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  • Apresentação do MAPA na Feira do Livro Anarquista de Sevilha

    Apresentação do MAPA na Feira do Livro Anarquista de Sevilha

    Apresentação  do MAPA na IV Feira do Livro Anarquista de Sevilha, incluido no tema “Anarquismo e Lutas Sociais em Portugal”.

    Próxima dia 16 de Março às 11h.

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  • Escola Segura a Gás Pimenta

    Escola Segura a Gás Pimenta

    No passado dia 18 de Janeiro, a PSP agrediu e usou gás pimenta para dispersar uma concentração de estudantes do ensino secundário, da Escola Alberto Sampaio em Braga. Os estudantes, menores de idade e alguns com 12 anos, protestavam contra a agregação da sua escola ao agrupamento de Nogueiró. Como forma de protesto decidiram fechar a cadeado os portões do estabelecimento de ensino e concentravam-se junto ao mesmo exibindo cartazes, faixas pretas e cânticos expressando luto e desagrado pela decisão unilateral do Ministério da Educação. Segundo declarações de alguns estudantes presentes, apareceram inicialmente quatro agentes do programa Escola Segura, seguindo-se depois vários agentes do corpo de intervenção que agrediram e lançaram gás pimenta contra os alunos que se concentravam em frente do portão principal. Os apelos à calma da directora da escola e a proposta para a retirada pacífica do cadeado do portão foram ignorados pelos agentes,  provocando assim lesões em seis jovens.

    Perante a indignação de alunos, pais e professores face ao ocorrido, a PSP de Braga apressou-se a emitir um comunicado no qual afirma que “a utilização de gás pimenta foi feita na medida e proporção, e serviu para evitar uma acção mais musculada por parte da polícia”. Um dos representantes da associação de estudantes disse ainda à comunicação social que o protesto era pacífico e os ânimos exaltaram-se depois da chegada da polícia, e após a sua presença nas intalações escolares. A directora da escola nega também que a PSP tivesse sido chamada pela direcção da escola e que no momento do protesto tivesse existido qualquer tipo violência física ou verbal por parte dos estudantes.

    Ouvidas as declarações da PSP fica no ar a pergunta sobre o que seria uma “acção mais musculada” da polícia: espancamentos, balas de borracha, choques de taser contra menores de idade? Para estes alunos a função da polícia deixa de caber no logrado slogan de que existe para proteger os cidadãos e revela assim a verdadeira utilidade do programa Escola Segura.

  • Da Destruição Dos Solos

    Da Destruição Dos Solos

    Os impactos da degradação e consequente destruição dos solos pode ser verificado todos os dias: aumento de nitratos nos rios, pesticidas na água potável, inundações…

    Alguns dados mundiais, divulgados por especialistas insuspeitos nesta área, ajudam a compreender. Em 6.000 anos de agricultura o homem agricultor produziu 2 mil milhões de hectares de deserto; na actualidade, a agricultura produz 10 milhões de hectares de deserto; cada ano, enchem de betão cerca de 5 milhões de hectares; o sistema agrícola tecno-industrial já não consegue alimentar o planeta, milhões de pessoas são sub-alimentadas.

    Todos os dias arruínam-se um pouco mais os rios e os lençóis freáticos. A irrigação das culturas provoca a salinização dos solos, destruindo a matéria orgânica pela aceleração da mineralização. Os «especialistas» chegaram à conclusão que 90% dos solos de países como a França, Espanha ou Portugal não têm mais actividade orgânica. Dito de outra maneira, os lençóis freáticos têm grandes dificuldades em se recarregarem.

    Como é que chegámos aqui? Antes de tudo, é a consequência da convicção de que existe uma dicotomia homem-natureza. Depois, as práticas da agricultura moderna. Como, por exemplo, o uso de adubos químicos e a irrigação, as quais aceleram a perda de matérias orgânicas que alimentam a fauna. E sem a fauna não existem mais elementos nutritivos à superfície. Por exemplo, em 1950 encontrávamos por cada hectare 2 toneladas de “bichinhos” da terra; hoje, encontramos cerca de 50 kg na mesma superfície. Deste modo, os elementos nutritivos perdem-se e os solos destroem-se, provocando fenómenos de erosão generalizada, aumento das inundações, perda de retenção da água, e, logo, agravamento do efeito de estufa, empobrecimento dos solos e a quebra drástica dos rendimentos prometidos pelos ideólogos da Técnica. O ciclo é infernal. Para compensar a fraqueza dos solos enchem-nos de adubos e produtos fitosanitários. Uma vez que o desaparecimento da vida animal no solo deixou o lugar vago para os cogumelos patogénicos e insectos “nocíveis”.
    Além disso, o amanho das terras e os solos nus constituem fenómenos agravantes no desaparecimento da pouca matéria orgânica que, após a cultura, resta à superfície. Isso impede a formação de húmus, favorece o desenvolvimento das ervas ditas “daninhas” e ainda acelera a mineralização dos solos. O sistema agrícola moderno é largamente sustentado pela indústria química que produz, por um lado, os adubos e os produtos fitosanitários e, por outro, os medicamentos que “tratam” os consumidores intoxicados. O efeito destruidor deste sistema é cada vez maior. Além de que, os apregoados rendimentos, os quais constituíram sempre um dos grandes argumentos para a imposição das práticas da «agricultura moderna», estagnam ou diminuem drasticamente sob o choque violento de retorno da natureza. Em contraste, a indústria dos medicamentos continua a facturar

    Hoje, produzem-se 70 quintais por hectare de trigo quando em 1984 a produção era cerca de 100. Nessa época os agrónomos anunciavam 150 para o ano 2000. Os solos empobreceram e a «agricultura moderna» não é mais durável. Os tecnofílicos pensaram que certos vegetais não precisavam de solos, somente de um suporte de lã mineral e de adubos, logo os industriais aproveitaram para facturar: tornando os alimentos insípidos.

    Os nossos antepassados sabiam bem que cada terra tem as suas particularidades, cada solo é adaptado para esta ou aquela cultura, algumas para cereais outras para as vinhas, etc. Os nossos antepassados conheciam igualmente a necessidade de associar as margas e o composto sobre os terrenos a fim de regenerar os solos, a fim de, pese a intervenção humana, manter a vida biológica e assegurar boas colheitas. Em 1950, nenhum fungicida era necessário nos trigos da Europa. Hoje usam-se três ou quatro. Uma vez que é o vendedor de produtos industriais que faz de conselheiro agrícola. Eis como as práticas desenvolvidas por muitas gerações são substituídas por receitas químicas: no cultivo, uma boa dose de pesticidas.

    No final, os resultados são claros: a erosão dos solos que perdem a sua reserva útil em água e os lençóis freáticos poluídos. Os solos são tudo, menos matéria inerte. Trata-se de um sistema vivente (alguns chamam-lhe ecossistema) que, se for bem equilibrado, nutre as culturas, protege-a das doenças e das nocividades e fornece, aos seres humanos que o respeitem, os alimentos indispensáveis.
    Quais são as soluções para parar essa destruição? Antes de tudo ter a ideia de que o ser humano é um, e só mais um, com a natureza. Deve pois, o ser humano, estabelecer uma relação pacífica com a biosfera.

    Não podemos esperar tudo de um dia para o outro. É preciso tempo para reconstruir um solo. Comece-se pelo levantamento do terreno, avaliar as suas reservas nutritivas, tentar perceber as suas particularidades e as suas necessidades sem ter a convicção de que se sabe e conhece tudo. É necessário parar de «trabalhar a terra», para passarmos à «arte de repousar a terra», reconstituir a fauna e proteger os solos da erosão, etc. Neste tipo de acção não deixaremos um solo nu, devemos cobri-lo com vegetação adaptada a cada um, ao clima, à cultura. De seguida, deixar à natureza a tarefa de realizar a sua própria obra.

  • Porto: da reabilitação urbana à conquista do espaço público

    Porto: da reabilitação urbana à conquista do espaço público

    Vivemos aqui há décadas. Sabemos onde se metem meias solas nos sapatos, onde o café é mais saboroso, em que zona plantar os tomateiros. Mas há alturas em que olhamos sem ver e, de repente, quando voltamos a reparar, damos por nós à procura da familiaridade da geografia. Servida em Planos Directores Municipais e Sociedades de Reabilitação Urbana, toda uma nova cidade se planeia e se põe em prática. Já não para viver, mas para visitar. Sem sapateiros, com o café a saber ao mesmo em todo o lado, sem terra para tomates. Ainda cá vivemos, apesar de tudo. E é esse testemunho que achamos necessário partilhar.

    Não se pretende aqui mapear o novo Porto, o que se abre para os olhos dos turistas e para quem quer uma segunda casa numa zona-postal. Até porque esse “novo” não existe. É o mesmo processo de sempre, o de submeter as pessoas e as suas relações aos ditames da decisão que, a cada momento, vem salvar a cidade da desgraça em que a puseram. O ciclo imbecil de serem os mesmos que forjam os problemas a tratarem da sua solução. De uma vida numa cidade em ruína, pretende-se passar para um simulacro de vida citadina. Como se não houvesse mais nada.

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    da periferia…

    Eram aldeias. Geográfica e humanamente separadas da cidade. Ficavam para além da última parte verdadeiramente urbana. Aquém dos campos agrícolas que serviam de fronteira entre o Porto e a sua periferia oriental. O seu papel, o de fornecerem alimento, oxigénio e trabalhadores para a pólis. Eram aldeias. Com a sua tacanhez, fechadas sobre si próprias, rivais umas das outras, numa espécie de concurso de forças e popularidade que, não raras vezes, descambava em luta mano a mano.

    Eram aldeias e aldeias continuaram a ser mesmo quando instalaram, nos chamados espaços livres, os expulsos das zonas da cidade que se iam tornando nobres e, como tal, necessitadas de serem limpas de indesejáveis. Entre as velhas aldeias dos antigos pobres, outras surgiram para encaixotar outros deserdados, novos e velhos, os despossuídos e as minorias étnicas. Bouças e agras, oxigénio e comida trocadas por blocos e ruas, cimento e alcatrão.

    E, desta forma, aldeias centenárias passaram a conviver com novas aldeias, criando laços, aproximando até terras que se habituaram a crescer de costas voltadas pela enorme e inexpugnável distância que, antes, as separava. Distância que não diminuiu, mas que se esbateu com o desaparecer de coutos, poços, caminhos ermos e ervas altas, e o consequente fim das lendas de bruxas, duendes e maus olhados que impediam que alguém se atrevesse a percorrê-la.

    Com a deslocalização do fornecimento de alimento, garantir espaços agrícolas deixou de fazer sentido para os decisores. A fronteira rural da cidade desenvolveu-se, assim, nas décadas do aprofundamento do capitalismo, com a única preocupação de encaixotar trabalhadores indiferenciados e grupos sociais que convinha afastar dos olhos dos turistas. No entanto, nas décadas da globalização, com o trabalho a seguir o mesmo trilho de deslocalização, a sua função de armazém de mão de obra também se esvai.

    Deixa de ser limite e passa a ser margem. Da cidade e da sociedade. Que se confundem no aspecto da roupa, da pele e dos dentes, na desumanização das relações sociais, nas descartabilização do ser humano como peça da máquina de fazer dinheiro. A margem da cidade deixa de o ser, é como que expulsa, e torna-se periferia, com viadutos a dois palmos de varandas e com comboios, autocarros, metros, automóveis e nós rodoviários por todos os lados. Porque, entretanto, deixou de ser para que pessoas vivam e passou a ser para que gente circule para dentro e para fora ou à volta do Porto. E, então, que interessam as aldeias? Rasguem-se, afastem-se, destruam-se aos bocadinhos. Onde é precisa uma estrada para um carro passar não cabe uma casa. Onde é preciso colocar uma linha para o metro não cabe uma horta. Onde é preciso meter uma rotunda não cabe um tanque comunitário. E quem constrói tudo isto é quem acaba expulso e desenraizado.

    Pode parecer pouco, porque é isso que sempre parece quando olhamos para as coisas embrulhadas com enfeites de progresso. Mas esta era uma zona em que não se temiam as crises que os senhores do topo do mundo inventam para nos retirar dignidade e acumular mais um pouco de riqueza, através da transferência de sempre, a de baixo para cima. Porque havia tecto e comida, havia amigos e familiares ao virar da esquina, havia clientes para o biscate pouco mais longe. Hoje, há relvados estéreis perto das linhas do metro, campos abandonados por serem incultiváveis. Os amigos e familiares estão do outro lado do viaduto que não se lembra dos peões, ainda assim uma rotunda mais perto do que o cliente cujos biscates perdi.

    A antiga zona agrícola de Contumil, a que se chamava Beirão, parecia enorme a quem lá brincava na infância. Havia campos e campos, árvores, tanques, amoras, um labirinto infindável de caminhos. Poucos muros altos, que os terrenos eram separados por vegetação. Essa zona desapareceu. É, agora, parte da linha F do metro do Porto. Percorrendo-a, percebe-se que o tamanho não era uma ilusão infantil. Só não se percebe é o que vai ser da gente que já não tem terra cultivável ali. Não se percebe como foi possível deitar tanta comida fora.

    O bairro de S. Roque da Lameira era dividido pela linha de comboio. Tinha uma ponte, bonita aliás, com não mais do que 10 metros. O suficiente para que essa cicatriz da civilização se sentisse. De tal forma que a parte de baixo se chamava S. Roque e a de cima Engenheiro Machado Vaz. Havia uma vida de cada lado da ponte, mas também havia O café do bairro e O clube do bairro. Com a construção do nó rodoviário do Mercado Abastecedor, essa cicatriz, passou duma ponte de 10 metros a uma rotunda com um sem fim de entradas e saídas, esquecida de rampas para cadeiras de rodas, impossível de atravessar por quem tenha um qualquer tipo de limitação motora. O café definhou. O clube deixou de ter futebol e é apenas mais um tasco.

    São dois exemplos. Os que eu conheço melhor. Que reflectem esta tendência de esquecer as pessoas, de transformar a vida de comunidades inteiras sem dizer água vai, em prol do que for a necessidade actual dos decisores e de quem neles manda. Chamam-lhe progresso, mas não é mais do que a exploração habitual por outros meios. Exemplos que nos devem fazer pensar se uma comunidade, se lhe fosse permitido decidir, alguma vez aceitaria uma via rápida que a cortasse a meio, por exemplo. Porque da resposta depende a perspectiva sobre a questão fundamental de perceber se o próprio modelo que levou à necessidade dessa via rápida não deveria ser repensado.

     

     

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    …para o centro

    urante décadas deixado ao abandono, o centro do Porto tornou-se um terreno fértil para uma reestruturação social de toda cidade. As estratégias para a urbe acabam, agora, por desembocar num frenesim de construção em plena “crise” , erguendo novos alicerces no afastamento das classes populares dum centro que foi por si construído: a cidade deixa de ser composta de forma orgânica por quem a vive e passa a sê-lo por estratégias dinamizadoras e organizacionais importadas duma cartilha cuja credibilidade há já muito que está fora do prazo.

    Em 2005, surgiu a Porto Vivo SRU, uma Sociedade de Reabilitação Urbana de capitais públicos cuja estratégia assenta na venda de património da cidade a grandes investidores. Neste ano de 2012, acabou por ver o seu leilão da cidade chegar ao triunfo infame: o público investe, os bancos bancam e chupam até ao caroço. O anjo na terra é privado e é um investidor benfeitor. O estranho é como é que uma cidade milenar foi posta à venda dum dia para o outro e isso é contado como um dado adquirido, como uma solução final e fatal.

    Das camadas que compõem as histórias duma cidade, avalia-se o que é estético e inestético, aproveitam-se as fachadas nobres, demole-se o miolo e instala-se a ordem cosmopolita provinciana importada. E, a todo o custo, espalha-se a virose cívica que diz que todos os cantos escuros, letreiros mal escritos ou parede grafitada são contrários ao progresso. Esta lógica culminou com a criação da C.M. do Porto, dum Gabinete de Arrumação e Estética do espaço público do Porto . Se necessário, apela-se à delação e ao polícia interior. A luta de classes continua de pé: a ordem reinante manifesta-o em pleno nas estratégias de planos arquitectónicos e urbanísticos que anunciam “uma cidade velha como nova”.

    Na última década, no Porto, multiplicaram-se os gabinetes, os planos, as cosméticas. A austeridade afectou as árvores, substituíram-se os jardins por granito e aguadas de cimento e o espaço público pelo privado. Neste momento, culmina uma das obras emblemáticas da Porto Vivo: o quarteirão das Cardosas. Situado no centro do velho burgo, é um dos quarteirões que compõem a Avenida da Liberdade. Numa parceria que envolveu vários bancos, expropriou-se quem aí vivia e, como previsto, instalou-se o Hotel Intercontinetal, unidade hoteleira de 5 estrelas, na fachada do velho edifício do palácio das Cardosas. No seu interior, nasceu a primeira praça privada da cidade, cujo caminho traçado pelo plano estratégico de acção da SRU era o da construção dum “espaço interior de forte cariz cívico e ambiente mais intimista. “ .Ao inestético opõe-se o cívico e fecha-se as suas portas à noite.
    À volta do quarteirão, um mar de obras sobe as ruas que o ladeiam, a dos Caldeireiros e a de Trás. Tal como a ideia estratégica traçada, adequa-se a oferta comercial ao novo “público”: turistas, jovens artistas, professores universitários e outros quadros superiores residentes em Lisboa que queiram encontrar segunda residência, encabeçam o grupo referido pelo plano desenhado em 2005.

    Mais uma vez, o vivido é inestético e inadequado à nova vida da cidade, essa vida que se baseia nas vias que tudo rompem e que, em vez de trazerem novos mundos, trazem o mesmo de sempre, num turismo que maltrata a viagem e se impõe sobre a terra que diz descobrir. Saindo da Rua dos Caldeireiros, entrando pela da Vitória adentro, mais um hotel. Mais à frente vende-se mais uma parcela da cidade e planeia-se um outro: o Miradouro da Bataria, ponto privilegiado do centro popular do Porto, junto ao Mosteiro de São Bento, transformou-se em mais um “lote de intervenção” e foi recentemente leiloado pela Fundação para o Desenvolvimento da Zona Histórica do Porto (FDZHP), e comprado pela construtora Maranhão por tuta e meia. Em breve, iniciar-se-ão as obras para a construção de mais uma unidade hoteleira de luxo, bem no âmago duma cidade que vive como pode, habituada às dinâmicas da sobrevivência do quotidiano comunitário.

    “Com a variedade de recursos disponíveis, o Porto conquista todos os seus visitantes, desde os que o procuram pela história e autenticidade àqueles que o buscam para explorar uma nova cidade, mais cosmopolita e contemporânea” (European Consumers Choice – Porto, melhor destino europeu 2012)

    A esperança parece residir aí, na criação dum destino exótico que irá servir de tábua de salvação económica a muita gente, um el dorado que nos entra pela casa, pelas ruas, pelas vidas: a urgência económica leva a que uma crítica de raiz não veja espaço para crescer. Em nome do crescimento, vale tudo, nem que isso implique os crescentes laços de dependência externa que se vão criando. Cria-se uma comunidade de serviços, que apenas aprende a servir e cujo medo de o poder deixar de fazer permite que tudo ao seu redor seja conquistado: tudo deve ser feito de forma a nunca se ferirem susceptibilidades de futuros possíveis investidores, servindo sem nunca questionar.

    Os discursos provindos de todos os quadrantes, da esquerda à direita, lançaram a urgência, na última década, para uma recuperação cega do património do centro. Este progresso, nas suas linhas de base, parece unânime em todo o espectro partidário. O tom calamitoso sobre a ruína legitimou todas as possibilidades sem nunca conseguir realmente questionar o abandono da propriedade, privada e pública, e a lógica da sua existência. Criou-se um um lugar que caminha para o deja-vu dum mundo previsível, em relação ao qual nos dizem estarmos constantemente atrasados. Resta-nos, agora, perceber que túneis podemos agora escavar para se poder pensar um mundo outro a experimentar sem que deixemos de poder caminhar sobre as ruas onde crescemos. Que se tome a ruína.

  • Mais que uma luta no campo

    Mais que uma luta no campo

    “Eu faço parte das pessoas para quem o facto de que este projecto seja um aeroporto tem pouca importância (…). Esta é uma luta contra o sistema no qual o aeroporto se inscreve, poderia também ser a construção de uma central nuclear, uma prisão ou uma auto-estrada (…)”. « C’est vous les morts ! Ou pourquoi on a déjà beaucoup gagné ! » zad.nadir.org

    O processo de luta em Notre Dame des Landes, contra a construção dum mega aeroporto, vai-se desenhando ao longo dos tempos e reflete as experiências dos seus habitantes. No entanto, atravessando a mutabilidade específica das circunstâncias e das etapas dum processo de resistência, fica a ideia de que aquilo que está em causa não é apenas a luta contra um aeroporto nem contra este em particular, e confirmamo-lo ao notar que em quase todos os textos publicados no website da ZAD (Zone-à-Defendre) se pode encontrar a frase: “Contra o aeroporto e o seu mundo”.

    Existe, desde já, entre os indivíduos e os colectivos presentes no terreno, a consciência clara de que esta luta tem uma extensão muito maior do que a resistência à construção do Aeroport de le Grand Ouest, tendo em conta a dimensão e implicações de tal projecto, com os seus hotéis, os seus supermercados de luxo e hipermercados, o estilo de vida inerente ao avião, à rapidez, à eficiência e eficácia, à produtividade, à globalização. Um processo de destruição do território e a usurpação aos seus habitantes, justificado pelo valor económico do lucro, acima de qualquer outro.

    Sob a alçada do desenvolvimento, justifica-se uma redefinição dos territórios, baseada no imperativo de satisfazer as necessidades de um alto nível de consumo global, alicerçado ao estilo de vida urbano e citadino. A partir da noção dos estragos inerentes a estes processos, encontra-se a necessidade em refletir sobre a importância das lutas em espaços rurais, tendo em conta que o território rural tornou-se cada vez mais uma periferia da metrópole e da sua máquina devoradora e insaciável. O campo não está isolado das dinâmicas de consumo e é território da sua expressão.

    Neste sentido, a luta na Zad pode ser entendida como uma luta que reclama não apenas a reapropriação das matérias-primas e da terra em si mesma, como um lugar de experimentação de mecanismos de freio ao desenvolvimento sem sentido e ao mero desejo do capital.