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Lendo: Uma revolução ignorada no Myanmar

Uma revolução ignorada no Myanmar

Uma revolução ignorada no Myanmar


Nas colinas ocidentais do Myanmar, no território do povo Chin, falámos com H, um internacionalista californiano que se juntou à recentemente criada Frente Internacionalista Antifascista (AIF). Antes de se juntar ao povo Chin, H esteve em Rojava, no Curdistão, a participar na revolução que ali acontece há 13 anos. Na AIF, assumiu a responsabilidade pela comissão política do grupo que agora está presente nas linhas da frente, a resistir a mais uma ofensiva da junta militar que tomou o poder em 2021. Falámos com H sobre esta revolução ignorada, sobre internacionalismo e sobre o que isso significa no contexto atual.

Diferentes revoluções e conflitos têm sido o foco de muitos movimentos de solidariedade internacional em todo o mundo, mas o Myanmar é um dos muitos casos desconhecidos, pelo menos no Ocidente. Para começar, podes dar-nos um panorama geral da revolução e do seu estado atual?
Ao longo da sua história, o Myanmar tem sido empurrado para o fundo da atenção internacional. A região encontra-se na periferia da periferia global, encaixada entre as extremidades marginalizadas do nordeste da Índia e as fronteiras remotas do Laos e da Tailândia, partilhando apenas uma fronteira com o Estado chinês que lhe permite receber ocasionalmente a atenção da oligarquia chinesa. Após a segunda Guerra Mundial, a ocupação britânica deu lugar a operações anticomunistas fracassadas da CIA no norte do país, que lutava desesperadamente por um novo regime fantoche que nunca se manifestou. Nos últimos tempos, a atenção voltou-se para o norte do mar de Andaman, principalmente devido à situação política da laureada com o Prémio Nobel, Aung San Suu Kyi, que se encontra presa, e ao lucrativo trauma pornográfico do genocídio dos Rohingya. A atual revolução no Myanmar começou depois do golpe de Estado de 2021, quando os militares birmaneses derrubaram a Liga Nacional pela Democracia. Este é o período de resistência mais intenso e decisivo das últimas décadas, mas a resistência ao exército birmanês existe há séculos. Esta revolução tem, portanto, uma oportunidade sem precedentes de reformular completamente os fundamentos coercivos do Estado, e nela existe uma base para a prática internacionalista.

A AIF é uma organização bastante recente. Podes dizer- -nos o que é a AIF, onde se encontra atualmente e quais são as suas perspetivas para o futuro?
A Frente Internacionalista Antifascista foi formada pouco antes da batalha para libertar a cidade de Falam, a segunda maior do estado de Chin (ver abaixo), em abril deste ano. A iniciativa veio de vários companheiros internacionais em cooperação com os nossos aliados nas colinas Chin para apoiar diretamente os desenvolvimentos revolucionários no Myanmar, também inspirada no paradigma do movimento de liberdade curdo. A AIF opera em várias regiões do Myanmar e os nossos companheiros vão para onde são mais necessários. Desde a fundação, a estrutura tem desempenhado um papel na libertação de Falam, mantendo uma presença militante tanto na linha da frente como nas linhas da retaguarda, ao mesmo tempo que realiza formações para os nossos aliados. O nosso trabalho prático baseia-se no desenvolvimento comunitário e na luta ideológica. Não vemos muito sentido em manusear uma arma sem essa base social e política. Portanto, embora sejamos uma estrutura militar, o nosso trabalho diário não é exclusivamente militar. O nosso trabalho é político, diplomático e social, e o nosso programa é organizado de acordo com isso. Lutamos ao lado dos nossos companheiros de cá por um mundo livre de dominação, não só com as organizações existentes, mas também com as mulheres locais na sua busca pela autonomia e libertação.

O genocídio na Palestina gerou uma ampla solidariedade internacional em todo o mundo e o internacionalismo parece ter voltado aos movimentos revolucionários de esquerda em todo o mundo. Como internacionalista no Myanmar, o que te motivou a dar esse passo e ir para aí?
Eu estava a organizar-me com pessoas da diáspora do Myanmar há algum tempo e os meus companheiros da comunidade encorajaram-me a avançar e a juntar-me à luta aqui. Fazia muito sentido contribuir para a revolução aqui dessa forma. Foi a minha geração, a Geração Z, que iniciou grande parte desta revolução. Os nossos companheiros da Geração Z aqui não perderam tempo em assumir a responsabilidade revolucionária e fizeram-no muito bem. Qualquer internacionalista não deve negligenciar os sacrifícios que os nossos companheiros da Geração Z no Myanmar fazem para alcançar a liberdade. Para os companheiros internacionalistas da Geração Z, há uma urgência global particular que deve ser reconhecida. É sua responsabilidade levar adiante essa chama também, querido companheiro. Outro fator importante e que também influencia a minha decisão de lutar aqui é o investimento profundo e persistente do Estado Israelita na junta militar. O Estado Israelita projetou as armas do exército birmanês, fornece peças para as suas aeronaves e mantém uma parceria económica pouco visível. Embora possa não ser óbvio, esta luta é, sem dúvida, uma importante frente contra o imperialismo israelita na Ásia. No entanto, a nossa presença aqui não precisa ser justificada pela proximidade ou distância do nosso inimigo imediato em relação a Israel. Israel não é o único Estado a cometer genocídio no mundo atualmente.

Devemos também questionar o internacionalismo de movimentos liberais? O foco apenas nos conflitos, movimentos de resistência, revoluções, etc., que parecem estar a ganhar mais atenção, coloca a questão: o que é a solidariedade internacional? Como é que ela deve ser?
A nossa presença aqui é uma defesa imediata contra o oportunismo dos Estados em que nascemos. A disputa pelo controlo das minas de jade da região de Kachin no norte do país, por exemplo, é um conflito em que os Estados Unidos e a China competem entre si, longe dos holofotes globais, enquanto outros lobbies ligados às classes dominantes tentam constantemente extrair recursos do Myanmar, cooperando com a junta militar. A nossa relação com a guerra pretende dissipar a ideia liberal de simplesmente ir ajudar porque as pessoas estão a sofrer e, depois, sentir-se moralmente validado. Não há transação no nosso trabalho aqui. O nosso trabalho prático não é realizado aqui por causa da guerra, mas por causa da necessidade imediata de defesa contra um poder genocida. O Movimento de Liberdade Curdo ensina-nos um conceito importante: o wextê alozî (intervalo de caos). Trata-se de um período volátil em qualquer sociedade, no qual existe uma janela de oportunidade limitada para uma mudança revolucionária de grande magnitude. O golpe de 2021 criou este wextê alozî para os povos do Myanmar, onde atualmente lutamos, e isto está diretamente ligado à forma como abordamos o internacionalismo. Dentro desse wextê alozî, somos guiados pelas necessidades imediatas dos companheiros locais, e não pretendemos inserir-nos num ambiente pré-definido. Navegamos por ele através da adaptação e não da autovalidação. É fundamental ter em conta que a revolução no Myanmar não é um monólito, nenhuma força política tem uma verdadeira hegemonia na revolução, o que significa que esta é amplamente descentralizada. Os nossos camaradas comunistas do Partido Comunista da Birmânia mantêm a sua própria aliança de forças revolucionárias, com o Exército Popular de Libertação Bamar e a Força de Libertação Buffalo Soldier. Mas isso não os impede, nem nos impede, de lutar ao lado de forças mais populistas, como o Governo de Unidade Nacional ou a Organização de Independência Kachin. No Myanmar, a revolução assume a forma de uma frente unida contra a junta fascista, por um futuro em que as comunidades possam determinar a sua própria realidade sem a ameaça de genocídio. Não nos cabe a nós determinar como será esse futuro, mas estamos dispostos a dar as nossas vidas para o defender. Um companheiro curdo das Unidades de Proteção Popular disse, uma vez, durante a defesa da barragem de Tişrîn: «se a PKM [metralhadora PK] não funcionar, a BBC não falará sobre nós, amigos! Vocês precisam entender — se isto não funcionar, ninguém sequer nos reconhecerá. Se isto falhar, a nossa língua desaparecerá. As nossas tradições serão apagadas. Se isto falhar, os nossos cemitérios serão profanados. Se isto falhar, as nossas mães ficarão indefesas. Mas se tivermos isto, teremos tudo. Sem isto, juro-vos — nada restará. Nós próprios não sobreviveremos. Eles vão eliminar-nos um por um».

E o que significa o internacionalismo para o povo Chin?
Até à criação da AIF, a maioria dos estrangeiros nas colinas Chin tinha uma relação abertamente transacional ou extrativista com as comunidades locais. Nós viemos aqui sem pedir nada, e isso é algo estranho para uma comunidade que foi submetida a uma mistura de colonização britânica e evangelismo americano. Não invadimos as colinas agindo como se fossemos os donos do lugar. A nossa prática aqui começa por questionar o que podemos fazer como internacionalistas para aprofundar a defesa contra a junta e expandir a ligação com outros companheiros em luta em todo o mundo. Os internacionalistas da AIF têm uma responsabilidade particular em estabelecer pontes de solidariedade com a comunicação que desenvolvemos na frente internacional. Vale a pena notar que essa solidariedade também já foi expressa na revolução, sem a nossa ajuda, de várias maneiras. Os companheiros das Forças de Defesa Nacional Karenni expressaram solidariedade com a revolução em Rojava, por exemplo. As companheiras das Forças de Defesa Nacional Chin, por iniciativa própria, trocaram mensagens de solidariedade com as forças autónomas de mulheres de Rojava. Fundamentalmente, o internacionalismo está na luta pela libertação das mulheres e não existe sem esta. A luta contra 10.000 anos de patriarcado é tão real nas colinas de Chin como em qualquer outro lugar do mundo, desde as subtilezas dos papéis de género estabelecidos dentro da revolução até à violência patriarcal aberta cometida pela junta. Com relações internacionais entre os movimentos de mulheres, existe uma nova semente para a libertação das mulheres florescer. Criámos, por exemplo, um programa para os homens da nossa unidade, para desconstruírem as tendências patriarcais e aplicarem essa desconstrução nas nossas interações com a sociedade. Como prática integral do internacionalismo, pretendemos contestar na nossa vida quotidiana as normas patriarcais legitimadas aqui pelas forças imperialistas, sejam elas provenientes de Yangon, Londres ou Ohio.

De longe, o que podem fazer outras pessoas para contribuir para a revolução no Myanmar?
Organizem-se com as comunidades locais da diáspora do Myanmar e simplesmente incluam o Myanmar na vossa prática internacionalista, seja ela qual for no vosso território. Encorajamos os companheiros a organizarem eventos de solidariedade com o Myanmar e a AIF. Teremos todo o prazer em apoiar esses eventos e participar em sessões de perguntas e respostas. Fiquem atentos às nossas campanhas de angariação de fundos e a mais desenvolvimentos envolvendo a nossa organização, pois estamos a trabalhar para criar mais oportunidades para que companheiros possam trabalhar connosco, tanto para aqueles que estão no estrangeiro como para aqueles que desejam vir para cá. Quem desejar apoiar-nos materialmente de forma imediata, pode fazê-lo através dos seguintes meios: PAYPAL: @AIFMYANMAR, VENMO: @AIFMYANMAR, CASHAPP: $AIFMYANMAR. Por favor, mantenha a secção «nota» em branco ou sem qualquer descrição. Para entrar em contacto com a AIF sobre como aderir à revolução ou apoiar a partir de onde estiver, todos os e-mails podem ser enviados para: AIFMyanmar@protonmail.com. Também podem seguir-nos no Instagram e no YouTube @AIFMyanmar.


Fotos de Frente Internacionalista Antifascista (AIF)
entrevista publicada no Jornal MAPA nr. 48 [Jan. – Mar. 2026]

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