shop-cart

Lendo: Celebremos a Disgraça!

Celebremos a Disgraça!

Celebremos a Disgraça!


A campanha de angariação de fundos para a compra da Disgraça terminou com sucesso. A compra do espaço atestou o dinamismo deste Centro Social Anarquista em Lisboa.

A energia anarco-punk fez da Disgraça, espaço nascido em 2015, o ponto mais efervescente de uma cena alternativa DIY lisboeta, um embrião e uma casa de acolhimento de inúmeros projetos e coletivos antiautoritários nos últimos 10 anos. Perante as ameaças iminentes que decorrem da gentrificação de Lisboa, esse fantasma que assola muitas coletividades e espaços de resistência cultural da cidade, a Disgraça assumiu o desafio de ultrapassar a angústia com os aumentos absurdos de rendas e comprar este espaço na Penha de França.

Foi vencido o enorme desafio de angariar a soma de 275.000 euros, e a escritura de compra foi concretizada neste último mês de 2025. O momento é de celebrar a Disgraça, assinalando o seu dinamismo ao garantir a perduração de um centro social anarquista em Lisboa. Um espaço que se define a si mesmo como «laboratório informal, várias vezes desajeitado mas obstinado, de práticas e formas de pensar anti-autoritárias, organizado horizontalmente, por voluntáries que, entre si e com quem lá vai, experimentam, cuidam, pensam, decidem, erram, antagonizam, transformam, catalizam, abrigam e, juntes, aproximam-se de um ensaio de um mundo onde o que desenha a vida não são as lógicas do capital».

Em setembro do ano passado, a Disgraça assinara o contrato promessa de compra e venda com a entrega 10% de entrada do valor total. Um ano decorrido o crowdfunding somava à volta de 45.000 euros e mais de 500 doações. O restante montante reunido resultou da obtenção de empréstimos solidários sem juros (c. 160.000) e verbas provenientes de eventos de angariação de fundos que percorreram toda a Europa (c. 70.000). Aqui chegados, à compra do espaço, veem-se realizadas as principais aspirações do coletivo que, desde o seu início, alertara ser «fulcral que haja espaços estáveis onde se possa aprender, partilhar, conspirar e (des)construir de forma coletiva e horizontal».

Dos concertos, às refeições da cantina vegan, da livraria anarquista Tortuga, ao ginásio e loja livre, o espaço tem a montra da livraria aberta para a Rua Penha de França, um pouco acima da Escola Secundária Luísa de Gusmão. Entrando aí, é ir descendo às profundezas: primeiro pelo piso onde conversas, reuniões e outros afazeres vão acontecendo por entre as estantes da BOESG (Biblioteca dos Estragos da Sociedade Globalizada) e por vezes tropeçando nas pilhas de jornais MAPA que a cada edição ali são armazenadas (uma ajuda que não esquecemos, aproveitamos para referir). Mais abaixo e levando pelo caminho algo da loja livre Desumana, chega-se ao local mais vivenciado da Disgraça: a sala de convívio, onde chegam os cheiros dos pratos que afamaram a cozinha vegan da sua cantina. Aí poderá estar a acontecer simultaneamente uma roda de conversa ou uma projeção de filmes e documentários. Por fim, chega-se às tais profundezas, que mais não são que o lugar memorável onde centenas de bandas partilharam a sua música, o seu suor e um convívio que poucos esquecem. Ao lado, uma sala de ensaios, uma oficina, uma serigrafia e um ginásio (o lugar mais arrumado …) compõem os cerca de 1000m2 da casa.

Tudo isto se passa com base num pressuposto, como já foi antes referido ao Jornal MAPA: «É importante para nós que a Disgraça seja um espaço onde as pessoas se possam envolver facilmente e onde não haja binários rígidos entre pessoas organizadoras e consumidoras» e no seu percurso nem tudo tem sido fácil ou isento de conflitos, uma vez que, no fim de contas, «a horizontalidade é um trabalho sempre em curso».

«Ao longo do tempo, a Disgraça tem sido um local de convergência e organização de lutas na cidade e fora dela, proporcionando espaço para reuniões, preparação de materiais, eventos e angariações de fundos. Entre os meandros da manutenção e organização do espaço, houve conversas e grupos de leitura sobre anarquismo, anti-racismo, anticolonialismos e as mais diversas lutas indígenas, queer e feministas. Reduzindo o fosso entre a teoria – nas prateleiras da Tortuga –, e a prática – nas nossas vidas. Houve mesas-redondas sobre abolição das prisões e apoio a preses, luta pela habitação e okupação, bem como estratégias de resistência ao capitalismo verde, ao colapso climático e extrativismo.»

Ainda que assombrada pelo recente despejo de outros espaços na cidade, como a Zona Franca dos Anjos, na justa celebração desta vitória ecoa uma certeza: «ao adquirir coletivamente o espaço da Disgraça, todos os coletivos de resistência e movimentos sociais que dependem deste centro social ganharão maior sustentabilidade e autonomia. Sem uma renda e um senhorio, podemos focar-nos em continuar a criar hoje o futuro que queremos construir amanhã».

A story about

,

Written by

Jornal Mapa

Show Conversation (0)

Bookmark this article

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

0 People Replies to “Celebremos a Disgraça!”