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Lendo: Desporto popular contra o desporto do capital

Desporto popular contra o desporto do capital

Desporto popular contra o desporto do capital


A Associação Desportiva e Recreativa «O Relâmpago» celebra o seu primeiro aniversário a 1 de maio de 2022. Ao longo deste ano, promoveu diversas actividades desportivas que servem de mote para juntar pessoas e constituir uma comunidade que também é política.

O clube tinha começado informalmente em 2019 com jogos de futebol, mas foi no dia 1 de maio de 2021 que organizaram, na zona de Marvila, um pequeno convívio para celebrar a oficialização da associação «O Relâmpago». O local foi escolhido em homenagem a um antigo clube chamado «Relâmpago Futebol Clube», que aí foi fundado e que existiu entre 1932 e 1935.

Para Ana Reis, membro do novo Relâmpago, este convívio foi o momento de entrada no clube. Convidaram-na a integrar o grupo porque sabiam do seu gosto pelo associativismo, pela política, pelas iniciativas de bairro auto-organizadas. Neste momento, Ana dedica-se sobretudo à dinamização do futebol feminino.

Vasco Campos, também membro do clube, participou nas primeiras conversas que deram origem ao Relâmpago. A ideia de criar um clube politizado surgiu em conjunto com companheiros com quem jogava à bola. Segundo Vasco: «A primeira ponte eram conversas sobre um certo descontentamento que tínhamos com o estado do futebol e do desporto moderno. A brincar, estavamos sempre a dizer que o que faltava era fazermos nós próprios um clube. Ao início parecia sempre uma coisa muito difícil, ou que dava muito trabalho. A dificuldade era passar da ideia à ação e decidimos “então bora lá, se calhar é a altura certa para fazer isto”».

relampago

Começaram então por organizar jogos de futebol e, depois de oficializada a associação, alargaram o leque de actividades. Atualmente, também se dedicam ao ciclismo e ao atletismo, e organizam torneios de xadrez e de futebol de caricas.

Ana Reis conta que os jogos de futebol começaram a ser organizados todas as sextas-feiras na zona de São Vicente e que o local das partidas vai variando entre o Grupo Desportivo da Mouraria, o Clube Desportivo da Graça e o Centro de Cultura Popular de Santa Engrácia, onde decorreu a entrevista para o Jornal MAPA, a 4 de fevereiro de 2022. «No princípio eram só jogos mistos. E durante algum tempo eu era a única rapariga que estava a jogar. Havia um bocadinho a ideia de que, como o jogo dos rapazes é um bocado mais agressivo, mais disputado, muitas vezes as raparigas não gostavam de jogar com rapazes, preferem jogar entre si. Então decidimos pensar num momento só de jogo feminino.» A equipa feminina demorou a arrancar mas tem agora crescido todas as semanas. Neste momento coexistem os jogos mistos e os femininos, e a equipa feminina conta com uma treinadora e treinos regulares em Santa Engrácia.

No dia da entrevista do MAPA, tinham-se inscrito muitas equipas para jogar futebol. Entre elas, uma equipa de jovens com cerca de 12 e 13 anos, e uma equipa de pessoas refugiadas e requerentes de asilo.

A equipa de jovens do Ensino Básico veio pela mão de Marta Borges, que decidiu trazer o filho e mais cinco amigos para jogarem no Relâmpago. Marta conta que o filho tinha deixado de jogar futebol na escola, mas gostaria de continuar a jogar noutro contexto: «Ele estuda numa escola muito pouco multicultural, muito pouco multi tudo: são muito iguais uns aos outros. E eu gostava que ele tivesse uma experiência do associativismo, de jogar futebol de bairro, dos clubes fora dos clubes grandes e daquilo que eles significam.» Por isso, Marta tem trazido esta equipa aos jogos e faz claque a partir da bancada. Como trabalha como assistente social, já ofereceu o seu apoio, caso seja necessário ajudar alguém do clube.

O segundo grupo estava a jogar pela primeira vez, a convite de Vasco Campos. Consistia em jovens da Costa do Marfim e da Guiné Conacri, refugiados e requerentes de asilo. De acordo com Vasco, estas pessoas, para além de terem de enfrentar questões de habitação e de trabalho em Portugal, têm também alguma dificuldade em conhecer pessoas. Os jogos organizados pelo Relâmpago, um grupo também muito internacional e que gosta de conviver, podem ser um bom espaço de socialização.

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Ana Reis esclarece que a presença de refugiados e requerentes de asilo nos jogos não faz parte de nenhum programa oficial do clube: «Não há um projeto oficial, não há uma cena de “vamos ter uma equipa de refugiados ou de requerentes de asilo.” A ideia não é essa. A ideia é só esta malta que está próxima de alguns elementos daqui do Relâmpago virem para aqui como amigos, como as outras pessoas também têm aparecido. São amigos de amigos e vêm e pronto. Hoje é o primeiro dia que vêm e, se gostarem e quiserem, virão nas próximas vezes.»

Muitas vezes, durante os jogos, são colocadas nas bancadas faixas declaradamente políticas, com palavras de ordem sobre diversas causas. Uma das últimas declara «Futebol popular contra o futebol do capital» e inspirou o título deste artigo. No final do jogo, as pessoas presentes no campo reúnem-se junto à faixa para tirar uma fotografia, que depois é publicada nas redes sociais.

Sobre estas iniciativas do clube, Vasco Campos remata: «Agora que temos esta parte desportiva mais implantada, é voltar à essência do que nós queremos aqui: uma associação social, política, que simplesmente usa o desporto como canal.» Tal como nos conta Ana Reis, neste momento, uma das prioridades do clube é encontrar uma sede física. Por isso, em meados de março, lançaram o repto nas redes sociais: «o relâmpago precisa de casa» e pedem que, caso alguém saiba de algum espaço para alugar (até 500 euros), entre em contacto com o clube.

«Agora que temos esta parte desportiva mais implantada, é voltar à essência do que nós queremos aqui: uma associação social, política, que simplesmente usa o desporto como canal.»

 


Fotografias de Estelle Valente


Artigo publicado no JornalMapa, edição #34, Maio|Julho 2022.


Written by

Catarina Leal

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