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Lendo: Sudão: Isto não é uma guerra civil

Sudão: Isto não é uma guerra civil

Sudão: Isto não é uma guerra civil


Mais do que uma guerra civil, o conflito no Sudão é uma luta pelo poder e pelos recursos naturais, alimentada a partir do exterior e com o objectivo deliberado de impedir qualquer tentativa de auto-organização popular.

O Sudão de Omar al-Bashir

Omar al-Bashir chegou a Presidente do Sudão em 1989, no seguimento dum golpe de Estado que ele próprio dirigiu contra o eleito mas impopular primeiro-ministro, Sadiq al-Mahdi. Dirigiu o país com mão de ferro e teve o desaconselhável privilégio de, em 2009, ter sido o primeiro chefe de Estado em funções a ser alvo dum mandado internacional de captura pelo Tribunal Penal Internacional, que o considerou culpado de crimes contra a humanidade, genocídio e crimes de guerra.

O programa de al-Bashir foi sempre o de aprofundar a islamização do país, com um forte discurso anti-ocidente irmanado com políticas do mais moderno capitalismo e um machado na mão contra trabalhadores, colectivos e minorias étnicas (não-árabes). A sua ligação ao Janjaweed, um conjunto de milícias sudanesas árabes comandado pelo general Hemedti, personagem com um longo historial de desumanidades, era também do conhecimento de toda a gente.

A guerra no Darfur e a criação das FAR

Na viragem para o século XXI, fervilhava no Darfur uma já longa tradição de instabilidade e conflitos, sobretudo por causa de tensões étnicas entre árabes e não-árabes e disputas pela posse de terra e água. Em 2003, explodiu um sangrento episódio de limpeza étnica. Para destruir a rebelião das tribos não-árabes da região, Omar al-Bashir deitou mão ao Janjaweed. Com patrocínio governamental, estas milícias levaram a cabo assassinatos e violações em massa, pilhagens, tortura, razias de aldeias e limpeza étnica. Foram responsáveis pela morte de entre 300 e 500 mil pessoas e pela deslocação forçada de outras 2,7 milhões até Outubro de 2006. Em 2013, estas forças foram reorganizadas e rebaptizadas pelo governo sudanês como FAR (Forças de Apoio Rápido).

A queda de al-Bashir

Al-Bashir não trouxe prosperidade ao Sudão e tudo piorou a partir de 2011, quando, ao fim de duas guerras (1955-72 e 1983- 2005) entre o governo central e as regiões do sul, o Sudão do Sul se tornou independente, deixando de fornecer divisas estrangeiras provenientes da venda de petróleo. A desvalorização da libra sudanesa, em 2018, provocou um aumento brutal do preço dos produtos importados, uma flutuação selvagem das taxas de câmbio e uma visível falta de dinheiro em circulação. Por essa altura, a inflação rondava os 70%.

No final de 2018, eclodiram protestos em várias cidades sudanesas, por causa, sobretudo, do aumento do custo de vida, mas também pela teimosia com que al-Bashir decidira manter-se no poder, anunciando a sua recandidatura para além do que a Constituição permitia e para além do que ele próprio prometera. Tudo junto e não tardou a que os protestos se transformassem em pedidos de demissão e exigências para a construção de um novo regime de governação. À mobilização nas ruas, o governo respondeu com violência. No campo institucional, uma maior centralização do poder passou a ser a grande prioridade de al-Bashir, que, no dia 22 de Fevereiro de 2019, declarou o estado de emergência, dissolveu o governo nacional e militarizou os regionais.

Mesmo sob a ameaça do «estado de emergência», os protestos massivos voltaram às ruas e houve notícias de soldados a defenderem os manifestantes das garras das forças policiais, uma divisão que culminaria na deposição de Omar al-Bashir, através dum golpe de Estado militar que deu o poder a um Conselho Militar de Transição (CMT).

A «revolução»

Os protestos, organizados e constituídos maioritariamente por mulheres (numa taxa que chegou várias vezes aos 70%), não pararam, exigindo aos militares recém-auto-empossados que dessem lugar a um forma civil de governo de transição, assim como outras reformas no Sudão. Chegou a haver negociações entre actores políticos da oposição civil e os militares do CMT para a formação de um novo governo, mas foram brutalmente terminadas em 3 de Junho de 2019, quando o próprio CMT, as FAR e outras forças de segurança governamentais responderam a uma manifestação assassinando 128 pessoas, violando 70 e deixando um enorme rol de feridos, no que ficou conhecido como o Massacre de Cartum.

Em resposta ao massacre e às detenções que se lhe seguiram, foi levada a cabo uma greve geral de três dias e houve um apelo para acções de desobediência civil e de resistência não violenta até que o CMT entregasse o poder a forças civis. Novas negociações levaram a um plano de transição para um regime civil, com a partilha imediata dos poderes legislativo e executivo entre militares e civis, para além da promessa de investigações ao que se passou depois do golpe de Estado que depôs al-Bashir, nomeadamente ao Massacre de Cartum. Estas negociações deixaram de fora uma parte importante das reivindicações, sendo vistas por alguns sectores da sociedade sudanesa como o sequestro do potencial revolucionário do que estava a acontecer no país.

De facto, para além do nível institucional, para onde toda a discussão sempre parece fugir, o Sudão era um país com uma sociedade bastante activa, cheia de grupos e coligações. Alguns desses grupos locais, que se tinham começado a organizar enquanto rede difusa em 2013, os chamados Comités de Resistência, tiveram um papel decisivo na organização e na mobilização dos protestos dirigidos ao CMT e poderiam ter tido um papel semelhante na futura organização do território.

Os Comités de Resistência

Eram estruturas horizontais, autónomas, em que participavam trabalhadores, desempregados e estudantes, que começaram a ter uma coordenação entre si para acções unificadas e que acabaram por conseguir construir uma rede fluída e descentralizada de activistas. Estes comités bebem de experiências da classe trabalhadora sudanesa dos anos 1990. Durante os protestos de 2019, auto-intitularam-se os «pilares e protectores da Revolução».

Em declarações ao Midlle East Eye, um membro dos Comités de Resistência dizia: «Não temos lideranças, mas antes uma rede ampla e coordenação entre áreas residenciais vizinhas. Cada área tem todo o direito de trabalhar de acordo com as suas próprias circunstâncias e condições de segurança». «A autonomia organizacional está profundamente enraizada e é defendida como um princípio desde o início. Qualquer questão é discutida primeiro no nível mais baixo (as diferentes secções de um bairro), depois numa coordenação de bairro e, por fim, no nível mais alto (a coordenação estadual federal). Isso faz com que algumas decisões demorem muito tempo, devido a esse desejo de respeitar uma discussão compartilhada e não reproduzir um sistema em que as “elites políticas” tomam decisões rapidamente, sem consultar a base», dizia uma investigadora da Universidade de Cartum, entrevistada pelo Nouveau Parti Anticapitaliste de França.

«Não temos lideranças, mas antes uma rede ampla e coordenação entre áreas residenciais vizinhas.»

A posição dos Comités de Resistência é, hoje, estritamente pacifista e há mesmo a recusa explícita de posicionamento ao lado duma das forças beligerantes. O seu trabalho, em tempos de guerra, é de apoio humanitário, assistência médica, documentação de violações e crimes, juntar e fornecer informações sobre serviços (onde encontrar água, electricidade, pão), cuidar dos desaparecidos e enterrar os mortos, fornecer abrigo ou comida. O seu apelo à autodefesa orienta-se para comportamentos que possam proteger as pessoas da violência de qualquer dos exércitos, permitindo evacuações seguras, por exemplo.

A guerra contra a revolução

Ainda que os jogos institucionais fossem ganhando à organização de base, parte das reivindicações que estiveram na génese da «revolução» foram atendidas ou, pelo menos, abordadas. Coisas tão absurdas como a possibilidade de a polícia bater em mulheres por usarem calças foram abolidas. Também foram abolidas a mutilação genital feminina e a flagelação pública. A apostasia foi descriminalizada e foi levantada a proibição, com 39 anos, de os não-muçulmanos beberem álcool. Houve ainda melhorias na liberdade de imprensa e algum desmantelamento do sistema de vigilância do regime de al-Bashir.

Economicamente, por outro lado, o país não arrancava. A inflação permanecia alta. Havia falta de divisas estrangeiras. A dívida pública tornou-se gigante e os preços não pararam de subir. No dia 25 de Outubro de 2021, o exército sudanês, dirigido pelo general Abdel Fattah al-Burhan, juntamente com Hemedti e as suas FAR, levaram a cabo um golpe de Estado militar e transformaram o Conselho de Soberania (uma espécie de «chefe de Estado» colectivo instituído pelo plano de transição) numa junta militar dirigida por al-Burhan.

O corpo militar era, no entanto, constituído por duas facções que ora eram amigas ora eram rivais, por duas pessoas que vêem o poder como coisa unipessoal. Essa rivalidade inultrapassável acabou por estalar em Abril de 2023, dando origem a uma guerra que se prolonga até hoje. Um conflito a que não se deve chamar guerra civil, uma vez que se trata da contenda entre duas vontades pessoais de poder total. Um combate deste tipo é também uma luta contra qualquer potencial inimigo, ou seja, uma guerra contra o livre pensamento, a livre organização e qualquer ideia que contrarie a do poder centralizado numa pessoa. No fundo, contra as ideias que nortearam a tentativa de «revolução».

Um conflito a que não se deve chamar guerra civil, uma vez que se trata da contenda entre duas vontades pessoais de poder total.

No terreno, o conflito envolve sobretudo o governo internacionalmente reconhecido controlado pelas Forças Armadas Sudanesas (FAS), dirigidas pelo general Abdel Fattah al-Burhan, e os para-militares das FAR, dirigidas pelo general Hemedti. Nenhum dos lados articulou uma visão política clara e não há qualquer ideologia em jogo, qualquer plano para o futuro da região. O que alimenta o conflito é a vontade de posse das riquezas do país, que incluem grandes reservas de ouro, cobre e ferro, petróleo e produção agrícola.

É o ouro, estúpido

Ambas as facções lucram já com as riquezas dos territórios que controlam e com a sobre-exploração a que condenam os trabalhadores. A mineração é feita maioritariamente de forma artesanal, atirando milhares de pessoas para condições desumanas, como acontece com os sudaneses negros escravizados sobretudo pelas FAR. A transformação do Darfur num centro de mineração militarizado permitiu a Hemedti estabelecer um governo paralelo próprio.

O sector aurífero foi, efectivamente, transformado em arma do crime. Tanto as FAS como as FAR assumiram o controlo de minas de ouro e utilizam as receitas para financiar a guerra. Estima-se que entre 80% e 85% do ouro sudanês seja contrabandeado para o exterior, principalmente para os Emirados Árabes Unidos (EAU). Nenhum dos lados tem interesse numa economia não-militar, que, a seus olhos, apenas colocaria em risco o controlo sobre os recursos e as fontes de receita.

O maior desastre humanitário do momento

A cronologia do conflito é complexa, entre avanços e recuos, «ocupações» e «libertações». De cessar-fogo não-cumprido em cessar-fogo não-cumprido. A cada episódio, as mesmas consequências sobre a chamada população civil. As vítimas principais são as mesmas de sempre: as mulheres, violadas quase como ritual, as minorias étnicas e as vozes críticas ou organizadas.

Ambos os lados têm sido acusados de utilizar a fome como arma de guerra, ao atacarem os territórios mais férteis, ao obrigarem os agricultores a fugir e ao prenderem voluntários. Simplesmente porque querem impedir que a comida chegue a territórios controlados pelo inimigo.

Esta guerra entre generais prolonga e amplia a maior crise humanitária dos nossos dias. Mais de metade da população vive em situação de carência. Há 8,9 milhões de pessoas deslocadas internamente e cerca de 4 milhões refugiadas em países vizinhos. A fome tornou-se generalizada e 637 mil pessoas enfrentam uma fome catastrófica. O sistema de saúde ruiu, a escassez de medicamentos é a regra e há epidemias de cólera desde 2024.

De volta ao Darfur e a um massacre anunciado

Os argumentos de pertença étnica tendem sempre a ver o outro como uma ameaça e, nesse sentido, são sempre potencialmente perigosos. No caso do conflito actual, ser não árabe, no Sudão, representa um risco de vida perante qualquer uma das facções. Se é verdade que as forças da FAR e as suas milícias aliadas têm sido especialmente brutais, as forças militares da FAS estão longe de ter as mãos limpas.

No Darfur, tudo se amplia. De tal forma que, em declarações à sudanesa Radio Dabanga, em Junho de 2023, Mujeebelrahman Yagoub, Comissário Adjunto para os Refugiados no Darfur Ocidental, afirmava que a violência actual era pior do que a Guerra no Darfur em 2003 ou o genocídio ruandês em 1994.

Os avanços e recuos do conflito levaram a uma divisão territorial entre Hemidti e al-Burhan, ficando o primeiro com territórios sob sua jurisdição sobretudo no Darfur. Até Novembro passado, El Fasher era única grande cidade da região que não estava nas mãos das FAR. El Fasher esteve sob cerco mais de 16 meses e, durante esse período, a fome campeava. Após a sua conquista, as FAR lançaram uma campanha de chacina com alvos étnicos e políticos, documentando os seus próprios massacres, as suas execuções sumárias, em vídeos que depois publicaram na internet.

Este era um massacre anunciado. Cada conquista de território tem significado, de ambos os lados mas com especial brutalidade por parte das FAR, violência mortal sobre os combatentes que se rendam e violações e assassinatos em massa sobre as populações. Isto já tinha acontecido antes, nomeadamente em Geneina, no Verão de 2023, onde o cerco também não incluiu qualquer rota segura para civis e onde a violência atingiu níveis impensáveis.

Este era um massacre anunciado.

Mais de 500 dias de cerco a uma cidade em situação de fome, documentada por parte de forças que, em situações semelhantes, tinham levado a cabo limpezas étnicas, não chegaram para que a chamada comunidade internacional agisse. Os comunicados de repúdio na sequência da tomada de El Fasher seriam suportáveis se o massacre fosse uma surpresa. Assim, são lágrimas de crocodilo, de quem nada fez para o evitar.

A União Europeia poderia, por exemplo, ter pressionado os seus parceiros na região para que fossem mais intervenientes na procura da paz, mas não o fez. O parco número de jornalistas a cobrirem o conflito, o silêncio das notícias do dia relativamente ao Sudão, a dificuldade em definir «bons» e «maus», tudo isto impossibilita a criação de uma opinião pública que exija uma posição sobre a maior crise humanitária do momento. Pressionar os EAU, por exemplo, para que deixem de alimentar a guerra pode afastar os investimentos que prometem à Europa. E, por fim, há aliados do ocidente a apoiar as duas partes.

Investir na guerra

A interferência estrangeira no Sudão está, de facto, apenas a prolongar a guerra. Sem o apoio desses outros actores, a guerra já teria chegado ao fim, principalmente por falta de armas e munições. Para além das suas riquezas minerais e agrícolas (de que a goma arábica, um ingrediente alimentar, farmacêutico e cosmético é exemplo, sendo o Sudão o seu maior produtor mundial), o país tem uma geografia que permite a quem o dominar ficar em posição de exercer influência em toda a região do Corno de África, bem como na África Subsaariana.

A interferência estrangeira no Sudão está, de facto, apenas a prolongar a guerra.

Os EAU são considerados o interveniente estrangeiro que mais investiu no conflito e o que mais contribui para sua eternização. Apoiam as FAR, que controlam vastas áreas das regiões de mineração de ouro no oeste do país. Para além disso, apoiam esta guerra contra o povo sudanês como parte de uma campanha regional mais ampla contra os movimentos da Primavera Árabe.

Tal como os EAU, a Arábia Saudita está a tentar garantir rotas marítimas e proteger os seus investimentos a longo prazo. Tem apoiado abertamente as FAS sob o comando de al-Burhan. O Irão é também apoiante das FAS e há provas de que lhe fornece drones armados, em busca de influência na região.

A Rússia começou por apoiar as FAR, através do Grupo Wagner, mas, em 2024, mudou a sua aliança para as FAS, em troca de uma base naval no país.

O capitalismo chinês, por seu lado, vê no Sudão um ponto central para a sua Nova Rota da Seda e está interessado nos depósitos de ouro e na localização de Porto Sudão, no Mar Vermelho. A Amnistia Internacional afirma que a China armou ambos os lados do conflito. No entanto, as ligações a al-Burhan são visivelmente mais fortes.

Para Abdel Fattah el-Sisi, presidente egípcio desde 2013, que tem reprimido a dissidência e as liberdades civis no seu território, um Sudão pacífico, livre e não-autocrático não é, de todo, do seu interesse. Para além disso, o Egipto está preocupado principalmente com as implicações do conflito na instabilidade no Rio Nilo. Apesar dum envolvimento limitado (uma vez que depende muito dos apoios financeiros dos EAU), há relatórios que afirmam que tem fornecido armas e treino às FAS.

Solidariedade

A denúncia da inércia do ocidente e a visibilização das atrocidades cometidas são peças fundamentais duma solidariedade internacional possível e desejável. As mobilizações pela Palestina são exemplos dessa solidariedade que podem ser replicados no caso do Sudão. No ano passado, por exemplo, a Vuelta, uma das corridas mais importantes do ciclismo profissional de topo, contou com a oposição de activistas da causa palestiniana, por causa da presença duma equipa que ostentava o nome do Estado de Israel. Nessa altura, a mais ganhadora equipa da actualidade também participava e conseguia passar incólume, apesar de ter o nome do interveniente estrangeiro que mais investiu na guerra do Sudão. A EAU Team Emirates, uma equipa de ciclismo, estará em Portugal, para a Volta ao Algarve, entre 18 e 22 de Fevereiro.

Contra a invisibilidade promovida pelos fazedores de notícias e de militâncias e mesmo não havendo, aparentemente, um lado pelo qual tomar parte, a solidariedade é quase imperativa, perante a magnitude do que se está a passar. E, na verdade, há lados bem definidos. Os lados que sempre se antagonizaram e perante os quais sempre nos soubemos posicionar. O de cima, com dois generais e as suas tropas a atacarem sem escrúpulos o outro, o de baixo. A guerra não é civil: é dos militares contra os civis, usando a retórica da pertença e da superioridade étnico-cultural para deitar mão a riquezas e poder.

Neste contexto, os apelos que recebemos do movimento anarquista sudanês tocam-nos especialmente. Notícias tristes de companheiros que morreram a defender El Fasher das garras das FAR, juntamente com as de outros jovens voluntários cujo único «crime» foi levar comida para os moradores da cidade. E, lá está, o apelo: «O mundo não deve ficar a observar-nos em silêncio. Os revolucionários em todo o lado devem conhecer os nossos sacrifícios e a nossa luta contra o terror capitalista selvagem, contra a autoridade sangrenta e contra a limpeza étnica sistemática».

A guerra não é civil: é dos militares contra os civis, usando a retórica da pertença e da superioridade étnico-cultural para deitar mão a riquezas e poder.

Estes anarquistas não pertenciam a nenhuma facção militar antes da guerra e, quando o cerco de El Fasher começou, não tiveram escolha a não ser defenderem-se. Lutaram ao lado das Forças de Autodefesa do Povo, que continuaram os combates na cidade mesmo após a retirada do comando da 6.ª Divisão das FAS. «Nós no Grupo Anarquista no Sudão perdemos camaradas; alguns dos nossos membros foram feridos e alguns morreram; outros enfrentam o perigo iminente de guerra. As nossas famílias sofrem de fome, falta de remédios e falta de comida. Acreditamos no anarquismo numa terra onde a autoridade está em todos os lados, e lutamos para nos defender, à nossa ideia e à nossa unidade. Hoje precisamos de ti».

O Grupo Anarquista no Sudão foi fundado por estudantes e jovens trabalhadores em 2017. Durante a revolução, ajudou a organizar comités de resistência, assembleias de bairro que coordenavam protestos, greves e apoio mútuo. Depois dos militares retomarem o poder e de a guerra ter começado, muitos membros do grupo foram presos, mortos ou empurrados para a clandestinidade. Outros continuaram o trabalho em segredo: traduzindo e imprimindo textos anarquistas, fazendo educação política através da publicação Al Amal/Hope & Grassroots Organizing 1, administrando cozinhas comunitárias, ajudando famílias deslocadas e apoiando grupos de defesa locais. Com o apoio de redes anarquistas internacionais, incluindo Black Rose/Rosa Negra, o grupo adquiriu uma impressora para produzir material, embora a luta e a repressão constantes tenham limitado o seu uso.

Para eles, esta não é simplesmente uma guerra entre dois generais, mas a destruição violenta da revolução que vinha a partir de baixo, um esmagamento deliberado de qualquer tentativa de auto-organização, autonomia ou poder popular.

Uma campanha de angariação de fundos (aliás, «um esforço de apoio contínuo que facilitará doações recorrentes a organizadores anarquistas sudaneses») tem o seguinte texto introdutório: «Como internacionalistas, reconhecemos a nossa responsabilidade de apoiar e ampliar a sua luta. A sua organização anti-autoritária, o seu compromisso com a educação política e a sua coragem em promover o poder comunitário reflectem a luta global pela liberdade. As nossas lutas estão interligadas para além das fronteiras e o trabalho no Sudão faz parte do mesmo horizonte de libertação que procuramos em todos os lugares. Num momento em que as pessoas enfrentam guerra, autoritarismo e repressão, estes organizadores estão a levar adiante o trabalho de criar espaços para apoio mútuo, tomada de decisões colectivas e resistência. Os seus esforços lembram-nos que a libertação não pode ser imposta a partir de cima – deve ser construída a partir de baixo, juntos».

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Publicado no Jornal Mapa nr. 48, Jan. – Mar. 2026

Notas:

  1. nr. 1 (https://libcom.org/article/issue-01) e nr. 2 (https://libcom.org/article/issue-02) disponíveis online.

Written by

Teófilo Fagundes

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