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  • “A justiça é uma justiça de classe e sabe-se que geralmente quebra no ponto mais fraco”

    “A justiça é uma justiça de classe e sabe-se que geralmente quebra no ponto mais fraco”

    Concentração contra a violência policial e o racismo

    Concentração contra a violência policial e o racismo frente ao Parlamento.
    Foto: Rádio Afrolis


    A propósito do julgamento de 17 agentes da PSP da esquadra de Alfragide, acusados de ódio racial sobre os moradores da Cova da Moura, o jornal MAPA falou com o Observatório do Controlo e da Repressão (OCR), um projeto que acompanha de perto a prática policial.

    A 5 de fevereiro de 2015 vários jovens do bairro da Cova da Moura foram alvo de brutais agressões por parte de agentes da Polícia da Segurança Pública (PSP) da esquadra de Alfragide. Tudo começou durante a tarde quando, durante uma operação de rotina, um jovem foi detido e agredido pelos agentes. Perante a presença de testemunhas, os agentes iniciaram uma “limpeza” da zona recorrendo a bastonadas e disparos de balas de borracha. Na sequência destes acontecimentos, quatro jovens moradores do bairro, entre os quais trabalhadores da associação Moinho da Juventude, dirigiram-se à esquadra de Alfragide com o objetivo de procurar saber da situação da pessoa detida mas foram objeto de pontapés, socos e disparos de balas de borracha por parte de diversos agentes presentes na esquadra. Alguns meios de comunicação social, baseados em fontes policiais, apressaram-se a reportar o caso como uma invasão à esquadra de Alfragide mas a verdade é que os jovens do bairro da Cova da Moura acabaram por ser ilibados destas acusações e 18 agentes da PSP da esquadra de Alfragide foram constituídos arguidos acusados de falsificação de documento agravado, denúncia caluniosa, injúria agravada, ofensa à integridade física, falsificação de testemunho, tortura e tratamentos cruéis ou sequestro agravado. O despacho do Ministério público refere ainda que tais atos se deveram ao “sentimento de ódio racial” da parte dos acusados.

    Em que ponto se encontra o julgamento e que desenvolvimentos podemos esperar nos próximos meses?

    As sessões do julgamento iniciaram-se no fim de Maio e estão previstas sessões até Dezembro. O ritmo das sessões é uma por semana, geralmente às terças-feiras. Até agora já foram ouvidos todos os 17 polícias acusados. Foi relatado na comunicação social, e também foi claro para quem esteve presente, que há inúmeras contradições insanáveis na defesa dos polícias. Nas últimas duas sessões antes das férias foram ouvidos o primeiro detido do dia 5 de Fevereiro de 2015 e as testemunhas dessa detenção. Nestas sessões ficou claro que não houve nenhum apedrejamento da viatura policial, o que era alegado pela polícia para a ação violenta, e que a detenção foi completamente inusitada e sem razão aparente. De momento estamos em férias judiciais e serão reiniciadas em meados de Setembro. As primeiras sessões depois de férias serão para ouvir os restantes 5 jovens que foram agredidos, A partir daí há ainda um número considerável de testemunhas a ser ouvidas.
    Quando terminarem as sessões de julgamento teremos de esperar por uma decisão que, tendo em conta a complexidade do caso, poderá demorar alguns meses.

    O julgamento de agentes da PSP, acusados de abuso de poder e racismo, surgiu como uma novidade em Portugal. À medida que o julgamento se desenrola, mantêm-se a ideia de que algo mudou na justiça?

    Ainda é muito cedo para dizer se algo mudou na justiça. Claramente a novidade foi a acusação de racismo, visto que a de violência policial é mais frequente. Estamos habituados de que em tribunal o testemunho de um polícia valha mais do que o de um cidadão comum, mesmo em casos em que a polícia é a acusada de violência. Há claramente um caminho a percorrer e este caso pode iniciar uma etapa nesse sentido. No entanto a justiça é uma justiça de classe, e claramente sabe-se que geralmente quebra no ponto mais fraco.

    Independentemente do resultado deste processo, poderá este caso servir para dar visibilidade aos inúmeros outros casos de violência policial que não chegam aos tribunais?

    É curioso referir que alguns destes agentes têm outros casos de violência policial em julgamento. Evidentemente devido ao mediatismo deste caso, potenciado em grande medida pela espetacularidade das primeiras versões da polícia sobre “a invasão de esquadra”, ajuda a criar uma perceção de que todas aquelas situações que sabemos existirem diariamente de violência policial podem ter um desfecho diferente do habitual: arquivamento. Mas mais importante é garantir que situações destas não voltam a acontecer. Há uma certa “suspensão do estado de direito” nas investidas policiais em bairros como a Cova da Moura que têm de ser invertido. A polícia não pode guetizar bairros e intervir de forma diversa em locais distintos sem uma razão plausível. E todos sabemos que estes bairros são causticados por atuações policiais à margem de qualquer lei vigente.
    Ainda mais importante é a visibilidade que estes casos podem trazer a pessoas que geralmente defendem imediatamente toda e qualquer atuação policial de forma acrítica. Se nos relembrarmos de um caso recente de extrema brutalidade sobre um pai com os seus filhos à saída de um jogo de futebol, podemos facilmente extrapolar o que se passa diariamente nestes bairros.

    Ao longo dos últimos anos, o OCR (observatoriodocontroloerepressao.wordpress.com) tem prestado auxílio financeiro às vítimas da Cova da Moura como despesas médicas, logísticas e judiciais. Contribuições para o IBAN/NIB PT5000350100 0003237453069 / CGDIPTPL.

    MOBILIZAÇÃO NACIONAL DE LUTA CONTRA O RACISMO 2018

    No dia 15 de setembro «dezenas de coletivos, de Braga, a Coimbra, Lisboa e Porto, convocam uma Mobilização Nacional de Luta contra o Racismo. Os vários casos que têm vindo à praça pública são só a ponta do icebergue daquilo que sofrem as comunidades no seu dia-a-dia, sem que se faça justiça. As agressões policiais a negros/as, ciganos/as e imigrantes acontecem nos bairros, nas ruas, nos transportes públicos e nas esquadras. Perante elas, o Estado pouco ou nada faz. Em fevereiro de 2015, moradores da Cova da Moura foram agredidos debaixo de insultos racistas pela PSP de Alfragide. Este caso que levou a acusação de quase toda a esquadra encontra-se em julgamento. A polícia encobriu os factos, acusando os moradores de tentativa de invasão de esquadra. No Porto, Nicol Quinayas foi agredida por um segurança da empresa 2045 enquanto era alvo de insultos racistas, quando tentava apanhar um autocarro da STCP. Em Beja, Igor, jovem cigano, foi baleado na face por um agente da PSP de Beja, quando se deslocou a uma quinta para pedir trabalho na apanha da azeitona. Todos sabem da infiltração da extrema-direita nas forças de segurança. São grandes as desigualdades no acesso à educação, saúde, habitação, justiça, cultura e ao emprego com direitos para negros/as, ciganos/as e imigrantes. E a violência é ainda maior quando ao racismo se adicionam outras discriminações como a de género, classe social, orientação sexual e identidade de género. Por isso, chamamos todos/as à Mobilização Nacional de Luta Contra o Racismo, no dia 15 de Setembro, sábado, às 15 horas em Braga (Av. Central/Chafariz), Lisboa (Rossio) e Porto (Praça da República).»

    Coletivos promotores:
    Afrolis – Associação Cultural; GTO Lx – Grupo de Teatro do Oprimido; MUXIMA; FEMAFRO – Ass. de Mulheres Negras, Africanas e Afrodescendentes; DJASS – Ass. de Afrodescendentes; Observatório do Controlo e Repressão; Casa do Brasil; CAIPE – Coletivo de Ação Imigrante e Periférica; Consciência Negra; Socialismo Revolucionário; SOS Racismo; Plataforma Gueto; Nêga Filmes; Ass. Cultural Moinho da Juventude; Associação Muticultural do Carregado; Associação dos Filhos e Amigos de Farim (AFAFC); APEB – Ass. de Pesquisadores e Estudantes Brasileiros de Coimbra; Organização dos Estudantes da Guiné-Bissau de Coimbra; Letras Nómadas – Ass. de Investigação e Dinamização das Comunidades Ciganas; Em Luta; Teatro Griot; INMUNE – Instituto da Mulher Negra em Portugal; Associação Nasce e Renasce; Associação Krizo; A Gazua; Coletivo Chá das Pretas; Festival Feminista do Porto; A Coletiva; Núcleo Antifascista de Braga; UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta (Braga); STCC – Sindicato dos Trabalhadores de Call Center; AIM – Alternative Internacional Movement; Banda Exkurraçados; Hevgeniks; Khapaz – Associação Cultural de Jovens Afodescententes; Solidariedade Imigrante – Associação para a defesa dos direitos dos imigrantes (SOLIM); Kalina – Associação dos Imigrantes de Leste; Comunidade Bangladesh do Porto; União Romani Portuguesa; AMEC – Associação de Mediadores Ciganos; CIAP – Centro Incentivar a Partilha; Associação Mais Brasil; Coordenadora Antifascista Portugal; Associação Saber Compreender; GAP – Grupo Acção Palestina; GERA – Grupo Erva Rebelde Anarquista; Existimos e Resistimos; Rede Ex aequo; Porto Inclusive; Disgraça; Nu Sta Djunto; Outros Ângulos; Assembleia Feminista de Coimbra; UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta (Coimbra).

    CONTACTOS
    LISBOA
    Piménio Ferreira – 912988790
    Ana Bela Rodrigues (GTO LX – Teatro do Oprimido) – 965623263
    Mobilização Nacional de Luta Contra o Racismo 2018 (Lisboa)
    PORTO
    Melissa Rodrigues (Coletivo Chá das Pretas) – 961070528
    Maria Gil (Ass. Saber Compreender e coletivo Existimos e Resistimos) – 919102905
    Mobilização Nacional da Luta Contra o Racismo 2018 (Porto)
    BRAGA
    Emília Santos – 918094037
    Mobilização Nacional de Luta Contra o Racismo 2018 (Braga)
    COIMBRA
    Danielle Araújo – 917376518
    Mobilização Nacional da Luta Contra o Racismo 2018 (Coimbra)
  • Decrescimento: escolha ou inevitabilidade?

    Decrescimento: escolha ou inevitabilidade?

    Surgiu este verão a formação de uma futura Rede do Decrescimento em Portugal, animada pela passagem em Julho, no Porto, de Miguel Anxo Abraira e Iolanda Teijeiro Rey da Rede do Decrescimento da Galiza. Duas sessões, moderadas por Jorge Leandro Rosa e Álvaro Fonseca, foram atendidas por uma centena de pessoas nos espaços do Gato Vadio e Gazua. As conversas lançaram o convite à participação no 1º Congresso do Decrescimento da Galiza, que terá lugar em Ferrol, nos dias 6 e 7 de Outubro.

    Não será de todo fácil acolher simpatia imediata proclamando a palavra decrescimento. Decrescimento, como referia o convite das sessões no Porto, «contrasta com a religião laica do crescimento diariamente praticada pelo Estado e pelos meios de comunicação». Um dia depois de Obama ter estado nessa cidade a falar às elites sobre o caminho do capitalismo verde para que a senda do lucro não pare de crescer, as sessões sobre o decrescimento – desta feita abertas ao público, mas sem cobertura mediática – alertavam para tamanha e suicida ilusão.

    Porém não é de todo difícil explicar a inversão desse verbo, face à percepção global «que o nosso modo de vida sofrerá muito em breve grandes transformações». E que «são ainda possíveis mudanças que não nos sejam impostas». Por entre o cenário dantesco, sobretudo manifesto nas alterações climáticas resultantes do modelo energético da nossa sociedade industrial, há um apelo a «mudanças onde a simplificação da vida em todos os domínios acompanhe o progresso geral da equidade», como se lê no primeiro comunicado da Rede do Decrescimento em Portugal. Uma Rede que se assume ainda inexistente dado que terá de resultar de um processo participado.

    Não parece haver lugar nesta Rede ao desânimo. Antes pelo contrário: «É possível sair da economia do desperdício sem desperdiçar vidas. É possível sobreviver à mudança climática se deixarmos para trás a agropecuária industrial, as viagens aéreas a qualquer pretexto, o culto do automóvel, o comércio intensivo a longa distância, o mito das soluções high-tech… Estes apenas alguns exemplos da droga dura mais perigosa e difundida do nosso tempo: o crescimento. Para isso precisaremos de nos reunir em modos de vida mais locais e comunitários, precisamos de sair da dicotomia entre cidade e campo, precisamos de discutir e aprender a sobrevivência nas condições crescentemente adversas que aí vêm.»

    Tal como apontado desde o pensamento de Ivan Illich nos anos 1970 até à difusão da teoria do Descrescimento com Serge Latouche, neste século, há um facto que hoje já ninguém consegue negar, embora escamoteado no malabarismo de esquerda e direita: «a aceleração da degradação do ambiente é acompanhada por “medidas” que são ineficazes porque se recusam a tocar no produtivismo». O vivo debate que esta crítica suscita, como patente nas sessões do Porto, quer agora alargar-se numa Rede que afirma querer «ser um espaço de apoio mútuo, uma rede de partilhas e um vislumbre das formas como poderemos construir as experiências de resiliência futuras.»

    No dia 5 de Outubro, véspera do início do Congresso do Decrescimento, haverá lugar em Ferrol a uma reunião Galiza-Portugal onde serão lançadas as bases de uma cooperação entre os movimentos decrescentistas dos dois lados de uma mesma bio-região, favorecendo a entreajuda e a cooperação, dimensões basilares do decrescimento.
    Antes, a 14 e 15 de Setembro, o Congresso apresenta-se em Lisboa no espaço Gaia e no ISCTE. Prossegue ainda nesse mês, em Lisboa, na Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, o ciclo «Outra sociedade – à volta das ideias de Ivan Illich», que revisita a sua crítica radical das sociedades industriais da segunda metade do século XX. A fechar esse ciclo tem lugar no sábado 29 de Setembro um debate sobre o modo de desenvolvimento das sociedades industriais e a ideia de decrescimento.

     

    «Ao longo dos anos, disseram-nos que vivíamos numa sociedade miraculosa, onde o crescimento tudo assegurava: o bem-estar e a igualdade de oportunidades, a democracia e a sociedade de consumo para todos. A nenhum de nós escapa que tudo isso está na iminência de se perder, embora os sacerdotes do “Crescimento” continuem a invocar os mesmos deuses. E como acontece com as divindades que já não parecem capazes de operar prodígios, estas começam a pedir-nos sacrifícios, enquanto tudo se torna mais caótico, mais imprevisível e presa de novos “homens fortes”.
    Podemos contrariar o enlouquecimento geral trazido pelo fim iminente da “sociedade de crescimento” que as fontes energéticas fósseis instalaram e agora já não podem assegurar. Podemos ainda travar a destruição, hoje extrema, dos ecossistemas de que os humanos dependem. Podemos criar alternativas à entrada da sociedade na desigualdade nunca antes vista, nos autoritarismo e nacionalismo crescentes, na xenofobia, na guerra e no fascismo tecnológico. E, mudando de rumo, podemos construir vidas felizes mesmo sabendo que os recursos disponíveis serão menos abundantes a breve prazo.»

    Rede de Decrescimento em Portugal | encontrodecrescimento@gmail.com

    Por Filipe Nunes
    filipenunes@dev.jornalmapa.pt

  • «Crítica em pleno combate»

    «Crítica em pleno combate»

    Por Maria Magalhães Ramalho
    mariabaptistaramalho@hotmail.com

     

    Paris: Barricadas da Comuna em 1871 e na Rua Le Goff em 1968

    A leitura do livro «A Revolta de Maio em França» editado pela Dom Quixote em Novembro de 1968, levou um funcionário da «Comissão Central de Exame Prévio» (comissão de censura do regime) a concluir o seguinte:
    «Para melhor exemplificação transcrevemos algumas partes que consideramos de maior gravidade: “A única chance do movimento é justamente essa desordem, que permite às pessoas falar livremente e que pode conduzir a uma certa forma de auto-organização” – Cohn-Bendit, a págs. 31. “Nós podemos ser o detonador, mas a revolução só seria feita pelo conjunto das classes trabalhadoras, a operária e a camponesa.” – Jean-Paul Sartre, a págs. 63, atribuindo esta afirmação aos estudantes.»
    Segundo investigação elaborada por Maria Luísa Alvim este livro será imediatamente proibido pela censura numa altura em que, curiosamente, Salazar já se encontrava moribundo. Implícito nesta proibição estava o medo que ainda em Novembro de 1968 se sentia nas esferas do poder relativamente ao movimento criado em França, nomeadamente pela ressonância que este estava a ter no resto do mundo.


    Maio de 1968 [numa pesquisa de imagens na internet]

    No entanto, esta erupção revolucionária que não teve por base uma razão económica mas que, pelo contrário, nasceu da denúncia das condições criadas pela sociedade de consumo, acabou por obrigar a um reajustamento do capitalismo mundial, reforçando-se o seu domínio sobre todos os aspectos da vida, o «Espectacular Integrado», fase em que nos encontramos hoje, como bem descreveu Guy Debord nos seus textos.

    «Foi uma grande sorte termos sido jovens nesta cidade, quando pela última vez ela brilhou de um tão intenso fogo».

    O objectivo deste texto é dar a conhecer o papel que um pequeno grupo de «empreendedores de demolições», os Situacionistas, teve na revolta de Maio, papel este pouco conhecido entre nós. Os seus slogans, fortemente subversivos e poéticos, continuam ainda hoje a apelar à imaginação mas também à acção directa: «Sob as pedras da calçada a praia»; «corre camarada o velho mundo está atrás de ti», «o tédio é contra-revolucionário».
    Se passados 50 anos desta data se verifica uma generalizada descrença relativamente a algumas das ideologias e figuras que estiveram na base dos acontecimentos, as inscrições situacionistas então espalhadas pelas paredes de Paris, assim como o pensamento que as inspirou, não parecem envelhecer, continuando a apelar à realização de uma revolução que ficou por fazer.

    «É um belo momento, esse que se põe em marcha um assalto à ordem do mundo».

    Um dos acontecimentos que estará na origem do Maio de 68 foi o escândalo criado, ainda em 1966, pela divulgação de uma pequena brochura anónima, mais tarde atribuída a Mustapha Khayati, aluno da Universidade de Estrasburgo e membro da Internacional Situacionista (I.S.). Da leitura do texto fica clara a sua inspiração no pensamento de Debord que, na época, se encontrava a finalizar o livro: «A Sociedade do Espectáculo», editado apenas um ano depois.

    O tumulto causado por esta brochura denominada: «De la misére en milieu étudiant considérée sous ses aspects économique, politique, sexuel et notamment intellectuel et de quelques moyens d’y remédier», vai-se espalhar depois como um rastilho pelos meios estudantis e intelectuais de França, mas não só. A leitura deste texto, que deveria ser retomada na actualidade, colocava a nu, numa crítica feroz, o tipo de vida dos estudantes, a sua miserável dependência em relação a diversos sistemas de poder como o Estado, a família, a universidade, e até o meio intelectual da época, denunciando o modo como todas estas estruturas se encontravam ligadas ao sistema «espectacular-mercantil», promotor da alienação e da passividade.
    O livro «A Sociedade do Espectáculo», considerado pelo autor, mas também por muitos outros, como uma das bases teóricas fundamentais para o eclodir do movimento de 68, conseguirá alcançar nessa época também uma ampla divulgação: «Aqueles que querem abalar realmente uma sociedade estabelecida devem formular uma teoria que explique fundamentalmente esta sociedade».
    O ano de 1967 ficará ainda marcado por outra importante publicação a «Arte de Viver para a Geração Nova» da autoria de Raoul Vaneigem, também ele destacado situacionista, verificando-se, depois, como muitas das citações deste livro acabaram nas paredes de Paris. Vaneigem como os outros camaradas da I.S., denunciava o conformismo que era incutido pela sociedade de consumo, apelando à crítica da vida quotidiana e à revolta contra aquilo que apelidava de «doença da sob(re)vida».
    Debord refere que alguns meses antes do eclodir da revolta estas obras foram intensamente divulgadas, sendo mesmo as mais roubadas nas livrarias durante todo o ano de 1968.
    Apesar da sua densidade teórica, os textos não deixavam de interpelar os leitores convocando-os à acção: «Depressa» dizia apenas talvez um dos mais belos lemas escritos nas paredes nesses dias afirmava Debord. A crítica era dirigida não só à sociedade de consumo capitalista e todas as suas falsificações como, também, à alternativa burocrato-estalinista com as suas estruturas de controlo, nomeadamente os sindicatos, propondo a I.S., em contrapartida, uma via que reunisse, numa única experiência, todos os aspectos da vida sem qualquer separação: arte, política, poesia, filosofia, lazer, amor etc., e onde o modelo organizacional da sociedade deveria seguir o exemplo dos Conselhos Operários: auto-gestão e democracia directa.

    «Ceux qui parlent de révolution et de lutte des classes, sans se référer explicitement à la vie quotidienne, sans comprendre ce qu’il y a de subversif dans l’amour et de positif dans le refus des contraintes, ceux-là ont dans la bouche un cadavre.
    COMITÉ ENRAGÉS-INTERNATIONALE SITUATIONNISTE LE COMITÉ D’OCCUPATION DE LA SORBONNE

    Universidade de Nanterre em 1968 | Cartaz de Maio de 68

    Um dos grupos revolucionários mais aguerridos do Maio de 68 era designado como «Enragés» (raivosos em português), sendo responsável pelos primeiros motins no Campus Universitário de Nanterre, ainda em Janeiro de 1968. No entanto, é habitual esquecer este facto remetendo para o dia 22 de Março a origem do movimento, altura em que diferentes facções de esquerda, juntamente com os anarquistas, se unem numa grande revolta contra a autoridade.
    Esta universidade recém-criada situava-se nos arredores da cidade, sendo os seus estudantes bastante politizados pelo contacto directo que tinham com o mundo operário e com a dura realidade dos bairros de lata que proliferavam em redor, em aberrante contraste com o novo Campus composto por edifícios que ostentavam uma arquitectura muito contestada primeiro pelos Letristas e depois pelos Situacionistas: «Non aux Bidon Villes non aux Ville –Bidons», dizia um cartaz de Junho de 68.


    Ocupação da Sorbonne | Cartaz do C.M.D.O.

    Mais tarde, já em plena revolta, será criado o «Comité Enragés-Internacionale Situationniste», grupo que adoptará tanto a teoria, como a prática situacionista, participando também na ocupação da Sorbonne, desta vez no coração da urbe.


    Reunião de trabalhadores na Fábrica da Renault ocupada

    É habitual esquecer-se que a revolta dos estudantes não foi um factor isolado mas que esteve associada a uma rebelião generalizada no país, levando à maior greve selvagem da história de França que envolveu cerca de 10 milhões de trabalhadores. Era o eclodir de um sentimento profundo como raramente se viu e o despertar do entorpecimento causado pelas maravilhas do consumismo do pós-guerra. É nesse ambiente que na noite de 17 de Maio surge, entre o grupo de ocupantes da Sorbonne, a decisão de criar um «Conselho para a Manutenção das Ocupações» o C.M.D.O, organização que durou apenas um mês mas que chegou a reunir cerca de 60 membros entre revolucionários, grevistas, operários e estudantes, encontrando-se, entre eles, destacados situacionistas como Debord, Alice Becker-Ho, Vaneigem e Eduardo Rothe, este último muito activo também na Revolução do 25 de Abril.

    «Appelle à l’occupation immédiate de toutes les usines en France et à la formation de Conseils ouvriers. Camarades, diffusez et reproduisez au plus vite cet appel.
    Sorbonne, 16 mai, 15heures 30».

     
    Litografia de Asger Jorn e cartazes do C.M.D.O

    Com uma rapidez impressionante o C.M.D.O promoveu, desde logo, contactos com fábricas em todo o país, gerindo não só a actividade dos seus camaradas, nomeadamente as suas deslocações, como os mantimentos necessários para abastecer o espaço que ocupavam, o Instituto Pedagógico Nacional, próximo da Sorbonne.
    Segundo relato de um participante o que nunca podia faltar era gasolina, comida, dinheiro e vinho. Essencial era também a implementação de uma estratégia de divulgação dos seus objectivos, nomeadamente através de diferentes comunicados, canções, bandas desenhadas, frases espalhadas nas paredes e originais cartazes onde se liam as seguintes mensagens: «Abaixo a Sociedade Espectacular-Mercantil»; «Poder aos Conselhos Operários»; «Ocupação das Fábricas»; «Abaixo a Sociedade de Classes»; «Fim da Universidade».
    Refira-se, ainda, um conjunto de quatro belíssimas litografias destinadas a financiar a actividade do grupo que foram criadas por Asger Jorn, considerado hoje o mais importante artista dinamarquês do século XX, membro da I.S. de 1957 a 1961.
    Muito interessantes são também as músicas entoadas pelos Situacionistas nesses dias de Maio, revelando o entusiasmo revolucionário que se vivia, e o estilo que os caracterizava. Debord fez «Os dias de Maio», uma adaptação (detournement) de uma célebre canção anarquista da guerra civil espanhola «O Exército do Ebro», usando a mesma música mas criando uma letra que denunciava as manobras estalinistas para controlar o movimento. Alice Becker-Ho, sua mulher, escreve a «Canção para o CMDO» tendo por base a «Canção do Cerco a La Rochelle» de Jacques Douai, descrevendo, com grande intensidade, o ambiente de revolta nas ruas, denunciando a violência policial e apelando a uma contestação sem piedade:

    «Le vieux monde et ses séquelles
    Nous voulons les balayer
    Il s’agit d’être cruel
    Mort aux flics et aux curés»

    Uma das marcas mais fortes da acção situacionista no Maio de 68 foi, de facto, o combate que travou contra alguns movimentos de esquerda. Debord afirmará mais tarde, a propósito dos acontecimentos: «o governo e os estalinistas trataram febrilmente de travar a crise (…)». Ou ainda, referindo-se às acções do movimento operário: « (…) Não sabem eles já, instruídos pela sua longa experiência, que antes de mais é preciso escorraçar os estalinistas das Assembleias? Foi por não ter podido fazê-lo que a revolução encalhou em França em 1968, e em Portugal em 1975».
    Outro aspecto interessante é verificar que, durante este período revolucionário, a prática da «Deriva», tão exaltada pelos Letristas, e depois pelos Situacionistas, teve aí o seu momento de concretização absoluta convertendo-se, então, numa verdadeira «Psicogeografia insurrecional de Paris», com a descoberta aventurosa dos locais de combate, das barricadas, das viaturas incendiadas, das instituições ocupadas e dos inúmeros locais de festa e encontros espontâneos.

    «O que eles dizem de Maio sumir-se-á na indiferença e será esquecido; e aquilo que nós dizemos irá permanecer, acabando por ser entendido e retomado.»

    Com o final da «Grande Festa» veio também o balanço feito sobre certos erros cometidos, nomeadamente o terem deixado isolados alguns grupos de combate, e o não terem usado meios mais rápidos de difusão de mensagens pelas fábricas e por toda a Europa.
    No entanto, os Situacionistas concluem, num longo texto publicado no derradeiro número da sua revista a «Internacional Situacionista» editada em Setembro de 1969 que, apesar de vencido, o movimento não tinha sido esmagado, referindo, como exemplo, a burguesia que perdera a confiança no país, o poder de De Gaulle que tinha sido mortalmente atingido, a desordem instalada nas universidades e liceus, bem como as greves e motins que, inspirados no movimento de Maio, se espalhavam por todo o mundo.
    É a última frase do texto que, de alguma forma, irá resumir a convicção profunda da I.S. sobre tudo o que se tinha passado no ano anterior:

    «Estamos doravante seguros dum desenlace satisfatório das nossas actividades: A Internacional Situacionista será superada.»

     

  • Mapa #21 nas ruas!

    Mapa #21 nas ruas!

    Está nas ruas a 21ª edição do Jornal MAPA.

    A terminar o quente mês de Agosto a presente edição dá destaque especial a duas questões essenciais. De um lado um Caderno Central “Amor e uma ordem de despejo”, construido a várias mãos, dedicado à habitação na cidade do Porto com um especial foco nos inúmeros processos de despejos, bem como na atual dinâmica de transformação da cidade. Por outro uma longa entrevista de Filipe Nunes a Mickael Correia, autor do best-seler “Uma história popular do futebol”, um livro sobre as fintas que o futebol popular tem feito ao capitalismo ao longo dos tempos.

    No entanto a presente edição tem ainda outras peças inevitáveis. Uma delas é “Flotilha de Liberdade: uma história a três tempos”, uma reportagem de Zita Moura sobre o conjunto de embarcações que nos últimos anos tem levado ajuda e solidariedade à faixa de Gaza e que recentemente passou por Cascais. Mas também uma atualização da situação da indústria fóssil em Portugal através de uma infografia/cronologia a cores na paginas centrais. Assim pode ser destacada e colocada numa qualquer parede. A não perder surgem ainda as peças sobre os acordos de Paris para o clima, sobre as fronteiras e a xenofobia, sobre o despejo da ocupação galega “Insubmissa” entre diversas curtas. De leitura obrigatória são também as crónicas habituais de Jorge Valadas, a série sobre o Transhumanismo e a secção Tripalium, dedicada às questões laborais. Mas também a peça de Júlio Silvestre sobre o recente conferência ”Anarcha Portugal” e a rubrica musical de Diogo Duarte desta vez dedicada ao livro “As palavras do Punk”

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  • Luta Armada ou como se reescreve a história a bem da biografia pessoal

    Luta Armada ou como se reescreve a história a bem da biografia pessoal

    por M. Ricardo de Sousa

     

    «Jamais alguém pôs em dúvida que verdade e política não se dão muito bem uma com a outra, e até hoje ninguém, que eu saiba, incluiu entre as virtudes políticas a sinceridade…»
    Hannah Arendt

     

    Foi editada recentemente uma volumosa obra de Isabel do Carmo intitulada Luta Armada. O livro dificilmente passa desapercebido, quer pelo volume — mais de setecentas páginas —, quer pelo tema.
    Conhecendo a autora, quem olhar para o livro pode pensar que se trata de uma contribuição para a história do PRP-BR, ou imaginar que está perante uma obra memorialista ou um estudo teórico sobre o tema. Mas ao abrir o livro, logo no índice se torna claro que não é nada disso. Ou melhor, é tudo isso misturado segundo uma lógica caótica e incompreensível.

    Podia aqui falar sobre toda a obra, mas, bem vistas as coisas, metade é dispensável; as informações generalistas sobre inúmeras organizações de luta armada na Europa dos anos 60/70 nada acrescentam ao que se sabe e muitas das questões mais polémicas sobre esse tema são ostensivamente ignoradas.[ref] Neste capítulo dos «Antecedentes Históricos», que curiosamente corresponde à segunda parte do livro, há frequentes erros que seria cansativo enumerar. Um exemplo flagrante: quando se fala do atentado na Piazza Fontana em Milão, diz a autora que na época foram presos dois anarquistas, Pinelli e Valpreda, que foram libertados pouco depois. É um facto bem conhecido que Giuseppe Pinelli foi assassinado na sede central da Polícia em Milão, a 15 de Dezembro de 1969.[/ref] Por outro lado, os diversos grupos de afinidade libertária e anarquista praticamente não merecem referência, exceptuando o caso do MIL e dos GARI, mesmo sabendo-se que a acção directa anarquista foi uma constante em Espanha no pós-guerra. O mesmo se podia dizer em relação a Itália.
    Em suma, Isabel do Carmo optou por dar ênfase às organizações de raiz marxista-leninista, o que pode ser explicado pelo seu percurso ideológico.

    Para lá disso, uma parte substancial do livro, intitulada «Antecedentes Históricos», bem como a cronologia final, ignoram, no caso português, todo um debate e uma prática de acção directa e ilegal, que ocorreu ao longo da primeira metade do século XX e que vai do carbonarismo republicano e operário, que conduziu à implantação da República, até ao período especialmente violento dos anos 20, em que jovens anarquistas e comunistas se envolveram em numerosos atentados, assassinatos e roubos, numa confusa promiscuidade ideológica em que as Juventudes Sindicalistas e a sua cisão, que daria origem às Juventudes Comunistas, agitaram Lisboa nos anos que antecederam a Ditadura. O certo é que o rasto de mortes, presos e deportados foi na ordem das centenas, sendo pois um fenómeno relevante que mereceria ser considerado nos antecedentes históricos do uso da violência revolucionária em Portugal.

    Mas mesmo na parte do livro que importa, a primeira metade, também se tornam quase dispensáveis as entrevistas a Raimundo Narciso (PCP-ARA) e Camilo Mortágua (LUAR), pois nos dois casos existem já diversas obras sobre essas organizações. Podemos reafirmar que o que se esperava de um livro destes é que fosse uma contribuição séria para a história das BR e do PRP, seja no que se refere à acção armada até ao 25 de Abril de 74, tema de frequentes entrevistas de Carlos Antunes, seja no que se refere à acção política legal e ilegal, tema tabu nos anos que se seguiram à queda da Ditadura. Não há razões para não ser assim, até porque a autora, tal como aconteceu com Carlos Antunes, há muito se afastou da acção, e do pensamento revolucionário anticapitalista, e mantém hoje uma grande distância em relação aos seus percursos passados. Pelo contrário, esta obra pouco acrescenta à versão oficial dos dois dirigentes do PRP-BR.[ref] Vale a pena recordar que Isabel Landim organizou um livro com depoimentos de mulheres que militaram nas BR e no PRP, numa contribuição interessante para a história dessas organizações: Mulheres de Armas. História das Brigadas Revolucionárias. Isabel Landim, Objectiva, Lisboa, 2012.[/ref]
    Nas considerações iniciais do livro, Isabel do Carmo faz uma citação enigmática: «O esquecimento, que evita as dores da memória, não terá aqui um papel fundamental? […] O que esquecemos ao narrar? Porque esquecemos?»[ref] Luta Armada. Isabel do Carmo, Dom Quixote, 2017, p. 82.[/ref] Fica alertado o leitor para os esquecimentos pré-anunciados.

    Há uma questão preliminar que vale a pena analisar, pois é um fio condutor no livro: a pretensa recusa de as organizações referidas «provocarem mortes». Esse é um tema central no discurso de Isabel do Carmo e Carlos Antunes, mas vem de longe nos debates sobre o uso da violência e tem levado a discussões intensas nos meios revolucionários anticapitalistas desde o século XIX. De um lado, os pacifistas radicais defensores da não-violência e da desobediência civil, do outro, os que defendem, ou aceitam, o uso revolucionário da violência. Mas uma vez admitida a violência, é necessário definir se esta deve ser dirigida contra instituições e objectivos materiais ou contra pessoas, se a violência revolucionária deve ter alvos selectivos ligados ao Sistema ou pode ser usado o terrorismo, e qual a relação entre os fins e os meios. No entanto, o livro Luta Armada não dá conta desse debate, ficando-se pelo cliché, entre o cínico e o hipócrita, do bíblico «não matarás». Esquecendo que só o uso das armas cria a possibilidade de se desencadearem acontecimentos que levam à morte dos próprios militantes, dos agentes do Estado e até de pessoas inocentes. Sendo assim, podemos perguntar-nos se um assalto para financiar um aparelho político, uma das acções recorrentes do PRP-BR, justificava a possibilidade de provocar mortes, mesmo que o objectivo da acção fosse uma mera expropriação «pacífica».

       

    Podemos também perguntar, por maioria de razão, quando o objectivo de uma organização é ocupar a cidade da Covilhã, como pretendeu a LUAR, ou derrubar o sistema capitalista, fazer uma insurreição ou uma revolução, como era o caso do PCP e do PRP-BR, através da força das armas, se a consequência última dessa estratégia não provocaria inevitavelmente um número significativo de mortes, a que não queremos chamar «baixas» nem «danos colaterais», termos habituais na linguagem dos homens do Estado. E se essa questão sempre se colocou em abstracto, ela teve um ensaio concreto no agitado ano de 1975 e no confronto do 25 de Novembro. Como é sabido, a contra-revolução preventiva provocou alguns mortos; quanto à insurreição, essa nunca chegou a acontecer, pelo que não sabemos em que resultaria. Como se adequa toda esta realidade política à ladainha do «nunca quisemos provocar mortes»?
    A resposta costuma ser: mas isso é diferente do atentado pessoal, é uma Revolução, produto da «violência revolucionária de massas»! Só que, como sabemos pela história das revoluções do século XX, o que houve de pior foi a deriva assassina dessas vanguardas revolucionárias após a tomada do Poder…
    Mas podemos descer aos factos e tentar perceber se efectivamente essas organizações tinham estabelecido de forma clara que do ponto de vista táctico pretendiam evitar os «assassinatos políticos», e se isso era extensível «aos piores inimigos», como diz Isabel do Carmo. O PCP tinha já um histórico de liquidação de delatores, e quando a ARA sofreu um sério revés resultante da colaboração do seu militante Augusto Lindolfo com a PIDE, este viria a sofrer um atentado que, por sorte sua, não resultou em morte… Não deixa de ser curioso que quando Raimundo Narciso fala disso, Isabel do Carmo não lhe tenha questionado, de forma óbvia, se essa tentativa de assassinato foi feita pela ARA!

    Quanto à FAP não há dúvidas, uma das poucas acções realizadas foi a liquidação de um infiltrado da PIDE, que foi assumida e resultou nas pesadas penas de prisão de Francisco Martins Rodrigues e dos outros fundadores dessa organização maoista.
    Já as BR, não obstante terem dado prioridade, tal como a ARA, a alvos materiais ligados à Guerra Colonial, não deixaram de realizar um atentado em Bissau contra a reunião dos oficiais do comando do exército colonial, em vésperas do 25 de Abril, onde só não ocorreram mortes por «sorte», pois o objectivo era esse. À luz destes factos, e de outros no pós-25 de Abril, alguns dos quais fora de Portugal, parece difícil manter a cantilena, adequada aos tempos actuais, do uso da violência revolucionária sem mortes.

    Mas não se trata só de algumas omissões e distorções na história das BR-PRP, há claras lacunas que levam a que praticamente não se mencionem os restantes militantes ou os debates internos. São escassas as referências nesta obra aos militantes das BR que entraram em rota de colisão com os dirigentes: «Alguns tinham regressado do primeiro curso de manuseamento de armas em Argel. Alguns tinham fraca formação política, com certa confusão ideológica e um ou outro com tendências marginais…»[ref] Ibidem, p. 270.[/ref], mas a entrevista não dá continuidade ao que é afirmado, não tenta esclarecer quais as divergências políticas, a tal confusão ideológica de que fala ou a marginalidade e como elas deram origem à ruptura da quase totalidade desses militantes das BR, e diversos militantes do PRP, no Congresso realizado em 1974. Quando regressa ao assunto desses militantes, Carlos Antunes ainda consegue fazer mais umas críticas a pessoas que detesta, como Manuel Alegre e «Simões», e acrescenta ainda que «Havia os que os queriam continuar mesmo depois do 25 de Abril e disso houve sinais concretos…»[ref] Ibidem, p. 302.[/ref]  Mas será Isabel do Carmo, que também pouco esclarece sobre as divergências na organização, a voltar ao tema, afirmando que no dia 25 de Abril decretou o fim das acções armadas: «Eu vi no próprio dia […] Era preciso imediatamente deixar as acções armadas de lado. […] Houve alguns grupos que não aceitaram isto, que achavam que as acções deveriam continuar.» Mais à frente fala de «umas acções que foram feitas no Porto já depois do 25 de Abril…»[ref] Ibidem, p. 302.[/ref] Ou seja, quando se refere aos «dissidentes» não se importam de falar mesmo de forma lacónica, mas mais difícil será admitir as suas próprias acções após o 25 de Abril…

     

     

    No que toca a conflitos dentro das BR e do PRP, há apenas silêncio e mistério e muitos «esquecimentos»… Já os pormenores da «confusão ideológica» e das «tendências marginais», são comuns na boca de Carlos Antunes, e iriam repetir-se mais tarde com outros protagonistas, já na década de 80. Não é por acaso que, na sua curta vida, o PRP passou por duas importantes rupturas, uma em 1974 e outra em 1979, que viriam a dar origem às FP25, e por diversas saídas individuais de militantes conhecidos, como Hipólito dos Santos, «Simões» e, mais tarde, Romano, o último dos militantes operacionais fiéis que foi «esquecido» na prisão. Em todos os casos, as saídas foram sempre em conflito aberto com Carlos Antunes e Isabel do Carmo.
    O cenário piora quando se aborda a actividade clandestina no pós-25 de Abril; aí o silêncio é quase total. Se pensarmos que já passaram muitas décadas, que a organização em causa já não existe, não é compreensível que o livro Luta Armada não consiga narrar a história da organização com o mínimo de objectividade.

    Há apenas uma análise genérica sobre a situação política em 74 e 75 e informações avulsas do tipo: «Procurávamos fazer desaparecer a velha estrutura das BR, mas procurámos sempre obter armamentos com duas ideias: se regressássemos ao passado fascista não íamos de mãos vazias; por outro lado, o desaparecimento de armas significava preservar o futuro.»[ref] Ibidem, p. 274.[/ref] Podíamos fazer duas notas a esta declaração ambígua: a velha estrutura das BR já estava extinta após a ruptura de 1974 e o que subsistia, algumas vezes apelidada com o mesmo nome, era algo que Carlos Antunes nunca explica «para o que servia…». Por outro lado, esse poético «preservar o futuro» seria o que estava estampado na propaganda como uma prosaica «Insurreição Armada»? Parece que sim, pois mais à frente afirma-se: «Voltando ao período anterior ao 25 de Novembro caminhámos no sentido de uma direcção político-militar capaz de dirigir a insurreição.»[ref] Ibidem, p. 275.[/ref]

    A entrevista mais curiosa é realizada pelos filhos de Isabel do Carmo e Carlos Antunes, Isabel Lindim e Sérgio Antunes, onde são colocadas algumas perguntas incómodas, mas sendo a saída sempre airosa ou categórica: «Não fizemos nada entre 25 de Abril e 25 de Novembro que constituísse um crime para qualquer acusação jurídica…»[ref] Ibidem, p. 304.[/ref] À pergunta se ponderaram mudar a forma de luta no 25 de Novembro, responde: «Discutiu-se objectivamente embora aqui tivesse havido uma questão, é que o PRP separou-se das Brigadas.»[ref] Ibidem, p. 306.[/ref] Como é óbvio, os entrevistadores, que são inteligentes, quiseram saber se Isabel do Carmo esteve de acordo com essa «separação»: «Não sei se estive. Mas foi uma questão puramente táctica e defensiva. Eu acho que, quando se separa, (o político do militar) dá asneira.»[ref] Ibidem, p. 306.[/ref] Faltou esclarecer que como dirigente, ao que se saiba, Isabel do Carmo nunca deixou de ter responsabilidades sobre a estrutura militar, que desde 74 tinha perdido totalmente a relativa autonomia que ainda existiu nas BR da clandestinidade, até porque, como admite expressamente, essa passagem «à clandestinidade» foi puramente táctica.

    O livro ignora também um dos episódios mais significativos desse período, o do confronto armado no Porto, em Massarelos, de militantes do PRP-BR com agentes da PJ, em Julho de 1978, evento que contribuiu para as prisões dos militantes e dirigentes do PRP.[ref] Este confronto resultou de uma armadilha montada pela PJ para tentar prender militantes clandestinos do PRP-BR, que reagiram ao cerco morrendo um agente da PJ.[/ref] Mais à frente distancia-se da liquidação, em Novembro de 1979, de um militante, Plácido, que estava a colaborar com a polícia, responsabilizando os membros do PRP que ainda estavam em liberdade. E explica que após o comunicado que fizeram, Carlos Antunes, Isabel do Carmo e alguns outros, distanciando-se dessa acção, foram expulsos do PRP.

    Ficam muitas interrogações por responder ao longo das entrevistas e dos depoimentos. As respostas a estas questões seriam decisivas para compreender todo o percurso desse partido até à sua extinção e até o continuismo político que se deu nessa outra organização armada silenciada no livro que foram as FP25 e que os ex-dirigentes do PRP fazem questão de acusar como um bando de aventureiristas, bandidos, marginais e outros adjectivos similares.
    Será que passados tantos anos têm problemas em clarificar toda essa situação histórica, quando, repita-se, já não há questões legais envolvidas e quando nos jornais, arquivos e no próprio processo do chamado caso PRP, bem como noutros processos conexos, estão reunidas milhares de páginas com dados suficientes para qualquer pesquisador?

    O livro Luta Armada mostra a pretensão de contribuir para um debate teórico sobre a violência revolucionária e a chamada luta armada. No entanto, é abruptamente interrompido, ignorando as FP25 e todo um processo político de luta armada, que se estendeu até aos anos 90, em que a maioria dos protagonistas eram ex-militantes do PRP, apesar de incluir militantes provenientes da Luar e de outras origens. A esta organização o livro dedica apenas algumas afirmações indirectas, sendo a mais grave a de Isabel do Carmo a propósito das infiltrações policiais nas organizações armadas italianas e alemã: «Seria interessante estudar nessa perspectiva e com detalhe o que se passou na Alemanha, na Itália e em Portugal nos anos 80, mas não é o foco deste livro.»[ref] Ibidem, p. 602.[/ref] Evidentemente que seria interessante, tal como estudar as relações de Carlos Antunes com homens da CIA, diria alguém que fosse mais dado a insinuações que o autor deste artigo.

    O problema de Isabel do Carmo e de Carlos Antunes com a verdade histórica só se pode compreender à luz da sua formação política, em que todos os meios servem para atingir os fins. Podemos ter diferentes interpretações de factos, mas não os podemos esconder, manipular ou negar a nosso bel-prazer, pois nesse caso cai-se pura e simplesmente na mentira e na falsificação histórica.
    Carlos Antunes e Isabel do Carmo nunca deixaram de pensar e agir como políticos e, em muitos aspectos, como quadros com formação estalinista. É o próprio Carlos Antunes quem diz no seu depoimento: «Desde que entrei no PC que eu tinha a noção que tinha de ser mais manhoso que os manhosos.»[ref] Ibidem, p. 280.[/ref] E o livro Luta Armada reflecte nas suas páginas essa característica assumida de um Carlos Antunes manhoso e espertalhão.

    Numa interpretação mais benevolente, talvez nunca tenham recuperado do trauma da prisão em finais dos anos 70, que nunca esperavam que ocorresse. Carlos Antunes afirma claramente: «O que nos salvou foi a prisão…»[ref] Ibidem, p. 278.[/ref], querendo provavelmente dizer com isto que ao serem presos, e expulsos do PRP, ficaram livres para romper com as amarras ao passado e refazerem as suas vidas no quadro da nova realidade social e política que se vivia em Portugal nos anos 80. Mas não deixa de ser patético que estes ex-revolucionários, com biografias significativas, se disponham a reescrever a história para a adaptar aos tempos que vivemos e ao que eles imaginam ser uma biografia adequada para um envelhecer tranquilo.

    Concluindo, vamos ter de esperar que outros protagonistas desta história da luta armada em Portugal se decidam a dar os seus depoimentos, pois muitos ainda estão vivos, seja das BR e do PRP, seja das FP25, e que algum historiador consiga seguir as difíceis e sinuosas pistas entre documentos, processos judiciais, jornais, depoimentos, verdades ocultas, meias verdades, mentiras e factos.

     

    Luta Armada. Isabel do Carmo. Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2017. 757 pp.

     

    Nota: Na mesma edição do Jornal MAPA #19 foi publicado o artigo “In Memoriam. A Constância de José Hipólito Santos” de Fernando Silva com estreita relação ao tema abordado nesta resenha critica do livro “Luta Armada”.

  • Felizmente continua a haver luar (Julho 2018)

    Felizmente continua a haver luar (Julho 2018)

    O Charly é um tipo forte com uma cabeça que lembra o Bakunine. É normal, o rapaz vem de La Chaux-de-Fonds e desembarcou em Paris depois de uma longa viagem pelas obras de carpintaria na província francesa. Vive com a Bernadette, uma jovem parisiense luminosa, cheia de energia, que faz uns biscatos, aqui e ali, e que vive num pequeno quarto no sótão de um velho prédio da rua Mouffetard onde aos domingos nos encontramos para comer uma fondue de queijo à moda suíça. A Bernadette elegeu o Charly como amigo e como amante. Ela também gosta de mim, às vezes, quando ele volta à Suíça para rever a sua grande família proletária. Conhecemo-nos os três num campo de férias para jovens, organizado no Verão de 1967 numa aldeia do Sul de França. Durante a semana eu passeio o meu exílio melancólico nas ruas dos arredores de Paris, distribuindo nas caixas de correio uns prospectos publicitários para uma loja de móveis. Vivo mal, posso mesmo dizer, pobremente, comendo dia sim, dia não nos restaurantes universitários com as senhas que a Bernadette se desenrasca para nos obter. Finalmente, com o Charly, conseguimos um pequeno trabalho na associação Jeunesse et Reconstruction, que fica na rua de Trévise, lá para os lados dos Grands Boulevards. Na esquina da rua Richer, mesmo ao lado, fica o teatro das Folies Bergère, com grandes fotos de jovens mulheres ligeiramente vestidas com os corpos decorados com umas plumas de cores. Um pouco mais longe, está o Museu Grévin, com as figuras de cera de grandes vultos da História. A ideia agrada-me, os «grandes vultos» deviam ser só assim, de cera. A associação organiza campos de trabalho e viagens para jovens. Nós estamos encarregados das pequenas tarefas, preparamos o café, fazemos as compras e a limpeza, tratamos do correio. Fazemos também funcionar duas velhas máquinas offset que, na cave, imprimem os documentos e prospectos da associação, o jornal e o catálogo das actividades. Estamos no princípio de Maio de 1968 e a agitação estudantil já começou nas universidades, em particular em Nanterre. Nos últimos meses também tem havido greves e movimentos sociais importantes no resto do país. Mas tudo parece enquadrar-se no funcionamento conflitual normal da sociedade e das instituições, como eles dizem…

    Durante as minhas deslocações «profissionais» às caixas de correio nos arredores de Paris, começo a cruzar-me, nas ruas, nas praças e nos mercados, com militantes do partido comunista que distribuem papéis alertando os trabalhadores contra o perigo dos estudantes «esquerdistas», que seriam manipulados pela burguesia. Tais ideias não me surpreendem. Para esta gente, o partido é quem sabe e tem a missão de proteger os trabalhadores, que são ignorantes por princípio. Mas digo para mim próprio que, se eles se mobilizam assim, é que a situação deve estar a ficar séria. As minhas leituras, e também a minha experiência, embora limitada, já me tinham permitido formar uma opinião acerca da natureza do partido comunista francês. Um dia, semanas após a minha chegada a Paris, tinha batido à porta de uma permanência do partido a pedir ajuda, visto o estado de isolamento e de fraqueza em que me encontrava. Após terem indagado da minha filiação ou não no partido e sugerido com arrogância que a deserção da guerra colonial talvez não tivesse sido a melhor escolha segundo a posição oficial do partido, estes detentores da Verdade quiseram vender-me um bilhete para a festa do Humanité, onde eu poderia encontrar os camaradas do partido irmão lusitano. Estando os meus meios financeiros limitados a uma sandes por dia achei a proposta claramente indecente. Furioso, decidi abandonar a leitura do chato Que faire?, do Lenine, que substituí pelo luminoso texto A Revolução Russa da Rosa Luxemburgo, que tinha descoberto numa livraria do bairro latino. Tinha dado mais uma volta à vida.
    Mas voltemos a Maio de 1968. De repente, o movimento de contestação alarga-se, as manifestações sucedem-se, cada vez com mais violência policial e a participação de muitos trabalhadores, jovens e menos jovens, que na rua se misturam aos estudantes. As fábricas e empresas entram na greve, umas atrás das outras, e, embora o controlo dos sindicatos seja manifesto, há uma energia colectiva que cresce. O país está paralisado. É um sentimento raro sentir uma sociedade que pára, que se imobiliza, pelo simples (?) facto do poder que têm aqueles que a fazem funcionar. Como um motor que falha por falta de gasolina. Uma noite, depois de termos deixado as ruas esburacadas do bairro latino, a Bernadette, o Charly e eu decidimos ocupar o nosso posto de trabalho… Na manhã seguinte, perante o ar espantado e incrédulo dos empregados, anunciamos as nossas intenções. Algumas vozes exprimem uma tímida aprovação, mas a maioria fica a olhar para os sapatos com ar inquieto. E, chegados ao fim do dia, estamos só os três com as chaves do local! Uns amigos, contactados à pressa, juntam-se a nós. Os empregados desaparecem, vão para casa acompanhar os acontecimentos pela rádio, à espera das decisões dos políticos. A nossa ocupação é puramente simbólica. Instalamos umas camas de campismo, preparamos as refeições e conversamos. Forma-se assim uma pequena comunidade ligada pelo mesmo espírito. Na montra da loja colocamos uma faixa onde se pode ler: «Jeunesse et Reconstruction em greve, solidários com os estudantes e trabalhadores em greve». As tentativas para alargar a solidariedade aos vizinhos, à rua, revelam-se rapidamente infrutíferas, pior, desvendam um perigo que não tínhamos imaginado. Neste bairro de Paris, a comunidade dos retornados e antigos combatentes da guerra da Argélia é forte, controla os bares, cafés, restaurantes e pequenos comércios. Nota-se a presença da extrema-direita fascista. Poucos dias depois, somos atacados, os vidros da porta da rua são partidos, os muros exteriores recebem pinturas e símbolos nazis, nacionalistas e uma frase: «A França para os Franceses!». Esta gente tem uma imaginação muito limitada! Descemos as grades das janelas, barricamos a entrada e organizamos vigílias dia e noite. Enfim, instalamo-nos para o que der e vier.

    Entretanto, através dos meus contactos e dos camaradas da revista de extrema-esquerda não leninista Cadernos de Circunstância — que eu tinha integrado um mês antes — chego até à universidade de Censier, para os lados da famosa Gare d’Austerlitz do fado emigrante. Comigo vieram a Bernadette e o Charly. O Fernando e o Manuel, circunstancialistas já com experiência, conheciam muita gente no local. Havia também o Américo, que tinha acompanhado a revista Socialisme ou Barbarie e que torcia agora pelos situacionistas. Eu sabia ainda pouco destas diferenças e fracturas, confiava apenas nas minhas opções não leninistas. Estávamos todos de acordo que havia que pôr de lado as actividades contra o malcheiroso regime salazarista e juntar as nossas limitadas energias a um movimento que se anunciava como uma onda de fundo capaz de transformar toda a Europa rica e, em consequência, de pôr de pantanas os regimes das tristes periferias do Sul.

    Censier pareceu-me uma balbúrdia agradável e cheia de correntes de ar saudáveis. Havia assembleias por todo o lado, as discussões prolongavam-se nos corredores. Misturava-se gente de todos os países, exilados, emigrantes, jovens e velhos, trabalhadores e estudantes. Nos andares de cima começavam a organizar-se os Comités de acção, ideia que tinha sido lançada pelo movimento nas ruas e manifestações. Alguns existiam já nos bairros, outros iam-se criando, muitas vezes por iniciativa de grupos de trabalhadores e de empregados, que não podiam exprimir-se dentro dos seus locais de trabalho, dominados pela palavra única e exclusiva dos sindicatos. Havia até um comité de acção dos desertores portugueses da guerra colonial. Que eu aliás evitei, pois não me pareceu ser uma boa opção encerrar-me nessa categoria, respeitável diga-se de passagem.

    Ando às voltas, ouvindo aqui e ali com curiosidade, e cruzo-me num dos corredores com uma moça que procura voluntários para traduzir os textos do comité de acção dos trabalhadores da construção civil para português. Sou acolhido por um outro gigante de grandes barbas, o Jean-Claude, electricista, sindicalista e anarquista. Entre nós a empatia foi logo forte, e ficaremos amigos para o resto da vida, embora na altura eu não o pudesse adivinhar… Bernadette e Charly integram os apoiantes do comité de acção dos trabalhadores dos Correios. Vamos assim partilhando a nossa vida entre as manifestações, as actividades dos comités de acção e a nossa ocupação simbólica. Prefiro dizer «a nossa vida», pois que «o tempo», esse está um pouco entre parenteses; parece não haver mais tempo, mas só um presente longo, quase constante. Vou com o Jean-Claude distribuir uns papéis nos bidonvilles portugueses dos arredores. E descubro uma estranha situação. A quase totalidade dos trabalhadores evita-nos, olha-nos com receio. O medo é palpável. Não compreende o que se passa, o comunismo ameaça as suas existências miseráveis. A opressão mental do regime fascista, o peso ancestral da Igreja, exprimem-se concretamente. Muitos preparam-se já para regressar à pátria protectora, que os salvará do diabo e do inferno. Um dia, um deles abre-nos a porta da barraca. O homem é membro do partido comunista e repete-nos o que lê no Avante e noutros lugares sobre o perigo dos «esquerdistas» manipulados pelos capitalistas. Mas falamos e há um contacto humano. Voltamos uns dias depois, mas a porta fica fechada, ele não está ou não se permite abrir-nos de novo. Por todo o lado a mesma questão, levanta-se um muro, o muro da separação. Mesmo as empresas ocupadas revelam-se parte do muro, o objectivo do sindicato comunista é sobretudo afastar a grande massa dos trabalhadores dos que lutam nas ruas, impedir o contágio das ideias.

    A universidade de Censier é uma verdadeira caverna de Ali Babá, uma Arca de Noé onde se cruza todo o tipo de pessoas. Rapidamente identifico algumas personalidades com um ego exagerado e autoritário, e personagens com ar de padres que pregam as suas verdades. Mas a grande maioria dos presentes são seres de uma generosidade e de uma força excepcionais. Somos levados por uma situação que evolui continuamente. Procuramos soluções e respostas às questões levantadas pela dinâmica do movimento, tentando não perder o fio à meada, manter-nos fiéis à ideia do necessário alargamento da luta a partir da auto-organização. É a conclusão que tiro dos debates a que assisto e em que participo.

    Na rua de Trévise, a situação não melhora. Nos boulevards o ambiente é animado, nas saídas de metro ainda abertas há sempre magotes de gente que discute, grupos que distribuem papéis, o movimento estendeu-se a toda a cidade. Mas, na nossa rua, estamos isolados. Quando regressamos, já de noite, tomamos as nossas precauções por causa das ratazanas fascistas. Há algum tempo que sabemos que possuímos um importante tesouro de guerra, que decidimos pôr ao serviço dos comités de acção de Censier: o material de impressão e o grande stock de papel e de tinta. Ora, para preservar este tesouro é necessário reforçar as nossas defesas e encontrar apoios nas redondezas. Após reflexão, descobrimos que temos ali perto uns aliados que até então tínhamos ignorado. As Folies Bergère, evidentemente! O teatro encontra-se também ocupado pelo pessoal técnico e por um importante contingente de bailarinas. Recentemente foram também atacados por um comando da extrema-direita, facilmente repelido com a ajuda das lanças de incêndio. Vamos bater-lhes à porta, Bernadette, Charly e eu próprio, e somos calorosamente recebidos pelo comité de ocupação, composto de alguns trabalhadores e de um alegre grupo de jovens bailarinas que, sem as plumas vermelhas da decoração, parecem bem mais confiantes nelas próprias. É um pessoal muito ligado ao sindicato comunista da CGT, mas que se mostra receptivo às nossas inquietações. Decidimos manter um contacto telefónico constante e eles comprometem-se a agir em nossa defesa à mínima tentativa de ataque. A partir desse dia passamos frequentemente no teatro, o que não é nada desagradável. Eles passam o tempo a jogar às cartas, bebem bem e parece evidente que alguns laços de amizade amorosa se vão instalando entre eles e elas. Respira-se um agradável sentimento de alegria e de liberdade. Mas a ocupação do teatro parece ser um fim em si, não se vê uma dinâmica de luta. Eles estão à espera, de quê, de quem?… Simpatizamos, falamos da revolução, eles vêem-nos como uns esquerdistas utópicos, sem mais…

    De repente as coisas azedam. Uma noite, de regresso de Censier, descobrimos que as máquinas de imprimir desapareceram! Evidentemente, a acção só pode ter vindo de alguém que conhecemos, pois a porta da rua não foi arrombada. Não só conseguiram tirar as máquinas da cave como tiveram ainda tempo para escrever nas paredes umas frases de sabor «situacionista», tipo: «Abaixo os burocratas da autogestão!». Os burocratas éramos nós, e a autogestão os comités de acção… Uma parvoíce completa!
    Ficamos muito zangados e, é claro, quem também não fica nada contente são os camaradas dos comités de acção para quem imprimíamos textos e papéis. É então que se forma um estranho comando, tipo Tcheka, dirigido por dois tipos rijos da área esquerdista-leninista que tinham uma presença activa em Censier – um deles tinha mesmo ganho a fama de ter ameaçado com o pelotão de execução todos os críticos do «marxismo científico»… A este par agregaram-se várias pessoas com tarefas subalternas na caça aos ladrões das máquinas, entre os quais eu e o Charly. Tudo se vai passar muito depressa; os indícios são muitos e os autores, gente de grande ingenuidade. O pobre rapaz que tinha pensado «criar uma situação», como diziam os seus mentores, é levado da sua casa e conduzido à rua de Trévise onde assistimos então a uma cena que nos choca profundamente. Os dois chefes do comando amarram-no a uma cadeira e começam a tratá-lo mal. Bastam duas ou três chapadas e uns gritos para que ele indique o lugar onde se encontram as máquinas. As quais reintegram pouco tempo depois o lugar de origem. Não ficamos muito orgulhosos de nos termos envolvido numa tal acção punitiva de tipo policial em ruptura com o espírito do momento. Assim, desabafo com o Charly que estas práticas fazem-me lembrar as dos chefes fascistóides salazaristas, ao que ele, com a sua calma suíça, comenta: «És bem capaz de teres razão…». Tudo isto deixa-nos um estranho gosto de desaire e decidimos afastar-nos destes personagens que ocupavam um certo espaço político em Censier. Bem entendido, o acontecimento insignificante só dizia respeito a uma minoria de indivíduos e continuamos a participar nas actividades dos comités de acção. Era apenas a prova que mesmo num movimento social desta amplitude há que contar com os valores do velho mundo, que avançam por vezes disfarçados.

    A partir de então, vamos passar mais tempo com os técnicos e as bailarinas dos Folies Bergère. O que me surpreende nesta pequena colectividade, além de um discurso político relativamente limitado e de um certo imobilismo de acção, é o desejo forte de mudar de vida, o qual exprime também o desejo de mudar o mundo. Mesmo se elas e eles não sabem como o fazer. Um desejo que não é verbalizado, mas que se transmite. Eles não vão à Sorbonne nem a Censier, manifestam-se raramente, mas vivem o momento, sentem-se parte de um movimento. Deixamos-lhes papéis, proclamações e jornais, debatemos. As raparigas são as mais abertas e curiosas, animadas por uma determinação jovial. Fazem pouco caso dos discursos e dos sindicatos sobre as etapas: «Há que ter paciência e avançar pouco a pouco». A paciência política não é coisa que lhes agrade: «É agora ou nunca. Ou conseguimos tudo agora ou então não vamos obter muito.» Bernadette diz que é uma atitude de mulheres, a expressão de uma radicalidade igualitária. Com os meus imberbes 22 anos, acabado de chegar da idade média ibérica, percebo que há algo de importante nestas nuances. Como um tremor de terra que está a mexer nas placas tectónicas por baixo dos nossos pés. Ao mesmo tempo sentimos que o movimento se arrasta, que está entravado, que já não avança. E um movimento social que não avança perde terreno. O movimento, em vez de se alargar, perde fôlego e a normalização impõe-se pouco a pouco. Na rua, e também nas empresas. As eleições aparecem como a armadilha que canaliza as energias e abafa os desejos de um outro mundo. É o realismo que vinga.

    Uma bela manhã, os empregados de Jeunesse et Reconstruction regressam. Como, porquê e enviados por quem? Como se nada se tivesse passado durante estas semanas intensas. Limpam as secretárias, arrumam os seus papéis, retiram a faixa que estava em frente da montra, retomam os seus hábitos. São correctos, não nos dizem nada, fazem como se fôssemos os mesmos de antes, encarregados do correio e das compras, da máquina de café. A mensagem é claríssima. Só que não somos os mesmos. E saímos com a intenção de nunca mais regressar. No princípio de Junho, após as eleições que fecharam a festa, volto uma tarde ao teatro das Folies Bergère. O cenário e a atmosfera mudaram. As lanças de incêndio foram arrumadas, as nossas encantadoras camaradas desapareceram, ou melhor, estão de novo só em foto no Hall do teatro, com a plumagem a enfeitar. A velha ordem das coisas foi restaurada e o vigia faz-nos sinal de desaparecer. Não há dúvidas, Maio 68 acabou! Fazemos as mochilas e vamos à vida. Bernadette e Charly voam para o Québec onde, infelizmente, vou perder-lhes o rasto. Entretanto, eu tinha comprado um falso passaporte lusitano e rumo ao Norte, em direcção à Dinamarca, onde me espera a Bodil, uma amiga que eu tinha conhecido em 1967, quando percorri o Sul de França à boleia.
    Sabemos que a História não acabou, mas vamos ter que viver de novo o velho tempo, o tempo que só produz passado, o tempo da reprodução capitalista. Sabemos que fomos bem longe, mais longe do que se esperava. Sabemos que virão os tempos dos renunciamentos, dos vira-casacas, o tempo das celebrações e dos antigos combatentes, dos colóquios e dos estudos de especialistas. Que servirão sobretudo para mostrar que Maio 68 acabou, que é só História morta. Para muitos de nós, ao contrário, é História viva que continuará, que fará parte de nós e dos que virão depois de nós. Perdemos este episódio, mas saímos com a cabeça erguida. Penso na frase de Brecht: «Quem luta pode perder, mas aquele que não luta já perdeu». E é bem verdade!