Categoria: Destaque

  • Zona privada de quase acesso público

    Zona privada de quase acesso público

    Quem passa pela Praça da Liberdade já não pode deixar de reparar na reconstrução do Palácio das Cardosas, um edifício monumental – iniciado no séc. XVIII pela ordem dos Lóios no local de um antigo convento – que remata o eixo da Avenida dos Aliados, no extremo oposto ao do edifício da Câmara Municipal do Porto. Transformado num hotel de charme, com 100 quartos, SPA, “fitness center”, restaurantes, bar-lounge e, claro, a respectiva galeria comercial.

    Uma parte importante da cidade recuperada para que os turistas mais endinheirados tenham do Porto uma imagem tão rica e europeia quanto falsa. Pela frente, a recentemente granitificada Avenida dos Aliados. Por trás, em vez dos anteriores logradouros, quintais, jardins e hortas, uma praça igual a qualquer outra que se pode encontrar em Madrid ou Paris. Elementos vitais para a purificação do ar da cidade, para o depósito de partículas e para a estabilidade dos níveis freáticos transformados em placa impermeabilizada para poder albergar um parque de estacionamento subterrâneo. Retiram-se os vestígios de ocupação cidadã do interior dos quarteirões e constrói-se um complexo composto por 52 apartamentos e 19 lojas.  A opção da chamada Sociedade de Reabilitação Urbana Porto Vivo (SRU) de fazer do centro da cidade um postal de porcelana sem portuenses, mas com glamour, e baseado em condomínios fechados tem na reconstrução do Palácio e do Pátio das Cardosas um momento de rara transparência. “Isto é uma zona privada de acesso público. As pessoas podem vir aqui, passeiam, estão aqui, mas depois há uma dada hora da noite em que fecha”, disse Rui Rio aos jornalistas, quando questionado sobre o facto de a praça ir fechar à noite, após o encerramento dos espaços.  O resultado da acção duma sociedade que está a gerir um território sem que a população local tenha voto na matéria é que o centro histórico da cidade tem vindo a definhar e a empobrecer: 17% dos edifícios completamente devolutos, mais de metade dos arruamentos a precisar de requalificação urgente e a perder população a um ritmo 3 vezes superior ao resto da cidade.

    Contrário à lei

    Por outro lado, a intervenção no quarteirão das Cardosas é “totalmente contrária a todas as recomendações internacionais”, “incumpridora da lei portuguesa do património” e “atentatória dos bens declarados e inscritos na lista do Património Mundial”. A avaliação consta de um relatório da Comissão Nacional Portuguesa do Conselho Internacional dos Monumentos e dos Sítios (Icomos-Portugal), que funciona como consultor da UNESCO. E continua: “A actual intervenção está a efectuar demolições maciças na área classificada, numa lógica não de reabilitação, mas sim de renovação urbana, não do edifício como deve ser quando se trata de imóveis classificados, mas de quarteirão, privilegiando a criação de infra-estruturas que, em vez de terem em conta as necessidades da população local, antes a marginalizam, procurando, através da especulação imobiliária, alcançar grandes lucros prosseguindo uma estratégia de puro fachadismo, contrariando todas as recomendações internacionais.”  O relatório refere-se às demolições no quarteirão e o Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (Igespar) não escapa às críticas. Quando o Igespar aprovou o Plano Estratégico para a zona, em 2007, este não contemplava demolições. Apesar disso, em 2009, o então presidente do Igespar, Elísio Summavielle, aprovou a demolição de um edifício – contrariando uma decisão prévia da Direcção Regional de Cultura do Norte -, alegando “consulta prévia da comissão nacional da UNESCO”. Ora, segundo o Icomos, a UNESCO “nunca elaborou qualquer parecer sobre o projecto”.

    Negócio Ruinoso

    Mas não basta, a esta obra, ser tão abertamente contrária aos interesses da população e de legalidade duvidosa. Para além disso, é incrível a forma desassombrada como nos mostra a quem interessa a reabilitação urbana tal como ela é pensada por Rui Rio e Rui Moreira (então presidente da SRU). De facto, também tinha que ser ruinosa. De tal modo que o Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU), detentor de 60% da Sociedade de Reabilitação Urbana Porto Vivo, chumbou as suas contas, em Abril passado, para evitar a insolvência da empresa e também porque isso implicaria transferir 5,4 milhões de euros a fundo perdido para a SRU, devido a um prejuízo de 9,2 milhões de euros que a Câmara diz esconderem “lucros futuros”. Dias antes, Vítor Reis, presidente do IHRU, em entrevista ao Público, acusava a Porto Vivo de ter ocultado informação ao IHRU sobre a operação de reabilitação do quarteirão das Cardosas, uma parceria com a empresa “Lucios” que o presidente do instituto considerou um “negócio ruinoso”. Mas que a “Lucios” não considera.

     

  • A investigação científica refém da lógica de mercado

    A investigação científica refém da lógica de mercado

    A (re)descoberta do grafeno anunciada em 2004 por dois cientistas russos, Andre Geim e Konstantin Novoselov, premiados com o Nobel da Física em 2010, atraiu imediatamente a atenção de um dos principais sectores económicos dos nossos dias, o tecnológico. O interesse pelo potencial deste “novo” material levou a uma redistribuição completamente diferente dos recursos reservados para a investigação científica. No início deste ano a Comissão Europeia anunciou a entrega de mil milhões de euros durante dez anos para a investigação deste material.

    A ciência funciona com base na investigação por meios sistemáticos, lógicos e reproduzíveis de um tema e com a publicação dos resultados nas revistas de divulgação especializadas com vista à aceitação desse trabalho na comunidade científica. O processo de publicação científico parece o fim do assunto, mas na realidade está su- jeito a uma série de variáveis que ditam o seu futuro, sucesso ou fracasso. A publicação científica é peer-reviewed, ou seja, o artigo submetido será imparcialmente e anonimamente escrutinado em conteúdo, método e análise por cientistas expertos no tópico, que farão a sua análise para o artigo ser aceite ou não. É, portanto, uma conjuntura complexa e vislumbram-se os vários pontos sensíveis só a partir deste sucinto resumo: imparcialidade, anonimato, processo editorial, conteúdo, análise…

    Acto I: o grafeno quente.

    Um exemplo actual e “quente”, hot topic na gíria da comunidade científica, é o grafeno. O grafeno é a camada mais fina que se pode tirar de um pedaço de grafite, um mineral acessível, presente no nosso dia a dia, usado cada vez que escrevemos ou riscamos com lápis.1 O grafeno é uma substância formada por carbono puro em lâmina de um átomo de espessura. É extremamente leve, 1 metro quadrado pesa apenas 0,77 miligramas, e é um excelente condutor de corrente. Nele estão depositadas todas as esperanças dos cientistas que investigam materiais porque poderá fazer uma revolução energética. Entre outras coisas, permitirá fazer computadores com igual potência que consumam ínfimas percentagens da energia. Sim, em teoria… Este hot topic é de facto um trending topic da publicação científica. O número de artigos publicados anualmente sobre o grafeno evoluiu de 50 no ano 2000 para o apoteótico valor de 8334 em 2012. Em 2013, até à data deste artigo, 3700 artigos foram já publicados. Os números são bastante impactantes e demonstram a excitação pro- vocada pelo grafeno. Antes exemplificaram-se pontos sensíveis no processo editorial da publicação científica mas falta na história um outro personagem: o dinheiro.

    Acto II: pão para comer.
    O Departamento de Investigação e Inovação da União Europeia, a entidade que realiza programas para financiamento de investigação científica, anunciou, no final de 2012, um programa bilionário,3 de, literalmente, um bilião, ou mil milhões de euros, para a investigação científica sobre grafeno: a chamada “The Graphene Flagship”.4 Acima disto, vem o facto de que um cientista é avaliado, ou seja, a sua capacidade de progredir na carreira, ou simplesmente ser aceite na comunidade científica, pelo número e qualidade das publicações que tem. A investigação cientifica é muito mais um trabalho freelance que estatal. Quem investiga tem sempre que ganhar o seu pão em concursos públicos para obter financiamento para 3 ou 4 anos. E as regras de selecção destes concursos passam sempre pelo número de publicações. Por isso, hoje em dia, não existe nenhum cientista, químico, físico ou biólogo, que não pense em publicar algo relacionado com o grafeno. Os hot topics sempre existiram, sempre houve tendências e modas –sim, até na ciência– e esperanças de encontrar a Pedra Filosofal e resolver os problemas do mundo – embora esta também tenha estado sempre submetida a imperativos de rentabilidade económica– mas desta vez é sem dúvida uma especulação amplificada pelos meios de comunicação e pela globalização da informação

    Acto III: As caras das revistas científicas.

    Falta ainda analisar uma outra figura: a entidade ‘revista cientifica’. Existem centenas de revistas cientificas e obviamente não são todas iguais. Cada editora tem um leque de revistas para diferentes áreas temáticas e outro de variedade dentro de cada área para cobrir conteúdos com impactos diferentes. Dos vários índices que se usam para avaliar uma revista cientifica, o mais usado é o Factor de Impacto (IF) (outra palavra que faz es- tremecer de prazer ou temor um cientista) e define-se pelo número de citações de um artigo publicado na revista a avaliar. Cada revista tem o seu Impact Factor, ou seja, qual é o impacto médio que publicações nessa revista tiveram na comunidade científica. No topo sempre esti- veram revistas como a Science e a Nature, com IF da ordem dos 30. Existe de facto uma especulação massiva da publicação científica, amplificada pela mediatização de um tema concreto(o grafeno). Os sistemas de avaliação de cientistas agarraram com unhas e dentes as publicações de muito alto impacto e parece que todos os cientistas só têm que fazer ciência de espectáculo. Mas, como qualquer bolha especulativa, prenuncia-se uma queda abrupta real. Será um dos resultados da supressão da autonomia científica, tanto no campo metodológico como no das condições práticas da actividade investigativa, que vem sendo levada a cabo com a mais ruinosa irreflexão, sobretudo depois do pensamento científico ter escolhido servir a dominação espectacular.

  • Da denominada floresta. O eucalipto colonialista

    Da denominada floresta. O eucalipto colonialista

    Artigo publicado na edição impressa (nº1, Março de 2013)

     

    eucaliptosExistem histórias que ninguém sabe como começaram a ser contadas ou quando começaram a ser inventadas. O que se segue é sobre a história de uma invenção, a denominada «floresta portuguesa».

    Foi em Outubro passado que conheci o Pablo. Tem trinta anos, natural do Uruguai imigrou para a Andaluzia onde trabalhou na construção civil. Com a crise em Espanha, a construção parou. O Pablo meteu-se no camião-casa e partiu para França à procura de trabalho. Quando nos conhecemos e soube que eu vinha de Portugal disse-me com simpatia que tinha cá vindo no verão passado. «Gostei muito de conhecer a floresta portuguesa. Estava já farto da paisagem da Andaluzia, sem árvores». Fiquei curioso. Onde raio é que ele viu floresta em Portugal, no Gerês? Perguntei por onde andou. «Estive no sul.» «No Algarve?» «Sim, no Algarve. Quando entrei em Portugal vi lindas florestas de árvores altas, fez-me recordar a minha terra». O quê? Árvores altas em Portugal, a lembrar as florestas da América latina? Quis saber e pedi-lhe que descrevesse as árvores altas que tinha visto. Não demorou muito, eram eucaliptos. «Porra! exclamei eu, mas essas árvores não são portuguesas, nem ibéricas, nem europeias, são colonialistas. Hombre, elas são gringos, entendes?»

    Estávamos a trabalhar e não abusámos mais do tempo do qual o patrão é dono e senhor. A conversa ficou por ali. No entanto, mais tarde noutra situação, conheci a história de duas pessoas, também elas tinham estado em Portugal, mais concretamente em Idanha-a-Nova, no festival de música Boom. Uma delas francesa, que  também avistou, a partir do comboio, «lindas florestas» em Portugal.

    Monocultura intensiva  de eucalipto que, como sabemos, veio da Austrália. Mas a ideia com que os não conhecedores ficam é a do eucalipto ser originário de Portugal. Esta ideia advém das plantações contínuas iniciadas há quarenta, cinquenta anos. De acordo com o IFN, Inventário Florestal Nacional, «o eucalipto é a árvore mais plantada em Portugal continental, com um aumento de 16% de área entre 1995 e 2010, enquanto o povoamento de pinheiro bravo diminuiu 13% de área, cerca de 263 mil hectares.  Os eucaliptos ocupam uma área florestal de 812 mil hectares, seguido do sobreiro, com 737 mil hectares e do pinheiro bravo, com 714 mil hectares. O uso agrícola do solo apresenta, no mesmo período, uma redução de 12%.»

    É preciso repetir quantas vezes for necessário: os eucaliptos plantados em Portugal são fábricas de morte, deserto, um benefício económico sobretudo para as indústrias de pasta celulósica e de papel. Secam fontes, poços e nascentes. Invadem as serras, os campos, cercam e isolam as populações, substituem o pinheiro, o chaparro, a oliveira… Ao optar pela plantação de eucaliptos, o industrial-lavrador (87% da floresta portuguesa é privada) entrega-se ao negociante madeireiro e à indústria de celulose a fim de obter um retorno financeiro rápido. Porém, os eucaliptos deixam atrás de si cepos em solos cansados de dispendiosa e difícil recuperação para novas culturas. Segundo o presidente da Acréscimo, associação de promoção do investimento florestal, «o arranque dos cepos pode aportar entre 450 e 750 euros por hectare». Assim,  uma terra de eucaliptos, depois do terceiro corte pouco ou mesmo nada vale. E  mais se desvaloriza  com a falta de água. Não somente essa terra, como aquela que, embora com outras culturas, tem eucaliptos vizinhos.

    Há que ver o seguinte, para aproveitar o «potencial económico» do eucalipto, para que os trabalhadores da indústria celulósica e de papel tenham emprego, foi necessário que muitos trabalhadores agrícolas perdessem a sua actividade, as suas terras. Foi necessário transformar Portugal num deserto.

    Para terminar, outra pessoa que veio ao Boom a Idanha-a-Nova foi um neozelandês. Este moço ficou radiante ao encontrar,  por cá, os eucaliptos australianos. Com o ar mais inocente perguntou: «também há coalas?». Não, não há! O que existe é uma grande incapacidade para travar o eucalipto, esse fascista dos campos, como lhe chamou, há mais de três décadas, Afonso Cautela, pioneiro deste combate. Combate que ainda está por fazer.

    Z.T.

     

  • Média: o braço escrito do Estado Policial

    Média: o braço escrito do Estado Policial

    “Os jornalistas actuais estão de tal forma habituados à submissão e até ao êxtase dos cidadãos ante as exigências da informação – da qual gostam de aparentar ser sumos-sacerdotes quando, na realidade, não passam de assalariados –, que, creio, muitos têm por condenável alguém não aceitar explicar-se perante a sua autoridade.” Guy Debord em Considerações sobre o assassinato de Gérard Lebovici (1985)

    Vivemos em plena era da informação, onde a multiplicação de canais de comunicação faz com que a difusão de histórias ganhe uma velocidade vertiginosa, onde os tempos se reduzem e a realidade que tocamos parece ser ultrapassada. As redes sociais implementaram-se e introduziram novos paradigmas na comunicação. O fluxo constante de estímulos exteriores e notícias globais causam uma nuvem que se coloca entre nós e o que vivemos, num tempo em que o apelo à transparência parece carregar a necessidade vital de tudo ser trazido à luz do dia, como se a nossa própria existência dependesse da partilha absoluta da nossa vida privada. Um gigantesco “espectáculo da realidade”, decidido à distância e sem rosto, onde se evitam as pontas soltas que permitam que cada um complete a sua história.

    Ditam-se notícias como se eles fossem verdades essenciais, sustenta-se um sistema na ilusão de que o relato duma sucessão de factos torna um mundo mais igualitário: os relatos sucedem-se e amontoam-se sem que isso leve a uma transformação de raiz nas relações na pirâmide do poder. Devassa-se a privacidade e o que verdadeiramente importa, ou se mantém conscientemente secreto ou se torna banal e folclórico, levando ao embrutecimento dum pensamento crítico que parece estar impedido da sua aplicação prática no real. Tomar a história nas nossas mãos é também rompermos essas amarras.

    Parte integrante e vital do sistema económico onde se inserem, os canais de comunicação de massa (globalizados no passado século mas em mutação permanente), ganharam lugar-tenente na definição da verdade, auto-nomeando-se para o papel de orientadores do equilíbrio social, assumindo-se como justiceiros profissionais munidos dum estóico código deontológico. Na viragem desta primeira década do século XXI, a sua concentração na mão de grandes grupos económicos leva à simples dedução das suas ligações à lei económica e à ordem instituída. Oscila-se assim ora um pouco mais para a direita ora pouco mais para a esquerda, nunca questionando o domínio em si, mas sim quem, de acordo com os interesses do seu presente, o disputa. Fazer das previsões uma certeza única, acusando os inimigos do presente, criminalizando a dissidência do rumo futuro. E aí tornam-se o braço escrito dum estado policial.

    “a meia dúzia de desordeiros profissionais”

    O recente caso da cedência de imagens não editadas da RTP à polícia, referentes à manifestação em frente ao parlamento do passado 14 de Novembro (ver caixa), de forma a que esta procedesse à identificação de manifestantes, pode ser visto como paradigmático da relação entre a comunicação social e a ordem dominante. Se, neste caso, foi levantada alguma polémica, que cedo se dissipou por entre o burburinho mediático quotidiano (ainda que o acosso policial sobre os manifestantes continue, com vários processos pendentes), muitas são as vezes em que a prosa jornalística ganha a forma da voz do regime social e económico vigente. Nos últimos anos, são várias as situações onde, de forma mais ou menos explícita, em momentos de possível ruptura ou enfrentamento social, a voz dos jornais assume um tom criminalizante perante aqueles que protestam nas ruas. Os exemplos dos dias que antecederam a cimeira da NATO em Lisboa em 2010 ou da cobertura dos dias que se seguiram às manifestações que ocorreram em todo o país no ano de 2012, são bastante claros na abordagem: a da tentativa de isolamento de quem protesta fora dos quadrantes institucionais, procurando um mau da fita que justifique um policiamento generalizado da vida.
    Esta abordagem jornalística, que tanto pode ser veiculada pelas palavras de escribas profissionais como pela repetição de declarações alarmantes provindas de organizações “especializadas” que surgem à luz do dia quase exclusivamente nestas situações (como o caso da OSCOT (Observatório de Segurança, criminalidade organizada e terrorismo) ou de representantes do governo nacional (as declarações do ministro da administração interna Miguel Macedo e a sua insistência “na meia dúzia de desordeiros profissionais” a seguir aos confrontos entre manifestantes e polícia em Novembro passado), expande-se através dos canais de comunicação. Entre Janeiro de 2009 e o final do ano de 2010, várias foram as notícias cujos contactos com fontes policiais se assumem directos ainda que sempre com base na insinuação mais primária: novelas de pacotilha, escritas com base na ignorância ideológica, que traça relações entre diferentes elos, apontando possíveis responsáveis para acções que por vezes nem chegaram sequer a acontecer. O tom alarmista com que os artigos são escritos, partindo da bradada e clássica retórica “anti-terrorista”, tornam questionável a motivação da sua escrita, procurando ou a dissuasão de tais práticas de protesto ou apresentar presumíveis culpados caso estas aconteçam.

    A constante marginalização de quem sofre na pele os efeitos directos da repressão, seja numa manifestação pública seja nas ruas pouco visíveis das periferias das cidades, tem encontrado nos canais de comunicação corporativos um braço escrito, capaz de desenhar as dinâmicas desejadas pelas forças de segurança, necessárias para a uma desculpabilização e desresponsabilização públicas das mais violentas práticas de abuso da autoridade. Através da criação do medo, seja da delinquência, seja das consequências da apregoada crise, torna-se assim mais um elo numa cadeia que difunde a desconfiança constante dum suposto inimigo comum e invisível. A comunicação torna-se a voz do regime estatal e económico.

    Da pluralidade do mundo à homogeneização da informação

    Num tempo em que se menciona a pluralidade dos canais de informação, a perspectiva duma história democrática torna-se questionável. A dissonância de vozes que existem são facilmente abafadas por quem consegue fazer circular a informação de forma massiva. Numa imensa paleta de cores possíveis, as estruturas dominadoras da expansão da informação desenham um mundo a preto e branco. No estado português existem neste momento 5 jornais principais de tiragem diária (Jornal de Notícias, Diário de Notícias, Público, Correio da Manhã e o I, excluindo os 3 diários desportivos) que, para uma constante alimentação na corrida pela informação, necessitam de conteúdos como de pão para a boca. Estes encontram-se dependentes, fora os das notícias locais que compõe o imaginário do crime tresloucado e bizarro, quase exclusivamente, de uma agência noticiosa portuguesa (a LUSA) e de outras duas agências históricas internacionais (A Reuters e a France Press) e das informações que chegam das estruturas estatais e policiais. O frenesim causado pela urgência de notícias que alimentem a voracidade duma actualidade viciada em estímulos exteriores fica assim nas mãos de fontes exclusivas e que são constantemente as mesmas: por mais que a pluralidade de canais de comunicação seja evidente, também o é que as notícias se repetem com o mesmo tom e perspectiva. Como se uma história se reduzisse a factos neutros e o que realmente é escrito se inscrevesse como verdade.

    Por entre a avalanche de notícias de uma actualidade de cariz sensacionalista, num mundo aparentemente composto de crime, da banalidade do espectáculo e dos famosos e dos paternalistas casos de sucesso (como o caso do propagado pastel de nata em série ou o ovo estrelado instantâneo), a homogeneização da percepção do mundo que se expande desde os canais mediáticos até às mesas de café, onde eles são avidamente discutidos, leva à criação duma noção de normalidade onde o “outro” significa o “estranho”: e ainda que o indivíduo tenha a possibilidade de se expressar, há sempre alguém que lhe diz até onde deve ir.

    Quem dita o diâmetros da liberdade de expressão?

    José Alberto Carvalho, director de programação da TVI, após os insultos a Relvas na sua visita ao ISCTE organizada pelos 20 anos da TVI no passado dia 20 de Fevereiro, dizia à audiência em protesto: “Podem contar connosco para a defesa da liberdade de expressão”. Mais tarde, numa entrevista ao jornal Público (edição de 21/02/2013), fazendo uso duma série de chavões, diz que o protesto deve ter regras e que ninguém deve ser impedido de falar, mesmo que esse alguém accione, quando se vê a si e ao seu poder ameaçados, as medidas de segurança que atropelam todas as liberdades mais elementares do indivíduo. A polícia mata nas ruas, entra por tudo o que é pequeno negócio. Tenta-se abater todas as economias de subsistência e de desenrasque, criminalizam-se ideias, prendem-se e deportam-se imigrantes, demolem-se bairros com gente lá dentro e tudo isso é sabido. Banalizam-se os factos e transmite-se a impotência de os alterar. A inacção permanece porque qualquer acção de combate sobre isso será criminalizável.
    Num repente, o monopólio das causas parece estar também nas mãos dos média. Nos dias que correm, palavras de ordem duma manifestação podem fazer parte das páginas centrais dum suplemento económico dum jornal (JN de 2 de Março de 2013), as coberturas das manifestações são massivas, a “indignação” em resposta à “austeridade” torna-se também ela peça fundamental na construção das narrativas mediáticas. Assinalam o que é de salutar e o que é criticável, procurando ser juízes e detectives em simultâneo, dividindo entre o que parece ser inofensivo e o que pode ser uma ameaça para a ordem dominante. A heresia absoluta é a da ruptura com a “liberdade de expressão”, cujos padrões parecem ser definidos por uns quantos, e que parece ter sido apropriada pelas entidades políticas e policiais. O que se parece dizer então, é que as coisas podem ser todas colocadas à vista, desde que não se faça nada de sério para tentar alterar a sua raiz: esvanecem-se as vontades duma sociedade igualitária, leva-se como normal o mundo que se nos é apresentado, insinuando que sempre foi assim. Baseiam-se as narrativas numa série de arquétipos e lugares comuns que pretendem encaixar todas as acções sobre o mundo em lugares já estipulados. No entanto, as vontades reais, são as de criar e recuperar lugares que não existem ainda e que possam realmente alterar a ordem das coisas. Urge assim a criação de novas formas que encontrem na imprevisibilidade da história a fonte do seu crescimento, que não se deixem abater por aquelas que se pretendem impor pela repetição constante e pela sua difusão global, que procuram não só definir o presente como conduzir o futuro, como se ele se tratasse de um só possível.

    Na manifestação do 14 de Novembro, em frente à Assembleia, as câmaras da RTP, para além das da própria polícia, filmaram os protestos que terminaram com uma carga policial. Nos dias que se seguiram, a Unidade Especial da Polícia fez um pedido e teve acesso a imagens não editadas da cadeia televisiva, posteriormente utilizadas para identificações e campanhas de acusação e montagem judicial. Refira-se também que a própria polícia tem vindo a recolher ilegalmente imagens durante as manifestações.“O parecer diz aquilo que o bom senso recomenda. Há um dever de colaboração por parte das televisões com as forças policiais, mas esse dever de colaboração só deve existir depois de protegido o sigilo profissional e, ao mesmo tempo, preservado aquilo a que eu chamo o poder editorial”, afirmou na altura Carlos Magno, director da Entidade Reguladora da Comunicação.
  • O dever da denúncia

    O dever da denúncia

    “Ir até onde nos permite a lei e inclusive mais além.”
    Felip Puig, Ministro de Interior do governo autónomo da Catalunha, referindo-se até onde estava disposto a chegar o Estado na resposta aos distúrbios em Barcelona durante a greve geral de 29 de Março.

    Portugal tem-se mostrado especialmente aberto a todo tipo de experiências no que respeita à aplicação de diversas técnicas de controlo social, o novo cartão de cidadão é o exemplo perfeito, toda a informação necessária para a identificação de uma pessoa disponibilizada num único chip. No entanto algumas técnicas e estratégias, utilizadas sobretudo pela polícia no controlo de massas que podem desestabilizar a santíssima ordem social, ainda permanecem desconhecidas nestas latitudes, como por exemplo a “colaboração do cidadão”, ou seja, a denúncia.

    Em Agosto de 2011 na sequência de um assassinato perpetrado pela polícia de Londres em Tottenham –cidade incluída na área metropolitana da capital inglesa–, diversas cidades do Reino Unido (sobretudo os bairros londrinos) foram sacudidas por distúrbios, pilhagens e ataques incendiários, numa espiral de violência desconhecida desde os longínquos anos 80. O Reino Unido é um dos países onde as tecnologias de controlo da população se encontram mais aperfeiçoadas, sobretudo no que se refere à videovigilância. Estima-se que o país esteja vigiado por cerca de 4,2 milhões de câmaras de CCTV (circuito fechado de televisão) uma por cada 14 habitantes, em média um indíviduo pode ser filmado por mais de 300 câmaras diferentes cada dia. Por outro lado, a cumplicidade do cidadão e o chamado “policiamento de proximidade” são os pilares da efectividade do aparato tecnológico. É frequente encontrar nos bairros londinenses sinalização que apela aos seus habitantes para se manterem atentos e que denunciem qualquer tipo de comportamento suspeito às autoridades. Os distúrbios de Agosto foram o palco perfeito para confirmar a eficiência de todo este investimento; ouviram-se diversas vozes que insistiam na evidência do fracasso do modelo inglês de controlo e vigilância, mas os meses posteriores serviriam para confirmar que o big brother nas terras de sua majestade é altamente efectivo. Withern foi o nome dado à operação levada a cabo pela Scotland Yard para identificar “todos” os envolvidos nos “desacatos” de Londres. A característica fundamental desta operação era basear todo o seu modus operandi na identificação dos suspeitos através da delação a partir da divulgação das imagens captadas pelas câmaras de videovigilância (175,000 horas de vídeo passadas a pente fino). Diversas carrinhas com enormes cartazes publicitários com imagens dos suspeitos de pilhagens e distúrbios percorreram as cidades inglesas. Em Birmingham usaram inclusive uma “carrinha cinema” com um écran gigante que transmitia imagens dos participantes nas pilhagens de lojas. “Could you shop a looter”(Podes identificar um saqueador) era o título da particular campanha publicitária levada a cabo pela polícia, para além dos cartazes por todos os bairros –prática em uso há vários anos–, houve uma novidade, o uso da internet para divulgar imagens através da página da Scotland Yard, algumas provenientes do trabalho no terreno de jornalistas fotográficos (o tablóide The Sun chegou a publicar uma primeira página com diversas fotografias de “suspeitos”). Os dados mais recentes da eficiência desta campanha de identificação apontam para 4673 detidos, 2947 acusados de algum delito, 956 presos com uma média de condenações de 86%. A maioria destas pessoas foram detidas na sequência de denúncias ou identificações a partir de imagens de câmaras de vigilância

    Mais a sul, no dia 29 de Março de 2012, na greve geral convocada em todo o estado espanhol, Barcelona destacou-se por ter sido palco de distúrbios desde as primeiras horas da manhã até ao início da noite. Os episódios mais violentos deram-se ao fim da tarde durante a manifestação dos sindicatos não oficiais, com dezenas de barricadas em chamas e ínumeros ataques a bancos, imobiliárias, etc. Quase um mês depois, passado todo o carnaval mediático que habitualmente se segue a este tipo de situações, a polícia catalã –assessorada talvez pelos seus colegas ingleses– anuncia a criação de uma página web com 231 fotografias e 3 vídeos de 66 pessoas (cada uma com a respectiva galeria), algumas feitas pela própria polícia, outras retiradas dos média e das redes sociais, apelando desta maneira à “colaboração do cidadão” para pôr nome aos “vândalos”. Iniciativa pioneira em Espanha, rapidamente sai à palestra a ilegalidade e incostitucionalidade da mesma: vulneração do direito à própria imagem e à honra; negação do direito à presunção de inocência (nalgumas imagens nem sequer se discernia qualquer tipo de actidude violenta); divulgação de imagens de menores (proíbida pela lei); etc. Ao fim de alguns meses a página foi retirada, não se sabe quantas pessoas foram identificadas, mas a mensagem estava dada: “Temo-vos debaixo d’olho!”

    Estes dois exemplos serão certamente copiados num futuro não muito distante pela polícia portuguesa, no fundo todo o “bom” cidadão leva um polícia dentro e a legalidade molda-se segundo as necessidades do Estado para manter o rebanho no trilho que mais lhe convém

  • A extorsão legalizada

    A extorsão legalizada

    Dirigi-me, não inocentemente, a um bar de um amigo na margem sul do Tejo e acabei por ter uma muito boa conversa sobre tudo isso que tanto se fala em todos os estabelecimentos comerciais desse Portugal fora: turismo, facturas, ASAE, impostos e cobranças. Para Arménio Rocha, nome fictício, estas questões estavam todas à flor da pele. Contou-me, então, que o sector da hotelaria, em Portugal, atravessa uma reformulação. Em geral, interessava-lhe descrever o contexto em que esta reformulação tem lugar. Segundo as suas palavras, trata-se de «tornar Portugal num grande Resort turístico para ricos e dominado pelas grandes empresas”. A razão desta reformulação, através da entrada em vigor de novas leis, novas taxas e novos procedimentos, prende-se com a crescente importância deste sector, já que no futuro ocupará uma grande parte da economia nacional. O empresário acrescenta ainda que «há uma necessidade de reformular todas estas actividades que decorrem ou têm uma relação directa com o turismo no sentido de favorecer o Estado e alguns intermediários sanguessugas». O objectivo, para já, é definir as bases em que nos próximos anos se desenvolverão as actividades hoteleiras em Portugal. Aponta então alguns exemplos: «Por um lado surgem modernas escolas de hotelaria em vários locais e, por outro, nascem empresas de implementação de HACCP (sigla, em inglês, para Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle) tipo cogumelos. Este código de conduta e boas praticas de higiene e segurança alimentar, aparentemente inocente, é um sistema desenvolvido pela NASA para a segurança dos astronautas no espaço, ou seja, para baixar o risco de contaminação até zero para uma pessoa que se encontra a milhares de quilómetros da Terra. O que a ASAE faz é aparecer nos cafés e restaurantes a pensar que está numa nave espacial para controlar este sistema. Isto cria um círculo vicioso entre a criação de empresas especializadas na implementação deste sistema e a fiscalização efectuada pela ASAE. Por um lado, vá de pagar às empresas privadas para instalar o sistema que do outro lado nos vão dizer que está mal instalado para assim cobrarem multas». Os desígnios de tornar Portugal num paraíso turístico traduzem-se numa estandardização da actividade hoteleira, ou seja, numa pré-definição do que se deve vender a um turista que venha a Portugal. Para além disso, essa uniformização de procedimentos alimenta a actividade de entidades paralelas do Estado que geram riqueza a partir da formação, taxação e da cobrança de multas e impostos. Neste contexto, Arménio diz que «Não existe nenhum problema em servir às mesas, tirar imperiais, lavar pratos e fazer camas. O problema surge quando essas são as únicas actividades que nos restam para fazer e, para além disso, sujeitam-se à existência de regras predeterminadas, à subserviência e à hierarquia rígida. Estes princípios são aqueles que são ensinados dentro do mundo da hotelaria e, especialmente, nas escolas de hotelaria… e é um problema também que, hoje em dia, a única coisa importante é formar mão-de-obra barata para alimentar toda esta indústria».

    O Estado tem um grande interesse na hotelaria por ser este um sector que tem mais potencial para gerar grandes receitas. «É tipo máfia, essencialmente as Câmaras Municipais, as representações locais do Estado a nível fiscal, a própria polícia e até entidades privadas como a SPA (Sociedade Portuguesa de Autores) e a passmusica (empresa cobradora dos direitos conexos), juntam-se com o objectivo de obter a maior parte possível dos lucros da actividade hoteleira, movimentando-se, muitas das vezes, em zonas cinzentas da lei. Mas no entanto somos sempre nós que somos considerados culpados até ser provada a inocência”.

    Para muitos pequenos negócios, não existe nenhuma benesse passando a existir apenas deveres. Assim, põe-se em risco a sobrevivência da grande maioria destes pequenos negócios, em detrimento das grandes empresas, que passam a poder ocupar todo o espaço.

    Uma das transformações verificadas na hotelaria recentemente, tem que ver com o método de facturação e as medidas de controlo a que esta está sujeita. Arménio clarifica-nos mais uma vez: «Com a necessidade que este governo (e todos os outros que lhe seguirem) tem de suprimir os buracos dos milhões de euros que se verificam nas contas públicas, resolveram recorrer ao ramo da hotelaria, por ser um ramo que, tal como em muitos outros, se regista fuga ao fisco». A questão está nas verdadeiras intenções destas medidas. «O valor dessa fuga não se aproxima minimamente do valor dos buracos, e ao aplicarem um controlo tão cerrado, em termos de leis e taxação sobre este sector, querem, na verdade, poder taxar o dinheiro que é realmente declarado, ou seja, os lucros dos pequenos empresários para poder tapar o buraco dos milhões de euros que os bancos e os políticos nos roubaram”.
    O objectivo geral é assegurar, desde já, um controlo total sobre o volume de negócios esperado no futuro, quando se estabelecer de forma hegemónica a indústria do turismo sobre as outras actividades económicas, para então os bancos, o Estado e as entidades paralelas de cobrança conseguirem facturar quantidades muito maiores do que aquelas que actualmente facturam
    Arménio troca-nos por miúdos este novo sistema de facturação: «Nesta primeira fase do novo sistema, por cada produto vendido num estabelecimento é necessário a recolha de um número de contribuinte e do nome do cliente que será posteriormente introduzido num ficheiro electrónico. Esse ficheiro tem de ser criado por um software certificado pelo Ministério das Finanças e é registado nas bases de dados das finanças. A partir dessa base de dados, vê-se o tipo de produtos que as pessoas consomem, quem consome, a que horas consome, quanto pagou, como pagou, quanto recebeu de troco e que gorjeta deixou». Acrescenta ainda que «isto é uma tentativa brutal de controlo social sobre as pessoas».

    Mas não é tudo ainda. O plano total consiste em ligar cada máquina registadora nos estabelecimentos, através da Internet, ao computador do Ministério das Finanças, para assim cada venda ser registada automaticamente, ou seja, em tempo real. «…É uma espécie de i-Salazar, um Estado Novo high-tech».

    «A partir de agora eu sou sempre responsável por pedir o número de contribuinte e dar a factura ao cliente, mas não sou responsável pelo cliente não me dar o número de contribuinte dele nem recusar a factura. Se ele recusa, eu ponho a factura no lixo, mas eu sou obrigado a este procedimento (…). É ridículo… mas pronto… na prática somos nós todos, que aqui vamos ficar no futuro, que teremos de decidir se aceitamos, ou não, este futuro de merda. Se isto se tiver de reflectir em que as pessoas, de facto, se recusem a dar o seu número de contribuinte ou que dêem o número de contribuinte dos ministros, então que seja, mas espero que a coisa vá muito mais longe que uma batalha por facturas».