Categoria: Destaque

  • Os Rohingya e os conflitos no Myanmar

    Os Rohingya e os conflitos no Myanmar

    rohingya

    Nos últimos anos, a República da União de Myanmar (antes conhecida como Birmânia) tem sido palco de uma das maiores crises humanitárias jamais vistas, com cerca de 600.000 pessoas deslocadas até à data. Esta crise, consequência de uma longa série de eventos históricos, motivada por sentimentos identitários – religiosos, nacionais e étnicos – e perpetuada por forças políticas, económicas, militares e religiosas, integra vários atores entre os quais o governo, as forças militares e as comunidades budistas e muçulmanas do país. A brutalidade da violência praticada, assim como o silêncio e a cumplicidade do governo do Myanmar, tem chamado a atenção da comunidade internacional, de várias organizações não-governamentais e dos media pelo mundo fora.

    Contextualização Histórica

    A condição que hoje se vive na República da União de Myanmar deriva de uma série de acontecimentos políticos e sociais complexos. Para entender melhor a sua situação presente é necessária uma contextualização histórica, com um foco especial sobre o estado de Rakhine (antes conhecido como Arakan), salientando alguns momentos críticos da História que levaram ao actual conflicto.

    O último reino de Rakhine viu o seu fim em 1785, data em que foi anexado ao reino da Birmânia. De imediato surgiram as primeiras tensões étnicas na zona, com os muçulmanos a serem sujeitos a trabalho forçado. Contudo, apesar deste território ter um rico passado histórico, os seus problemas actuais derivam em grande parte do período de domínio colonial inglês, um período importante para a compreensão dos conflitos no Myanmar.

    rohingyaEntre 1824 e 1826 dá-se a primeira guerra entre a Inglaterra e a Birmânia e a região de Arakan é anexada à Índia Britânica. Com a anexação, e com a expansão do cultivo do arroz, aumentou o número de imigrantes muçulmanos (“Bengali Muslims”). Isto levou à alteração dos padrões sociais da região, com estas populações a tornarem-se alvo de segregação racial. Durante o seu domínio, que só começou oficialmente em 1885, os Britânicos procederam à dissolução da monarquia e à separação de poderes entre o estado e a religião, levando os monges budistas a perderem o seu prestígio e a sua posição oficial privilegiada. As noções de poder secular derivam de especificidades históricas do ocidente, moldadas por culturas cristãs e por ideologias políticas modernas ocidentais e demonstraram-se pouco adaptáveis às culturas locais. Apesar da disseminação destas ideias pelos regimes coloniais, as culturas asiáticas compreendem, muitas vezes, visões diferentes da divisão entre o poder humano e o divino. Esta diferença cultural radical tornou-se imediatamente um polo de tensão visto que a identidade nacional do Myanmar se encontra profundamente enraizada na religião budista.

    O impacto nefasto da colonização britânica não ficou por aqui. A imposição de diferentes formas de governação por todo o país, com um governo direto no centro da Birmânia e indireto nos estados circundantes , fragmentou-o ainda mais, com terríveis consequências nas relações étnicas internas. Mais tarde, durante a Segunda Guerra Mundial, o Japão invadiu o território, levando os Rakhine a apoiarem os japoneses enquanto os Rohingya, com o objetivo de criar um estado muçulmano independente dentro da Birmânia, assumiram o lado dos britânicos. Isto levou a confrontos violentos e massacres entre os dois grupos, que terminaram por contribuir, ainda mais, para a segregação das comunidades muçulmanas. Em 1948, com o final da Segunda Guerra Mundial, a Birmânia tornou-se independente. Após um processo de descolonização rápido, e que teve em pouca consideração as relações étnicas internas, o país foi dividido em quatro partes e em grupos étnicos dentro destas. No mesmo ano deu-se a Revolução Comunista. Por esta altura, um pequeno grupo de muçulmanos organizou-se para levar a cabo um plano de anexação da parte norte de Rakhine. Na resposta este movimento viu os seus líderes assassinados e os seus apoiantes presos.

    Em 1959 os Rohingya foram reconhecidos como uma raça indígena do país e em 1960 votaram nas eleições nacionais. Porém isto foi sol de pouca dura, já que em 1962 o General Ne Win e o seu exército voltam a tomar o poder através de um golpe de estado. Com este golpe foram banidas todas as organizações políticas que se pudessem opor ao novo regime e instituíram-se novas políticas que negavam a cidadania aos muçulmanos, num processo de “Birmanização” que visava uniformizar uma identidade nacional, assimilando e oprimindo as minorias do país. Para além do agravamento das tensões causadas pelo novo regime militar, em 1971, com a guerra no Paquistão Oriental (que levou à criação do Bangladesh), um total estimado de 17.000 refugiados migraram para Arakan. Três anos depois, em 1974 Arakan ganhou o estatuto de estado. Esta nova constituição, que persiste até hoje, dividiu a nação em sete estados étnicos.

    rohingya

    Entre 1977 e 1979, em resposta a um novo movimento migratório, o governo militar socialista da Birmãnia colocou em acção uma operação contra a “imigração ilegal” – “Operation Naga Min” – intimidando e forçando 200.000 muçulmanos a escapar para o Bangladesh. Durante esta operação, os Rohingya passaram a ser considerados imigrantes ilegais, tendo a Lei de Cidadania de 1982 fixado este estatuto ao excluí-los da lista das 135 etnias oficiais da Birmânia. Em 1989 a Birmânia mudou o seu nome para Myanmar, alterando também o nome do estado de Arakan para estado de Rakhine, com novos cartões de identidade que excluíam a maioria dos Rohingya. Um ano depois o país teve eleições livres, formaram-se alguns partidos muçulmanos e alguns representantes desta etnia foram eleitos. No entanto ,o regime ditatorial manteve-se e este povo passou a ser considerado uma ameaça para o estado.

    Em 1991, uma nova operação – “Operation Pyi Thaya (Operation Clean and Beautiful Nation)” – levou cerca de 250.000 pessoas a fugir das suas terras de novo para o Bangladesh. Durante esta década, o exército aumentou a sua presença na parte norte do estado de Rakhine e foram impostas leis que restringiam os casamentos, as certidões de nascimento ou a liberdade de movimento dos Rohingya.

    Duas décadas depois reavivou-se o conflicto. O ano de 2012 foi particularmente violento no Myanmar, ficando marcado por duas vagas de tumultos entre as comunidades Rahkines e Rohingya, desencadeados pela violação e assassinato de uma rapariga budista, alegadamente por parte de um grupo de homens muçulmanos. Nos conflictos morreram 200 pessoas e cerca 140.000 Rohingya abandonaram as suas casas. Este foi o ano de maior violência no Myanmar desde a sua independência. Em 2015, deram-se as primeiras eleições consideradas livres no Myanmar, que levaram Aung San Suu Kyi e o seu partido NLD à vitória.
    Já em 2016 e 2017, vários postos policiais em Rakhine na fronteira entre o Bangladesh e o Myanmar foram atacados pelo grupo Arakan Rohingya Salvation Army (ARSA). A estes ataques o exército de Myanmar respondeu com “operações de limpeza” que passaram pelo incêndio de cerca de 200 aldeias e locais de comércio dos Rohingya, com o assassinato a tiro de vários civis, detenções arbitrárias, torturas e violações. Em Setembro de 2017, cerca de 400.000 pessoas (dos quais dois terços mulheres e crianças) estabeleceram-se em acampamentos improvisados no Bangladesh, junto à fronteira.

    rohingyaDesde aí a situação no Myanmar (e no Bangladesh) encontra-se fragilizada, com a comunidade internacional a pressionar o governo do país para que tome medidas contra as atrocidades cometidas pelo seu exército. As ocorrências levaram as Nações Unidas a reconhecer o caso como um exemplo clássico de “limpeza étnica”, com o governo de Aung San Suu Kyi, laureada com um Nobel da Paz em 1991, a pôr em causa as acusações e a negar os acontecimentos.

    Etnia, Religião e Nacionalidade

    Embora os conflitos étnicos permeiem a história do Myanmar estes nem sempre tiveram uma carga política. Muitos defendem que foi com o advento do colonialismo no país, com a imposição de políticas e categorizações étnicas (“dividindo para conquistar”) e com as diferentes formas de governo colonial já referidas que a etnicidade se politizou. O regime colonial incumbiu-se de impor um sistema classificatório étnico superficial, alterando sucessivamente os seus critérios, passando pela casta, religião, língua e até pelas marcas de nascença. Ao serem “essencializadas” estas categorias étnicas, todo o sistema classificatório revelou-se pouco funcional, já que se podia transitar facilmente entre diferentes classificações.

    O regime pós-colonial não foi mais eficaz na sua redefinição das categorizações étnicas. A “etnia” mantém-se até hoje um conceito mutável; porém, o que ficou efetivamente definido foi uma distinção clara entre as etnias indígenas do Myanmar (taingyintha ou “filhos da terra”) e as etnias provenientes da China e dos restantes países do Sul da Ásia, entendidas como estrangeiras. É aqui que se notam as profundas relações que existem entre identidade étnica e identidade nacional no Myanmar, valorizando-se o taingyintha sobre a restante cidadania.

    A religião também desempenha um papel central nos processos de criação de identidade étnica e nacional, pelo que estas se misturam e sobrepõem. A religião dominante no Myanmar é o Budismo e a sua associação com a nacionalidade tornou-se particularmente visível quando o primeiro ministro U Nu a declarou religião oficial da nação, dotando formalmente os monges budistas de autoridade política. Esses mesmos monges, por sua vez, evidenciam a coincidência entre religião, etnia e nacionalidade com o seu lema “ser birmanês é ser budista”. Esta justaposição tem vindo a ser confirmada e reforçada com as recentemente instituídas leis de proteção da raça e religião.

    O Estado e o Budismo – Ódio Institucionalizado

    No Myanmar as esferas religiosas, políticas e económicas encontram-se intimamente relacionadas. A classe monástica budista – Sangha – foi a única instituição cultural a sobreviver à última guerra anglo-birmanesa em 1885 e é, desde então, um símbolo de resistência contra o colonialismo. Todos os governos birmaneses desde a independência recorreram à Sangha para ganhar apoio e mobilizar a população. Usado na construção de uma identidade nacional o budismo é também utilizado como legitimador político em momentos de crise sendo instrumentalizado pelos governos para assimilar e integrar minorias étnicas, através de conversões forçadas. A invocação de sentimentos nacionais budistas é usada para desviar a atenção de crises na agricultura, no sector bancário e até para evitar manifestações contra o governo. Deste modo, ao instigar a violência contra os “outros” e, estando protegidos pelo estado, os monges têm tido um papel central na perpetuação da estigmatização e da violência contra os muçulmanos no Myanmar.

    rohingyaA inter-relação entre o Sangha e o Estado é particularmente visível através de dois movimentos nacionalistas e religiosos: o 969 e o Ma Ba Tha. O 969 é um grupo de monges budistas e de seus seguidores, congregados por uma forma de etno-nacionalismo extremo, com uma base ideológica de ódio pelo Islão. O líder do grupo, Ashin Wirathu, apela ao boicote de negócios geridos por muçulmanos, refere-se às mesquitas como “bases inimigas”, apela à proteção de mulheres budistas contra violadores muçulmanos e é um defensor das leis que restringem casamentos entre budistas e muçulmanos. O Ma Ba Tha, que inclui membros do 969, é explicitamente mais político e tem como objetivo a “proteção e promoção” do budismo através do combate ao Islão, assumido-o como a maior ameaça ao Myanmar budista.
    Devido ao apoio do Estado e à posição de privilégio de que desfrutam, a mensagem dos monges dificilmente é posta em causa. Deste modo, o budismo extremista e as suas expressões de ódio racial e religioso são aceites e abertamente encorajadas, e os seus opositores são reprimidos.

    Esta descriminação encontra-se institucionalizada no Myanmar, com a maioria budista a decidir a quem pertence à nação, negando a cidadania e direitos básicos aos Rohingya. Embora o termo “Bamar” seja hoje exclusivamente reservado para budistas, este já incluiu alguns grupos muçulmanos em certos momentos do passado, durante os quais os nacionalistas necessitaram do máximo apoio possível. Para concluir, e fazendo uso do conceito de Benedict Anderson de nação enquanto comunidade imaginada, o Myanmar é hoje uma comunidade que se imagina sem os Rohingya. Vive-se hoje, possivelmente, um dos períodos mais difíceis para os muçulmanos no Myanmar, cuja identidade e integridade se encontram sob constante ameaça. Com a violência a escalar ao nível do que alguns chamam “limpeza étnica” e outros “genocídio”, esta situação faz lembrar outros momentos sombrios da História, tais como a Alemanha nazi e o genocídio no Ruanda. Reconhecendo que a situação no Myanmar se encontra em desenvolvimento, impossibilitando afirmações conclusivas, resta apenas esperar que, tanto a comunidade internacional como o governo local trabalhem em conjunto com a população local para pôr fim à situação deplorável em que hoje centenas de milhares de pessoas vivem.

    Texto de Guilherme Figueiredo [guilherme.r.t.figueiredo@gmail.com]
    Fotos de United to End Genocide

     

  • Mãos à Terra

    Mãos à Terra

    Afinal o que podemos fazer? Para plantar uma árvore ou criar um projecto de plantação, não existe uma solução milagrosa para todas as situações. Cada caso é um caso. Antes de avançarmos para o terreno à que entender bem o que queremos, quais os nossos objectivos, a paisagem onde estamos, as características do solo e do clima. Pensando apenas na plantação de espécies perenes (não hortícolas) este “manual de boas práticas” é guiado por uma série de questões que pretendem ajudar a orientar a nossa iniciativa. O passo seguinte será por numa balança os dados que conseguimos recolher e ponderar a melhor solução para os nossos objectivos.

    maosaterra
    Clique na imagem para ver maior

    Primeiras tarefas em áreas que tenham sofrido um incêndio

    Proteger o solo

    O solo é a base da vida, mas é repetidamente negligenciado. O solo é um recurso não renovável, pelo menos em termos da nossa escala temporal. Os melhores solos agrícolas já estão  ocupados e todos os anos se perdem áreas de solo pela erosão, perda de matéria orgânica e compactação, e claro, pela expansão e dispersão urbanas.
    Porque a vegetação tem um papel fundamental na protecção do solo,  promovendo a infiltração equilibrada da água e evitando a sua escorrência superficial, os incêndios florestais contribuem para a perda de solo e provocam a destruição das suas propriedades químicas e actividade biológica.

    O que fazer?

    Criar barreiras nas zonas de escorrência logo após os incêndios. Estas podem ser feitas com barrotes de madeira (podendo utilizar-se algum do material queimado) dispostos na perpendicular da linha de declive do terreno, reduzindo a energia dos escorrimentos de água, minimizando assim perdas de solo e contaminação de linhas de água.

    Aguardar e avaliar a reacção da vegetação. Podem ser feitos alguns trabalhos de limpeza de material queimado, mas há que evitar a  mobilização do solo e intervenções com maquinaria pesada nos primeiros tempos. Qualquer intervenção a ter que se realizar com máquinas deve sempre respeitar a topografia e trabalhar segundo as curvas de nível, minimizando a erosão e a perda de solo e nutrientes.

    Evitar a queima de biomassa e a remoção desta dos terrenos. É preferível triturar a biomassa e depositá-la no chão, envolvendo a vegetação existente e entre linhas de plantação, se for caso disso. Fazer sementeiras de prado nas áreas queimadas pode acelerar o processo da regeneração vegetal, evitando perdas de solo, principalmente nas primeiras chuvas após os incêndios.

    Não considerar a vegetação espontânea um «inimigo», mas sim um aliado que, bem gerido, aumenta a resiliência do terreno face aos fogos.

    O que plantar?

    A escolha das espécies a utilizar resultará da análise dos nossos objectivos e das características do sítio. A planta certa no local certo. As plantas evoluíram ao longo de gerações adaptando-se às características locais. Como tal a escolha de espécies autóctones é sempre uma ajuda para aumentar o sucesso da nossa plantação.

    No caso de árvores de fruto, a opção por fruteiras tradicionais traz as vantagens da selecção feita pelas pessoas ao longo de muitas gerações, ao contrário das novas fruteiras apenas focadas na produtividade e na utilização de fertilizantes/herbicidas/pesticidas.

    Ponderar os vários estratos que podem constituir a vegetação – árvores, arbustos, herbáceas – enriquecendo a biodiversidade vegetal e contribuindo para criar espaços diferentes para a avifauna local, que virão a ser parceiros na manutenção de um espaço mais saudável e sustentável.

    As árvores são seres que podem viver mais do que nós. É essencial termos isso em conta antes de tomar a decisão das espécies a plantar.

    Qual o objectivo?

    Plantar uma(s) árvore(s) para contribuir para a recuperação/enriquecimento de um espaço natural, ou construir ou melhorar um jardim.
    Planear uma área com vista à auto-subsistência ou com vista a produção económica.

    Quais as características do local?

    Há que saber no clima a precipitação (média anual e sazonalidade) e a temperatura (máxima e mínima e a presença ou não de geada). No solo há que saber a textura, profundidade, percentagem da matéria orgânica e pH. E na água o lençol freático e a origem de água da rega.

    Como obter as plantas?

    Comprar em viveiro, por um lado, facilita, mas por outro nem sempre conseguimos o que pretendemos. Sem esquecer que, por vezes, as espécies são mal classificadas.

    Assim recolher sementes, germinar e engordar para depois plantar, pode exigir saber identificar as espécies no campo, mas é a única forma de garantirmos que o que plantamos provem de espécies locais ou próximas.

    Como plantar?

    A época do ano pode influir no sucesso da plantação. No geral, Outono e final do Inverno são boas épocas, garantindo alguma precipitação após a plantação e evitando geadas. No caso de árvores caducas é conveniente aproveitar a fase em que não têm folhas, pois estas encontram-se num período pouco activo.

    Consoante os nossos objectivos, podemos plantar de forma isolada, agrupar as plantas em conjuntos, formar linhas, etc. Fazer a cova de forma a que o torrão da planta tenha o mesmo espaço para todos os lados, inclusivamente para baixo.  Garantir alguma permeabilidade no fundo e nas laterais da cova, picando o solo, para optimizar a escorrência de água e evitar o afogamento das raízes.

    Regar bem a planta antes de plantar. Evitar a exposição das raízes ao sol e calor.  A planta não deve ficar com o colo nem enterrado nem acima da superfície.

    Preencher o buraco com a terra retirada. Se a terra não parecer boa juntar terra vegetal com bastante matéria orgânica e/ou adubo bem decomposto, sem cheiros, caso contrário pode queimar as raízes. Calcar a terra após plantar e regar em abundância, evitando bolsas de ar entre o torrão e o solo. Garantir a existência de uma caldeira permitindo melhor retenção da água quando se rega, a acumulação de águas da chuva e mesmo da humidade atmosférica.

    A colocação de hastes pode ser vantajosa em casos de plantações em terrenos ventosos. A utilização de protectores pode ser útil para evitar danos provocados por alguns animais e pode facilitar trabalhos de manutenção.

    Cobrir a caldeira com material orgânico, como estilha de madeira, para minimizar perdas de humidade.

    Controlo da vegetação existente

    A principal actuação para o combate integrado dos incêndios é a criação de áreas corta-fogo. A diferença entre estas áreas corta-fogo e os corta-fogos comummente usados é a de que nas primeiras a vegetação não é eliminada na totalidade, apenas se reduz a massa combustível, diminuindo a quantidade de vegetação arbustiva e subarbustiva. Estes espaços, variáveis em largura e comprimento, têm por finalidade modificar o comportamento do incêndio, retardando-o. Estas áreas podem ser mantidas recorrendo-se ao pastoreio com gado rústico, mantendo um meio com menos combustível e favorecendo a presença de raças locais e outros produtos de interesse das populações. Uma solução mais amiga dos ecossistemas naturais e humanos, requerendo menor manutenção e uso de maquinaria do que os corta-fogos «tradicionais».

    Recolher e germinar espécies autóctones

    Carvalhos, sobreiros e azinheiras

    A reprodução é semelhante para os vários Quercus: recolhem-se no Outono quando as bolotas se apresentam castanhas directamente da árvore ou do chão (caídas recentemente, quando ainda estão rijas). Semeiam-se logo cobrindo ligeiramente em recipientes individuais.

    Aveleira

    Recolhem-se as avelãs no final do Verão e semeiam-se a meio do Outono. É aconselhável escarificar antes de semear (desgastar um pouco a casca).
    Podem ser reproduzidas por estaca, podendo assim garantir avelãs doces. Recolher estacas de ramos do ano, com casca de aspecto saudável e com 3 a 4 nós, garantindo que fica pelo menos um enterrado e um acima do colo.

    Lavandulas

    Recolher as inflorescências (flores) quando começam a secar (sacudir para ver se já caiem as sementes, que são pequenas e de tom acinzentado/castanho). Semear cobrindo ligeiramente, colocando 3 sementes por recipiente.

    Azevinho

    Recolher os frutos quando vermelhos no Outono. Retirar a pele e limpar bem as sementes da polpa em água, aproximadamente 5 por baga. Podem demorar até 2 anos a germinar.

    Amieiro

    Recolher os frutos (pequenas «pinhas») no Outono, quando estão já lenhosos e castanhos. Sacudir para libertar as pequenas sementes, semeando logo e cobrindo ligeiramente.

    Estevas e afins

    Recolhem-se os frutos, cápsulas lenhosas que se formam no centro do que foi a flor, no Verão. Abrem-se, fazendo uma ligeira pressão, libertando as muitas e pequenas sementes de cor escura. Convém escaldar as sementes antes de semear (como na preparação de uma infusão).

    Salgueiros

    Recolher as sementes dos amantilhos antes que comecem a libertar-se (penugem branca com as sementes agarradas). Semear logo.
    Pode ser feito por estaca no Inverno. Recolher estacas de ramos do ano, com casca de aspecto saudável e com 3 a 4 nós, garantindo que fica pelo menos um enterrado e outro acima do colo.

    Medronheiro

    Recolher os frutos quando maduros no final do Outono (bons para comer). Desfazer numa pasta, passar numa peneira com água corrente e deixar secar. Espalhar num tabuleiro e cobrir ligeiramente.

    Pilriteiro

    Recolher os frutos quando vermelhos no final do Verão. Limpar bem as sementes da polpa em água. Deixar em água 1 a 2 dias antes de semear. Podem demorar até 2 anos a germinar. Também se pode desgastar um pouco o invólucro das sementes, facilitando a penetração da água e consequente despoletar da germinação.

    grafico1
    Clique na imagem para ver maior

    Textos de João Gomes [jpengomes@gmail.com]
    Ilustrações de Huma

  • Uma história de autogestão no renascer das cinzas

    Uma história de autogestão no renascer das cinzas

    Entre-ajuda e auto-gestão na zona de Benfeita/Arganil. Da forma como uma vibrante e diversa comunidade de pessoas ali instaladas nos últimos anos tem lidado com o incêndio devastador do ultimo verão (ajudadas regulares, crowdfundings colectivos, criação de oficina de ferramentas comunitárias e lojas grátis, jantares populares, etc).

    Benfeita/Arganil

    Os incêndios do outono passado foram a maior catástrofe de que há memória em Luadas e Benfeita, na Serra do Açor. Foram também um convite às suas habitantes – naturais da região e a recém-chegada comunidade internacional – a cuidar da terra e umas das outras.

    Na encosta pintada a cinza, entre o canto ensurdecedor do riacho e dos pássaros, sobressai uma yurt de chaminé fumegante. Em outubro passado, a casa da Mara foi salva por milagre, entre cinco oliveiras em chamas. Agora o fogo limita-se à salamandra, no aconchego interior. «Lutámos até ao fim», lembra a jovem holandesa, que há três anos se instalou aqui em Luadas, no meio da Serra do Açor, região de Arganil.

    Da yurt atravessamos as hortas às quais vem dedicando a vida. Até aos incêndios, era das caixas de legumes vendidas semanalmente que tirava um magro rendimento. Descendo o carreiro de enxada às costas, um octogenário de Luadas saúda Mara carinhosamente. «Tens de dar mel às abelhas!», aconselha, face à penúria de flores. «O Senhor Ângelo adoptou-nos. Ensinou-nos tanto! É a pessoa mais generosa e genuína que já conheci».

    Benfeita/ArganilPelos vales de Benfeita, rompendo um cerco de monoculturas e desertificação, são cerca de 100 adultos e 40 crianças que se instalaram nos últimos anos, procurando uma vida simples e conectada com a natureza. «Há pessoas da Argentina, Japão, Itália, França… Cada um traz a sua energia, a sua cultura, a sua comida, a sua música…  É super colorido», conta Wendy. Mãe solteira com três crianças, trocou em 2010 uma vida de permanentes contas para pagar na Escócia por uma quinta entre Luadas e Benfeita ( permaculturinginportugal.net), onde cultiva a sua comida, experimenta com bioconstrução e energias alternativas. «Foi este lugar que me descobriu a mim. Há uma mistura de estrangeiros e jovens portugueses a regressar ao campo, projectos de permacultura e coisas incríveis a acontecer».

    Em outubro, quase todo este inusitado mundo auto-construido em anos de ardor, feito de yurts e ruínas reconstruídas, pomares e fornos a lenha, esvaneceu-se em cinzas. Vinte e duas famílias perderam a casa. É caída a noite que Mara ousa dar os seus passeios pelo bosque: «Não vês o queimado». Noventa por cento da floresta, incluindo boa parte do oásis de biodiversidade da Mata da Margaça e quase toda a área agrícola, arderam.
    «Mas a natureza vai regenerar-se – e nós vamos ajudá-la». Do tronco chamuscado dos castanheiros, brotam rebentos verdejantes. Da tragédia, germinam as manifestações de solidariedade.
    «O fogo traz o melhor e o pior das pessoas». Mara podia falar durante horas sobre o dia do incêndio. A lutar contra as chamas, a revesar-se para os turnos de vigia, a verter lágrimas nos braços uns dos outros – nunca se vira por cá tal fraternidade entre os naturais desta serra e os estrangeiros recém chegados.
    «Até aos incêndios, entre nós éramos muito bons a organizar festas, mas não muito mais…», riem-se. Foi de resto graças a um dos festivais que Mara aqui chegou. O tipo de organização – voluntária, orgânica, horizontal, entusiasmada – não é diferente da que está a mover o formigueiro do renascimento de Benfeita.

    Benfeita/Arganil

    Com os seus amigos e o apoio das famílias nos países-natal, Mara tem dinamizado uma campanha de crowdfunding internacional. Nos vales, três dias por semana, juntam-se em grupos de trabalho para ir de terreno ardido em terreno ardido, ajudar na limpeza e reconstrução. O crowdfunding paga um salário diário a cada uma. «Apoiando financeiramente quem trabalha nas ajudadas, permitimos às pessoas ficar. Não gosto da ideia de dar simplesmente dinheiro. Assim mantém-nos pro-activos, motiva a entre-ajuda». Noutras ajudadas voluntárias, replantam as encostas ardidas, semeiam flores para as abelhas.

    «Ainda que relativamente poucos de nós tenhamos perdido tudo o que temos, todos nós perdemos a nossa forma de subsistência», explica Wendy. «Claro que ainda precisamos de interagir com o mundo lá fora, pôr combustível, etc. Mas tivemos de descobrir formas de nos apoiarmos uns aos outros sem precisar de dinheiro».
    Uma experiência colectiva que os reaproxima da forma de vida ancestral nestas montanhas isoladas.  «Até chegar a resina e os pinheiros, estas aldeias viviam autónomas, mal participavam na economia do dinheiro. Tudo era feito com cooperação mútua e com base na troca», conta Wendy. «Para quebrar este sistema de que estamos todos a sofrer, precisamos de entrar nessa economia de partilha outra vez e trabalhar juntos», diz a permacultora, que já antes dos incêndios participava num grupo de trabalho de cinco mulheres, onde se desafiavam a fazer projectos de construção. É esse o entusiasmo de habitar nesta comunidade dispersa. «É como viver numa experiência social: estamos no processo de descobrir como fazê-lo».

    Junto ao rio criaram um banco de ferramentas comunitário, com ferramentas chegadas de todo o lado. «Nem toda a gente tem os meios de substituir um gerador, uma moto-serra… Agora temos moto-serras, roçadoras, betoneiras… e as pessoas podem reservá-las pelo tempo que precisarem. É fantástico de ver». Com a caridade que inundou o vale de cobertores e comida enlatada, organizaram lojas grátis. Todos os sábados há um jantar popular, confeccionado com legumes das hortas, e por donativo livre.
    «Não há uma pessoa que diz “tem de ser desta forma”. Não é super-organizado, com pessoas a gerir. Tudo acontece de forma muito orgânica. Juntamo-nos e as pessoas voluntariam-se para trabalhar em conjunto. Não é hierárquico: é cooperativo».

    Um laboratório vivo

    Benfeita/Arganil

    Enquanto Luadas e Benfeita renascem das cinzas, há a noção de que este incêndio foi um grito de alerta para o caminho por onde nos leva o capitalismo predatório e a propriedade privada, a desconexão com a terra, o ciclo da água, a comunidade, a própria vida. «O meu maior medo é que este ecossistema não possa mais regenerar-se, como sempre fez, por haver agora demasiados factores contra: alterações climáticas, verões mais longos e quentes, tempo imprevisível», confessa Mara, logo lembrando a indústria do papel e as monoculturas de eucalipto: «Portugal arde e o resto da Europa está literalmente a limpar o cu com isso».

    Como lhe diz o Senhor Ângelo, não há nenhum corta fogo como a terra cultivada. «Estes campos eram mantidos por centenas de pessoas e rebanhos. Esta paisagem precisa de gente, mais do que qualquer outra coisa, e animais para manter o mato baixo, fertilizar as encostas, trazer de volta a floresta – e a vida», concorda Wendy. «Isto é a cordilheira central. É a reserva de água para Lisboa, para Coimbra. A água está a ir embora. Se isto se tornar um deserto…».

    As aldeias da zona estão de facto a começar a ver problemas com as reservas de água no verão. «As câmaras municipais estão com dificuldades, não têm os recursos, e estão abertas a sugestões», lembra Wendy. «Gostavámos que abrissem mais a conversa, a projetos como Reflorestar Portugal ou Terracrua» [ref] Reflorestar Portugal é uma plataforma para a articulação de iniciativas que querem construir coletivamente um projeto nacional de reflorestação e que tem promovido  cursos e encontros baseados na permacultura, agrofloresta e agricultura sintrópica. A Terracrua tornou-se uma empresa em 2015 depois de ter existido como colectivo informal. Baseada em Loulé, tornou-se uma referência na consultoria e design de projectos ecológicos regenerativos.[/ref].

    Benfeita/Arganil

    Na sua quinta, são quase dez anos de experimentação com infraestruturas off grid: hidroeléctrica construída localmente, estufa geodome em aquoponia, ou um tratamento de dejectos humanos com vermicompostagem. Quando houve um problema com uma fossa séptica do municipio, foi à câmara apresentar a sua solução caseira, invulgar, económica, ecológica e mais bem adaptada ao local que as fossas. «Podiam ter dito: estás a processar esgotos sem licença, toma lá uma multa enorme». Mas como resultado desse encontro foi mesmo aprovado um primeiro tratamento de resíduos com vermicompostagem na aldeia de Pais das Donas.

    O sonho de Wendy é tornar a freguesia de Benfeita numa eco-zona, e experimentar com todo o tipo de tecnologias off grid, formas de cultivo e reflorestação realmente radicais. Um exemplo? «Com a cascata da Fraga da Pena podemos produzir ar comprimido naturalmente. Tem o potencial para fazer funcionar máquinas, refrigeração, até carros…! E aqui há as pessoas com as competências necessárias para o desenvolver: soldadores, engenheiros, electricistas…». Uma área protótipo para estratégias que pudessem ser usadas em toda a serra e noutras áreas. «Tudo o que se faz à água aqui pode ser medido. Se se plantar floresta indígena, se instalarmos vermicompostagem para tratar os esgotos, podemos medir a quantidade e qualidade da água. Não vem de mais lado nenhum, foi gerado e regenerado aqui – o que faz uma área de estudo interessantíssima, um laboratório vivo». A ideia implica envolver universidades para monitorizar e conseguir legitimidade para procurar financiamentos.

    Entretanto, pelas encostas de Benfeita, as castanhas rebolam e pequenos castanheiros e carvalhos brotam como ervas. «É incrível a vontade que estas árvores têm de se reestabelecer!», entusiasma-se Wendy. Como que dizendo que tudo acontecerá tal como deve acontecer.

    Benfeita/Arganil

    Texto de Francisco Colaço Pedro [franciscocolacopedro@gmail.com]

  • Aldeia do Vale: Viver a vida, mudando o mundo

    Aldeia do Vale: Viver a vida, mudando o mundo

    Em plena região saloia, na fronteira entre os concelhos de Sintra e Mafra, renasce a Aldeia do Vale. O Projecto Agroecológico ali instalado há cerca de dois anos, alberga um punhado de gente com ganas de mudar o mundo, simplesmente a viver a vida. Falámos com a Sílvia Floresta, pioneira da permacultura no país, sobre esta eco-aldeia dedicada ao estudo de formas de vida mais íntegras, simples e sustentáveis.

     

    coruja

    Devolver ao campo a vivacidade

    «A vida é o que te acontece enquanto estás ocupad@ a fazer outros planos», lê-se numa tela pendurada no andar térreo que já foi o quarto das vacas na vida anterior desta Aldeia do Vale. Noutros tempos, a «loja» – abrigo das ruminantes, cujo leite seria uma das principais fontes de sustento da aldeia – servia também para aquecer a casinha de cima, que é agora um espaço de habitação comum. Vê-se por ali incenso, mantas, pilhas de livros e paletes que servem de estrado para o descanso campestre. Um rolo caça-moscas adesivo, carregado de insectos silenciados, balanceia no fresco do espaço ao ritmo lento das horas quentes da manhã, enquanto lá fora, ainda à sombra, fardos de palha dispostos em círculo rodeiam vestígios de uma fogueira central.

    Apesar do Sol forte, o luar reflecte nos olhos enormes de uma coruja pintada na parede exterior da oficina de carpintaria. Também brilha o olhar do Orlando Pereira, um dos mentores do Projecto Agroecológico Aldeia do Vale, quando nos abre a porta do casebre recentemente recuperado e equipado com ferramentas para os trabalhos de regeneração rural.

    «Este lugar estava semi-abandonado quando aqui chegámos», conta-nos a Sílvia Floresta, que juntamente com o seu companheiro, em Dezembro de 2015, encontrou ali «um lugar triste», marcado pelo vazio de um longo tempo de dormência, mas ainda assim a pulsar potência para acolher uma nova vida. «Apaixonámo-nos pelas paisagens do oeste, pelas pessoas, pela cultura, e falámos com os proprietários que nos alugaram espaços para podermos começar a desenvolver o projecto.»

    pendurados-na-arvore

    Hoje a aldeia conta com cinco residentes permanentes (um terço dos habitantes de outrora), mas por ali já terão passado mais de 1000 pessoas nos últimos dois anos, entre voluntários, formandos e formadores em temas e práticas da permacultura.
    O centro de estudos entrou em funcionamento em Maio de 2016, e desde então tem dinamizado dezenas de cursos sobre aquilo que a Sílvia resume como «design sustentável para ambientes humanos» – em termos latos, permacultura.

    Energias «apropriadas», horticultura, agroflorestas, construções naturais, e tantos outros conhecimentos, desde a transformação e preservação de alimentos à preparação de detergentes naturais, que têm uma aplicação prática no dia-a-dia das pessoas envolvidas na Aldeia do Vale – «cada uma com a sua área de trabalho», o que lhes permite melhorar e erigir novas infraestruturas, mas também oferecer formação especializada em áreas diversas. Resgatar os saberes e ofícios tradicionais da região é também um objectivo do projecto, através de oficinas como a de costura de aventais de colheita ou a de calçado usando técnicas ancestrais.

    «Tu és um bosque de alimento, eu sou uma agrofloresta»

    Entre espaços alugados, cedidos e comprados, o projecto Aldeia do Vale estende-se por uma área de cerca de 2,5 hectares, e está em expansão. «Faz hoje uma semana que nos foram cedidos mais terrenos», conta-nos a Sílvia enquanto enumera as zonas que compõem a moldura do projecto: hortas, viveiro, estufa, zonas de campismo, dome para aulas, sala comum, espaço social…
    Passa uma galinha lampeira que parece querer mostrar o caminho que vai até ao socalco da horta. Passamos por uma banheira completa instalada entre paredes de adobe, com um sistema de aquecimento das águas a lenha e uma janela «com vistas para o mar» – verde, indomável, silvestre.

    pes-no-barro

    Subimos mais três degraus de terra, por entre canas e bananeiras, e a Sílvia aponta para lá para baixo, perto de onde a vinha cresce. Diz que estão a planear por ali «um misto de agrofloresta com bosque de alimento». A conversa prossegue até à estufa, não sem antes passar pelas extravagantes camas de cultivo que congregam uma balbúrdia de flores, couves, saladas, cucurbitáceas, aromáticas, selvagens, cobertura de palha e apontamentos de pequenos charcos.

    «Imagina que nós as duas somos pintoras, e tu és uma pintora freestyle… tu pegas numa tela e pintas aquilo que te apetece. E eu sou uma pintora mais metódica: pinto uma natureza morta, janelas, estendais, tudo certinho. Tu és um bosque de alimento, eu sou uma agrofloresta.»Da alegoria sublima-se a vontade de experimentar a aplicação de técnicas mistas que permitam optimizar o potencial produtivo das áreas, tanto horizontal como verticalmente, contribuir para a regeneração dos solos e para o resgate de variedades autóctones, e também promover a geração de uma economia local. E a Sílvia continua, com o seu jeito natural de pedagoga: «um bosque de alimento imita uma floresta natural, com trilhos, vários estratos e espécies maioritariamente perenes… Olhas à volta e parece uma floresta normal, só que tem mais de 80% de espécies comestíveis. Uma agrofloresta é pensada para produção. Usa linhas de nível, tem padrões de cultivo que se repetem, e diferentes estratos também, mas mistura espécies perenes (como árvores de fruto) com hortícolas sazonais. A agrofloresta é um tipo de produção pensada para a venda, para criar uma economia, enquanto que o bosque de alimento é pensado para o consumo da casa, para o projecto.»

    estufa

    Noutros tempos, o lugar sobrevivia do leite de vaca e cereais para pão, produzidos localmente e vendidos nas aldeias próximas. Hoje, «o projecto depende de nós para funcionar a nível financeiro». Têm garantido a sua resiliência através das acções de formação, serviços externos de design em permacultura, e também da venda de produtos de produção própria e de outros produtores associados, expostos na lojinha à entrada da aldeia (sabões e detergentes ecológicos, produtos de cosmética natural, licores, desidratados, colares, brincos, sapatos…).

    Apesar de ainda não ser totalmente auto-sustentável, o objectivo é que a Aldeia do Vale o venha a ser, principalmente em termos energéticos, no que toca a água e a electricidade. «Para muitos dos outros recursos [que precisamos], podemos sempre envolver a comunidade vizinha, gerando uma economia local.» No processo de repovoamento, apontam as boas relações com a vizinhança e os proprietários como chave: «gostam do projecto e conseguem rever-se em imensas coisas que fazemos (…) a comunidade local apoia-nos imenso com recursos e amizade.»

    «A beleza está nos olhos de quem observa»

    O que à primeira vista parece apenas ser um pequeno núcleo familiar a viver a sua vida, numa aldeia em processo de regeneração lenta, onde não deixa de persistir uma certa estética de estaleiro de obras em curso, revelar-se-á, afinal, a promessa de um desígnio maior: tão-só querer mudar o mundo.
    «Queremos mudar as pessoas e a maneira como olham para a vida, mostrar que é possível viver de acordo com aquilo em que acreditamos, independentemente da área que estudamos ou trabalhamos.» Falamos do primeiro de 12 princípios da permacultura, «observar e interagir», e também do último, que se preocupa com a capacidade de resposta às mudanças – ou da visão de como as coisas serão no futuro. «O nosso objectivo é não só espalhar as sementes daquilo em que acreditamos, como construirmos um local de exemplo de todas essas técnicas que usamos para podermos ter uma vida mais sustentável.»

    dome

    Recolhemos à sombra de uma figueira majestosa. Tentamos definir o que é viver em harmonia. Lá ao fundo, o Orlando regressa do ribeiro com o seu jeco, que parece que tem capacidades sobrenaturais de comunicação não-verbal com os animais que vão para o pasto. Da janela onde alguém cozinha, ouve-se passar a ♪coruja, caçadora de sonhos♫ dos companheiros do Vale, Terra Livre. Chegou a hora de nos lambuzarmos com as diferentes receitas de pesto que estiveram a experimentar.

    O Projecto Agroecológico da Aldeia do Vale integra o núcleo ambiental da Associação Cultural Circuito Explosivo. A Aldeia aceita voluntários entre Março e Outubro, «desde que tenham frequentado e concluído com sucesso um curso certificado de design em permacultura», condição que pretende garantir que quem aparece com vontade de viver e trabalhar já tem os conhecimentos básicos necessários para agir, mas também um bom pretexto para espoletar uma rede informal, invisível, de pessoas ligadas à permacultura e à agroecologia que por ali passam vindas de vários pontos do país.

    Mais info:
    https://www.aldeiadovale.com/
    https://www.facebook.com/aldeiadovaleagroecologia/

    Texto e fotos de Sara Moreira [saritamoreira@gmail.com]

  • Crises, utopias, ameaças – um olhar sobre as okupas gregas

    Crises, utopias, ameaças – um olhar sobre as okupas gregas

    Em pleno caos capitalista, uma parte da comunidade anarquista grega orientou-se para a construção duma rede de espaços, muitos deles ocupados, que proporcionasse uma vida o mais possível fora dos constrangimentos do Estado e do mercado. Com a chamada «crise de refugiados» o esforço reorientou-se para a resolução da situação de vida-à-espera-da-morte dessas pessoas. Notícias de Atenas, onde o icónico bairro Exarchia corre, também no seguimento deste processo, um risco de transformação profunda.

    City_Plaza_Hotel

    Acossado pelos ditames do neoliberalismo e asfixiado por uma dívida impagável, o Estado grego, contra toda a euforia causada pela eleição do Syriza, deixou de garantir uma quantidade de serviços que, para muita gente, eram a diferença entre uma vida minimamente digna e outra completamente miserável. No decorrer do descalabro, milhões de habitantes da Grécia viram os seus rendimentos extraordinariamente reduzidos, quando não os perderam. Mais ou menos 30% das casas gregas ficaram vazias. Quase em simultâneo, uma vaga de refugiados sem precedentes, acompanhada por uma reacção criminosa do governo grego e das instituições da União Europeia (UE), encheu o território helénico de pessoas com necessidades urgentes a que ninguém respondia. Mas um pouco por todo o país, com destaque lógico e normal em Atenas, onde o Estado falhou levantaram-se os que sempre o consideraram em falência e organizaram, em conjunto com as populações afectadas, uma resposta autónoma e baseada nos princípios da acção directa, da auto-organização, da solidariedade e do apoio mútuo que sempre nortearam a proposta anarquista.

    Anarquistas

    City_Plaza

    Num país onde as acções insurreccionais não são uma excepção estranha, o movimento anarquista tem um nível crescente de aceitação pública, que se explica sobretudo com o trabalho intenso e contínuo que começou por ganhar notoriedade nos anos 1970 na oposição à ditadura e que, desde então, se envolveu em muitas causas, seja contra os Jogos Olímpicos de Atenas em 2004, seja contra a ordem neoliberal, com uma perspectiva a que o tempo repetidamente veio dar razão. Hoje, de novo, os seus avisos quanto à ilusão da solução Syriza ecoam na cabeça de muitas das pessoas que habitam na Grécia.

    No início de Dezembro de 2008, em Exarchia, bairro no centro de Atenas, a polícia grega respondeu a uma provocação dum adolescente de 15 anos matando-o. As reacções ao assassinato de Alexis Grigoropoulos foram imediatas e atingiram dimensões impressionantes, mesmo para um país como a Grécia, que testemunhava os distúrbios mais violentos desde 1985, quando um estudante da mesma idade morreu em confrontos com a polícia. Sucederam-se as pilhagens e os ataques a edifícios e viaturas, numa vaga que alastrou a uma dúzia de cidades. Esta escalada confrontacional coincidiu no tempo com uma outra, a da contestação às políticas austeritárias do governo conservador de Costas Karamanlis, alimentando-a e alimentando-se dela.

    Passada a retórica social-democrata do governo de Tsipras, demonstrada a inevitabilidade da continuação da austeridade e o logro do Syriza, os anarquistas não abandonaram as ruas. Mas viram-se sozinhos. As multidões que antes os acompanhavam estavam agora inertes, numa espera passiva por dias melhores, rendidas aos cantos solenes do mal menor. Tinham, por um lado, deixado de servir ao projecto de poder do partido que motivara muitas delas a saírem para a rua e passavam, por outro, a fazer parte da ópera There Is No Alternative.

    City_Plaza_HotelÉ neste caldo que se insere o notório aumento de ocupações feitas por anarquistas, um fenómeno que terá começado em 2008/2009 mas que não se perdeu no rescaldo da vitória de Tsipras. De facto, ainda antes do recente florescimento causado pela afluência de refugiados, o movimento okupa teve um forte impulso com o surgimento de «centros sociais autogeridos» em muitos locais do país que conta, neste momento, com cerca de 250 destes espaços. Alguns focaram-se em habitação, outros em locais de cultura, de ócio, alimentação, fornecimento de medicamentos ou cuidados médicos. Em 2013, o Jornal MAPA dava já conta do aparecimento muito rápido de mais de duas dezenas de clínicas solidárias, nem todas de inspiração anarquista, através do relato da experiência da Clínica de Solidariedade Social de Kalamata. Que funcionava no antigo hospital da terra, com equipamentos doados e com trabalho exclusivamente voluntário de secretários, médicos, dentistas, enfermeiros e assistentes sociais.

    Cada falhanço do sistema parece comprovar a validade das críticas anarquistas. No entanto, quando tudo falha, não cabe aos libertários regozijarem-se pela miséria que se instala, antes estarem preparados para manter a crítica e, ao mesmo tempo, apresentar na prática as soluções para fugir dessa miséria. Em Atenas, e cada vez mais à volta de Exarchia, o esforço anarquista orientava-se sobretudo para a criação de estruturas que se complementassem e criassem uma rede para viver o mais possível à margem do Estado e do mercado. Uma construção subterrânea duma realidade alternativa perene que se apresentasse como caminho revolucionário. Diz-se «anarquistas», sem se pretender falar dum corpo homogéneo ou, sequer, dum movimento uno. Apenas do que foi mais visível nos últimos tempos por terras gregas.

    A resposta anarquista grega à crise de rendimentos, à redução das movimentações de rua e ao governo Syriza não foi então o entrincheiramento nas profundezas do ilegalismo ou no conforto dos colectivos. Foi, sem abdicar destas características, perceber a necessidade de responder, no imediato, a uma crise de subsistência a que as possibilidades de esquerda não respondiam, propondo a acção directa, a auto-organização, a solidariedade e o apoio-mútuo como alternativas ao Estado, e ao mercado, em falência. O anarquismo em acção em pleno pesadelo capitalista, também como forma de evitar que o descontentamento se transformasse, por ausência de alternativa, em apoio à extrema-direita que tão bem sabe cavalgar estes momentos.

    Pireu
    Pireu

    «Crise de refugiados»

    Entretanto, em 2016, no auge da «crise de refugiados», os vizinhos da Grécia fecharam as suas fronteiras, selando o caminho para as nações mais ricas e deixando mais de 50 mil pessoas «presas» em território grego (entre as quais cerca de 2 mil crianças não acompanhadas em lista de espera de alojamento apropriado). O programa europeu de realojamento, que deveria dar destino a muitas destas pessoas noutros países da UE, acabou silenciosamente em Setembro passado. Fechava-se a última frincha da última porta de saída da Grécia.

    A 18 de Março do mesmo ano, a UE tentou barrar completamente a entrada de migrantes na Grécia através dum acordo com a Turquia. Prometia, entre outras coisas, mais de 6 mil milhões de euros e o apressar das negociações para a adesão à UE. Os turcos, por seu lado, teriam de impedir a saída de barcos com refugiados e também de aceitar de volta todos os que deixassem escapar. Até à deportação (ou até à resposta ao pedido de asilo, se fosse esse o caso) estes refugiados ficavam confinados à ilha grega à qual tinham aportado [ref] Uma restrição que acabou por ordem do tribunal no passado dia 17 de Abril. A partir de então, os novos refugiados que pedem asilo poderão residir em qualquer parte da Grécia. No entanto, esta alteração não tem efeitos retroactivos, o que significa que não altera a situação dos refugiados que já tivessem chegado às ilhas gregas.[/ref], em locais especialmente construídos para passagens breves, os chamados hotspots.

    Com o acordo UE-Turquia conseguiu-se um «três em um» sinistramente perfeito que se repete a cada acordo de «gestão de fronteiras», como com o Sudão, um caso analisado na edição de Julho de 2017 do Jornal MAPA: o financiamento a um Estado que, para dizer o mínimo, partilha poucos princípios democráticos; o aumento do risco e do preço das travessias e, consequentemente, dos lucros dos traficantes de seres humanos; a deterioração das vidas dos refugiados. No caso concreto deste acordo, dá-se ainda a curiosa coincidência de a segunda metade dos 6 mil milhões de euros ter sido enviada numa altura em que o governo de Erdogan invadia militarmente a zona curda de Afrin, no norte da Síria.

    No entanto, o filtro turco não foi tão eficaz quanto a UE pretendia. E os refugiados continuaram a chegar às ilhas gregas. A única diferença foi que, desde o acordo, deixaram de poder dirigir-se para «terra firme», ou seja, Grécia continental. O filtro aperta-se então do lado da saída e rebenta com as mais mínimas das condições dos hotspots em sobrelotação. Quando chegam a uma ilha, os refugiados têm de se registar, normalmente através da polícia, e podem pedir asilo. Após esse pedido, deveria ser-lhes dada uma data para uma entrevista. Se o pedido for recusado, havia, até há pouco, possibilidade de recurso. Uma possibilidade que foi, entretanto, amplamente limitada com a alteração de regras para o recurso e a consequente limitação dos direitos de quem se atrever a apresentá-lo.

    No borders

    É neste contexto de eternização duma permanência sem condições nem perspectivas que muita gente arrisca fugir das ilhas, normalmente em direcção a Atenas. A partir desse momento, a sua situação legal, que já não era propriamente estável, deteriora-se e passam a ser pessoas fora do sistema, sem direito a abrigo institucional. Apostolos Veizis, director dos Médicos Sem Fronteiras na Grécia, afirmou em entrevista ao programa Crossing Continents da BBC Radio 4, no início de Abril: «Para pessoas que estão a vir irregularmente das ilhas, ou pessoas que têm o seu estatuto legal num limbo, a única solução é encontrar um lugar debaixo da ponte, ou debaixo duma árvore, ou ir a um dos squats. Para pessoas que não têm outras soluções, estamos a recomendar os squats, sim». Giovanni Lepri, número dois do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados acaba, por seu lado, por confirmar que algumas pessoas da sua organização também o fazem, embora «de forma não oficial».

    No caso de aprovação do pedido de asilo, saem da ilha em direcção à Grécia continental, onde são colocados em campos de refugiados enquanto aguardam que a burocracia os deixe seguir para o seu destino. Há oito campos para refugiados oficiais na região de Atenas, nenhum deles eficiente, apesar de já ter passado o tempo de emergência. Campos que, para muita gente, passam rapidamente de temporários a definitivos. E cujas condições não são muito melhores do que as dos hotspots. Apostolos Veizis, na mesma entrevista, confessa: «Hoje estive a falar com um colega que voltou da Síria – e que, antes, tinha trabalhado nas ilhas gregas – e ele disse-me que a situação nos campos dentro da Síria é melhor do que nos campos na Grécia». Pessoas que não ficam na Grécia porque querem, mas porque o tempo de espera é enorme mesmo quando existem direitos de reagrupamento. Pessoas com um estatuto legal, gente com direito a abrigo oficial, seja do Estado seja duma Organização Não Governamental (ONG), parte da qual prefere, no entanto, sair dos campos de refugiados e procurar abrigo em locais onde haja um mínimo de privacidade, comida decente, proximidade do centro, sentimento de autonomia e dignidade. Tudo o que falta aos campos, tanto ao nível do próprio conceito assistencialista que os sustenta quanto ao da realidade caótica concreta que vivem.

    Um caos que não se explica pela falta de dinheiro. De acordo com o relatório “The refugee archipelago: the inside story of what went wrong in Greece” do site News Deeply, entre 2015 e 2017, a «crise de refugiados» levou 803 milhões de dólares. Nesse mesmo relatório, pode testemunhar-se como o bem-intencionado governo do Syriza e as não menos bem intencionadas ONG conseguiram que sete em cada dez euros fossem mal gastos. E um episódio relativamente recente demonstra, de facto, a hipocrisia das ONG que, por trás de discursos impolutos, se limitam a gerir dinheiros e propriedades. Em Fevereiro de 2017, um hospital abandonado foi ocupado em Atenas para abrigar refugiados oriundos da Síria. Um mês depois, em Março, a Cruz Vermelha grega, proprietária do edifício abandonado e receptora, nesse ano, de 30 milhões de euros para a questão dos refugiados na Grécia, deu ordem de despejo ao projecto e às mais de 120 pessoas que já albergava. A ter havido «crise», terá sido de resposta, de solidariedade. Não foi, de certeza, de refugiados.

    City_Plaza_Hotel

    Faróis de Internacionalismo

    Com a criação e multiplicação de squats para refugiados, os anarquistas trouxeram, de facto, alguma ordem a este caos. Através de uma forma de acção solidária sem mediações nem filtros, demonstravam que, sem recursos oficiais, sem apoios estatais, sem ajudas de ONG, sem trabalhadores remunerados, se consegue resolver as falhas que o Estado, o mercado, ou quem quer que seja, só não resolvem porque não querem. Pondo a nu o facto de esta tragédia, como tantas outras, ser uma mera decisão política.

    Desde que o Notara 26 abriu, no Outono de 2015, num edifício público ao abandono no bairro de Exarchia, surgiram, só em Atenas, pelo menos 12 (há notícias de 15) dessas squats. Neste momento, há mais de 2500 (há notícias de 3000) refugiados a viver em squats no centro de Atenas. São comunidades geridas pelos próprios e por voluntários (que preferem ser chamados «solidários») que, em muitos casos, se coordenam com os espaços anarquistas existentes para outros fins e se tendem a transformar em micro-sociedades cada vez mais completas (ensino, armazéns comuns, enfermarias, centros sociais, espaços de cultura, cantinas colectivas). Há, por outro lado, acordos com sindicatos de professores para que as crianças que vivem nos squats possam frequentar o ensino regular. Uma prática que ultrapassa a desconfiança em relação ao sistema estatal de ensino por privilegiar uma maior facilidade de adaptação das crianças através do convívio com outras de realidades completamente distintas.

    Estes espaços ocupados, nem sempre públicos, são locais onde o assistencialismo se combate disponibilizando o oposto dos campos de refugiados oficiais: privacidade, comida decente, proximidade do centro, sentimento de autonomia, dignidade. Envolvendo toda a gente na limpeza, arranjo e organização do local, partilhando tarefas, liberdades e regalias, combatendo solidária e colectivamente por outros, transformando-se em centros de luta contra o racismo e a exclusão e pela liberdade de movimento e o direito a uma vida com condições decentes. A solução da sua própria situação individual ou familiar, sendo o mote principal, não se considera completa sem a consequente compreensão de que o problema de outras pessoas é também um problema que tem de ser resolvido. Não é por isso incomum ver os squats de refugiados a organizarem e participarem em protestos pelo fim do acordo UE-Turquia, pela legalização e habitação para todos os refugiados, pelo livre acesso aos serviços de saúde e de educação, contra a exclusão dos refugiados dos centros das cidades ou pelo fecho dos centros de detenção.

    O mais conhecido destes espaços é o City Plaza, um hotel no centro de Atenas que faliu em 2010 e se manteve abandonado até 2016, altura em que foi ocupado por 120 refugiados acompanhados de gente solidária para servir de refúgio a alguns dos milhares de migrantes sem abrigo nem direitos que se arrastavam pelas praças e jardins de Atenas. Fez dois anos em Abril. Durante esse tempo, albergou mais de 2200 refugiados. Tem, neste momento, cerca de 400 pessoas (350 refugiados e 50 solidários). E mais de quatro mil em lista de espera. Há gente que fica um dia, gente que fica meses. Cerca de um terço costumam ser crianças. Algumas nascidas lá. Gente de mais de 15 países diferentes. Ninguém paga. Toda a gente ajuda a limpar e cozinhar. Há turnos. Tecnicamente, se alguém falhar dois, pode ser expulso. Nunca aconteceu.

    Organiza-se por assembleia (quinzenal) participada por quem mora no edifício. Tem ensino, sobretudo de línguas (inglês, alemão, línguas maternas), diversificado com variadíssimas actividades criativas e educativas. Há médicos solidários que oferecem cuidados de saúde primários. Pela sua organização, pela sua localização central, pelos números impressionantes de pessoas que tem envolvido e pela atitude permanente de desafio e oposição, o City Plaza, a que os habitantes chamam «o melhor hotel do mundo», transformou-se num dos símbolos da luta contra a política fronteiriça da UE, os campos de refugiados e os vários níveis de exclusão e discriminação de migrantes. Um símbolo que transporta em si uma miríade de outras pequenas peças dum mosaico de solidariedade e resistência que tenta, ali e agora, um mundo melhor.

    Ao tornarem visível a situação dos refugiados, alojando-os no centro de Atenas, os squats cumprem ainda o papel político de combater a invisibilidade a que se vota esta questão. Uma espécie de murro no estômago dos gabinetes do poder europeu e na sua imagem de guardiões de valores humanos em cidades limpas do «flagelo» que, dessa forma, não existe aos olhos dos habitantes da Europa.

    City_Plaza_Hotel

    E depois do adeus…

    Estes «solidários» não são exclusivamente gregos, longe disso. Há refugiados que se transformaram em permanentes e há, acima de tudo, uma migração de activistas em direcção sobretudo a Atenas. É totalmente legítimo que qualquer pessoa com espírito solidário e vontade de acção se desloque para os locais onde essas aspirações se possam realizar mais facilmente. A afluência de gente solidária foi, aliás, uma alavanca fundamental para que o movimento crescesse, em tamanho e experiências, e para que, dessa forma, se tornasse realmente relevante. Uma legitimidade que se enquadra, mas talvez se perca, na inexistência de movimentos sociais fortes e mobilizadores noutras partes da Europa.

    Mas há, ou pode haver, um ponto de saturação. Um ponto a partir do qual essas migrações acabam por ser foco de transformação da própria realidade que tinham escolhido à partida. Acima de tudo em Exarchia, onde muitos habitantes já falavam de um «bairro anarquista», as coisas precipitaram-se. A abertura do bairro para albergar refugiados e, sobretudo, a incapacidade de ser mais inspiração do que «anarco-atracção» ameaçam transformá-lo num local de ócio inócuo, descuido preguiçoso, ilegalismo infantil. Uma espécie de parque temático de revolta juvenil onde, em tempo de férias, se vai beber um copo a uma okupa ou atirar uma pedra à polícia, antes de se voltar para o emprego e a vida normal. Na revista francesa CQFD de Abril passado, as palavras tristes de Lisa eram: «Uma parte dos anarquistas deixou o local. Ficaram sobretudo refugiados e turistas, de passagem, que não têm necessariamente interesse em construir o bairro».

    A desilusão de muita gente activa, assim como as tensões existentes no bairro, são neste momento bastante notórias. E, num território tão apetitoso, serão certamente aproveitadas pelos tentáculos da indústria do turismo e da especulação imobiliária, apoiadas, se necessário for, pelas forças da imposição da ordem. No entanto, Exarchia ainda se mantém como porto de refúgio e exemplo da persistência anarquista grega. Que, mesmo na contrariedade, poderá encontrar caminhos que lhe permitam manter-se activa e coerente ao mesmo tempo que acolhe cada vez mais descontentes e, sobretudo, se cruza com o simples acto de sobrevivência do grego ou a dinâmica do refugiado.

     

    Texto de Teófilo Fagundes [teofilofagundes@dev.jornalmapa.pt]
    Fotos de Alberta Aureli [Segunda imagem/Hotel City Plaza], C. Messier [Pireu /wikimediacommons.jpg].

     

     

  • Notas sobre a Biopolítica H+

    Notas sobre a Biopolítica H+

    Parte I

    O delírio do capitalismo contemporâneo, segundo defendo, está intimamente e essencialmente
    relacionado com os limites da vida na Terra e a regeneração de futuros vivos – para além dos limites.
    Melinda Cooper, Life as Surplus (A Vida como Excedente)

    cyber-pope

    O dia 13 de Novembro de 2017 foi uma data de importância histórica. Nesse dia consumou-se mais uma revolução – e mais uma vez não foi nas ruas, mas em laboratórios. Numa clínica californiana foi experimentada pela primeira vez num ser humano uma inovadora técnica terapêutica, a “edição genética” (gene-editing), baseada na manipulação do chamado CRISPR-Cas system. Esta técnica, também conhecida como gene drive (drive de genes), foi já utilizada para modificar 62 genes de uma só vez, intervindo nas bases (C,T,G,A) que os constituem. Na verdade, o que se costuma referir simplesmente como CRISPR é um amplo conjunto de técnicas de engenharia genética que exploram o funcionamento natural das bactérias e que em poucos anos proliferou em numerosas subespécies sempre mais aperfeiçoadas. Importa ainda referir que já foi aplicada na China, nos EUA e no Reino Unido para modificar bases genéticas em embriões humanos, além de ser comummente utilizada na indústria alimentar e na produção de biocombustíveis.[ref]https://en.wikipedia.org/wiki/CRISPR[/ref]

    Devido às suas potencialidades terapêuticas e aplicativas, ao seu baixo custo e à sua relativa facilidade de realização, que, segundo um relatório do Nuffield Council on Bioethics, a tornariam acessível aos amantes do Do It Yourself, podendo-se montar um laboratório numa garagem, e devido à celeridade do seu funcionamento e à incerteza a respeito das suas imprevisíveis consequências nos ecossistemas, desatou esperanças, receios e disputas em todos os sectores da sociedade: na ciência, na indústria, na finança, nos governos, nas ONG… No respeitante a patentes de propriedade intelectual a situação é uma encrenca e, apesar de a Universidade da Califórnia e o Broad Institute serem os principais contendentes, muitos outros actores, públicos e privados, reivindicam direitos de exclusividade.

    O nome CRISPR refere-se à organização das repetições das sequências de ADN encontrada nos genomas de bactérias e outros microrganismos. Com efeito, as sequências CRISPR são um componente crucial dos sistemas imunológicos dessas formas de vida: quando uma infecção viral ameaça uma célula bacteriana, o sistema imunitário CRISPR pode frustrar o ataque destruindo o genoma do vírus invasor.[ref] https://goo.gl/kzaOA2[/ref] Dar-se-ia ainda uma imunidade genética adquirida, transmissível quer à descendência quer horizontalmente, entre bactérias de tipos diferentes, e mediante as bactérias, plausivelmente até entre espécies biológicas distintas. A descoberta deste funcionamento biológico vai de facto aumentar a casuística dos fenómenos co-evolutivos, em que as interacções entre o ambiente e um indivíduo, sobretudo nos micróbios, levam a alterações genéticas hereditárias. Mais adiante iremos deter-nos na transformação, iniciada nos anos 70, do paradigma conceptual da biologia e da teoria evolutiva, a partir da qual muitos estudiosos contemporâneos passaram a reabilitar as ideias originais do lamarckismo. Focar-nos-emos ainda na relação entre este âmbito dos saberes e as políticas jurídicas, financeiras e militares dos EUA. A brilhante obra da socióloga Melinda Cooper, Life as Surplus. Biotechnology and Capitalism in the Neoliberal Era, servir-nos-á de guião para analisar a filosofia da economia política do neoliberalismo contemporâneo e a sua relação com a biopolítica tecnocientífica do H+.

    Muitas metáforas foram e são utilizadas pelo sensacionalismo jornalístico ao falar desta inovação tecnocientífica, como a de “cirurgia genética”. Porém, o irreversível “cortar-colar” não parece mais ser uma imagem exaustiva, pois as novas variantes desenvolvidas seriam mais adequadamente representáveis como “corretores automáticos de erros de digitação” (no base-editing), ou como a função “encontra-e-substitui” do programa Word, sendo até possível modificar as características físicas de um organismo sem modificar o ADN (no epigenetic editing – um tipo de modificação reversível). No primeiro caso, o “lápis e borracha” que corrige os “erros” genéticos é uma função enzimática (desaminase); no outro, a proteína programável, que é o motor da maquinaria molecular CRISPR (chamada Cas9 – membro de uma numerosa família de proteínas Cas), é embalada num vírus, enquanto noutro vírus é inserida a “bússola”, para trazê-la ao seu destino (ARN-guia), juntamente com uma espécie de “aplicação” para modificações epigenéticas (ativador da transcrição).

    O resultado é que, em vez da versão do CRISPR que actua cortando irreversivelmente o ADN, obtemos uma variante equipada para facilitar o acesso da maquinaria de transcrição celular aos genes alvo de interesse, ativando-os se estiverem não-expressos ou fazendo-os expressar de forma aumentada se forem moderadamente ativos. Embora dezenas de milhares de variações genéticas humanas sejam associadas a doenças, muitas das quais envolvem múltiplas variações concomitantes, uma grande proporção também surge como resultado de apenas um “erro ortográfico” genético – conhecido como “mutação pontual”. Por isso, nos casos em que uma doença genética aparece ser devida a mutações em que um único par de bases foi substituído por outro, esses novos métodos de edição poderiam, segundo a comunidade científica, permitir corrigir a causa de muita delas – realizando alterações hereditárias ou não. As “gralhas” presentes no livro da vida seriam eliminadas da evolução, finalmente “dirigida” pelos demiúrgicos artífices da “segunda criação”.

    É impossível não nos recordarmos, perante este imaginário metafórico da biologia sintética, do revisor Raimundo Silva que, na História do Cerco de Lisboa, de José Saramago, ao acrescentar a palavra “não” na frase que afirmava que os cruzados tinham ajudado o rei Afonso Henriques na sua acção de reconquista, mudou a história…
    Com efeito, foi já em 1974 que Michel Foucault, na primeira de três conferências sobre medicina social lecionadas no Instituto de Medicina Social, Centro de Biomedicina da Universidade Estadual do Rio do Janeiro,[ref]M. Foucault, “The Crisis of Medicine or the Crisis of Antimedicine?”, Foucault Studies, No. 1, pp. 5-19, Dec. 2004.[/ref] salientou a novidade epistémica, pragmática e ética perante a qual nos deparamos: “a história do homem e da vida estão profundamente entrelaçadas […] os médicos e biólogos não mais trabalhando ao nível do indivíduo e dos seus descendentes, mas começando a trabalhar ao nível da vida em si [life itself] e dos seus eventos fundamentais”. Tornamo-nos cientes de que a história enquanto res geste e a evolução da vida e da biosfera devem ser escritas conjuntamente: uma “bio-história”, nos termos de Foucault; a história do antropoceno, nos termos de outros,[ref] J.A. Tomas, “History and Biology in the Anthropocene: Problems of Scale, Problems of Value”, American Historical Review, Dec. 2014: 1587-1607; B. Latour, “Para distinguir amigos e inimigos no tempo do Antropoceno”, Revista de Antropologia USP, 2014, V. 57, N° 1: 11-31.[/ref] ou talvez a história do transumano, como sugere, por exemplo, a retórica conformista do best-seller mundial de Yuval Noah Harari, Sapiens, De Animais a Deuses (versão original em hebraico, 2011), que se atreve a intitular o último capítulo “O fim do Homo sapiens”, onde somos confrontados com esta pérola do historiador-ideólogo de Jerusalém: “Os futuros senhores da Terra serão, provavelmente, mais diferentes de nós do que nós somos dos neandertais. […] os nossos herdeiros serão semelhantes a deuses”.

    Outra notícia do mesmo teor, que chamou a nossa atenção, tem a data de 4 de Dezembro de 2017. Nesse dia o website da Synbiowatch publicou os chamados The Gene Drive Files. Estes documentos foram obtidos por um grupo de organizações não governamentais que efectuaram o requerimento para o acesso aberto a registos (open records request) estabelecido pela lei estadunidense sobre a liberdade de informação (Freedom of Information Laws).[ref] A lista das associações que assinaram o requerimento é a seguinte: African Centre for Biodiversity, Corporate Europe Observatory, Econexus, Ecoropa, ETC Group, Friends of the Earth U.S., Heinrich Boell Foundation, Sustainability Council of New Zealand, Testbiotech, Third World Network.[/ref]

    A primeira “revelação”, como refere o jornal britânico The Guardian,[ref] https://goo.gl/zbtd8w[/ref] foi a presença da Defense Advanced Research Projects Agency (DARPA), a agência militar dos EUA, como maior patrocinador e financiador (cerca de 100 milhões de dólares por ano, através do Safe Genes Project) da investigação nas novas técnicas de edição genética gene drive. A partir do encontro entre a nova técnica de edição CRISPR e a criação de genes programados para se espalharem numa população graças a uma espécie de “reação em cadeia”, tornar-se-ia possível levar à extinção das espécies prejudiciais para o ser humano, como por exemplo os mosquitos da malária. A mutação artificial introduzida chegaria a ter perto de 100% de capacidade de se difundir na população em questão, contra os 50% previstos no normal funcionamento reprodutivo; e isso também quando a característica a ser propagada for completamente desfavorável à sobrevivência. Uma extinção programada, portanto, contra todas as leis evolutivas. Os alarmes eclodiram sobre o potencial “duplo uso” (double use) das tecnologias de extinção genética como armas biológicas, embora a pesquisa conhecida seja focada inteiramente no controlo e na erradicação de pragas.
    Esta notícia saiu na véspera do encontro do Grupo Ad Hoc de Peritos sobre Biologia Sintética (AHTEG na sigla em inglês), um grupo de trabalho da Convenção sobre Diversidade Biológica das Nações Unidas, lançada em 1992 na Cimeira da Terra do Rio de Janeiro. Esse encontro decorreu em Montreal nos dias 5 a 8 de Dezembro de 2017 e tinha como propósito indicar um conjunto de diretrizes regulamentais para a prevenção de impactos negativos da biologia sintética sobre a biodiversidade. Da ordem de trabalhos da CBD fazia parte uma discussão sobre a conveniência ou não de promulgar uma moratória internacional que suspendesse por um ano a investigação e desenvolvimento da edição genética, para serem devidamente ponderados os seus dramáticos efeitos na biomedicina, na estrutura ecológica e nas relações internacionais entre os estados.

    Outra revelação dos ficheiros publicados diz respeito ao grupo de pressão orquestrado pela Fundação Gates, pretensa organização filantrópica promovida por Bill e Melinda Gates. Esta fundação, que financia vários projectos de “investigação e desenvolvimento” (I&D) em engenharia genética, especialmente em África, teria dado à empresa de relações públicas Emerging Ag 1,6 milhões de dólares para levar em frente o projecto apelidado Gene Drive Research Sponsors and Supporters Coalition, assegurando a cumplicidade de 65 cientistas e académicos, coordenados por um número ainda maior de funcionários governamentais, maioritariamente de países anglófonos, cujo evidente escopo foi influenciar o processo decisório do AHTEG, a fim de evitar a aprovação da moratória sobre o gene drive.

    Tendo anteriormente percorrido algumas das sinuosas e insinuadoras linhas de força históricas que enteiam os agentes dos H+, chegamos a um ponto em que nos é possível situar este esboço genealógico no mais amplo mapa reconstruído por Foucault e por quem nele se inspirou. É de facto nosso intuito final mostrar como o H+ veio decantar deliberadamente os recônditos motivos que foram compondo a construção da subjetividade e das relações de poder da contemporaneidade. Ao passo que Foucault tomou como objeto das suas investigações iniciais o surgimento dos saberes e das técnicas propiciadoras da implementação de dispositivos disciplinares, como os manicómios, as clínicas ou as prisões, para depois passar destes sintomas locais à diagnose do nascimento da biopolítica como a forma da arte de governar com a qual os estados-nação da modernidade pretenderam assumir como próprio âmbito de gestão tanto a vida da população na sua totalidade quanto a de cada indivíduo particular, nós temos vindo a indicar algumas das trajetórias que alimentaram o H+, movimento que apresenta todos os títulos para ser considerado o herdeiro ideológico das tendências ao mesmo tempo individualizantes e totalitárias engendradas pela sociedade capitalista.

    Foucault individuou no Beveridge Plan, elaborado em 1942 no Reino Unido, a primeira ocorrência histórica de um novo direito – o direito à saúde. A partir daí a saúde entrou na esfera da macroeconomia e as despesas implicadas pela manutenção das condições de saúde dos indivíduos tornaram-se uma das maiores verbas do orçamento de Estado. Esta “somatocracia”, desenvolvida desde o século XVIII, configurará a saúde como uma arena para a luta política, facto que assinalado pela vitória eleitoral do Partido Trabalhista na Inglaterra, em 1945, ou da Confederação Geral do Trabalho (CGT) em França, em 1947. A grande transformação epistémica ocorrida no Século das Luzes levou a medicina a sair do campo da relações pessoais entre o médico e o doente, para a configurar como intrinsecamente “social”, Staatsmedizin, medicina de Estado, como lhe chamaram os teóricos alemães da altura. A partir daí, nada irá ficar fora do âmbito médico e da autoridade médica: cidades e distritos, instituições e regulamentos, águas e terrenos, higiene e dieta, hábitos e desejos, criminalidade e sexualidade, produtividade e segurança da nação…

    Texto de κοινωνία