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  • Curdistão em mudança

    Curdistão em mudança

    Abdullah Ocalan, 27 de Fevereiro de 2025. Encarcerado desde 1999 na ilha-prisão turca de Imrali, e após vários anos de completo isolamento, o líder de referência do movimento curdo, quebra o silêncio num apelo de paz intitulado “Paz e Sociedade Democrática”. Com uma aparente abertura por parte do Estado turco ao diálogo, são desencadeadas as circunstâncias para o início de um novo processo de paz, procurando uma resposta final à questão curda e ao conflito armado que assola a região desde 1984, ano em que o PKK – Partido dos Trabalhadores do Curdistão – deu início à luta armada. Décadas de conflito com o Estado turco, dezenas de milhares de mortes de ambos os lados e a classificação internacional do PKK como organização terrorista.

    Após o apelo surpreendente de Abdullah Ocalan que anunciava, com condições, o fim da luta armada e a dissolução do PKK o movimento curdo, com o seu ramo armado, as Forças de Proteção do Povo (HPG na sua sigla em curdo), declaram um cessar-fogo unilateral, ao qual o Estado turco não respondeu de forma igual. Simultaneamente, têm lugar encontros entre Ocalan e várias figuras políticas curdas e turcas, congregados na que ficou conhecida como “delegação de Imrali”, e com representantes de outros partidos da oposição e do Estado turco.

    Entender o PKK e o seu lugar na sociedade curda
    O PKK é criado em 1978 em Bakur, região historicamente curda ocupada pelo Estado turco desde a sua formação. O partido nascia no ambiente político efervescente das décadas de 1960 e 1970, por entre a agitação da esquerda turca e a forte repressão estatal. A natureza ideológica do grupo inicial de estudantes, que formava este novo partido, liderado desde o início por Ocalan, era naturalmente e à época a de um partido de libertação nacional marxista-leninista. Em recente entrevista, Cemil Bayik, 74 anos e co-representante do KCK (União das Comunidades do Curdistão), recorda as condições bastante particulares da sociedade curda aquando da fundação do PKK: «As circunstâncias do povo curdo eram muito más. Os movimentos socialistas e democráticos na Turquia tinham sofrido golpes muito pesados. Mais uma vez, o povo curdo, por mais que se revoltasse, por mais que lutasse, enfrentava constantemente massacres, deslocações forçadas e a prisão.» O surgimento do PKK assumiu «um lugar especial na história dos povos do Curdistão. Porque mudou a história de quem enfrentava a extinção. Deu a capacidade aos Curdos de escreverem a sua própria história». Fez com que este povo «voltasse dos mortos».

    O último congresso do PKK?
    Nos dias 5, 6 e 7 de maio, o PKK realizou o seu 12.º Congresso em dois locais separados nas montanhas curdas de Bashur (Curdistão ocupado pelo Iraque). É declarado de que «a luta do PKK desmantelou as políticas de negação e aniquilação impostas ao nosso povo» permitindo «levar a questão curda a um ponto em que pode ser resolvida através de políticas democráticas». Seguindo o apelo de Ocalan anunciam que «todas as atividades realizadas sob o nome de PKK foram encerradas», assim como o «método da luta armada».

    A avaliação destas palavras deve ser cautelosa e não permite, no atual contexto político, traçar conclusões. Importa recordar que o processo de paz agora proposto não é inédito. Em 1993, Ocalan tomara a primeira iniciativa na criação de um processo de paz para resolver a questão curda. O processo de paz falhou após o presidente turco Turgut Özal, o general Eşref Bitlis e toda a sua equipa terem sido mortos num misterioso acidente de aviação nesse mesmo ano. Em 1995 e 1996, novas tentativas de processos de paz falharam e o cessar-fogo unilateral declarado em 1998 fracassa com a detenção de Ocalan no Quénia no ano seguinte. A sua detenção conduz o PKK a tempos conturbados, a parar com a luta armada e a anunciar em 2002 a sua dissolução. O momento é sobretudo uma mudança de paradigma. Sucede-lhe sem outra designação, um PKK que apresenta agora um projeto ideológico, desenvolvido inicialmente por Ocalan na prisão, assente no Confederalismo Democrático, na Ecologia Social e na libertação da Mulher. Mantém-se a confrontação armada e os últimos processos de paz, de 2009 a 2015, fracassam resultando em violentos confrontos e massacres nas grandes cidades curdas.

    Após 52 anos de luta, o Estado turco vê-se hoje numa posição difícil e impossível de resolver com políticas militares. Por outro lado, o PKK demonstrou ser um movimento revolucionário que se tem destacado pela sua capacidade de mudar e de se adaptar, através da autocrítica e da análise das novas circunstâncias que surgem, como a mudança de uma solução de Estado-Nação para um paradigma novo baseado no Confederalismo Democrático. A modernização da guerrilha, nas suas táticas e formas de organização foi também um fator-chave para conseguir levar o exército turco, o segundo maior exército da NATO, com todas as suas tecnologias e capacidades militares, a um impasse. O novo apelo à paz de Ocalan, secundado pelo Congresso, é também um reflexo desta característica de adaptabilidade deste movimento.

    Não menos importante é o papel desempenhado pelos curdos nas derrotas, contenção e ofensivas sobre o Estado Islâmico que os colocou num distinto patamar da geopolítica, alargando definitivamente a sua abrangência. O projeto de Confederalismo Democrático posto em marcha no Nordeste da Síria e noutras partes do Curdistão implicando a pluralidade de povos, religiões e posicionamentos políticos revelou-se uma via alternativa na região. Para Cemil Bayik, «hoje em dia, o povo curdo atingiu uma fase tal que é uma força de estabilidade, uma força de mudança e transformação e uma força de democracia no Médio Oriente. Hoje, ninguém no Médio Oriente pode alcançar a estabilidade sem os curdos. Os passos dados são históricos. O movimento, que começou como um pequeno grupo, chegou agora ao mundo e tornou-se um movimento universal. Não se baseia apenas na luta pela solução da questão curda; baseia-se na luta pela solução dos problemas da humanidade, baseia-se na luta geral pela liberdade e pela democracia».

    O que se segue?
    Assim, quando o PKK anuncia a sua dissolução e o fim da luta armada não estamos perante um ponto final numa luta de 52 anos, mas apenas no início de uma nova fase da mesma luta para resolver a questão curda. Podemos estar a assistir a uma nova mudança de paradigma do movimento curdo ou, pelo menos, a um maior desenvolvimento do novo paradigma implementado há cerca de 20 anos? Ou, reduzindo o ângulo possível destas leituras provisórias, é apenas um processo com objetivos claros, como conseguir a libertação física de Abdullah Ocalan e de outros presos políticos?

    A única coisa certa é a grande complexidade de fatores externos e internos que podem a cada passo dado mudar a direção do proposto processo de paz. Nesta altura, muito está nas mãos do Estado turco para entendermos para que direção será conduzido este processo de paz. Parece haver abertura, mas naturalmente, pelos episódios do passado, não existe grande confiança no Estado turco, mesmo que, conforme refere Cemil Bayik, este mostre interesse em querer corrigir o conflito Turco-Curdo: «Alguns compreendem isto, alguns estão a discutir o assunto, mas alguns estão a bloquear o caminho para a discussão. Não permitem que toda a gente discuta livremente. Particularmente aqueles que se consideram democratas não devem bloquear a discussão. Devem ser abertos. A Turquia precisa disso.»

    A importância de uma solução para a questão curda é por demais evidente para os povos que vivem dentro das fronteiras do Estado turco. Mas é igualmente crucial para a região do Médio Oriente. A questão curda partilha uma história semelhante com muitos outros povos na região, seja o povo palestiniano, impossível hoje de ignorar, ou o povo baloch (no Irão, Paquistão e Afeganistão), que como outros não são notícia. Uma realidade entre povos que ninguém desejaria ver partilhada: feita de genocídio, repressão e de ocupação. Uma realidade vivida desde sempre pelo povo curdo.


    texto da Plataforma de Solidariedade com os Povos do Curdistão, publicado no Jornal MAPA nr. 46 [Julho-setembro 2025]

  • «Mulheres, Vida, Liberdade» contra a guerra

    «Mulheres, Vida, Liberdade» contra a guerra

    Uma declaração de um colectivo composto por feministas internacionalistas iranianas, curdas e afegãs que defende que devemos opor-nos ao ataque assassino que as forças armadas de Israel e dos Estados Unidos estão a levar a cabo contra as pessoas no Irão, recusando-nos ao mesmo tempo a tolerar a opressão perpetrada pelo governo iraniano.

    O colectivo, de nome Roja, redigiu esta declaração em 16 de Junho, o terceiro dia da guerra. Foi originalmente publicada em persa e o Jornal MAPA deitou mão da versão em inglês que aparece no site Crimethink. Muito se passou desde então. Ainda de acordo com este site, o Roja é um colectivo feminista-internacionalista independente com sede em Paris, cujos membros são originários do Irão, do Afeganistão (Hazara) e do Curdistão. O coletivo foi formado em resposta ao assassinato de Jina (Mahsa) Amini pelo Estado e à revolta nacional Jin, Jiyan, Azadi («Mulheres, Vida, Liberdade») em Setembro de 2022. O Roja centra-se nas lutas políticas e sociais no Irão e no Médio Oriente, bem como no trabalho de solidariedade local e internacional em França, incluindo com a Palestina.

    Manifestação em Paris organizada por: Roja, Feminists4Jina e Socialist Solidarity.

    «Mulheres, Vida, Liberdade» contra a guerra
    Estamos contra as duas potências coloniais, patriarcais e belicistas. Mas isto não é passividade. É o ponto de partida da nossa luta ativa pela vida.

    Se Israel conduz as crianças de Gaza para a matança com uma bandeira queer do arco-íris, a República Islâmica do Irão encharca a Síria de sangue sob um pretexto anti-imperialista. Um comete genocídio contra os árabes na Palestina, o outro subjuga as etnias não persas dentro das suas fronteiras. Netanyahu procura usurpar o significado de «Mulheres, Vida, Liberdade» para vestir o seu expansionismo colonial e a sua agressão militar com roupas de «liberdade», enquanto Khamenei investiu todos os recursos na construção de um império xiita, supostamente para combater o ISIS e defender a Palestina.

    De facto, estes dois inimigos de longa data espelham-se um no outro em termos de matança e malevolência. Não devemos equiparar estes dois regimes capitalistas em termos das suas posições na ordem mundial: a capacidade de agressão militar da República Islâmica é, sem dúvida, muito inferior à capacidade de Israel e do seu apoiante imperialista ocidental. No entanto, o sofrimento que infligiu é tão absoluto como a violência do fascismo sionista. Qualquer tentativa de relativizar esse sofrimento, quantitativa ou qualitativamente, é redutora e enganadora. Esse sofrimento abrange múltiplas formas de opressão, incluindo os custos exorbitantes do seu projecto nuclear e a tomada da dignidade humana como refém.

    Esta guerra assimétrica entre Israel e a República Islâmica é, acima de tudo, uma guerra contra nós.

    É uma guerra contra o que criámos na revolta Jin, Jyain, Azadi, o que alcançámos e o que se encontra no seu horizonte potencial: uma revolta feminista, anticolonial e igualitária que não emergiu do poder estatal, mas teve origem nas lutas populares do Curdistão – especialmente as lideradas por mulheres – e que depois ecoou por toda a geografia do Irão.

    É simultaneamente uma guerra contra as classes oprimidas e trabalhadoras: contra as enfermeiras do Hospital Farabi, em Kermanshah, e contra os bombeiros da pequena cidade de Musian, em Ilam, que foram atingidos por ataques aéreos israelitas – os primeiros a 16 de Junho, os segundos duas vezes, a 14 e 16 de Junho.

    Esta guerra visa as infra-estruturas e as redes que sustentam a vida quotidiana nesta região.

    Assumir uma posição clara e intransigente em relação à guerra – condenar a agressão de Israel e dizer «não» à República Islâmica – é a base estratégica mínima para dar forma a uma campanha colectiva que exija um cessar-fogo imediato. «Mulheres, vida, liberdade contra a guerra» não é apenas um slogan; traça uma fronteira nítida em torno de um conjunto de tendências cujas contradições e conflitos são hoje mais claros do que nunca.

    De um lado estão os defensores oportunistas da mudança de regime que, durante anos, apoiaram as sanções ocidentais e norte-americanas, rufaram os tambores da guerra, negaram o genocídio de Gaza – e agora defendem a «libertação» em abjecta subserviência ao seu mestre, Israel. Em suma: os que minimizam o belicismo imperialista ocidental, sobretudo os monarquistas persas-nacionalistas de extrema-direita.

    Do outro lado está o campismo [campism], a posição política que apoia qualquer projecto – por mais autoritário que seja – que se oponha ao bloco ocidental, apresentando-o como «resistência».

    Para além disso, há forças que dão prioridade à luta contra o ataque criminoso de Israel, apelando ao «estado de emergência» ou ao «interesse do povo». Este último grupo acaba por branquear os crimes da República Islâmica no país e no estrangeiro ou por adoptar um silêncio estratégico. Foram estes que, depois de 7 de Outubro de 2023, lançaram avisos sobre o perigo da indiferença em relação ao destino comum dos povos do Médio Oriente – mas, em vez de enfatizarem a luta internacionalista de base, esbateram a linha entre a resistência popular e o poder do Estado. Observaram corretamente que o Irão vem a seguir ao Líbano e à Palestina na chamada «nova ordem do Médio Oriente», mas apenas para minimizar e desvalorizar as lutas das mulheres, das minorias étnicas e das classes oprimidas neste «momento». Os seus avisos permaneceram abstractos porque não disseram uma palavra sobre a apropriação – e monopolização ideológica – do discurso anti-colonial pela República Islâmica desde a revolução de 1979.

    Acreditamos que só traçando estas fronteiras – sublinhando as relações mútuas e inseparáveis entre as múltiplas lutas sociais na região – é que poderemos formar uma frente sólida contra o genocídio de Israel e, simultaneamente, arrancar o discurso anti-colonial ao monopólio da República Islâmica, confrontando os etno-nacionalistas que negam a existência de minorias étnicas e o «colonialismo interno» na República Islâmica.

    Em solidariedade com o destino comum dos povos do Médio Oriente – de Cabul a Teerão, do Curdistão à Palestina, de Ahvaz a Tabriz, do Baluchistão à Síria e ao Líbano – que é a base material da luta internacionalista, dirigimos esta declaração aos oprimidos e aos subjugados no Irão e na região, à diáspora e às «consciências acordadas» do mundo.

    Manifestação em Paris organizada por: Roja, Feminists4Jina e Socialist Solidarity.

    Morte por bombas e mísseis
    A limpeza étnica perpetrada pelo criminoso Estado israelita não se limita a este dia, a este ano ou mesmo a este século. No entanto, falha geopolítica que se abriu a 7 de Outubro de 2023 ameaça agora engolir a República Islâmica e o povo do Irão por dentro – a uma velocidade espantosa e com uma intensidade chocante – lançando um horizonte sombrio que ultrapassa os nossos limites emocionais e psicológicos.

    Estes podem ser os dias mais críticos das nossas vidas desde a Revolução de 1979.

    Desde a madrugada de sexta-feira, 13 de junho, até segunda-feira, 16 de junho, o exército israelita levou a cabo 170 ataques, atingindo 720 alvos em todo o Irão.

    – Primeira fase: instalações nucleares, bases de mísseis, sistemas de defesa aérea e assassinatos de investigadores e comandantes militares em áreas residenciais – visando dezenas de comandantes de topo do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica [um ramo das Forças Armadas iranianas], infligindo um golpe sem precedentes na estrutura de segurança militar do IRGC [corpo de guardas da revolução islâmica].

    – Segunda fase: ataques coordenados a refinarias e depósitos de combustível (Shahran em Teerão e Pars South no Golfo Pérsico), portos, aeroportos e infra-estruturas críticas que afectam não só as artérias militares, mas também a reprodução social e a vida quotidiana.

    – Terceira fase: ataques a símbolos da autoridade governamental – ministérios, edifícios oficiais e a principal agência de radiodifusão da República Islâmica em Teerão – o núcleo central de interrogadores, torturadores e propagadores de ódio. Uma instituição mediática com um historial de quatro décadas a fabricar dossiers, a espalhar mentiras e a difamar os pobres, as mulheres, os emigrantes afegãos e os dissidentes políticos.

    Em todas estas fases, contrariamente às promessas sedutoras dos propagandistas fascistas que vendem a liberdade através de bombas, o que se verificou não foram «ataques pontuais» a alvos militares, mas sim o massacre indiscriminado de civis, mulheres e crianças. Até 15 de Junho, pelo menos 600 pessoas foram mortas e 1277 ficaram feridas. [No momento em que publicamos este artigo, os números são consideravelmente mais elevados].

    Em resposta, a República Islâmica tinha lançado mais de 350 mísseis e drones contra Israel até 16 de Junho. Um dos principais ataques teve como alvo o norte de Israel, incluindo Haifa – o núcleo industrial estratégico e um centro logístico de energia. Embora a maioria dos projécteis tenha sido interceptada pelos sistemas de defesa das forças armadas israelitas e dos seus aliados, vários atingiram zonas civis. Até ao momento da elaboração deste relatório [16-18 de Junho], foram mortos 24 israelitas, incluindo quatro mulheres de uma única família.

    Nesta situação terrível, a República Islâmica não só abandonou uma população aterrorizada – não conseguindo fornecer sequer os serviços mais básicos, como informação pública transparente, abrigos antiaéreos ou sistemas de alarme – como também intensificou o controlo do Estado: destacando esquadrões de choque, erguendo postos de controlo nas cidades e afiando a sua lâmina para execuções sob o pretexto de «espionagem para Israel». Embora isto não seja surpreendente em tempo de guerra – na verdade, é sintomático da incapacidade do regime para garantir a segurança – traz consigo a ameaça sussurrada de «pendurar traidores em todas as árvores». Esta lógica flui naturalmente de um regime cuja própria sobrevivência depende da repressão interna, das execuções, da militarização da vida quotidiana e da expansão regional implacável.

    Faixa da ROJA numa manifestação em Paris contra o genocídio na Palestina

     

    Representação colonial e normalização da guerra
    A «guerra contra o terror» – o projecto imperialista que derramou sangue no Afeganistão e no Iraque no início do século XXI – passou agora o testemunho a Israel: um ataque «preventivo» destinado a conter a ameaça nuclear iraniana [ref] Embora o programa nuclear da República Islâmica tenha sido, desde o início, um processo dispendioso e antidemocrático com graves consequências ecológicas – impulsionado pelos Guardas Revolucionários para garantir a sobrevivência do regime nas competições geopolíticas regionais e globais, Embora não reconheçamos nenhum «direito» à República Islâmica ou a qualquer outro Estado de adquirir armas nucleares e acreditemos que as armas nucleares e a corrida global a elas devem ser totalmente desmanteladas, o ataque de Netanyahu baseia-se, no entanto, numa narrativa falsa, que faz lembrar a invasão do Iraque pelos EUA sob o pretexto de eliminar as «armas de destruição maciça»: ou seja, que o Irão está a poucos passos de construir «a bomba». Embora a República Islâmica tenha, de facto, aumentado significativamente as suas reservas de urânio próximo do grau de pureza para armas, não há provas de uma decisão de construir uma bomba nuclear. Mesmo que partamos do princípio de que a República Islâmica adquiriu uma bomba, são os próprios povos da geografia política do Irão que têm de decidir o seu destino com autonomia e autodeterminação – e isso não justifica de forma alguma o ataque militar de Israel.[/ref]. Mais uma vez, repete-se o guião dominante nos média: Israel tem como alvo apenas «locais militares», utilizando «mísseis de precisão» e «drones inteligentes» para dar liberdade e democracia ao povo iraniano.

    Mas esta narrativa não se refere a Parnia Abbasi, o poeta de 24 anos assassinado em Sattarkhan, Teerão. Não faz qualquer menção aos assassínios de Mohammad Ali Amini, o atleta adolescente de taekwondo, ou de Parsa Mansour, jogador nacional de padel. Nem um sussurro sobre Fatemeh Mirheidar, Niloufar Qalewand, Mehdi Pouladvand ou Najmeh Shams. Não se tratava de «alvos militares» nem de «ameaças nucleares» – apenas de seres humanos, cujos corpos foram desmembrados no silêncio mediático global, retalhados por mísseis israelitas. Esta é apenas a ponta do icebergue da «liberdade» que Israel – apoiado pelo Ocidente – pretende introduzir através do amontoado de cadáveres e de devastação.

    As forças reaccionárias que reduzem a «mudança de regime» a uma mera remodelação política a partir de cima – sem qualquer transformação social real – estão agora a abraçar abertamente o seu salvador de longa data, Israel. Os monárquicos transformaram as vítimas dos bombardeamentos em estatísticas, declarando sem vergonha: «A República Islâmica executa milhares de pessoas todos os anos, por isso a morte de dezenas ou centenas por Israel é justificável». Esta é a mesma lógica desumanizante – o cálculo quantitativo da morte – que os Estados Unidos utilizaram para justificar a destruição de Hiroshima e Nagasaki: «Se a guerra continuar, morrerão mais pessoas, por isso, lancem a bomba».

    A morte de civis nos recentes ataques de Israel, o aumento do controlo estatal no Irão, a destruição de infra-estruturas sociais – nada disto são «erros não intencionais» ou danos colaterais. São a lógica da guerra, especialmente quando conduzida por um regime como o de Israel. A conhecida alegação de que os civis ou locais não militares estão a ser utilizados como «escudos humanos» – outrora invocada em Gaza, agora utilizada para justificar ataques à Prisão de Dizelabad e ao Hospital Farabi em Kermanshah – é uma distorção deliberada, utilizada para mascarar e inverter a verdade desta lógica exterminatória.

    Não existem «ataques justos ou «bombardeamentos justos». As experiências históricas do Iraque, do Afeganistão e da Líbia – sim, a mesma Líbia que Netanyahu cita abertamente como modelo para a mudança de regime no Irão – atestam esta verdade com sangue.

    Manifestação em Paris, organizada por: Roja, Feminists4Jina e Socialist Solidarity.

     

    «A Nova Ordem do Médio Oriente»: Porque é que Israel atacou o Irão?
    A escala sem precedentes dos ataques de Israel indica que Israel está a tentar conseguir uma mudança de regime em grande escala – ou o colapso do regime. Não podemos descartar a Operação «Leão em Ascensão» como uma mera extensão da hostilidade de longa data entre os dois Estados. Está enraizada num processo regional mais vasto que teve início a 7 de Outubro com um golpe no chamado «Eixo da Resistência» e que atingiu agora profundamente o núcleo das estruturas de poder de Teerão.

    O ataque de Israel à República Islâmica marca o último capítulo de uma transformação mais vasta da geopolítica e da economia do Médio Oriente.

    Gaza, para Israel, não é apenas um campo de batalha – é um projetco de colonização. O ataque a Gaza é uma campanha para exterminar ou expulsar mais de dois milhões de palestinianos e transformar a costa ensanguentada na visão de Trump de uma «Riviera do Médio Oriente» – praias de luxo, casinos e uma zona de comércio livre para brancos.

    Passo a passo, Israel expulsou o Hezbollah do sul do Líbano, destruindo as suas infra-estruturas, matando comandantes e desmantelando a sua máquina de guerra. O mesmo está agora a acontecer com a IRGC. Na Síria, um regime apoiado pela Rússia, pelo Hezbollah e pelo IRGC – à custa de meio milhão de mortos e doze milhões de desalojados – desmoronou-se abruptamente perante os rebeldes apoiados pela Turquia. O corredor Xiita Teerão-Beirute, outrora uma artéria estratégica que ligava o Irão ao Mediterrâneo, tornou-se o seu calcanhar de Aquiles – a pista através da qual os aviões de guerra o atacam agora.

    Na nova ordem imposta no Médio Oriente, um bloco de poder capitalista israelo-americano está a remodelar agressivamente a região através de rotas logístico-económicas (o Corredor Índia-Médio Oriente-Europa), da normalização político-económica (os Acordos de Abraão) e do militarismo expansionista sob a forma de genocídio e anexação de Gaza [ref]A operação «Dilúvio de Al-Aqsa» de 7 de Outubro pode ser interpretada no contexto desta nova arquitectura de dominação: como uma tentativa de perturbar o projecto de normalização de Israel através dos Acordos de Abraão e de interferir com uma das rotas mais vitais do fluxo de capital transnacional – que começa na Índia, passa pela Arábia Saudita e pelos Emirados Árabes Unidos, chega a Israel e se estende daí até às costas da Grécia, no Mediterrâneo.[/ref].

    No meio da desintegração do «Eixo de Resistência», a doutrina de longa data do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica de «nem guerra nem paz» – uma estratégia de crises fabricadas e de uma calculada atitude de brinkmanship [jogo de cintura, malabarismo] – entrou em colapso. Durante anos, o regime usou confrontos limitados e controlados como arma para evitar tanto a guerra total como a paz genuína. Hoje, vê-se exposto num campo de batalha onde as regras mudaram irrevogavelmente.

    Este colapso, agravado pela perda total de legitimidade interna do regime – marcada pelas revoltas em massa de Dezembro de 2017, Novembro de 2019 e o movimento «Mulheres, Vida, Liberdade» -, constitui um golpe final. A República Islâmica já não pode gerir, adiar ou exteriorizar as suas crises. Não tem legitimidade a nível interno e não tem qualquer influência estratégica na região. É um resquício queimado numa ordem militarizada e multipolar emergente.

    Neste vórtice de sangue, os Estados Unidos – correndo contra a China e manobrando através da Rússia – esforçam-se por recuperar a sua hegemonia fracturada. Netanyahu agarra-se à guerra sem fim como bilhete para a sua sobrevivência interna. E dentro do aparelho dirigente da República Islâmica, muitos pretendem agora tornar-se eles próprios instrumentos de mudança de regime. Entretanto, o povo continua refém de uma guerra que não é sua, uma guerra que não oferece qualquer horizonte de libertação.

    Não à repetição da Líbia, Não ao massacre do verão de 1988

    Recordar o caminho percorrido desde a «bênção» da guerra Irão-Iraque para a consolidação da República Islâmica nos seus primórdios até à execução em massa de presos políticos pelo regime no Verão de 1988 é hoje tão urgente como recordar o percurso imperialista que conduziu à «Líbiazação» [ref] A «Líbiazação» refere-se a uma estratégia imperialista em que um Estado é primeiro pressionado diplomaticamente para se desarmar – muitas vezes sob o pretexto de acordos internacionais ou preocupações humanitárias -, depois sujeito a uma intervenção militar e, por fim, empurrado para o colapso do Estado e para um caos prolongado. O termo é inspirado no caso da Líbia, onde o regime de Kadhafi foi persuadido a abandonar os seus programas de armamento, mais tarde alvo de uma campanha militar liderada pela NATO, em 2011, e acabou por se desintegrar num país fragmentado e devastado pela guerra. [/ref] de toda uma sociedade.

    A história das «intervenções humanitárias» no Iraque e no Afeganistão – quer sob o pretexto de «armas de destruição maciça» ou de «crimes contra a humanidade» – tem de ser lida em conjunto com a história das lutas no Irão que, desde antes da Revolução de 1979 até hoje, deram erradamente prioridade ao anti-imperialismo acima de tudo. Do mesmo modo, a história colonial de Israel – desde a Nakba de 1948 até à traição de Nasser ao pan-arabismo em 1967 – tem de ser compreendida do ponto de vista do Sara turcomano e do Curdistão, locais de colonialismo interno.

    Durante mais de uma década, os ideólogos da «ilha de estabilidade» (o nome que os campistas deram em tempos à República Islâmica do Irão) utilizaram o medo da «síriazação» para envergonhar as lutas populares independentes e chamar o povo às urnas, vendendo a intervenção sangrenta do IRGC na Síria como uma estratégia de dissuasão para evitar a «síriazação» do Irão. Basta recordar esta história para justificar um «não» decisivo ao discurso dos campistas – um discurso que, em vez de se apoiar no poder popular organizado a partir de baixo, se inclina para a realpolitik e, em nome do anti-imperialismo, trata o inimigo do inimigo como um amigo, mesmo quando ele é igualmente mau.

    Há cerca de 45 anos, no início da Guerra Irão-Iraque, alguns grupos progressistas enveredaram pelo nacionalismo – tratando a guerra como um acontecimento «nacional». Isso só serviu para consolidar o regime autoritário islâmico. Alguns mantiveram-se silenciosos enquanto a República Islâmica usava a palavra «imperialista» para justificar a imposição do véu obrigatório às mulheres e o envio de tropas para o Curdistão; outros, embora tenham falado, não conseguiram mobilizar a opinião pública contra o inimigo interno, feito à imagem de um inimigo externo, ajudando assim a normalizar uma hierarquia centrada no homem/persa/xiita.

    Neste momento – quando a narrativa do «estado de emergência» sugere que se trata de um momento excecional e desconexo -, não há maior imperativo do que invocar uma memória histórica plural e multifacetada. Só a partir de uma memória histórica heterogénea e com várias vozes – do ponto de vista dos povos oprimidos – podemos dizer «não» ao imperialismo, ao controlo estatal baseado na guerra e ao campismo, tudo ao mesmo tempo. Ao projeto de recordar essa história estratificada – de Cabul a Gaza, através de destinos e diferenças partilhados – apelamos ao internacionalismo.

    Num mundo que oscila entre a militarização fascista e as guerras aparentemente intermináveis, o nosso caminho reside na organização activa e de massas para um cessar-fogo imediato, para a paz e para a reprodução da vida contra a máquina da morte. O nosso campo de acção não está alinhado atrás de Estados nem investido em lançar-lhes olhares esperançosos , baseia-se no cuidarmos umas das outras, na ajuda mútua e na construção de uma rede de apoio, consciência e solidariedade – desde as idosos e crianças até às marginalizadas e deficientes – como testemunhámos magnificamente na revolta Mulher, Vida, Liberdade, em que a solidariedade entre as oprimidas se tornou uma força para viver, resistir e criar.

    A transparência da informação e a consciencialização – sem reproduzir as narrativas israelitas ou da República Islâmica – devem ser os pilares desta resistência cultural e política.

    Submetermo-nos ao fatalismo e pintar um futuro apocalíptico em que tudo já acabou são formas de reproduzir a lógica da morte. Contra essa noção de futuro, o que é absolutamente urgente é moldar uma campanha de massas que vise o cessar-fogo imediato e a abertura de um horizonte de libertação:

    Mulheres, Vida, Liberdade contra a Guerra
    Berxwedana Jiyan e
    Resistência é Vida
    Palestina Livre
    Roja
    18 de junho de 2025

    Para conheceres os antecedentes do movimento Jin, Jiyan, Azadi («Mulher, Vida, Liberdade») no Irão, lê isto; para mais informações sobre a revolta que eclodiu em 2022, começa aqui.

  • Reflexões e contrapontos subjectivos após uma década de revolução em Rojava

    Reflexões e contrapontos subjectivos após uma década de revolução em Rojava

    A 19 de Julho de 2012, a autonomia foi declarada na cidade de Kobane, uma data histórica para o processo revolucionário de transformação no nordeste da Síria. Esta década de resistência e de construção de autonomia oferece-nos experiências valiosas, das quais podemos aprender lições importantes. E, sobretudo, deixa também profundas mudanças e transformações pessoais naqueles que, de entre nós, decidiram fazer parte da revolução.

    Celebrar uma década de revolução não é algo que acontece frequentemente, e as revoluções que se podem continuar a chamar assim ao fim de 10 anos são ainda menos. A história deixou-nos inúmeros exemplos de lutas armadas e mobilizações sociais em massa que acabaram por ser corrompidas ou cooptadas por forças externas ao fim de poucos anos. Mas Rojava está a conseguir não só sobreviver, mas também aprofundar a construção da autonomia democrática, com as suas dificuldades, mas também com autocrítica, a fim de avaliar e continuar a melhorar. Existem, sem dúvida, contradições e deficiências, onde os que querem denegrir este difícil processo de transformação social encontrarão razões úteis para o fazer. Para mim, o que vi e aprendi aqui condicionam a forma como vejo as coisas. Em parte devido a tudo o que aprendi aqui, em parte devido aos laços emocionais e vivenciais criados com estas terras e com as pessoas que nelas habitam. Esta não é, portanto, uma visão neutra, objectiva e estéril. É a opinião de alguém que, procurando aprender e compreender a partir de uma perspectiva de solidariedade crítica, toma partido no conflito

    Os que, de entre nós, embarcaram nesta viagem para experimentar a revolução a partir do interior encontram frequentemente inspiração e semelhanças com a revolução [Espanhola] de 1936, que também teve início a 19 de Julho. Lembro com certa nostalgia os debates com o meu amigo Joan, que estava a ler “Homenagem à Catalunha” nos primeiros meses da nossa chegada, quando nos deparávamos no nosso quotidiano com situações semelhantes às descritas por Orwell no seu livro. Isto levou-nos a pensar que há dinâmicas semelhantes que tendem a ocorrer em processos revolucionários, e isto é provavelmente verdade. Frantz Fanon menciona, no seu livro “The Damned of the Earth”, a conhecida citação «os últimos devem ser os primeiros» para resumir o processo de descolonização. Imagino que esta frase possa ser aplicada a todos os movimentos oprimidos e marginalizados que aspiram à revolução. É nestes processos de empoderamento, quando os que estão à margem da sociedade lutam pelo seu legítimo lugar nela, que as dinâmicas e processos se desenrolam e se repetem, ressoando uma e outra vez ao longo da história.

    O internacionalismo no século XXI e o eco das brigadas internacionais

    Quando pus os pés pela primeira vez em Rojava, há pouco mais de cinco anos, o tempo da YPG [Yekîneyên Parastina Gel – Unidades de Defesa Popular] como milícias populares – de moradoras e moradores com kalashnikovs na mão, defendendo as suas casas e terras – estava a desvanecer-se lentamente. A chamada Coligação Internacional contra o ISIS, liderada pelos EUA, não só trouxe a contradição de colaborar com a principal potência imperialista mundial, como também trouxe a reorganização destas milícias no que veio a chamar-se Forças Democráticas Sírias [Syrian Democratic Forces – SDF]. Esta reestruturação militar, que serviu para aumentar o número de combatentes, melhorar o seu armamento e a sua legitimidade, faz lembrar o que aconteceu com as milícias populares de 1936, no nosso caso a pedido da influência soviética.

    Mas em Rojava não há nenhuma KomIntern a puxar os cordelinhos, coordenando, a partir de Paris, a transferência de dezenas de milhares de militantes. Não existe uma terceira internacional, com dezenas de partidos socialistas afiliados, e com a capacidade de enviar armas e brigadas inteiras prontas a combater. Os que, de nós, viajam para Rojava fazem-no sobretudo como indivíduos, por vezes em pequenos grupos, deixando as suas casas para trás para se juntarem à revolução. Os nossos números estão longe das dezenas de milhares que, há quase um século atrás, viajaram para Espanha para combater o fascismo. Mas isso não nos impede de estudar e traçar paralelismos entre o que a guerra em Espanha significava então e o que a guerra na Síria, e em Rojava em particular, significa hoje.

    Em 2017 as SDF, num esforço combinado entre o povo curdo e o povo árabe, provavam a sua eficácia ao libertar Manbij e depois Raqqa – a capital de facto do Estado Islâmico na Síria. A guerra forjou alianças que permitiram à administração autónoma, até então predominantemente curda, expandir-se para além das suas áreas de influência tradicionais. Esta mudança estratégica estava de acordo com o paradigma internacionalista do movimento, procurando unir forças democráticas para além das identidades nacionais, trabalhando com os diferentes povos num projecto democrático comum para a Síria e para o Médio Oriente. Mais importante do que acolher os que, proclamando-se internacionalistas, viajaram da Europa ou América para o Curdistão, a maior realização do internacionalismo em Rojava é provavelmente este trabalho de unir diferentes povos e etnias para além de sectarismos e de conflitos.

    Os «ocidentais» são confrontados com grandes contradições quando se trata de compreender a complexa dinâmica inter-étnica no Médio Oriente. Há apenas um século, o colonialismo europeu explorou essa grande diversidade em seu proveito, instigando conflitos e guerras entre diferentes grupos para estabelecer a sua hegemonia colonial. Trazemos assim connosco esta responsabilidade acrescida, pois algumas das riquezas e privilégios que temos são herança da colonização e da exploração dos povos que agora nos ensinam o que significa fazer uma revolução. E devo dizer, não sem alguma vergonha, que as pessoas aqui não nos guardam rancor. Pelo contrário, acolhem-nos de braços abertos e mostram-nos pacientemente o que estão a construir, esperando que esta experiência nos ajude a espalhar a sua revolução (que é também a nossa) para além das suas terras. Que possamos trazer a revolução para as nossas casas.

    Mas depois, quando vamos para casa e tentamos pôr em prática o que aprendemos, rapidamente nos damos conta de que não vai ser uma tarefa fácil. Que a revolução em Rojava é o resultado de uma longa lista de factores, o mais relevante dos quais são as décadas de trabalho prévio de construção de um amplo movimento revolucionário. Quando os hevals nos perguntam sobre organizações revolucionárias nas nossas terras, não é fácil de responder. Tenho-me visto muitas vezes a fugir à questão com evasivas, falando sobre como é difícil viver na modernidade capitalista, sobre o individualismo que prevalece no Ocidente, sobre o oportunismo e a falta de empenho dos que se dizem militantes ou activistas. Ao fim de anos a dar este tipo de respostas, começo a pensar que, na realidade, são apenas desculpas, e que a única forma de realmente responder a estas questões é aceitar a realidade que estamos a viver: o colapso das ideias revolucionárias perante o capitalismo global no Ocidente. A aceitação desta realidade deve ser acompanhada pela vontade de a mudar, pelo compromisso de semear sementes que permitirão às próximas gerações transformar a sociedade sem ter de começar do zero.

    Mas enquanto estas aprendizagens e reflexões me inundavam, com a ilusão e o fascínio de fazer parte de uma revolução que está a vencer – dobrando o terror do Estado islâmico – uma nova guerra deu lugar a uma nova etapa. O Estado turco, um importante aliado e apoiante do Daesh, não podia tolerar que o projecto revolucionário ganhasse o controlo total da fronteira e, em Janeiro de 2018, teve início a primeira agressão directa do Estado turco contra Rojava. A invasão de Afrin.

    Uma nova guerra, uma nova era

    As SDF, acostumadas, nesses tempos, à guerra contra o Daesh, vêem-se subitamente confrontadas com um inimigo que tem todo o arsenal da NATO ao seu serviço. Os aviões de combate turcos bombardeiam incansavelmente posições defensivas, os drones armados com visão térmica e os mísseis guiados «neutralizam», a quilómetros de altura, qualquer elemento que possa impedir o seu avanço. A guerra muda, e a resistência ao inimigo também tem de mudar. Os aviões turcos nunca tinham bombardeado Rojava com esta intensidade antes, mas esta não era uma nova guerra para o povo curdo, pois é uma guerra que tem sido travada nas montanhas do Curdistão há mais de quatro décadas. Para os guerrilheiros do movimento de libertação que defendem os picos da cordilheira de Zagros-Tauros, os F-16 turcos são o pão nosso de cada dia. Infelizmente, transmitir estes conhecimentos e preparar os que lutam nesta nova frente é uma tarefa que não pode ser feita de um dia para o outro.

    Não são apenas os militares que sofrem as consequências da guerra, mas também a população civil, que perde as suas casas, quando, mais uma vez, vê a guerra a bater às suas portas. Lembro-me da história que a Fatma me contou em Ashrafia, um bairro na periferia da cidade de Afrin. A Fatma tinha chegado à cidade algumas semanas antes, partilhando um pequeno apartamento meio construído com duas outras famílias que, como ela, tinham tido de fugir das bombas turcas. Num árabe ainda incompreensível para mim, uma epopeia errante de mais de cinco anos de êxodo foi narrado diante de mim.

    Fatma nasceu e foi criada em Aleppo. Quando a chamada Primavera Árabe começou, em 2011, juntou-se aos protestos, na esperança de um futuro melhor. Com a escalada do conflito militar, os constantes bombardeamentos da força aérea síria levaram-na a refugiar-se na cidade vizinha de Manbij, uma vez que os movimentos de oposição ao regime tinham tomado o controlo da cidade em 2012. Infelizmente, não pôde lá passar muito tempo, pois, em 2014, o avanço da barbárie do Estado Islâmico levou-a uma vez mais a procurar refúgio noutras terras. Foi assim que ela e as suas 3 filhas e 2 filhos chegaram à região de Bilbile, uma pequena cidade a norte de Afrin. Pouco mais de 3 anos depois, os aviões turcos começaram a bombardear a área à volta da sua casa e ela teve de fugir novamente, procurando refúgio na cidade de Afrin. Na altura, a cidade estava sitiada pelo avanço de grupos islâmicos apoiados pela Turquia. Após uma resistência épica de dois meses, a cidade de Afrin teve de ser evacuada, deixando mais de 1 milhão de pessoas desalojadas. Novos campos de refugiados, construídos à pressa e quase sem apoio internacional, convertem-se no lar improvisado de milhares de famílias que fogem da frente de guerra, incluindo a de Fatma.

    Ver os bombardeamentos em Afrin, testemunhar a cidade sitiada por bombas inimigas, fez-me lembrar as histórias que a minha avó me contou quando, sendo ela criança, era a nossa cidade que estava sob bombardeamento. Histórias de como o seu pai, o meu bisavô, a escondeu a ela e à sua mãe, irmãs e irmãos entre dois colchões, na esperança de que, se as bombas caíssem por perto, aqueles cobertores de fios fariam algum tipo de milagre. Quando a ouvia, não percebia o que um par de colchões de lã podia fazer face a bombas ou ao colapso de edifícios, mas foi em Afrin que consegui dar sentido a essa história.

    Quando as bombas caem não se pode sentir nada mais do que impotência, angústia, medo de que alguma caia demasiado perto. Uma forma de combater esta sensação esmagadora de impotência é encontrar algo útil para fazer; sentir que, apesar das circunstâncias, ainda há um vislumbre de espírito na tua existência. Procurar abrigo debaixo de uma mesa, proteger os entes queridos entre dois colchões, pegar na câmara e filmar numa direção aleatória, são formas de se sentir que se tem algum controlo sobre a situação, que se existe e que há coisas que se podem fazer para além de se afogar em pânico e incerteza.

    Quando a excepção se torna a regra

    Menos de dois anos depois da ocupação de Afrin, o exército turco e outros grupos islâmicos voltavam a atacar. As cidades de Serekaniye e Gire Spi foram o centro das atenções na segunda invasão, assim como as cidades e aldeias à sua volta. Til Temir e Ain Issa também acabaram a poucos quilómetros da linha da frente, sofrendo as pesadas consequências da ambiciosa guerra de Erdogan. O povo de Rojava, ainda em choque com a perda de Afrin, teve de aceitar mais uma derrota militar; juntamente com a realidade desoladora de milhares de famílias, mais uma vez amontoadas em campos de refugiados depois de perderem as suas casas. A guerra contra o Daesh, apesar do esforço duro e sangrento que implicava, tinha sido uma fonte de esperança para a construção de um mundo melhor. Mas esta guerra era diferente, e não era nada fácil encontrar esperança perante o «Golias» dos brilhantes caças e sibilinos drones armados. Esta ansiedade também podia ser sentida na sociedade, o que, juntamente com o cansaço da pobreza e a escassez causada pelo embargo económico, tornava a vida quotidiana difícil para uma população exausta após quase 10 anos de guerra.

    Tinham lugar importantes avanços sociais, mas também importantes desafios com os quais ainda hoje nos debatemos. O ensino da língua curda, as comunas de bairro, as bandeiras YPG/YPJ nas praças e postos de segurança já não eram uma novidade. Eram o novo normal nos territórios libertados e, após anos de funcionamento, já não geravam a esperança que evocavam nos primeiros tempos da revolução. As manifestações espontâneas que celebravam a revolução eram cada vez menos frequentes. As cooperativas não se revelaram instituições mágicas que resolviam milagrosamente os problemas económicos, mas simplesmente espaços de trabalho horizontal e de produção que requerem esforço para funcionar. Os conselhos de justiça popular não puseram fim ao crime e ao roubo, mas contribuem para a construção de um modelo menos punitivo e mais restaurativo. A vitória contra o Estado Islâmico não pôs fim ao ódio fanático e aos ataques salafistas, mas reduziu-os grandemente após a sua derrota no campo de batalha, impedindo o fascismo teocrático de se estabelecer como uma força hegemónica. A consolidação de instituições populares e democráticas, com reconhecimento e legitimidade tanto para quem vive no nordeste da Síria como para algumas forças externas, tem permitido, entre muitas outras coisas, que milhares de deslocados internos sejam acolhidos e integrados de uma forma admirável. E não estamos a falar apenas daqueles que perderam as suas casas na guerra contra Daesh ou nos territórios ocupados pela Turquia, mas também de famílias de outras regiões da Síria, territórios sob a autoridade do governo de Bashar al-Assad que fogem em busca de uma vida melhor, e que encontraram refúgio nos territórios da Administração Autónoma.

    Os ganhos obtidos têm de ser cuidadosamente defendidos, uma vez que os inimigos da revolução têm a sua própria agenda. A Turquia tem vindo a reinstalar os seus mercenários nos territórios ocupados há anos, acolhendo diferentes grupos islâmicos, incluindo comandantes do Daesh. Diferentes grupos islamistas continuam a organizar ataques e, embora os seus planos sejam frequentemente minados, nem sempre são interrompidos a tempo. Há apenas meio ano, em Janeiro de 2022, os combates em grande escala regressaram à cidade de Haseke, quando centenas de ex-combatentes do Daesh se revoltaram na prisão. Alguns conseguiram fugir do edifício e, durante vários dias, causaram estragos à volta da prisão. A guerra contra a Turquia ainda está em curso, e as linhas da frente em torno dos territórios ocupados, embora estacionárias, estão activas. Está a ser travada uma guerra de «baixa intensidade», com bombardeamentos constantes e ataques ocasionais com drones a alvos específicos. Estes conflitos custam regularmente vidas, especialmente porque os drones procuram eliminar comandantes e outros militantes-chave nas suas tentativas de desestabilizar cadeias de comando, preparando para a invasão que se avizinha.

    Lembro-me, com uma certa amálgama de pesar e alívio, de quando, visitando algumas famílias próximas, famílias que me tinham ajudado a aprender a sua língua e a compreender melhor como foram os primeiros anos da revolução, me contavam pela primeira vez sobre as suas críticas à situação. Talvez tenha sido devido à confiança e amizade forjadas ao longo do tempo, talvez porque afinal vim de outras terras, mas os comentários críticos de algumas das decisões do movimento foram partilhados à volta de chávenas de chá. Estas conversas tinham lugar com uma estranha mistura de frustração e vergonha, raiva e impotência. As famílias que tinham aberto as suas casas desde os primeiros dias do movimento, que tinham sido uma parte fundamental da insurreição clandestina nos tempos mais difíceis, lamentavam as dificuldades que estavam a atravessar. E com razão.

    No início, fiquei surpreendido, pois não é comum as famílias serem críticas do movimento e muito menos perante os internacionais. Mas a crítica construtiva é saudável e necessária, e uma revolução que não constrói um povo crítico não merece chamar-se revolução. É bom ver que as famílias, as pessoas comuns que sustentam esta sociedade, sabem que têm o direito de criticar e chamar os militantes à responsabilidade, porque, ao fim e ao cabo, são responsáveis perante as pessoas que pretendem libertar. E, por vezes, é também nossa responsabilidade, como revolucionários internacionalistas, inspirar confiança, aceitar estas críticas, reflectir sobre elas e trabalhar para ser parte da solução, não parte do problema. Os que vêm do estrangeiro podem ter uma certa facilidade para incutir esperança, porque, quando alguém vem de longe, deixando a sua terra e o seu povo para trás, aprende a tua língua e trabalha no dia-a-dia nas mesmas condições que o resto da população, cultiva-se uma certa admiração e respeito. Este respeito vem com a responsabilidade de ajudar a identificar as enormes dificuldades que Rojava enfrenta, bem como a importância, agora mais do que nunca, de se manter firme perante o inimigo.

    A utopia sonhada pode não ter sido erguida com magnificência, mas está a criar raízes pouco a pouco, dia após dia, com os seus avanços, as suas deficiências e as suas contradições. Quem acha que a revolução é um processo e não um acontecimento deve armar-se de paciência e continuar a trabalhar para consolidar e expandir este mundo que carregamos nos nossos corações.

    Revolução apesar de tudo

    Por vezes paro para pensar como teria sido a revolução de 1936 se tivesse seguido um caminho diferente: como se teria desenvolvido a sociedade se o fascismo não tivesse ganho a guerra, se não tivesse imposto a sangue e fogo a sua visão particular do nacional catolicismo? Talvez a revolução nos tivesse trazido desilusões, desafios insuperáveis e conflitos internos, mas feliz ou infelizmente não houve tempo para o ver, não pudemos desencantar-nos com a revolução que não pôde ser. Quem então acreditou num mundo melhor, teve de ver os seus sonhos afogados no exílio e na clandestinidade. Não posso senão manter a minha admiração pelos milhares de militantes sem nome que continuaram a lutar depois de perder a guerra, quer como maquis na península, contra os nazis nas trincheiras da Europa, quer partilhando as suas ideias e experiências também na América Latina.

    Mas a revolução de Rojava não foi derrotada, ainda há esperança neste canto do Médio Oriente que se atreveu a desafiar a ordem estabelecida. Nem sempre é fácil, e há alturas em que a dúvida, a incerteza, a frustração e o esgotamento têm o seu preço. Não são poucos dias em que fico zangado, triste, desiludido e me pergunto o que faço aqui; em que estava eu a pensar para deixar a minha vida para trás e vir para este deserto remoto e plano, uma terra de invernos frios e verões infernais, com tempestades de areia absurdas e tão longe do mar? Mas, depois, há dias em que tudo isto faz sentido, em que se aprecia o que se aprendeu e se recorda como é difícil tentar construir um novo mundo. Dias em que admiras os esforços das famílias à tua volta para continuar, das hevalas que trabalham dia e noite para que isto funcione apesar das dificuldades, dos jovens que cresceram na revolução e que são a esperança de um futuro melhor. E são estes dias que, quando regressas a casa, te fazem a pensar que talvez a decisão certa seja voltar para Rojava.

    Ao fim de 10 anos, os esforços a médio e longo prazo começam a dar frutos. Os Concelhos Municipais estão a consolidar-se na sua gestão territorial. As cooperativas agrícolas estão a funcionar a bom ritmo, construção de estradas, distribuição de energia, sistemas solares de iluminação pública. Vários novos hospitais estão a prestar serviços de saúde à população, e a primeira turma de estudantes de medicina da Universidade de Rojava formou-se recentemente, juntamente com estudantes de outras áreas, tais como sociologia, agricultura e engenharia química. O Nordeste da Síria é provavelmente a região mais segura e mais estável do país, com mais liberdades democráticas e desenvolvimento cultural. Cidades inteiras como Kobane ou Raqqa foram reconstruidas após a guerra, e tudo isto sem a necessidade de impor um Estado ou um governo centralizado, antes promovendo a descentralização e a autonomia da comunidade num projecto federativo. As forças de autodefesa são respeitosas e disciplinadas, sem abusos de autoridade contra a população e mantendo à distância grupos do Estado Islâmico que procuram desestabilizar a área. Os conflitos inter-étnicos têm sido grandemente reduzidos e as novas gerações são educadas em sistemas bilingues que promovem a diversidade cultural. Mas, sem dúvida, o maior desenvolvimento é o movimento das mulheres. Muito tem sido escrito sobre isto e não me cabe a mim contá-lo, mas é sem dúvida a maior transformação social imaginável. O impacto do trabalho realizado pelo movimento de mulheres influenciará não só o Curdistão, não só a Síria e não só o Médio Oriente. A sororidade construída entre mulheres curdas e árabes será um factor decisivo para o futuro do Médio Oriente e do mundo inteiro, porque é o verdadeiro coração do movimento de libertação.

    Uma nova guerra no horizonte

    Enquanto escrevo estas linhas, vários comboios do exército turco têm atravessado a fronteira nas últimas semanas, ameaçando publicamente invadir de novo Rojava. Dentro de menos de um ano, realizar-se-ão eleições na Turquia, e Erdogan sabe que está vulnerável. As sondagens sugerem que o AKP [Partido da Justiça e Desenvolvimento] perderá a sua maioria absoluta, e uma nova invasão a Rojava é a única carta que lhe resta para se agarrar ao poder, atraindo mais uma vez as forças ultranacionalistas e alimentando os sonhos de expansão territorial do fascismo turco. Os acordos alcançados na última cimeira da NATO em Madrid, onde a Suécia e a Finlândia concordaram em criminalizar o povo curdo em troca da sua entrada na aliança militar, são mais um sinal da cumplicidade do Ocidente com o autoritarismo de Erdogan. A questão já não é se Erdogan irá invadir novamente Rojava, mas sim quando. Após quase dois anos de relativa estabilidade militar, as preparações defensivas de ambos os lados da frente foram reforçadas como nunca antes. As redes de túneis complexos estendem-se ao longo das fronteiras dos territórios ocupados, quilómetros e quilómetros de abrigos subterrâneos para proteger contra os bombardeamentos inimigos. Resta saber até que ponto estes preparativos podem ou não mudar o curso da guerra.

    A diplomacia também desempenhará um papel importante. Tanto a Rússia como os EUA têm sido avessos às ameaças de Erdogan, mas, com a guerra na Ucrânia e as contradições entre as duas potências, acordos e negociações podem ser decisivos para a sobrevivência de Rojava. A supremacia aérea está em jogo, um elemento-chave nas invasões anteriores, uma vez que os grupos islamistas indisciplinados que servem como infantaria de Erdogan não têm qualquer hipótese contra as SDF sem o apoio de drones e caças de combate. Resta também saber que papel desempenharão o Estado sírio e mesmo o Irão, que, com o apoio da Rússia, conseguiu manter o governo al-Assad em funções, um governo que ainda aspira a recuperar o controlo das áreas libertadas pelo movimento curdo. A Turquia está de olho em Kobane, a capital espiritual da revolução, pois Erdogan sabe que tomar o controlo da cidade que derrotou o Daesh seria um grande golpe, necessário para recuperar a credibilidade que perdeu nos últimos anos. A forte resistência das guerrilhas nas montanhas de Bashur (Curdistão no Iraque) tem posto repetidamente em causa a eficácia da estratégia militar do exército turco, que, na ausência de progressos significativos, recorre cada vez mais à utilização de armas químicas ilegais. A comunidade internacional faz ouvidos de mercador a estas infracções, como se constatou após a invasão de Serekaniye, onde ficou provado que a Turquia utilizou fósforo branco contra civis sem qualquer retaliação. Contra este complexo cenário, os porta-vozes das SDF afirmaram em várias ocasiões que, se a Turquia atacar, a guerra espalhar-se-á por toda a fronteira. Embora esta ameaça tenha sido feita antes da última invasão sem ter sido concretizada, desta vez os preparativos e a capacidade ofensiva das SDF sugerem um cenário diferente. Rojava não pode permitir à Turquia ocupar mais território, muito menos se isto incluir Kobane, pelo que uma resposta desesperada de guerra total parece mais credível desta vez.

    Com esta amálgama complexa de actores, interesses conflituosos e projectos políticos antagónicos, é muito difícil fazer previsões sobre o que o futuro nos reserva. Para quem vem de fora, depois de anos a construir pontes de internacionalismo, agora mais do que nunca a solidariedade tem de ser a ternura dos povos. Slogans e declarações simbólicas de solidariedade moral e abstracta já não são suficientes, pois, se Rojava cair, a esperança de um futuro melhor cairá com ela. A vitória do fascismo em Espanha foi seguida pela Segunda Guerra Mundial, pois sabemos que o fascismo avança se não for combatido. Dada a ascensão da ultra-direita no Ocidente, não é um cenário impossível de se repetir, com a agravante de que as forças revolucionárias são hoje uma sombra do que foram.

    Rojava lembrou-nos que a revolução não só é possível, mas necessária, e que está nas nossas mãos contribuir para o seu desenvolvimento. O Curdistão, uma nação excluída do sistema de Estados-Nação, mostra-nos como o problema pode ser a solução e como a construção da autonomia democrática pode tornar-se uma alternativa ao modelo de Estado-Nação, patriarcal e capitalista por natureza, que prevalece nas nossas sociedades. Rojava é um oásis no deserto, uma experiência prática de transformação revolucionária, uma oportunidade para aprender e desenvolver o que a sociedade do futuro pode ser. Mas, para que isso aconteça, temos de assegurar a sua existência, a sua sobrevivência como um organismo político e social. E a sobrevivência de Rojava só é possível se se espalhar, porque a revolução é como a água, quando estagna corrompe. A revolução deve fluir, como um rio, para o mar da liberdade.


    Texto de Pau Guerra (18 de Julho de 2022, Rojava)
    Publicado a 19 de julho de 2022 em Kaosenlared
    Fotografias para Jornal MAPA de Mauricio Centurion

  • O Berço do Daesh

    O Berço do Daesh

    Texto e fotografias: Ana Gonçalves

    O Iraque moderno surge de um velho hábito colonialista de desenhar nações a régua e esquadro: a 16 de Maio de 1916 foi ratificado o acordo de Sykes-Picot, entre a Inglaterra e a França, que dá origem ao mapa de nações do Médio Oriente que hoje conhecemos. Ou conhecíamos. Foi já em 2014 que o aparelho mediático do Estado Islâmico nos anunciava o fim das fronteiras desenhadas por Mark Sykes, quando os seus mujahideen estrangeiros destruíam os postos fronteiriços entre a Síria e o Iraque.

    Esse mapa, desenhado na mesma sala onde hoje se senta David Cameron, e que respondia à necessidade de dividir o derrotado Império Otomano, foi pensado com absoluto desrespeito pelas populações, as suas culturas, histórias e territórios. Foi este mesmo acordo que reservou uma área para os projectos Zionistas da criação do Estado de Israel, enquanto transformava os Curdos em não-povo, desmembrando as suas comunidades por quatro nações. São estas comunidades que Ana Gonçalves visitou. De lá trouxe as histórias das pessoas que são duplamente confrontados com um momento histórico único em que finalmente vislumbram a possibilidade de construir o Curdistão negado, enquanto travam uma luta de morte com um novo projecto fruto dos jogos imperialistas e colonialistas deste século: o Estado Islâmico.

    São algumas dessas histórias e relatos em primeira mão que o MAPA publica neste número, quando se assinalam os 100 anos do infame acordo Sykes-Picot, e na esperança que tenha de facto chegado ao fim não só o seu prazo de validade, mas também a sua influência colonialista no Médio Oriente.

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    Em Maio de 2015 comecei a escrever um artigo sobre migrantes provenientes de países instáveis por motivos de guerra, repressão política ou falta de liberdade. Sempre me fascinou a luta do povo curdo, apátrida desde há três mil anos que lutava praticamente sozinho contra a ameaça do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh). Através de vários contactos que fiz, conheci Karwan Kurdi, cidadão iraquiano proveniente do Curdistão Iraquiano, estudante de doutoramento de Engenharia dos Petróleos no Instituto Superior Técnico, que após breves minutos ao telefone me convidou para jantar em sua casa. Acabei por conhecer mais estudantes curdos, entre eles Hawreen, também estudante de doutoramento de Engenharia Civil, e figura maior da reportagem que fiz na altura. Naquele jantar em casa do Karwan, à mesa com o Curdistão, fiquei fascinada pela luta e amor que cada um daqueles jovens demonstrava em relação à causa curda. Nessa mesma noite, desenharam-se as primeiras linhas para a viagem ao Curdistão Iraquiano, que teria lugar dali a cinco meses. A pergunta foi simples e direta, queres vir ao Curdistão, ver o outro lado? A resposta foi imediata, sim!

    Erbil

    A quarta maior cidade do Iraque e capital do Curdistão Iraquiano, Erbil, é uma das urbes mais antigas do mundo, a sua origem remonta a 6000 a.C. A cidade tem uma vida intensa com vários restaurantes, esplanadas, cafés onde grupos de homens bebem chá ou fumam shisha, um bazar principal fervilhante composto por várias artérias onde facilmente nos perdemos numa tentadora loja de doces ou em lojas de tecidos de mil padrões diferentes provenientes da Índia, do Dubai, da Turquia, onde filas de mulheres entram e saem num corrupio alegre. Há ainda pequenas joalharias faustosas, em que o ouro predomina, lojas de brinquedos, de telemóveis, sapatarias e toda a espécie de pequenas bijuterias que enchem o espaço.

    Fora do bazar, ao ar livre, no parque Shar podemos comer fruta fresca, especialmente romã, que é vendida em pequenos copos, ou deliciar-nos com um refrescante gelado ou sumo fresco, bálsamos para um Verão quente que só ao cair da noite dá tréguas. Um comércio vivo a cada esquina transforma a cidade numa miscelânea de sons, cheiros e sabores que se confundem e inebriam a multidão que passa. Quando se circula pelo centro de Erbil dificilmente se pensa que Mossul, bastião dos extremistas, fica apenas a 80 Km dali, tal a descontração com que a vida decorre na capital do Curdistão Iraquiano.

    Desde a queda de Saddam Hussein, em 2003, operou-se um crescimento rápido em Erbil. Numa década construíram-se universidades, centros de investigação, arranha-céus, hotéis, centros comerciais, parques de diversões para as famílias, diversos jardins, com o sentido de melhorar a qualidade do ar. A cidade crescia próspera, atraindo cada vez mais investidores estrangeiros.

    Até que em Agosto de 2014, o Daesh (acrónimo árabe do autoproclamado Estado Islâmico) atacava em força a região do Curdistão Iraquiano e chegava às portas da capital. Os investidores, sempre presentes, tornaram-se receosos, as construções abrandaram ou pararam, os centros comerciais, à escala mundial, nunca chegaram a encher, o turismo tornou-se uma miragem, bem como os negócios auspiciosos. O crescimento anual foi em 2015 negativo quando antes atingia os 10%, os bancos começam a fechar por falta de liquidez e as pessoas preferiram manter o dinheiro em casa ou depositá-lo em bancos turcos. Além disso, os funcionários públicos continuam a receber salários com seis meses de atraso, numa região onde 75% da população trabalha para o Estado.

    De Bagdad, as notícias que chegam também não são animadoras. O Governo Central, que deveria cobrir 17% do orçamento da Região do Curdistão, não disponibiliza qualquer ajuda já há vários anos, os preços do petróleo descem sistematicamente e, com toda a falta de verbas que existe, o sistema de saúde colapsou, e o sistema de ensino subsiste com muitas dificuldades, pois grande parte do orçamento serve para cobrir as despesas de guerra, como o pagamento de salários aos Peshmerga, armamento e manutenção dos checkpoints.

    Se a situação era má desde o início dos confrontos contra o Daesh, piorou quando os deslocados internos começaram a chegar. Cerca de 38% de toda a população de deslocados internos do Iraque, só em Erbil. Os curdos, que sempre foram reconhecidos por receberem de braços abertos todas as minorias e árabes que procuravam refúgio, debatem-se agora com problemas internos graves começando a notar-se algum constrangimento com a presença de cada vez mais árabes pelas ruas da capital.

    Para Mohamed, 28 anos, antigo professor de educação física, deslocado interno, dono de um pequeno restaurante kebab, já não é possível viver no Iraque. Vim para Erbil porque corria perigo de vida em Bagdad. As milícias ameaçaram matar-me, então fugi para o Norte, aqui não corro perigo, mas estou a poupar para ir para a Alemanha. O Iraque acabou, Bagdad acabou e era uma cidade tão bonita

    Noutro restaurante de Erbil, uma típica família de classe média almoça em silêncio. A minha filha e o marido daqui a poucas horas vão partir para a Turquia de autocarro e a partir daí vão tentar chegar à Europa, ainda não sabem como, se por mar ou por terra. A minha filha tem 23 anos, é professora, e não quer continuar no Iraque. Se tiver sucesso na viagem, em breve chama os irmãos para o pé dela”, conta o pai de família.

    Cerca de 4000 refugiados por dia, mesmo no Inverno, chegaram à Europa, um milhão de refugiados a terminar o ano de 2015, número que quadruplicou em relação a 2014, o maior fluxo migratório para a Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

    Viagem à linha da frente – os Peshmerga

    Sabin Sabir, 28 anos, Peshmerga destacado na aldeia de Tal Alwad, situada a sudoeste de Kirkuk, acompanha-nos até à frente. Estou de férias, mas sempre que o general Kak Azad precisa de mim, mesmo que seja a meio da noite, eu vou. Pego na minha arma, no meu equipamento, saio de casa e apanho um táxi, muitas vezes sem a minha mulher e os meus filhos perceberem”.

    Perante a passividade das potências internacionais ao avanço do Daesh, os Peshmerga, um grupo curdo armado, que combate pela criação de um Estado independente do Curdistão nas zonas do Iraque, Síria e Turquia, enfrentam na linha da frente fileiras de homens vestidos de negro, sem nacionalidade definida. Desde Agosto de 2014, cerca de 1300 Peshmerga já perderam a vida e mais de 7000 ficaram feridos na proteção de cerca de 1000 km de fronteira.

    Tal Alwad e as restantes aldeias próximas são controladas pelos Peshmerga, contudo toda a região continua a ser muito perigosa, visto que os extremistas controlam ainda várias cidades situadas a sudoeste de Mossul. À medida que nos aproximamos da base, Sabir chama-nos a atenção para as mudanças que se fazem notar. A paisagem muda, torna-se mais árida, desértica, a temperatura sobe, chega aos 47º C. Encontramo-nos na fronteira entre o deserto e as terras de cultivo, significa que nos aproximamos do sul, do imenso e impenetrável deserto do Sudeste.

    À nossa espera, na base de Tal Alwad, está o general Kak Azad, responsável maior pelas forças Peshmerga naquela zona. No topo de uma colina, com visão privilegiada sobre todo o território, vários Peshmerga de Kalashnikov na mão mantém as suas posições atrás de trincheiras improvisadas. Ao longe, avista-se um pequeno afluente do rio Tigre, uma fronteira natural que marca a separação entre os territórios.

    O general Kak Azad leva-nos para dentro de uma pequena caserna feita pelos seus homens e mostra-nos algumas armas químicas convencionais. Os meus homens não sabiam o que era isto e felizmente que nada aconteceu, porque não temos máscaras, nem equipamento para nos protegermos do gás”, explica o general.

    A utilização de armas químicas faz reacender pesadelos antigos, da altura em que Saddam Hussein, em 1988, lançou ataques com armas químicas contra os curdos. Muitas das fábricas de armamento, ainda do tempo de Saddam, foram deixadas ao abandono e à mercê dos jihadistas pelo exército iraquiano.

    Após a queda do regime do antigo ditador e o abandono das tropas americanas, o exército iraquiano ficou bastante fragmentado, de um lado Xiitas, do outro Sunitas. O Primeiro Ministro do Iraque, Nuri Al-Maliki agudizou a situação, já de si frágil, quando excluiu os oficiais e soldados árabes sunitas do exército, fazendo com que muitos deles engrossassem as fileiras do Daesh.

    No Verão de 2012, já sem tropas norte-americanas no terreno, o Daesh lançava no Iraque a operação Derrubar Muros destinada a tirar das prisões militantes e dirigentes sunitas. Foram os primeiros passos dados pelo Daesh no Sul do Iraque que, entre a ausência do Estado Iraquiano ou, por vezes, a sua estranha passividade, foi terreno fértil para os avanços das milícias. Mossul, uma cidade com cerca de dois milhões de habitantes, onde sempre conviveram Sunitas, Xiitas, Curdos, Yazidis e Cristãos, foi rapidamente dominada pelos extremistas, tornando-se assim o bastião do Califado no Iraque.

    Contudo, apesar de todas as conquistas já feitas pelos extremistas, o general Azad faz um retrato pouco abonatório das suas capacidades. Eles não têm um exército bem organizado, nem conhecem tácticas de guerra básicas, mas isso não os torna menos perigosos. Era bem melhor se pudéssemos lutar contra um exército organizado, disciplinado e conhecedor. A forma como eles atacam é através de ataques furtivos feitos por snipers, ataques suicidas ou carros armadilhados refere.

    A conversa continua na pequena caserna, vão-se juntando a nós cada vez mais oficiais e soldados. Atenciosamente, servem-nos água fresca e um chá quente antes de almoço, enquanto isso, vários Peshmerga mostram-nos vídeos e fotografias dos combates que travaram na frente, são as suas pequenas crónicas ali narradas, nos ecrãs dos pequenos telemóveis. Corpos sem vida saltam à vista, alguns rostos parecem extremamente jovens… Para se ser um soldado Peshmerga tem que se ter mais de 18 anos, pode ser-se ou não curdo, temos mesmo alguns estrangeiros que vêm como voluntários. Mas, na linha da frente do Daesh encontramos crianças e estrangeiros – europeus, paquistaneses, indianos, até japoneses. Sabemos isso pelos passaportes. O Daesh é um cancro, que destrói tudo”, assegura o general Azad.

    Shwan Shwane, 25 anos, estudante de Engenharia Civil na Universidade de Salahaddin, em Erbil, casado e com uma filha de um ano, teve de interromper os estudos por causa da guerra. Agora, é camionista e Peshmerga. Vamos sempre lutar contra o Daesh porque eles fazem mal às nossas mulheres, às nossas crianças. São assassinos brutais. Mas eles não nos vão conseguir vencer porque nós lutamos por uma causa, eles não diz Shwan.

    São três da tarde, está um calor que não dá tréguas, na frente as armas permanecem suspensas entre os sacos de areia, em trincheiras improvisadas. O movimento é praticamente inexistente, reina a calma, mas é uma calma enganadora. À medida que a noite cai, a situação torna-se cada vez mais perigosa, porque os extremistas têm melhor material, como óculos de visão nocturna e armas de longo alcance. Estamos a lutar pelo mundo todo aqui refere o General Azad ao nosso lado. Com poucos meios tentamos fazer muito, mas precisamos de mais apoio da comunidade internacional, não podemos fazer tudo sozinhos”.

    As despedidas aos Peshmerga são longas, emotivas, com muitas fotografias pelo meio, mas acabamos por ter de voltar à estrada.

    curdistao 3Estrangeiros nos Peshmerga

    Depois de uma longa viagem chegamos a Dakuk, cidade situada a Sul de Kirkuk, junto ao rio Tigre, base de um batalhão das forças Peshmerga que reúne cerca de 4000 elementos. Os ataques nesta área são contínuos, há inúmeras aldeias à volta completamente destruídas pelos ataques aéreos da coligação e os corpos das vítimas ainda lá estão, sem que ninguém se aventure para fazer a remoção dos destroços com receio de bombas controladas remotamente e minas antipessoais.

    Na base de Dakuk conhecemos dois ocidentais que há quatro meses ajudam os soldados Peshmerga na luta contra o Daesh. Oliver e Rebaz (nome fictício) são dois soldados que têm em comum a língua inglesa e a experiência militar. Oliver é canadiano, Rebaz norte-americano. O primeiro esteve oito anos no Afeganistão, o segundo seis anos no Iraque, em Bagdad. Mas o que sentem desde que chegaram ao território curdo do Iraque?

    A minha experiência aqui oscila entre expectativa, decepção, cansaço, surpresa, tudo junto, tudo misturado. Estou aqui como voluntário para ajudar os Peshmerga, mas, além disso, também estou a rodar um documentário (1) sobre a minha experiência na Região do Curdistão como soldado estrangeiro. Costumo dizer que tenho a minha arma numa mão e a câmara de filmar na outra, para mim a câmara é como uma arma, porque quero que o mundo saiba o que os Peshmerga fazem diariamente conclui Oliver.

    Há quatro meses, Rebaz deixou a casa, o emprego de oito horas, e o filho de três anos, e aterrou em Erbil. “Eu não conhecia o Curdistão e estive no Iraque seis anos a servir o exército dos EUA, mas não sabia que os curdos eram tão diferentes, eles são os nossos aliados no Médio Oriente. Em mais lado nenhum do mundo eu vi pessoas tão honradas e respeitosas, os oficiais estão sempre na linha da frente, podem ganhar mais, mas também morrem como os soldados. Vocês sabem quantos morrem todos os dias?.

    Rebaz é um jovem de 26 anos, mede cerca de 1.90, tem várias tatuagens espalhadas pelo corpo, olhos claros e barba ruiva comprida. A expressão é calma, como a de qualquer homem do exército bem treinado, e o discurso é fluente. Já dentro do carro, que avançava em grande velocidade pela terra batida, Rebaz tira do uniforme a fotografia do filho e da antiga namorada. Este é o meu filho de três anos e esta era a minha namorada, Lydia, que se suicidou. É por causa deles que eu estou aqui, no Curdistão. Fiz coisas muito más quando estive em Bagdad, muito más mesmo. Agora estou no local certo a fazer o que é correto. Lutar contra o Daesh”.

    Após cada ataque aéreo da coligação, os refugiados começam a aparecer. Mulheres, crianças e homens fogem das aldeias à procura de abrigo na base. Alguns homens que chegam têm a barba cortada, trazem mulher e filhos, mas têm um olhar frio, calmo. No meio do caos só um soldado consegue ficar assim. Pegamos nos telemóveis que trazem e vemos as fotografias que eles nunca apagam, e imediatamente percebemos que são militantes do Estado Islâmico. Eles não são muito espertos, mas têm nervos de aço. Aqui, na nossa base, sabemos sempre quem eles são, mas não sei como funciona nas outras. Eles misturam-se com as populações e em breve estarão noutro sítio qualquer”, conta Rebaz.

    Acompanhado sempre da sua arma, sorriso no rosto, conta-nos que demorou quase um mês a convencer o general a deixá-lo ir para a frente, sempre quiseram protegê-lo ao máximo e fazem isso com todos os estrangeiros que chegam ao Curdistão, são sempre hospitaleiros. “A roupa que tenho foi-me oferecida. Sempre que preciso de algo, fazem o máximo para que eu tenha tudo o que necessito. Ao contrário de outros soldados estrangeiros que pertencem à legião (são cinco atualmente e todos ingleses, que vivem separados do resto do grupo, que tem carros próprios e só atacam quando apoiados pela coligação), eu e o Oliver convivemos com os Peshmerga diariamente. É muito agradável. Querem todos aprender a falar inglês comigo e eu vou aprendendo curdo, anoto todas as palavras novas aqui, neste caderno”.

    O que levou o soldado norte-americano do Alasca a deixar o mundo ocidental e a querer combater no outro lado do globo? “Eu sou bom naquilo que faço, no exército, como militar. Não quero voltar a viver no Alasca, sinto-me mais livre aqui do que alguma vez fui lá, vivia para pagar contas… Agora, sinto-me realizado, combato, divirto-me com os meus companheiros e, ao mesmo tempo, estou a escrever um livro para o meu filho, para quando ele for adolescente e quiser saber quem foi o pai, onde é que eu estive, o que é que eu fiz e pode ser que assim ele compreenda melhor quem sou eu”. O livro é cuidadosamente guardado numa bolsa de couro, envolvido numa bandeira do Curdistão, guardado num saco de plástico para ficar protegido da água. “É o meu tesouro”.

    Falta tudo

    O campo é imenso, à volta é a desolação completa; aldeias destruídas a perder de vista, um silêncio pesado, nem um sinal de vida do outro lado, mas acredita-se que tudo esteja minado de explosivos e armadilhas. Para Rebaz, esta guerra é muito peculiar. Parece que estamos na Primeira Guerra mundial, o equipamento é o mesmo. Não há tanques, óculos de visão noturna, máscaras anti-gás, nada! Nem de um lado, nem de outro, trincheiras dos dois lados e ataques combinados, todos sabem quando é dia de ataque. Os Peshmerga não precisam de mais campos de treino, passaram anos em guerra, eles precisam de dinheiro, de equipamento, necessitam que o mundo saiba quem eles são”.

    curdistao 2Fomos convidados a passar a noite com os Peshmerga e à medida que as horas avançavam o camião da comida começava a distribuir a refeição, uma saborosa sopa de leguminosas. “É agradável durante os primeiros dias” diz-nos Rebaz, “mas depois de comermos o mesmo todos os dias, já não achamos assim tão bom”. Há jovens e homens mais velhos que se juntam à volta do camião. É ali que comem, convivem e dormem por turnos, pois não cabem todos na camarata. Depois do jantar há ainda jogos de dominó, sorrisos e histórias que enchem a noite. A guerra também se faz destes momentos.

    Na manhã seguinte tomamos um bom pequeno-almoço curdo, com fruta, ovos, frutos secos, mas começa a notar-se uma agitação que ainda não tinha sido vista. O general diz-nos que temos de ir embora. É dia de combates e apesar da insistência, não podemos ficar. Está na hora da despedida, para Rebaz o adeus é ainda mais sentido, apesar de dizer que não sente falta de nada no Curdistão, confessa que sabe bem falar inglês com alguém uma vez por outra.

    Viagem ao topo da Montanha – O PKK no Iraque

    A aliança entre o Governo Regional do Curdistão, no Iraque, e o governo de Ancara não satisfaz muitos curdos, que não esquecem a opressão do governo de Erdogan ao povo curdo na Turquia, cerca de 20 milhões, 55% de todos os curdos a viver no mundo, que não têm direito sequer a falar a própria língua, o curmânji. Por outro lado, na região do Curdistão Iraquiano há muitos simpatizantes do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) que têm combatido desde o primeiro instante as forças do Daesh, que combatem também com a mesma determinação e força as políticas de Erdogan.

    À medida que subimos em direção às montanhas de Qandil, no sul do Curdistão Iraquiano, que serve como base e campo de treino para homens e mulheres do PKK, olhamos para cima, sempre à espreita de drones. A linha da frente foi intensa, com o Daesh ali tão perto, mas a ida às montanhas fazia-se em silêncio com os olhos pregados ao céu.

    Ao fim de dois anos de tréguas entre o PKK e o governo de Erdogan, o ataque ocorrido em Suruç, em Julho de 2015, contra um grupo de jovens curdos que se preparavam para ir até Kobani, na Síria, em trabalho humanitário, reacendeu os conflitos. Estes jovens sofreram um ataque bombista reivindicado pelos homens de Abu Bakr al- Baghdadi, líder do Daesh, resultando na morte de 32 jovens curdos e mais de cem feridos. Várias organizações e partidos acusaram desde logo as autoridades turcas de terem colaborado, ou pelo menos “permitido” este ataque.

    As relações já tensas entre Ancara e o PKK acabaram por se agudizar de forma irremediável. Em resposta a este ataque e à inação do governo turco, houve ataques contra as forças militares turcas, levando aos bombardeamentos intensos por sua parte onde quer que existissem células ativas do PKK.

    O território do PKK começa agora, nas montanhas de Qandil, mas temos de telefonar ao meu contacto e se ele não nos atender é porque temos de voltar para casa”. Ir às montanhas em pleno mês de Setembro, quando os ataques turcos não abrandam, é extremamente perigoso, como o nosso guia não se cansa de repetir. Do outro lado do telefone, o nosso contacto diz-nos que podemos avançar. Suspiramos de alívio! A paisagem é maravilhosa, a serra pintada de castanho ocre ergue-se à nossa frente em todo o seu esplendor. Há oliveiras, pomares de romãzeiras e vinhas a perder de vista. A temperatura é amena, o sol não queima, parece que nos aproximamos do paraíso. No topo da montanha, o primeiro checkpoint controlado pelas forças do PKK. Rapazes quase imberbes com Kalashinov pedem-nos os documentos e dizem-nos para desligarmos os telemóveis. Até nós, vem Zagros Hewram, assessor de imprensa do PKK nas montanhas de Qandil, fala um inglês perfeito, sem qualquer sotaque. Há dez anos era professor de inglês no Irão. Com um olhar sagaz, um sorriso delicado e uma descontração que nos surpreende, abre-nos o caminho por entre as montanhas que albergam a guerrilha.

    Estão a ver aquele ponto branco ali no céu a piscar? São drones. Estamos a ser vigiados, vocês estão a ser observados”, conta-nos Zagros. Não conseguimos ver nada, mas mesmo que víssemos já não estamos preocupados por estarmos nas montanhas, este cenário idílico vale todos os perigos. A paisagem luxuriante da montanha faz-nos pensar que podíamos estar ali de férias a desfrutar de tudo o que a montanha tem para nos oferecer.

    Zagros leva-nos às ruínas de uma casa que foi atacada pelas forças turcas, uma família de sete pessoas morreu ali, um carro completamente queimado e escombros é tudo o que resta. Nós nunca andamos vestidos como civis para proteger a população, não queremos que a população sofra baixas por nossa causa, mas mesmo assim os aviões turcos não hesitam em atacar-nos”. Há livros, canetas e fotografias no chão, um pastor que passa por ali cumprimenta-nos e voltamos a olhar para o céu, para um ponto branco que esteja a piscar.

    Passaremos a noite na pacatez das montanhas em casa de uma família de agricultores, na manhã seguinte iremos ao encontro das guerrilheiras do PKK, ou melhor, elas virão ao nosso encontro. Antes do cair da noite ainda visitamos o cemitério e o mausoléu da guerrilha. Centenas de retratos e objectos pessoais de cada uma das mártires que perdeu a vida ao serviço da causa repousam ali, como tesouros para a eternidade. Pentes, carteiras, pequenos espelhos dispostos dentro de gavetas envidraçadas contam-nos histórias, falam. Ao centro, o retrato de Arin Mirkan, uma heroína de guerra, jovem mãe de 20 anos, comandante do YPG (Unidade de Defesa das Mulheres) que em Kobani, cercada de jihadistas e sem fuga possível, envolveu-se com explosivos e fez-se explodir levando consigo 23 membros do Daesh.

    À medida que anoitece, já em casa de uma família de agricultores, repousamos bebendo um chá. Um dos jovens da casa, o filho mais novo Dyare, tem 15 anos e quer ser astrónomo. Não é de estranhar, todas as constelações são visíveis a olho nu, como ver um drone num céu tão estrelado? Dyare é um rapaz sorridente, bonito, de olhos verdes, que gosta de Cristiano Ronaldo, mas acha que Messi é melhor jogador, diz-nos que está a preparar uma manifestação juntamente com os amigos. A escola perto de casa vai fechar porque não há professores e a outra escola fica muito distante. Todos querem sair do Iraque, são guerras atrás de guerras, nunca estamos em paz e as pessoas não querem viver assim”, desabafa o pai de Dyare.

    A seguir ao jantar, Omar, o irmão mais velho de Dyare, canta canções tradicionais, chamam-se Hairan. Grande parte dos cantores curdos usam poemas eróticos quando descrevem o corpo feminino e todo o processo de fazer amor, alguns artistas juntam também a religião, e isso torna esta expressão artística ainda mais poderosa. Cantam pela noite fora, pai e filho mais velho, que mais tarde nos diz que está apaixonado e costuma cantar para as estrelas, no terraço de casa, à medida que escreve poemas para a amada.

    São 7 horas da manhã, a noite passa depressa, sem sobressaltos e mãe e filha já preparam o pequeno-almoço. Na ombreira da porta, a montanha aparece imponente mesmo aos nossos pés, como é bom acordar e ver todos os dias esta paisagem. A vida no campo começa cedo é por isso que partimos em direção ao encontro das jovens combatentes do PKK, que abandonaram toda a sua vida comum para viverem ali nas montanhas sob os ideais de Abdullah Oçalan, um político guerrilheiro e revolucionário curdo, fundador do PKK, visto como o inimigo número um da Turquia, e preso único de uma ilha-prisão sob o olhar de centenas de guardas.

    Enquanto subimos de carro pela encosta escarpada, Zagros Hewram conta-nos que o PKK não tem nada a ver com os outros partidos do Curdistão, tem uma filosofia que assenta no comunitarismo, ou seja pequenos grupos na sociedade que se juntam e transformam a sua aldeia vila ou cidade. Depois de esperarmos cerca de uma hora na montanha e de termos entregue o nosso carro, cinco jovens mulheres curdas descem até nós, armadas, com um sorriso contagiante, falam curmânji e são da região de Batman, na Turquia.

    Correm até à fonte, vão buscar água e preparamos uma pequena ceia com queijo da serra e pão. Tudo o que comemos é a montanha que nos dá” explicam-nos as jovens guerreiras. A mais nova tem 17 anos e a mais velha 25. Não sinto falta de nada aqui. A minha família era muito pobre, a nossa vida era muito difícil, desde que aqui estou estudo, trabalho e ganhei uma família diz-nos a jovem líder do grupo que já combateu o Daesh. Se teve medo? Não, eles é que têm medo de nós”. Quando perguntamos se podemos ver onde dormem, elas dizem-nos que a vida na montanha é nómada, não têm um lugar certo. Todos os dias treinam, estudam e preparam-se para novas missões. É totalmente proibido o casamento ou relações sexuais entre os elementos, mas qualquer um pode abandonar a guerrilha se não concorda com estes termos. Num Médio Oriente em luta pela afirmação da mulher, a liberdade conquistada por estas jovens guerrilheiras é ouro.

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    Fuga para Duhok

    Cerca de 130.000 Yazidis chegaram à região de Duhok em Agosto de 2014, vieram através das montanhas quando o Monte de Sinjar, a nordeste de Mossul, junto à fronteira síria, foi invadido pelas milícias do Daesh. Muitos não conseguiram sobreviver às difíceis condições climatéricas: temperaturas que rondavam os 50ºc, sem água, comida ou medicamentos. Um genocídio foi evitado quando as forças Peshmerga curdas e os guerrilheiros do PKK, com o apoio aéreo dos EUA, abriram um corredor humanitário através das montanhas, evitando desta forma um massacre anunciado. Em Sinjar, segundo dados recentes das Nações Unidas, o Daesh mantém cativas cerca de 3000 mulheres e crianças Yazidis, transformadas em escravas sexuais e condenadas a uma vida de trabalho forçado.

    Em Sharia, distrito de Duhok, um vasto campo para desalojados, construído pelas autoridades turcas, alberga cerca de 9000 famílias Yazidis provenientes do Monte de Sinjar. Cerca de 800.000 Yazidis curdos encontram-se espalhados pelo Norte do Iraque, principalmente na zona de Sinjar, Mossul, e, mais recentemente, depois dos ataques do Daesh, também em Duhok, Erbil e Sulaymaniya.

    O campo de Sharia localiza-se num planalto nos arrabaldes da cidade, visto ao longe é uma massa compacta de tendas brancas que brilham sob o sol impiedoso. O primeiro passo é esperar à entrada enquanto mostramos os nossos documentos às autoridades, à espera de autorização para entrarmos. Somos desde logo acompanhados por dois trabalhadores humanitários que vivem no campo e falam inglês na perfeição.

    Junto a um dos portões, um grupo de crianças com baldes e garrafões encontra-se à volta de uma das torneiras do campo, enquanto as mães e as avós lavam a roupa. O campo é barulhento, ouve-se o riso das crianças, as vozes das mulheres que conversam, o barulho das máquinas escavadoras em obras, os homens que vendem nas bancas. Num muro do campo, o número 74 aparece escrito em letras encarnadas, é a 74ª vez que a minoria curda Yazidi é perseguida. As perseguições ao povo Yazidi tiveram início ainda no século XIX, durante o império otomano, e estenderam-se durante o regime de Saddam Hussein. Actualmente são um alvo fácil dos ataques de um inimigo sem rosto nem identidade, que os considera adoradores do Diabo. No entanto apesar de todas estas perseguições e massacres, a sua fé mantém-se inabalável.

    Khalaf Mahmood, residente no campo de deslocados internos de Sharia, 65 anos, conseguiu chegar a Duhok, mas a sua mulher e filhas ficaram nas mãos dos jihadistas. Não quero nada, nem ir para lugar nenhum, só quero a minha família de volta. Choro todos os dias e não consigo comer. Onze membros da minha família estão desaparecidos, não sei nada deles, mas sei que com 10.000 dólares americanos conseguia salvá-los a todos”.

    Através do recurso a contrabandistas é possível resgatar vários familiares ao Daesh, no entanto é uma tarefa difícil, perigosa e muito dispendiosa para as famílias. A SAIFO, uma ONG curda, é responsável pelo resgate e salvamento de vários Yazidis, das áreas ocupadas pelos jihadistas.

    É muito arriscado, primeiro temos de chegar aos contrabandistas, depois eles têm de chegar aos jihadistas e todo este processo é muito dispendioso para as famílias. Nós conseguimos juntar dinheiro através de donativos feitos pela sociedade civil, mas não temos quaisquer apoios das Autoridades para fazermos isto conta Diler Sinjary, director-executivo da SAIFO.

    O autoproclamado Estado Islâmico tem outros recursos financeiros para além da venda de petróleo, que atinge cerca de 500 milhões de dólares por ano, sendo o comércio de escravas sexuais um dos mais importantes e rentáveis. Não estará esta ONG, indirectamente, a ser uma fonte de rendimento do Daesh? O dinheiro nunca vai directamente para eles, pagamos a intermediários, temos de fazer qualquer coisa, não podemos abandonar os nossos argumenta Diler Sinjary.

    Maha Abduhalla (nome fictício) é uma jovem adolescente como tantas outras, que está agarrada ao telemóvel. Contudo, a vida de Maha Abduhalla sofreu um duro revés quando há um ano foi feita refém pelos jihadistas.

    Fui violada e vendida por três vezes. Um dos homens que me violou era sobrinho de um dos meus vizinhos, tentei falar com ele, «por favor, não faças isso, tens a idade do meu irmão», mas ele não fez caso. Uma das vezes em que fui capturada, telefonei ao meu pai, e o violador descobriu e espancou-me. O meu pai ligou-lhe então, a dizer que já tinha o dinheiro para me comprar de volta, 150.000 dólares, e no final da chamada ele olhou para mim e começou a rir, a dizer que quando o meu pai chegasse ia matá-lo e ficar com o dinheiro. Depois começou a rir-se de novo. Liguei ao meu pai e implorei-lhe que não viesse… Não há nada que me faça feliz neste momento. Não tenho namorado e nem quero, nem gostaria de ter filhos. Por causa da minha história, fui a Londres, aos estúdios da BBC, em Novembro. Vou agora para a Alemanha, onde vou receber apoio psicológico durante dois anos, e espero nunca mais voltar ao Iraque. Gostaria de estudar outra vez e ser engenheira” conta Maha.

    Quando lhe perguntámos como tinha sido a reação da sua família quando a voltou a ver, ela contou-nos que o pai passou vários dias a chorar agarrado a si. As mentalidades estão a mudar e, se antes do aparecimento do Daesh, havia códigos de honra bastante severos em relação às mulheres Yazidi, agora, os pais só querem ter as suas filhas de volta.

    Sheilman Shibo, 42 anos, líder de uma equipa numa organização humanitária em Duhok, afirma: “Tenho orgulho em ser Yazidi, mas sou uma pessoa em primeiro lugar. A minha fé está no meu coração. O que o Daesh faz connosco é um massacre, mas fazem o mesmo em Tal Afar e contra os curdos em Mossul, eles matam toda a gente,” argumenta.

    O Êxodo

    Mais de quatro milhões de pessoas já chegaram à Europa desde o início da guerra na Síria, em 2011, entre eles sírios, mas também iraquianos e afegãos procuram salvar as suas vidas. No entanto, as fronteiras continuam fechadas, por isso torna-se necessário empreender odisseias demasiado perigosas, que passam quase sempre pelo Mediterrâneo, em barcos sobrelotados.

    curdistao mapaDiria que mais de 95% das pessoas aqui no campo querem ir para a Europa. O meu filho tentou ir para a Alemanha através da Turquia, mas não conseguiu avançar mais. Acabou por voltar para o campo, sem os 10.000 dólares que levou para pagar aos contrabandistas. Agora, passa os dias agarrado ao telemóvel no facebook. O que é que eles hão-de fazer aqui? Não há nada para os jovens fazerem”, recorda Sheilman Shibo.

    Mais de metade da população deslocada na Região do Curdistão tem idade inferior a 18 anos, estas crianças e jovens vêem-se obrigados a trabalhar para ajudar no magro orçamento familiar, deixando a escola por falta de condições e dinheiro. As escolas, no campo de refugiados, não estão preparadas para o Inverno, os edifícios estão mal construídos, a chuva infiltra-se pelas paredes, não há mesas, cadeiras, livros, nem professores em número suficiente. Um grande número de crianças na região do Curdistão Iraquiano não vai à escola por falta de documentos e condições.

    Hussein, 42 anos, é professor no campo de deslocados internos Cover Two também situado em Duhok. Encontramo-lo à saída da escola, não era dia de aulas, só de entrega de presentes por parte das autoridades curdas. As crianças, sentadas no chão, ouviam os discursos de políticos e responsáveis de organizações não-governamentais. Cá fora, algumas centenas de crianças esperavam espreitando pelas grades, mas não puderam entrar.

    Isto não serve para nada, nada desabafa, Hussein. As autoridades (do Governo Regional do Curdistão) vêm cá muitas vezes mas não resolvem os verdadeiros problemas. Estas crianças são extremamente pobres; não têm sapatos para virem à escola, roupa, mochilas, não têm nada, porque os pais não têm dinheiro para gastar com elas. Há quatro escolas no campo e as turmas chegam a ser de 50 alunos, logo não há cadeiras nem mesas para todos e as salas são muito barulhentas. Às vezes, as crianças vêm à escola, mas acabam por não voltar. Para as encontrarmos basta darmos uma volta no mercado de Duhok. Estão lá, a trabalhar”.

    Uma menina agarra-se às pernas do professor, ainda não o largou. Hussein conta-nos que nenhuma daquelas crianças tem qualquer tipo de apoio psicológico e a maior parte delas estiveram nas montanhas, algumas viram os pais morrerem. “Muitas destas crianças precisam de apoio psicológico urgente. Elas estiveram nas montanhas sem comida ou água, algumas perderam a família. Antes dos ataques do Daesh tínhamos tudo: escolas, casas, carros, paz. Agora, não há qualquer lugar seguro em Sinjar. Costumávamos dizer que para o ano as coisas seriam melhores, mas agora já não há esperança aqui. Estamos a viver numa prisão”. Hussein acrescenta ainda: “Todos os professores que conheço estão a tentar chegar à Europa, a países seguros. Perdi dois filhos no Mediterrâneo, o terceiro sobreviveu e regressou, mas está a tentar ir de novo. Há famílias com 20 pessoas que compram um bilhete para um membro da família tentar a sua sorte. Eu tinha uma casa, um salário, e os meus dois filhos, agora não tenho nada”.

    ————————–

    A viagem aqui documentada teve o apoio da Tolerancy International (www.tolerancy.org), uma ONG curda. Fizeram parte da equipa Ana Gonçalves, Karwan Kurdi, Fabíola Prado (fotojornalista) e Luís Brás (realizador).

    Nota

    (1) O documentário e outros registos estão disponíveis em www.besideheroes.com.

  • Rojava: Guerra e Revolução

    Rojava: Guerra e Revolução

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    A Batalha de Kobanê

    O Estado Islâmico (EI) entrou definitivamente no léxico de toda a gente, graças à campanha militar com que tem conquistado e ocupado território no Iraque e na Síria. Um projecto de poder que escolheu a religião para se legitimar. O califado que diz querer fundar, se visto ao pormenor, é um território abundante no que são as riquezas da região: petróleo, gás, água. Terreno a partir do qual se pode fazer muito dinheiro, dominar as maiores reservas petrolíferas da área e controlar os rios Tigre e Eufrates a partir da Síria e do Iraque, ganhando um poder brutal sobre quem viva a jusante desses pontos.

    Nos últimos anos, a diminuição da precipitação e o aumento dos desvios de água reduziram o fluxo desses rios em cerca de 40%. A seca de 2007-2009 e as consequentes más colheitas terão sido uma das faíscas da guerra civil síria ao criarem desequilíbrios sociais, com agricultores a tornarem-se refugiados e os preços dos alimentos a subirem em flecha.

    O cantão de Kobanê, região curda no norte da Síria, encostado ao Eufrates quando este entra nesse país, fica no caminho do EI. Mais do que os outros dois cantões curdos, Afrin e Jazira. Também por ser da zona em que existe 60% do petróleo sírio, terra de oleodutos, e por estar em cima da auto-estrada Raqqah-Ayn Arab (Kobanê)-Jarablus que se assume como a única via livre para levar reforços de Raqqah, a capital do EI na Síria, para as suas tropas em Aleppo.

    Desde a sua instauração, em 2012, a região autónoma democrática de Rojava (o conjunto desses três cantões) tem sofrido um duro bloqueio económico e uma forte pressão militar, acima de tudo por parte da Turquia, talvez numa tentativa de fazer o projecto autonómico falhar.

    Para além do bloqueio, tem existido, desde há dois anos, um forte assédio por parte de grupos como a Frente Al Nusra e o Estado Islâmico. O mais recente ataque do EI a Kobanê e a actuação da Turquia perante essa ameaça de massacre não são mais do que o seguimento lógico do passado recente. O papel turco e a acção titubeante do Ocidente no apoio aos combatentes curdos só não foram completamente dramáticos pela excelente capacidade das milícias, compostas por curdos e curdas oriundos e oriundas de territórios da Turquia, Síria, Iraque e Irão, a maioria guerrilheiros experimentados na longa guerra do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) contra o estado turco.

    O EI voltou a Kobanê em força, de facto. Com dezenas de tanques e artilharia pesada de fabrico estadunidense, capturados às forças iraquianas, ameaçando matar ou escravizar toda a população. Contra estas armas e contra três frentes de ataque, as forças de defesa desta região autónoma curda (cerca de 10% da população, ou seja, toda a que não se refugiou) barricaram-se na única cidade desse cantão, a que lhe dá o nome, e lutam desesperadamente por esse naco de território, fazendo bastante mais do que se poderia esperar.

    Sabem que a sua resistência, se estiver isolada, só irá atrasar o avanço do EI, nunca impedi-lo. Por esse motivo, não hesitaram em pedir auxílio à coligação internacional que se organizara para combater esse mesmo EI no Iraque. Mas é preciso assinalar que o que os curdos pretendem não é uma intervenção militar. Precisam de armas. Precisam que a fronteira com a Turquia esteja aberta para deixar os refugiados partirem e para que se juntem a eles todos os que querem e ficam barrados. Precisam de comida e medicamentos.

     

    kobane3O Ocidente

    Poder-se-ia pensar que, pela sua localização estratégica, pelo simbolismo, pela possibilidade de quebrar o alastrar do território dominado pelo EI, as forças de defesa da região iriam receber auxílio ocidental a qualquer momento. Nada disso se passou.

    O exército turco mantém-se na fronteira a impedir que reforços, armas e munições cheguem aos defensores de Kobanê, ao mesmo tempo que abre poros para que jihadistas a atravessem. De facto, apenas sob uma enorme pressão interna e internacional, o governo turco permitiu que 150 soldados pershmergas entrassem em Kobanê. E apenas a 1 de Novembro. Pershmergas que são, lembre-se, parte das forças de segurança do governo regional curdo do Iraque, nacionalista e conservador, alinhado com as potências ocidentais e a própria Turquia. Membros do YPJ/YPG (Yekîneyên Parastina Jine – Unidades de Protecção de Mulheres / Yekîneyên Parastina Gel – Unidades de Protecção Popular) e voluntários continuam sem conseguir atravessar a fronteira de forma legal. Para além disso, há provas irrefutáveis de ajuda material concreta ao EI, que parece cada vez mais uma extensão da Turquia no seu afã de se vingar definitivamente dos curdos. Sabe que uma vitória curda nesta batalha irá fortalecer o seu velho inimigo PKK. E acredita que cada posição que as milícias perdem é uma quebra na capacidade na mesa de negociações. De facto, parece óbvio que o EI não teria crescido nem conquistado tanto sem o apoio da Turquia.

    A coligação liderada pelos EUA, por seu lado, reagiu tarde, já se disse. O cerco do EI a Kobanê começou em Julho. A coligação limitou-se a ver. Com o decorrer dos combates, a sua actuação passou a pesar no desenrolar dos acontecimentos. Calculava-se que Kobanê resistisse por pouco tempo. Com a resistência das milícias tiveram que agir, para não serem acusados de cumplicidade num massacre evitável. A questão para a lentidão é que sabem que as gentes desta parte do mundo deram à luz o poder do povo e provaram que é possível governarem-se a si mesmos sem governo, sem estado e sem dependência dos EUA, da União Europeia ou das instituições financeiras mundiais. Um projecto de autogestão que choca com os interesses estratégicos do Ocidente. E quanto mais preocupados estiverem em combate, menos se empenham na construção da sua democracia sem estado, um projecto de sociedade ecológica não subordinada ao neoliberalismo, que poderá alterar o acesso do Ocidente aos combustíveis fósseis da região.

    Dum lado, uma Turquia solícita às necessidades do EI. Do outro, uma coligação internacional interessada em garantir uma presença estratégica na Síria, sob capa humanitária, mas sem vontade de auxiliar povos em fuga do modelo capitalista de organização. No meio, os habitantes de Kobanê continuam a resistir. Nos últimos tempos, com aparente sucesso, abandonando a mera defesa e passando ao contra-ataque. No entanto, se aqui a situação militar parece melhorar, há um novo perigo sobre outro enclave curdo. A Frente Al-Nusra, espécie de al-Qaeda síria, está a deslocar-se para Afrim, cantão com cerca de um milhão de habitantes.

     

    rojava4Três pinceladas de História

    Excluídos das negociações e traídos pelo Tratado de Lausanne (1923), depois de os Aliados (da Primeira Guerra Mundial) lhes terem prometido um estado próprio, os curdos são a maior etnia do mundo que não o tem. Entre 27 e 36 milhões de pessoas[ref]Não é possível determinar o número exacto de curdos que vivem no Médio Oriente, principalmente devido à relutância dos vários governos das regiões habitadas por curdos em fornecer dados importantes.[/ref], na sua maioria muçulmanos sunitas, habitam uma região com cerca de 500.000 km². Vítimas das fronteiras forjadas pelo colonialismo, são mortos no Irão, assassinados na Turquia, gaseados no Iraque, massacrados na Síria.

    Até aos anos 70, os movimentos curdos de defesa de direitos nacionais eram dominados por chefes tribais, autoridades religiosas, ou elites urbanas. Uma fase caracterizada pela ausência de um projecto de alteração sócio-económica e demasiado confiante em apoios externos. Entretanto, o rápido crescimento capitalista da região, o aumento da urbanização e da literacia proporcionaram o nascimento de novas formações políticas que desafiavam radicalmente os moldes das forças nacionalistas tradicionais, nomeadamente o PKK, na Turquia, formado por um grupo de estudantes universitários desiludidos com os caminhos da luta nacional curda dos anos 70.

    Na sequência do golpe militar de 1980, que levou o exército turco ao poder, o PKK iniciou (1984) a luta armada por um estado curdo independente. Explorando a tensão geopolítica entre a Turquia (membro da NATO) e a Síria (pró-soviética), estabeleceu nesta última os seus campos de treino militar. A sua influência neste país é notória e reflectiu-se no rápido crescimento do seu aliado local, o PYD (Partiya Yekîtiya Demokrat – Partido da União Democrática), nascido em 2003.

    O fim da guerra fria levou os Assad, primeiro o pai, Hafiz, e, depois o filho, Bashar, a aproximarem-se do Ocidente. Ao mesmo tempo, a intensificação da via militar do PKK fez a Turquia aumentar as ameaças de intervenção armada se a Síria não deixasse de dar abrigo à liderança desse partido e aos seus campos de treino. Assad fechou esses campos e expulsou o líder do PKK, Abdullah Oçalan, que foi, consequentemente, capturado no Quénia pelos serviços secretos turcos, com a ajuda da CIA, a 15 de Fevereiro de 1999.

     

    Um novo ciclo

    Órfãos de líder e de modelo, com o desabar da experiência soviética, os partidários do PKK e do PYD começaram a ler artigos de filósofos, feministas, anarquistas e ecologistas sociais. A partilharem espaços e convivências há décadas, os curdos sabiam, pela experiência na Turquia, que nada se podia esperar do mercado. E, pela vivência na Síria, que o estado pouco mais tem para dar.

    Terá sido nessa tentativa de procurar alternativas ao capitalismo e à experiência soviética que Oçalan chegou a Bookchin[ref]A história que se conta nos meios de comunicação explica todas as alterações do PKK e do PYD unicamente através da “visão” de Oçalan. Diz-se que, na prisão, tropeçou em Murray Bookchin (escritor anarquista, percursor das ideias da ecologia social), adoptou o seu “municipalismo libertário” e, com algumas modificações, rebaptizou-o de “confederalismo democrático” e, mesmo atrás de grades, promoveu a criação do Grupo de Comunidades do Curdistão (Koma Civakên Kurdistan, ou KCK), uma experiência territorial do PKK de uma sociedade livre e de democracia directa.[/ref] e que outros chegaram ao zapatismo, ao feminismo, ao anarquismo[ref]Há, aliás, um texto que explora as semelhanças entre Rogava e Chiapas (http://roarmag.org/2014/07/rojava-autonomy-syrian-kurds/)[/ref]. Reduzir as influências ao teórico do municipalismo libertário e à centralidade do líder preso do PKK é a simplificação habitual de quem não consegue ainda entender uma organização sem figuras tutelares. De quem acredita ou quer fazer acreditar que as coisas acontecem isoladamente, sem ver ecos de Seattle, Génova, Chiapas, do 15M espanhol, do Occupy, dos protestos no Brasil dos mega- eventos ou da própria Primavera Árabe.

     

    koban2A revolução

    A partir de 2005, inspirado pela estratégia dos rebeldes zapatistas, o PKK declarou um cessar-fogo unilateral e iniciou uma estratégia não violenta que pretendia ganhar mais autonomia regional. Nessa altura, concentrou os seus esforços no desenvolvimento das estruturas que criava nos seus territórios. O PYD procedia da mesma forma. Ambos acreditando que é possível resolver a “questão nacional” através da chamada “autonomia democrática”, que envolve a rejeição do nacionalismo e que parte da ideia dum sistema de confederações autogeridas, fundado em comunas populares como órgãos base do exercício de democracia directa. Um sistema com uma grande preocupação com a igualdade de género e a protecção ambiental. A “autonomia democrática” foi a pedra de toque teórica para a formação e a administração dos cantões de Afrin, Jazira e Kobanê, na Síria (ou melhor, no Curdistão Ocidental, ou Rojava), depois da retirada do exército de Assad, no seguimento da militarização da revolução síria e do estalar da guerra civil[ref]Como curiosidade, refira-se que Janet Biehl, viúva de Bookchin, tem estudado as KCK no terreno e tem escrito sobre as suas experiências do site http://new-compass.net/. Também traduziu e publicou o livro Democratic Autonomy in North Kurdistan: The Council Movement, Gender Liberation, and Ecology (2013)[/ref].

    Um poder desaparecia e não era substituído por outro semelhante, mesmo que de sinal aparentemente contrário, como ocorre, de resto, na grande maioria daquilo a que nos habituámos a chamar de revoluções. Os curdos seguiram para caminhos novos, assentes em 4 pilares: a revolução deve começar na base da sociedade e não no topo; deve ser uma revolução ao mesmo tempo social, cultural, educacional e política; deve estar contra o poder, o estado e a autoridade; devem ser as pessoas das comunidades a terem responsabilidades na tomada de decisões. E organizaram-se em “Regiões Autónomas Democráticas” para dar corpo a uma confederação de curdos, árabes, assírios, caldeus, arameus, turcomanos, arménios e tchetchenos. Foram criadas assembleias populares enquanto órgãos decisórios. Os conselhos foram constituídos com uma grande preocupação de equilíbrio étnico. Existe um exército misto, o YPJ/YPG e brigadas feministas, a YJA Star (Yekîtîya Jinên Azad – União de Mulheres Livres – a estrela refere-se à antiga deusa mesopotâmica, Ishtar). As propriedades do regime sírio foram entregues a cooperativas geridas pelos trabalhadores. Uma democracia sem estado, antes baseada na criação de comunidades livres de autogoverno em gestão directa.

    Uma ideia consagrada na constituição de Rojava[ref]O texto completo da Constituição de Rojava pode ser encontrado em castelhano, por exemplo em http://www.resumenlatinoamericano.org/?p=5926[/ref], um documento verdadeiramente notável na história moderna do Médio Oriente, principalmente pelo seu enfoque na coexistência igualitária entre etnias, religiões e géneros. Ponto de partida para uma experiência colectivizadora. Uma revolução, sem dúvida. Talvez no único sentido que, hoje, verdadeiramente conta. Aquele em que se deixa, pura e simplesmente, de funcionar da forma que interessa ao poder e ao capital e se passa a organizar as coisas com base nas decisões das próprias pessoas. Um movimento aparentemente nacionalista que ultrapassou essa questão para se centrar na que realmente interessa: viver mandando na própria vida, independentemente da origem étnica, geográfica ou religiosa.

    Uma revolução que não nasce duma expressão de raiva. Que não é criada por ordem superior. Que não acontece em 24 horas e não é um golpe militar ou palaciano nem um levantamento bolchevique. E que não se limita a desmantelar a infra-estrutura económica da sociedade. Antes, tenta eliminar desejos de autoridade, dos campos às escolas e às famílias. Que esbate, de facto, as diferenças entre homens e mulheres. Uma revolução que se dá na vida social, na cultura, educação, mentalidade, comportamento e pensamento. Um projecto de criação permanente de rebeldes que vivam em harmonia e em ambiente de liberdade e abertura e se acostumem a uma cultura de vida colectiva, de dar e não só receber, de confiança e desafio, de crença no trabalho voluntário e na solidariedade. Uma cultura de tu primeiro e, depois, eu.

     

    Mas…

    Pintámos, decerto, um quadro a cores demasiado suaves. Porque a paisagem real deve ser bem menos harmoniosa. Não apenas pelo clima de guerra, também pela escassez de bens para além do trigo e do petróleo, numa zona sem indústria, por exemplo. As privações, mesmo partilhadas, serão muitas. Um quadro onde, apesar de tudo, é preciso reconhecer um marcado culto da personalidade. Oçalan é endeusado em muitas zonas e o próprio, que rejeitou o estado e a autoridade, ainda não criticou os que continuam a chamar-lhe grande líder. Para além do mais, sabemos que, a esta distância, as palavras são sempre ecos relativamente distorcidos da realidade. E que esta deve ser bem mais dura do que a que transparece.

    Para além disso, há aparentes contradições que despertam dúvidas. Sabendo-se que é o PYD que está por trás do movimento popular de autogestão e sabendo-se que um partido, lá como cá, é sujeito a interesses particulares, o que acontecerá se as decisões das comunidades, porventura, seguirem caminhos “errados”? E como fazer conviver estruturas com formas e naturezas diferentes como são os partidos, hierárquicos, e os órgãos decisórios que se pretendem implementar, de hierarquia invertida? Qual a importância que as lideranças do PYD e do PKK têm no desenvolvimento destas relações? Que outras forças e outras ideias podem surgir no terreno? Ou, de outro ângulo, é possível que uma revolução iniciada de cima para baixo desague numa sociedade organizada de baixo para cima?

    Finalmente, há a questão da existência de uma espécie de poder dual. O sistema de comunas e um parlamento que forma um governo transitório (até à realização de eleições) no qual estão representados todos os partidos políticos e grupos sociais. A estruturação deste poder dual está ainda em discussão. Das conclusões dependem muitas das possibilidades libertadoras da experiência de Rojava.

    O desenvolvimento futuro das comunas pode trazer luz a estas questões. Na melhor das possibilidades, alargarão as suas competências, deveres e poderes. Na pior, serão couto de funcionários de partidos a preocuparem-se, acima de tudo, com os seus interesses próprios.

     

    Funcionamento concreto do sistema de comunas
    A Primavera Árabe chegou à Síria em 2011 e expandiu-se em pouco tempo para Afrin, Jazira e Kobanê, onde se revelou forte e eficaz, a ponto de ter contribuído de forma decisiva para a retirada do exército sírio dos cantões curdos.
    Com o espírito assembleário bem presente, o povo dessas regiões, com o apoio do PYD e do PKK, formou o Tev-Dem (Tevgera Civaka Demokratîk – Movimento da Sociedade Democrática).
    Com a retirada do poder sírio, a situação ameaçava tornar-se caótica e o Tev-Dem iniciou a implementação dos seus programas.
    Programas extraordinariamente inclusivos, mas de organização pré-estabelecida a que se adere ou não. Programas com tudo antecipadamente pensado. Em primeiro lugar, criar uma quantidade de grupos, comités e comunas nos bairros, aldeias e cidades, com o papel de se envolverem em todos os aspectos da sua sociedade: questões de género, ambiente, educação, saúde.
    Hoje, estes grupos têm reuniões semanais onde falam dos problemas de onde vivem. Nas cidades, têm o seu representante no grupo principal, chamado “Casa do Povo”.
    As comunas foram criadas um pouco por todo o lado. Baseadas no princípio da participação directa na gestão das ruas, dos bairros, das aldeias e das cidades. São os lugares onde as pessoas com mais de 16 anos se organizam voluntariamente para falarem e procurarem soluções para os seus problemas sociais, políticos, ambientais e de segurança.
    O corpo executivo desta “auto-administração democrática” é eleito pela Assembleia Popular e tem autonomia para implementar e executar as decisões da Casa do Povo. Quase metade dos seus membros são mulheres. Está organizado de forma a que pessoas de todos os géneros, nacionalidades e crenças possam participar.
    Na maioria das zonas, as decisões são tomadas de acordo com os princípios do consenso. Há cuidados para que uma pessoa não domine os processos.
    Das suas mãos já saiu um Contrato Social, uma Lei dos Transportes, uma Lei dos Partidos. No Contrato Social, pode ler-se na primeira página: “as áreas de democracia autogerida não aceitam os conceitos de nacionalismo estatal, exército ou religião, gestão e governo centralizados, mas estão abertas a formas compatíveis com as tradições da democracia e do pluralismo”.
    Há dezenas de partidos. A maioria em oposição ao PYD, ao Tev-Dem e à auto-administração democrática. A única restrição que têm é a de não poderem ter guerrilheiros ou milícias sob seu comando.

     

    Teófilo Fagundes

     

    Artigo publicado na edição impressa (nº8, Dezembro de 2014)

     

  • “Não. Isto é uma verdadeira revolução” Entrevista com David Graeber sobre Rojava

    “Não. Isto é uma verdadeira revolução” Entrevista com David Graeber sobre Rojava

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    traduzido a partir de ZNET (entrevista originalmente publicada pelo diário Evrensel na Turkia)


     

    O anarquista e professor de Antropologia (London School of economics), David Graeber, escreveu em Outubro passado um artigo para o Guardian, durante a primeira semana dos ataques do ISIS (Estado Islâmico do Iraque e do Levante) a Kobane (norte da Síria), onde perguntava porque é que o mundo estava a ignorar os Kurdos Sírios revolucionários.

    Mencionando o seu pai, que se voluntariou para lutar nas Brigadas Internacionais na república espanhola em 1937, perguntou:

    “ Se existe hoje um paralelo com os assassinos falangistas, superficialmente devotos de Franco, quem será senão o ISIS? Se existe hoje um paralelo com as Mujeres Libres de Espanha, quem será senão as corajosas mulheres que defendem as barricadas de Kobane? Vai o mundo – e desta vez mais escandalosamente, a esquerda internacional- ser condescendente em deixar que a história se repita?

    De acordo com Graeber, a região autónoma de Rojava declarada com um “contracto social” em 2011, como três cantões anti-estado, anti-capitalistas, foi também uma notável experiência democrática desta área.

    No início de Dezembro, com um grupo de 8 pessoas, estudantes, activistas e académicos de diferentes partes da Europa e dos EUA, passou 10 dias em Cizire – um dos cantões de Rojava. Tiveram a hipótese de observar a prática da “democracia autónoma” no local e colocar várias questões.

    Graeber descreve agora a sua impressão desta viagem com questões maiores e explica por que é que esta “experiência” dos curdos sírios está a ser ignorada pelo mundo inteiro.

     

    No artigo para o Guardian perguntaste por que é que o mundo ignora a “experiencia democrática” dos curdos sírios. Depois da experiência de 10 dias, tens uma nova questão ou talvez uma resposta para isso?

    Bem, se alguém tinha dúvidas se isto era uma verdadeira revolução, ou só alguma “sombra”, diria que esta visita tira todas as dúvidas. Ainda existem pessoas a dizer: “Isto é só uma frente do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), na verdade são só uma organização autoritária estalinista, que apenas finge ter adoptado uma democracia radical”. Não. Isto é mesmo a sério. É uma revolução genuína. Mas de certa maneira, é exactamente esse o problema. Os grandes poderes têm-se entregado a uma ideologia que diz que as verdadeiras revoluções já não podem acontecer. Entretanto, muita da esquerda, mesmo a radical, parece tacticamente ter adoptado a política que assume o mesmo, apesar de parecerem superficialmente revolucionários. Assumem um tipo de “anti-imperialismo” puritano que assume que os únicos jogadores importantes são os governos e capitalistas, e que esse é o único jogo que vale a pena discutir. O jogo onde se batalha, se criam vilões míticos, se agarra petróleo e outros recursos, montam-se redes de patrocínios; é o único jogo da cidade. O povo de Rojava diz: “Nós não queremos jogar esse jogo. Queremos criar um novo”. Muita gente acha isto confuso e perturbador, então escolhem acreditar que não está a acontecer, ou que essas pessoas estão iludidas, são desonestas ou ingénuas.

    Desde Outubro que vemos uma crescente solidariedade vinda de vários movimentos políticos de todo o mundo. Houve uma grande e deveras entusiástica cobertura da resistência em Kobane pelos média mainstream internacionais. A posição política perante Rojava mudou no Ocidente, de certa forma. Existem sinais significativos mas estar-se-á a discutir suficientemente a autonomia democrática e as experiências nos cantões de Rojava? Que parte de “algumas pessoas corajosas a lutar contra o grande mal desta era, o ISIS” não estará a dominar esta aprovação e este fascínio? Acho que é notável que tanta gente no Ocidente olhe para estes quadros de feministas armadas, por exemplo, e nem sequer pense nas ideias por trás delas. Apenas se apercebem que assim aconteceu, por algum motivo. “Penso que é uma tradição curda”. De certo modo, claro que se trata de orientalismo, ou simplesmente racismo. Nunca lhe ocorreu que as pessoas no Curdistão possam estar também a ler Judith Butler. Na melhor das hipóteses pensam: “Oh, estão a tentar alcançar os padrões ocidentais da democracia e dos direitos das mulheres. Será que é a sério ou será só para os estrangeiros verem”. Não lhes ocorre que eles podem estar a levar as coisas bem mais longe que os “padrões ocidentais” alguma vez levaram; que acreditam genuinamente nos princípios que os Estados ocidentais apenas professam.

     

    Mencionaste a aproximação da esquerda sobre Rojava. Como é isso recebido nas comunidades anarquistas internacionais?

    A reacção da comunidade anarquista internacional tem sido decididamente diversa. De certa maneira, acho difícil de entender. Existe um grupo substancial de anarquistas – normalmente os elementos mais sectários – que insiste que o PKK ainda é um grupo nacionalista autoritário estalinista, que adoptou Bookchin, e outros partidários da esquerda libertária, para cortejar a esquerda anti autoritária na Europa e América. Parece-me uma das ideias mais parvas e narcisistas que já ouvi. Mesmo que a premissa estivesse correcta, e que um grupo Marxista-Leninista decidisse fingir uma ideologia para obter apoio estrangeiro, por que raio é que iriam escolher ideias anarquistas desenvolvidas por Murray Bookchin? Isso seria a jogada mais estúpida de sempre. Obviamente fingiriam ser islamitas ou liberais, já que são esses que conseguem armas e apoio material. De qualquer maneira, penso que muita gente na esquerda internacional, incluindo a esquerda anarquista, não quer basicamente ganhar. Não conseguem imaginar que uma revolução realmente acontecesse, e, secretamente, nem sequer a querem, uma vez que isso significaria partilhar o seu clube “fixe” com pessoas comuns; já não seriam especiais. Assim, até é útil para separar os verdadeiros revolucionários dos “poseurs”. Mas os verdadeiros revolucionários têm-se mantido firmes.

     

    Qual foi a coisa mais impressionante que testemunhaste em Rojava nos termos práticos desta autonomia democrática?

    Existem tantas coisas impressionantes. Acho que nunca ouvi falar de nenhum outro lado do mundo onde tenha existido uma situação de dualidade de poder, onde as mesmas forças políticas criaram ambos os lados. Existe a “auto-administração democrática”, onde existem todas as formas e armadilhas de um Estado – Parlamento, ministros, e por aí – mas foi criada para ser cuidadosamente separada dos meios do poder coercivo. Depois há o TEV-DEM (o Movimento da Sociedade Democrática) dirigido de raiz instituições de democracia directa. No final – e isto é fulcral – as forças de segurança respondem perante as estruturas que seguem uma abordagem de cima para baixo, e não de baixo para cima. Um dos primeiros locais que visitámos foi a academia de polícia (Asayis). Todos tiveram que frequentar cursos de resolução de conflitos não violenta e de teoria feminista antes de serem autorizados a pegar numa arma. Os co-directores explicaram-nos que o seu objectivo final é dar seis semanas de treino policial a toda a gente no país, para que em última análise se possa eliminar a polícia.

     

    O que responderias às várias críticas em torno de Rojava? Por exemplo: “Eles nunca fariam isto em tempos de paz. É por causa do estado de guerra”

    Bem, penso que a maioria dos movimentos, perante as condições horrendas da guerra, não iria no entanto abolir imediatamente a pena capital, dissolver a polícia secreta e democratizar o exército. As unidades militares, por exemplo, elegem os seus oficiais.

     

    E existe outra crítica, bastante popular nos círculos pro-governo aqui na Turquia: “O modelo que os Curdos – na linha do PKK e PYD (o Partido Curto de União Democrática) – estão a tentar promover não é na verdade seguido por todas as pessoas que lá vivem. Essa multi-… estrutura existe apenas à superfície, nos símbolos”

    Bem, o presidente do cantão de Cizire é árabe, é de facto o chefe da maior tribo local. Suponho que se possa dizer que ele é só uma figura. No sentido que todo o governo o é. Mas ao olhando para as estruturas organizadas de baixo para cima, é certo que não são só os curdos que estão a participar. Disseram-me que o único problema a sério é com algumas aldeias do “cinto árabe”, pessoas trazidas de outras partes da Síria pelos Baathistas nos anos 50 e 60, como parte de uma política de marginalização e assimilação dos curdos. Algumas dessas comunidades afirmaram-se bastante hostis à revolução. Mas os árabes cujas famílias já lá estão há várias gerações, ou os assírios, quirguizes, arménios, chechenos, mostram-se entusiasmados. Os assírios com quem falámos disseram que, após uma longa e difícil relação com o regime, sentiram que finalmente lhes era permitida autonomia cultural e religiosa. Provavelmente, o maior problema pode ser o da libertação das mulheres. O PYD e o TEV-DEM vêem-no como absolutamente central na sua ideia de revolução, mas também enfrentam o problema de lidar com alianças maiores com comunidades árabes que sentem que isto viola princípios religiosos básicos. Por exemplo, enquanto aqueles que falam siríaco têm a sua própria união de mulheres, os árabes não, e as raparigas árabes interessadas em organizar-se em torno de questões de género ou até assistir a seminários feministas têm de se juntar com os assírios ou mesmo com os curdos.

     

    Não é necessário estar preso no “quadro anti-imperialista puritano” que mencionaste antes, mas o que dirias em relação ao comentário que o Ocidente/imperialismo irá um dia exigir aos curdos sírios um pagamento pelo seu apoio? O que é que o Ocidente pensa exactamente sobre este modelo anti-estado e anti-capitalista? É apenas uma experiência que pode ser ignorada durante um estado de guerra, enquanto os curdos se aceitam voluntariamente combater um inimigo criado pelo Ocidente?

    É absolutamente verdade que os EUA e a Europa irão fazer o que poderem para subverter a revolução. Nem é preciso dizer nada. As pessoas com quem falei estão bem cientes disso. Mas não fazem grande diferenciação entre a liderança de poderes regionais como na Turquia, Irão ou Arábia Saudita, e poderes Euro-americanos como por exemplo França ou EUA. Assumem que são todos capitalistas e estadistas e portanto anti-revolucionários, que podem no melhor dos casos ser convencidos a apoiarem-nos mas que, em última análise, não estão do seu lado. Depois existem questões ainda mais complicadas da estrutura da chamada comunidade internacional, o sistema global de instituições como a ONU ou FMI, corporações, ONG’s, organizações humanitárias, em que todas presumem uma organização estadista, um governo que pode passar leis e detém o monopólio da aplicação coerciva dessas leis. Só existe um aeroporto em Cizire e está sobre o controlo do governo Sírio. Podem tomá-lo a qualquer altura, dizem. E há uma razão para não o fazerem: como iria um não-Estado dirigir um aeroporto? Tudo o que se faz num aeroporto é sujeito a regulamentos internacionais, o que presume um Estado.

     

    Tens uma resposta para o porquê da obsessão do ISIS com Kobane?

    Bem, eles não podem ser vistos a perder. Toda a sua estratégia de recrutamento é baseada na ideia que eles são imparáveis, e que a sua contínua vitória é a prova que representam a vontade de Deus. Serem derrotados por um monte de feministas seria a humilhação final. Enquanto estiverem a lutar em Kobane, podem dizer que os média mentem e que estão a avançar verdadeiramente. Quem pode provar o contrário? Se recuassem seria admitir a derrota.

     

    Tens resposta para o que Tayyip Erdogan e o seu partido estão a tentar a fazer na Síria e o Médio Oriente em geral?

    Posso apenas imaginar. Parece que Erdogan passou de uma política anti-Assad e anti-curda para uma estratégia quase puramente anti-curda. Repetidamente tem mostrado vontade de se aliar com fascistas pseudo-religiosos para atacar qualquer experiência de democracia radical inspirada no PKK. Ele vê claramente, como o próprio Daesh (ISIS), que o que está a ser feito é uma ameaça ideológica, talvez a única alternativa ideológica viável face ao islamismo de direita que se avizinha, e tudo fará para a eliminar.

     

    De um lado existem os curdos iraquianos com uma ideologia bem diferente em termos de capitalismo e noção de independência. Por outro lado, existe este exemplo alternativo em Rojava. E existem os curdos da Turquia que tentam manter um processo de paz com o governo… Pessoalmente, como vês o futuro do Curdistão a curto e a longo prazo?

    Quem pode dizer? Neste momento as coisas parecem surpreendentemente boas para as forças revolucionárias. O KDG até desistiu da enorme vala que estava a construir através da fronteira de Rojava, após o PKK intervir e salvar Erbil e outras cidades dos avanços ISIS, em Agosto. Um elemento do KNK disse-me que isso teve um grande impacto na consciência popular; que um mês criou tanta consciência como 20 anos. Os jovens estavam particularmente impressionados pelo facto de os seus próprios Peshmerga abandonarem o campo de batalha mas as mulheres do PKK não. Mas é difícil de imaginar como é que o território de KRG será contudo revolucionado num futuro próximo. Nem o poder internacional o permitiria.

     

    Apesar de a autonomia democrática não parecer estar em cima da mesa de negociações na Turquia, o Movimento Político Cudo tem estado a trabalhar nisso, especialmente ao nível social. Tentam encontrar soluções em termos legais e económicos para possíveis modelos. Quando comparamos, digamos, a estrutura de classes e o nível de capitalismo no Curdistão Ocidental (Rojava) e no Norte (Turquia), o que pensas sobre as diferenças destas duas lutas para uma sociedade anti-capitalista – ou para um capitalismo minimizado, como o descrevem?

    Penso que a luta curda é explicitamente anti-capitalista em ambos os países. É o seu ponto de partida. Conseguiram uma espécie de fórmula: não eliminar o capitalismo sem eliminar o Estado, e não podemos eliminar o Estado sem eliminar o patriarcado. No entanto, o povo de Rojava tem a questão simplificada em termos de classes porque a verdadeira burguesia, tal como existia numa região maioritariamente agrícola, desapareceu com o colapso do regime de Baath. Enfrentarão um problema a longo prazo se não trabalharem no sistema educativo, para assegurar que um estrato tecnocrata de desenvolvimento não tente eventualmente tomar poder, mas entretanto, é compreensível que se foquem de imediato nas questões de género. Na Turquia não sei tanto, mas tenho a sensação que as coisas são muito mais complicadas.

     

    Durante os dias em que as pessoas do mundo não podiam respirar por razões óbvias, a tua viagem a Rojava inspirou-te sobre o futuro? Qual achas que é o “remédio” para as pessoas respirarem?

    Foi extraordinário. Passei a minha vida a pensar em como poderíamos fazer coisas como estas num futuro remoto e a maioria das pessoas pensa que sou louco por imaginar que isto alguma vez vai acontecer. Estas pessoas estão a fazê-lo agora. Se eles provarem que pode ser feito, que uma sociedade genuinamente igualitária e democrática é possível, isto irá transformar completamente a noção de possibilidades humanas. Pessoalmente, sinto-me dez anos mais novo só de ter lá passado dez dias.

     

    Com que cena te irás recordar da tua viajem a Cizire?

    Existem tantas imagens impressionantes, tantas ideias. Gostei da disparidade entre o aspecto das pessoas e as coisas que diziam. Conhece-se alguém, um médico, que parece um militar sírio, vagamente assustador, de casaco de cabedal e expressão austera. Depois fala-se com ele e ele explica: “Bem, sentimos que a melhor abordagem à saúde pública é a prevenção, a maioria das doenças ocorre devido ao stress. Sentimos que se reduzirmos o stress, os níveis de doenças de coração, diabetes, e mesmo o cancro irão diminuir. Assim, o nosso plano final é reorganizar as cidades para terem 70% de espaços verdes…” Existem todos estes planos loucos e brilhantes. Mas depois vai-se ao médico ao lado e explica-nos que, graças ao embargo turco, não conseguem sequer obter equipamento ou medicamentos básicos, que todos os pacientes para diálise que não foram levados dali morreram… Esta disjunção entre as ambições e as incríveis e difíceis circunstâncias. E… A mulher que era efectivamente a nossa guia era uma vice-chanceler chamada Amina. A certa altura, pedimos desculpa por não termos trazido presentes melhores e ajudado a população de Rojava, a sofrer sob o embargo. E ela disse: “No final, isso pouco importa. Temos a única coisa que ninguém nos pode dar. Temos a nossa liberdade. Vocês não. Quem me dera que houvesse uma maneira de vos poder dá-la”.

     

    És por vezes criticado por seres demasiado optimista e entusiasta sobre o que está a acontecer em Rojava. Achas que és? Ou há alguma coisa que não entendem?

    Sou optimista de temperamento, procuro situações que carreguem alguma promessa. Não acho que existam garantias que isto resultará no final, que não será esmagado, mas certamente que não será se toda a gente decidir que nenhuma revolução é possível e se recusar a dar-lhe apoio activamente, ou até dedicar esforços a atacá-la ou aumentar o seu isolamento, como muitos fazem. Se existem alguma coisa da qual tenho consciência e os outros não, talvez seja o facto de a história não estar terminada. Os capitalistas têm feito um esforço enorme nos últimos 30 ou 40 anos em convencer as pessoas que os actuais acordos económicos – nem sequer o capitalismo, mas a forma de capitalismo semi-feudal, financializada, peculiar que temos hoje em dia – são o único sistema económico possível. Puserem mais esforços nisto do que em criar um sistema capitalista global viável. Como resultado, o sistema está a despedaçar-se à nossa volta no preciso momento em que toda a gente perdeu a capacidade de imaginar outra coisa. Bem, é bastante óbvio que em 50 anos, o capitalismo sob qualquer forma que conheçamos, e provavelmente sob qualquer outra forma, já não existirá. Terá sido substituído por outra coisa. Essa coisa pode não ser melhor. Pode até ser pior. Por esse mesmo motivo, parece-me que é nossa responsabilidade, enquanto intelectuais, ou simplesmente seres humanos pensantes, de pelo menos pensar como será uma coisa melhor. E se existem pessoas que estão verdadeiramente a tentar criar essa coisa melhor, é nossa responsabilidade ajudá-las.