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Lendo: O Maio de 68 dos Vagabundos do Trabalho

O Maio de 68 dos Vagabundos do Trabalho

O Maio de 68 dos Vagabundos do Trabalho


Entrevista a Claire Auzias. Autora de diversos trabalhos sobre  o povo cigano, publicou em 2017 a sua memória particular sobre o Maio de 68, contando a história dos trimards, o lumpen revolucionário cuja participação foi fundamental durante aquele ano agitado.

Filipe Nunes – O teu livro conta a história do Maio de 68 a partir de personagens inesperadas. Pelo menos ao olhar da história e memória oficial, mesmo aquela feita por soixante-huitards. Este era um livro em dívida por dois motivos: porque fora prometido aos seus participantes ser editado nesse final dos anos 60; e porque estes intervenientes permaneciam na sombra da memória. Quem são os trimards?

Claire Auzias Essas pessoas, os trimards, são trabalhadores precários que trabalham de forma intermitente, de tempos a tempos, em trabalhos frequentemente qualificados, como electricistas, metalúrgicos, talhantes, por exemplo. São jovens, com menos de 20 anos, raramente 25 anos. Não têm encargos sociais, família a sustentar ou rendas a pagar. Como tal, encontram-se muito livres nos seus movimentos. Não são sindicalizados e vivem geralmente na casa dos pais, por vezes em casas partilhadas. O que eles preferem acima de tudo é encontrarem-se na rua com os seus amigos para viverem a sua vida em comum. Em Lyon o seu ponto de encontro era sob a ponte La Feuillée. Lá, havia alguns vagabundos de verdade, mais velhos (50 anos) e normalmente de nacionalidades estrangeiras, e muitos trimards. Essa palavra é uma gíria do século XIX e que se refere ao homem pobre que se arrasta pelas estradas em busca de trabalho. O trimard é um vagabundo do trabalho. Inicialmente trimard significa na gíria a estrada, e trimardeur aquele que toma a estrada. Corresponde aos hoboes americanos. É um trabalhador urbano da era industrial, que vai de cidade em cidade à procura de trabalho. Em Lyon, os jovens que se chamavam entre eles de trimards iam de fábrica em fábrica, mas geralmente na mesma cidade. De uma maneira mais moderna, chamavam-se igualmente entre eles de beatnicks, o que quer dizer que gostavam dessa liberdade de viagem (mesmo que um pouco imaginada). Eles bebiam muito vinho e álcool, drogavam-se voluntariamente com a droga dos pobres, o éter sobretudo, e lutavam entre si com muita frequência. Tinham o culto viril da violência. Gostavam de se vestir com blusões de couro e usavam correntes de bicicleta. A imprensa da época apelidava-os de «blusões negros». Entravam em confronto entre gangues e lutavam de forma violenta. E gostavam também muito dos primeiros concertos de rock´n roll no início dos anos 60, em que ficavam furiosos e partiam as cadeiras da sala de concertos. Essa cultura dos trimards definia a vida que eles gostavam de viver. Havia algumas mulheres entre eles, também drogadas e alcoólicas com os rapazes e também violentas, mas o seu retrato é mais difícil de fazer porque falta documentação.

FN – Há nessa história uma relação que se estabelece entre os «violentos» e os que não ousam assumir essa conduta nos acontecimentos, salvaguardando-se do juízo do dia seguinte ou, crédula ou ingenuamente, proclamando que semelhantes acontecimentos podem decorrer à luz de um pacifismo. Sabendo à partida que este nunca tem lugar quando a revolta enfrenta e responde à violência institucionalizada. Como era gerida essa relação e a sua discussão em 68?

CA Em Maio de 1968 eu tinha 17 anos e era uma liceal. Juntei-me ao movimento do 22 de Março a título de liceal e organizamos a greve geral dos liceus da cidade sob o nome de «CAL, comité de acção dos liceus». Eu estava bastante envolvida e no centro dos acontecimentos, mas não no centro das decisões dos meus camaradas estudantes. Isso significa que não posso testemunhar os debates no centro de poder das decisões. Mas foi um dos nossos camaradas estudantes do movimento do 22 de Março que foi procurar esses trimards sob a ponte La Feuillée para os convidar a virem ocupar a universidade connosco. Porquê? Para lutar contra a polícia. No seu testemunho posterior em 1970, os trimards confirmaram esse facto. Mas o que eu posso dizer é que o desafio de os receber na faculdade ocupada causou muitos problemas a todos. A grande maioria dos ocupantes queria livrar-se deles, fazê-los sair. Porque eles metiam medo a toda a gente, pareciam selvagens, estavam sempre bêbados, drogados ou ambos, eram barulhentos, violentos e davam muito espectáculo. Partiam o mobiliário da universidade com facilidade, eram musculados e falavam alto. Para os ocupantes respeitáveis da universidade, o seu desafio era corporativista. Eles pensavam que a universidade deveria albergar unicamente as pessoas que trabalhavam na universidade, professores e estudantes. Mas os revolucionários e sobretudo o movimento do 22 de Março (ex-anarquistas, pro-situacionistas e ex-trotskistas) pensavam o contrário e que todas as forças revolucionárias podiam instalar-se na faculdade, que seria assim um centro da acção e das decisões das actividades revolucionárias. É por isso que não havia na faculdade apenas estudantes universitários, mas também pessoas que não o eram: liceais como eu, trabalhadores membros de grupos revolucionários e os trimards. Além disso, durante o dia, vinham visitantes de todo o lado, das fábricas sobretudo, que vinham participar nos ateliês de debates e de decisões. Daí que uma das grandes querelas que se jogou no interior da ocupação da faculdade foi: como expulsar os trimards da faculdade para a maioria, e como manter os trimards no seio da faculdade para a nossa minoria. Éramos muito poucos a defender os trimards no seu direito de insurgentes de corpo inteiro e tínhamos de enfrentar para isso o conjunto de forças mobilizadas à nossa volta, ou seja o sindicato estudantil, o sindicato dos professores,e os grupúsculos esquerdistas. Cada um pensava seja numa acção corporativista e reformista, seja que detinham o direito da vanguarda revolucionária de modo a decidir quem faz o quê, quando e como.

FN – A história que está na origem do livro – barricadas e enfrentamentos com a polícia que veio anunciar ter resultado na morte de um polícia e na acusação de três trimards, para depois ser provado que essa morte não passou de um ataque cardíaco – leva-nos a outra das constatações mais evidentes. A de que perante qualquer revolta de grandes proporções, não é a repressão policial violenta que mais importa ao Estado, mas a manipulação mediática que importa fabricar.

CA – Rapidamente compreendemos que os nossos camaradas trimards eram bodes expiatórios fáceis para o governo. Assim que nos apercebemos que eles estavam presos, acusados da morte de um comissário de polícia durante a noite de barricadas em Lyon, rapidamente tomámos a decisão de os defender. Ora a defesa principal consistia em dar a conhecer a sua detenção e dar a conhecer a sua inocência. Era impossível condenar três pessoas por um motim urbano inteiro. Todos participámos nesse motim e, se havia um responsável, era o motim colectivo. O essencial do trabalho consistia em demonstrar que os jornais e os media estavam a contar coisas falsas sobre eles ou que os media não diziam nada da realidade. Foi um longo trabalho a lutar contra a imprensa oficial e mesmo a imprensa de esquerda, e por fim alargar a questão do seu julgamento a um nível nacional. A extrema-direita policial queria culpados e vingar-se. Nós ganhámos essa batalha e os nossos camaradas trimards foram absolvidos e libertados.
O segundo argumento contra os trimards era que eles eram presos comuns e não presos políticos, oficialmente. O nosso comité de apoio dizia o contrário: mesmo que os trimards sejam pessoas vulneráveis, frágeis, com pouca educação e que poderiam ser facilmente manipuláveis, nós vincámos a ideia de que eles tinham sido acusados por um facto muito político: as barricadas do Maio de 68 e, como tal, haveria que atender à sua situação. E eu acrescentaria que nós quisemos apoiá-los precisamente porque eles estavam privados de toda a protecção militante normal. Era uma questão de honra colectiva para todos nós, os soixante-huitards, de estender a solidariedade a pessoas como eles. Eles tinham combatido connosco, eles tinham vivido connosco na faculdade durante um mês de insurreição, estávamos ligados pelo acontecimento revolucionário e nós tivémos que continuar o caminho com eles na repressão.

Raton
Cartaz de apoio a Raton e Munch, dois jovens trimards, que foram acusados da morte de um comissario da policia durante os distrubios em Lyon. Acabaram por ser absolvidos.

FN – Mas não haverá lugar a um certo refreio ao elogio marginal do trimard? Tal, ontem e hoje, não nos coloca perante uma incómoda linha entre o defensável e o indefensável? Entre a partilha da linha da frente da revolta e do enfrentamento nas ruas e os preceitos éticos de quem se lança nesses enfrentamentos, não se escusando eles mesmos de condutas em si mesmo autoritárias e condenáveis?

CA – A linha que separa aquilo que é defensável daquilo que não é defensável, no Maio de 68 com os trimards, é a que separa os leninistas e os outros, isto é os anti-autoritários. Os leninistas consideravam os trimards como o proletariado Lumpen que havia que desterrar. Os anti-autoritários, anarquistas e marxistas conselhistas consideravam pelo contrário que esses proletários Lumpen eram nossos camaradas e que partilhávamos as mesmas lutas. Mas se eu me recuso a fazer um elogio massivo dos trimards é por outra razão. É porque os trimards eram pessoas reais, com muitos problemas de coexistência connosco. Estavam sempre bêbados, ou drogados ou as duas coisas, muito enervados, muito excitados, com muito espectáculo e muito violentos, repito-o. Eu fiz parte das pessoas que mantiveram contactos com os trimards depois do Maio de 68. Eles vinham às nossas casas, às nossas residências de estudantes; dormiam por lá alguns dias, ou mais. E há que dizer a verdade: os trimards eram pessoas psicologicamente danificadas, que tinham vivido vidas muito duras, com muita violência familiar, por vezes a dormir na rua. E viver com eles é difícil. Isso não pode ser negado. Eles não eram nenhuns anjos e eles não são nenhuma nova figura messiânica. Nós não somos padres, não temos responsabilidades sobre almas malditas e queremos combater juntos as opressões comuns e gerais, não fazer caridade. Eu gostaria por isso de sublinhar que abordarmos os trimards exige uma lucidez sem mentiras, pois poderemos deparar-nos com situações difíceis que teremos de enfrentar. A acção é evidentemente o espaço ideal para estabelecer uma causa comum com eles, mas poderão criar-se situações em que há que dizer: não, em nome da igualdade e do respeito aos próprios trimards.

Foto de Mediapart


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Filipe Nunes

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