Na Basílica Real de Castro Verde, percorrendo a majestosa nave da igreja, somos assombrados pelos imponentes painéis de azulejos. Erguida no século XVI por emulação da Batalha de Ourique, que na disputa entre possíveis cenários se reclama ter tido lugar em Castro Verde, os azulejos setecentistas ilustram a batalha eleita mito fundador da nacionalidade portuguesa: antes desta batalha, Cristo surgira a Afonso Henriques, garantindo-lhe a vitória sobre os cinco reis mouros e a consagração de Portugal como reino. A vitória é aclamada com a decapitação dos reis muçulmanos. Assim ficaram registadas as suas cabeças nos azulejos neste lugar santo, atestando que a esfera divina presidiu à fundação do reino de Portugal e, desde então, ao nacionalismo português.
Trata-se obviamente de uma falsidade. O mito da batalha ocorrida no século XII (1139) foi uma criação dos séculos XV e XVI, pois até aí nenhuma intervenção divina surge referida acerca da batalha tida nos «Campos de Ourique». Alexandre Herculano lançou no século XIX uma polémica anticlerical sobre o milagre de Ourique e longo tem sido o debate em torno do processo de criação do mito da nacionalidade, nele se destacando o trabalho da historiadora Ana Isabel Buescu. A mesma demonstrou como a lenda nasceu no séc. XV e foi consolidada no séc. XVI, vindo a ser uma peça-chave no contexto da Restauração do reino português no século seguinte. Incorporava-se a intervenção divina na génese da memória nacional. Este é, como sabemos, um dos processos mais eficazes da legitimação de um poder, assim como da missão sagrada do herói fundador, tirando partido de um confronto entre a Cristandade e o Islão.
Tão pouco é atestado por qualquer evidência documental, muito menos arqueológica, que a Batalha de Ourique tenha ocorrido em Castro Verde. Mas, para qualquer mito, a falsidade não constitui um problema, sendo repetida até à exaustão nos currículos escolares. Na página dos Dicionários Infopédia da Porto Editora ainda lemos que «terá sido nestas terras, mais precisamente no outeiro de S. Pedro das Cabeças, que terá culminado a batalha de Ourique, ocorrida nos Campos de Ourique, a que pertence Castro Verde, com a decapitação dos resistentes inimigos. Neste local foram encontrados vários esqueletos separados da caveira, que comprovam a degolação dos reféns, mandada executar por D. Afonso Henriques».
A falsidade é, atualmente, difícil de contrariar. A ciência histórica pouco pode contra a força do mito fundacional do nacionalismo português. As falsidades são constitutivas da ênfase nacionalista e do lastro religioso que molda a sociedade portuguesa. Marcelo Rebelo de Sousa, na sua última tomada de posse como Presidente da Républica em 2016, não quis deixar de evocar entre os «sentimentos que não sabemos definir, mas que nos ligam a todos os portugueses» a «crença em milagres de Ourique».
Há, porém, um fator inquietante que acompanha o milagreiro fundador da nação. Perturbador, esperar-se-ia, para quem resguardado do calor alentejano contempla o painel de azulejos dos cinco muçulmanos decapitados da Basílica de Castro Verde e formula a seguinte questão: não são as decapitações a expressão bárbara que nos chega dos jihadistas que neste século nos entraram casa adentro pela propaganda do Estado Islâmico, esse terrorismo religioso difundido sem qualquer agravo nas redes sociais e impossível de não dar conta nos media?
Assim sendo, por que razão a exaltação do nacionalismo português, a heroica gesta fabricada do rei fundador Afonso Henriques, difundiu e comunicou visualmente o gesto cruel da decapitação? Celebramos e evocamos o nacionalismo fundador de Portugal tal qual a lâmina ensanguentada do jihadista, cristãos e muçulmanos, alternando a mão que ergue a espada?
Poder ritual
Michael Vlahos, um académico americano ligado à área da segurança nacional e militar, refletia, em crónica de 2014 no Huffington Post [ref]Vlahos, M., (2014) “About Beheading: There Is More to ISIS Decapitations than Mere Publicity.” The Huffington Post, 21 March 2014[/ref], como, depois de uma noite familiar de pizza e cinema, o rolar de cabeças decapitadas hollywoodescas chocava nesse ano com a realidade crua e televisionada da decapitação de americanos pelo ISIS. «Ao celebrarmos assim este ato primitivo na fantasia cinematográfica, ficamos ainda mais à sua mercê na nossa realidade. A decapitação é central para a política humana porque tem um poder ritual extraordinário. Além disso, é primitiva não na sua baixeza humana, mas sim na sua capacidade bruta de afirmar autoridade. É por isso que a tomada de cabeças tem dominado a consciência ocidental até muito recentemente. A decapitação é culturalmente satisfatória, um poderoso ato de Estado e uma ferida profunda no inimigo. Este entrelaçamento de satisfação, poder e ferimento do inimigo é, eu diria, central para a nossa consciência. Todos partilhamos a compulsão ritual do decapitar.»
A nossa «civilização» associa à decapitação, resumia Vlahos, a rituais significantes: como a «enunciação da autoridade dirigente. Cortar a cabeça é, em termos simbólicos, cortar a própria autoridade dominante». Por isso o latim de (fora) caput (cabeça) está próximo de termos políticos, como «capitólio» e «capital», ou militares, como «capitão». Decapitar potencia a expressão de «ritos passionais que anunciam um novo mundo». Uma grande decapitação pode perturbar um mundo inteiro, e basta recordar a revolução francesa e a cabeça guilhotinada de Luis XVI mostrada efusivamente às dezenas de milhares reunidos em Paris às 10h20m de 21 de janeiro de 1793. Estamos perante a «prostração simbólica, a subjugação». Um aviso simbólico que é simultaneamente um troféu em que assenta a nova legitimidade.
Para Michael Vlahos «o maior problema que enfrentamos ao confrontar as decapitações do Estado Islâmico é o facto de não compreendermos e aceitarmos o significado da decapitação, o ADN do seu código, para a afirmação de uma nova legitimidade governamental. A decapitação – especialmente como um ato de teatro cívico – não é apenas um ato bárbaro: é a mais profunda e poderosa ferramenta de legitimidade política. Isto tem sido verdade ao longo da história, e precisamos de assumir o seu significado aqui, para nós.»
Amalendu Misra, da Universidade de Lancaster, publicou em 2017 um ensaio sobre «uma das mais decisivas e profundas variantes da violência corporal – a decapitação», na revista portuguesa Defesa e Nação (do Instituto de Defesa Nacional), em edição dedicada aos grupos islamistas radicais [ref]Misra, A., (2017) “Theorising performative violence : radical islam and beheading in perspective” Nação e Defesa, Lisboa, Nº 148 (2017), p. 28-42[/ref]. Misra sublinha a decapitação na perspetiva da Violência Performativa, realçando, na senda de vários autores, que «mais do que apenas uma tática para transmitir uma mensagem – gera novos símbolos e dinâmicas sociais (perpetuando-se assim) e aumenta a coesão social». «Gera-se uma dinâmica identitária especifica e articulada de forma mais clara como um ato de “alterização”: na presença do “outro” que é decapitado». O aspeto religioso é primordial. «A demonização dos inimigos permite àqueles que se consideram soldados de Deus matar sem qualquer impunidade moral».
A análise destes dois autores à expressão visualizada da decapitação (espoletado pelo horror jihadista), serve como uma luva à explicação do painel de azulejos da Batalha de Ourique e ao mito fundador do nacionalismo português, incorporando a representação de cinco cabeças decapitadas. O enquadramento conceptual da decapitação sob a lâmina do jihadista ou pela espada do rei-fundador Afonso Henriques é precisamente o mesmo. Sobra o horror. Ao qual nos cabe ora a repulsa ora a aceitação.
Rapidamente fechamos os olhos para melhor aproveitar o fresco da Basílica Real de Castro Verde. Mas não conseguimos afastar das nossas cabeças o horror desta narrativa visual do decapitado, e o nacionalismo, ungido de milagres divinos, revela-se na sua mais abjeta crueldade, que ao longo da história sempre encerrou.
No passado sábado, dia 12 de julho, algumas dezenas de solidárias ocuparam o centro de Lisboa para denunciar a situação insuportável a que os presos da prisão do Linhó estão sujeitos, após sete meses de greve do corpo da guarda prisional, e lembrando os dois jovens que ali morreram num curto espaço de tempo, Gabriel Sousa, de 28 anos, encontrado morto na cela a 7 de março e Yuri Rafael Mendes, de 25 anos, encontrado enforcado a 21 de maio.
A manifestação arrancou da Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (ao jardim do Torel), para finalizar no Ministério da Justiça (situado no Terreiro do Paço). A intenção de juntar no percurso estes dois organismos prende-se com o facto de serem quem possui a tutela e a responsabilidade sobre as prisões do país, e também a responsabilidade de garantir a manutenção dos direitos das pessoas reclusas. O braço de ferro que se arrasta desde dezembro no Linhó entre guardas e direção representa um abandono quase total da gestão prisional a um corpo da guarda prisional que desde sempre atuou como uma associação mafiosa, torturando com impunidade e aplicando greves que agravam todos os dias as condições de vida – já péssimas – das pessoas presas. Atualmente, no Linhó, as pessoas ficam em isolamento nas celas por períodos que podem ascender a 27 horas, falta água para beber, comida decente e suficiente, faltam cuidados médicos e apoio psicológico e falta o contacto com a família e com os advogados.
A greve – também em curso no EP feminino de Tires desde abril – no contexto do sistema prisional português é um direito instrumentalizado há décadas, à custa do corpo e da vida das pessoas presas. Em nome de interesses corporativos reforça-se o castigo, o isolamento e a violência institucional.
Numa recente reportagem de Ana Cristina Pereira no Público, a intenção dos guardas foi bem exposta pelopresidente do Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional (SNCGP): «Queremos transportar para fora da greve o modelo que se aplica na greve. A cadeia não é uma colónia de férias. A cadeia tem de ser sentida. Quem não tem atividade não tem de estar no recreio a apanhar banhos de Sol». Ou seja, para estes «profissionais», o objetivo é que a greve se torne a regra, com condições que reforçam ainda mais a tortura de um sistema prisional com uma das maiores taxas de mortalidade na Europa e com 121 presos por cada cem mil habitantes, também um dos países da União Europeia com maior taxa de encarceramento.
No manifesto promovido pelos coletivos Vozes de Dentro, Vida Justa e Stop Despejos, podemos ler:
«Recusamos o silêncio, a indiferença e a cumplicidade. Recusamos o encolher de ombros institucional e a normalização da morte como parte do sistema prisional.
É urgente denunciar, mobilizar. É urgente romper o isolamento das pessoas presas, desafiar a cultura punitiva que naturaliza a violência como resposta à pobreza, à dissidência e à exclusão. Neste país existem campos de concentração que condenam pessoas à morte.
Em Solidariedade com todas as vítimas do sistema prisional!»
No final de Junho, a organização de defesa das liberdades civis Statewatch publicou um relatório (pdf) que revela a forma como a polícia e as autoridades do sistema jurídico penal em toda a Europa estão a utilizar sistemas baseados em dados, algoritmos e Inteligência Artificial (IA) para «prever» onde podem ocorrer crimes e classificar as pessoas como criminosas, apesar da aparente proibição da União Europeia (UE) dos chamados sistemas de «policiamento preditivo» na Lei da Inteligência Artificial.
O relatório descreve em pormenor a forma como os chamados sistemas de «previsão» da criminalidade estão cada vez mais integrados e influenciam a tomada de decisões e as acções das autoridades policiais e do sistema jurídico-penal. Isto leva a que as pessoas e as comunidades sejam colocadas sob vigilância, sujeitas a interrogatórios, a controlos de identidade e a revistas, a rusgas domiciliárias e mesmo a detenções preventivas. Fora do sistema jurídico penal, as chamadas «previsões» e perfis estão a levar a que as pessoas sejam impedidas de trabalhar, a que lhes seja restringido ou negado o acesso a serviços essenciais e até a que sejam deportadas.
A investigação também fornece dados sobre a forma como os grupos e as comunidades marginalizados em toda a Europa são desproporcionadamente visados e afectados por estes sistemas, incluindo as pessoas e comunidades negras e racializadas, as vítimas de violência baseada no género, os migrantes, as pessoas oriundas da classe trabalhadora e de zonas sócio-economicamente desfavorecidas e as pessoas com problemas de saúde mental.
O relatório argumenta que a utilização destes sistemas pelas autoridades policiais e do sistema jurídico-penal conduz à definição de perfis raciais e socioeconómicos, à discriminação e à criminalização; tem consequências significativas para os direitos dos indivíduos, incluindo o direito a um julgamento justo, à privacidade e à liberdade contra a discriminação; é deliberadamente secreto e opaco, o que significa que as pessoas não estão conscientes da sua utilização.
Griff Ferris, um dos relatores, afirmou: «O conceito de definição de perfis e de previsão tem as suas raízes no colonialismo, e estas novas tecnologias estão a ser utilizadas de forma semelhante para manter e reforçar o racismo estrutural e institucional e a violência por parte da polícia e dos sistemas jurídicos penais. Estão a ser utilizadas para fornecer às autoridades a suspeita, a causa razoável e a justificação para a intervenção da polícia: seja para vigiar, parar e revistar, prender – e até mesmo para exercer violência potencialmente mortal. A criminalização de comunidades inteiras com base em dados e códigos tem de acabar. Estes sistemas têm de ser banidos».
O relatório do Statewatch, “New Technology, Old Injustice: Data-driven discrimination and profiling in police and prisons in Europe” [Novas tecnologias, velhas injustiças: Discriminação e caraterização baseadas em dados na polícia e nas prisões na Europa] foi produzido em parceria com investigadores que trabalham com a Technopolice Belgium e La Ligue des droits humains na Bélgica, La Quadrature du Net e Technopolice France em França, AlgorithmWatch na Alemanha e AlgoRace em Espanha.
Israel não enfrentará quaisquer sanções antes de Outubro por parte de uma União Europeia (UE) que é «o principal motor da economia de genocídio» desse país e que lava as mãos com um acordo «humanitário» invisível.
Estava toda a gente em suspenso à espera das possíveis iniciativas contra Israel que Kaja Kallas, a Alta Representante da UE para os Negócios Estrangeiros, iria apresentar na terça-feira (15 de Julho) ao Conselho dos Negócios Estrangeiros. No entantio, no dia ansiado, à saída de uma reunião dos ministros dos negócios estrangeiros da UE em Bruxelas, Kallas anunciava: «Manter-nos-emos atentos à forma como Israel implementa o acordo e faremos uma actualização do seu cumprimento de duas em duas semanas». Ou seja, uma mão cheia de nada, para além de sangue.
«Manteremos as opções [de sanções] em cima da mesa e reagiremos se Israel incumprir», afirmou, tendo em perspectiva a próxima reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros, prevista para 6 de Outubro. Agora, os diplomatas vão a banhos e, até ao final das férias de Verão, as pessoas que vivem em Gaza podem continuar a ser massacradas. A Comissária Kallas elaborou esta espécie de estudo sobre eventuais sanções na sequência da sua «análise» das acções de Israel, segundo a qual este país é culpado de utilizar a «fome» como arma de guerra, de matar civis «indiscriminadamente», de «apartheid» e de «torturar» prisioneiros.
A principal opção em análise era o congelamento das regalias de comércio livre de Israel na UE, ao abrigo de um acordo de associação UE-Israel, no valor de cerca de mil milhões de euros por ano para as empresas israelitas. O objetivo da UE «não é punir [Israel], mas melhorar a situação no terreno [em Gaza]», disse Kallas. A ministra austríaca dos Negócios Estrangeiros, Beate Meinl-Reisnger afinou pelo mesmo diapasão, afirmando que a UE precisa de manter abertos os canais de comunicação «especialmente entre amigos [Israel]» para melhorar a situação em Gaza.
O vice-ministro irlandês dos Negócios Estrangeiros, Thomas Byrne, uum dos derrotados, afirmou: «Muitas pessoas à volta da mesa [na reunião de terça-feira da UE] não queriam mais nenhuma ação [contra Israel]». Para além das sanções comerciais, os 26 Estados-Membros concordaram em colocar na lista negra os colonos israelitas mais extremistas, mas a Hungria, o principal aliado de Israel na UE, vetou essa medida, afirmou ainda Byrne.
Para a secretária-geral da Amnistia Internacional, Agnès Callamard, «a recusa da UE em suspender o seu acordo [comercial] com Israel é uma traição cruel e ilegal – do projecto e da visão europeia. Os líderes europeus tiveram a oportunidade de tomar uma posição de princípio contra os crimes de Israel, mas em vez disso deram-lhe luz verde para continuar o seu genocídio em Gaza».
Para lavar as mãos da UE, Kallas tinha, já antes (10 de Julho), feito um acordo «humanitário» com Gideon Sa’ar, ministro israelita dos Negócios Estrangeiros. Refira-se que este acordo foi meramente verbal e não um texto com números e datas para a entrega de ajuda, pelo que não há propriamente nada que possa ser analisado quanto à sua bondade ou possível eficácia. «Há mais camiões e mantimentos que já estão a chegar a Gaza, mais pontos de passagem estão abertos, vemos o abastecimento eléctrico a ser reparado», afirmou a Comissária.
Também do lado dos derrotados, o Ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol, José Manuel Albares, disse que permitir a entrada de alimentos e medicamentos em Gaza era um «mínimo indispensável» e que a UE deveria, de qualquer maneira, impor um embargo de armas a Israel devido à «violência injustificável em Gaza». O acordo de ajuda de Kallas é uma «migalha», afirmou por seu lado Bushra Khalidi, da Oxfam. «A ajuda por si só não pode parar esta catástrofe. Não podemos continuar a assistir à morte de crianças e dizer “estamos a fazer progressos”», acrescentou.
A voz do dinheiro Se seguirmos o dinheiro, como mandam as regas básicas de análise em capitalismo, podermos ter uma ideia do que o povo palestiniano enfrenta neste momento. O SOMO, Centro de Investigação sobre Empresas Multinacionais, que investiga os impactos e os factores que facilitam o poder injustificado das empresas, publicou alguns números:
Os Estados-Membros da UE detinham 72,1 mil milhões de euros em investimento estrangeiro em Israel em 2023 (em comparação com 39,2 mil milhões de euros nos EUA). As exportações da UE para Israel também aumentaram mil milhões de euros, atingindo 26,7 mil milhões de euros em 2024. E a bolsa de valores israelita disparou 213% nos últimos 21 meses de guerra, o que significou um ganho de mercado de 194 mil milhões de euros. Em suma, «a UE é o principal motor da economia de genocídio de Israel», conclui o SOMA.
O lar de Mary alberga monstros em vez da família burguesa.
Poucos dias depois de Mary nascer, foram em busca de cachorrinhos para a sua mãe amamentar[ref]The progress of the disease was now uninterrupted. (…) On Monday, Dr. Fordyce forbad the child’s having the breast, and we therefore procured puppies to draw off the milk. Em: Memoirs of the Author of a Vindication of the Rights of Woman, by William Godwin. London: printed for J. Johnson and G.G. and J. Robinson, 1798. Disponível em: https://bit.ly/4bLObHl[/ref]. A ligação humana foi interrompida por motivos de doença, e os cachorrinhos eram usados para retirar o leite dos peitos. O que bebeu a bebé Mary não sabemos, mas a sua mãe bebeu vinho, um anestésico para temperar o leito de morte causado pela febre puerperal. William Godwin relata os últimos dias da esposa, a quem pergunta: “o que farei com as crianças?”, e tem o silêncio por resposta[ref]I therefore affected to proceed wholly upon the ground of her having been very ill, and that it would be some time before she could expect to be well; wishing her to tell me any thing that she would choose to have done respecting the children, as they would now be principally under my care (…) she at length said, with a significant tone of voice, “I know what you are thinking of,” but added, that she had nothing to communicate to me upon the subject. Em William Godwin (citado acima).[/ref].
A mãe é Mary Wollstonecraft, e enquanto educadora feminista deixou vários livros e cartas sobre como as filhas deviam ser educadas, que William ignorou. As filhas que deixa órfãs em 1797 são Mary Wollstonecraft Godwin e a irmã, Fanny Imlay, de três anos. William cuidará sozinho das duas, mas ao fim de poucos anos sente-se incapaz de conduzir a tarefa e casa-se com a vizinha, para surpresa dos seus amigos mais próximos. A madrasta é incapaz de preencher os sapatos da mãe, e cria-se um fantasma. William refugia-se na atividade intelectual, para a qual requer silêncio constante, e exige ser sustentado por patronos. Mary cresce a visitar a campa da mãe na igreja velha de Saint Pancras, em Londres, e é lá que se encontra secretamente com Percy Bysshe Shelley, poeta, discípulo e patrono do seu pai, que acompanhará até ao fim da vida, que não foi muito longa: quando se conhecem, Mary tem 16 anos e Percy 21; ele morrerá 8 anos depois.
Percy é um aristocrata, filho mais velho de Sir Timothy Shelley, 2.º Baronete do Castelo de Goring. O seu avô, Sir Bysshe Shelley, nasceu em Newark e era rico à custa da família e de bons casamentos. Percy cresce a sofrer bullying na escola, e por vezes responde com raiva violenta. Interessa-se pela ciência e ocultismo, ganha a alcunha de «Shelley Louco» e faz experiências com pólvora, ácidos e eletricidade. Mais tarde, na Universidade de Oxford, radicaliza-se e aprofunda ideais de pensamento e amor livres com Thomas Jefferson Hogg. O desdenho pela sociedade de Oxford e pela religião motiva-os a escrever o ensaio “A necessidade do ateísmo”[ref]Percy Bysshe Shelley (1811). “The Necessity Of Atheism”. Disponível em: https://bit.ly/4kG96zD [/ref], que enviaram pelo correio aos bispos e diretores de Oxford, valendo-lhes a expulsão. O pai retira-lhe o apoio financeiro quando este foge e se casa com Harriet Westbrook, e expressa que quer doar uma grande parte do dinheiro da família aos mais desfavorecidos. Percy inspira-se na visão económica que elaborou a partir de “Justiça Política”[ref]William Godwin (1793). “An Enquiry Concerning Political Justice, and its Influence on General Virtue and Happiness” (London: G.G.J. and J. Robinson). In 2 vols. Disponível em: https://bit.ly/41M01N0[/ref], obra de William. No entanto, o autor da obra, seu mentor, discorda da ideia e aconselha-o a reconciliar-se com o pai para segurar os fundos e a consolidar uma posição académica, afastando-se da agitação política. Percy desobedece ao mestre, passa a viver de dinheiro emprestado e fica incapaz de continuar a ser patrono.
Percy desinteressa-se de Harriet após esta dar à luz a sua filha, Eliza Ianthe Shelley. Quando expressa a William que está apaixonado pela sua filha Mary e quer viver com ela, deixando para trás Harriet que está novamente grávida, este bane-o de casa e proíbe-o de ver a filha, mas sem sucesso. Mary e Percy fogem de casa levando com eles Claire Clairmont, filha da madrasta. Escapam de Inglaterra e atravessam a França devastada pela guerra, para horror de Mary, e viajam pela Alemanha e Holanda. Regressam a Inglaterra meio ano depois com Mary grávida, deprimida e a fugirem de oficiais de justiça para escapar a dívidas. A filha de Mary nasce prematura e morre 10 dias depois. Engravida no espaço de três meses e em 1816 nasce William Shelley. No mesmo ano conhecem Lord Byron, 6.º Barão, e viajam para Geneva, na Suíça. Pouco tempo após regressarem, Mary perde a sua meia irmã Fanny, que se dedica extremosamente a todos sem sentir amor de volta[ref]I have long determined that the best thing I could do was to put an end to the existence of a being whose birth was unfortunate, and whose life has only been a series of pain to those persons who have hurt their health in endeavouring to promote her welfare. Perhaps to hear of my death may give you pain, but you will soon have the blessing of forgetting that such a creature ever existed as…. (nota de suicídio de Fanny). Em: Florence A. Thomas Marshall (2011). The Life and Letters of Mary Wollstonecraft Shelley, Volume I (of 2). Disponível em: https://bit.ly/4iNOIe8[/ref], por suicídio com laúdano. Enlutado, William enterra-a numa campa anónima para evitar mais escândalos. Uns meses depois, Harriet, sentindo-se abandonada, também se suicida. Percy e Mary casam-se, e no ano seguinte têm mais uma filha, Clara Everina Shelley, que morrerá cerca de um ano depois. Vivem anos de intensidade emocional extrema e grande produção artística, mantêm diários, escapam a credores mudando de casa e de país, e convivem com outros radicais e poetas. Em 1818 viajam para Itália para curar os problemas pulmonares de Percy (provavelmente tuberculose) mas com a morte dos filhos, Mary deprime e distancia-se dele emocionalmente. No ano seguinte sofrem mais duas mortes, da filha adotada, Elena Adelaide Shelley, e de William Shelley, possivelmente de malária. Em novembro nasce Percy Florence Shelley, o único filho sobrevivente do casal. Três anos depois, Mary engravida pela última vez e quase morre num aborto; é salva por Percy que a coloca num banho de gelo, parando a hemorragia. A relação entre os dois deteriora-se cada vez mais, com Percy a envolver-se com diversas mulheres, e a acordar aos gritos dum sonho em que estrangula Mary e vê a amante e o seu marido como cadáveres ambulantes. No mesmo ano morre num naufrágio no Mediterrâneo.
O pensamento e escrita do pai e marido de Mary testemunham os principais eventos do seu tempo e criticam brilhantemente as instituições políticas, expressando enorme compaixão pelos desfavorecidos e pelas vítimas da opressão e violência. Porém, remetem os infortúnios das mulheres e crianças para tragédias pessoais que devem ser ultrapassadas. Quando o neto William morre, escreve a Mary dizendo que a depressão a faz cair na turba das mulheres comuns, ao invés de estar entre os mais nobres espíritos que honram a natureza humana[ref]You must, however, allow me the privilege of a father and a philosopher in expostulating with you on this depression. I cannot but consider it as lowering your character in a memorable degree, and putting you quite among the commonalty and mob of your sex, when I had thought I saw in you symptoms entitling you to be ranked among those noble spirits that do honour to our nature. What a falling off is here! How bitterly is so inglorious a change to be deplored! Em Marshall (citado acima).[/ref]. William deposita fé na razão para o progresso da humanidade, e acredita que um dia a imortalidade será alcançada. Por sua vez, Percy escreve sobre o Prometeu libertado, desvinculado das amarras impostas pela sociedade que atrasam o progresso.
O corpo e as emoções não são facilmente calados pela razão nem se submetem ao seu poder.
Mary lida com a realidade do trauma e com os horrores da doença, da guerra e da morte. Para ela, não basta soltar as amarras da opressão para haver progresso; há desafios internos que continuam sem resposta e se materializam nas interações humanas. O corpo e as emoções não são facilmente calados pela razão nem se submetem ao seu poder. Kock e Pasteur ainda não nasceram, e a sociedade ocidental não conhece os antibióticos nem os desinfetantes. Vários episódios de peste assolam os países da Eurásia e da bacia mediterrânica. A mortalidade materna e infantil é aterradora, e piora com a entrada dos médicos no parto, que contaminam as mulheres com as doenças que as vitimizam. Seis décadas depois da morte de Mary Wollstonecraft, Ignaz Semmelweis, considerado o «salvador das mães», será expulso do hospital e morrerá internado num asilo de loucos por defender que os médicos deviam lavar as mãos antes do parto, sendo ridicularizado pelos colegas que diziam «um cavalheiro tem sempre as mãos limpas». O planeamento familiar e controlo de natalidade estão longe de estar popularizados, a sociedade não reconhece a necessidade de sexo e de afeto, nem a importância de expressar emoções negativas.
Aos vinte anos, Mary publica Frankenstein, ou o Prometeu moderno[ref]Mary Wollstonecraft Shelley (1993). Frankenstein; Or, The Modern Prometheus. Disponível em: https://www.gutenberg. org/ebooks/84[/ref]. O livro conta a história de Vitor Frankenstein, um homem que perdeu a mãe por escarlatina que procura derrotar a morte reanimando cadáveres. É bem-sucedido na sua empresa, mas quando consegue o feito, rejeita a criatura por ser muito feia. É a irresponsabilidade perante a criação que marca a história: Vitor não estava preparado para ser pai. Movido pela paixão pela ciência e o oculto desenvolveu a tecnologia de reanimação, mas foi incapaz de amar, cuidar e nutrir a criatura gerada. Esta incorpora a monstruosidade da rejeição, condenada a viver sem companhia humana, por vir ao mundo numa forma detestável.
Frankenstein não foi o único livro de Mary. Muitos outros se seguiram, incluindo a obra-prima de ficção científica O último homem[ref]Mary Wollstonecraft Shelley (2006). The Last Man. Disponível em: https://www.gutenberg.org/ebooks/18247[/ref]. O enredo passa-se em 2073, ano em que finalmente cai a monarquia britânica e é instaurada uma república. Apesar deste progresso, a ciência continua incapaz de derrotar a guerra e a peste. O poder é concedido naturalmente ao descendente do rei, Adrian, quando este abdica da hierarquia formal. Adrian conquista o respeito dos homens ao permanecer junto do povo na doença, enquanto os que buscam a fama e a glória morrem ou se afastam. Os sobreviventes procuram escapar à peste que avança de forma inexorável, e lutam contra grupos religiosos que creem ser salvos pela fé. Só a doença destrói a hierarquia e torna as divisões sociais obsoletas, expondo as pessoas à mesma desgraça. As personagens centrais são repletas de virtudes, mas dadas a excessos emocionais e à limerência. Apesar de viverem momentos de paz, amizade e abundância, envolvem-se em projetos políticos que resultam em tragédias. Os privilégios das personagens ora são máximos, ora são mínimos, podendo viver como párias da sociedade em abrigos ou em castelos na companhia de reis, dependendo de circunstâncias que não controlam.
Só a doença destrói a hierarquia e torna as divisões sociais obsoletas
Mary sobrevive à depressão, às dívidas e paixões intensas, guardando no corpo múltiplos fantasmas e lutos. Depois da morte de Percy, Mary escreve para se sustentar a si e ao filho, ajudando o pai com frequência. Dedica o resto da sua vida a editar os trabalhos de Percy e outros autores, escrever romances e a envolver-se com a política de Itália, país que ama. Sofrerá mais uma desilusão: o revolucionário Ferdinando Gatteschi da Jovem Itália, escritor aristocrata por quem se sente atraída, tenta chantageá-la ameaçando publicar as suas cartas pessoais. Mary consegue reaver as cartas usando a polícia francesa, por intermédio de um amigo do filho. Apesar de considerar o poder policial revoltante, não se arrepende de o ter usado.
Após ter vivido de forma transgressiva, Mary reconcilia-se com a sociedade, permanecendo radical ao longo da vida: casa-se, sendo promotora do amor livre; o seu filho será 3.º Baronete; e incapaz de ter fé, entende o apelo da religião. Na viagem que faz com o filho à Itália, diz sobre os camponeses:«Pobres pessoas! A sua religião está rodeada de falsidade, mas é um grande conforto para eles»[ref]Mary Wollstonecraft Shelley (2024). Rambles in Germany and Italy in 1840, 1842, and 1843, vol. 2 of 2. Disponível em: https://www.gutenberg.org/ebooks/74301[/ref]. Apoia sempre que pode as mulheres transgressoras da sociedade, como as mães solteiras, adúlteras e lésbicas, e considera a sua generosidade como atos de simples justiça. Segue a via política da não-violência, e exerce a compaixão e a simpatia. Por esta razão despolitizaram-na, e consideraram-na defensora da vida doméstica. Só recentemente foi reconhecida como uma das principais figuras Românticas, que escreve com uma voz política e liberal que desafia o radicalismo de William e Percy. O doméstico de Mary alberga monstros em vez da família burguesa, e tem de ser transformado para o amor e o cuidado serem possíveis. Morreu aos 53 anos com um tumor cerebral, e foi amada e cuidada pelo seu filho, que não teve descendentes, pondo fim à prole da mãe do feminismo. O último sobrevivente exumou os restos mortais dos seus avós maternos e colocou-os na mesma campa da mãe na igreja de Saint Peter, com o coração de Percy que se recusou a arder na pira funerária. O que aconteceu aos cachorrinhos fica para outra história.
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Texto de Borboleta Azul, publicado no Jornal MAPA nr. 45 [Abr. – Jun. 2025]
Uma declaração de um colectivo composto por feministas internacionalistas iranianas, curdas e afegãs que defende que devemos opor-nos ao ataque assassino que as forças armadas de Israel e dos Estados Unidos estão a levar a cabo contra as pessoas no Irão, recusando-nos ao mesmo tempo a tolerar a opressão perpetrada pelo governo iraniano.
O colectivo, de nome Roja, redigiu esta declaração em 16 de Junho, o terceiro dia da guerra. Foi originalmente publicada em persa e o Jornal MAPA deitou mão da versão em inglês que aparece no site Crimethink. Muito se passou desde então. Ainda de acordo com este site, o Roja é um colectivo feminista-internacionalista independente com sede em Paris, cujos membros são originários do Irão, do Afeganistão (Hazara) e do Curdistão. O coletivo foi formado em resposta ao assassinato de Jina (Mahsa) Amini pelo Estado e à revolta nacional Jin, Jiyan, Azadi («Mulheres, Vida, Liberdade») em Setembro de 2022. O Roja centra-se nas lutas políticas e sociais no Irão e no Médio Oriente, bem como no trabalho de solidariedade local e internacional em França, incluindo com a Palestina.
Manifestação em Paris organizada por: Roja, Feminists4Jina e Socialist Solidarity.
«Mulheres, Vida, Liberdade» contra a guerra Estamos contra as duas potências coloniais, patriarcais e belicistas. Mas isto não é passividade. É o ponto de partida da nossa luta ativa pela vida.
Se Israel conduz as crianças de Gaza para a matança com uma bandeira queer do arco-íris, a República Islâmica do Irão encharca a Síria de sangue sob um pretexto anti-imperialista. Um comete genocídio contra os árabes na Palestina, o outro subjuga as etnias não persas dentro das suas fronteiras. Netanyahu procura usurpar o significado de «Mulheres, Vida, Liberdade» para vestir o seu expansionismo colonial e a sua agressão militar com roupas de «liberdade», enquanto Khamenei investiu todos os recursos na construção de um império xiita, supostamente para combater o ISIS e defender a Palestina.
De facto, estes dois inimigos de longa data espelham-se um no outro em termos de matança e malevolência. Não devemos equiparar estes dois regimes capitalistas em termos das suas posições na ordem mundial: a capacidade de agressão militar da República Islâmica é, sem dúvida, muito inferior à capacidade de Israel e do seu apoiante imperialista ocidental. No entanto, o sofrimento que infligiu é tão absoluto como a violência do fascismo sionista. Qualquer tentativa de relativizar esse sofrimento, quantitativa ou qualitativamente, é redutora e enganadora. Esse sofrimento abrange múltiplas formas de opressão, incluindo os custos exorbitantes do seu projecto nuclear e a tomada da dignidade humana como refém.
Esta guerra assimétrica entre Israel e a República Islâmica é, acima de tudo, uma guerra contra nós.
É uma guerra contra o que criámos na revolta Jin, Jyain, Azadi, o que alcançámos e o que se encontra no seu horizonte potencial: uma revolta feminista, anticolonial e igualitária que não emergiu do poder estatal, mas teve origem nas lutas populares do Curdistão – especialmente as lideradas por mulheres – e que depois ecoou por toda a geografia do Irão.
É simultaneamente uma guerra contra as classes oprimidas e trabalhadoras: contra as enfermeiras do Hospital Farabi, em Kermanshah, e contra os bombeiros da pequena cidade de Musian, em Ilam, que foram atingidos por ataques aéreos israelitas – os primeiros a 16 de Junho, os segundos duas vezes, a 14 e 16 de Junho.
Esta guerra visa as infra-estruturas e as redes que sustentam a vida quotidiana nesta região.
Assumir uma posição clara e intransigente em relação à guerra – condenar a agressão de Israel e dizer «não» à República Islâmica – é a base estratégica mínima para dar forma a uma campanha colectiva que exija um cessar-fogo imediato. «Mulheres, vida, liberdade contra a guerra» não é apenas um slogan; traça uma fronteira nítida em torno de um conjunto de tendências cujas contradições e conflitos são hoje mais claros do que nunca.
De um lado estão os defensores oportunistas da mudança de regime que, durante anos, apoiaram as sanções ocidentais e norte-americanas, rufaram os tambores da guerra, negaram o genocídio de Gaza – e agora defendem a «libertação» em abjecta subserviência ao seu mestre, Israel. Em suma: os que minimizam o belicismo imperialista ocidental, sobretudo os monarquistas persas-nacionalistas de extrema-direita.
Do outro lado está o campismo [campism], a posição política que apoia qualquer projecto – por mais autoritário que seja – que se oponha ao bloco ocidental, apresentando-o como «resistência».
Para além disso, há forças que dão prioridade à luta contra o ataque criminoso de Israel, apelando ao «estado de emergência» ou ao «interesse do povo». Este último grupo acaba por branquear os crimes da República Islâmica no país e no estrangeiro ou por adoptar um silêncio estratégico. Foram estes que, depois de 7 de Outubro de 2023, lançaram avisos sobre o perigo da indiferença em relação ao destino comum dos povos do Médio Oriente – mas, em vez de enfatizarem a luta internacionalista de base, esbateram a linha entre a resistência popular e o poder do Estado. Observaram corretamente que o Irão vem a seguir ao Líbano e à Palestina na chamada «nova ordem do Médio Oriente», mas apenas para minimizar e desvalorizar as lutas das mulheres, das minorias étnicas e das classes oprimidas neste «momento». Os seus avisos permaneceram abstractos porque não disseram uma palavra sobre a apropriação – e monopolização ideológica – do discurso anti-colonial pela República Islâmica desde a revolução de 1979.
Acreditamos que só traçando estas fronteiras – sublinhando as relações mútuas e inseparáveis entre as múltiplas lutas sociais na região – é que poderemos formar uma frente sólida contra o genocídio de Israel e, simultaneamente, arrancar o discurso anti-colonial ao monopólio da República Islâmica, confrontando os etno-nacionalistas que negam a existência de minorias étnicas e o «colonialismo interno» na República Islâmica.
Em solidariedade com o destino comum dos povos do Médio Oriente – de Cabul a Teerão, do Curdistão à Palestina, de Ahvaz a Tabriz, do Baluchistão à Síria e ao Líbano – que é a base material da luta internacionalista, dirigimos esta declaração aos oprimidos e aos subjugados no Irão e na região, à diáspora e às «consciências acordadas» do mundo.
Manifestação em Paris organizada por: Roja, Feminists4Jina e Socialist Solidarity.
Morte por bombas e mísseis A limpeza étnica perpetrada pelo criminoso Estado israelita não se limita a este dia, a este ano ou mesmo a este século. No entanto, falha geopolítica que se abriu a 7 de Outubro de 2023 ameaça agora engolir a República Islâmica e o povo do Irão por dentro – a uma velocidade espantosa e com uma intensidade chocante – lançando um horizonte sombrio que ultrapassa os nossos limites emocionais e psicológicos.
Estes podem ser os dias mais críticos das nossas vidas desde a Revolução de 1979.
Desde a madrugada de sexta-feira, 13 de junho, até segunda-feira, 16 de junho, o exército israelita levou a cabo 170 ataques, atingindo 720 alvos em todo o Irão.
– Primeira fase: instalações nucleares, bases de mísseis, sistemas de defesa aérea e assassinatos de investigadores e comandantes militares em áreas residenciais – visando dezenas de comandantes de topo do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica [um ramo das Forças Armadas iranianas], infligindo um golpe sem precedentes na estrutura de segurança militar do IRGC [corpo de guardas da revolução islâmica].
– Segunda fase: ataques coordenados a refinarias e depósitos de combustível (Shahran em Teerão e Pars South no Golfo Pérsico), portos, aeroportos e infra-estruturas críticas que afectam não só as artérias militares, mas também a reprodução social e a vida quotidiana.
– Terceira fase: ataques a símbolos da autoridade governamental – ministérios, edifícios oficiais e a principal agência de radiodifusão da República Islâmica em Teerão – o núcleo central de interrogadores, torturadores e propagadores de ódio. Uma instituição mediática com um historial de quatro décadas a fabricar dossiers, a espalhar mentiras e a difamar os pobres, as mulheres, os emigrantes afegãos e os dissidentes políticos.
Em todas estas fases, contrariamente às promessas sedutoras dos propagandistas fascistas que vendem a liberdade através de bombas, o que se verificou não foram «ataques pontuais» a alvos militares, mas sim o massacre indiscriminado de civis, mulheres e crianças. Até 15 de Junho, pelo menos 600 pessoas foram mortas e 1277 ficaram feridas. [No momento em que publicamos este artigo, os números são consideravelmente mais elevados].
Em resposta, a República Islâmica tinha lançado mais de 350 mísseis e drones contra Israel até 16 de Junho. Um dos principais ataques teve como alvo o norte de Israel, incluindo Haifa – o núcleo industrial estratégico e um centro logístico de energia. Embora a maioria dos projécteis tenha sido interceptada pelos sistemas de defesa das forças armadas israelitas e dos seus aliados, vários atingiram zonas civis. Até ao momento da elaboração deste relatório [16-18 de Junho], foram mortos 24 israelitas, incluindo quatro mulheres de uma única família.
Nesta situação terrível, a República Islâmica não só abandonou uma população aterrorizada – não conseguindo fornecer sequer os serviços mais básicos, como informação pública transparente, abrigos antiaéreos ou sistemas de alarme – como também intensificou o controlo do Estado: destacando esquadrões de choque, erguendo postos de controlo nas cidades e afiando a sua lâmina para execuções sob o pretexto de «espionagem para Israel». Embora isto não seja surpreendente em tempo de guerra – na verdade, é sintomático da incapacidade do regime para garantir a segurança – traz consigo a ameaça sussurrada de «pendurar traidores em todas as árvores». Esta lógica flui naturalmente de um regime cuja própria sobrevivência depende da repressão interna, das execuções, da militarização da vida quotidiana e da expansão regional implacável.
Faixa da ROJA numa manifestação em Paris contra o genocídio na Palestina
Representação colonial e normalização da guerra A «guerra contra o terror» – o projecto imperialista que derramou sangue no Afeganistão e no Iraque no início do século XXI – passou agora o testemunho a Israel: um ataque «preventivo» destinado a conter a ameaça nuclear iraniana [ref] Embora o programa nuclear da República Islâmica tenha sido, desde o início, um processo dispendioso e antidemocrático com graves consequências ecológicas – impulsionado pelos Guardas Revolucionários para garantir a sobrevivência do regime nas competições geopolíticas regionais e globais, Embora não reconheçamos nenhum «direito» à República Islâmica ou a qualquer outro Estado de adquirir armas nucleares e acreditemos que as armas nucleares e a corrida global a elas devem ser totalmente desmanteladas, o ataque de Netanyahu baseia-se, no entanto, numa narrativa falsa, que faz lembrar a invasão do Iraque pelos EUA sob o pretexto de eliminar as «armas de destruição maciça»: ou seja, que o Irão está a poucos passos de construir «a bomba». Embora a República Islâmica tenha, de facto, aumentado significativamente as suas reservas de urânio próximo do grau de pureza para armas, não há provas de uma decisão de construir uma bomba nuclear. Mesmo que partamos do princípio de que a República Islâmica adquiriu uma bomba, são os próprios povos da geografia política do Irão que têm de decidir o seu destino com autonomia e autodeterminação – e isso não justifica de forma alguma o ataque militar de Israel.[/ref]. Mais uma vez, repete-se o guião dominante nos média: Israel tem como alvo apenas «locais militares», utilizando «mísseis de precisão» e «drones inteligentes» para dar liberdade e democracia ao povo iraniano.
Mas esta narrativa não se refere a Parnia Abbasi, o poeta de 24 anos assassinado em Sattarkhan, Teerão. Não faz qualquer menção aos assassínios de Mohammad Ali Amini, o atleta adolescente de taekwondo, ou de Parsa Mansour, jogador nacional de padel. Nem um sussurro sobre Fatemeh Mirheidar, Niloufar Qalewand, Mehdi Pouladvand ou Najmeh Shams. Não se tratava de «alvos militares» nem de «ameaças nucleares» – apenas de seres humanos, cujos corpos foram desmembrados no silêncio mediático global, retalhados por mísseis israelitas. Esta é apenas a ponta do icebergue da «liberdade» que Israel – apoiado pelo Ocidente – pretende introduzir através do amontoado de cadáveres e de devastação.
As forças reaccionárias que reduzem a «mudança de regime» a uma mera remodelação política a partir de cima – sem qualquer transformação social real – estão agora a abraçar abertamente o seu salvador de longa data, Israel. Os monárquicos transformaram as vítimas dos bombardeamentos em estatísticas, declarando sem vergonha: «A República Islâmica executa milhares de pessoas todos os anos, por isso a morte de dezenas ou centenas por Israel é justificável». Esta é a mesma lógica desumanizante – o cálculo quantitativo da morte – que os Estados Unidos utilizaram para justificar a destruição de Hiroshima e Nagasaki: «Se a guerra continuar, morrerão mais pessoas, por isso, lancem a bomba».
A morte de civis nos recentes ataques de Israel, o aumento do controlo estatal no Irão, a destruição de infra-estruturas sociais – nada disto são «erros não intencionais» ou danos colaterais. São a lógica da guerra, especialmente quando conduzida por um regime como o de Israel. A conhecida alegação de que os civis ou locais não militares estão a ser utilizados como «escudos humanos» – outrora invocada em Gaza, agora utilizada para justificar ataques à Prisão de Dizelabad e ao Hospital Farabi em Kermanshah – é uma distorção deliberada, utilizada para mascarar e inverter a verdade desta lógica exterminatória.
Não existem «ataques justos ou «bombardeamentos justos». As experiências históricas do Iraque, do Afeganistão e da Líbia – sim, a mesma Líbia que Netanyahu cita abertamente como modelo para a mudança de regime no Irão – atestam esta verdade com sangue.
Manifestação em Paris, organizada por: Roja, Feminists4Jina e Socialist Solidarity.
«A Nova Ordem do Médio Oriente»: Porque é que Israel atacou o Irão? A escala sem precedentes dos ataques de Israel indica que Israel está a tentar conseguir uma mudança de regime em grande escala – ou o colapso do regime. Não podemos descartar a Operação «Leão em Ascensão» como uma mera extensão da hostilidade de longa data entre os dois Estados. Está enraizada num processo regional mais vasto que teve início a 7 de Outubro com um golpe no chamado «Eixo da Resistência» e que atingiu agora profundamente o núcleo das estruturas de poder de Teerão.
O ataque de Israel à República Islâmica marca o último capítulo de uma transformação mais vasta da geopolítica e da economia do Médio Oriente.
Gaza, para Israel, não é apenas um campo de batalha – é um projetco de colonização. O ataque a Gaza é uma campanha para exterminar ou expulsar mais de dois milhões de palestinianos e transformar a costa ensanguentada na visão de Trump de uma «Riviera do Médio Oriente» – praias de luxo, casinos e uma zona de comércio livre para brancos.
Passo a passo, Israel expulsou o Hezbollah do sul do Líbano, destruindo as suas infra-estruturas, matando comandantes e desmantelando a sua máquina de guerra. O mesmo está agora a acontecer com a IRGC. Na Síria, um regime apoiado pela Rússia, pelo Hezbollah e pelo IRGC – à custa de meio milhão de mortos e doze milhões de desalojados – desmoronou-se abruptamente perante os rebeldes apoiados pela Turquia. O corredor Xiita Teerão-Beirute, outrora uma artéria estratégica que ligava o Irão ao Mediterrâneo, tornou-se o seu calcanhar de Aquiles – a pista através da qual os aviões de guerra o atacam agora.
Na nova ordem imposta no Médio Oriente, um bloco de poder capitalista israelo-americano está a remodelar agressivamente a região através de rotas logístico-económicas (o Corredor Índia-Médio Oriente-Europa), da normalização político-económica (os Acordos de Abraão) e do militarismo expansionista sob a forma de genocídio e anexação de Gaza [ref]A operação «Dilúvio de Al-Aqsa» de 7 de Outubro pode ser interpretada no contexto desta nova arquitectura de dominação: como uma tentativa de perturbar o projecto de normalização de Israel através dos Acordos de Abraão e de interferir com uma das rotas mais vitais do fluxo de capital transnacional – que começa na Índia, passa pela Arábia Saudita e pelos Emirados Árabes Unidos, chega a Israel e se estende daí até às costas da Grécia, no Mediterrâneo.[/ref].
No meio da desintegração do «Eixo de Resistência», a doutrina de longa data do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica de «nem guerra nem paz» – uma estratégia de crises fabricadas e de uma calculada atitude de brinkmanship [jogo de cintura, malabarismo] – entrou em colapso. Durante anos, o regime usou confrontos limitados e controlados como arma para evitar tanto a guerra total como a paz genuína. Hoje, vê-se exposto num campo de batalha onde as regras mudaram irrevogavelmente.
Este colapso, agravado pela perda total de legitimidade interna do regime – marcada pelas revoltas em massa de Dezembro de 2017, Novembro de 2019 e o movimento «Mulheres, Vida, Liberdade» -, constitui um golpe final. A República Islâmica já não pode gerir, adiar ou exteriorizar as suas crises. Não tem legitimidade a nível interno e não tem qualquer influência estratégica na região. É um resquício queimado numa ordem militarizada e multipolar emergente.
Neste vórtice de sangue, os Estados Unidos – correndo contra a China e manobrando através da Rússia – esforçam-se por recuperar a sua hegemonia fracturada. Netanyahu agarra-se à guerra sem fim como bilhete para a sua sobrevivência interna. E dentro do aparelho dirigente da República Islâmica, muitos pretendem agora tornar-se eles próprios instrumentos de mudança de regime. Entretanto, o povo continua refém de uma guerra que não é sua, uma guerra que não oferece qualquer horizonte de libertação.
Não à repetição da Líbia, Não ao massacre do verão de 1988
Recordar o caminho percorrido desde a «bênção» da guerra Irão-Iraque para a consolidação da República Islâmica nos seus primórdios até à execução em massa de presos políticos pelo regime no Verão de 1988 é hoje tão urgente como recordar o percurso imperialista que conduziu à «Líbiazação» [ref] A «Líbiazação» refere-se a uma estratégia imperialista em que um Estado é primeiro pressionado diplomaticamente para se desarmar – muitas vezes sob o pretexto de acordos internacionais ou preocupações humanitárias -, depois sujeito a uma intervenção militar e, por fim, empurrado para o colapso do Estado e para um caos prolongado. O termo é inspirado no caso da Líbia, onde o regime de Kadhafi foi persuadido a abandonar os seus programas de armamento, mais tarde alvo de uma campanha militar liderada pela NATO, em 2011, e acabou por se desintegrar num país fragmentado e devastado pela guerra. [/ref] de toda uma sociedade.
A história das «intervenções humanitárias» no Iraque e no Afeganistão – quer sob o pretexto de «armas de destruição maciça» ou de «crimes contra a humanidade» – tem de ser lida em conjunto com a história das lutas no Irão que, desde antes da Revolução de 1979 até hoje, deram erradamente prioridade ao anti-imperialismo acima de tudo. Do mesmo modo, a história colonial de Israel – desde a Nakba de 1948 até à traição de Nasser ao pan-arabismo em 1967 – tem de ser compreendida do ponto de vista do Sara turcomano e do Curdistão, locais de colonialismo interno.
Durante mais de uma década, os ideólogos da «ilha de estabilidade» (o nome que os campistas deram em tempos à República Islâmica do Irão) utilizaram o medo da «síriazação» para envergonhar as lutas populares independentes e chamar o povo às urnas, vendendo a intervenção sangrenta do IRGC na Síria como uma estratégia de dissuasão para evitar a «síriazação» do Irão. Basta recordar esta história para justificar um «não» decisivo ao discurso dos campistas – um discurso que, em vez de se apoiar no poder popular organizado a partir de baixo, se inclina para a realpolitik e, em nome do anti-imperialismo, trata o inimigo do inimigo como um amigo, mesmo quando ele é igualmente mau.
Há cerca de 45 anos, no início da Guerra Irão-Iraque, alguns grupos progressistas enveredaram pelo nacionalismo – tratando a guerra como um acontecimento «nacional». Isso só serviu para consolidar o regime autoritário islâmico. Alguns mantiveram-se silenciosos enquanto a República Islâmica usava a palavra «imperialista» para justificar a imposição do véu obrigatório às mulheres e o envio de tropas para o Curdistão; outros, embora tenham falado, não conseguiram mobilizar a opinião pública contra o inimigo interno, feito à imagem de um inimigo externo, ajudando assim a normalizar uma hierarquia centrada no homem/persa/xiita.
Neste momento – quando a narrativa do «estado de emergência» sugere que se trata de um momento excecional e desconexo -, não há maior imperativo do que invocar uma memória histórica plural e multifacetada. Só a partir de uma memória histórica heterogénea e com várias vozes – do ponto de vista dos povos oprimidos – podemos dizer «não» ao imperialismo, ao controlo estatal baseado na guerra e ao campismo, tudo ao mesmo tempo. Ao projeto de recordar essa história estratificada – de Cabul a Gaza, através de destinos e diferenças partilhados – apelamos ao internacionalismo.
Num mundo que oscila entre a militarização fascista e as guerras aparentemente intermináveis, o nosso caminho reside na organização activa e de massas para um cessar-fogo imediato, para a paz e para a reprodução da vida contra a máquina da morte. O nosso campo de acção não está alinhado atrás de Estados nem investido em lançar-lhes olhares esperançosos , baseia-se no cuidarmos umas das outras, na ajuda mútua e na construção de uma rede de apoio, consciência e solidariedade – desde as idosos e crianças até às marginalizadas e deficientes – como testemunhámos magnificamente na revolta Mulher, Vida, Liberdade, em que a solidariedade entre as oprimidas se tornou uma força para viver, resistir e criar.
A transparência da informação e a consciencialização – sem reproduzir as narrativas israelitas ou da República Islâmica – devem ser os pilares desta resistência cultural e política.
Submetermo-nos ao fatalismo e pintar um futuro apocalíptico em que tudo já acabou são formas de reproduzir a lógica da morte. Contra essa noção de futuro, o que é absolutamente urgente é moldar uma campanha de massas que vise o cessar-fogo imediato e a abertura de um horizonte de libertação:
Mulheres, Vida, Liberdade contra a Guerra Berxwedana Jiyan e Resistência é Vida Palestina Livre Roja 18 de junho de 2025
Para conheceres os antecedentes do movimento Jin, Jiyan, Azadi («Mulher, Vida, Liberdade») no Irão, lê isto; para mais informações sobre a revolta que eclodiu em 2022, começa aqui.