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Lendo: O que queremos dizer com “mudar o sistema, não o clima”?

O que queremos dizer com “mudar o sistema, não o clima”?

O que queremos dizer com “mudar o sistema, não o clima”?


      1. Das alterações climáticas à justiça climática

cc1Os movimentos sociais que prepararam as mobilizações durante a COP-21 (Paris, Dezembro 2015) foram bastante bem sucedidos na tentativa de transformar a justiça climática numa exigência dominante, expressa até pelas grandes organizações ambientais (“big greens”). À partida isto poderia parecer um grande salto desde a Conferência de Copenhaga (em que as manifestações simplesmente pediram aos líderes do mundo para salvar o planeta enquanto que “mudança do sistema, não do clima” foi uma voz minoritária) mas foi antes o resultado de uma longa luta dentro do movimento climático, tendo o lema da Cimeira do Povo em Lima (Peru), na COP-20, sido já “Mudar o sistema, não o clima”.

Eu sei que pode ser chato ver um slogan tornar-se mainstream e perder assim parte essencial do seu significado, mas temos que perceber que é isso o que significa ganhar.

Portanto, sim, é verdade que muitas ONGs usam agora o termo “justiça climática”, mas apenas como um substituto para alterações climáticas. E, sim, algumas grandes organizações ambientais usam “mudança de sistema” para falar sobre mudanças nos sistemas de produção de energia – ou seja, uma mudança dos combustíveis fósseis para os renováveis, sem perturbar o sistema socioeconómico subjacente. Mas não, isto não é prova de que estamos a perder terreno em termos ideológicos. Muito pelo contrário, isto somos nós a ganhar.

Da mesma forma, os políticos irão parar projetos de extração, pagar a dívida ecológica ao Sul Global, e ceder à democracia energética. Os políticos que irão “liderar” estas mudanças muito provavelmente não vão ser novas pessoas mas os mesmos que estiveram nas salas de negociação em Paris. Eles tentarão imitar a nossa linguagem, desviar a atenção do nosso movimento para a sua “liderança” e legitimar o seu papel político com o pretexto da justiça climática. E serão parcialmente bem sucedidos em tudo isso.

Ou isso, ou então iremos assistir a uma série de revoluções a nível mundial nos próximos dez anos.

Em qualquer caso, vamos tornar-nos mainstream. É assim que se muda o mundo.

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      1. Das alterações climáticas à mudança de sistema

Penso que é uma boa altura para lançarmos uma discussão mais profunda sobre mudança do sistema – não só no movimento climático em geral mas também dentro dos movimentos pela justiça climática.

Para a maioria de nós que ocupou a Wall Street e demarcou Linhas Vermelhas em Paris, mudança do sistema implica mudar o sistema capitalista, uma estrutura socioeconómica obcecada pelo crescimento, orientada pelo lucro, a mando do poder monetário. Podemos ter grandes ou pequenos desacordos sobre o que vai substituir o capitalismo, mas em geral concordamos que o capitalismo (e a sua superstrutura cultural) é a causa principal da crise climática.

Não podemos é (como alguns dos “big greens” fazem, usando o termo “mudança do sistema” para se referir a qualquer mudança sistemática) assumir que tudo o que consideramos mau faça parte da definição de capitalismo. Temos que falar do problema abertamente.

No seu essencial, o capitalismo significa uma sociedade baseada na propriedade privada dos meios de produção e em que, por isso, existem duas classes antagónicas (burguesia e classe operária). Podemos dizer muitas mais coisas sobre o capitalismo, mas esta é a base.

Isto significa que uma luta pela justiça climática com o lema “Muda o sistema, não o clima” tem que ter uma dimensão forte da classe trabalhadora. E não estou a falar apenas d@s trabalhador@s a aparecerem numa marcha pelo clima. Estou a falar d@s trabalhador@s a participarem na luta pela justiça climática como trabalhadores.

cc3Um passo crucial nesta direção é a Campanha Global pelos Empregos Climáticos, que luta por novos empregos públicos para reduzir as emissões de gases de efeito da estufa. Por exemplo, empregos em energia solar e eólica, empregos no transporte público, empregos na insulação dos edifícios, na proteção e expansão das nossas florestas.

Trabalhadores a lutarem para construir um planeta justo e habitável representam o caminho para a mudança de sistema. E é este reconhecimento que vai ser a base para uma intensificação dum movimento de massas pela justiça climática de que precisamos urgentemente.

Para participar na campanha em Portugal: climaximo.wordpress.com

Para saber mais sobre a campanha internacional: globalclimatejobs.wordpress.com

Nota: A segunda parte essencial da definição do capitalismo, da propriedade privada, implica que esta luta tem que ter uma dimensão forte de soberania energética: A indústria energética deve ser pública, gerida pelas comunidades – incluindo a população local que está mais afectada pela indústria – e pelos trabalhadores. Na era da austeridade, a campanha pelos empregos climáticos ao exigir centenas milhares empregos públicos está no caminho certo.

Texto de: Sinan Eden

A rubrica “Mapa do Leitor” é um espaço de opinião da responsabilidade dos seus autores, não expressando necessariamente, e por esse motivo, o posicionamento do colectivo redatorial do jornal MAPA.


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