Desculpa, mas não encontramos nada.
Desculpa, mas não encontramos nada.
Lendo: Fim do Mês, Fim do Mundo, Mesma Luta
Foi no dia 9 de julho de 2021 que os mais de 400 empregados da fábrica de semieixos da GKN receberam um email de despedimento. Inconformados, os trabalhadores organizaram a assembleia permanente que há mais de dois anos tem defendido as instalações da fábrica, em Campo Bisenzio, perto de Florença. Embora os despedimentos tenham sido justificados como consequência «natural» da transição verde, os ex-funcionários da GKN, além de quererem conservar os seus postos de trabalho, procuram colocar em prática, através da ação direta, uma visão alternativa da transição ecológica, que emerge da base e que prefigura uma reconversão socialmente justa da indústria da mobilidade.
A legislação italiana é particularmente favorável à aquisição de fábricas pelos trabalhadores – desde 1985 que a Lei Marcora permite aos funcionários de empresas em crise tomarem posse coletivamente e converterem-na em cooperativa. Conforme abordado no número 37 do Jornal MAPA (1), os ex-empregados da GKN, agora co-gestores do Collettivo di Fabbrica, desenvolveram uma estratégia de convergência com os movimentos pela justiça climática, materializada em quatro marchas nacionais e
centenas de iniciativas por toda a Itália. Desta conciliação entre lutas da classe trabalhadora e lutas ambientalistas resultou o slogan «Fim do Mês, Fim do Mundo, Mesma Luta». Simultaneamente, foi sendo formado o Grupo de Pesquisa de Solidariedade, através do qual jovens investigadores apoiam o Collettivo di Fabbrica num plano de reconversão industrial que visa colocar a ex-GKN na linha da frente da mobilidade sustentável (2).
Ano novo numa Fábrica Auto-Gerida
É 1h da manhã de 1 janeiro de 2024. Estamos a brindar diante dos portões da antiga GKN, em Campi Bisenzio, no meio de milhares de pessoas (5000 no pico e 7000 no total) que escolheram estar aqui nesta noite de fim de ano, que é simultaneamente um protesto, um concerto, uma barricada, uma vigília.
Cantamos a versão de Meganoidi da canção «Zeta Reeticoli», e seguimos o ritmo da bateria de Alessandro Tapinassi/Snupo's, que nos convida a começar o desfile atrás de uma faixa vermelha, onde se lê a palavra INSORGIAMO, em direção àquilo que esperávamos ser um NOVO ano e não apenas outro ano.
Acompanhando-nos até à meia noite, na estrutura do palco em frente ao portão de entrada da fábrica, estão as palavras do delegado de RSU, Dario Salvetti: «Avancemos e tomemos o futuro, paremos de viver num eterno presente sem perspetiva, tentemos vencer na GKN para sermos um exemplo contagioso para este país e para o resto da Europa». Diante dele, na companhia de trabalhadores, estão Adelmo Cervi, Luciana Castellina, Alessandro Barbero, Vauro e David Riondino e outros ativistas de vários grupos reivindicativos. Além dos seus discursos, presenciou-se a atuação de muitos artistas e grupos musicais, introduzidos por Nicola Borghesi e Enrico Baraldi, e da peça teatral «O Capital. Um livro que ainda não lemos», criada em colaboração com trabalhadores da antiga GKN.
Falaram sobre o futuro e sobre uma fábrica socialmente integrada que é capaz de criar convergências, de estimular a cultura e de participar em debates complexos sobre questões contemporâneas cruciais, tais como violência de género, Palestina, e muitas outras questões que devem permanecer centrais na vida de todas as pessoas. Tal «futuro» começou a tomar forma a 9 de julho de 2021, quando, após receberem um
email de despedimento, os trabalhadores e trabalhadoras da antiga GKN ocuparam a fábrica. Durante esses mais de 900 dias de permanente assembleia, a fábrica foi sendo avivada, cuidada e mantida por trabalhadores e trabalhadoras, pelas suas famílias e pelas chamadas «pessoas solidárias», que criaram um projeto de fábrica público e socialmente integrado. A luta conta com 4 processos por práticas antissindicais
vencidos pela Fiom CGIL, 100.000 pessoas envolvidas em várias demonstrações em convergência entre Campi, Florença, Bolonha e Nápoles, 2 greves territoriais gerais e 1 greve de categoria, 17.000 assinaturas recolhidas a favor da intervenção pública e de apoios sociais relacionados com a re-industrialização, 175.000 euros recolhidos em crowdfunding, a fundação da Società Operaria di Mutuo Soccorso (Sociedade Operária de Apoio Mútuo) e 527-000 euros de ações reservados para a participação popular.
A disputa pela GKN foi protagonista de 2 documentários, 2 livros, 1 peça de teatro; deu lugar a 5 concertos diante da fábrica e impulsionou o primeiro Festival de Literatura da Classe Trabalhadora. Os trabalhadores viajaram nacional e internacionalmente ao longo de um número incalculável de quilómetros, na Insorgiamo Tour, para contar a sua história, e organizaram-se inumeráveis guarnições e várias iniciativas de luta, incluindo eventos culturais de convergência, tais como nos dois dias do «Saremo coro», que juntou cerca de 20 coros de partisãs de toda a Itália (e não só) num dia de encontro, partilha e canto coral.
O coletivo da fábrica desempenhou ainda um papel central durante as inundações que submergiram Campi Bisenzio na noite de 2 de novembro de 2023. Perante esta situação de emergência, o coletivo da fábrica apresentou respostas concretas, não apenas funcionando com ponto de recolha e seleção de equipamentos e alimentos, mas também organizando equipas de voluntários para intervir nas áreas submersas, com base na experiência adquirida com as equipas de solidariedade enviadas durante
as inundações de Romanha, em Maio de 2023.
A mudança climática e a transição ecológica são temas centrais nos planos de re-industrialização propostos. Segundo Francesco Lorio, «estamos a desenvolver vários planos de re-industrialização com projetos paralelos, desde bicicletas de carga para permitir mobilidade sustentável para esses trabalhos que envolvem transporte e entregas, à promoção de painéis solares completamente alheios à indústria mineira
clássica». Dando-nos uma ideia concreta desta mudança, temos as palavras de trabalhadores como Massimo Cortini, conhecido pelos seus camaradas com «iBerva»: «juntei-me à GKN em ’98 e sempre trabalhei em três turnos: 6-14, 14-22 ou 22-6. Quando terminava o meu turno, desligava completamente, ia para casa com a minha família, desfrutava do meu tempo livre com vários passatempos, nem sabia o que era um centro social e não estava interessado em política. Desde 9 de julho de 2021 que o meu mundo deu uma reviravolta. O trabalho deixou de ser o último do meus problemas para se tornar o primeiro. Agora não tenho tempo livre, porque os meus pensamento, mesmo em casa, são todos dedicados à GKN».
Este percurso de crescimento pessoal e coletivo também é evidente no testemunho de Tiziana De Biasio: «esta convergência e luta interseccional permitiu-me recuperar a minha dignidade como mulher, mas também recuperar as minhas anteriores competências e tarefas. Dizer que numa fábrica só de homens não havia chauvinismo seria uma mentira, mas muitos camaradas cresceram ao longo da luta nesse aspeto e
isso é percetível até na sua forma de falar, na sua escolha de palavras. Isso graças à convergência cultural: o facto de tantas lutas terem dialogado tornou possível falar sobre questões que antes não era possível discutir».
Esta luta é uma questão de justiça social para o território, pois os trabalhadores assumiram os empregos de colegas que estão agora reformados e querem que isso se estenda aos seus filhos. Nas palavras de Mario Lacobeli, um dos trabalhadores mais jovens da GKN, «quando a notícia sobre as redundâncias saiu, eu e a minha companheira começámos a fazer planos, queria que ela também encontrasse um trabalho na esperança de garantir uma maior segurança a nível financeiro, de comprar uma casa e começar uma família. Entrámos cá em janeiro de 2021, a 3 de julho deram-lhe um contrato de aprendizagem e a 9 de julho despediram-me. Então apercebemo-nos que, se esperássemos pela oportunidade certa, acabaríamos por nunca ter um filho e, na verdade, talvez essa fosse a oportunidade certa para fazê-lo».
A disputa pela GKN é uma dessas ocasiões em que enfrentámos a dificuldade de manter unidas as dimensões absoluta e relativa de que as nossas vidas são feitas.
Porque, se a disputa pela GKN não conseguir derrotar as deslocalizações, os salários baixos e a precaridade aqui e agora, não seremos capazes de lidar com o que está a suceder pelo mundo fora.
Como nos disse Matteo Moretti, «tivemos a oportunidade de falar com uma grande parte da sociedade e fizemos bom uso disso, e não apenas para nós. Muitas pessoas que passaram por cá disseram que, graças à disputa pela GKN e ao que nós críamos, recuperaram a confiança e a coragem, mas acima de tudo recuperaram a vontade de lutar».
Perante a indiferença fascista, através da qual as aparentes democracias mantêm a classe trabalhadora subjugada, levando-a a ser completamente absorvida pelo modelo apolítico e consumista do eterno presente sem perspetiva, a disputa pela GKN mantém a coragem e força de ripostar com vontade de cuidar de um território, de uma fábrica e de uma comunidade. Um futuro diferente é possível e, em parte, já está presente, porque, se a GKN vencer, criará um precedente virtuosos capaz de alterar as dinâmicas
de poder para o benefício de todos.
Texto: Teresa Bruni
Fotografia: Martino Chiti, www.martinochiti.com
Martino Chiti é fotógrafo e designer de vídeo. Produz documentários e reportagens, colaborando com instituições e associações envolvidas em projetos sociais, educativos e de saúde. Trabalha em instalações virtuais para eventos, projetos de teatro e museus.
Teresa Bruni, investigadora no campo do diagnóstico aplicado à herança cultural, colabora com o arquivo 8mmezzo na recuperação, restauro, digitalização e arquivo de vídeos de famílias. Os seus interesses incluem questões sociais e de género.
(1) «Da sobreposição à convergência: Lutas dos trabalhadores e justiça climática na GKN», Jornal MAPA #37
(2) Introdução adaptada a partir do artigo «An Eco-Revolution of the Working Class? What We Can Learn from the Former GKN Factory in Italy», Berliner Gazette, 17 de Abril de 2023
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