Categoria: Destaque

  • Jornal Mapa [#23], nas bancas!

    Jornal Mapa [#23], nas bancas!

    Está aí o novo Jornal MAPA (edição 23, Abril-Junho 2019). Porque este país não é para mulheres, um conjunto de artigos olha à justiça e à normalidade do quotidiano. Porque feminismo não é apenas uma luta contra a violência de género. No rescaldo da greve feminista em Portugal apontam-se tarefas para um feminismo que vem e a necessidade de um questionamento radical. E a conversa com a antropóloga Rita Segado leva-nos ao questionar feminista anticarcerário da lógica punitiva institucionalizada.

    A sul a crónica Os Olhares de Catarina observa os trabalhadores rurais migrantes do Alentejo. Será possível a sua integração sem questionar a agro-indústria que faz tábua rasa do território e das comunidades? A norte, nesta defesa dos territórios, da Galiza a Trás-os-Montes, damos conta do combate popular em marcha contra A Febre da Mineração. Das Covas do Barroso, Boticas, aos protestos de milhares de galegos contra a mina de Touro, organizados na Plataforma Mina Touro-O Pino Non.

    O Jornal MAPA dá voz ainda às questões tabu sobre o aumento da capacidade aeroportuária em Portugal; anuncia o Camp in Gás – Acampamento de Acção contra Gás Fóssil – para Julho próximo para travar o furo da Bajouca (Leiria); e relatamos o que foi em Barcelona o 1º encontro preparatório do Fórum Social Mundial das Economias Transformadoras. Entre propostas de leituras – de Pierre Clastres, Bob Black a Voltairine de Cleyre, lugar ainda para se falar da solidariedade com os migrantes sem abrigo na Bélgica; do futuro da Internet; do se passa na américa de Trump, ou mesmo do Candomblé Afro-brasileiro e a espiritualidade no ocidente.

    Assina o Jornal MAPA para que ele possa continuar; apanha-o num destes locais ou pergunta por ele na tua Biblioteca Municipal.

    Aproveitamos para relembrar também a primeira aventura editorial do Mapa em parceria com a Letra Livre: a edição do livro “Colapso” de Carlos Taibo. Uma análise sem complexos de como o atual passo desenfreado de acumulação capitalista aumenta a probabilidade de um colapso do sistema, com um agravamento das consequentes crises ambientais, energéticas e naturalmente, sociais. Podem pedir o livro escrevendo-nos para geral@jornalmapa.pt | Desconto para assinantes.

  • Aceleração

    Aceleração

    «Não temos mais tempo,
    simultaneamente ganhamos sempre mais»
    Hartmut Rosa, Aceleração

    Para o sociólogo Hartmut Rosa a aceleração tornou-se a nova face da nossa alienação. No seu livro consagrado à crítica social do nosso tempo, Aceleração, define três categorias de aceleração: a aceleração técnica, a aceleração social e a aceleração do ritmo de vida. A primeira, a mais evidente, explica que em cem anos a velocidade da comunicação aumentou 107%, a velocidade dos transportes pessoais 102% e a do tratamento da informação de 1010%. A segunda diz respeito à «transformação crescente dos modos de associação social, das formas de prática e da substância do saber (do saber prático)» (Aceleração e Alienação). A aceleração do ritmo de vida pode ser definido como «o aumento do número de episódios de acção ou de experiências por unidade de tempo, o mesmo é dizer que ela é consequência do desejo ou da necessidade sentida de fazer mais coisas em menos tempo». Os processos de vida aceleram-se: comer, dormir, comunicar com os próximos, etc., ensaiamos fazer muito mais coisas num determinado tempo. Por exemplo, enviar um email é muito mais rápido do que escrever uma carta, mas a massa de emails a gerir é largamente superior à do correio. Quanto mais os meios de comunicação são diversos (SMS, redes sociais, etc.), mais o homem conectado passa tempo a comunicar em todas as direcções. A cada inovação técnica encontramos o mesmo fenómeno: quanto mais os transportes andam depressa, mais longe vão os passageiros.

    Hartmut Rosa defende que a aceleração do ritmo de vida é uma resposta ao problema da finitude e da morte. Reduzindo todos os tempos mortos, os momentos de pausa, acelerando aquilo que fazemos, tentamos aumentar o número de experiências vividas para ter a ilusão de aumentar a durabilidade da nossa vida. E, como o mundo algébrico oferece um número crescente de opções disponíveis – posso comunicar com quem quiser em todo o lado, fazer os meus próprios vídeos, animar o meu blogue, partilhar a minha música, ver centenas de canais, milhões de sites, etc. -, «a proporção de opções realizadas e de experiências vividas em relação àquelas a que faltámos não aumentam, mas, diminuem sem parar». Daí a corrida desenfreada contra o tempo, a qual está na origem da frustração de não conseguir fazer tudo o que se quer e da insatisfação de fazer mal o que fazemos. «Assim – explica Rosa – os nossos poderes potenciais, as opções a que temos acesso aumentam sem parar, enquanto que as nossas capacidades concretas de “realização” diminuem progressivamente.»

    Se bem que a aceleração técnica não implique realmente um aumento do tempo livre, a maior parte dos indivíduos continuam a estar convencidos de que as novas tecnologias vão dar-lhe esse aumento, mesmo que façam sistematicamente a experiência do contrário e que, no seu ritmo de vida, sofram de aceleração considerável. Para tentar ganhar tempo, continuam a lançar-se sobre o último produto electrónico que facilite o seu quotidiano e revolucione a sua vida. Quando existe uma tal dicotomia entre um ponto de vista e o vivido é porque entrámos no campo da crença.

    Hartmut Rosa, nascido em 1965, é um sociólogo e filósofo alemão cuja obra é imprescindível editar em Portugal.

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    Social Accelaration, A New Theory of Modernity
    Hartmut Rosa
    Columbia University Press, 2015
    512 págs.

    Texto de J.T.

  • Black Seed, uma publicação anarquista verde

    Black Seed, uma publicação anarquista verde

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    Passados seis anos desde a última edição da revista Green Anarchy, alguns dos seus colaboradores, e outros interessados na crítica anti-civilização, decidiram lançar em 2014 um novo projecto editorial. O objectivo era «reintroduzir essa provocação anarquista verde», mas com uma orientação diferente. Em vez de assentarem teoria e prática numa perspectiva abstrata sobre a civilização, sustentada por análises académicas da história e da antropologia, e romantizando as culturas primitivas, o ponto de partida seriam as suas próprias experiências. A Black Seed distancia-se de outros projectos editoriais assumidamente «anarco-primitivistas», ao incorporar no seu discurso a rejeição de qualquer ideologia, assumindo no entanto que as tradições nativas se relacionam com o seu projecto.

    Actualmente, esta publicação bianual em formato de jornal conta com 5 edições, e as 32 páginas que compõem cada número trazem textos, notícias, ilustrações e poesia, que fazem valer não só uma crítica ao estado e ao capital, como procuram outras compreensões focadas na terra, e naquilo que fica fora do processo de humanização. Daqui a publicação de textos que continuam a demonstrar a inocuidade dos movimentos identificados com a «esquerda», tanto pelo óbvio falhanço histórico, como pela falta de questionamento relativamente à tecnologia, organização, moralidade, progresso, autoridade e alienação. Esta demarcação ocorre também em relação a outras tendências dentro do universo anarquista, em particular aquelas que se fundamentam numa visão do mundo exclusivamente centrada no humano.

    A crítica aos movimentos ambientalistas está igualmente presente nas páginas da Black Seed, entre outras razões, pela sua postura paternalista por «salvar o planeta». Isto ao mesmo tempo que é assumido o suporte e inspiração em experiências concretas de eco-resistência, como por exemplo a luta do povo Mi’kmaq contra o fracking, as ocupações da ZAD [ref] Zone à Défendre, em Notre-Dame-des-Landes (França).[/ref]contra o aeroporto e a sociedade que este promove, as acções da ELF (Frente de Libertação da Terra), ou o movimento NO TAV [ref] Referente ao movimento popular surgido no Vale de Susa, em Itália, contra a construção de uma linha de comboio de alta velocidade.[/ref].

    Entre outros temas de interesse que vão surgindo pela mão de diferentes autores, destaca-se ainda a denúncia do cientificismo, que, desprezando e sobrepondo-se a outras fontes de conhecimento, tem servido o sistema tecno-industrial e os seus propósitos de controlo e domesticação. Desta perspectiva, considerando o conhecimento e a vivência dos povos indígenas, e daqueles que estão mais ligados à terra, entende-se a razão porque são publicados esporadicamente, em forma de poemas, ou histórias pessoais, conteúdos que se aproximam de uma espiritualidade contemplativa, livre de superstições e conceitos religiosos.
    Numa época em que boa parte do diálogo anarquista acontece na internet, os editores da Black Seed preferem a edição em papel, como forma de desacelerar e refletir, desafiando esse imediatismo digital, de maneira a aprofundar o debate de ideias. Apesar disso, é possível encontrar os números mais antigos no acervo virtual The anarchist Library [ref] theanarchistlibrary.org [/ref].

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    Texto de Artur Flores

  • O povo é solidário na defesa do estuário

    O povo é solidário na defesa do estuário

    Uma assembleia popular em Setúbal, no passado 15 de Dezembro, denuncia os riscos de dragar um rio e aumentar a atividade industrial numa zona de reservas naturais, afirmando a luta dos Setubalenses para impedir este projeto.

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    Sábado, 15 de Dezembro, salão da União Setubalense. Cerca de 150 pessoas reúnem-se numa assembleia popular em Setúbal para debater os projetos económicos ligados ao rio Sado – as dragagens e a expansão do porto industrial, da responsabilidade da Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra (APSS), uma sociedade anónima de capitais públicos. Em causa estão grandes intervenções ambientais em zonas de estuário e reservas naturais, como a remoção de 6 337 646 m3 de areias do fundo do rio para permitir a passagem de grandes embarcações de carga – até 13 metros de calado -, rumo a um porto que se pretende que triplique o seu tamanho. Este projeto parece ser, também, uma rampa para a concretização de outros, como o Blueatlantic, da empresa SAPEC. Segundo a informação disponível no site do projeto, pretende-se atrair investidores para a criação de um grande cais marítimo, que “pode ter uma frente até 800 metros e tem capacidade de acostamento de dois navios Panamax. Está localizado no . O porto está sempre abrigado, com águas calmas e nunca fecha.”[ref] Consultar o projeto em https://www.blueatlantic.pt/pt/[/ref] Esta mega construção só será possível graças aos grandes investimentos que se preveem para os portos portugueses, ao aprofundamento da barra e do canal norte do rio que serve o Blueatlantic.

    A população da cidade sadina tem contestado estas medidas de intervenção no rio de várias formas, saindo à rua em largos números, fazendo circular petições, tendo interposto providências cautelares para parar as dragagens e solicitado audiências na Assembleia da República.
    Apesar de os protestos terem diminuído de intensidade no último mês, esta assembleia veio demonstrar não só que a adesão à luta pela preservação do estuário se mantém, mas também que as pessoas de Setúbal, de diversas áreas, estão informadas sobre estes projetos e os seus impactes, partilhando o seu conhecimento na sessão pública, o que resultou em duas horas de debate participado.

    sado

    A mesa da assembleia era composta por cinco pessoas com conhecimentos privilegiados, cujas intervenções sintetizaram aquilo que se sabe e o que tem sido feito, tanto por parte dos movimentos ambientalistas como por parte das autoridades e instituições promotoras destes projetos de suposto desenvolvimento. Sob a moderação do professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Viriato Soromenho-Marques, ficou claro no início que a reunião se propunha a clarificar três importantes pontos: quais os verdadeiros danos e impactes ambientais que o projeto das dragagens implica; saber se o projeto é compatível com outras atividades económicas, como a pesca tradicional e o turismo; saber se o projeto constitui um bom modelo de desenvolvimento sustentável para a cidade. Com uma mesa composta por Sérgio Godinho, Ana Paula Fernandes, Gonçalo Calado e Célia Rodrigues, uma das ideias que prevaleceu é a de que estamos perante um atentado ambiental disfarçado de desenvolvimento, da responsabilidade da Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra (APSS), que tem sido apanhada em contradições e não tem respeitado o próprio Estudo de Impacte Ambiental (EIA) que encomendou à empresa Proman, assim como os devidos períodos de consulta pública. Sérgio Godinho, membro da SOS Sado, um grupo que se formou para travar as dragas, realçou os perigos desta empreitada – ver infografia no final do texto – e apontou a má conduta da APSS, não só como responsável pela desinformação que tem existido, como também mencionando as péssimas condições laborais que os portos têm oferecido aos trabalhadores da estiva. O facto de este porto de Setúbal ser composto por 9 reservas naturais não tem sido tomado em conta, nem pela APSS, nem pela Agência Portuguesa do Ambiente, nem pela comissão que deu um parecer positivo ao projeto. Esta intervenção chamou também a atenção para o facto de as dragagens pretenderem a passagem de enormes navios junto às arribas da costa da cidade durante 13 km, implicando também dragagens contínuas de manutenção, executadas anualmente. Estima-se que sejam remexidos 100 000 m3 de areias por ano para manter a profundidade do canal. O movimento SOS Sado interpôs em Outubro uma providência cautelar contra o projeto, perante declarações à imprensa de Lídia Sequeira, administradora da APSS, que apontava o início das obras para 1 de Outubro. O Tribunal respondeu mais tarde à providência cautelar, dizendo que não podia mandar parar uma obra que só tinha a sua data de início marcada para dia 8 de Janeiro. No entanto, todos os Setubalenses sabem que ficará para sempre por explicar o que fazia então um enorme barco de dragagem no rio Sado nos primeiros dias de Outubro…

    Segundo o depoimento de alguns manifestantes presentes no protesto de dia 13 de Outubro, não só foi avistado o barco, como as declaraçōes oficiais mencionavam o dia 1 de Outubro para início das obras, sem consulta publica à população. Vários jornais noticiaram esta data, aliás, mas o Tribunal de Almada declarou que, oficialmente, a obra só está prevista para Janeiro.

    O caso continua nos tribunais, havendo um processo também contra os locais de deposição dos dragados. Este chama-se TUPEM – Título de Utilização Privativa do Espaço Marítimo Nacional e esteve em consulta pública. Depois de muitas contestações, principalmente pelas associações de pesca, não foi aprovado, visto o local proposto para depositar as areias dragadas ser um importante banco de pesca. Agora há já outro pedido de TUPEM, em período de consulta pública [ref] https://www.dgrm.mm.gov.pt/web/guest/consulta-pblica[/ref].

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    As Professoras Sandra Caeiro (cuja intervenção foi feita por vídeo) e Ana Paula Fernandes, da Universidade Aberta, deixaram o seu depoimento sobre as conclusões de um estudo científico multidisciplinar sobre sedimentos e a contaminação do rio, alertando para a existência de sedimentos contaminados (com metais pesados, pesticidas e outros compostos orgânicos) em certas zonas do rio, nomeadamente em locais onde se pretendem fazer dragagens. O estudo em que as académicas participaram sobre os sedimentos aponta para grandes riscos de contaminação nos peixes e de danos em células humanas quando em contacto com tais sedimentos. Tal como já acontece com a população da Carrasqueira, o contacto prolongado com certas areias acarreta sérios riscos para a saúde, o que exige estudos e cuidados redobrados quando se pensa na movimentação desses sedimentos. Estão comprovados casos de doenças renais, pulmonares, neurológicas e doenças de pele.

    Célia Rodrigues, produtora de ostras, falou da relação tradicional com o rio, da fauna como bioindicadora dos níveis de contaminação que o rio já revela, referindo a urgência em travar a contaminação, não podendo haver situações que criem mais riscos para o ecossistema do estuário. A aquacultora mencionou também a questão da não inserção do estuário da Rede Natura 2000. Após um estudo encabeçado por Catarina Eira, o estuário e a costa de Setúbal foram indicados para integrar essa rede mas isso não chegou a estar disponível para consulta pública e acabou por «ficar na gaveta» [ref] https://observador.pt/2018/10/12/governo-trava-proposta-para-proteger-golfinhos-do-estuario-do-sado/[/ref].
    Nesta intervenção, e noutras mais adiante, questionaram-se os muito falados, mas nada claros, benefícios económicos para Setúbal que esta expansão do porto traz. Fala-se da existência de um Estudo de Impacte Económico, realizado pela EGIS, mas este não é público.
    Gonçalo Calado, biólogo, convidou à reflexão sobre o modelo de desenvolvimento que queremos para estas reservas naturais, questionando a existência de uma atividade económica que vai impedir todas as outras de subsistirem.
    Talvez o aspeto mais revoltante e insólito, referido inúmeras vezes ao longo deste processo de luta, seja a falta de informação e os obscurantismos que cercam estes projetos. Mesmo para quem se procure informar, não é claro quando começará a obra e se os prazos legais estão a ser respeitados.
    Os membros de organizações ambientais e movimentos de cidadãos setubalenses dizem que não é coincidência a APSS só ter feito uma sessão de esclarecimento à população após a entrada da providência cautelar, e aquilo que fica na memória sobre essa mesma sessão, que aconteceu a 6 de Novembro, são as frases «isso não se sabe», «não temos informação sobre isso», «desconhecemos esses factos» ou «confiem em nós».

    Quando aparecem páginas inteiras de jornais nacionais com publicidade paga pela APSS, ou seja, com fundos públicos, a promover esta obra de expansão do porto, os números relativos a postos de trabalho que daí advirão são falsos – os anúncios que promovem a obra mencionam a criação de milhares de empregos, mas os documentos oficiais falam em dezenas, ou centenas se contarmos com trabalho indireto. Sobre os negócios já em vista que possam justificar as frases publicitárias que a APSS faz sobre o projeto, não se encontra qualquer informação. Que navios e empresas são essas que justificam estes investimentos de milhões de euros? Ainda sobre falsas informações prestadas pelas autoridades em tais anúncios de jornal, até a quantidade de areias a serem dragadas não corresponde àquela apresentada nos documentos oficiais.

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    Uma das outras figuras criticadas tem sido a da Ministra do Mar e surgiram, nesta assembleia, preocupações sobre os poderes políticos instalados, havendo mesmo denúncias quanto ao seu envolvimento indireto em negócios ligados ao aumento da profundidade do rio. A ministra Ana Paula Vitorino é sócia de Lídia Sequeira numa empresa de consultoria, segundo noticiou a RTP em 21 de Setembro de 2018, facto que põe em causa a sua própria nomeação como administradora da APSS. Operestiva, empresas turcas, Mota-Engil, entre outros, foram nomes mencionados como sendo os principais beneficiários desta obra. Foi dito claramente que «o mar não pode servir para negócios duvidosos e pouco claros». «As reservas do estuário e da serra valem muito mais do que os interesses económicos atuais. Temos de questionar que desenvolvimento é esse que os governantes querem, que até nós queremos, que só tem destruído a Natureza». Como não podia deixar de ser, falou-se também sobre a comunidade de golfinhos, a ser seriamente afetada pelo ruído aquático das dragagens e cujo alimento ficará em risco com a remoção de tal quantidade de areias. Naturalmente, a passagem intensiva de grandes navios de carga será muito nociva para a fauna do rio.

    Aquilo que tem estado presente nos discursos contra esta obra tem sido a consciência de que esta decisão é, antes de mais, uma decisão política, que se enquadra numa visão mercantilista da Natureza, pretendendo lucrar com o património natural da humanidade para proveito de umas poucas empresas, para isso infligindo danos que jamais poderão ser reparados.

    Uma outra intervenção veio recordar a importância dos movimentos ambientalistas e de tudo o que já foi conseguido no passado. Numa alusão à memória que Setúbal tem, recordou-se a criação da Reserva Natural do Estuário do Sado em 1980, que não foi resultado de uma iniciativa estatal. Ela surgiu como uma vitória da vontade regional, após 3 anos de uma persistente campanha desencadeada em 1978 por 6 jovens setubalenses, enquadrados na Liga para a Proteção da Natureza. Recordaram-se outras lutas ambientais, como o movimento contra a co-incineração na Serra da Arrábida e outros momentos históricos em que más decisões políticas deixaram a população passar fome, como aconteceu nos anos 80.

    Ainda que tendo sido a primeira assembleia aberta, resultou já desta tarde uma conclusão aprovada, que será devidamente feita pública – os cidadãos reclamam a suspensão imediata da obra.

     

    infografia

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  • Comunidades indígenas sob ataque cerrado

    Comunidades indígenas sob ataque cerrado

    Desde há mais de vinte anos que o novo presidente brasileiro tem andado a brandir ameaças às comunidades indígenas. Fiona Watson, uma das responsáveis da associação de defesa Survival International, coligiu algumas das declarações de Bolsonaro ao longo dos anos que são bem demonstrativas do encomendado programa destrutivo que a sua candidatura trazia no bojo, equiparáveis às que fez sobre outros assuntos.

    Basta citarmos meia dúzia delas. «Pena que a cavalaria brasileira não tenha sido tão eficiente quanto a americana, que exterminou os índios» [ref] Correio Braziliense, 12 de Abril de 1998.[/ref]. «Os índios não falam nossa língua, não têm dinheiro, não têm cultura. São povos nativos. Como eles conseguem ter 13% do território nacional?» [ref] Campo Grande News, 22 de Abril de 2015.[/ref]. Mas o racismo de Bolsonaro remete para desígnios muito concretos: «Não tem terra indígena onde não têm minerais. Ouro, estanho e magnésio estão nessas terras, especialmente na Amazónia, a área mais rica do mundo. Não entro nessa balela de defender terra pra índio». «[Reservas indígenas] sufocam o agronegócio. No Brasil não se consegue diminuir um metro quadrado de terra indígena» [ref] Campo Grande News, 22 de Abril de 2015.[/ref].

    Em 2016, na preparação da sua campanha, já se tinha mostrado muito declarativo. Em Junho, num vídeo do Correio do Estado, anunciou: «Essa política unilateral de demarcar a terra indígena por parte do Executivo vai deixar de existir, a reserva que eu puder diminuir o tamanho dela eu farei isso. É uma briga muito grande que você vai brigar com a ONU». «Em 2019 vamos desmarcar [a reserva indígena] Raposa Serra do Sol. Vamos dar fuzil e armas a todos os fazendeiros» [ref] Congresso, 21 de Janeiro 2016.[/ref].

    Em 2017, a 3 de Abril, no Clube Hebraico do Rio de Janeiro, trombeteou: «Não vai ter um centímetro quadrado para reserva indígena ou para quilombola [território destinado a descendentes de comunidades de escravos africanos]». E foi repetindo essas promessas eleitorais de forma cada vez mais vincada: «Pode ter certeza que se eu chegar lá (Presidência da República) não vai ter dinheiro para ONG. Se depender de mim, todo cidadão vai ter uma arma de fogo dentro de casa. Não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou para quilombola» [ref] Estadão, 3 de Abril de 2017.[/ref].

    De forma complementar, trouxe para a ribalta mediática o velho programa dissolvente anterior à Constituição de 1988: «Vamos integrá-los à sociedade. Como o Exército faz um trabalho maravilhoso tocante a isso, incorporando índios, tá certo, às Forças Armadas». E nesse conjunto de alardeadas medidas estava também incluído o desmantelamento da Fundação Nacional do Índio, a FUNAI: «Se eleito, eu vou dar uma foiçada na FUNAI, mas uma foiçada no pescoço. Não tem outro caminho. Não serve mais» [ref] Citado na página web de Indigenistas Associados, 1 de Agosto de 2018.[/ref].

    Floresta amazónica em mercadoria

    Bolsonaro é o rosto eleito de dois grandes e poderosos partidos informais, que actuam fora e dentro do Congresso: os chamados «ruralistas» (latifundiários, donos de grandes empresas do agronegócio, do sector madeireiro, da mineração, do imobiliário) e os evangélicos, cujas igrejas «missionárias» se têm espalhado por todo o Brasil. É a estes dois partidos que ele deve grande parte da sua bem-sucedida candidatura. Na agenda está o apoderamento geral da Amazónia e a sua mercantilização, coisa que faz do seu governo uma grave ameaça a todo o planeta. Ora, é nas terras indígenas que a floresta está mais preservada. E como o direito ao usufruto exclusivo das terras ancestrais é garantido pela Constituição de 1988, «os indígenas são os principais entraves para a conversão da floresta em mercadoria». As terras indígenas são terras públicas, pertença do Estado brasileiro, e, como tal, não são mercadoria. Como refere esta jornalista de investigação, «tudo indica que a principal meta do governo de Bolsonaro, ou a principal razão de ter um Bolsonaro à frente do Brasil, é transformar a floresta amazónica em mercadoria. (…) Por uma razão bastante objectiva: é na Amazónia que está o estoque de terras supostamente ainda disponíveis no Brasil, para o avanço da pecuária e da soja, e é também na floresta que estão as grandes jazidas minerais». [ref] Eliane Brum, El País – Brasil, 7 de Novembro de 2018.[/ref]

    Vem de longe, também no Brasil, o modo de encarar os indígenas como «entraves ao progresso», questão que nunca deixou de ser estratégica, mas que hoje, no contexto das catástrofes e disfunções climáticas, passou a ter um peso decisivo e proporções demenciais. É de lembrar aqui que a associação sem fins lucrativos Survival International foi fundada em 1969, em Londres, na sequência dos massacres levados a cabo contra os indígenas do Brasil em nome do «desenvolvimento económico», em plena ditadura militar. Em ditadura ou em democracia, o totalitarismo do «desenvolvimento» é lei omnipresente.

    Na situação brasileira, uma questão-chave continua portanto a ser a ocupação das terras indígenas. Após o fim da ditadura militar, em 1985, as demarcações dessas terras passaram a ser um aspecto essencial das lutas pela sobrevivência e pelo melhoramento das comunidades indígenas. As homologações dessas demarcações territoriais por gestão presidencial são um bom indicador do processo que conduz ao actual programa exterminador de Bolsonaro. Entre o governo de José Sarney (1985-1990, 13 homologações por ano) e o de Michel Temer, a média anual de homologações chegou a zero, acrescentando-se a isto as práticas conducentes à eliminação de terras anteriormente demarcadas. O governo durante o qual houve o maior número de homologações foi o de Fernando Collor de Melo (1991-1992, 56 por ano). Depois, esse número foi diminuindo, inclusive nos governos do PT (10 por ano no governo de Lula, 5,25 no de Dilma Rousseff).

    As disputas violentas de terras, com um organizado recurso a mercenários e às forças armadas oficiais, continuam na ordem do dia e irão certamente acentuar-se na governação de Bolsonaro. Apesar da enorme desproporção de forças, as comunidades indígenas não estão dispostas a abandonar a sua luta pela preservação das suas culturas e modos de vida. Convindo lembrar que esta luta se mantém há mais de quinhentos anos, que vem dos tempos coloniais e que o Brasil continua assente em estruturas fundiárias criadas no século XVI pelas desgraçadamente famosas «capitanias» dos ocupantes portugueses.

    Texto por Júlio Henriques

     

  • Acendemos uma pequena Luz

    Acendemos uma pequena Luz

    chiapas

    Mais de 7000 mulheres encontraram-se de 8 a 10 de Março de 2018 nas montanhas de Chiapas. Este foi o primeiro encontro internacional convocado pelas zapatistas, no qual participaram mais de 2000 mulheres Zapatistas e 5000 mulheres de mais de 28 países.

    A 7 de março de 2018, a três horas de San Cristobal de las Casas, o Caracol de Morelia abre as suas portas para os milhares de mulheres que chegam em autocarros de todo o país. Em cima do portão, vigiado por mulheres do Exército Zapatista de Libertação Nacional (ELZN), está pendurada uma enorme faixa com a frase «Bem-vindas, mulheres do mundo» e em baixo outra faixa com a frase «proibido homens». Foi decidido colectivamente entre as zapatistas que os homens não podem entrar porque é importante haver encontros só entre mulheres, não para ser separatista, mas para criar uma oportunidade de conviver num espaço onde se organizem e se confrontem problemas que afetam unicamente as mulheres neste mundo patriarcal. «Pensamos que só assim, entre mulheres, podemos falar e ouvir, olhar, festejar sem o olhar dos homens, não importa se são homens bons ou homens maus». Este encontro foi organizado por assembleias constituídas unicamente por mulheres. Porque, como dizem elas, «Não é trabalho dos homens nem do sistema dar-nos a liberdade. Pelo contrário, o trabalho do sistema capitalista patriarcal é manter-nos dominadas. Se queremos ser livres, temos de conquistar a liberdade nós mesmas, como mulheres que somos». O objectivo do encontro foi partilhar a experiência de lutas contra os «maus governos que, não só nos utilizam, nos reprimem, nos roubam e nos desprezam como seres humanos, mas também que nos reutilizam, nos reprimem, nos roubam e nos desprezam por sermos mulheres».

    chiapas

    Durante três dias, mais de 7000 mulheres discutiram sobre saúde, educação, lesbianismo, racismo, etc., mas sobretudo falou-se da violência de género e da violência de estado. Desenvolveram-se mais de 180 workshops e debates, jogou-se futebol e basquetebol, viram-se obras de teatro, falou-se e pintou-se em conjunto. O encontro foi aberto pelas mulheres zapatistas com a apresentação dos 5 caracoles (centros administrativos do território e comunidades zapatistas) e da história de como, em cada um, começou a organização entre mulheres. A Insurgente Erika iniciou o discurso sublinhando que elas, mesmo não tendo os estudos e talvez não tendo lido tantos livros como as mulheres da cidade, têm tanta raiva e tanta coragem como todas as que sofrem chingaderas, porque vivem o desprezo, a humilhação, as burlas, a violência, os golpes e as mortes por serem mulheres, por serem indígenas, por serem pobres e agora também por serem zapatistas. E esta exploração e esta violência não são feitas unicamente por homens, senão também por mulheres que dela participam.

    Neste encontro, elas não querem julgar nem ser julgadas, nem pediram que lutem por elas, assim como elas não lutaram pelas outras. Afirmaram que existem muitas diferenças entre as lutas em várias partes do mundo, mas que uma coisa é certa: este «pincho sistema» capitalista existe em toda a parte. E que todas devem lutar contra um sistema que faz crer e pensar que as mulheres valem menos.

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    No México vivem 15 milhões de indígenas que hoje em dia sofrem discriminação, enfrentam a pobreza, o difícil acesso à saúde pública, a falta de alimentos e o ensino institucional, que as educa a abandonar por completo o seu território, a sua cultura e a sua identidade. Um território estatal em que já 7,8% está em mãos de empresas mineiras ou de empresas dedicadas à exploração de terras. Muitas vezes estas terras pertencem a comunidades indígenas que acabam por ser expropriadas. Também em outras zonas de interesse turístico, as terras comunitárias (terras sem proprietário para uso das comunidades) são vendidas pelos municípios e pelos governos corruptos a investidores estrangeiros. A própria população indígena é afastada dos olhares dos turistas. Este encontro de mulheres abriu a possibilidade de organização e partilha de táticas de luta entre as diferentes comunidades indígenas e outras partes do mundo.

    Muitos debates focaram-se na auto-organização e em como recuperar velhos conhecimentos de maneira a afrontar um sistema neoliberal. Deu-se grande importância e voz às mães em luta cujos filhos e filhas foram assassinadas ou estão desaparecidas por causa de um estado que actua baseando-se na opressão, na criminalização, na violência e na morte.

    chiapas

    Mais de 10000 mulheres foram mortas nos últimos 5 anos no México, mas menos de 20% destes casos foram classificados como feminicídios. A maior parte dos crimes ficam por resolver, provavelmente, porque não é do interesse do estado. O feminicídio define-se como um acto de violência extrema contra as mulheres, que entra dentro de um conceito mais vasto que é a violência de género.

    «O feminicídio não é exclusivamente um acto homicida, mas estende-se também a um contexto mais complexo, que inclui a trama social e política que o encobre e que fornece os mecanismos para que este permaneça impune» (Julia Monarrez, 2009). Uma sociedade patriarcal que, através de estruturas, propaganda, rituais, tradições e ações quotidianas que reproduzem a dominação constante sobre as mulheres, faz com que aumente a violência de género, que serve ao próprio sistema para se manter em pé. O feminicídio é um crime de ódio: matar uma mulher pelo facto de ser mulher. Esta violência extrema estendeu-se a todo o país. Quase 7 mulheres são assassinadas por dia no México. O feminicídio segundo a lei: «Comete o delito de feminicídio quem, por razões de género, prive uma mulher da sua vida»; mas só 11 dos 32 estados da federação juntaram outras 7 razões pelas quais se define o feminicídio. Aliás, ainda há estados que aplicam «crime passional» em vez de feminicídio, em que a agressão é considerada como sendo feita sob um estado de «emoção violenta». Muitos feminicídios são cometidos por maridos ciumentos ou familiares e frequentemente são escondidos como suicídios. Esta impunidade está estreitamente ligada ao violento e corrupto governo Mexicano. As famílias que pedem justiça e o conhecimento da verdade encontram muitas vezes razões para desconfiarem das autoridades. No encontro, as familiares que lutam sustentam que nas zonas mais tensas, onde a taxa de feminicídios e de desaparecimentos é alta, como por exemplo na Ciudad Juárez, estes crimes estão relacionados com os grandes projetos governamentais ou estrangeiros de exploração de terras, como as indústrias mineiras ou as petrolíferas. É uma estratégia para aterrorizar a população em zonas economicamente débeis, para militarizá-las e posteriormente desalojá-las. Assim como o número de feminicídios, também o número de desaparecidas é altíssimo, igualmente encoberto pelo governo Mexicano. Entre elas, muitas ativistas e estudantes que são brutalmente assassinadas pela polícia federal, nacional ou pelos próprios militares. Estavam também presentes no encontro as mães dos 43 estudantes desaparecidos em Aotzinpa em 2014. Sabendo perfeitamente quem cometeu estes crimes, o governo quer encerrar as investigações e ainda ameaça as famílias que não se calam enquanto não se souber a verdade. Todas elas, juntamente com outras famílias de outros países, como por exemplo as «madres de mayo» da Argentina, prometeram encontrar-se no próximo ano.

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    Em todos os debates e workshops estavam presentes pelo menos 10 zapatistas de maneira a levar os conteúdos às suas comunidades. O encontro em si estava muito bem organizado e não faltou nada, desde a comida até às casas de banho. Ao redor do caracol estava o ELZN, para vigiar a zona. Infelizmente, aconteceu uma companheira curda, algumas argentinas e também algumas gregas terem sido impedidas de entrar no México, pelas autoridades mexicanas no aeroporto, por irem participar no encontro.

    “Foi um encontro muito especial, carregado de emoções
    Com uma energia única de 7000 mulheres que LUTAM”.

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    No primeiro dia, as mulheres zapatistas surpreenderam-nos brutalmente. Cada uma com uma vela na mão, 2000 mulheres em fila, deslumbraram-nos com estas palavras:

    Acendemos uma pequena luz.
    Leva-a, irmã e companheira
    Leva-a quando te sentes triste,
    quando tens medo,
    quando sentes que é muito dura a luta e a vida.
    Leva-a no teu coração,
    nos teus pensamentos,
    no teu interior,
    e não fiques com ela, irmã e companheira,
    mas Leva-a às desaparecidas
    Leva-a às assassinadas
    às prisioneiras
    às violadas
    às culpadas
    às abusadas
    Leva-a a todas as violadas de diferentes modos
    Leva-a às imigrantes
    às exploradas
    Leva-a aos mortos
    Leva-a e diz-lhes a todos e todas que não estão sozinhas,
    que lutarás por elas
    que lutarás pela verdade e pela justiça
    e que vale a pena a sua dor
    que lutarás tão forte que a sua dor não se repetirá em nenhuma outra mulher.
    Leva-a e transforma-a em raiva em coragem e em decisão
    Leva-a e une-a com outras luzes
    Leva-a
    E se continua nos teus pensamentos que não haverá nem justiça, nem liberdade
    no sistema capitalista patriarcal
    então voltaremos a encontrar-nos para incendiar o sistema
    e talvez te juntes a nós
    Cuidado que ninguém apague este fogo
    até que não fique nada mais que cinza.

    Texto e fotografias de Mimic