Monte Mimo, caracterizar-se-ia “por ter clareza, por ser de baixo impacto ambiental, por partilhar os excedentes, por partilhar a mobilidade, por partilhar informação, por participar em reuniões eficientes e claras, por ter beleza, arte e poesia, por ser belo no modo de reunir e decidir, por reconhecer os ritmos orgânicos e daí ser flexível às necessidades do momento.”

    Nestes termos é definida a visão plural da ReCo, uma visão holística, a visão de “uma comunidade de apoio mútuo” e de um projecto a “ser concretizado a longo prazo, e que é mutável a curto e médio prazo”. Foi por isso adoptada como “grelha de leitura e forma de estruturação” a flor da permacultura. As ramificações da sua ética e princípios abrangem várias áreas de actuação, desde a agricultura aos bancos de sementes; do espaço construído às ferramentas e tecnologias, sobretudo as que possibilitem transformar a produção e garantir alternativas energéticas; das artes às questões de educação alternativa; da saúde ao bem-estar espiritual, etc.

    E se nem todos na ReCo se expressam na matriz e linguagem da permacultura, a sua expressão abrangente vai de encontro ao desejo de “promover a proximidade e a confiança característica entre vizinhos”, fazendo evoluir o projecto “a partir do pequeno, criando núcleos de harmonia”. Nesse âmbito, a ReCo anotou nos seus encontros “que para uma engrenagem funcionar é necessário ser oleada”, pelo que propõe “o óleo confiança com origem em encontros como ajudadas e círculos de partilha”. E é sob essa aproximação e funcionamento que considera “uma prioridade definir um processo de tomada de decisão: que seja ao mesmo tempo eficiente, claro e inclusivo.” Processo esse, mantido por encontros regulares, que requer uma coordenação comprometida e responsável (interna e externa), levando em consideração as necessidades de todas as pessoas, mas que – como refere Rita – “acontece, tanto mais horizontalmente e tanto mais em comum com as nossas necessidades/perspectivas pessoais quanto mais participado for”. Esse é talvez o desafio maior que se coloca à solidificação da ReCo, não dissociada da opção de enquadrar ou não legalmente a mesma, assim como os moldes cooperativistas a desenvolver no seu futuro.

    Já a conversa ocorrida em Novembro no RDA, acentuou para Rita a certeza de que nesses “coletivos da cidade, assim como em comunidades do campo, existe a vontade de trabalhar modelos políticos, que não sejam o da democracia representativa, mas sim de participação/acção. Podendo esta proximidade cidade-campo favorecer o debate e o trabalho para encontrar e replicar o que já existe feito, por exemplo, nesta área da democracia participativa/activa.”

    Em territórios como o Alentejo, temos assim a presença de uma “ruralidade” vinda das cidades que se cruza com uma imigração proveniente do Norte da Europa, em boa medida igualmente ávida e capacitada pelas propostas alternativas aos modelos de desenvolvimento e crescimento capitalista. Apesar de ter sido esse o cenário que deu azo ao surgimento da ReCo, o salto qualitativo para considerar possível a emergência das mencionadas possibilidades de uma “democracia participativa” parece esbater-se ainda nas dificuldade ou incapacidades de esses novos actores no território se integrarem na memória e na paisagem social, junto dos velhos actores do território e seus descendentes. Mas os gestos simples que recuperam as hortas, podam as árvores, cuidam das águas e das plantas que nos curam, erguem a terra das paredes e iluminam-nas com a cal branca, e celebram a natureza entre o riso de crianças… Esses gestos podem afinal reatar os laços com o território de ontem e de hoje e capacitar projectos como a Rede Cooperar, uma rede de produtores/consumidores, a trilhar o caminho da almejada harmonia e solidariedade social.

    Filipe Nunes

    Rede Cooperar: reco@riseup.net / http://redecooperar.blogspot.pt/

     

    Artigo publicado na edição impressa (nº8, Dezembro de 2014)