Categoria: Destaque

  • Outras Economias. Novos Imaginários.

    Outras Economias. Novos Imaginários.

    II Fórum de Finanças Éticas e Solidárias em Faro e conversa sobre Mutualismos em Lisboa.

    forumA economia e a finança que nos são impostas no dia-a-dia vão deixando – não será exagero generalizar – um sentido ora amargo, ora exasperante. Um sentimento que conduz a uma falência que antes de ser económica é uma falência social. Uma falência que se encontra nas relações humanas e no modo destrutivo dessa mesma relação economicista com a natureza que nos rodeia.

    Estas poderão ser algumas das razões que motivem participar no II Fórum de Finanças Éticas e Solidárias, na Universidade de Faro entre 19 e 21 de Fevereiro próximo, depois de em Janeiro de 2015 um primeiro encontro ter juntado no Porto mais de 350 pessoas. Por sua vez no dia 20 em Lisboa a cantina cooperativa do Regueirão dos Anjos convida a uma discussão aberta sobre Mutualismos.

    FESEm Faro, o grupo de organizações por detrás do evento é alicerçado não em imperativos revolucionários – entendidos que fossem como anti-capitalistas sem medo do chavão – mas num universo das organizações de desenvolvimento local e de pessoas “para quem a Finança Ética e Solidária é um imperativo para uma nova relação com a economia, com o desenvolvimento sustentável, com as organizações e com os seus agentes, bem como com os territórios onde se inserem e desenvolvem a sua atividade”. O momento dita-lhes a necessidade de “um outro olhar e uma nova consciência sobre a democracia, a transparência, a responsabilização social, e o empoderamento dos cidadãos e cidadãs, das instituições e das comunidades”. Nesse sentido os projectos que irão ser apresentados afirmam apontar à “descentralização e democratização do poder económico, bem como para o empoderamento das economias locais”, propondo uns ao sistema financeiro actual meras alterações “no sentido de maior proteção das pessoas”, outros fortalecendo a via cooperativa da Economia Social e solidária dos territórios. Outros quiçá indo mais longe “conscientes de que o consumo é muitas vezes legitimador das relações económicas e comerciais desiguais e do sistema financeiro vigente, procuram construir relações comerciais mais justas e solidárias, dando um outro sentido ao investimento produtivo e ao consumo”.

    As sessões sobre “Banca Social: a História” ou “Banca Social: a Inovação” contarão com os protagonistas do “Charity Bank”, o único banco sem fins lucrativos do Reino Unido; da E-Banka, banco online alternativo croata; da espanhola Red Estatal de Economia Alternativa y Solidaria e da Banca Ética FIARE, e ainda da realizadora do documentário “Palmas”, que virá contar na primeira pessoa a história do Banco Comunitário Palmas Brasil), entre outros. Destacaríamos a tarde de Sábado e o painel “Novos Imaginários Económicos: as Moedas Sociais”, onde a partir dos mercados de trocas para crianças ou da experiência da portuense Ecosol, falar-se-á da relação entre mercados de trocas, moedas sociais e desenvolvimento territorial. O programa completo e inscrições podem ser vistos em financaseticas.pt.

    rdaEm Lisboa, na concorrida Cantina Cooperativa do espaço RDA 69 a discussão aberta sobre Mutualismos, conduzida por Diogo Duarte e António Manuel Neves Policarpo, partirá da “primeira e crua definição” do mutualismo enquanto “a organização de pessoas em torno do ideal da ajuda mútua, com o fim de resolver conjuntamente possíveis imprevistos e infortúnios individuais e familiares, através de meios financeiros
    e assistenciais que de forma individual não seriam alcançados”. A partir do conceito e da prática histórica em Portugal das Associações de Socorros Mútuos, e do exemplo concreto dos fundos mutualistas do Arsenal do Alfeite, é lançado o mote de “pensar no mutualismo e em possíveis forma de o concretizar no futuro”.

    Em 2014 o artigo no Jornal MAPA “Desparasitar a economia: as moedas alternativas” chamava já a atenção das várias experiências de utilização  de moedas alternativas e outras formas de organizar localmente o funcionamento da economia, de acordo com os interesses das comunidades. Anotava o autor Júlio Silvestre como “a adopção de formas alternativas de economia tem sido também desenvolvida pelo “movimento” pelo Decrescimento”, um movimento heterogéneo que “integra diferentes estratégias e prioridades na procura de alternativas à sociedade industrial. As soluções que propõe passam pela agroecologia, pelo fortalecimento das economias locais e pela gestão colectiva de recursos, de modo a reduzir a escala de produção e consumo, gerando um entorno ecológico sustentável”.

    Nesse sentido é útil entender, como referia o artigo, a necessidade de “ir além da crítica ao sistema monetário e analisar os agentes e factores que se manifestam noutras áreas, como a privatização de recursos naturais ou o papel do Estado no favorecimento de economias de escala”. Assim como a importância – que os eventos de Faro e Lisboa subentendem – de que “gerir a economia a partir de associações voluntárias de carácter local e comunitário, a par da descentralização e variedade de modelos económicos que primam a autonomia, é certamente um desafio. Será também uma inversão de pensamento, face à expansão totalitária do capitalismo corporativo e financeiro ou a outras alternativas de planeamento centralizado delegadas nas funções do Estado. Reapropriar a economia e os seus instrumentos a partir das bases, favorecendo a escala humana e a reciprocidade, conflui com outras formas de resistência aos poderes estabelecidos”.

  • Mapa #12 nas ruas!

    Mapa #12 nas ruas!

    capa2Aí está nas ruas mais um número do Jornal Mapa.

    Desta vez, com um caderno que lança o olhar sobre a história de alguns lugares e a sua relação com o turismo (o ingrediente dominante do modelo de desenvolvimento económico e social), uma indústria que instrumentaliza o território, compartimentando-o em ofertas consumíveis.

    Também um dicionário especial para tempos especiais, a partir do chamado estado de emergência francês, declarado no seguimento dos atentados de Paris, um regime de excepção que concede livre trânsito para todo o tipo de medidas de vigilância e controlo sob o pretexto da luta contra o terrorismo.

    E um grande e apetitoso “muito mais” que passa, sem se deter, pelo Porto, Bruxelas, Estado espanhol, Algarve, Curdistão, etc.

  • Errekaleor eta Libertad: Um bairro sem fronteiras!

    Errekaleor eta Libertad: Um bairro sem fronteiras!

    Um bairro social como muitos outros espalhados pela Europa e pelo mundo. Um bairro como outro qualquer nas periferias das grandes cidades, construído para albergar imigrantes pobres e mantê-los marginalizados e afastados da população local…

    Uma diferença deste bairro para os outros bairros sociais europeus é a sua cultura de união e visão única de território do povo Basco, tanto quanto a acção dos universitários, que lutam pela sua independência física, cultural e ideológica. Onde a luta dos okupas do bairro não está separada da luta da resistência popular basca nem difere da luta das outras regiões autónomas em território “Espanhol” e no mundo.

    Olham para a sua luta local como mais um elo de resistência no panorama mundial. Quando abrem um bloco de apartamentos, lembram-se da Palestina e, quando falam da história do bairro, sentem as balas de metralhadora que mataram jovens no dia 3 de Março de 1976, na luta contra o fascismo.

    Garrote_VilQuando falam de casa para todos, falam também de outras raças, de outros povos. Falam também de um lugar para todos; sem sexismo, homofobia, hierarquias rígidas ou “infanticídio cultural”. Quando falam em decidir, agir e criar estão a falar de um grupo criado de baixo para cima, e não criado de cima e trabalhado pelos de baixo, dependendo uns dos outros. O seu lema é “DIY” (Do It Yourself), a sua “tropa” é o povo e os seus companheiros são todos os que lutam pela liberdade.

    Quando entramos no bairro, destaca-se uma pintura de intervenção que é o mural em memória do anarquista Salvador Puig Antich, detido em 1973 por pertencer ao Movimiento Ibérico de Liberatión, um grupo armado que assaltava bancos para financiar a luta de classes. Foi detido em 1973 e condenado à morte pelo homicídio de um polícia durante um tiroteio, tendo sido o último “espanhol” a ser executado pelo Garrote Vil (1) em Março de 1974. Na parede de um dos blocos vê-se também um mural de homenagem a Hassana Aalia, um jovem de 26 anos condenado a cadeia perpétua pelo governo de Marrocos, na sua luta pela independência do povo do Saara Ocidental. Outra placa a não esquecer, e não menos reconhecida pelos moradores, é a colocada à entrada do café do bairro, de tributo a Romualdo Barroso Chaparro, que foi abatido a tiro pela polícia no Bairro Zaramaga aquando da Greve Geral de 3 de Março de 1976.

    A história do bairro começa então quando este foi construído juntamente com outros três na mesma cidade, para receber os trabalhadores de construção civil que vinham da Andaluzia, da Extremadura e da Galiza. O regime fascista baptizou este projecto com o nome de Cooperativa “Mundo Mejor”, sendo que uma das principais forças impulsionadoras destes projectos, aliadas ao regime vigente, era a Igreja, muito pela ideologia do padre Carlos Abaitua, conhecido por ser o impulsionador das habitações sociais em Espanha. A igreja, enquanto “Secretariado Social Diocesano”, necessitava pois do apoio do regime Franquista para poder levar para a frente a sua iniciativa de comunidades cristãs. E assim se criaram bairros como o de Errekaleor (Rio Seco), na cidade de Vitória-Gazteiz. Errekaleor foi o nome dado ao Bairro depois da criação das comunidades autónomas em Espanha, sendo que Euska Autonomia Erkidegoa (País Basco) recebeu o estatuto em 1979.

    O bairro foi sempre dos trabalhadores e dos resistentes ao fascismo e foram os moradores que, fora das lutas nas fábricas, iniciaram campanhas e acções para assim melhorar as condições das infraestruturas do bairro, que tem 16 blocos e que abrigava 192 famílias e uma igreja que estava ao abandono por parte do Ayuntamento (2), sendo mantida pelos moradores. Os moradores criam então uma associação de proprietários e iniciaram a construção de espaços que achavam necessários ao bem-estar da comunidade (sala de cinema, Bar, balneários, padaria, etc…). De seguida iniciaram uma pressão “política” local, que levou à construção do centro social e do Ginásio (Fronton) pelas mãos dos próprios moradores com material cedido pelo Ayuntamento.

    imagesEstivemos no bairro e quando falámos com as pessoas, cedo percebemos as raízes da sua força e determinação, sendo que algumas dessas raízes são símbolo da luta social basca. No dia da Greve Geral de 1976 foram mortos também Francisco Aznar Clemente de 17 anos, abatido perto da igreja com um tiro na cabeça e Pedro Maria Martinez Ocio de 37 anos, abatido com 3 tiros no peito. Dias mais tarde morrem José Luis Castilho Garcia de 32 anos e Bienvenido Pereda, este último devido aos ferimentos infligidos pela polícia na carga policial na igreja de S. Francisco do bairro de Zaramaga, onde se realizava uma assembleia popular inserida na greve geral de 3 de Março. Estavam mais de 8 mil pessoas, com a polícia a assistir, quando de repente vem uma ordem para evacuar o edifício religioso e começaram a voar, lançadas pela polícia, bombas de gás lacrimogéneo para dentro da igreja. Quando as pessoas, em pânico, começavam a correr para fora da igreja eram atacadas com bastões e baleadas a metralhadora quando tentavam fugir do inferno causado pelas “forças de segurança”. Neste dia mais de cem pessoas foram feridas, sendo muitos dos ferimentos devidos a tiro de balas, mas nunca ninguém foi julgado.

    Passados uns dias numa manifestação em Tarragona contra a repressão e contra os assassinatos do jovem Ramualdo Chaparro e seus companheiros, morre Juan G. Rodrigo Knajo, quando cai do telhado ao tentar fugir da polícia e, cinco dias depois, a polícia mata Vicente Anton Ferrero de 18 anos, numa manifestação em Basauri. Já durante outro protesto em frente à embaixada espanhola de Roma, a polícia italiana dispara e mata o manifestante Mario Marotta e é esta repressão que vai dar força aos jovens que querem fazer reviver o bairro e a resistência ao regime político na procura de uma sociedade alternativa. Sobre estes assassinatos, a versão oficial do governo espanhol foi, pela voz do director geral de segurança Victor Castro San Marin, a seguinte: “O que passou em Vitória foi nada mais nada menos que uma tentativa de ocupação de uma cidade por uma massa que desde manhã cortou ruas, derrubou barreiras e atacou as forças de segurança da cidade. Em certo momento, quando as forças de segurança se viram encurraladas, tiveram de abrir fogo, precisamente em legítima defesa”.

    A dita “legítima defesa” era então a resposta do regime contra a procura de liberdade, do direito à greve, manifestação, reunião e auto-sustentabilidade de um povo, contra a guerra aberta na luta contra o fascismo herdado de Franco. Em Vitória, como em todo o país Basco, crescia, poucos meses depois da morte de Franco, o movimento popular, seguindo as pisadas das assembleias populares que se espalhavam por Espanha, e da guerra civil espanhola dos anos 30. A polícia agiu em “legítima defesa” do patronato, igreja e Estado contra as assembleias populares porque era aqui que se encontravam as Comissões Representativas dos trabalhadores em luta da cidade e arredores.

    O Bairro Errekaleor para a classe política é um Ensanche, nome dado a áreas para o desenvolvimento nas periferias das cidades, aquando da explosão demográfica e da revolução industrial do final do séc. XIX. Nos anos 80 alguns habitantes começaram a abandonar o bairro devido às más condições das casas e da distância até à cidade (ainda hoje são 20 minutos de bicicleta desde o centro da cidade), isto muito devido ao processo estatal para esvaziar o bairro. Foi uma empresa com esse nome, Ensanche 21, formada em 2000 como sociedade urbanística municipal que, sob a forma de sociedade anónima, criada para actuar no planeamento e ordenação das áreas de expansão a Este e Oeste da cidade, que iniciou em 2007 um projecto de habitações de luxo para o local do bairro e que em 2010 apresentou o Plan Especial de Ordenación Urban de Errekaleor para “recuperar o carácter urbano na periferia da cidade, dignificando a qualidade de vida em Errekaleor”. como declarou o alcaide Patxi Lazcoz.

    O Plano era demolir o que estava construído e construir de raiz um bairro de luxo com parte comercial e 375 habitações, sendo 150 em resorts fechados e 225 como “vivendas libres”. Grande parte dos proprietários das habitações em Errekaleor aceitou trocar os seus andares por outros novos ou receber dinheiro acima do valor real das suas casas. A sociedade Ensanche 21 esperou por respostas concretas dos restantes proprietários até Maio de 2010, pretendendo a empresa chegar a “un acuerdo amistoso” de realojamento para todas as famílias. Ainda em 2010 o Ayuntamento inicia os processos de expropriação forçada de cerca de 30 famílias que ainda habitavam no bairro e que resistiam formando parte de uma plataforma que queria continuar a viver lá. Em 2012 havia ainda 20 proprietários no bairro e em 2015 há 4 famílias residentes “legais”, 3 que aceitaram a oferta e têm poucos meses para sair das casas, e uma família resistente “Gitana”, que não quer vender, nem sair, e vai, talvez, ser a última família legal no bairro… As famílias que saem são realojadas por 20 anos em bairros novos, em casas com elevador, garagem, etc… outras ainda esperam a construção de novos andares, tendo recebido dinheiro. Nesse mesmo ano o grupo EAJ-PNV (3) apresenta um projecto de nome Errehaldea, um parque de horticultura ecológica e convencional com 210.000 m² nos terrenos onde se encontra o bairro. A pressão sobre os moradores que ainda residiam no bairro levou-os a tomar lutas mais radicais. As famílias que não queriam vender e ceder à pressão imobiliária começaram a cortar estradas e a fazer manifestações. O Ayuntamento deixou de recolher o lixo e nos meios de informação local o bairro começa a ser descrito como um lugar marginal e perigoso.

    Em 2013 começa a nova fase do Bairro e da luta de Okupação, quando numa assembleia de universitários que tinha decidido okupar como forma de ter casa enquanto estudavam, uma acção inserida no combate à crise e na luta pelo direito à habitação, é decidido falar com as pessoas de Errekaleor. O Bairro foi escolhido como local ideal pela localização e pela sua história com a qual muitos se identificam. As directrizes são autogestão; socialismo de base; criação de espaços para a grupos de intervenção social (anti racismo, anti capitalismo, anti sexismo, grupos de libertação animal, grupos de pais, grupos culturais, etc…)

    O primeiro bloco a ser ocupado foi o nº 26. A decisão foi tomada depois de reuniões com todos os moradores, proprietários e okupas, que viam a tomada de posse do bairro como uma união contra a política de Espanha e do Partido Popular. As primeiras casas a serem ocupadas foram abertas com as chaves dos antigos proprietários, que as passaram ao grupo Okupa. A primeira acção depois da ocupação do bloco foi iniciar uma queixa contra o grupo que geria o bloco 26 por abandono e negligência: o processo foi decidido a favor dos Okupas. Mas o recente alcaide (4) recorreu da sentença e a partir daí começa-se a recuperar mais blocos e a abrir casas para as pessoas que vão chegando com a mesma linha de pensamento de ocupação “política” de intervenção. A assembleia de moradores em 2014 tinha apresentado no Ayuntamento, o Projecto Errekaleor Vivo, onde o partido PNV absteve-se, o PP chumbou e o PSOE apoiou.

    Entretanto a Ensanche 21 abre falência, mas o concelho político que a formava continua a gerir o bairro. Depois de um incêndio no bloco 5, que está ocupado mas fora do projecto social e político de intervenção, é formada uma equipa por parte do estado para pressionar uma intervenção no bairro por falta de segurança para os moradores. Um dia o Ayuntamento leva uma inspecção ao bairro e os moradores mostram os andares e as instalações provando que está tudo bem ao nível de segurança nos espaços habitados e utilizados por eles. A polícia local começa, então, a espalhar pelos órgãos de informação que não vai ao bairro por medo e insegurança…

    Em todos estes anos de expropriação, o Ayuntamento já gastou 22 milhões dos dinheiros públicos e há 11 anos que não intervêm no bairro (a não ser para despejos, cortes de luz, etc.), sendo os moradores que o mantêm habitável, com 192 casas, divididas por 16 blocos, 33 portas com 6 andares em cada bloco.

    Em 2015 como forma de forçar o desalojamento dos restantes proprietários e dos Okupas, o Ayuntamiento, com a desculpa de “numerosas e muito graves irregularidades que ameaçam a segurança das pessoas que moram nas casas”, entra no bairro com a empresa Iberdrola para cortar a luz dos blocos ilegais. Os jovens tentaram falar com os empregados da empresa e tentaram travar os cortes e a resposta da polícia basca foi violenta. A mediatização da acção policial contra os jovens levantou pois uma onda de apoio na cidade ao movimento popular de reabilitação do bairro. “O que se passou nesse dia no bairro foi mediaticamente bom para nós” disse “Zé”, morador do bairro.

    errekaleor_(18)Na visita ao bairro falámos com “Zé”, há 8 meses morador do bairro, com a parte política de intervenção bem marcada no seu modo de se exprimir. Falou-nos no centro social ocupado onde agora funciona a biblioteca, a cozinha comunitária (porque muitos blocos ainda não têm luz depois dos cortes), armazém, local para trabalhos manuais de antigos proprietários e novos inquilinos e de encontro de 4 grupos de pais e mães. Falou-nos na igreja que foi construída para missas católicas romanas e mais tarde, depois da saída da maioria dos proprietários, a comunidade cigana fez dela a sua igreja. Hoje é a sede do centro social ocupado (Gaztetxea) espaço para o grupo feminista e de teatro, onde o antigo altar é uma mesa de ping-pong. Num anexo da igreja está projectada uma sala de ensaios para bandas locais e a cruz, prévia e altivamente colocada na entrada, está a servir de espantalho na horta comunitária… “Zé” mostrou-nos orgulhoso o Fronton local para jogar a “pelota basca”, que como salientou: “é o segundo maior da província de Alava e foi construído pelos habitantes”. O bairro tem dois parques para crianças, completamente preservados pelos residentes, que também montaram uma piscina portátil para as crianças no campo de futebol. Passeámos pela horta que tem 1 hectare, mas que conta já com planos de okupação de uma maior área selvagem livre e demos uma vista de olhos rápida ao galinheiro comunitário.

    Depois o “Zé”” salientou que vivem cerca de 100 pessoas no bairro, “mas só cerca de 80 estão dentro do protocolo assumido pela assembleia popular do bairro. Depois vivem mais 10 okupas fora do projecto de intervenção social e alguns proprietários”. Nesse grupo de pessoas estão bascos, extremenhos, galegos, ciganos, romenos, argentinos, junkies, ex-presidiários, universitários, etc… com idades compreendidas entre os 22 e os 70 anos. Disse também que “cada bloco é diferente, como também a gestão” e quando necessário organiza-se uma assembleia geral do bairro para “resolver assuntos individuais entre vizinhos, famílias, blocos, e/ou problemas que possam afectar a estabilidade no bairro.” explicou. Falou-nos na parte organizativa que está ser trabalhada desde há 1 ano no bairro. Organizaram-se vários grupos de trabalho como o Grupo de Comunicação (que trata da comunicação com o exterior do bairro, mantêm a página web, acompanha o que se diz sobre o bairro nos jornais, escreve para grupos, revistas, dá entrevistas, etc.), o Grupo de Cultura (que organiza sessões de filmes, teatro, troca de saberes, apoio ao conhecimento tradicional popular basco, concertos, acções de rua, apoio nas manifs, apoio às crianças, etc.), o Grupo de Relações (para mediação de conflitos, tentar equilibrar a multiculturalidade que existe no bairro, as diferentes visões politicas e anti politicas, problemas entre vizinhos e mediar contactos com grupos exteriores ao bairro), o Grupo da Horticultura (para manter a horta, preparar terrenos para serem ocupados para a horta, atrair as pessoas para a importância do auto cultivo e da agricultura biológica, workshop´s e sessões de informação) e por último, talvez o mais difícil de equilibrar, o Grupo de Autodefesa (para preparar as pessoas para se defenderem das perseguições e intervenções policiais no bairro, apoiar as famílias imigrantes contra a perseguição do Estado ou de grupos racistas/nacionalistas anti imigração, ajuda ao grupo feminista para combater a violência sexista, evitar confrontos e roubos entre habitantes do bairro e defender casas habitadas ou devolutas de invasão por elementos não desejados).

    Como nos confessou “Zé”, “houve uma fase de muita tensão, de quase agressão mútua entre grupos de moradores quando foi necessário confrontar uma família que andava a roubar os fios de cobre da instalação eléctrica e dos tubos de gás, janelas em alumínio etc… foi um momento muito difícil para nós como indivíduos e para a linha política do projecto de ocupação organizada do bairro. Punhos cerrados, ameaças directas, foi um momento…”. Os elementos que andavam a roubar acabaram por sair do bairro para evitar confrontos que podiam oferecer à polícia uma desculpa para intervir no bairro e as coisas acalmaram.

    Não vai ser fácil, mas é o trabalho que temos pela frente, descentralizar as decisões do bloco 26 e que a assembleia geral seja só de moderação” disse, com uma ideia politica baseada nos princípios marxistas…

    Depois existe a intenção de reforçar ideias e movimentos que complementam os grupos acima referidos: como o grupo de mulheres RKmeak (contra a visão patriarcal do mundo), o grupo ideológico com bases marxistas Errekagorri, o grupo de alternativa ao capitalismo La Comunal, o grupo para a música Musigerrila e 4 associações de pais alternativas. Fazem do bairro um local onde grupos alternativos, sem espaços na cidade para se exprimir, possam vir e utilizar as instalações e os espaços para apoiar e criar com as diferentes culturas e energias de Errekaleor. Um exemplo disso foi o início dos acampamentos de verão em Errekaleor Bizirik pelo Grupo de Tiempo Libre de Arratia, com crianças de várias idades ou o encontro dos trabalhadores da Michelin, concertos ou teatros em 2015.

    Quando perguntámos ao “Zé” o que pensam fazer se a polícia voltar para despejar o bairro, a sua resposta mostra a força dos jovens que acreditam no projecto político-social para Errekaleor. “Devido à situação política e social em Vitória e em Euskera (País Basco) um ataque da polícia ao bairro levantaria um bloco de acções de diferentes ideologias, que chegariam às ruas de Vitória e a outras áreas do País Basco, e mesmo, talvez, a outras zonas autónomas de Espanha”.

    O dia no bairro é passado a abrir blocos e apartamentos, restaurar, reciclar, recolher o lixo, tratar da horta, receber visitas, organizar concertos, tentar manter uma sessão de cinema semanal, passar documentários, ensaiar, apresentar peças de teatro, aulas de explicações e história e viver aquilo a que muitos chamam de Utopia…

    Todas as entradas para ocupar passam pela assembleia geral do bairro…

    Falámos também com “Manuel”, outro jovem com cerca de 30 anos que vive no bairro há 13 meses. Ele já vivia em casas ocupadas na cidade de Vitória. Perguntámos como se juntou ao grupo de ocupação de Errekaleor; “Éramos um grupo de estudantes fartos de só colar cartazes, ir a concertos, fazer pintadas (graffitis) e decidimos começar a okupar”, respondeu. Morava numa Okupa (Los Arquillos) no centro da cidade quando o convidaram para fazer parte do projecto de requalificação de Errekaleor.

    Manuel” levou-nos numa visita guiada aos espaços e às casas… havia movimentação por todo o lado, rebarbadoras abriam brechas nas portas empedradas e em algumas janelas ouviam-se os martelos… lixo era acumulado na entrada dos blocos e novas casas apareciam de um dia para o outro prontas a serem reabilitadas para receber residentes. Janelas eram retiradas dos blocos mais degradados e colocadas nas novas casas okupadas, armários eram levados para completar uma cozinha, uma sala ou um quarto, ou criar um espaço comum para os moradores do bloco. Falou-nos dos blocos que “têm cozinha, casa de banho e sala de convívio em conjunto”. Perguntámos porque veio para o bairro e respondeu-nos que acreditava na acção directa e na intervenção social como forma de criar “uma comunidade alternativa”.

    Assim, um grupo de jovens sonha e continua a resistência à submissão, à entrega das suas vidas a representantes e continua a luta do povo basco com milhares de anos. Continuam a manter viva a chama da cultura basca, não vendo os jovens do bairro mortos na luta de classes como mártires, mas sim como companheiros. Acreditam num socialismo libertário, na luta de classes, na força popular, na vida em comunidade (comunal). Acreditam no que estão a fazer, acreditam neles, em ti e em mim… Acreditam na organização popular e na necessidade de combater a repressão, o capitalismo e a democracia representativa… São jovens do bairro!!!

    1. O adjetivo “vil” vem do sistema de leis estaduais por uma questão simbólica: a decapitação estava reservada aos nobres e às pessoas mais ricas, enquanto o garrote era uma forma mais vulgar de execução, aplicada a todos os criminosos “do campo”. Alguns anos depois de sua criação, o garrote foi alterado pela colocação de um colar de ferro que tinha um pequeno buraco, por onde entrava um parafuso que quebrava o pescoço da vítima.
    2. Semelhante a Câmara Municipal
    3. Partido Nacionalista Basco (Direita)
    4. Presidente da câmara
  • Estivadores levam a luta ao Porto de Sines

    Estivadores levam a luta ao Porto de Sines

    Sines-MSC-Busan-e1450710836990Sines é o porto com maior crescimento previsto no mercado de contentores no futuro e onde são impostas as mais deficientes e gravosas condições laborais dos portos europeus. Inaugurado em 2004, em regime de concessão de serviço público por 30 anos à PSA – multinacional estatal da Autoridade Portuária de Singapura, desde o início estes impuseram a sua “paz social”.

    Sempre que os estivadores quiseram romper com essa amorfa situação numa aproximação ao Sindicato de Estivadores do Centro e Sul – conhecido pela sua combatividade no quadro sindical amorfo português – foram de imediato perseguidos, por contrariarem o freio sindical vigente em Sines.

    A Conferência subordinada ao tema “O Mundo do Trabalho Portuário” que se realiza dia 14 de Janeiro de 2016 no auditório do Centro de Artes de Sines é para o Sindicato dos Estivadores do Centro e Sul de Portugal o sítio ideal para a denúncia da realidade laboral nos portos. O encontro. a ter lugar a partir das 09:30 no auditório do Centro de Artes de Sines, é organizado pelo Sindicato e o IDC, em parceria com Grupo de História Global do Trabalho do IHC- FCSH/UNL e o Observatório para as Condições de Vida.

    Este sindicato lembra que “além das questões associadas à falta de segurança no trabalho, que já resultaram na morte de dois estivadores, em 2013 e 2015, a liberdade de associação é sistematicamente colocada em causa, a que se somam frequentes casos de assédio e ameaças de trabalhadores por parte dos supervisores seniores e um quadro geral de salários de miséria que, para um trabalho especializado e de elevado desgaste físico e risco de vida, ronda o salário mínimo nacional, muito longe da realidade praticada na generalidade dos portos portugueses e europeus”.

    Depois de em Lisboa os estivadores terem. na sequência da última greve. reatado as negociações para fixarem um novo Contrato Colectivo de Trabalho (CCT), haverá toda uma frente de lutas mais a Sul. Prevê-se que o Terminal XXI seja o porto com maior crescimento no futuro, razão pela qual este faz parte do Plano Estratégico de Transportes e Infraestruturas, junto com o corredor ferroviário Sines/Setúbal/Lisboa – Caia (Espanha), com conclusão anunciada para 2019. Sines é pois a grande aposta portuária dos próximos anos, uma aposta para sucessivos governos e corporações que se pretende ser feita à base em trabalhadores precários e salários mínimos. No dia 14 de Janeiro em Sines os estivadores vão dizer certamente que não será bem assim…

     

     

  • Estado de emergência, estado de hipnose

    Estado de emergência, estado de hipnose

    Tradução para português do artigo de Bruno Le Dantec publicado na edição em papel de Dezembro de 2015 do CQFD, jornal francês de crítica e experimentação social. Mais artigos e informações em francês em cqfd-journal.org.

    Pode-se desertar duma guerra global? Uma guerra onde os adversários – o terrorismo e o antiterrorismo – se alimentam mutuamente, provocando deslumbramento e clivagens para melhor enrolar as populações nas suas bandeiras? É preciso, antes de mais, romper a hipnose.

    Na sexta-feira 13 à noite, as balas assobiaram nas nossas orelhas em tempo real através das redes sociais. As más notícias viajam depressa e parecem autogerir-se por SMS, Facebook, Twitter… Mas aí, contrariamente ao 7 de Janeiro passado, torci o nariz. Não, como afirma Houellebecq, porque “nos habituamos a tudo”, mas porque instintivamente sabia que, uma vez cá dentro, o horror não me iria largar. Ligar a televisão era como meter a cabeça no cepo. Antes ganhar algumas horas desertando nas ruas, nos bares, em doce companhia. E de cada vez que o assombro se aproximava do balcão – “Vocês ainda não sabem?” – nós esquivávamo-nos à armadilha até acabar num antro nocturno com uma bola de espelhos. Frivolidade? Egoísmo? Cobardia?

    Estávamos demasiado longe de Paris para socorrer quem quer que seja. Os e as que bebiam na pista, com pequenos pontos luminosos a rodopiarem frenéticos nos seus corpos como se fossem alvos, sabiam sem querer saber. Sob o “tch-pum” dos velhos êxitos disco, os noctívagos estavam, naquela noite, excepcionalmente calmos e atentos uns aos outros.

    tous ensembleO fascínio mórbido que capta o espectador não é forçosamente empático. Foi desta impotência que fugimos. Até dizer, um pouco presunçosamente, “vês, a esta hora, somos talvez os únicos no caralho deste país a circular em vez de estarmos ligados”… Ao acordar, li uma quadra de Omar Khayyam em voz alta, como um exorcismo: “Em que se tornaram todos os nossos amigos? Tê-los-á a morte derrubado e pisado? Em que se tornaram todos os nossos amigos? Ainda ouço as suas canções na taberna… Morreram ou livraram-se de viver?” Depois, após quinze horas de resistência, liguei a televisão. Queda instantânea no terror e no seu espectáculo. Potlatch [cerimónia praticada entre tribos indígenas da América do Norte, como os Haida, os Tlingit, os Salish e os Kwakiutl – N.T.] absurdo de sangue e sucata. Petrificados, assistimos à contagem dos mortos, aos traços do drama nas calçadas transmitidos em loop, às declarações bélicas… Um pesadelo geopolítico e social fez-se convidado para as esplanadas dos cafés, para o Stade de France, para o Bataclan. A guerra é tão virtual quanto real, a opinião pública transforma-se num campo de batalha. O Daesh [nome pelo qual também é conhecido o Estado Islâmico – N.T.] sabe-o bem, quem cuida das audiências é bom aluno do grande Satan.

    Estupefacção perante a amplitude do massacre. Mal-estar também perante a candura dos e das que as câmaras escolhem: “Porquê tanto ódio?” No Canal+, uma estudante em lágrimas acredita encontrar a resposta: “Eles odeiam a beleza da juventude parisiense, a sua abertura, estamos tão bem, tão felizes. Tão livres e eles odeiam isso, são frustrados.” A sua ingenuidade é uma peça escolhida. Fora de tema, uma manif de apoio aos migrantes gritava palavras de ordem contra o estado de emergência – e uma semana mais tarde, em conformidade com os clichés policiais, alguns participantes serão convocados para a esquadra, suspeitos “de terem cometido ou tentado cometer a infracção de violação duma proibição de manifestação imposta no quadro do estado de emergência”… E pensar que o homem do Eliseu apela às pessoas que continuem a sair, a consumir e a visitar os museus por patriotismo! Porque a afluência turística tinha caído 40%. Então, business as usual, mas proibição de manifestação. O concerto da Madonna em Bercy é mantido, a partir de 89 euros por lugar. Sarkozy continuará a pavonear-se nas lojas do Parque dos príncipes do Qatar, patrocinadores do Daesh. Hollande partilha a dor e a inocência dos indivíduos mortos indiscriminadamente para declarar a guerra, qual Bush em 2001. E, da mesma forma que dispararíamos um canhão contra um ninho de vespas, os bombardeamentos “estratégicos” de Raqqa foram feitos em nome da nossa segurança, em nome da democracia, das nossa Luzes, dos nossos néons.

    De repente a guerra irrompeu em Paris. Violência indescritível. No entanto, a França guerreia desde há muito na Costa do Marfim, no Afeganistão, no Iraque, na Líbia, no Mali, na República Centro Africana, na Síria… Os 130 mortos dos atentados de sexta-feira 13 são também as vítimas colaterais destes conflitos longínquos. Apenas 2,6% das vítimas de terrorismo desde o ano 2000 são cidadãos ocidentais. Mas em Tripoli, em Ancara, em Beirute e até num hotel para turistas e trabalhadores estrangeiros em Bamako, os mortos não têm o mesmo peso mediático, a mesma capacidade de indignar a opinião. E este etnocentrismo ofuscante arrisca-se a sair caro. Em 2004, os espanhóis reagiram de forma diferente aos atentados de Madrid, que tinham causado 192 mortos nos comboios do subúrbio. “Depois do pior atentado da nossa história recente, a reacção do nosso povo foi inteligente, decente e exemplar”, orgulha-se Pablo Echenique, deputado europeu pelo Podemos. “Em primeiro lugar – inevitavelmente – o luto, o apoio às vítimas e às suas famílias e a condenação firme destes assassinatos selvagens e de quem os perpetrou. Ao mesmo tempo, muito poucas reacções xenófobas, muito pelo contrário: cerram-se fileiras incluindo a comunidade muçulmana. Em segundo lugar, identificação das causas verdadeiras destes acontecimentos e rejeição massiva de intervenções militares – rejeição essa que foi concebida como a única estratégia válida para acabar com o terrorismo jihadista”. Três dias depois da carnificina de Atocha, os eleitores puniram o presidente Asnar – que tentara, de forma bastante desajeitada, orientar as suspeições para a ETA – por ter, um ano antes, levado o país para a guerra de Bush no Iraque. Os socialistas, levados ao poder por essa vaga, tiveram de ordenar o regresso imediato das tropas espanholas.

    A França de hoje navega a grande distância dessa lucidez. Aqui, o Janus do terrorismo e do antiterrorismo transformou-se em método de governo. O país foi colocado sob o controlo dum capitalismo de guerra, com a sua fuga para a frente na estratégia do caos. Em quem quer que votem, os eleitores elegerão a guerra, sendo que o consenso da classe política é quase total: o estado de emergência foi votado por unanimidade menos seis, numa escalada securitária que ultrapassa a de Novembro de 2005 e mesmo a da guerra da Argélia. FN e Sarkozystas foram ultrapassados pela direita pelo binómio Hollande-Valls e a sua “resposta impiedosa à barbárie”. As acções da indústria do armamento subiram 4% nos dias a seguir aos atentados

    les flics dancentGUERRA DOMÉSTICA

    No domingo 15 de Novembro de manhã, o médico Pelloux, saído do Charlie [Hebdo], faz de Déroulède [poeta, autor dramático, romancista e nacionalista francês militante – 1846-1914 – cujo nacionalismo intransigente e revanchismo o transformaram num actor importante da direita nacionlista francesa. – N.T] no France Inter: “Sinto uma dor imensa e, ao mesmo tempo, um grande orgulho, pois as equipas de socorro, azuis como a polícia, brancos como os enfermeiros, vermelhos como os bombeiros, mobilizaram-se como nunca”. A Marselhesa [hino francês – N. T.] e o seu sangue impuro, as bandeiras tricolores, os valores da República agitados como um incensário: as imagens televisivas insistem naquilo que tem todo o ar de uma intensificação do embrutecimento patriótico desde Janeiro. Mas os trémulos do bom médico Pelloux arregimentam rapidamente os reflexos solidários de inúmeros parisienses que prestaram socorro às vítimas ou abrigaram sobreviventes sem necessariamente partilharem da bebedeira belicista dos que, de facto, expuseram o “seu” povo às represálias dos loucos de Alá semeando o caos no Iraque, na Líbia, na Síria. O inimigo é aquele que os nossos governantes abrigaram sob as asas do seu intervencionismo. O Daesh é o fruto podre do bombardeamento de Bagdad em 1991, depois 2003; de Guantánamo, de Abu Ghraib, das execuções sumárias e públicas de Saddam Hussein e Kadhafi. Sem esquecer que, em 2013, Hollande e Fabius estavam entre os mais fervorosos belicistas contra o regime de Bashar [al-Assad]: podemos imaginar que os primeiros aprendizes de jihadistas a partirem de França não se sentiam assim tanto em ruptura com o discurso oficial.

    Anne Hidalgo, presidente da Câmara de Paris, afirma que os terroristas atacaram a alma “frondosa” de Paris. Os “bárbaros” seriam, assim, ligados a um modo de vida. Mas o desprezo de classe aponta para além da boa consciência duma capital entregue ao turismo e aos especuladores, que, há décadas, expulsa os pobres para a sua periferia. Paris é a França atingida em pleno coração e fazemos o retrato das vítimas em homenagem à sua inocência, à sua humanidade. As tropas e os jornalistas foram destacados para o 9-3 [zona do nordeste de Paris – N.T.] como se fosse território Comanche. Os habitantes surpreendidos pelo assalto das forças da ordem ao esconderijo dos terroristas pareciam-se demasiado… com os terroristas. Não fazem eles parte deste famoso território onde nasce e cresce a ameaça? As setenta pessoas que vivem perto do rio, atingidas com violência pela rusga policial, foram albergadas num ginásio. Anónimas, esquecidas, até que a presidente da Câmara de Saint-Denis, ao fim de quatro dias, anuncia aos media: nenhum realojamento lhes tinha sido proposto e ninguém se preocupou com isso.

    Os atentados do 13 de Novembro viram deixar a sua marca de sangue e confusão no décimo aniversário da revolta dos subúrbios de 2005. O estado de emergência foi novamente decretado, desta vez por três meses no mínimo. Descobrimos com tristeza o caminho percorrido desde a Marcha da Igualdade (dita dos “Beurs [jovens de origem magrebina nascidos em França – N.T.]) de 1983. Em 2005, a dimensão social dos motins era ainda identificável, apesar da criminalização e do enfoque étnico dos discursos mediáticos. Hoje, o veneno identitário e religioso cobre tudo. Connosco ou contra nós, dizia Bush. Aqui, em 2015, é parecido. Talvez ainda pior, já que o Estado francês integrou o choque das civilizações na sua própria agenda doméstica: a República está em guerra contra os seus bairros populares. Em quinze dias, nestas zonas normalmente apelidadas de não-direito, foram levadas a cabo 1836 rusgas sem mandato com a desculpa da luta antiterrorista. Quantas terão sido feitas por meros assuntos de estupefacientes? Quantos erros sobre a pessoa e quantas situações humilhantes? Sabendo que “o jihadismo não vem do comunitarismo mas da deslocalização” (Raphaël Liogier, 24/11/15). “O Daesh alimenta-se num reservatório de jovens franceses radicalizados que, independentemente do que acontecer no Médio Oriente, já entraram em dissidência e procuram uma causa, uma marca, uma grande narrativa para aí colocar a assinatura sangrenta da sua revolta pessoal”, precisa Olivier Roy, especialista do Islão no Le Monde (24/11/15). “O esmagamento do Daesh não mudará nada nesta revolta. […] Não se trata da radicalização do islão, mas da islamização da radicalidade.” E este niilismo kamikaze tem um reflexo distorcido no niilismo ocidental, de Breivik a Lubitz, passando por Séguéla e Kerviel – o meu planeta por um Rolex, um Hummer 4×4 ou um Iphone.

    O estado de emergência, para o qual nos preparava a inútil presença de Vigipirate [referência ao Plan Vigipirate, um das ferramentas do Estado francês para a luta contra o terrorismo, cujos críticos acusam de ter como efeitos principais a intensificação da militarização do espaço urbano e a utilização do exército em funções policiais – N.T] nas ruas desde há trinta anos, pode tornar-se permanente. “A guerra será longa”, uma vez que é o disco duro do capitalismo supremo. A concentração bestial das riquezas obriga os Estados a anteciparem inevitáveis problemas sociais. Desviando-os para a guerra de civilizações e outros confrontos inter-religiosos, os governantes adiam desta forma a data duma sublevação geral contra a injustiça. A COP21, organizada sob este estado de excepção, é já o resultado de um Patriot Act à francesa. Os representantes das multinacionais mais predadoras e poluentes vão reunir-se à porta fechada prometendo-nos, de mão ao peito, que farão todos os possíveis para salvar o planeta. Sair do estado de hipnose bipolar no qual nos mantêm estes melhores inimigos do mundo permitiria desmascarar a ignomínia duma guerra que não é a nossa. Desliguei a televisão.

    Bruno Le Dantec

  • Do genocídio à resistência: as mulheres Yazidi ripostam

    Do genocídio à resistência: as mulheres Yazidi ripostam

    Tendo sofrido um genocídio traumático, as mulheres Yazidi no Monte Sinjar organizam a sua resistência autónoma, armada e política, de acordo com os princípios da filosofia do PKK.

    O velho ditado curdo que diz que “os nosso únicos amigos são as montanhas” tornou-se mais relevante do que nunca quando, a 3 de Agosto de 2014, o criminoso Estado Islâmico (EI) lançou o que é referido como o 73º massacre sobre os Yazidis, atacando a cidade de Sinjar (ou, em curdo, Shengal), massacrando milhares de pessoas e violando e raptando mulheres para as venderem como escravas sexuais.

    Cerca de 10,000 Yazidis fugiram para as montanhas de Shengal, numa marcha mortal em que muitos, especialmente crianças, morreram de forme, sede e exaustão. Este ano, no mesmo dia, os Yazidis marcharam de novo para as montanhas de Shengal. Mas, desta vez, em protesto para garantirem que nunca nada será como dantes.

    No ano passado, os peshmerga curdos iraquianos do Partido Democrático do Curdistão (PDK) prometeram manter Shengal em segurança, mas fugiram sem avisar quando o EI atacou, sem sequer deixarem armas para as pessoas se defenderem. Ao invés, foi a guerrilha do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), assim como as Unidades de Defesa Popular Curdas (YPG) e a brigada feminina (YPJ) de Rojava que – apesar de só terem Kalashnikovs e de serem meia dúzia de combatentes – abriram um corredor para Rojava, salvando 10,000 pessoas.

    Shingal-Resistance-Units-YBS-Sinjar-Mountain-Iraq-Guerrilla_Fighters_of_Kurdistan_Joey_L_Photographer_032Durante todo um ano, as mulheres Yazidi foram retratados pelos media como vítimas indefesas de violação. Inumeráveis entrevistas perguntavam repetidamente quantas vezes tinham sido violadas e vendidas, fazendo-as cruelmente reviver o trauma a bem do jornalismo sensacionalista. As mulheres Yazidi eram apresentadas como a personificação do choro, mulheres que se rendiam passivamente, a vítima definitiva do grupo Estado Islâmico, a bandeira branca feminina perante o patriarcado. Além disso, as mais bizarras descrições do oriente reduziam grotescamente uma das mais antigas religiões do mundo a um novo campo exótico por explorar.

    Ignora-se o facto de as mulheres Yazidi se terem armado e de, agora, se mobilizarem ideológica, social, política e militarmente de acordo com as linhas traçadas por Abdullah Öçalan, líder do PKK. Em Janeiro, o Conselho Fundador de Shengal foi estabelecido por delegados Yazidi, da montanha e dos campos de refugiados, exigindo um sistema de autonomia independente do governo central iraquiano e do governo regional curdo (KRG ou HHK).

    Vários comités para a educação, a cultura, a saúde, a defesa, as mulheres, a juventude e a economia organizam os assuntos do dia-a-dia. O conselho é baseado na autonomia democrática, tal como articulada por Öçalan, e tem enfrentado uma oposição agressiva por parte do PDK, o mesmo partido que fugiu de Shengal sem dar luta. As recém-formadas YBS (Unidades de Resistência de Shengal), o exército de mulheres YPJ-Shengal e o PKK estão a construir uma linha da frente contra o grupo Estado Islâmico, sem receberem qualquer parte das armas fornecidas aos peshmerga pelas forças da coligação internacional. Alguns membros das YBS e do conselho chegaram mesmo a ser presos no Curdistão iraquiano.

    A 29 de Julho, mulheres de todas as idades fizeram história ao fundarem o Conselho Autónomo de Mulheres de Shengal, prometendo que “a organização das mulheres Yazidi será a vingança por todos os massacres”. As mulheres decidiram que as famílias não devem intervir quando as raparigas querem participar em qualquer parte da luta e comprometeram-se a democratizar e transformar internamente as suas próprias comunidades. Não querem apenas “recomprar” as mulheres raptadas, mas libertá-las através da mobilização activa, estabelecendo uma auto-defesa, não só física mas também filosófica, contra todas as formas de violência.

    O sistema internacional despolitiza insidiosamente as pessoas afectadas pela guerra, especialmente refugiados, através dum discurso que os torna sem vontade, conhecimento, consciência e política. No entanto, os refugiados Yazidi nas montanhas e no campo Newroz, em Dêrîk (al-Malikiyah), que foi construído em Rojava logo a seguir ao ataque, insistem na sua agenda. Apesar de, neste momento, algumas organizações internacionais fornecerem uma ajuda limitada, durante anos quase foi impossível que algum tipo de ajuda passasse para Rojava, como resultado do embargo imposto pelo KRG.

    Sinjar-Mountain-Yezidi-Massacre-Genocide-Guerrilla_Fighters_of_Kurdistan_Joey_L_Photographer_013As pessoas do campo Newroz disseram-me que, apesar das tentativas do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados de moldarem o campo e o seu sistema educativo de acordo com a sua visão de cima para baixo, a assembleia do campo resistiu, obrigando uma das maiores instituições internacionais a respeitar o seu próprio sistema autónomo. Neste momento, a educação em alfabetização, arte, teatro, cultura, linguagem, história e ideologia é feita de forma intergeracional, ao mesmo tempo que unidades semelhantes a comunas organizam os assuntos quotidianos em Dêrîk e Shengal.

    “Com todos estes conselhos, protestos e reuniões, a resistência pode parecer normal. Mas tudo isto emergiu apenas há um ano e, para Shengal, isto é uma revolução”, disse um combatente Yazidi do PKK. “A atmosfera de Rojava chegou a Shengal”.

    Hedar Resît, uma comandante do PKK de Rojava que ensina a sociologia de Shengal antes e depois do último genocídio, estava entre as sete pessoas que combateram o Estado Islâmico no início do massacre e foi ferida ao abrir o corredor para Rojava. A presença de mulheres como ela de quatro partes do Curdistão tem um impacto enorme na sociedade de Shengal.

    “Pela primeira vez na nossa história, pegámos em armas, porque, com o último massacre, percebemos que ninguém nos irá proteger; temos que ser nós a fazê-lo”, disse-me uma jovem combatente das YPJ-Shengal, que alterou o seu nome para Arîn Mîrkan, uma heroína mártir da resistência de Kobane.

    Explicou como as raparigas como ela nunca se atreveram a ter sonhos e se limitavam a estar sentadas em casa até casarem. Mas, como ela, centenas juntaram-se à luta, como a jovem que cortou o cabelo, pendurou a trança na campa do seu marido e se juntou à resistência.

    O genocídio físico pode ter acabado, mas as mulheres estão conscientes dum genocídio “branco, ou sem sangue, numa altura em que os governos da UE – especialmente a Alemanha – tentam atrair as mulheres Yazidi, tirando-as das suas casas sagradas e instrumentalizando-as para as suas próprias agendas.

    Xensê, membro do conselho de mulheres, beija o seu neto e explica: “Recebemos treino com armas, mas a educação ideológica é bem mais importante para percebermos porque é que o massacre aconteceu e que estimativas as pessoas podem fazer por si próprias. Essa é a nossa verdadeira auto-defesa. Agora sabemos que éramos tão vulneráveis porque não estávamos organizadas. Mas Shengal nunca mais voltará a ser a mesma. Graças a Apo [Abdullah Öçalan]”.

    Sozdar Avesta, ela própria uma Yazidi, membro do conselho de presidência da União das Comunidades do Curdistão (KCK) e comandante do PKK, afirma:

    PKK-Kurdistan-Workers-Party-Makhmour-Iraq-Guerrilla_Fighters_of_Kurdistan_Joey_L_Photographer_015“Não é uma coincidência que o grupo Estado Islâmico tenha atacado um das mais antigas comunidades do mundo. O seu objectivo é destruir todos os valores éticos e culturas do Médio Oriente. Atacando os Yazidis, tentaram apagar a nossa história. O grupo Estado Islâmico organiza-se explicitamente contra a filosofia de Öçalan, contra a libertação das mulheres, contra a unidade de todas as comunidades. Portanto, derrotar este grupo implica uma leitura histórico-sociológica correcta. Para além de os destruir fisicamente, também temos que retirar a ideologia do EI mentalmente, uma vez que persiste na actual ordem mundial.”

    Há um ano, o mundo assistiu ao inesquecível genocídio dos Yazidis. Hoje, as mesmas pessoas que – quando todos fugiam – salvaram os Yazidis, estão a ser bombardeadas pelo estado turco que apoia o EI, com a aprovação da NATO. Quando os estados que contribuíram para o crescimento do EI prometem derrotá-lo e, no caminho, destruir a malha social do Médio Oriente, a única opção de sobrevivência é o estabelecimento de uma auto-defesa autónoma e uma democracia de base.

    À medida que se conduz pelas montanhas de Shengal, o mais belo indicador das mudanças que atingiram este local ferido no espaço de um ano são as crianças nas ruas que, ao verem passar os “camaradas” de carro, cantam: “Viva a resistência de Shengal! Viva o PKK! Viva APO!”. Graças à autonomia democrática, as mesmas crianças que estendiam as suas pequenas mãos e pediam dinheiro quando os combatentes peshmerga passavam agora levantam as mesmas mãos em forma de punho e sinais de vitória.

    Texto (21 de Agosto de 2015) de Dilar Dirik
    Dilar Dirik faz parte do movimento curdo de mulheres. É escritora e doutoranda no Departamento de Sociologia da Universidade de Cambridge.

    Fotografias de Joey L.
    Joey L é um fotógrafo americano que em 2015 viajou ao Curdistão para retratar as diversas guerrilhas curdas.