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Lendo: Um MAPA deve estar sempre à mão

Um MAPA deve estar sempre à mão

Um MAPA deve estar sempre à mão


Partir de um ponto para chegar a outro. Parar. Continuar caminho para outro ponto e partir novamente para chegar a outro ponto. Na vida, como nas viagens, é o que liga as coisas que nos faz continuar o movimento. Os mapas podem-se desenhar assim: descobrindo linhas e percursos, fazendo ligações entre pontos, ultrapassando os limites do papel, marcando notas e referências, fazendo ligações e transmitindo informações. Em suma, comunicando. O que faz a cartografia interessante é a possibilidade de mapear coisas que estão para lá da geografia e do território e, por isso, quando se desenha um mapa, esperamos encontrar outro mapa e outro mapa e…

 Observar o terreno

 A democracia em Portugal deixou cair a sua aparência de estabilidade, liberdade e direitos garantidos à medida que uma crise de natureza económica e social ganha terreno no nosso dia-a-dia. A esperança que possa ser trazida pelas acções que muitos têm tomado ao ar livre para a confrontar não nos deve desviar olhar dos sinais quotidianos. Que continuam a ser a austeridade e a força musculada de um Estado, de um governo e de uma organização social  que partem, sem qualquer tipo de reticência, para a aprovação de leis mais rígidas, cortes salariais e despedimentos, aumentando o preço de tudo o que puder e colocando polícias armados até aos dentes em cada esquina. Sinais de que a sociedade falhou na sua capacidade de se manter de pé e continuar a prometer a paz, o pão, a saúde, habitação e a educação. Se existia, ainda, uma crença na capacidade dos políticos de todas as cores e dos parceiros sociais em solucionar os nossos problemas mais concretos, esta começa a ser seriamente posta em causa, uma vez que é difícil confiar em quem nos oferece miséria. As longas explicações de técnicos e políticos em conferências de imprensa e os números por estes vomitados em relatórios forjados não lhes dão mais legitimidade. Parece até que estão a gozar, a fazer troça e que isso lhes dá um certo prazer.

Só quando percebemos que as medidas e transformações a que assistimos não são apenas de natureza económica nem apenas por causa da crise é que percebemos que é o modelo económico, social e cultural a que chamamos capitalismo que se está a transformar e a renovar para que se possa manter durante muito mais tempo. De facto, não é só a fruta que fica mais cara mas também o seu sabor que fica menos apurado, não é só o trabalho que escasseia mas aquele que ainda está disponível mais se parece com escravatura, não é apenas o preço do combustível que aumenta a cada dia mas é também o petróleo que escasseia nas reservas geológicas. O grande processo de auto-cura que a sociedade, em Portugal e no mundo, parece estar a atravessar vai resultar numa outra coisa. Vai dar lugar a uma sociedade que, funcionando de uma forma muito mais eficiente, lucra da mesma maneira com a nossa necessidade de comer e respirar. É, portanto, esse o modelo que desenvolve «novas dinâmicas» de mercado para vender o que resta da pouca fruta de baixa qualidade, que encontra formas mais democráticas de se ser escravo e vai gerir, a partir de avançados modelos, os recursos que ainda se encontram disponíveis.

É o desenvolvimento da nossa capacidade de duvidar e agir que pode abrir possibilidades para desafiar o controlo que o Estado, os bancos ou as grandes empresas têm sobre o nosso pão, a nossa saúde, a nossa habitação, a nossa educação e a nossa informação. São as acções que tomamos que podem fazer com que o ar que respiramos e a comida que comemos não sejam coisas para vender. Mas existem várias formas para essas acções e resistir e confrontar a violência do capitalismo é tão importante como inventar formas de nos libertarmos dele.

É por isso que bloquear os acessos a uma fábrica durante uma greve por mais salários é tão importante como colher vegetais de hortas comunitárias. É por isso que a mensagem contida num incêndio de um pórtico de autoestrada num contexto de luta contra as SCUT é tão importante como a ocupação de uma escola abandonada num Bairro. E é por tudo isso que comunicar é tão importante.

Olhar para o papel

Se existem , em Portugal, quase 3000 publicações periódicas porquê colocar mais um jornal em circulação? A resposta está contida não na quantidade mas no tipo e na qualidade dos jornais de massas e canais de informação que se avistam no terreno. O seu principal objectivo não é a informação ou a educação mas sim a criação de uma cultura de medo e a fabricação de opiniões.
O processo é simples na descrição, complexo nas consequências. A partir da divulgação de notícias e informações espectaculares, exageradas e, em muitos casos, a divulgação de mentiras, os vários meios de informação desejam criar o medo de certos sujeitos (grupos sociais, fenómenos e pessoas). Num primeiro momento, abrem o caminho para que deixemos de pensar e passemos a ter todos a mesma opinião, a mesma visão sobre os mesmos assuntos e, inevitavelmente, cheguemos às mesmas conclusões. Noutras alturas, a divulgação de notícias e informações cumpre um objectivo determinado, ou seja, está subordinada aos interesses políticos e económicos do canal informativo ou do jornal onde é publicada. Bastaria, para tanto, notar que os grandes jornais, televisões e agências de noticias não só pertencem a grandes e conhecidos grupos económicos como são a expressão dos partidos políticos das suas áreas de influência, de juízes e polícias. Descrever esta dinâmica é impossível no espaço de duas páginas mas necessário ao longo do mapa. É mais importante ter consciência de que o pensamento livre e crítico, natural dos seres humanos, parece ser um tremendo inimigo das agências de notícias, dos jornais sensacionalistas, dos panfletos publicitários e dos grandes opinion makers da nossa praça.

 

Marcar pontos e traçar linhas

As 16 páginas que aqui estão foram pensadas enquanto projecto de comunicação. Sob a forma de jornal, publicam-se e difundem-se notícias, reportagens, entrevistas, análises, fotografias e ilustrações que sejam um contributo para ultrapassar o tal sistema económico e social baseado no dinheiro, no poder, na dominação e na exploração. Em suma, tratam-se elementos para a acção e o pensamento crítico.

Para isso, pratica-se a denuncia nas suas páginas. A partir do desenvolvimento de um espaço de informação que contenha as notícias da actualidade local escondida, os episódios perdidos, as versões censuradas e as correspondências não publicadas põem-se a nu os crimes e as contradições da actualidade.

Essas contradições estão contidas nas ocupações e nos incêndios referidos em cima mas também em inúmeras outras situações, lutas e projectos. Estão nas assembleias populares, no bloqueio dos portos pelos trabalhadores da estiva, nas denúncias que reclusos fazem contra o sistema prisional e nos insultos que recebem os políticos onde quer que tenham a vergonha de aparecer. Também aqui precisamos de um mapa.

Para além disso trata-se de traçar linhas, fazer ligações e apontar o que há de comum entre pontos aparentemente desconexos. A possibilidade de comunicação parece surgir de um balancear entre o que potenciamos e o que denunciamos.

Assim, um MAPA pode ser muita coisa: uma ferramenta, um meio de informação, um projecto de comunicação e, finalmente, um jornal.

Desenhar mapas

Este é o número inaugural. É, em muitos aspectos, experimental e tem como objectivo dar-se a conhecer para extrair dos seus leitores reacções e comentários que se transformem em combustível para a viajem que queremos fazer ao longo do MAPA.
O jornalismo que queremos praticar não é uma tarefa de profissionais e as fontes que consideramos são várias e diversas. Dos blogues locais às redes sociais, das entrevistas a desconhecidos na rua às declarações «sacadas» da Internet, das investigações no terreno às conversas com «especialistas» tudo são possibilidades para a informação crítica. Todos somos jornalistas quando escrevemos sobre uma situação no nosso bairro, fotografamos a nossa rua ou informamos sobre uma luta a ter lugar na nossa cidade.

Para além disto, a experiência diz-nos que a comunicação admite formas que ultrapassam a palavra, o texto, a imagem e o próprio meio em que a desenvolvemos. A comunicação surge em vários formatos e é impossível abranger ou sequer pensar que se consegue abranger a comunicação no seu todo. Uma mensagem escrita numa parede pode conter mais informação importante que um artigo publicado num jornal. Um rol de acontecimentos a terem lugar a uma rapidez cada vez maior fazem da prática jornalística e da actividade informativa um desafio. Da mesma forma, uma complexa rede de relações na sociedade leva-nos a não assumir, nem a isso nos propormos, o relato e cobertura total dos assuntos que abordamos. Teremos, sem dúvida, uma visão, uma interpretação e uma forma de olhar, mas não teremos, de forma alguma, a verdade. A nossa única verdade é a preferência que temos pelos gritos na rua em detrimento das palavras dos gabinetes, as rádios e os jornais locais em vez dos canais centrais da informação, as letras das músicas em vez dos pareceres dos analistas e a escrita a partir do terreno em vez de ficar só a olhar.

Para além disto o MAPA sai para as ruas em papel e estamos conscientes dos limites, mas também das possibilidades, de um jornal impresso em Portugal, no séc XXI. Possui tempo médio de vida e prazo de validade, pode vir rasgado ou sem cor mas pode ser lido em qualquer lado. É, aliás, por isso que é em papel antes de ser uma página na Internet. Para ser lido no autocarro e no café, na biblioteca e na sala de espera, para ser levado para a rua e partilhado entre todos. Bem enrolado pode servir de megafone, bem dobrado podem-se fazer aviões com as suas páginas para chegar a outras latitudes mas, em todos os casos, um MAPA deve estar sempre à mão.

 

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4 People Replies to “Um MAPA deve estar sempre à mão”

  1. Olá a todos os que me leem.
    O nº 1 do Mapa está sem duvida, muito interessante. Tal como um verdadeiro jornal,que se preze, necessita de uma leitura atenta e cuidada. Uma verdadeira Tocha. É continuar
    e que não vos falte alento. Abraços de um leitor agradecido.

  2. obrigado pela esta iniciativa e pela energia que aqui estao a por! o primeiro mapa tem data de informacao muito boa, parabens. como escrevem, ha que mapear as lutas como as alternativas: nao falta quem faca coisas diferentes e inspiradoras e nao tenha voz nos media comerciais. talvez uma versao pdf facil de imprimir ajudasse a distribuicao? um abraco e forca ai!