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Lendo: Carmo 81

Carmo 81

Carmo 81


Para além de ser o único ponto de venda do jornal Mapa em Viseu, o Carmo 81 é um espaço que
foge à regra na cidade. Não é um bar, não é (só) uma sala de concertos, é um espaço de criação e
encontro, onde a experimentação ocupa um lugar central. Foi no quintal que conversámos com o
Nuno Leocádio, um dos fundadores deste espaço.

O que é que é o Carmo 81? E como é que apareceu este sítio?
Nuno Leocádio: O Carmo 81 é a sede de uma cooperativa cultural. Em 2015, um grupo de amigos de diferentes áreas, como produção cultural, cinéfilos, fotógrafos e também duas colegas ligadas à educação, que hoje em dia são professoras primárias, juntaram-se e queriam constituir uma cooperativa, por dois motivos.

Primeiro, a questão da empregabilidade, numa altura em que estávamos ali no governo de Passos Coelho e tudo era, ainda é, bastante precário. O outro motivo era o acesso à cultura; se quiséssemos ver alguns concertos, a oferta cultural estava demasiado litoralizada.

Ou seja, ainda existe uma grande discrepância na fruição da cultura entre o interior e o litoral. Isso não é uma opinião minha, basta ver o atlas da cultura e a oferta que existe. A distribuição denota que tem havido um grande esforço para haver esta descentralização, mas não, nomeadamente, no nosso meio. Se eu quiser ver um concerto de Linda Martini, ou espero por uma festa de Verão de uma cidade próxima, tenho de me deslocar ao Porto, ao Maus Hábitos, ou a Lisboa. Enfim, com base também no que são as venues, as grassroots venues de outras cidades e do que vimos noutros países, acreditávamos ser possível em Viseu haver uma sala de espectáculos, de concertos, independente e com uma programação que nós não víamos a acontecer na cidade.

Um dos nossos colegas queria um espaço onde apresentar as sessões do Shortcutz Viseu e então juntámo-nos todos à procura de locais e encontrámos este espaço que estava completamente abandonado. Era uma antiga oficina de motores de rega e estava devoluto e em muito mau estado.

O telhado tinha imensos buracos, chovia lá dentro em todo o lado, aquela parede do fundo não existia, a bancada estava a suportar o telhado. Este espaço onde nós estamos era fechado com chapas de lusalite, as paredes de pedra não se viam, estavam cobertas por cal, enfim, fizemos uma série de trabalhos aqui dentro. E recuperámos o espaço, na medida do possível, com financiamento próprio, fizemos uma vaquinha, cada um meteu o que pôde.

E com pouquíssimo dinheiro recuperámos o espaço e com a nossa mão de obra: não houve nenhuma empresa envolvida. E assim surgiu o Carmo, na altura, não propriamente para ser uma sala de espectáculos dirigida a concertos. Sabíamos que seria local de ensaio para bandas de amigos, para apresentar livros, cinema. Era uma cooperativa cultural que queria fazer o trabalho próximo do associativismo e do que as associações culturais fazem. E disso tínhamos a certeza.

Entretanto, o meu gosto pela música, e o interesse dos meus colegas também, fez com que começássemos a programar alguns concertos. E, desses concertos, começámos a perceber que nos davam imenso gozo, davam-nos muita pica e era ao que o público mais respondia, foi o que deu mais hype e credibilidade também à nossa programação e ao nosso espaço. Começámos a perceber que havia uma grande falha, porque bares e espaços que façam concertos existem várias dezenas ou centenas, não sei especificar, mas grassroot venues existem poucas, e no interior do país existem mesmo muito poucas.

E agora fechou o Club de Vila Real, por exemplo, e que eu conheça o Salão Brasil em Coimbra, é litoral, Coimbra é interior, mas é litoral, existe o She em Évora, e eu não me quero estar a enganar, mas eu acho que é só o She em Évora. Existe também o GrETUA, em Aveiro, mas é litoral. Enfim, acreditávamos que era preciso haver um espaço que tivesse uma programação regular, mas, ao mesmo tempo, independente, daí a necessidade de criar um espaço como este.

E foi assim que começámos, um pouco sem ter a certeza absoluta do que queríamos, mas sabendo que queríamos descentralizar a oferta cultural e tendo sempre esta preocupação também pela democracia cultural, que não é só a questão da acessibilidade e da bilheteira, mas também a oferta que podemos dar, que não existia até aqui em Viseu, antes de surgirmos.

Como é que vocês se relacionam com os outros espaços culturais de Viseu, e como é que o Carmo 81 vive nesta cidade do interior centro?
N: As relações têm sido incríveis. Ao longo de 10 anos, o Carmo também se apresentou, desde o início, como um espaço de confluência. É aqui que a malta do cineclube se pode encontrar com a malta do jazz, é aqui que os artistas plásticos se podem encontrar com os músicos. Ou seja, é um espaço de debate, discussão, de encontro. Foi sempre assim desde o início, mas, a partir do momento em que começámos a programar de forma ativa, sempre procurámos perceber qual era o nosso lugar. Por exemplo, nós temos o Shortcutz, que é dedicado às curtas, mas a função do Cineclube [de Viseu] é o cinema, então essa não será a nossa função. Os concertos de jazz que aqui fazemos são em colaboração e em parceria com o Festival de Jazz de Viseu, com a [associação] Gira Sol Azul. Temos várias parcerias, seja o Teatro Viriato fazer eventos aqui dentro do Carmo, seja o Carmo propor atividades, nomeadamente concertos, para o Teatro Viriato, isso existe e vai-se fazendo sempre que possível. Ou seja, o que nos tem salvo e o que nos tem ajudado muito também tem sido este ecossistema cultural local, que, apesar das dificuldades de que vou falar a seguir, é forte, sempre foi, já de há uns anos por cá. Pode-se dizer que são pequenas ilhas, mas que constituem assim um ecossistema e é verdadeiro, e que depois acaba por criar uma rede de interações.

Além desse ecossistema local, também nos conseguimos inserir num ecossistema nacional. Existe uma associação, que é a Circuito.live, de espaços semelhantes ao Carmo, que neste momento representa 23 casas, acredito que em breve possa vir a representar mais. É uma associação localmente constituída, onde entramos em contacto uns com os outros, partilhamos experiências, dividimos serviços jurídicos, e isso ajudou-nos já em alguns momentos, nomeadamente esse serviço jurídico já salvou a existência do Carmo. Ou seja, se não fosse essa associação Circuito.live, se calhar o Carmo não existia. Com o Maus Hábitos no Porto, por exemplo, temos uma parceria do Super Nova, que é um evento que eles criaram com apoio da Superbock, e que difundiram pelo país todo, e o Carmo é uma das salas que recebe esse evento.

E com todas as agências e músicos que, ao fim de pouquíssimos concertos perceberam, ok, o espaço é pequeno, mas garante todas as condições dignas para artistas emergentes, mas também para artistas consagrados. A malta, como os Clã, como os Capitão Fausto, como os Linda Martini, enfim, se calhar é melhor não estar a nomear, porque vou-me esquecer de muitos outros e isso é injusto, mas também gostam de voltar a este tipo de local. E é muito bom porque essas bandas sabem que a sala tem uma lotação pequeníssima, mas que vão tirar daqui um som muito bom, vão ser muito bem recebidos e vão conseguir ter o público a esta distância e vão conseguir perceber que músicas é que funcionam melhor, as interações dos artistas e tudo, e os músicos… Enfim, no fim deste mês vamos receber a Surma. A Surma já é artista de salas maiores do que a nossa. Na semana passada tivemos o Jorge Cruz, do antigo Diabo na Cruz. Ou seja, todas estas redes, a rede local com os nossos colegas e parceiros locais, mas também os nacionais têm-nos ajudado muito e é isso que tem permitido a um espaço com estas limitações conseguir sobreviver.

Acaba por ser mais difícil por todas as questões financeiras extra que implica, que para a malta que vive no litoral não existe. Custa-me porque é um discurso um bocado do coitadinho do interior, mas é uma realidade. Não dá como disfarçar.

Mas, de verdade, eu nem quero, nem defendo nenhum tipo de política específica. Não quero nenhuma discriminação positiva para a malta do interior. Neste momento era preciso pensar numa política pública que defendesse espaços de criação, de ensaio, de programação, independentemente do sítio onde estão. Sejam no interior ou no litoral. Tenho a certeza que, havendo essa política pública, surgiria e existe na Covilhã um espaço que já programou e que se está a preparar para o voltar a fazer de forma bastante participativa. Já existiu em Vila Real, e de certeza que voltaria a existir. Ou seja, no dia em que surgirem essas políticas públicas, vão surgir mais espaços destes.

Mas o vosso foco aqui é muito a música? Ou é a música e outras coisas?
N: É a música e outras coisas. Acaba por ser a música a que o público atribui mais relevância e é que a está mais representada. Mas, mesmo assim, nós não fazemos mais do que dois concertos por mês. Deixamos sempre espaço para criações, para ensaios das nossas criações e para ensaios de outros artistas. Nós não somos agência nem management. Nunca o fizemos. Ainda não sabemos bem responder porque não. Mas já colaborámos com vários artistas locais, dando-lhes espaço de ensaio, fazendo uma espécie de mentoria.

Sempre que está a surgir uma banda nova de Viseu, com quem nos identificamos, procuramos colaborar da melhor forma. Pedir ao nosso técnico de som que os ajude a compor um raider técnico, de luz, ensinar-lhes tudo isso. No fundo não somos management nem agência, mas procuramos colaborar com o que sabemos. E com o que fomos aprendendo também ao longo destes anos.

Isso quer dizer que há um espaço de programação aberto ao público, mas também há um espaço mais de backstage, de estúdio, de prática.
N: Sim, isso é possível, como estava a falar há pouco. O Carmo só abre em dias de eventos. E, como só abre em dias de eventos, nós conseguimos ganhar essa disponibilidade de, nos outros dias, receber a malta, reunir com eles, dar espaço para a sua criação.

Muitas vezes não é de todo criação nossa. A Joana Martins, uma atriz de Viseu, mas que trabalha pelo país todo, criou um espetáculo incrível com o nosso som, em que o som era o principal.

Aí foi ela que nos ensinou muito a nós, mas foi possível por ter sido neste espaço, com este sistema de som, com o nosso técnico de som a colaborar muito com as ideias dela. Montaram sonoramente e o espetáculo que eles já tinham escrito.

Como é que é a vossa relação com a vizinhança?
N: Os vizinhos são muito incríveis connosco, porque percebem perfeitamente o respeito que nós temos por eles, por não fazermos disto um bar, nem uma discoteca, que funciona todos os dias com ruído. Percebem também que nós cumprimos os horários. Desde o início que criaram afinidade e sempre foram bastante solidários com a nossa ação. E nós também tentámos ser sempre bastante comunicativos com todos. E aqui, paredes meias com o Carmo, vive uma família que tem duas crianças, uma de nove, outra de cinco ou seis. E o Carmo tem dez. Ou seja, eles nasceram com o Carmo com vida. Com vida e com o ruído que isso implica algumas vezes por mês. E sempre foram muito simpáticos connosco.

Com o município… existem municípios, não estou a dizer que são melhores ou piores, e cada espaço tem a sua dificuldade, mas em Viseu não nos sentimos protegidos. Não nos sentimos bem-vindos.

Agora, as políticas públicas, sejam nacionais ou locais, por mais que colaborem pontualmente, através da DGArtes ou de apoios financeiros como a Eixo Cultura, não resolvem nada.

E como é que o festival Karma aparece e continua a acontecer?
N: O Karma surgiu em 2019 com a ideia de ser um festival no Fontelo, um misto entre a natureza e o urbano, o que não nos foi possível, porque o Fontelo não é um jardim, é uma mata, e tinha ali alguns problemas que a Proteção Civil insistiu em não desbloquear, o que nos impediu de fazer uma série de coisas. E no ano a seguir, meteu-se o Covid e o Fontelo tinha espaço suficiente para fazermos com aquelas regras todas distópicas, mas necessárias. Porque, foram anos e anos a estudar como é que o público chega mais cedo, como é que o público usufrui melhor, como é que o público se diverte mais… e, de repente, fomos obrigados a saber como é que a malta se afasta, como é a malta chega só na hora, como é que a malta sai a tempo, foi tudo o contrário do que andávamos a fazer até ali. Em 2020 e 2021 fizemos com pandemia, o que nos orgulhou muito, porque não desistimos. Na altura tínhamos um financiamento digno para fazer o festival e isso também nos ajudou. E ajudou todos os parceiros com quem trabalhámos, numa altura mesmo difícil para todos. E ficámos mesmo muito felizes com essa possibilidade, mas, na verdade… não foi um festival. Foi para pouca gente, e com todas aquelas condições. E passou para o skate park, em exclusivo, o que foi muito incrível, mas muito mais urbano, muito mais direto, foram três noites de concertos e ponto final. Tínhamos a Inês Flor com artes plásticas, tínhamos workshops de skate e de fotografia e de pintura, tínhamos uma parceria com o Cineclube…

O Karma costuma durar três dias e costuma ser no primeiro fim de semana de setembro.

E para onde é que vai o Carmo 81, para onde está a caminhar?
N: Nós sabemos que até aqui foi a programação e o público que nos têm sustentado, mas também sabemos que sempre tivemos uma preocupação grande em não ser apenas uma sala de espectáculos, de programação, de nunca sermos vistos como um bar, embora muita gente confunda o espaço com um bar. E as criações sempre foram o que mais nos realizaram. Embora eu me arrepie muito com todos os artistas que cá trazemos… É com as criações que nos completamos e surgiram coisas incríveis. Houve um ano, antes de haver Karma, em que quisemos fazer algo dedicado a solistas, a artistas a solo. Então, convidámos o Afonso Cruz para fazer um texto sobre o ser mais solitário que ele conseguisse conceber. E então ele fez um livro sobre a Audax Viator, que é a bactéria mais isolada, mais pequena, mais escondida, mais ínfima do mundo. E ele fez um texto incrível sobre essa bactéria chamada Audax Viator: Depois convidámos o Jaime Raposo para ilustrar esse texto e foi uma publicação, foi um livro que concebemos. Ao fim do livro feito, mostrámo-lo a um amigo, que é músico e é cozinheiro, o Rui Sousa. Fizemos uma peça de teatro musicada ao vivo sobre esse livro, sobre essa bactéria. Ou seja, de uma criação, já temos outra, uma peça de teatro musicada ao vivo com um órgão de tubos. Nós não temos aqui um órgão de tubos, tivemos de o procurar e fazer uma parceria com a Igreja da Misericórdia, que tem um órgão de tubos incrível. Ensaiámos lá, eles deixaram, até foram bastante simpáticos, porque quem ficou connosco foi o zelador da igreja, o sacristão, o sr Jorge, que nos acompanhou durante as duas semanas de ensaio dessa criação do Audax Viator. E ao fim de duas semanas ali a ensaiar, ele diz-nos que canta uns fados. E lá perdeu a vergonha e começou a cantar o “Boa noite solidão”, do Fernando Maurício, uma música incrível que ele canta muito melhor que o original, que nos arrepiou a todos. E o Rui Sousa, o Dada-Garbeck, que estava a musicar com o órgão de tubos, disse-me que tínhamos que fazer uma banda com aquele homem, que na altura tinha, 61, 62 anos, com alguns problemas de saúde. E então juntámos o sr. Jorge com o Dada-Garbeck, que é de Guimarães, com o J, que é o guitarrista dos The Lemon Lovers do Porto, com o Nuno, que é o guitarrista e vocalista dos Unsafe Space Garden, de Guimarães também, com o Pedro Oliveira, que é baterista de várias bandas e professor de música… enfim, juntámo-lo com uma malta mais nova, num confronto de gerações e criámos a banda Sr. Jorge, que é um fado com esta roupagem mais experimental, menos convencional. E para nós tem sido um experiência muito linda trabalhar com ele, porque ele fica super desconfortável com os sintetizadores e está habituado a receber o aplauso no fim de cada música do fado, mas neste neste projeto não, porque ainda está ali a distorcer qualquer coisa… E nós nunca nos preocupámos em vender a ideia de um velhinho que tem alguns problemas de saúde e que é sacristão e assim… mais, as letras são sobre decadência, sobre a velhice, sobre coisas que certamente não vais querer ouvir quando estás a ouvir rádio. Mas nós vamos insistir por aí, porque achamos que a cultura não serve só para dar, a cultura não tem de ter serventia, mas acima de tudo, o direito à tristeza, à melancolia, o direito a não teres que estar sempre a sorrir, sempre feliz, tem que existir e acho que aquele projecto serve muito para isso.

É nas criações que vemos o futuro do Carmo, não é que a programação vá deixar de existir, são mesmo as criações… sempre tivemos muita preocupação em fazer workshops para malta mais nova, para nós também conhecermos o público mais novo e estarmos em contacto com eles e sempre nos preocupámos muito em não sermos apenas um salão de festas. [Acrescento que] o Carmo não é um espaço partidarizado, mas é um espaço politizado. Isso pode não agradar a pessoas mais conservadoras, mas nós nunca vamos prescindir disso, porque temos os nossos valores e acreditamos em determinadas coisas que são básicas e que nem tinham que estar em debate, ainda. Mesmo numa cidade tão conservadora como Viseu, eu percebo que estas lutas ainda tenham que existir, e nós colaboramos com elas. Somos um espaço não partidarizado, mas somos um espaço politizado e continuaremos a ser, sem dúvida alguma.

E o que é que se vende ali na loja onde também está o jornal Mapa?
N: Vendemos o Mapa, vendemos livros e publicações que apresentamos cá, algumas fanzines de todo o lado, não só portuguesas mas também de fora, discos das bandas de Viseu mas também de bandas que já passaram pelo Carmo. E, durante muito tempo, tivemos livros de especialidade, artes, artes plásticas, fotografia, cinema. Neste momento, é mais fanzines, discos, vinis, livros que cá são apresentados e publicações como o Mapa.

Actualmente, fazem parte do Carmo 81:
Catarina Loureiro, José Marques, Rafael Farias, Rui Sousa, João Pedro Silva e Nuno Leocádio

Carmo’81
Rua do Carmo, nº 81
3500-096 Viseu

………….

Entrevista de Ana Queijo, publicada na edição #46 do Jornal MAPA [Jul.-Set. 2025]

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