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Lendo: Certificado Covid: ir além de um debate infrutífero

Certificado Covid: ir além de um debate infrutífero

Certificado Covid: ir além de um debate infrutífero


Mesmo que se considere que a vacina é útil, é possível estar contra o Passaporte Covid desde que se deseje viver numa sociedade que não deixa ninguém para trás.

De forma a podermos confrontar de forma ágil o que está em movimento, é necessário pôr de lado certezas e interpretações excessivamente estáticas e saber que, durante muito tempo, a estrada pode ser estreita e o caminho sinuoso e que nos veremos repetidamente confrontados com fenómenos que nos fazem sentir desconfortáveis, mas que nos desafiam a aguçar o nosso olhar e nos preparam para o futuro.

Com estas premissas em mente, entremos no debate em torno da questão do Passe Verde [Green Pass, ou Certificado Covid] com algumas notas dispersas e provisórias:

A questão do Green Pass vai além do assunto «vacinas sim, vacinas não»

Trata-se da forma como a nossa sociedade e os seus sistemas de poder estão a lidar com a crise pandémica e com a gestão da crise sanitária. Mais genericamente, o Green Pass é um exemplo das soluções tecnocráticas que o capital coloca aos seus próprios fracassos (a incapacidade de reconstruir uma narrativa comum de interesses; o paradoxo em que o individualismo pequeno-burguês se torna um bloqueio ao renascimento da criação de valor; a crise devastadora da reprodução social global). É evidente que o Passe Verde era apenas uma das opções possíveis para enfrentar esta fase da crise, e foi escolhido por duas razões: para tentar evitar lockdowns totais ou parciais devido a variantes que interrompessem ou abrandassem de novo a criação de valor, e para acelerar a campanha de vacinação, que tem avançado a um ritmo lento por várias razões (pela a ineficácia da narrativa mainstream, pelo o medo nada infundado – como vimos no caso da AstraZeneca – relativamente à falta de experimentação, e também por uma certa dose inegável de egoísmo social cada vez mais generalizado). Foi portanto decidido, a nível europeu, impôr autoritariamente o Passe Verde como uma solução tecno-política.

A vacina por si só não é a solução

Embora seja inegável que a campanha de vacinação deu frutos em termos de diminuição das mortes e admissões nos cuidados intensivos, é igualmente verdade que não foi de modo algum a solução definitiva para a pandemia, tal como foi inicialmente apresentada. Este fenómeno enfrenta dois problemas de escala. O primeiro, a um nível macro: uma campanha de vacinação totalmente eficaz e capaz de prevenir a mutação do vírus teria de ser global e muito rápida. Uma tal operação teria de envolver uma coordenação geral das governações individuais e, naturalmente, de uma – pelo menos parcial – redistribuição global de emergência dos recursos. É evidente que, na conjuntura actual, tal hipótese é impraticável para os capitalistas. Em segundo lugar, num plano micro, e a fim de ultrapassar esta limitação, teria sido necessária uma mobilização geral de recursos, capacidades e prevenção a nível territorial, a fim de evitar e de conter novos focos que invalidassem a campanha de vacinação. É por isso evidente que, uma vez mais, o capital, para evitar qualquer tipo de redistribuição, confiou numa solução técnico-científica que demonstrou toda a sua falácia e exacerbou ainda mais a situação sócio-económica. Assim, não é surpreendente que cada vez mais pessoas desconfiem mais ou menos explicitamente da capacidade dos Estados de emergir da crise.

A maioria daqueles que não se vacinaram não são necessariamente negacionistas ou anti-vacinas

O que prevalece são sobretudo os indecisos, aqueles que adiam a vacinação por medo, porque têm outras prioridades neste momento, porque querem compreender melhor o que está em jogo, porque não estão em áreas que foram particularmente afectadas até agora, ou porque há poucos serviços na sua área.

Nos Estados Unidos, paradoxalmente, a campanha de vacinação encontrou as maiores dificuldades precisamente nos distritos negros onde o número de mortes e infecções Covid foi mais elevado. Muitos estudiosos salientaram a correlação entre a revolta da Black Lives Matter e a pandemia, mas estas foram as áreas onde houve maior desconfiança em relação à vacina. Podem existir várias razões que devem ser analisadas e compreendidas, desde a ausência e atrasos nos serviços à desconfiança em relação a um sistema de saúde ineficaz e talvez racista com que se entra em contacto em certos territórios, outras necessidades mais urgentes, a tendência para o fatalismo, etc. Em Itália estamos também perante uma situação semelhante: as regiões com maior número de não vacinados são a Calábria e a Sicília, e se fossem feitas as mesmas estimativas sobre as cidades, provavelmente descobriríamos que os distritos populares seriam os que registavam a menor taxa de vacinação. Para não mencionar os migrantes, os sem-abrigo e todos aqueles que são excluídos ou têm acesso difícil ao sistema de saúde. Por conseguinte, é evidente que o Green Pass irá funcionar também como um sistema de exclusão social para sectores da população que já estão a passar pelas dificuldades da crise.

O Passe Verde não é certamente a solução

É verdade que uma parte dos indecisos, pela possibilidade de deixar de ter acesso a certos serviços, optou por quebrar o impasse e aceitar a vacina. Mas a polarização do discurso público a este nível pode levar a que muitos outros decidam não o fazer face à coerção do governo. Nesta altura, para além da óbvia exclusão social que estas pessoas irão enfrentar, um problema mais geral virá à luz. De facto, somos confrontados com o paradoxo de que os grupos etários menos vacinados são também os que estão mais em risco, e que aqueles que têm o Passe Verde podem tornar-se num vector silencioso de contágio para estas mesmas pessoas. O outro lado está bem ciente disto e decidiu que se trata de um risco aceitável. Puro darwinismo social na sua versão mais brutal.

É evidente que a forma como a discussão sobre esta questão está hoje a decorrer faz com que, do ponto de vista discursivo, se trate de um debate inteiramente dentro da esfera do capital. Trata-se do relançamento da criação de valor versus liberdades individuais. Neste momento, parece haver pouco espaço para um discurso diferente nesta polarização, mas continua a ser verdade que o Green Pass é uma medida excludente e tecnocrática e que é objectivamente necessário que qualquer pessoa que se considere anti-capitalista se lhe oponha. Além disso, mais uma vez, um olhar superficial sobre a composição das últimas manifestações contra o Passaporte Covid leva-nos a dizer que, pelo menos em parte, existem subjectividades no seu interior com as quais seria importante relacionarmo-nos a fim de construir caminhos de ruptura em relação ao existente.

Concluímos estas breves notas com uma série de perguntas, como um inquérito aberto sobre os fenómenos a que estamos a assistir:

O que está a acontecer é apenas o produto de um egoísmo social generalizado e de interesses económicos muito específicos, ou há mais?

As actuais agitações sociais situam-se num terreno institucional? De que forma?

É possível, pelo menos em parte, introduzir nestes movimentos temas e palavras de ordem que vão para além da oposição entre Vax e Não Vax e propor questionar a gestão de cima para baixo da crise?

Temos assistido a uma confusão contínua dentro do conhecimento tecno-científico. Podemos considerar que este campo está a sofrer uma re-politização progressiva. Como nos podemos inserir nestas brechas, à luz, entre outras coisas, das manifestações a que estamos a assistir, para imaginar uma recomposição que vá no sentido de afirmar a prioridade de uma vida digna sobre a produção e o consumo?

Pode-se ser contra o Green Pass, mesmo quando se acha que é correcto ou pelo menos útil tomar a vacina para o cuidado colectivo de todos, mas se quer viver numa sociedade que não deixa ninguém para trás.

É evidente que o espaço é estreito, como dissemos no início, e sê-lo-á durante muito tempo, mas não será a partir de certezas graníticas que reconstruiremos uma possibilidade de oposição de sentido antagónico em massa. É uma questão de confrontar humildemente, experimentar, colocar-se em jogo, manter certos pontos firmes, mas com a consciência de que é necessário sujar as mãos.

 


[tradução do texto Green Pass: andare oltre un dibattito infruttuoso] via https://www.infoaut.org/


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Jornal Mapa

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