Desculpa, mas não encontramos nada.
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Lendo: Mary Wollstonecraft e a correção dos males humanos
Uma mulher chora ao ver um homem numa carruagem prestes a ser executado. O homem é Luís XVI e a mulher é Mary Wollstonecraft. A decapitação do rei é o proverbial «corte da cabeça da serpente» que marca o fim da monarquia e o nascimento da república. Mas Mary, antimonárquica, aprende rapidamente que a revolução não estenderia os direitos do homem às mulheres. Apesar disso, continuará defensora da revolução francesa nos círculos intelectuais britânicos, debatendo-se ferozmente com os conservadores opositores da revolução, como Edmund Burke.
Estamos em 1792 e as mulheres estão dependentes dos homens, votadas ao papel de mães, esposas, irmãs e filhas, entregues aos trabalhos domésticos e com uma educação muito limitada. Jean-Jacques Rousseau, um dos principais nomes do iluminismo, considera-as menos racionais do que os homens e naturaliza a sua dependência por serem «o sexo fraco», propondo que fossem educadas para lhes agradar. Mary ganha a vida como escritora e faz uma crítica profunda às ideias de Jean-Jacques com foco na educação das mulheres, mantendo-se fiel à premissa central do século das luzes: a fé na razão humana para melhorar a sociedade e corrigir os seus males.
Considerando o destino da maioria das mulheres no século XVIII, Mary Wollstonecraft foi extraordinária. Ao longo da história, a sua vida atraiu mais atenção do que as suas ideias. Considero que é impossível fazer esta separação, pois as palavras de Mary Wollstonecraft resultam da sua experiência de vida. No entanto, a forma em que as suas ideias foram associadas à vida pessoal também merece ser examinada.
Considerando o destino da maioria das mulheres no século XVIII, Mary Wollstonecraft foi extraordinária.
Mary nasceu numa família inglesa de classe média arruinada pelo pai. A mãe era vítima dos ataques violentos do marido e Mary protegia-a frequentemente. Aprendeu a ler e a escrever na escola, mas a sua educação subsequente foi informal e de grande qualidade por virtude das famílias vizinhas com que se relacionou: educadores e estudiosos de ciências e filosofia que ensinavam as suas filhas em momentos de lazer, onde encontrou figuras parentais, mentores e amizades profundas. Desde cedo percebeu que teria de sair de casa assim que possível, mas fez tudo ao seu alcance para continuar a cuidar e proteger a mãe e as irmãs ao longo da vida. Só existiam duas possibilidades para as mulheres da sua classe adquirirem independência financeira: serem damas de companhia ou tornarem-se educadoras de crianças. Ser precetora em ensino doméstico implicava estar subordinada a mulheres ricas e ter uma conduta moral impecável à custa da exclusão social. Mary foi dama de companhia de uma viúva irascível, precetora de uma família aristocrata e criou uma escola numa comunidade de dissidentes ingleses com duas irmãs e a sua melhor amiga, Fanny Blood. A escola fracassou após a vinda de Mary e Fanny para Lisboa, numa tentativa vã de curar Fanny da tuberculose que a vitimou.
Depois da morte de Fanny, Mary regressou a Inglaterra determinada a viver como escritora. Este projeto audaz só foi possível pelo apoio incondicional do editor Joseph Johnson, de quem Mary seria amiga para a vida. Joseph marcou o pensamento de uma época, e ficou famoso por publicar e apoiar o trabalho de pensadores radicais e das primeiras escritoras feministas, sendo o centro da vida intelectual de Londres. O talento de Mary foi reconhecido e conferiu-lhe a tão desejada independência económica e social, passando a sustentar-se como autora e tradutora de obras em francês e alemão. Os seus primeiros trabalhos foram no campo dos livros para crianças, se bem que Mary tinha uma visão bem diferente da literatura infantil tal como a conhecemos hoje. Mary pretendia educar as crianças, em particular as filhas, para os desafios que iriam encontrar na sociedade, para cultivarem a razão e serem capazes de lidar com as adversidades, mantendo-se atentas às desigualdades e injustiças inerentes à hierarquia. Para Mary, a superioridade não era motivo para abusos e maus-tratos aos inferiores. Nas suas histórias originais 1, Mary ensina às crianças que os animais são inferiores aos humanos por não serem racionais, mas não devem ser maltratados por isso. Numa das suas histórias, conta: Deus criou o mundo e também os seres que vocês desprezam, como as aranhas; mas não os abandonou à morte, colocou-os onde há mais comida. Se até Deus toma conta dos seres mais vis, como se atrevem vocês a matá-los porque vos parecem feios? Eu sou mais forte que vocês e não vos mato.
Nos seus trabalhos, Mary procura redefinir o que significa ser mulher e os papéis que poderão desempenhar na sociedade num tempo em que são os homens que o fazem. São os grandes intelectuais que definem os atributos femininos desejados sob o auspício da sensibilidade, e as virtudes que se esperam delas no casamento. Não é surpreendente que os trabalhos de Mary tivessem eco nos primeiros anarquistas que criticavam o casamento enquanto instituição social, em particular William Godwin, com quem casaria.
Mary procura redefinir o que significa ser mulher e os papéis que poderão desempenhar na sociedade num tempo em que são os homens que o fazem.
Para Mary, é impossível reconfigurar ser mulher sem reconfigurar a sociedade. Critica a transmissão hereditária da propriedade como fonte de desigualdades e deposita fé nas experiências políticas do seu século, dedicando-se a acompanhar a revolução francesa. O seu primeiro texto a este respeito é a resposta a Edmund na forma de uma carta intitulada “A vindicação dos direitos do homem” 2, publicada em 1790. No mesmo ano, Edmund tinha publicado as suas Reflexões sobre a revolução em França, argumentando que acabaria em desgraça por ser baseada em conceitos abstratos como a liberdade e os direitos, que ignoram as complexidades da natureza humana e podem ser facilmente usados para justificar a tirania. Mary acusa-o de ser cego à miséria humana pelos seus privilégios, e escreve que a propriedade só serve para proteger os ricos e escravizar as crianças e as mulheres. Argumenta que sem a conceção de dignidade inata do homem, está aberto o caminho para a escravatura como uma instituição eterna. Escreve: «A Natureza e a Razão, conforme o seu sistema, devem dar lugar à autoridade; e os deuses, como exclama Shakespeare, parecem matar-nos por desporto, como os homens fazem às moscas.» Em 1789, é estabelecida a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão em França que exclui as mulheres, os pobres, as pessoas escravizadas, as crianças e os estrangeiros, considerando que são incapazes de tomar decisões políticas informadas. Em 1791, Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord defende que as mulheres só devem ter educação doméstica, ecoando as ideias de Jean-Jacques. No ano seguinte, Mary publica o trabalho pelo qual é mais conhecida: A vindicação dos direitos da mulher. 3

Primeira edição de A vindicação dos direitos da mulher, a obra mais conhecida de Mary Wollstonecraft, onde argumenta que as mulheres são tão capazes de cultivar a razão como os homens, mas estão escravizadas e embrutecidas pela falta de educação e pelos jogos sociais que são obrigadas a jogar, degradantes para ambos os sexos.
Mary escreve o livro focada na classe média, com base na sua filosofia e experiência. Argumenta que as mulheres são tão capazes de cultivar a razão como os homens, mas estão escravizadas e embrutecidas pela falta de educação e pelos jogos sociais que são obrigadas a jogar, degradantes para ambos os sexos. Afirma que a mulher é reduzida a um nada pelo casamento, condenando-a a ser dependente. Desprovida de propriedade e sem acesso a profissões dignificantes, concentra todas as atenções em agradar ao marido, negligenciando as próprias crianças que nem sequer amamenta. Se por acaso o marido toma más decisões ou sofre alguma desgraça e arruína as finanças, toda a família sofre sem poder fazer nada contra isso. Sem educação nem ocupação profissional, as mulheres ficam mesquinhas, dedicadas a trivialidades, intrigas e roupas para serem atraentes, e sem outra via legítima, cultivam a manipulação para conseguirem os seus desígnios. Mary diz ainda que este é o resultado da educação que propõe Jean-Jacques e outros pensadores do iluminismo, mais adequada para as mulheres serem concubinas do que esposas, que faz delas objetos, e não as prepara para serem mães nem verdadeiras companheiras dos homens em pé de igualdade. Mary critica o ideal de mulher que diversos homens contemporâneos apregoam e a conceção falsa de amor que é vazia e fugaz. Para Mary, a fundação dos relacionamentos deve ser a amizade sólida e o respeito mútuo, e sem a mulher cultivar a razão não poderá prover nenhum sentimento autêntico, emulando apenas comportamentos por convenção social. Propõe que a educação deva ser nacional e pública, em escolas de dia sem separação de rapazes e raparigas; só isto permitirá que as crianças dos dois géneros sejam educadas da mesma forma e possam brincar e crescer juntas. O livro foi bem recebido, e no mesmo ano em que foi publicado, Charles-Maurice visitou Mary em Londres para discutirem as suas ideias.
Uns meses depois, Mary viaja para França para ver a revolução com os seus próprios olhos. Durante a sua estadia, a maioria dos seus amigos ingleses, aliados dos girondinos, seriam presos ou decapitados. Mary escreve à sua irmã Everina que testemunhou morte, miséria e todas as formas de terror, mas não se arrepende de ter ido para França, pois só estando presente pode ter uma opinião justa dos acontecimentos. Em 1794, publicou Uma visão histórica e moral da revolução francesa e o efeito que produziu na Europa 4, acentuando as causas sociais, políticas e económicas da revolução, mantendo a fé no progresso da sociedade. Em Paris apaixona-se por Gilbert Imlay e tem uma filha, Fanny Imlay. Mary procurava a relação que descreveu nos seus livros, mas Gilbert não estava à altura. No momento em que se encontra maternal e vulnerável, com a filha nos braços no meio da revolução, Gilbert afasta-se.

Em 1795, Mary embarca numa viagem à Escandinávia com a sua filha e uma criada, Marguerite, em busca de um navio que interessava a Gilbert para negócios. Durante a viagem escreve-lhe cartas que publica quando regressa a Londres 5, onde descreve os encontros humanos, a natureza e a análise que faz dos lugares por onde passa. As cartas tornam-se no seu livro mais popular, e têm um efeito inesperado: William apaixona-se por Mary ao lê-las. Gradualmente, Mary regressa ao círculo literário de Joseph e o relacionamento entre Mary e William avança, encontrando finalmente o amor e respeito que deseja. William dirá nas suas memórias: «Considerei que tivemos um pelo outro o estilo de amor mais puro e refinado. Cresceu com avanços iguais na mente de cada um. Teria sido impossível para o observador mais minucioso dizer quem tomou precedência (…) Nenhuma das partes foi o agente ou o paciente, o arquiteto da teia ou a presa.» Tragicamente, a felicidade de ambos durou pouco. Mary engravidou da segunda filha e morreu no parto, deixando William enlutado com duas crianças a seu cargo, a bebé Mary Wollstonecraft Godwin, e Fanny Blood com três anos. William publicou todos os trabalhos inacabados de Mary, incluindo o seu romance Maria, ou os males das mulheres 6, onde a personagem principal é uma mulher de classe média declarada louca pelo marido e internada num asilo, que estabelece amizade com a sua cuidadora de uma classe mais baixa. O romance mostra os abusos que as mulheres de diferentes classes sociais sofrem e a falta brutal de amor e carinho que imperava na sociedade britânica desde o berço, expondo a falha no coração social do qual deveriam emanar as virtudes essenciais ao progresso da humanidade.
Infelizmente, o romance não teve sucesso, por via das memórias que William publicou sobre a autora de A vindicação dos direitos da mulher 7. A biografia não autorizada de Mary continha os aspetos pessoais da sua vida, as provações que passou e como as superou. Ela é claramente a heroína de William e a veneração que tem à esposa é inultrapassável; revela-nos uma Mary que experimentou o verdadeiro amor livre, possivelmente bissexual, desafiando as convenções sociais ao não casar com Gilbert, e as duas tentativas de suicídio que fez no momento em que viu o pior dos males humanos na esfera pública e na vida íntima. Apesar de William falar destes temas de uma forma não preconceituosa, a reputação de Mary foi manchada durante mais de 100 anos, e o trabalho dela desacreditado e associado a uma conduta imoral. O interesse na sua obra só foi renovado muito mais tarde, e finalmente Mary surge como uma autora que não se limitou a escrever palavras ocas, mas a vivê-las. Em 1911, Emma Goldman escrevia sobre Mary: «Ainda hoje há poucos entre nós, os chamados reformadores, certamente muito poucas entre as mulheres reformadoras, que veem tão claramente como este gigante do século XVIII. Ela compreendeu demasiado bem que meras mudanças políticas não são suficientes e não atacam os males da sociedade na sua profundidade.» A virtude de Mary não pode ser julgada pelos seus contemporâneos, pelas razões que ela própria expressou na conclusão de “A vindicação dos direitos do homem”: «Tenho observado indignada que muitos dos filósofos do iluminismo que falam dos direitos inatos do homem empregam muitos sentimentos nobres para embelezar o seu discurso, mas sem influência na sua conduta. Eles curvam-se à posição social e são cuidadosos para segurar a propriedade, e a virtude, sem essa roupagem acidental, raramente é respeitável aos seus olhos, e não discernem a verdadeira dignidade de caráter quando nenhum nome sonoro exalta o homem acima dos seus semelhantes. Mas nem a inimizade aberta, nem a homenagem vazia destroem o valor intrínseco dos princípios que repousam sobre um fundamento eterno e revertem aos atributos imutáveis de Deus.» A transcendência secular de Mary Wollstonecraft conferiu-lhe, nas palavras de Virginia Woolf, «uma forma de imortalidade». Precisamos desta mãe do feminismo hoje, e certamente muitas das pessoas que a irão ler e compreender não terão ainda nascido.
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Texto de Borboleta Azul, publicado no Jornal MAPA nr. 44 [Jan. – Mar. 2025]
Notas:
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