Desculpa, mas não encontramos nada.
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Lendo: Os monstros de Mary Shelley
O lar de Mary alberga monstros em vez da família burguesa.
Poucos dias depois de Mary nascer, foram em busca de cachorrinhos para a sua mãe amamentar 1. A ligação humana foi interrompida por motivos de doença, e os cachorrinhos eram usados para retirar o leite dos peitos. O que bebeu a bebé Mary não sabemos, mas a sua mãe bebeu vinho, um anestésico para temperar o leito de morte causado pela febre puerperal. William Godwin relata os últimos dias da esposa, a quem pergunta: “o que farei com as crianças?”, e tem o silêncio por resposta 2.
A mãe é Mary Wollstonecraft, e enquanto educadora feminista deixou vários livros e cartas sobre como as filhas deviam ser educadas, que William ignorou. As filhas que deixa órfãs em 1797 são Mary Wollstonecraft Godwin e a irmã, Fanny Imlay, de três anos. William cuidará sozinho das duas, mas ao fim de poucos anos sente-se incapaz de conduzir a tarefa e casa-se com a vizinha, para surpresa dos seus amigos mais próximos. A madrasta é incapaz de preencher os sapatos da mãe, e cria-se um fantasma. William refugia-se na atividade intelectual, para a qual requer silêncio constante, e exige ser sustentado por patronos. Mary cresce a visitar a campa da mãe na igreja velha de Saint Pancras, em Londres, e é lá que se encontra secretamente com Percy Bysshe Shelley, poeta, discípulo e patrono do seu pai, que acompanhará até ao fim da vida, que não foi muito longa: quando se conhecem, Mary tem 16 anos e Percy 21; ele morrerá 8 anos depois.
Percy é um aristocrata, filho mais velho de Sir Timothy Shelley, 2.º Baronete do Castelo de Goring. O seu avô, Sir Bysshe Shelley, nasceu em Newark e era rico à custa da família e de bons casamentos. Percy cresce a sofrer bullying na escola, e por vezes responde com raiva violenta. Interessa-se pela ciência e ocultismo, ganha a alcunha de «Shelley Louco» e faz experiências com pólvora, ácidos e eletricidade. Mais tarde, na Universidade de Oxford, radicaliza-se e aprofunda ideais de pensamento e amor livres com Thomas Jefferson Hogg. O desdenho pela sociedade de Oxford e pela religião motiva-os a escrever o ensaio “A necessidade do ateísmo” 3, que enviaram pelo correio aos bispos e diretores de Oxford, valendo-lhes a expulsão. O pai retira-lhe o apoio financeiro quando este foge e se casa com Harriet Westbrook, e expressa que quer doar uma grande parte do dinheiro da família aos mais desfavorecidos. Percy inspira-se na visão económica que elaborou a partir de “Justiça Política” 4, obra de William. No entanto, o autor da obra, seu mentor, discorda da ideia e aconselha-o a reconciliar-se com o pai para segurar os fundos e a consolidar uma posição académica, afastando-se da agitação política. Percy desobedece ao mestre, passa a viver de dinheiro emprestado e fica incapaz de continuar a ser patrono.

Percy desinteressa-se de Harriet após esta dar à luz a sua filha, Eliza Ianthe Shelley. Quando expressa a William que está apaixonado pela sua filha Mary e quer viver com ela, deixando para trás Harriet que está novamente grávida, este bane-o de casa e proíbe-o de ver a filha, mas sem sucesso. Mary e Percy fogem de casa levando com eles Claire Clairmont, filha da madrasta. Escapam de Inglaterra e atravessam a França devastada pela guerra, para horror de Mary, e viajam pela Alemanha e Holanda. Regressam a Inglaterra meio ano depois com Mary grávida, deprimida e a fugirem de oficiais de justiça para escapar a dívidas. A filha de Mary nasce prematura e morre 10 dias depois. Engravida no espaço de três meses e em 1816 nasce William Shelley. No mesmo ano conhecem Lord Byron, 6.º Barão, e viajam para Geneva, na Suíça. Pouco tempo após regressarem, Mary perde a sua meia irmã Fanny, que se dedica extremosamente a todos sem sentir amor de volta 5, por suicídio com laúdano. Enlutado, William enterra-a numa campa anónima para evitar mais escândalos. Uns meses depois, Harriet, sentindo-se abandonada, também se suicida. Percy e Mary casam-se, e no ano seguinte têm mais uma filha, Clara Everina Shelley, que morrerá cerca de um ano depois. Vivem anos de intensidade emocional extrema e grande produção artística, mantêm diários, escapam a credores mudando de casa e de país, e convivem com outros radicais e poetas. Em 1818 viajam para Itália para curar os problemas pulmonares de Percy (provavelmente tuberculose) mas com a morte dos filhos, Mary deprime e distancia-se dele emocionalmente. No ano seguinte sofrem mais duas mortes, da filha adotada, Elena Adelaide Shelley, e de William Shelley, possivelmente de malária. Em novembro nasce Percy Florence Shelley, o único filho sobrevivente do casal. Três anos depois, Mary engravida pela última vez e quase morre num aborto; é salva por Percy que a coloca num banho de gelo, parando a hemorragia. A relação entre os dois deteriora-se cada vez mais, com Percy a envolver-se com diversas mulheres, e a acordar aos gritos dum sonho em que estrangula Mary e vê a amante e o seu marido como cadáveres ambulantes. No mesmo ano morre num naufrágio no Mediterrâneo.
O pensamento e escrita do pai e marido de Mary testemunham os principais eventos do seu tempo e criticam brilhantemente as instituições políticas, expressando enorme compaixão pelos desfavorecidos e pelas vítimas da opressão e violência. Porém, remetem os infortúnios das mulheres e crianças para tragédias pessoais que devem ser ultrapassadas. Quando o neto William morre, escreve a Mary dizendo que a depressão a faz cair na turba das mulheres comuns, ao invés de estar entre os mais nobres espíritos que honram a natureza humana 6. William deposita fé na razão para o progresso da humanidade, e acredita que um dia a imortalidade será alcançada. Por sua vez, Percy escreve sobre o Prometeu libertado, desvinculado das amarras impostas pela sociedade que atrasam o progresso.
O corpo e as emoções não são facilmente calados pela razão nem se submetem ao seu poder.
Mary lida com a realidade do trauma e com os horrores da doença, da guerra e da morte. Para ela, não basta soltar as amarras da opressão para haver progresso; há desafios internos que continuam sem resposta e se materializam nas interações humanas. O corpo e as emoções não são facilmente calados pela razão nem se submetem ao seu poder. Kock e Pasteur ainda não nasceram, e a sociedade ocidental não conhece os antibióticos nem os desinfetantes. Vários episódios de peste assolam os países da Eurásia e da bacia mediterrânica. A mortalidade materna e infantil é aterradora, e piora com a entrada dos médicos no parto, que contaminam as mulheres com as doenças que as vitimizam. Seis décadas depois da morte de Mary Wollstonecraft, Ignaz Semmelweis, considerado o «salvador das mães», será expulso do hospital e morrerá internado num asilo de loucos por defender que os médicos deviam lavar as mãos antes do parto, sendo ridicularizado pelos colegas que diziam «um cavalheiro tem sempre as mãos limpas». O planeamento familiar e controlo de natalidade estão longe de estar popularizados, a sociedade não reconhece a necessidade de sexo e de afeto, nem a importância de expressar emoções negativas.
Aos vinte anos, Mary publica Frankenstein, ou o Prometeu moderno 7. O livro conta a história de Vitor Frankenstein, um homem que perdeu a mãe por escarlatina que procura derrotar a morte reanimando cadáveres. É bem-sucedido na sua empresa, mas quando consegue o feito, rejeita a criatura por ser muito feia. É a irresponsabilidade perante a criação que marca a história: Vitor não estava preparado para ser pai. Movido pela paixão pela ciência e o oculto desenvolveu a tecnologia de reanimação, mas foi incapaz de amar, cuidar e nutrir a criatura gerada. Esta incorpora a monstruosidade da rejeição, condenada a viver sem companhia humana, por vir ao mundo numa forma detestável.
Frankenstein não foi o único livro de Mary. Muitos outros se seguiram, incluindo a obra-prima de ficção científica O último homem 8. O enredo passa-se em 2073, ano em que finalmente cai a monarquia britânica e é instaurada uma república. Apesar deste progresso, a ciência continua incapaz de derrotar a guerra e a peste. O poder é concedido naturalmente ao descendente do rei, Adrian, quando este abdica da hierarquia formal. Adrian conquista o respeito dos homens ao permanecer junto do povo na doença, enquanto os que buscam a fama e a glória morrem ou se afastam. Os sobreviventes procuram escapar à peste que avança de forma inexorável, e lutam contra grupos religiosos que creem ser salvos pela fé. Só a doença destrói a hierarquia e torna as divisões sociais obsoletas, expondo as pessoas à mesma desgraça. As personagens centrais são repletas de virtudes, mas dadas a excessos emocionais e à limerência. Apesar de viverem momentos de paz, amizade e abundância, envolvem-se em projetos políticos que resultam em tragédias. Os privilégios das personagens ora são máximos, ora são mínimos, podendo viver como párias da sociedade em abrigos ou em castelos na companhia de reis, dependendo de circunstâncias que não controlam.
Só a doença destrói a hierarquia e torna as divisões sociais obsoletas
Mary sobrevive à depressão, às dívidas e paixões intensas, guardando no corpo múltiplos fantasmas e lutos. Depois da morte de Percy, Mary escreve para se sustentar a si e ao filho, ajudando o pai com frequência. Dedica o resto da sua vida a editar os trabalhos de Percy e outros autores, escrever romances e a envolver-se com a política de Itália, país que ama. Sofrerá mais uma desilusão: o revolucionário Ferdinando Gatteschi da Jovem Itália, escritor aristocrata por quem se sente atraída, tenta chantageá-la ameaçando publicar as suas cartas pessoais. Mary consegue reaver as cartas usando a polícia francesa, por intermédio de um amigo do filho. Apesar de considerar o poder policial revoltante, não se arrepende de o ter usado.
Após ter vivido de forma transgressiva, Mary reconcilia-se com a sociedade, permanecendo radical ao longo da vida: casa-se, sendo promotora do amor livre; o seu filho será 3.º Baronete; e incapaz de ter fé, entende o apelo da religião. Na viagem que faz com o filho à Itália, diz sobre os camponeses:«Pobres pessoas! A sua religião está rodeada de falsidade, mas é um grande conforto para eles» 9. Apoia sempre que pode as mulheres transgressoras da sociedade, como as mães solteiras, adúlteras e lésbicas, e considera a sua generosidade como atos de simples justiça. Segue a via política da não-violência, e exerce a compaixão e a simpatia. Por esta razão despolitizaram-na, e consideraram-na defensora da vida doméstica. Só recentemente foi reconhecida como uma das principais figuras Românticas, que escreve com uma voz política e liberal que desafia o radicalismo de William e Percy. O doméstico de Mary alberga monstros em vez da família burguesa, e tem de ser transformado para o amor e o cuidado serem possíveis. Morreu aos 53 anos com um tumor cerebral, e foi amada e cuidada pelo seu filho, que não teve descendentes, pondo fim à prole da mãe do feminismo. O último sobrevivente exumou os restos mortais dos seus avós maternos e colocou-os na mesma campa da mãe na igreja de Saint Peter, com o coração de Percy que se recusou a arder na pira funerária. O que aconteceu aos cachorrinhos fica para outra história.
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Texto de Borboleta Azul, publicado no Jornal MAPA nr. 45 [Abr. – Jun. 2025]
Notas:
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