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  • Fronteiras: morte por controlo remoto

    Fronteiras: morte por controlo remoto


    Nos primeiros dias de Abril, a União Europeia (UE) impunha aos seus Estados-membro que iniciassem controlos de identidade a toda a gente que quisesse entrar ou sair do espaço comunitário. Estes controlos, que já se aplicavam a cidadãos de fora da UE, estendiam-se assim aos de dentro e, na prática, significavam que todas as pessoas que atravessassem uma fronteira aérea, terrestre ou marítima veriam as suas identidades confrontadas com o Serviço de Informações de Schengen e a base de dados da Interpol, permitindo às polícias fronteiriças o acesso a uma quantidade incomensurável de dados pessoais, a maioria dos quais pouco ou nada relevantes para o seu trabalho concreto.

    Oficialmente, tratava-se de tentar identificar cidadãos comunitários que pudessem ter sido apanhados nas redes do extremismo islamita. Um argumento pouco sólido, se se considerar que estes terroristas que se procuram são, na sua grande maioria, pessoas cujos registos estão limpos. Por outro lado, e nas palavras do próprio coordenador da UE para a luta anti-terrorista, Gilles de Kerchove, «as informações sobre os terroristas que são cidadãos comunitários e tentam regressar é frequentemente incompleta». Talvez por isso se fale numa nova categoria de pessoas que deverá fazer soar os alarmes fronteiriços: unknown wanted persons, cuja tradução poderia, talvez, ser «suspeitos desconhecidos». Se não fica claro que os objectivos desta operação são outros, fica, pelo menos, claro que esta não seria a estratégia mais evidente para atingir esses objectivos. Os resultados, ou melhor a sua ausência, comprovam-no.

    Dois a três dias depois, a Eslovénia suspendia a nova regra europeia por ser causa de engarrafamentos intermináveis na fronteira com a Croácia. Houve também notícias de grandes filas em Espanha e na Grécia. Na tentativa de encontrar mecanismos que impeçam terroristas de entrar e atacar, por exemplo, aglomerados de pessoas, tudo o que as autoridades da UE conseguiram foi criar aglomerados ainda maiores e menos protegidos.

    Uma ironia que se vem juntar a essa outra de as vítimas dos ataques em Bruxelas de Março de 2016 terem as suas compensações presas por questões burocráticas. Ao todo 324 pessoas tiveram de receber tratamento hospitalar. Dessas, 224 ficaram por lá mais de 24 horas. Um ano depois, a atleta Karen Northshield ainda estava em recuperação no hospital e afirmou ao jornal belga De Standaard que o governo a abandonou. Como ela, mais ninguém terá ainda recebido qualquer tipo de indemnização ou apoio, graças às teias legais que os advogados das seguradoras tão bem manejam. Karen Northshield é assim apenas um dos muitos casos que demonstram como a burocracia serve os poderosos e como estes, apesar de se dizerem todos Charlie, não estão dispostos a gastar dinheiro com ele e as suas necessidades.

    Já em Maio, gravações telefónicas mostravam a leveza com que as autoridades italianas negaram auxílio a mais de 400 sírios à deriva no Mediterrâneo durante cinco horas. Acabariam por morrer 268 pessoas, incluindo 60 crianças. Pela mesma altura, soube-se também que a Grécia alterava as regras dum fundo de que a UE dispunha para que as pessoas cujos pedidos de asilos eram rejeitados pudessem, sem custos próprios, ser devolvidas para a Turquia. Uma alteração de regras que retira esse direito a quem decidir apresentar recurso perante uma decisão negativa.

    Estas trapalhadas e estes ataques aos direitos à livre circulação, à compensação e à própria vida, tudo coisas que aconteceram no espaço de pouco mais do que um mês, seriam suficientes para demonstrar a desumanidade da política de fronteiras da UE.

    No entanto, e infelizmente, estes episódios são apenas a ponta dum iceberg cuja secção mais escabrosa está bastante menos visível. Uma outra parte, já desenvolvida num número anterior, é a que diz respeito ao facto de a própria construção da política de fronteiras da UE ser ditada pelas mesmas empresas que acabarão por lucrar com ela. Outra parte, também já analisada no MAPA, diz respeito ao desvio de fundos destinados a ajuda ao desenvolvimento para o controlo fronteiriço à distância. Mas há mais, como esta de financiar ditaduras e os seus massacres de que se falará a seguir a partir do exemplo do Sudão. Um dos cinco maiores «produtores» de refugiados do mundo tem nas mãos uma parte fundamental da gestão do fluxo de migrantes da UE. Risível, se não fosse dramático.

    A parceria entre a UE e o Sudão iniciou-se através do Processo de Cartum (Iniciativa para a Rota Migratória UE-Corno de África). «Formalmente lançado na conferência ministerial realizada em Novembro de 2014, em Roma, é um diálogo regional sobre migração mantido entre os Estados-Membros da UE e nove países africanos do Corno de África e países de trânsito, bem como a Comissão Europeia, a Comissão da União Africana e o Serviço Europeu para a Acção Externa. O objectivo é estabelecer um diálogo permanente sobre migração e mobilidade no intuito de reforçar a cooperação em curso, mediante a identificação e a execução de projectos concretos.»

    Uma parceria que é, sobretudo, financeira e que se aprofundou na cimeira da La Valleta, em Novembro de 2015, com o estabelecimento do Fundo Financeiro de Emergência para África, desenhado para dar resposta à crise migratória das regiões do Sahel [ref]O Sahel é uma faixa de 500 a 700 km de largura, em média, e 5 400 km de extensão, entre o deserto do Saara, ao norte, e a savana do Sudão, ao sul; e entre o oceano Atlântico, a oeste, e o mar Vermelho, a leste.[/ref] e dos Lagos do Chade, assim como do Norte e do Corno de África. Este Fundo foi dotado de cerca de 2 mil milhões de euros. Deste dinheiro, foram tirados 173 milhões para questões relacionadas com gestão de migrações dentro do Sudão. A Europa quer enviar câmaras, scanners e servidores para o regime sudanês registar refugiados, assim como treinar a polícia fronteiriça e dar assistência na construção de dois campos com salas de detenção para migrantes. Em meados de Dezembro de 2016, a UE aprovou a última parte dos fundos para o Sudão, num total de mais 38 milhões de euros. Em Janeiro de 2017, a pareceria foi reafirmada num encontro entre um enviado da UE e um sub-secretário do ministro sudanês dos negócios estrangeiros.

    O Sudão de al-Bashir

    Omar Hassan Ahmad al-Bashir é o presidente do Sudão desde 30 de Junho de 1989 quando tomou o poder através de um golpe de Estado. Em 4 de Março de 2009, o Tribunal Penal Internacional emitiu um mandado de prisão para a captura de Omar al-Bashir por crimes contra a humanidade, genocídio e crimes de guerra. Tem assim o desaconselhável mérito de ter sido o primeiro Chefe de Estado em exercício a ser alvo de um mandado internacional de captura.

    Na contabilidade do regime de al-Bashir constam pelo menos 300 mil mortos e mais de 1 milhão de deslocados devido aos ataques letais da milícia pró-governamental Janjaweed que, em 2013, passou a chamar-se Força de Apoio Rápido (FAR).

    Em Janeiro de 2016, o Observatório dos Direitos Humanos das Montanhas Nuba condenou as práticas violentas da FAR contra civis em Abbasiya Tagali, na província sudanesa do Cordofão do Sul. E, em Junho de 2016, a FAR levou a cabo uma campanha de detenções em Ed Damazin, capital do estado sudanês do Nilo Azul, durante duas semanas, depois de ter havido protestos contra a sua presença na área e acusações de atrocidades contra civis.

    Por seu lado, vários relatórios da Human Rights Watch afirmam que o regime sudanês trabalha em conjunto com redes criminosas de tráfico humano, chegando a acusar a polícia e o exército de terem vendido refugiados.

    O apoio da UE

    Apesar do documento de apresentação do Fundo Financeiro de Emergência para África afirmar que o seu objectivo fundamental é «lutar contra as causas profundas da desestabilização, das deslocações forçadas e da migração irregular, promovendo a igualdade das oportunidades económicas, a segurança e o desenvolvimento», a verdade é que os fundos de emergência que nos são vendidos como apoio ao desenvolvimento vão sobretudo para controlo fronteiriço puro e duro, conforme demonstram as minutas de reuniões semi-secretas e outros documentos classificados a que tiveram acesso o jornal alemão Der Spiegel e o programa da também alemã televisão pública ARD, “Report Mainz”.

    Quando se lida com ditaduras tão sangrentas, não é de todo surpreendente que o material financiado pelo Fundo de Emergência seja desviado para a opressão e repressão da população civil. Mukesh Kapila, antigo representante do Sudão na ONU, disse que o envio de fundos e apoios da UE está a dar ao regime mais recursos para suprimir o seu próprio povo. Para mais, e ainda de acordo com o Der Spiegel e a ARD, um general próximo do Ministro do Interior do Sudão terá já afirmado que a tecnologia que receberão não será utilizada apenas para registar refugiados, mas também sudaneses.

    O aprofundamento das relações entre a UE e o Sudão tem implícito o apoio à milícia Janjaweed, aliás, Força de Apoio Rápido. Uma Força que, tal como a milícia sua antecessora, é conhecida pela facilidade com que viola os direitos humanos e ataca manifestações.

    É essa mesma FAR que foi contratada para controlar migrações através de fundos da UE, como se pode confirmar quando, em Janeiro deste ano, e de acordo com as palavras do governo sudanês, a FAR desmantelou uma operação de tráfico de migrantes para a Líbia. Uma colaboração corroborada em Agosto de 2016 na voz do líder da FAR, Mohamed Hamdan “Hemeti”.

    A UE, por seu lado, diz que não trabalha com as autoridades sudanesas, que não está a apoiar a FAR e que a assistência ao Sudão é fornecida numa base bilateral e regional através de agências internacionais e organizações locais. No entanto, ainda não informou que agências internacionais e organizações locais são essas. Conhecendo o Sudão e a forma como o regime trabalha, ninguém duvidará que os fundos serão canalizados por organizações que estejam sob o seu controlo, como acontece, aliás, há décadas. O dinheiro nunca precisou de viajar por canais oficiais para acabar nos bolsos do governo. Muito menos num país que a Tranparency International considera um dos mais corruptos do mundo. Se se importasse realmente com a utilização dos fundos que canaliza, a UE deveria monitorizar a sua aplicação ao invés de fingir ignorância.

    Ismail Omar Tairab, membro do Comité Nacional do Sudão para o Combate ao Tráfico de Seres Humanos, numa entrevista ao site Al-Tagyeer, para além de acusar a UE de focar toda a sua atenção na segurança, omitindo a necessidade de ajudar os migrantes dentro do país, afirma também que «a UE quer tornar o Sudão numa enorme prisão para migrantes e é por isso que todas as parcerias que construíram foram com a polícia. (…) Os fundos não se destinam a proteger migrantes, apenas a policiá-los.»

    O Sudão, outrora internacionalmente considerado um Estado fora-da-lei, está agora em posição cimeira na distribuição de interesses e apoios da UE, graças à sua posição estratégica enquanto local de passagem de migrantes. Mas não está sozinho. Há acordos semelhantes, já assinados ou em construção, com outros Estados igualmente pouco aconselháveis, como a Eritreia ou a Líbia. Une-os a forma como as migrações os legitimam enquanto parceiros credíveis e recomendáveis. A priorização duma agenda de curto prazo de paragem dos fluxos migratórios e a submissão às necessidades da indústria do armamento, da vigilância e do controlo é o quadro da política fronteiriça da UE. Um quadro que mantém as praias europeias relativamente limpas de cadáveres. através do assassinato de migrantes por controlo remoto.

    Ilustrações de Arthur C. Wandeur

  • Mapa #18 nas ruas!

    Mapa #18 nas ruas!

    Está aí o novo Jornal MAPA (nº 18, Novembro-Janeiro).

    Um olhar sobre racismo e habitação: histórias de bairros de exclusão, como as Pedreiras, em Beja, no quadro da histórica perseguição à comunidade cigana; e a publicação de uma carta dos moradores do bairro 6 de Maio, na Amadora. Notícias da gentrificação e da sua resistência, no Porto, com um foco ainda no movimento de ocupações que nessa cidade, e em Lisboa, ressurge. Neste MAPA continuamos a alertar sobre a mineração no mar dos Açores e olhamos o mar como a última fronteira do capitalismo, também através do turismo. Reflectimos sobre incêndios e, em entrevista a Jorge Leandro Rosa, pensamos para que serve o catastrofismo oficial. Destaque ainda à situação das mulheres no sistema prisional português, sem esquecer os centros de detenção de imigrantes. Não podíamos deixar de abordar a Catalunha e, por entre crónicas – sobre o trabalho voluntário, o privilégio branco, o transhumanismo russo ou a história de Eugenio Granell, o homem que queria ser índio –, podes encontrar outras notícias e apontamentos de música, teatro e exposições.

    Encontra o teu jornal num dos locais listados no site ou recebe-o em casa fazendo a assinatura que, para além do teu conforto, irá permitir a continuação deste projecto de Informação Critica.

  • O regresso das florestas zombies

    O regresso das florestas zombies


    O sonho das empresas de celulose de tornar Portugal um país de grandes plantações de eucalipto, com clones da mesma idade, sujeitas ao mesmo regime, num manto verde a perder de vista, daquelas geridas por drones, em que nem é preciso lá por os pés, insiste em não se concretizar em Portugal. O sonho dá lugar a florestas zombies. Qualquer pessoa que circule pelo norte e centro do país as encontra – plantações de eucaliptos queimados, mortos-vivos a regenerar parcialmente, sem vontade própria e sem futuro. Como é que árvores tão amadas, trazidas à vida pelas mãos cuidadosas da engenharia genética, cheias de potencial, são tão descuidadamente entregues a pessoas incapazes de as proteger de incêndios recorrentes?

    No debate público, o culpado número 1 de todos os erros da floresta, sendo que por floresta se entende aqui o que dela fizeram – monoculturas de árvores sob a disciplina produtiva capitalista – é o pequeno proprietário absentista. Que bode expiatório tão conveniente, culpar quem não está lá e que não se sabe quem é. Donos e donas de meio hectare, seriam a principal pedra na engrenagem a impedir a realização do sonho verde. Vai-se naturalizando a ideia de que há que dar as terras a quem pode cuidar delas. E quem melhor pode cuidar delas do que quem tem o poder de investir?

    Pouco a pouco, naturaliza-se também a ideia de que o sonho das empresas de celulose tem de ser um desígnio nacional. Como nos lembram vezes sem conta, são os eucaliptos que ajudam a equilibrar a nossa balança comercial. O escudo de Portugal contra a austeridade é feito de eucalipto. Devíamos fazer do eucalipto a nossa árvore nacional, a base dos nossos perfumes, e ver se a conseguimos cozinhar. As pombas modernas da paz não levam ramos de oliveira, mas sim ramos de eucalipto. Podíamos aproveitar a oportunidade e fazer parques temáticos com coalas, aborígenes e o Crocodilo Dundee. Em terras que já não dão pão, se o eucalipto é que nos põe o pão na boca, há que educar o povo para a sua importância.

    O que me intriga é que quando olho para uma serra inteiramente coberta de eucaliptos até às linhas de água, nunca vejo as terras incultas dos proprietários absentistas. Que fantástica capacidade de coordenação! Somos um país de telepatas que conseguimos comunicar com pessoas desconhecidas? Como é que esse suposto mapa fragmentado de tanta pequena propriedade se torna num manto verde ininterrupto? Que magia! Mas quem gere estas árvores? Será que cresceram espontaneamente? Se é o caso, o eucalipto devia ter estatuto legal de espécie invasora. Para bem da nossa economia, é melhor criar um novo estatuto para o eucalipto: o de árvore mágica, capaz de se gerir a si mesma. Devemos também dotá-la de personalidade jurídica para que possa passar recibos e faturas quando se vende aos compradores. Doutra forma, os proprietários absentistas desconhecidos estariam a ser roubados por quem lucra com os eucaliptos que nascem nas suas terras.

    Apesar das suas propriedades mágicas, o eucalipto continua a arder. Os fazedores de zombies praticam todas as formas de injustiça ambiental. Não restauram os espaços florestais, não compensam os danos ambientais causados e a perda de serviços dos ecossistemas, nem previnem os riscos inerentes às plantações florestais, como os incêndios, com a consequente perda de vidas humanas. Não têm em conta a vulnerabilidade económica e social das populações das quais abusam, a violência social e os conflitos gerados pela ocupação de terras comuns e daqueles que não podem defender a sua propriedade contra terceiros, nem a perda irreversível de biodiversidade. Tudo em nome do abastecimento de matéria-prima a baixo preço.

    Mas o baixo preço não chega. É preciso qualidade. E a carne queimada dos zombies não serve para papel certificado. Quem serão os provedores capazes de assegurar as necessidades do mercado e, consequentemente, de todos nós, povo comedor de eucaliptos? O pequeno proprietário, absentista ou não, tem os dias contados. Ou está morto, ou já morreu e não sabe. Foi eliminado pela seleção natural do mercado por não se organizar para produzir eucaliptos certificados.

    As empresas de celulose, direta ou indiretamente, beneficiaram de dinheiro público, mas os proprietários privados terão de ser capazes de pagar os custos dos eucaliptos, ou perecer. O mundo não será dos pequenos. A Uber do eucalipto não será de proprietários particulares, será de acionistas. Os que agora comem pão de eucalipto, comerão migalhas, ou pó, ou nada. E enquanto houver injustiça ambiental, as florestas zombies vão surgir, regressando após cada ciclo de exploração intensiva e abandono.

    Enquanto os zombies não regressam, os vivos ocupam temporariamente a terra. Nascem alguns carvalhos, sobreiros e acácias, e já temos floresta no CORINE Land Cover. Por vezes alguns eucaliptos escapam e fazem vida com as outras espécies. Talvez aí possam ter um papel na nossa vida coletiva.

    Rita Serra

  • Okupas: uma história que se escreve a cada dia

    Okupas: uma história que se escreve a cada dia

    “Afinal queremos tudo”, lê-se numa faixa pendurada na fachada de um prédio na Rua Marques da Silva, em Lisboa. “Ocupando a cidade, combatendo a autoridade”, numa outra faixa que pende dos portões da antiga escola primária José Gomes Ferreira, no Porto. Mais a Sul, em Setúbal, celebram-se 17 anos de existência da Casa Okupada Setubalense Autogestionada, ou COSA.

    É Outubro de 2017, e as semanas vão-se dobrando sobre si próprias, umas mais memoráveis que outras. As últimas semanas, ou meses, têm resultado em múltiplas histórias para serem contadas em anos vindouros. Isto é, no que à ocupações diz respeito. E há quem esteja a dedicar-se a fazer essa história, e a constituir uma historiografia dessa história também.

    Este movimento não é coisa nova em Portugal. São muitas as memórias e casas que sobram do Processo Revolucionário em Curso, de uma onda de ocupações que se deu entre 1974 e 1978. Durante esses quatro anos, era “praticamente legal ocupar casas devolutas”, explica Ricardo, membro fundador do Arquivo Digital de Ocupações. Não obstante, o processo começou a abrandar com a entrada em vigor da Constituição Portuguesa, em 1976, que preservava e garantia os direitos de propriedade que começavam a ser questionados e desmantelados durante o PREC.

    O Arquivo Digital de Ocupações não pretende analisar o período de ondas de ocupações em Portugal dos anos 70 – tenta antes fazer uma “historiografia” do movimento de ocupações pós-1993. Ricardo pauta o início do período de estudo com o surgimento da “Casa Reciclada”, no Porto. Aqui, faz uma distinção entre “ocupações” e “okupações”, sendo que são as segundas que compõem o corpo de estudo deste arquivo.

    “No pós-25 de Abril, as ocupações tinham uma motivação popular”, explica, “enquanto que as ocupações que se dão a partir dos anos 90 têm uma motivação política”. Não se descarta, de forma alguma, a questão da habitação, que era central nas ocupações dos anos 70, mas a discussão sobre a habitação, nesta “nova” forma de ocupação, tem outros contornos. “Já não é só uma questão de necessidade, é um debate político sobre o que é a propriedade. Há uma crítica feroz sobre a propriedade. Nos anos 70 a necessidade de habitação estava acima da razão de questionar a autoridade.”

    Garante que o apoio popular que estas ocupações tinham facilmente explica a quantidade de casas devolutas libertadas para habitação: “Havia comités de ocupações, quando hoje já nem associações de moradores existem”. E isso explica a quantidade de casas entregues ao abandono nos dias de hoje, quando ao mesmo tempo se discute mais e mais o que é o acesso à habitação. “Há uma falta de responsabilidade civil para com a população, e não há uma base popular para avançar”, garante, sublinhando que o contexto de hoje é “completamente diferente”, caracterizado também pela “visão muito má do que são as ocupações, que surge logo após a Constituição”.

    Então, nesta nova onda de ocupações (ou okupações, pela sua conotação política distinta das ocupações de ’70), surgem novas preocupações e novos debates. São esses temas que Ricardo e os demais colaboradores do Arquivo Digital de Ocupações pretendem recuperar e escrever.

    Uma historiografia feita a partir de dentro

    A ideia do Arquivo também não é nova. Ricardo explica que já andaria a germinar há sensivelmente dez anos, mas não no formato que agora assume. O projecto irá consolidar-se em duas grandes ideias: um arquivo digital de acesso público e, mais tarde, um livro que junte algumas das mais relevantes histórias acerca do movimento que se propõem a documentar.

    “O movimento da okupação está muito alicerçado e enraizado nalgumas premissas do movimento anarco-punk”, assegura, e acrescenta que “já houve a edição de dois livros sobre historiografia do punk em Portugal”. Ainda assim, o estudo que depois resultou na publicação desses livros levanta algumas dúvidas ao colectivo que mobiliza o Arquivo: “mas quem são estas pessoas, que autoridade têm elas para falar sobre este movimento?”

    Ricardo não duvida da legitimidade académica dos envolvidos nesses dois livros, mas garante que há uma diferença fundamental: “eles vêm de fora falar sobre uma coisa na qual não participam, nós falamos a partir de dentro numa coisa em que participamos. Estamos a escrever a história do movimento de okupação partindo dos seus intervenientes”. Uma das grandes preocupações dos colaboradores do Arquivo é que “a nova geração que integra o movimento anarquista e anarco-punk já não conhece estas histórias, e se não houver passagem de testemunhos, só sobra a visão dos académicos”. Sublinha: “existem os académicos que escrevem a história, e os intervenientes que a fazem”.

    Até para Ricardo e os demais elementos do Arquivo a história está a provar-se surpreendente. Durante um ano de “trabalho arqueológico”, como o descreve, já deram conta da existência de perto de 150 okupas entre 1993 e 2017. Dividem esses 24 anos de historiografia em três grandes fases, cujos limites temporais estão abertos a discussão.

    O primeiro momento que estudam pauta-se entre a fundação da Casa Reciclada, no Porto, em 1993, até ao despejo da Kasa Enkantada, em Lisboa, em 2002. Ricardo aponta a Kasa Enkantada como um momento vital da história do movimento pela relevância que este projecto assumiu no panorama nacional. Acredita que esse primeiro momento era, acima de tudo, “experimental”, mas que evoluiu para uma fase de confronto e acção que distingue os anos que caracterizam como sendo o segundo momento desta historiografia.

    De 2002 até 2008/2012, o movimento ganha “maturidade”, como descreve. Surgem múltiplos “espaços autónomos” nas cidades, como “o RDA, a CasaViva, a Severa”, que complementam o movimento de okupação e lhe permitem “um ponto de apoio e dinamismo”. Por operarem dentro de um modelo legal, com espaços arrendados e associações constituídas, estão mais protegidos. Acrescenta que imediatamente após o despejo da Kasa Enkantada, nos dois anos que se seguiram, houve 12 okupações que surgiram em retaliação pelo despejo – mesmo que “algumas delas não tenham durado mais do que uns dias”.

    Então, essa segunda fase que o Arquivo delineia estende-se entre o despejo da Kasa Enkantada e o “pós-crise”, como define Ricardo. Esse período de “pós-crise” pode-se estender entre 2008 e 2012, e representa uma nova forma de estar no movimento. Ricardo aponta o caso do Espaço Colectivo Autogestionado do Alto da Fontinha (Es.Col.A.), no Porto, como o ponto de entrada para o terceiro – e actual – momento do movimento de okupações.

    Es.Col.A. da Fontinha, Fevereiro de 2012.

    “Foi o caso da Fontinha que trouxe isto das okupações de volta à discussão pública”, acredita Ricardo, sublinhando que esta é a sua opinião individual, e que não caracteriza a do Arquivo. Relativamente à efemeridade da maioria das okupações que se deram após a Fontinha, que caracteriza como “okupações flash”, não está preocupado. “Mesmo que só durem uns dias, nota-se maior maturidade nos projectos políticos e sociais das okupas”, acredita.

    Das 150 okupas que Portugal conheceu desde 1993, é-lhe difícil apontar as que terão sido mais relevantes na história, mas acredita que “os casos mais paradigmáticos foram os que queriam mudança social”, e enumera alguns: a Casa Reciclada, a Casa de Cascais, a Zarabatana (Queluz), a Kasa Enkantada em Lisboa, a Fontinha, a C.O.S.A. (Setúbal)… Mas ainda é demasiado cedo no traçar desta tumultuosa história para determinar com certeza quais foram os seus momentos mais disruptivos e icónicos.

     

    “Afinal, queremos tudo” e “é proibida a entrada a quem não andar espantado de existir”

    Se, como Ricardo assegura, esta história é escrita e feita pelos seus intervenientes, os últimos meses têm sido convulsos no que à história das okupações diz respeito. Em Setembro, junta-se uma assembleia de mais de 150 pessoas num antigo e devoluto imóvel camarário em Lisboa. Na fachada do edifício azul lê-se “A cidade é de quem a ocupa. Assembleia de Ocupação de Lisboa”. Lá dentro germinam ideias.

    Inês Silva, integrante do colectivo que dinamiza a Assembleia (AOLX), conta que “não havia uma ideia concreta para a casa”, daí a importância de convocar essa reunião aberta a toda a população. “Era fundamental uma ligação à comunidade e, por isso, as pessoas podiam ir lá apresentar as ideias que tivessem para realizarem ali, desde creches sociais até habitação”. Decorriam as campanhas para as eleições autárquicas, e como Inês sublinha múltiplas vezes “o tema da habitação foi central durante os debates autárquicos”.

    A porta do imóvel já estava aberta, pelo que aquando da entrada do colectivo no espaço foram enviadas cartas, nomeadamente à Vereadora da Habitação de Lisboa e à Polícia de Segurança Pública, que davam conta desta iniciativa. Entretanto, e antes ainda das eleições, houve uma breve visita da Polícia Municipal à AOLX, mas que Inês não sobrevaloriza: “A Polícia Municipal teria de ter ido lá para nos avisar que tínhamos 90 dias para sair, conforme a lei, mas estavam completamente desinformados dos procedimentos”. Até à data não houve qualquer tentativa de contacto por parte da Câmara Municipal de Lisboa, nem sequer para tentar proceder a um despejo.

    Actualmente a AOLX está em fase de obras, e de ideias. Inês Silva refere dois grandes projectos: que a casa sirva de “sede” a um movimento de okupações mais amplo do que aquele que existe, com apoio jurídico, documentação legal, e espaço para reuniões; e que sirva também um propósito de habitação temporária para pessoas que tenham sofrido um despejo ou que não consigam encontrar casa para arrendar na cidade.

    Inês sublinha o teor “temporário” desta habitação que refere. Por um lado, pela questão legal que se lhes impõe. Se a qualquer momento chegar um aviso da Polícia Municipal que anuncie um despejo em 90 dias, nunca poderá estar gente a viver lá mais tempo do que isso, para protecção das próprias pessoas. Por outro lado, a casa não servirá para alojamento permanente pelas suas características voláteis e pela discussão que pretende criar. Ainda assim, nada é certo. Antes de serem tomadas decisões delicadas – “quem entra, quem fica primeiro, quanto tempo fica…” – têm de se concluir as obras, que estão a avançar a um ritmo estável.

    Para já, não está em cima da mesa que se transforme a AOLX num Centro Social Okupado, pelo contexto do bairro em que a casa se situa. “Os Anjos já têm muita vida social e associativista”, explica Inês, pelo que não fazia falta mais um centro social. “A habitação é a maior preocupação social, neste momento, então os espaços complementam-se”, e daí a relevância da AOLX naquele bairro em específico.

    Sendo que talvez se assemelhe mais às ocupações dos anos 70 do que às okupações que o Arquivo Digital se propõe a compilar, a AOLX tem uma preocupação fundamental que é a habitação: “podemos discutir a propriedade privada, mas há necessidades imediatas e concretas a suprir, e a que temos de responder”. Não obstante, é demasiado cedo para definir a natureza da casa, pensa Inês Silva. A ideia é que a AOLX vá para lá dos Anjos e da grande casa azul onde se instala. Aquela ocupação é tão somente o primeiro passo da Assembleia, que visa legitimar a okupação como acção social e política, mas não só.

    Mais a norte, e exactamente um mês depois de se encher a casa lisboeta com 150 pessoas ferventes de acção e ideias, uma escola primária no Porto enche-se com outras tantas pessoas igualmente ardentes. Uma noção algo familiar para muitos portuenses. A 14 de Outubro, a Escola Básica José Gomes Ferreira, perdida entre as Ruas do Bonjardim e de Faria Guimarães, nas velhinhas ruelas operárias da cidade, enchia-se de barulho, música e vassouras.

    Uma faixa pendurada no gradeamento da escola deixava ler “É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir”. Lá dentro, corria água, faziam-se planos, e discutiam-se ideias. Rebaptizou-se a escola: “A Travêssa”. Desimpediu-se o acesso à porta da escola, forrado de folhas caídas e lixo sortido, preparou-se uma mesa com comida para ser partilhada, ligou-se uma coluna e ouviu-se música. Nos olhos de quem já tinha visto e vivido um Porto que teve uma Fontinha, acendia-se um brilho, entre a esperança e a nostalgia. No manifesto colado à porta e publicado no blog, lê-se que os okupas queriam “retomar os bairros cujas gentes são, a cada dia, brutalmente expulsas e varridas nesta verdadeira fábrica de turismo”. Uma das discussões que mais prevaleceu foi a dominante no Porto por estes dias: gentrificação.

    Os vizinhos abriram o seu bairro para os novos rostos que chegavam a cada minuto. “Bem-vindos ao nosso bairro!”, gritou um, assim que se entrou pela porta da escola. “Pensávamos que nunca mais vinham!”, confessava uma senhora, esticando o pescoço para ler a faixa. Foram chegando panelas, instrumentos de cozinha, mesas, cadeiras, livros escolares. Rostos novos, rostos curiosos, rostos idosos. Todos sorridentes.

    A Travêssa, Porto, Outubro de 2017.

    Foi sol de pouca dura. A okupação não tinha atingido as 48 horas quando foi sacudida por marretas, gritos e pontapés, com a PSP, a PM e até a PJ a entrarem pela Travêssa adentro. Da acção de despejo resultaram 21 pessoas detidas, todas constituídas arguidas – sem saberem de que crime – e colocadas sob termo de identidade e residência. No comunicado da CMP que seguiu o despejo, teciam-se acusações de insalubridade, vandalismo e destruição de equipamento. No gradeamento da Travêssa, para além da faixa com a frase de José Gomes Ferreira, via-se uma bandeira LGBT e uma outra: “Ocupando a cidade, combatendo a autoridade”, que mereceu menção especial no comunicado municipal.

    Após a ferida aberta que Rui Rio provocou na cidade com o brutal despejo da Es.Col.A., e a rápida extinção da Biblioteca Popular do Marquês, ficou sempre um sabor amargo na boca dos portuenses. E ao testemunharem o veloz fenómeno de gentrificação e turistificação que assola a cidade, havia que agir prontamente. A resposta das autoridades, seja do actual Presidente da Câmara que detém a maioria absoluta e está no seu último mandato, seja das Polícias que actuam na cidade, ou até dos pressupostos inquilinos do espaço (que seria o Instituto Politécnico do Porto), foi mais veloz e eficaz ainda.

     

    A história faz-se de resistências

    Se a história da Travêssa foi uma que poucas linhas ocupará na historiografia que Ricardo e os seus companheiros escrevem no Arquivo, o mesmo não é verdade para a Casa Okupada de Setúbal Autogestionada (C.O.S.A.). Enquanto na velhinha escola primária se desimpedia caminho para um novo projecto, na mais antiga okupa em funcionamento de Portugal celebravam-se 17 anos de vida e resistência.

    A C.O.S.A. foi okupada a 13 de Outubro de 2000, ainda durante o momento que Ricardo caracterizava como sendo “a primeira fase do movimento”. Passaram “políticos, comandantes das forças policiais, governadores civis, os processos judiciais, a repressão policial e as difamações nos jornais”, como escrevem no seu blog, mas a C.O.S.A. mantém-se resistente e de pé. Ainda assim, os últimos meses têm sido algo conturbados para este centro social.

    Dias depois do 15º aniversário do projecto, foram notificados os ocupantes da C.O.S.A. de que estaria em processo uma ordem judicial iniciada pelos proprietários da casa de forma a que se procedesse ao despejo. Explicaram à data que o proprietário original, entretanto falecido, teria deixado aquele imóvel a uma sociedade de herdeiros que é proprietária de muitos outros imóveis devolutos, asseguram. Constava da notificação que os ocupantes tinham 30 dias a contar do dia da recepção da carta (16 de Outubro de 2015) para esvaziar o edifício e abandoná-lo. Esse foi tão somente o princípio de uma nova jornada de luta para os setubalenses que dão vida a uma casa outrora decadente e devoluta.

    Os ocupantes da C.O.S.A. recorreram da decisão judicial e tentaram dialogar com os proprietários do imóvel – que numa primeira fase terão acedido ao pedido, mas nunca o fizeram. Pela segunda audiência, a 2 de Junho deste ano, e após múltiplas irregularidades processuais, acusam, a juíza terá determinado a restituição do imóvel aos seus legítimos proprietários. Irão recorrer novamente, mas para já o futuro da C.O.S.A. é incerto. Excepto num dos traços que fazem a sua história: a resistência. A C.O.S.A. promete resistir como resistiu ao longo dos 17 anos que fizeram o seu percurso, agora com a existência d’O Covil, uma espécie de “gabinete” de suporte okupa, onde os interessados poderão procurar ajuda e conselhos para expandirem o movimento, libertarem novos espaços e criarem novos projectos.

    Os dias que na Travêssa se viveram intensos de esperança e projectos futuros, na C.O.S.A. viveram-se de celebração e de resistência. Outras histórias se delineiam, para lá de pequenos apontamentos, como a Travêssa, e de grandes capítulos, como a C.O.S.A. Certo é que não é uma história curta, nem uma que vá ficar por contar.

  • Turvar as águas

    Turvar as águas

    Com a bênção dos nossos governos e um rasto de destruição ambiental e humana em terra, a indústria mineira prepara-se para avançar sobre o fundo dos oceanos, de que todos dependem, apesar de um desconhecimento assumido acerca das consequências e impactos.

     


    Esqueçam o Espaço, o Mar é a nova fronteira. Depois de décadas de expectativa, corporações e fundos de investimento preparam-se para o que esperam seja o próximo grande desafio: a exploração dos recursos naturais do fundo oceânico. Embalado pelo furor crescente em torno das reservas minerais contidas no fundo do mar, acompanhado naturalmente pelos costumeiros discursos acerca de desenvolvimento económico, prosperidade comum e, mais recentemente, sustentabilidade, o olhar das elites globais, sempre ávido, vira-se para os oceanos, que cobrem 70% da superfície terrestre, e para as “riquezas” que estes escondem.

    A primeira exploração mineira em mar alto está prestes a avançar, no mar de Bismarck ao largo da Papua-Nova Guiné (PNG) no Pacífico. A empresa à frente do projecto Solwara 1, a Nautilus Minerals Inc, anunciou o início da prospecção para o primeiro trimestre de 2019. Isto apesar da contestação e resistência de comunidades locais e grupos ambientalistas, apesar da ausência de estudos de impacto ambiental ou social credíveis, dos apelos e reservas da comunidade científica e do amontoar de indícios que apontam para prováveis impactos duradouros ou mesmo irreversíveis em alguns dos habitats mais frágeis e menos estudados do globo. Igualmente preocupante é a assumida falta de entendimento em torno de possíveis efeitos de escala ou cumulativos da exploração generalizada. Ainda assim, e apesar de dificuldades técnicas e financeiras, dos consequentes adiamentos enfrentados e certamente aquém de uma análise e debate alargados acerca de rumos e alternativas, o projecto que se quer a primeira operação mineira em águas profundas continua a avançar. A isto talvez não seja alheio o interesse com que é seguido pela indústria extractivista global e pelos mercados financeiros. O projecto e as potencialidades que estes grupos esperam que abra têm sido recorrentemente descritos como uma nova corrida ao ouro. Nesse sentido, o Solwara 1 é visto por muitos como um teste iminente à viabilidade imediata de um novo ramo da indústria extractivista, a mineração em mar profundo – “Deep Sea Mining” ou DSM em Inglês. Curiosamente, por aqui pode também passar o futuro do arquipélago dos Açores. Estranho? Infelizmente, menos do que possa parecer. O Governo Português e a União Europeia estão a dar sinais claros de que as águas em torno do arquipélago podem vir a ser mineradas nos próximos anos.

    20000 Léguas Submarinas

    Antes de mergulharmos a fundo, é importante percebermos de que se fala, quando falamos de mineração em mar profundo (DSM). Existe actualmente uma indústria mineira costal cujo foco reside especialmente na extracção de areias e gravilha, a par de explorações localizadas de diamantes, enxofre e outros minerais. Comparada com a quantidade de explorações em terra, o número de explorações costeiras é diminuto, mas suficiente para que os seus efeitos sejam evidentes. A exploração é feita em águas pouco profundas junto à costa, essencialmente com recurso a dragas. Consequentemente, estas explorações comportam impactos ambientais e sociais consideráveis, documentados em vários estudos, nomeadamente em torno da viabilidade de populações marinhas afectadas directa e indirectamente pelas mesmas. É possível que haja um aumento significativo no número deste tipo de explorações costeiras, dado o interesse crescente na mineração de fosfato (nódulos de fosforitos), central à indústria de fertilizantes, e especialmente nos hidratos de metano, blocos de metano e água, formados em certas condições de pressão e frio, encontrados a profundidades entres os 350 e 5000 metros, e que alguns analistas e sectores estão a tentar posicionar como um “combustível do futuro”, um tema a que iremos retornar nesta série. A mineração em águas profundas pelo contrário refere-se à exploração de minério em alto mar, teoricamente a profundidades entre os 500 e 7000 metros. Actualmente o interesse reside sobretudo em três tipos de depósitos minerais: os nódulos de manganês ou nódulos polimetálicos, as crostas cobaltíferas e os sulfuretos metálicos. Os três tipos de minério têm características diferentes – os nódulos são aglomerações minerais geralmente semelhantes a uma batata em tamanho e forma geral, dispersos por vastas áreas do fundo oceânico; as crostas são camadas metálicas que se formam ao longo de milhões de anos nas encostas de elevações submarinas por deposição de partículas minerais, em áreas onde as condições locais impedem a acumulação de sedimento; os sulfuretos são depósitos minerais formadas pela acção de fontes hidrotermais que ao longo do tempo dão origem a campos com montes que podem atingir dimensões consideráveis, mas em áreas relativamente definidas do fundo oceânico – mas com um elo vital em comum: inevitavelmente, a sua extracção será sempre altamente destrutiva e pior, as consequências alargadas, são completamente desconhecidas.

    Há Mar e Mar.

    É importante notar que a maior parte das aglomerações destes três tipos de depósito ocorre em zonas distintas, das bacias oceânicas onde estão dispersos os nódulos de manganês, às cristas oceânicas formadas pelos limites das placas tectónicas onde surgem os campos de fontes hidrotermais que produzem os depósitos de sulfuretos metálicos, às elevações submarinas onde se agregam as crostas cobaltíferas, espalhadas pelos oceanos – 30,000 só no Pacífico – a dispersão destes recursos pontua todo o fundo oceânico. Se o Pacífico e a PNG são neste momento as áreas para onde se viram as atenções, é fundamental perceber que há outros desenvolvimentos em curso, nomeadamente no Atlântico, que envolvem a União Europeia e vários governos, de entre os quais o Português. Os Açores encontram-se precisamente no centro de um dos maiores focos de interesse no Atlântico, com vários campos de fontes hidrotermais a Sudoeste, ao longo da Dorsal Mesoatlântica, crostas cobaltíferas a Norte e, em menor grau, nódulos de manganês a Sul e Este do Arquipélago, todos confirmados. Foram esses campos que levaram a mesma Nautilus Minerals a fazer pedidos de prospeção e pesquisa de minerais ao largo do arquipélago em 2008. Embora, de acordo com informação recente fornecida pelo governo os mesmo tenham caducado, a recorrente referência a esses pedidos feita pela Direcção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) no contexto do pedido expansão da plataforma continental nacional – efectivamente uma extensão da ZEE (Zona Económica Exclusiva marinha, onde um Estado detém soberania sobre o solo, subsolo e coluna de água) a ser deliberada pela Comissão de Limites da Plataforma Continental da ONU até Março de 2019, que conferiria soberania sobre os recursos do fundo oceânico (e apenas sobre estes, excluindo a coluna de água) de uma área adicional, com mais do dobro da extensão da primeira – ou a apresentação feita por Ana Vitorino ao Atlantic Council, onde os hidratos de metano e a mineração submarina são dois dos quatro pilares de uma renovada política cooperativa com os EUA, revelam que o interesse do governo Português em explorar ou concessionar estes recursos é real. Se a isto somarmos o papel central de Portugal e do arquipélago no projecto piloto da União Europeia de mineração submarina, o Blue Atlantis, e a recém assinada Declaração de Belém, que estabelece um protocolo de exploração a vários níveis do Atlântico Sul entre a UE, o Brasil e a África do Sul, percebemos que, para Portugal, a mineração submarina, longe de ser uma questão abstrata ou distante, é antes urgente e muito concreta.

    Iremos retornar a estes pontos ao longo desta série, abordando especificamente os desenvolvimentos em torno dos Açores e da política do mar nacional em maior detalhe.

    Só sei que nada sei.

    A dispersão destes depósitos implica que num cenário futuro de exploração de qualquer deles, mas especialmente pensando na exploração simultânea dos três, os focos de destruição e de perturbação ecosistémica estariam espalhados um pouco por toda a parte, aumentando o potencial de efeitos cumulativos e de escala imprevisíveis. Embora a tecnologia necessária para extrair nódulos de manganês e crostas cobaltíferas esteja ainda em desenvolvimento, em relação aos sulfuretos metálicos estamos no limiar da sua aplicação. A Nautilus é a empresa que mais avançou nesse processo, mas existem várias no seu encalço. Enquanto aguarda a entrega do navio de apoio, que irá servir como base de operações em alto mar, está prestes a testar os veículos – enormes máquinas industriais do tamanho de uma casa – que já estão na PNG e que irão proceder à mineração propriamente dita: um cortador auxiliar, que preparará o terreno para o cortador principal, que reduzirá os montes de sulfuretos a fragmentos, e a recolectora, que os sugará em direcção ao navio. John Wiltshire, um cientista e professor da Universidade do Havai sintetiza a operação desta forma: “um depósito de sulfuretos metálicos é algo do tamanho da Super Dome [estádio de futebol americano] e basicamente vai chegar ali com uma broca gigante e reduzir aquilo a nada. (…) é 100% destruição e cria uma nuvem que vai afectar a área envolvente e os organismos que lá vivam.” Esta visão aborda duas questões centrais a este debate: primeiro, a destruição inevitável de habitats únicos – literalmente, devido ao seu isolamento no fundo mar, cada campo contém potencialmente espécies que não existem em mais lado nenhum do planeta – que se contam entre os mais frágeis e menos estudados do mundo, responsáveis, aquando da sua descoberta, por uma revolução no nosso entendimento da biologia, e segundo, o quase total desconhecimento acerca dos impactos localizados e sistémicos deste tipo de exploração. Jeff Drazer, presidente do departamento de Biologia Oceanográfica da mesma universidade, conclui: “Acho que simplesmente não sabemos o suficiente acerca dos ecossistemas do fundo marinho [para avançar]”. Uma ideia ecoada por muitos outros peritos e pelo menos parcialmente por Michael Lodge, o Secretário Geral Adjunto da ISA, a International Seabed Authority (Autoridade Internacional dos Leitos Oceânicos): “É verdade que não sabemos o suficiente acerca dos impactos na biodiversidade e vida marinha quando se minera”. Uma opinião com um relevo particular, já que a ISA tem responsabilidades específicas sobre a preservação e gestão de todo o leito oceânico, para lá das 200 milhas marítimas que configuram as ZEE das nações costeiras, cujos recursos estas controlam.

    Lei do mar, lei da selva… o Bravo Mundo Novo dos oceanos.

    Criada em 1996 pela UNCLOS (United Nations Conference on the Law of the Sea ou Conferência das Nações Unidas para a Lei do Mar), apenas a ISA pode conceder licenças de exploração em águas internacionais e, apesar de os regulamentos que enquadrarão esta e outras questões não terem sido concluídos, já foram concedidas 26 licenças, com várias outras pendentes. Esta situação não é casual: já em 1982, provisões introduzidas pelos EUA e Reino Unido às então discussões acerca do que viria a ser Lei do Mar estabeleciam que uma futura autoridade (a ISA) teria um prazo de dois anos, após um pedido de exploração, para estabelecer um regulamento, caso contrário seria obrigada a conceder uma licença provisória, à luz do enquadramento legal existente. Ademais, a secção XII da UNCLOS impõe que os quadros legais nacionais, que regulam as ZEE, fossem pelo menos tão robustos na sua proteção do ecossistema marítimo como o enquadramento definido por esta. As provisões introduzidas em 1982 pelos EUA, bem como a sua não ratificação da UNCLOS, reflectiam uma perspectiva – capturada em relatórios de segurança nacional norte-americanos também de 1982, entretanto disponíveis e desclassificados – de que, no que toca à DSM, a Lei do Mar “não cumpria com nenhum dos [seus] objectivos”, nomeadamente, porque poderia deixar a futura exploração de minério à mercê da “acção imprevisível” da ISA. Dito de outra forma, porque a matriz da Lei do Mar pressupunha os oceanos e os seus recursos como “património comum da humanidade”, e impunha a “prevenção, redução e controlo da poluição”, a “protecção e conservação dos recursos naturais e protecção da fauna e flora marinha” como princípios base, impondo finalmente a todos o estados signatários uma obrigação comum de “proteger e preservar o ecossistema marinho, incluindo ecossistemas raros ou frágeis”. Percebe-se porque é que Estados – e industrias – com interesse na exploração destes depósitos pudessem querer diluir e subverter o processo… Como consequência, a estrutura regulamentar está ainda em desenvolvimento e explorações que se situem dentro da ZEE de um país podem avançar de acordo com a regulamentação desse estado, tornando “Estados fracos” como os do Pacífico, um alvo muito apetecível para a indústria. Não é por acaso que uma maioria das concessões da ISA e dos projectos “nacionais” se encontra no Pacífico. A área é especialmente rica em recursos mas, crucialmente, muitos dos estados que a ocupam, alguns com vastas ZEE determinadas pela existência de ilhas e arquipélagos, são especialmente frágeis à pressão de um sector muito poderoso, para mais apoiado por alguns dos Estados mais ricos do planeta. Voltando a Jeff Drazer, este conclui: “estou desencorajado pela forma como isto está a ser abordado. (…) a impressão com que fico é que muitas empresas mineiras estão a explorar a pobreza das nações em desenvolvimento no Pacífico e vão entrar nestes países facilmente, explorar os recursos minerais e pagar ao governo uma percentagem ínfima dos lucros em troca de danos ambientais duradoiros”. Em contraste com estas e inúmeras outras análises, a indústria pinta um cenário bem diferente, de oportunidade, prosperidade partilhada e exploração sustentável. O CEO da Nautilus Minerals, Mike Johnston, em entrevistas recentes, falava nos “impactos [ambientais] significativamente reduzidos” e “enormes vantagens” desta indústria para o ambiente. Já sobre os impactos em comunidades, a propósito do início dos testes, afirmava: “Estamos encantados por encetar testes submersos. Estes vão resultar na entrada de dinheiro e investimento na economia da Papua-Nova Guiné e no emprego de papuanos que irão utilizar tecnologia de ponta, que são alguns dos benefícios da mineração submarina”. É importante reter que o foco na Nautilus Minerals, aqui, resulta apenas do facto de ser a empresa com o projecto mais avançado. Existem muitas outras empresas e projectos público-privados em desenvolvimento, mas este tipo de discurso é no essencial transversal a todos. É evidente que a Nautilus Minerals e a indústria extractivista de que faz parte estão profundamente empenhadas em estabelecer a imagem de uma nova indústria, que, oferecendo resposta aos desafios do futuro, corta com o perfil de abusos e desastres ambientais, corrupção, violações de direitos laborais e desrespeito pela vida humana a que o sector mineiro está profundamente associado. O facto de a Nautilus e outros operadores potenciais na mineração em águas profundas não terem ainda iniciado operações não nos impede de tentar extrair conclusões em relação à credibilidade dos argumentos empregues por estes agentes, de sustentabilidade, impactos reduzidos, práticas éticas ou prosperidade partilhada, centrais à sua promoção deste novo tipo de exploração. Nesse sentido, o que está a acontecer no Pacífico e na Papua-Nova Guiné em particular, bem como a sua história, constituem-se como pano de fundo ideal contra o qual se pode testar as asserções da indústria.

    Para cada aldeia, uma cultura diferente.

    A Papua-Nova Guiné é um país único. Em mais nenhum lugar do mundo se encontra tamanha diversidade cultural, com 850 línguas faladas entre os seus 7,6 milhões de habitantes – um quarto das línguas reconhecidas mundialmente – e um vasto mosaico cultural capturado na expressão “para cada aldeia, uma cultura diferente”. Ao mesmo tempo, é um dos maiores repositórios de biodiversidade do mundo: estima-se que as suas florestas tropicais contenham 7% da reserva de biodiversidade mundial. O “Gigante do Pacífico”, como é apelidada na região, ocupa metade da segunda maior ilha do mundo, a Nova Guiné, e cerca de 600 outras ilhas menores, com uma área total duas vezes superior ao Reino Unido. Inúmeras áreas do seu território permanecem completamente desconhecidas. Associada no imaginário popular aos famosos Pássaros do Paraíso popularizados por David Attenborough, é de há décadas a esta parte – nomeadamente desde que declarou independência da Austrália em 1975 – foco de um interesse muito diferente por parte da indústria extractivista. As suas florestas tropicais são exploradas para madeira – dedicada à exportação – e frequentemente substituídas por plantações de óleo de palma, mas é a riqueza mineral, com o ouro e cobre à cabeça – é o 11.º produtor mundial de ouro –, e a de hidrocarbonetos que têm acicatado maior interesse. A este panorama vem agora juntar-se a mineração em águas profundas. De acordo com as Nações Unidas, os 40 anos de história desde a independência da PNG têm sido “dominados pelo sector extractivista”. Um elo comum a estes projectos tem sido a ênfase numa narrativa de desenvolvimento nacional e social sustentáveis, de que as palavras de Mike Johnston são um bom exemplo; mas como se compara esta com a realidade?

    Piratas das Caraíbas XXI: A “Maldição” dos Recursos.

    Infelizmente, mesmo a análise mais superficial parece apontar precisamente para o inverso. A PNG é descrita como um caso clássico da chamada “maldição dos recursos”. Não só a proliferação de projectos extractivistas não trouxe a prosperidade prometida, como parece ser o motor principal para o crescimento da desigualdade no país e um foco de tensões sociais que frequentemente redunda em violência, a que somam impactos ambientais e de saúde pública gravíssimos. O país é considerado um dos mais pobres do mundo, estimando-se que 75% da sua população dependa da agricultura para a sua subsistência. 40% da população vive com menos de 1 dólar por dia. A desigualdade tem vindo a disparar desde os anos 90, período que coincide grosso modo com o chamado boom de recursos na PNG, com uma minoria a enriquecer, enquanto as condições de vida dos restantes estagnam ou pioram. Algo a que certamente não será alheio o facto de a PNG ser considerada uma das nações com maiores índices de corrupção do globo. A frágil infraestrutura pública está subdesenvolvida e vários indicadores chave em termos de saúde estão em declínio. O Relatório de Desenvolvimento da ONU, que citámos atrás, apesar de assinalar algumas melhorias, conclui “Apesar de 14 anos consecutivos de crescimento económico [o PIB da PNG passou de 3 biliões de dólares em 2002 para 17 em 2014], não houve alterações significativas nos níveis de pobreza do país. Pelo contrário, o nível de desigualdade no país aumentou”.


    This land of Mine

    A ausência de sinais evidentes da prosperidade prometida infelizmente é apenas um dos muitos problemas que têm acompanhado a proliferação de projectos extractivistas na PNG. Tensões sociais potenciadas por estes projectos tornaram conflitos, frequentemente violentos, entre comunidades, governo e empresas comuns. De acordo com costumes tradicionais inscritos em lei, cerca de 97% do território da PNG ainda hoje é detido titularmente pelas comunidades e a relação com a terra é absolutamente central à identidade destas. Este dado tem estado na origem de um sem número de conflitos, onde o Estado central – que frequentemente detém participações nos principais projectos extractivistas, criando um claro conflito de interesses – tem assumido um papel central e, no mínimo, controverso. O conflito na ilha de Bougainville entre 1988 e 1998, em torno da mina de Panguna, representa o momento mais negro de um padrão que infelizmente tem vindo a repetir-se. A maior exploração de cobre do mundo à época, explorada por uma subsidiária da Rio Tinto, esteve no centro da eclosão de um conflito que duraria uma década e que se estima terá custado a vida a 20,000 pessoas, de uma população de 180,000. O conflito incluiu um bloqueio naval da ilha e o uso de forças paramilitares e militares, responsáveis por um sem número de violações de direitos humanos, que incluíram aldeias destruídas, tortura, assassinatos, violações e massacres. Estas operações foram, pelo menos parcialmente, financiadas pela empresa mineira e pelo Estado Australiano, que forneceria helicópteros, pilotos, munições e treino militar. Este padrão de associação de interesses e colusão entre o governo central, empresas internacionais e outros Estados, com a Austrália à cabeça, habitualmente em oposição a comunidades locais, tem-se repetido um pouco por todo o território da PNG, em torno de projectos extractivistas. O uso de forças paramilitares, as mobile squads, para proteger estes projectos – estas também são usadas para guardar os centros de detenção de refugiados que a Austrália ainda mantém no país – e “pacificar” a população local é corriqueiro, bem como a associação destas forças a um catálogo de horrores, amplamente documentado. Entre outros, o mais recente foco de tensão surgiu na província de Hela, onde está centrada uma das maiores explorações de gás natural do mundo, o LNG PNG, a cargo da Exxon, mais uma vez em parceria com o governo da PNG e com financiamento quer do governo dos EUA, quer da Austrália. Em 2012, um relatório da Jubilee Australia, uma organização não governamental focada no combate à pobreza, concluía: “é muito provável que o projecto venha a exacerbar a pobreza, [leve] a um aumento da corrupção e resulte em mais violência”. O relatório revelou-se previsivelmente presciente e, inevitavelmente, forças paramilitares e o exército estão no terreno a proteger o projecto… das comunidades em cuja terra é construído.

    Décadas de devastação ambiental.

    Estes são apenas exemplos de entre os mais graves ou mais recentes, dos muitos casos verificados. Mas se o quadro pintado em termos de progresso e prosperidade social associados ao sector extractivista na PNG é essencialmente caracterizado por tons escuros, já em termos do impacto ambiental do sector, o tom é decididamente negro. O mesmo relatório de 2014 da ONU, define o impacto ambiental da indústria, com o sector mineiro à cabeça, como “massivo” e o “o mais gravoso para o desenvolvimento humano sustentado” do país. Um estudo recente da desflorestação no país, feito ao longo de dois anos e meio com recurso a imagens de satélite, revelou um cenário de destruição muito além das piores expectativas: estima-se que, ao ritmo actual, metade da floresta tenha desaparecido em 2021. A par deste desastre, estão os efeitos directos e indirectos dos muitos projectos de exploração mineira e de hidrocarbonetos, todos sem excepção ligados a impactos ambientais graves ou muito graves e duradouros. Outro estudo recente listava seis sistemas aquáticos na PNG, de entre doze estudados, como estando entre os mais degradados do mundo, devido à actividade mineira. Entre estes estão os rios Ok Tedi e Fly, que oferecem talvez o mais triste exemplo do que a ganância e irresponsabilidade corporativas e governativas produzem. Entre 1984 e 2013, 80000 toneladas por dia (2 biliões no total) de dejectos mineiros foram despejados directamente no Ok Tedi, intencionalmente, pela BHP, que não quis assumir os custos de reconstruir a barragem, danificada por um terramoto em 1984, que os retinha. O resultado foi um dos maiores desastres ambientais da história, que devassou uma área de 3000 km2 ao longo dos 1000 km de rio afectados, impactando 50,000 pessoas, que viverão com os efeitos pelo menos durante décadas. A BHP “ofereceria” o projecto ao governo, seu parceiro, em troca de imunidade relativa às sua consequências. No seu livro, Mining Capitalism: The relationship between Corporations and their Critics, Peter Kirsch, antropólogo da Universidade de Michigan, aborda anos de pesquisa dedicados ao estudo do impacto do desastre do Ok Tedi. Nele compara a noção de “uma mina responsável” à busca “de um animal mítico no qual as pessoas acreditam porque ouviram relatos da sua existência, apesar de ninguém afirmar tê-lo visto”, concluindo que “Em várias ocasiões foi-me pedido que apresentasse um exemplo positivo de um projecto mineiro que cumpriu com os seus compromissos para com as comunidades locais: protegido o ambiente, salvaguardado direitos laborais, assegurado uma distribuição equitativa dos benefícios e preparado adequadamente o encerramento da mina e a reabilitação do local.(…). No entanto, não existem minas que cumpram com eles”.

    No mar, como em terra?

    O legado da indústria extractivista (e mineira em particular) na PNG é claro: após décadas de extracção de recursos e muitos biliões em exportação, o país não só se mantém como um dos mais pobres mas agora também mais corruptos e desiguais, do mundo, a que se soma um rasto de devastação e degradação ambiental e cultural. Pese a especificidade do contexto, não é um retrato incomum. A PNG é um microcosmo de um padrão que se repete pelo globo fora. Por todo o Pacífico, em África e na América Latina ou na Ásia, situações semelhantes são infelizmente a regra e facilmente identificáveis. Na realidade, ao contrário do que se possa pensar, o padrão não é sequer radicalmente diferente nos países ditos desenvolvidos, e aparentemente está prestes a estender-se aos oceanos. O processo a que estamos a assistir em torno da mineração em águas profundas oferece todas as indicações de que estamos perante uma extensão dessas práticas: existe um consenso, admitido inclusive pelos seus promotores, de que não sabemos o suficiente acerca dos riscos e impactos para avançar, e no entanto avança-se. Fazemo-lo, para mais, num momento em que sabemos que o ecossistema global, cuja miríade de relações interdependentes apenas agora começamos a reconhecer, nunca esteve tão frágil. Apesar destas incertezas ou do momento delicado que vivemos, o discurso em torno do tema é indistinguível do que hoje permeia a indústria mineira em terra, ou a dos hidrocarbonetos – prosperidade comum, progresso, sustentabilidade – embora saibamos que esse pouco mais é que marketing: às enormes fortunas geradas pela industria, contrapõe-se essencialmente devastação cultural, social e ambiental, especialmente no Sul global. Apenas num mundo onde um dos maiores fabricantes de armamento, a BAE Systems, pode afirmar sem ironia que “se dedica a diminuir o impacto ambiental das suas operações” é que pode fazer sentido que um sector que se dedica a extrair depósitos minerais que demoraram milhões de anos a formar, possa descrever o seu modelo de negócio como “sustentável”. Quando olhamos para os agentes e processos por detrás e em torno das empresas a encabeçar a mineração submarina, como a Nautilus e outras, encontramos os da indústria mineira. Os principais accionistas da Nautilus, por exemplo, são um magnata russo do sector mineiro, um bilionário do Omã do sector mineiro e petrolífero e a Anglo American, um dos gigantes do sector. A empresa responsável pelo altamente contestado estudo de impacto ambiental (EIA) do projecto Solwara, a Coffey Natural Systems, também assegurou o EIA do projecto PNG LNG da Exxon e o da reabertura da mina de Ok Tedi, bem como o de outros projectos da Chevron, BHP ou Rio Tinto. A sua empresa mãe, a TetraTech, um gigante da engenharia, colabora em milhares de projectos mineiros e tem como principal cliente o governo dos EUA, que por sua vez investiu 3 biliões de dólares no PNG LNG. Para além destes EIA, a Coffey também se especializa em gestão de programas de desenvolvimento, gerindo vários na PNG, financiados quer pelo governo australiano – que também investiu no PNG LNG – quer por empresas dos sectores para os quais realiza estudos de impacto ambiental. Não é por acaso que a Nautilus foi criada na Austrália e posteriormente registada no Canadá – onde o estão registadas 75% das empresas mineiras do mundo e onde um relatório suprimido da própria indústria, a qualificava como a pior em termos ambientais e sociais –, dois países onde o sector mineiro tem um lobby fortíssimo e peso desproporcionado na economia. As “impressões digitais” da indústria global que preside ao “saque” da Papua Nova Guiné cobrem a Nautilus. A ligação entre extractivismo, entendido como a extracção de recursos de qualquer natureza que, não processados ou parcialmente processados, se destinam à exportação e o colonialismo é umbilical e por demais patente na PNG. Esta formulação garante o máximo de retorno ao extractor, deixando uma fracção ínfima dos dividendos e normalmente máxima das consequências na origem. Para funcionar exige uma disparidade de poder entre as partes, que na era moderna é assegurada através de Estados fracos e redes de clientela, que permitem controlar e contornar empecilhos ao “progresso”, como o interesse local ou nacional, a vontade popular ou considerações excessivas com o ambiente, admitindo que hoje em dia se fale sem equívoco da realidade do neoextractivismo e neocolonialismo. A mineração em mar profundo parece querer remover completamente esse empecilho último, colonizando agora o leito oceânico, em sentido claramente contrários aos ideais e ideias por detrás da Lei do Mar, para benefício de uma minoria e prejuízo de todos. À semelhança do que o Acordo de Paris e as suas limitações demonstraram, o que as manobras de Estados em torno da Lei do Mar demonstram, é que há um conjunto de preocupações que se prende menos com o preservar do “património comum da humanidade” e mais com o preservar da rentabilidade de uma indústria, a ditar regras e tempos. Mais, o facto de a “comunidade” internacional estar hoje ainda a lidar em grande medida com imperativos geopolíticos e geoestratégicos de 1982 demonstra algo importante. Que o complexo político industrial formado nos últimos quarenta anos – cujo maior feito terá sido o de consolidar a ideia de que geração e acumulação de riqueza são de alguma forma equivalentes a progresso social – , evidenciado na comunhão de interesses e perspectivas entre elites políticas e corporativas, patente na falta de ambição do Acordo de Paris e no diluir das promessas contidas na Lei do Mar, quer a todo o custo alimentar a ideia de que tudo pode continuar como dantes. Que a solução para o desastre ambiental causada pela exploração dos recursos do planeta é estender os limites dessa exploração. Que o consumo desenfreado e descartável central ao actual modelo pode ser expandido indefinidamente. Estas são as reais questões, evidenciadas nas muitas contradições centrais a esta temática, a que devemos dar resposta. Em vários artigos anteriores sobre política ambiental ou energética temos recorrentemente colocado enfoque sobre as escolhas tomadas em nosso nome, pelo que estas implicam, mas também pelo que revelam. A mineração em mar profundo é uma dessas escolhas, profundamente importante e reveladora. Ao contrário do que os seus promotores querem fazer crer, a mineração em alto mar não responde em última análise a um imperativo, necessidade ou oportunidade, mas sim a uma perspectiva e escolha. A perspectiva de que podemos explorar recursos indiscriminadamente e a escolha entre o que é difícil mas imperativo – reconhecer os custos sociais e ambientais do modelo actual e enfrentar de forma inclusiva, com realismo, visão e ambição os desafios que enfrentamos – ou, dando resposta ao desejo de uma minoria em perpetuar um sistema que produzindo níveis de desigualdade assombrosos – estima-se que, em 2017, cinco homens detenham tanta riqueza, como a metade mais pobre da população humana, 80% da qual vive com menos de 10 dólares por dia – ameaça a curto prazo transformar radicalmente para pior e de forma irreversível, este “património comum da humanidade”, o planeta em que vivemos.

    Nos próximos artigos desta série iremos analisar a fundo de forma detalhada a mineração submarina e o seu contexto, bem como o papel que o Governo Português e a União Europeia querem reservar para os Açores nesse quadro.

  • Onde há fumo há mais do que fogo

    Onde há fumo há mais do que fogo

    422 carros destruídos: não há precedente para o incêndio que no verão passado varreu o estacionamento do festival Andanças, em Castelo de Vide. Mas se nesse 3 de agosto as imagens dos media se obcecaram com a desolação material, no festival prosseguia a música e a dança. Ofereciam-se roupas e tendas, abraços e boleias. Semanas depois, surgia a Ajudada, uma rede informal de solidariedade e apoio-mútuo. Nas vésperas do Andanças 2017 e do final da Ajudada, uma história de como perante uma dificuldade há mais do que o egoísmo humano a vir à tona. Uma história de como as pessoas se podem organizar de forma criativa e solidária – alternativa à logica do mercado (seguradoras) e do estado (tribunais). Esta é a história que ficou por contar.

    É o terceiro dia do Andanças. É a terceira vez que Julien faz o vaivém entre o festival e o estacionamento. Estão 40 graus, o jovem artista plástico está exausto e de coração partido – e prepara-se para abandonar a meio o festival onde já trabalha, voluntariamente, há um mês. Mas a caminho do estacionamento, onde o carro já está cheio e pronto para partir, vê uma coluna de fumo negro.

    Impossível saber como começou. Próximo do local, Paulo descobre várias viaturas a arder. Desiste de salvar a sua, desiste de voltar ao festival para perto dos filhos, e junta-se de imediato aos cordões humanos que se formam. Como Julien, em pânico, “chegavam muitas pessoas a correr para tentar salvar os carros”. Travam-nas e afastam-nas para longe do perigo. “Muitas vezes parando e consolando-nos uns aos outros”, recorda Paulo, também ele voluntário. “’É só um carro… O meu também ardeu’”.

    O festival de música e dança popular é evacuado por precaução, numa serenidade que contrasta com a voracidade das chamas. “Sem tempo para pensar”, enquanto o seu carro arde, Paulo junta-se às equipas que verificam o recinto e abrem cada tenda a garantir que ninguém fica para trás. Pelo menos garante que os seus filhos saíram.

    Quando a protecção civil chega já a multidão está em segurança, ao longo da estrada da barragem de Póvoa e Meadas. Vários músicos haviam trazido consigo os instrumentos. Ali, longe do descompasso das explosões e da negra cortina de fumo, surgem valsas, quadrilhas e mazurcas. Com carrinhas de caixa aberta Paulo e a organização distribuem água, melancias, pêssegos pela multidão. Por fim, o reencontro com os filhos: “As crianças lá estavam com os adultos a fazer brincadeiras, cantorias e danças. Foram poupadas àquelas imagens que correram o país.”

    Não há qualquer vítima, nem floresta queimada – mas em hora e meia tinham ardido 422 carros. Chegam televisões e fotógrafos e refastelam-se com o fumegante cemitério automóvel. “Nunca tinha acontecido nada assim em Portugal, nem aparentemente na Europa”, observa Graça, uma das coordenadoras do festival. “Os jornalistas iam à procura do drama, e ficavam tristes por não encontrar ninguém aos berros”.

    Acabo de perder o carro. Em que posso ajudar?”

    Face aos problemas – como iríamos voltar, como nos iríamos arranjar sem carro – as perguntas dos meus filhos eram do estilo: A que workshops podemos ainda ir hoje? Podemos ir ver o carro? O que é o jantar?”, conta Paulo. “Tudo se iria resolver a seu tempo.” Apenas três horas após a evacuação, recomeça o festival.

    Artistas e técnicos que acabavam de perder o carro, outros sem saber ainda se o seu estaria entre os destruídos, correm para o recinto – para receber o público de volta com música a tocar nos palcos. Uma avalanche de voluntários mete ordem nas coisas que tinham sido abandonadas como estavam. Não há qualquer dano ou roubo.

    Há pouco, Eva não continha as lágrimas ao ver arder o carro que tinha sido do seu avô. “O meu primeiro e único carro! Tinha-o há 3 meses bem vividos.” Agora, alguém a lembra que está programada para tocar esta mesma noite. Não pensa duas vezes: “Claro, vamos embora!” A concertina, instrumento da sua vida, está sã e salva.

    O concerto foi uma experiência fortíssima”, lembra Eva. “Foi uma forma de me libertar e de poder dar algo às pessoas, algum conforto com a música.” Quase toda a gente tem um amigo que perdeu o carro e os bens que este continha. Julien não pára de chorar. “As pessoas estavam sempre a olhar por mim, com compaixão. Sorriam, abraçavam-me. E eu sentia essa compaixão ao ver outros chorar. Havia uma extrema beleza e solidariedade”. Uma reunião junta toda a gente num palco: lesados, organizadores, protecção civil. “Descobri que eram quatrocentas pessoas como eu!”.

    Psicólogos que desfrutavam do festival juntam-se voluntariamente à organização para apoiar as pessoas mais perturbadas. “Músicos que perderam todos os instrumentos foram mesmo assim dar workshops logo a seguir ao incêndio”, recorda Paulo. “Qualquer pequena coisa que pudéssemos fazer por eles representou imenso para nós”. Outros artistas, também tendo perdido o carro, juntam dinheiro a vender os poucos cds que não haviam ardido – e doam-no a quem mais precisa.

    Os filhos de Paulo fazem desenhos para o grande placard que logo surge na entrada com dezenas de pedidos e ofertas de boleias. Oferecem-se tendas e sacos-cama. “As pessoas juntaram um monte de roupa de que nos podíamos servir”, diz Julien, que para além de toda a roupa perdeu valiosos materiais de trabalho. “Numa das lojas de roupa o comerciante disse-me: ‘leva o que quiseres’.”

    O desenrolar da história tem um preâmbulo: o incêndio deflagrou no estacionamento de artistas e voluntários, pessoas mais próximas daquilo que referem, repetidamente, como “o espírito do Andanças”.

    O Andanças faz parte das férias com os meus filhos”, explica Paulo, “são ali vividos intensamente valores como partilha, alegria, respeito pelas pessoas e pela natureza”. “É a minha segunda casa”, conta Eva. “Desde miúda é um mundo onde me sentia livre.” O festival abriu-lhe as portas para a música tradicional europeia e de miúda na plateia passou a artista no palco. “Desde 2009 toco todos os anos. É o único sítio onde volto sempre.”

    É noite de encerramento do Andanças e Eva actua uma última vez. É o concerto menos ensaiado que já deu: 1,2,3 Soleil devia ser um trio mas, depois do que acabam de viver, junta-se no palco uma multidão de músicos em catarse.

    Vai uma Ajudada?

    Como Eva, Julien ou Paulo, são centenas de histórias. “Para algumas pessoas a perda dum carro desequilibra-as financeiramente de modo terrível. Ficaram com situações muito dramáticas. Há quem não viva nas grandes cidades e dependa do carro para fazer tudo”, testemunha Rui, antigo coordenador no Andanças.

    As seguradoras tentam desmarcar-se ao máximo”, ri Eva. “Mesmo quem tinha seguro contra todos os riscos, por vezes havia cláusulas que excluíam acidentes destes.” Numa operação de marketing, uma seguradora decidiu ressarcir todos os clientes. Outras arrastam processos até hoje. O seguro do festival só actuaria se houvesse responsabilidade da organização – e o ministério público concluiu não se poder imputar responsabilidade a ninguém. Nas televisões surgiu um advogado representando diversos lesados e prometendo atacar judicialmente os organizadores.

    Alguns de nós sentimos que tínhamos de fazer algo”, conta Rui. Hoje, é um dos dinamizadores voluntários da Ajudada: uma rede autónoma de solidariedade e apoio-mútuo que junta lesados e amigos do Andanças. A ideia é disponibilizar apoio psicológico, legal, financeiro ou material, partilhar boleias, emprestar instrumentos musicais… Fizeram reuniões de norte a sul. Criaram uma linha de telefone de apoio. Abriram uma conta bancária comum – “procurámos um banco solidário, mas em Portugal ainda não existe” – e são os próprios lesados a geri-la e a decidir em conjunto os critérios de distribuição do dinheiro angariado.  Em maio, subiram ao palco do Festival Ajudada em Lisboa os artistas que perderam o carro e os bilhetes foram para apoiar os lesados que mais precisavam. Já em novembro acontecera no Centro Social Autogestionado La Tabacalera em Madrid o “Solidanza”, um festival semelhante para apoiar músicos espanhóis.

    Há um espírito que nos une que é contracorrente. É mais fácil as pessoas acomodarem-se à queixa, apontar dedos e ir a tribunal. É o que está instituído na nossa cultura. Esta é uma nova forma de olhar o mundo. Ninguém queria que o incêndio acontecesse. Todos juntos, podemos colaborar para a melhor solução possível, numa perspectiva de responsabilidade social alargada.”

    Ajudada” alude a uma prática ancestral comum em zonas rurais, quando a comunidade se juntava para dar apoio nos trabalhos agrícolas de uma propriedade. Uma ajuda de todos a cada um onde homens, mulheres, crianças e anciãos tinham todos sua tarefa. Foi também o nome de um encontro em Portalegre em 2013, ano em que o Andanças se mudou para a região, que se propunha pensar um novo modelo de economia, a partir da comunidade, da dádiva e da partilha.

    As Ajudadas representam muito, nesta época de individualismo feroz”, diz Paulo. “É uma iniciativa linda”, elogia Eva, que actuou no Festival Ajudada com o grupo Ó Chibinha, e que quando precisou obteve através da rede um carro emprestado.

    Na recta final da iniciativa, que dura até ao próximo Andanças – edição mais pequena, de 8 a 11 de Agosto em Castelo de Vide –, Rui reconhece que a Ajudada não teve o impacto mediático ou a massificação da ajuda que desejava. Considera também que o grupo de lesados que procurou ser indemnizado de forma mais convencional, indo a tribunal, cindiu um pouco o movimento. “Se estivéssemos todos juntos tínhamos eventualmente conseguido mais, nomeadamente junto das seguradoras.”

    E, ainda assim, não desarma sobre a relevância da Ajudada. “É um exemplo duma forma criativa e construtiva de nos ajudarmos uns aos outros. Queremos ajudar a tornar isto tanto quanto possível um caso positivo para situações futuras. É como uma vela que a gente acendeu, e o campo abriu-se.”
    Mais informação sobre a rede Ajudada

    Qualquer pessoa pode contribuir para o fundo comum da Ajudada através do NIB/IBAN – PT50019300001050077440082.

    Caixa à parte: Menos um carro”

    É quarta-feira e é a primeira vez que a Cicloficina dos Anjos abre num lugar que não a Recreativa dos Anjos em Lisboa. Estamos no festival Andanças, acaba de haver um incêndio e tresanda a carros queimados.

    Para cá chegar, organizaram o Pedalanças – uma “viagem ambientalmente sustentável e tão próxima da natureza quanto possível”, três dias de bicicleta para desfrutar sem pressas das paisagens.

    Os autocolantes que se distribuíam na banca parecem de repente de mau gosto e são retirados: “Menos um carro!”, lê-se.

    Desta oficina comunitária onde todos os dias os participantes do festival podem arranjar bicicletas e aprender a fazer remendos, Carlos testemunha agora “uma solidariedade incrível”. “Também houve pessoal que entrou em pânico e bazou. Mas o acidente uniu muito mais a família Andanças. Com o tempo as pessoas lesadas começaram a perceber que há coisas bem piores, que foi só um carro. E algumas apareceram pela cicloficina, lamentavam não ter vindo de bicicleta e pediam “Ainda têm aqueles autocolantes? Quero levar um.”

    Este ano volta a haver Pedalanças. “Estamos à espera de muito mais pessoas!”, afirma Carlos.

    Francisco Colaço Pedro
    As fotos são cedidas pela Associação PédeXumbo