Categoria: Transumanismo

  • Transumano Mon Amour

    Transumano Mon Amour

    Andrea Mazzola tem colaborado com o jornal Mapa com a sua rubrica «Transumano Mon Amour», cujos textos foram reunidos em dois volumes, o último dos quais recém-editado também com o selo Mapa. Neste segundo volume, Mazzola fala-nos de diferentes questões como a tecnologia, a cibernética, a extrema-direita, o Antropoceno, o controlo dos corpos, a migração ou, como não podia deixar de ser, a gestão da pandemia coronavírus.

    No segundo volume de Transumano Mon Amour, a questão da tecnologia e dos novos mecanismos de controlo cibernéticos marcam presença, muito no seguimento dos temas abordados no primeiro volume, mas também se abre a porta a questões ecologistas e humanitárias, com textos de reflexão sobre o Antropoceno, o arame farpado ou as rotas sangrentas da migração para Europa. Como relacionas essas temáticas com aquilo que defines como transumanismo, ou H+?

    Achille Mbembe fala muito do malthusianismo 2.0, e podemos dialogar com ele descrevendo o H+ como um projecto político para enfrentar o apocalipse em acção: dirigir a evolução, criando artefactos vivos, novas espécies etc., engenhando humanos, outros seres e o meio ambiente. O devir-negro do mundo é um devir-objectos técnicos, um devir-cobaias. Enquanto o planeta morre, nos laboratórios nascem novas companheiras de viagem para o nosso caminho coevolutivo. Ou seja, estamos a assistir à expropriação e acumulação originária das funções biológicas do planeta mediante o dispositivo das patentes e das práticas laboratoriais. Das sementes e animais ao trabalho clínico de quem vive uma gravidez contratada ou aceita experimentar fármacos potencialmente mortíferos para poder sobreviver no dia-a-dia… Há uma relação dos milhares de mulheres linchadas ou queimadas, na actual caça às bruxas de que nos fala Silvia Federici, com os programas do Banco Mundial… bem como com o financiamento da Europa a militares mercenários que, com as suas armas, obrigam as pessoas a fugir das suas terras. Privadas de sustento, as pessoas tentam migrar. Mas é a vida nua, ao nível molecular, a nova «classe» explorada pela direita patronal e os quadros dirigentes. Os estudos de Melinda Cooper são imprescindíveis a esse propósito. Sendo contudo a visão de Mbembe, que fala de fusão entre capitalismo e animismo, a abordagem antropológica polimorfa que melhor nos permite afinar a nossa sensibilidade além da (justificada) atenção com as questões económicas.

    a infodemia tinha começado antes da Covid-19, mas a chegada desta parece ter criado as condições para um golpe de estado infomilitar

    Alguns textos focam bastante o espectro político italiano, mais concretamente a ascensão da extrema-direita, na figura de Salvini, e as relações que tem com uma potência política como a Rússia. É abordada também a forma como a extrema-direita tem conseguido chegar às pessoas através das redes sociais, fazendo uso daquilo a que normalmente chamamos fake news ou teorias da conspiração, também com a ajuda de empresas de análise de dados e de hackers. Como analisas essa ingerência russa na política nacional de outros países, como ficou patente no caso da eleição de Trump em 2016?

    Platão foi o primeiro tecnólogo, o primeiro cibernauta e o primeiro totalitário: os indivíduos são os objectos da técnica política. O totalitarismo 2.0 – de Silicon Valley à fábrica de trolls de São Petersburgo – é platónico. Os marxistas de direita russos ou os anarcocapitalistas californianos são neoplatónicos. Assistimos a um fenómeno de convergência, no qual as actuações do Partido Comunista Chinês ou as do mercado livre vão dar aos mesmos efeitos: o tecnofeudalismo de que nos fala Cédric Durand. Dialogando a esse propósito com Shoshana Zuboff, aprendemos como o mundo digital transformou o planeta inteiro num laboratório de condicionamento operante do comportamento – vivemos numa Planetary Skinner Box. Somos todas tratadas como cobaias, manipuladas ao nível molecular das nossas sinapses e emoções. O que Naomi Klein chamou de Screen New Deal é a expressão mais nitidamente política da Nova Internacional Fascista: a infodemia tinha começado antes da Covid-19, mas a chegada desta parece ter criado as condições para um golpe de estado infomilitar. Um apelo à acção direta – internacional – foi-nos dirigido por Ece Temelkuram, ou por Silvia Federici, já antes do começo da «emergência sanitária».

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    Ilustração de Tidi.

    Sugeres, então, que as medidas postas em prática a nível global para enfrentar a crise pandémica não resultam tanto de considerações sanitárias, mas mais de uma agenda política?

    Sim… Tal como Mathieu Rigouste nos mostra que a arabofobia é um artefacto cultural cunhado pelos estrategas militares coloniais franceses como arma de guerra psicológica, também o vírus pode ter sido instrumentalizado e ter-se tornado o inimigo interior. Antes de começar a emergência, reflectimos sobre o pan-óptico digital como antecâmara do Tribunal da Inquisição Digital. Hoje em dia, a preocupação deve deixar lugar para um alerta de máxima urgência. Não há mais espaço, nem tempo. E as chances não parecem ser muitas.

     


    Texto de Pedro Morais


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #33, Fevereiro|Abril 2022.

  • Notas sobre a Biopolítica H+

    Notas sobre a Biopolítica H+

    Parte I

    O delírio do capitalismo contemporâneo, segundo defendo, está intimamente e essencialmente
    relacionado com os limites da vida na Terra e a regeneração de futuros vivos – para além dos limites.
    Melinda Cooper, Life as Surplus (A Vida como Excedente)

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    O dia 13 de Novembro de 2017 foi uma data de importância histórica. Nesse dia consumou-se mais uma revolução – e mais uma vez não foi nas ruas, mas em laboratórios. Numa clínica californiana foi experimentada pela primeira vez num ser humano uma inovadora técnica terapêutica, a “edição genética” (gene-editing), baseada na manipulação do chamado CRISPR-Cas system. Esta técnica, também conhecida como gene drive (drive de genes), foi já utilizada para modificar 62 genes de uma só vez, intervindo nas bases (C,T,G,A) que os constituem. Na verdade, o que se costuma referir simplesmente como CRISPR é um amplo conjunto de técnicas de engenharia genética que exploram o funcionamento natural das bactérias e que em poucos anos proliferou em numerosas subespécies sempre mais aperfeiçoadas. Importa ainda referir que já foi aplicada na China, nos EUA e no Reino Unido para modificar bases genéticas em embriões humanos, além de ser comummente utilizada na indústria alimentar e na produção de biocombustíveis.[ref]https://en.wikipedia.org/wiki/CRISPR[/ref]

    Devido às suas potencialidades terapêuticas e aplicativas, ao seu baixo custo e à sua relativa facilidade de realização, que, segundo um relatório do Nuffield Council on Bioethics, a tornariam acessível aos amantes do Do It Yourself, podendo-se montar um laboratório numa garagem, e devido à celeridade do seu funcionamento e à incerteza a respeito das suas imprevisíveis consequências nos ecossistemas, desatou esperanças, receios e disputas em todos os sectores da sociedade: na ciência, na indústria, na finança, nos governos, nas ONG… No respeitante a patentes de propriedade intelectual a situação é uma encrenca e, apesar de a Universidade da Califórnia e o Broad Institute serem os principais contendentes, muitos outros actores, públicos e privados, reivindicam direitos de exclusividade.

    O nome CRISPR refere-se à organização das repetições das sequências de ADN encontrada nos genomas de bactérias e outros microrganismos. Com efeito, as sequências CRISPR são um componente crucial dos sistemas imunológicos dessas formas de vida: quando uma infecção viral ameaça uma célula bacteriana, o sistema imunitário CRISPR pode frustrar o ataque destruindo o genoma do vírus invasor.[ref] https://goo.gl/kzaOA2[/ref] Dar-se-ia ainda uma imunidade genética adquirida, transmissível quer à descendência quer horizontalmente, entre bactérias de tipos diferentes, e mediante as bactérias, plausivelmente até entre espécies biológicas distintas. A descoberta deste funcionamento biológico vai de facto aumentar a casuística dos fenómenos co-evolutivos, em que as interacções entre o ambiente e um indivíduo, sobretudo nos micróbios, levam a alterações genéticas hereditárias. Mais adiante iremos deter-nos na transformação, iniciada nos anos 70, do paradigma conceptual da biologia e da teoria evolutiva, a partir da qual muitos estudiosos contemporâneos passaram a reabilitar as ideias originais do lamarckismo. Focar-nos-emos ainda na relação entre este âmbito dos saberes e as políticas jurídicas, financeiras e militares dos EUA. A brilhante obra da socióloga Melinda Cooper, Life as Surplus. Biotechnology and Capitalism in the Neoliberal Era, servir-nos-á de guião para analisar a filosofia da economia política do neoliberalismo contemporâneo e a sua relação com a biopolítica tecnocientífica do H+.

    Muitas metáforas foram e são utilizadas pelo sensacionalismo jornalístico ao falar desta inovação tecnocientífica, como a de “cirurgia genética”. Porém, o irreversível “cortar-colar” não parece mais ser uma imagem exaustiva, pois as novas variantes desenvolvidas seriam mais adequadamente representáveis como “corretores automáticos de erros de digitação” (no base-editing), ou como a função “encontra-e-substitui” do programa Word, sendo até possível modificar as características físicas de um organismo sem modificar o ADN (no epigenetic editing – um tipo de modificação reversível). No primeiro caso, o “lápis e borracha” que corrige os “erros” genéticos é uma função enzimática (desaminase); no outro, a proteína programável, que é o motor da maquinaria molecular CRISPR (chamada Cas9 – membro de uma numerosa família de proteínas Cas), é embalada num vírus, enquanto noutro vírus é inserida a “bússola”, para trazê-la ao seu destino (ARN-guia), juntamente com uma espécie de “aplicação” para modificações epigenéticas (ativador da transcrição).

    O resultado é que, em vez da versão do CRISPR que actua cortando irreversivelmente o ADN, obtemos uma variante equipada para facilitar o acesso da maquinaria de transcrição celular aos genes alvo de interesse, ativando-os se estiverem não-expressos ou fazendo-os expressar de forma aumentada se forem moderadamente ativos. Embora dezenas de milhares de variações genéticas humanas sejam associadas a doenças, muitas das quais envolvem múltiplas variações concomitantes, uma grande proporção também surge como resultado de apenas um “erro ortográfico” genético – conhecido como “mutação pontual”. Por isso, nos casos em que uma doença genética aparece ser devida a mutações em que um único par de bases foi substituído por outro, esses novos métodos de edição poderiam, segundo a comunidade científica, permitir corrigir a causa de muita delas – realizando alterações hereditárias ou não. As “gralhas” presentes no livro da vida seriam eliminadas da evolução, finalmente “dirigida” pelos demiúrgicos artífices da “segunda criação”.

    É impossível não nos recordarmos, perante este imaginário metafórico da biologia sintética, do revisor Raimundo Silva que, na História do Cerco de Lisboa, de José Saramago, ao acrescentar a palavra “não” na frase que afirmava que os cruzados tinham ajudado o rei Afonso Henriques na sua acção de reconquista, mudou a história…
    Com efeito, foi já em 1974 que Michel Foucault, na primeira de três conferências sobre medicina social lecionadas no Instituto de Medicina Social, Centro de Biomedicina da Universidade Estadual do Rio do Janeiro,[ref]M. Foucault, “The Crisis of Medicine or the Crisis of Antimedicine?”, Foucault Studies, No. 1, pp. 5-19, Dec. 2004.[/ref] salientou a novidade epistémica, pragmática e ética perante a qual nos deparamos: “a história do homem e da vida estão profundamente entrelaçadas […] os médicos e biólogos não mais trabalhando ao nível do indivíduo e dos seus descendentes, mas começando a trabalhar ao nível da vida em si [life itself] e dos seus eventos fundamentais”. Tornamo-nos cientes de que a história enquanto res geste e a evolução da vida e da biosfera devem ser escritas conjuntamente: uma “bio-história”, nos termos de Foucault; a história do antropoceno, nos termos de outros,[ref] J.A. Tomas, “History and Biology in the Anthropocene: Problems of Scale, Problems of Value”, American Historical Review, Dec. 2014: 1587-1607; B. Latour, “Para distinguir amigos e inimigos no tempo do Antropoceno”, Revista de Antropologia USP, 2014, V. 57, N° 1: 11-31.[/ref] ou talvez a história do transumano, como sugere, por exemplo, a retórica conformista do best-seller mundial de Yuval Noah Harari, Sapiens, De Animais a Deuses (versão original em hebraico, 2011), que se atreve a intitular o último capítulo “O fim do Homo sapiens”, onde somos confrontados com esta pérola do historiador-ideólogo de Jerusalém: “Os futuros senhores da Terra serão, provavelmente, mais diferentes de nós do que nós somos dos neandertais. […] os nossos herdeiros serão semelhantes a deuses”.

    Outra notícia do mesmo teor, que chamou a nossa atenção, tem a data de 4 de Dezembro de 2017. Nesse dia o website da Synbiowatch publicou os chamados The Gene Drive Files. Estes documentos foram obtidos por um grupo de organizações não governamentais que efectuaram o requerimento para o acesso aberto a registos (open records request) estabelecido pela lei estadunidense sobre a liberdade de informação (Freedom of Information Laws).[ref] A lista das associações que assinaram o requerimento é a seguinte: African Centre for Biodiversity, Corporate Europe Observatory, Econexus, Ecoropa, ETC Group, Friends of the Earth U.S., Heinrich Boell Foundation, Sustainability Council of New Zealand, Testbiotech, Third World Network.[/ref]

    A primeira “revelação”, como refere o jornal britânico The Guardian,[ref] https://goo.gl/zbtd8w[/ref] foi a presença da Defense Advanced Research Projects Agency (DARPA), a agência militar dos EUA, como maior patrocinador e financiador (cerca de 100 milhões de dólares por ano, através do Safe Genes Project) da investigação nas novas técnicas de edição genética gene drive. A partir do encontro entre a nova técnica de edição CRISPR e a criação de genes programados para se espalharem numa população graças a uma espécie de “reação em cadeia”, tornar-se-ia possível levar à extinção das espécies prejudiciais para o ser humano, como por exemplo os mosquitos da malária. A mutação artificial introduzida chegaria a ter perto de 100% de capacidade de se difundir na população em questão, contra os 50% previstos no normal funcionamento reprodutivo; e isso também quando a característica a ser propagada for completamente desfavorável à sobrevivência. Uma extinção programada, portanto, contra todas as leis evolutivas. Os alarmes eclodiram sobre o potencial “duplo uso” (double use) das tecnologias de extinção genética como armas biológicas, embora a pesquisa conhecida seja focada inteiramente no controlo e na erradicação de pragas.
    Esta notícia saiu na véspera do encontro do Grupo Ad Hoc de Peritos sobre Biologia Sintética (AHTEG na sigla em inglês), um grupo de trabalho da Convenção sobre Diversidade Biológica das Nações Unidas, lançada em 1992 na Cimeira da Terra do Rio de Janeiro. Esse encontro decorreu em Montreal nos dias 5 a 8 de Dezembro de 2017 e tinha como propósito indicar um conjunto de diretrizes regulamentais para a prevenção de impactos negativos da biologia sintética sobre a biodiversidade. Da ordem de trabalhos da CBD fazia parte uma discussão sobre a conveniência ou não de promulgar uma moratória internacional que suspendesse por um ano a investigação e desenvolvimento da edição genética, para serem devidamente ponderados os seus dramáticos efeitos na biomedicina, na estrutura ecológica e nas relações internacionais entre os estados.

    Outra revelação dos ficheiros publicados diz respeito ao grupo de pressão orquestrado pela Fundação Gates, pretensa organização filantrópica promovida por Bill e Melinda Gates. Esta fundação, que financia vários projectos de “investigação e desenvolvimento” (I&D) em engenharia genética, especialmente em África, teria dado à empresa de relações públicas Emerging Ag 1,6 milhões de dólares para levar em frente o projecto apelidado Gene Drive Research Sponsors and Supporters Coalition, assegurando a cumplicidade de 65 cientistas e académicos, coordenados por um número ainda maior de funcionários governamentais, maioritariamente de países anglófonos, cujo evidente escopo foi influenciar o processo decisório do AHTEG, a fim de evitar a aprovação da moratória sobre o gene drive.

    Tendo anteriormente percorrido algumas das sinuosas e insinuadoras linhas de força históricas que enteiam os agentes dos H+, chegamos a um ponto em que nos é possível situar este esboço genealógico no mais amplo mapa reconstruído por Foucault e por quem nele se inspirou. É de facto nosso intuito final mostrar como o H+ veio decantar deliberadamente os recônditos motivos que foram compondo a construção da subjetividade e das relações de poder da contemporaneidade. Ao passo que Foucault tomou como objeto das suas investigações iniciais o surgimento dos saberes e das técnicas propiciadoras da implementação de dispositivos disciplinares, como os manicómios, as clínicas ou as prisões, para depois passar destes sintomas locais à diagnose do nascimento da biopolítica como a forma da arte de governar com a qual os estados-nação da modernidade pretenderam assumir como próprio âmbito de gestão tanto a vida da população na sua totalidade quanto a de cada indivíduo particular, nós temos vindo a indicar algumas das trajetórias que alimentaram o H+, movimento que apresenta todos os títulos para ser considerado o herdeiro ideológico das tendências ao mesmo tempo individualizantes e totalitárias engendradas pela sociedade capitalista.

    Foucault individuou no Beveridge Plan, elaborado em 1942 no Reino Unido, a primeira ocorrência histórica de um novo direito – o direito à saúde. A partir daí a saúde entrou na esfera da macroeconomia e as despesas implicadas pela manutenção das condições de saúde dos indivíduos tornaram-se uma das maiores verbas do orçamento de Estado. Esta “somatocracia”, desenvolvida desde o século XVIII, configurará a saúde como uma arena para a luta política, facto que assinalado pela vitória eleitoral do Partido Trabalhista na Inglaterra, em 1945, ou da Confederação Geral do Trabalho (CGT) em França, em 1947. A grande transformação epistémica ocorrida no Século das Luzes levou a medicina a sair do campo da relações pessoais entre o médico e o doente, para a configurar como intrinsecamente “social”, Staatsmedizin, medicina de Estado, como lhe chamaram os teóricos alemães da altura. A partir daí, nada irá ficar fora do âmbito médico e da autoridade médica: cidades e distritos, instituições e regulamentos, águas e terrenos, higiene e dieta, hábitos e desejos, criminalidade e sexualidade, produtividade e segurança da nação…

    Texto de κοινωνία

  • Mas afinal o que é o transhumanismo? E quem são os transhumanistas?

    Mas afinal o que é o transhumanismo? E quem são os transhumanistas?

    III Parte

    Ilustração por Xavier Almeida.

     

    As ligações entre o cosmismo russo e a tecnociência H+, que temos vindo anteriormente a referir, ainda não acabaram. Entre os que participaram nos exclusivos seminários de Fedorov, encontrava-se Konstantin Eduardovich Tsiolkovsky (1857-1935), o pai da astronáutica soviética, cujas ideias e descobertas foram os alicerces, juntamente com os mísseis de guerra alemães requisitados e readaptados pela URSS, do primeiro satélite artificial em órbita, o Sputnik (1957). Tsiolkovsky, além dos seus sucessos como cientista, que traduziram o propósito de viajar no espaço em equações e soluções técnicas, foi também propagandista de um messianismo cósmico, segundo o qual, para sobreviver, a humanidade deveria ultrapassar o seu confinamento no planeta Terra. Uma sua frase muito conhecida é: «A Terra é o berço da humanidade, mas não se pode viver para todo o sempre num berço.» Não se deve omitir que na versão original em língua russa não se falava em «humanidade», mas em «mente».1 Os actuais programas espaciais das várias potências mundiais teimam em canalizar e desperdiçar enormes recursos terrestres, comuns e limitados, para um objectivo extra-terrestre no qual bem poucos participarão, se alguma vez chegarem a algum porto. Numa versão laica da escatologia judaico-cristã, perseguem-se os céus como destino último do Espírito Santo, encarnado, até hoje, na razão humana, e amanhã, porque não, numa máquina espiritual. A economia política da investigação científica tende a ser condicionada e moldada por um circuito de retroalimentação recíproca entre antigos mitos, inovocentrismo pueril, interesses financeiros e nevrose militarista. A velha ideia religiosa que vê neste planeta uma habitação indigna e uma punição que visa a redenção, acompanha pari passu a sua exploração e consequentes estragos. Ao recusarmos a nossa pertença à Terra, estamos a comprometer e a prejudicar as suas condições, e a torná-la realmente inabitável. O antigo mito fundador da divisão de classes, no qual as elites tentam legitimar e disfarçar o seu cínico papel mundano, apelando à fantasmática «missão histórica» de nos conduzir ao bem ultraterreno, parece não gozar de substanciais inovações desde a época dos faraós até à da NASA. Paradigmático a este respeito é o filme Interstellar, em que a retórica da Monsanto, que advoga estar a solucionar o problema da fome no mundo quando, pelo contrário, está a exacerbá-lo, é projectada num cenário em que já não há nada a fazer senão recorrer aos organismos geneticamente modificados (OGM) para sustentar a população. Com esta operação narrativa, visa-se passar sub-repticiamente uma sensação de fatalidade. O mesmo pode ser dito da veiculação de um imaginário manipulado acerca de uma casta de cientistas, os da NASA, que procuram uma via de escape deste planeta para salvar a humanidade. Um filme de propaganda tecno-messiânica, portanto, apesar de serem poucos a vê-lo neste prisma (ou talvez o seja mesmo por isso): um filme que diz muitas verdades, mas que as diz na «novilíngua», trocando o sentido das coisas. O que se quer dizer sem dizê-lo expressamente é que, perante o suposto estado de excepção das condições ecológicas planetárias, nada há a fazer senão outorgar todas as nossas esperanças aos peritos, os únicos a poderem solucionar por meios técnicos os estragos criados por meios técnicos. Um filme que apela à tecnocracia absoluta, àquilo que nos parece ser o programa político secreto do H+, tal como temos vindo a expô-lo desde as suas labirínticas origens.

    Ora bem, para nos determos um pouco nos meandros do cosmismo, importa referir como um dos centros de propagação do pensamento de Fedorov foi a «Comissão para o Estudo das Forças Produtivas», instituto criado pela Academia das Ciências da Rússia em 1915 e liderado por Vladimir Ivanovich Vernadsky (1863-1945). Geoquímico de formação, Vernadsky cunhou o conceito e o termo «biosfera», referente, no seu entender, ao conjunto de todas as formas de vida, consideradas como um único estrato sobreposto ao da matéria inanimada, a «geosfera». Ainda segundo Vernadsky, um outro estrato se teria erguido sobreposto à geo e biosfera, um estrato compenetrado e governado pela mente humana e pela razão científica, estrato que, da autoria do jesuíta e paleontólogo Teilhard de Chardin ou, talvez, do filósofo e matemático Édouard Le Roy, ambos ouvintes das palestras em Paris de Vernadsky, acabou por ser chamado de «noosfera». Misturando motivos teológicos e evolutivos, a esfera noética é descrita como a encarnação do logos cristão numa nova fase da evolução planetária, uma fase caracterizada pela especificidade de ser, seguindo o legado de Fedorov, activamente guiada. Se o conceito de «biosfera» foi o precursor da «hipótese de Gaia» (que visa o planeta Terra como um organismo vivo), o actual debate académico sobre o «antropoceno» (termo com o qual se pretende referir a agência humana como uma força planetária a par de outras forças geológicas) tem as suas raízes no conceito de «noosfera». Na noosfera, segundo Chardin, a técnica tem um lugar de primazia, como se de um organismo dotado de membros, sistema nervoso, órgãos sensoriais e memória se tratasse. As máquinas, a seu ver, contribuem para a criação de uma consciência colectiva, como exemplificado pela rádio e pela televisão, tornando o pensamento mais rápido. Todas as máquinas da Terra, conjuntamente, tendem a formar uma única rede, uma tecnosfera de actividades económico-tecnológicas em aceleração exponencial, ao ponto de aumentar a «temperatura psíquica» do planeta até à emergência de uma «super-vida», um organismo senciente panterrestre. A humanidade está próxima de um limiar crítico. Cruzando-o, entrará no «Trans-Humano» (este termo é usado pelo próprio Chardin).

    Ilustração por Xavier Almeida.

     

    A influência do imaginário irradiado pelos sincretismos de motivos que temos vindo a referir continua a ecoar: se por um lado a ideia de evolução dirigida encontra as suas ressonâncias nos visionários do admirável mundo novo da nanotecnologia e da biotecnologia1, por outro, estrategas das forças armadas americanas começaram a desenvolver, graças ao financiamento tanto do governo quanto de corporações privadas, e com a colaboração tanto de sectores das instituições sanitárias quanto das universidades, a chamada «noopolítica», uma «estratégia informática para manipular os processos internacionais»2. O Global Consciousness Project, desenvolvido pela Universidade de Princeton3, alicerça-se na recolha de dados à escala planetária, ambicionando encontrar neste fluxo aleatório de informação padrões que revelem a presença e a eficácia de uma «consciência» supra-individual, de forma a poder prever e governar os fenómenos sociais. A ideia de um sistema nervoso planetário, antecipada pelo World Brain de H. G. Wells (1938), encontra-se em fase de desenvolvimento no projecto CeNSE, Central Nervous System of the Earth, por parte da multinacional da informática estado-unidense Hewlett-Packard Company, que leva avante a instalação de um trilião de sensores destinados a monitorizar todo o planeta. Mais uma vez nos parece que a sombra de personagens como Fedorov ou Chardin, com as suas conjugações de motivos escatológicos e positivistas, ainda obscurece as consciências dos cientistas-profetas-empreendedores do tecno-capitalismo contemporâneo4. Ainda, diga-se de passagem, depois do que foi referido sobre a influência de Fedorov na elite russa, não é descabido suspeitar que o embalsamento do corpo de Lenine não seja apenas um sintoma de fetichismo, mas também um símbolo da confiança nos poderes taumatúrgicos da ciência vindoura, tal como foi manifesto pelo movimento criogenista contemporâneo que visitaremos numa das nossas próxima excursões pelas origens do H+.

    Mas não podemos não deixar mais uma nota sobre o cosmismo russo, pois não deve ser omitido que também entre os marxistas o pensamento de Fedorov havia encontrado adeptos. Como não referir o caso de Léon Trótski (1879-1940), que, inspirando-se em Marx e Engels, acreditara numa evolução autodirigida de forma consciente. Considerando o ser humano como uma criatura desarmoniosa quer no plano físico quer no plano psíquico, sempre atormentada pelo medo da morte que a arremessa para as crenças ultramundanas mais irracionais, Trótski falara da necessidade de a humanidade se tornar dona dos seus sentimentos e da sua vontade até se erigir, mediante «modificações biomecânicas» específicas, em «um tipo sociobiológico mais elevado ou, se se quiser, um super-homem», pois «nada existe de impenetrável no pensamento consciente! Nós alcançaremos qualquer coisa! Nós dominaremos qualquer coisa! Nós reconstruiremos qualquer coisa!»5. Em Marxismo e Ciência, Trótski afirmara que o conhecimento científico da natureza tem «o fim de adquirir sempre mais domínio sobre ela». Este fim diria respeito também ao domínio sociotécnico da fisiologia humana, pois «o homem se tornará incomparavelmente mais forte, mais sábio, mais agudo. O seu corpo será mais harmónico, seus movimentos mais rítmicos». À semelhança dos fascistas italianos e dos nacional-socialistas alemães, também para os pensadores comunistas de alto gabarito como Gramsci, Lenine e Trótski, o imaginário revolucionário do futurismo era de louvar pela sua visão da humanidade como um Prometeu libertado pela tecnociência. Para os teóricos marxistas, o futurismo representava uma estética, que entra deliberadamente na política com o objectivo de «destruir os valores burgueses», abrindo caminho aos trabalhadores da «época da grande indústria». Para Trótski, em curiosa sintonia com os teóricos da ciência liberal, na ciência coalescem o carácter utilitário e uma certa neutralidade: «Na maioria dos casos, os cientistas são empurrados pela sua paixão pelo conhecimento, e quanto mais uma descoberta é significativa, tanto menos o seu autor é capaz, em geral, de prever as suas possíveis aplicações práticas. Assim, a paixão desinteressada de um pesquisador não contradiz o significado utilitário de cada ciência mais do que o sacrifício pessoal de um combatente revolucionário não contradiga os fins utilitários das exigências de classe que ele serve». A luta material típica das sociedades divididas em classes será, «na ordem social socialista», «sublimada», ou seja, «assumirá uma forma mais elevada e mais fecunda: pôr-se-á no plano da luta pelas próprias opiniões, os próprios projectos, os próprios gostos». Contrariamente às formas de poder que existiram na história, no socialismo vindouro as forças competitivas estarão canalizadas para a inovação científica, tecnológica e artística, isto é, para aquilo que nos parece uma preconização da «economia do conhecimento» actual. A passagem do socialismo para o comunismo, sempre nas palavras do próprio Trótski, não necessitará de uma revolução a não ser a do progresso técnico. E, sobretudo, o super-homem socialista não afirmará o seu domínio pelas armas ou pelo dinheiro, nem pelo sangue ou pelo censo, mas antes pelas qualidades do seu espírito.

    Entretanto, na outra frente ideológica, o anti-comunista Michael Polanyi (1891-1976) tentava entrelaçar, na sua defesa da «liberdade académica», o individualismo utilitarista com a subjugação a uma obrigação impessoal, os «impulsos individuais» e a «paixão criativa» com a disciplina e os padrões impostos pela «tradição científica». A «fundamentação espiritual» da ciência garantiria automaticamente a «coordenação espontânea» e a «auto-coordenação» dos indivíduos à sua corporação. O precário equilíbrio entre autonomia e disciplina constituiria a «base transcendente» da «realidade espiritual» da nação científica enquanto «comunidade de pessoas livres» intérpretes da «tradição universal da humanidade». É óbvio que esta idílica narração vale apenas para o «avanço do conhecimento» puro, enquanto que no «trabalho rotineiro», a saber, a «condução das guerras», a «melhoria dos serviços públicos» e os «lucros industriais», «a direcção do progresso» deve ser entregue a uma «autoridade central». O que distingue os regimes totalitários, nas ambíguas palavras de Polanyi, é a negação por parte destes das «coisas invisíveis que guiam o impulso criativo do homem e em que a consciência do homem é naturalmente enraizada», a negação das «ideias transcendentes»6. Mas precisamos recuar alguns anos para entender o papel de personagens como Polanyi ou Vannevar Bush. Pois foi em 1938-39, durante uma série de conferências secretas organizadas nos EUA pela Rockefeller Foundation, que se concebeu uma nova estratégia na luta pela hegemonia cultural7. No rasto da crise económica de 1929, e preocupados pela vertiginosa ascensão do «socialismo científico» por um lado, e pelo nascimento dos sindicatos dos trabalhadores científicos por outro8, John Marshall e outros representantes das classes dominadoras do maior regime democrático do mundo planearam a figura de um «intelectual orgânico» funcional para a manutenção da estabilidade social. Para que o conhecimento científico, seus métodos e valores, fossem proficuamente utilizados como forma de propaganda, era precisa uma mediação cultural entre a sua sofisticada e exclusiva linguagem e a das pessoas comuns: surgiu o middle men, o divulgador científico na era da comunicação de massas9. A guerra psicológica governamental, através destes mediadores intelectuais, visava reduzir os efeitos de estranhamento e angústia psicológica potencialmente engendrada pelo mundo misterioso e poderoso da tecnociência. Utilizando os estudos da psicologia de massas e os das outras ciências humanas, a domesticação da população desdobrou-se do consumo de produtos materiais para o de produtos da indústria cultural: parques temáticos, museus, revistas não especializadas, programas escolares, televisivos e radiofónicos, animações para crianças, publicidade e filmes que construíram um imaginário ao mesmo tempo científico e messiânico. Com a guerra, a economia foi centralizada, e este estado de coisas perdurou encobertamente durante a guerra fria e até hoje. A desinformação sistemática e o divertimento massivo serviram para escamotear os «custos exteriorizados», a perversidade e os estragos da energia atómica e petrolífera, da indústria alimentar, da agroquímica, da mecanização dos cultivos, das guerras e, sucintamente, do progresso.

    Ora bem, mais um desvio que nos faz regressar outra vez ao socialismo soviético. Que também neste contexto se tenham abraçado ideais H+ é o que defende um dos textos de Riccardo Campa10, filósofo, sociólogo e jornalista italiano que em 2004 aderiu à World Transhumanist Association (WTO), da qual foi director entre 2006 e 2008, fundando paralelamente a Associazione Italiana Transumanisti, da qual é presidente. Além disso, Campa tem feito uma pesquisa sobre o tema da ciência e do horizonte pós-humano para a NATO; é fellow do Institute for Ethics and Emerging Technologies; membro do comité científico do International Journal of Technoethics; e membro do Advisory Board da ONG internacional Lifeboat Foundation – que colabora com a Marinha Militar dos EUA – na qualidade de perito em terrorismo e novas tecnologias. De facto, também James Hughes, director durante anos da WTO, em Citizen Cyborg (2004:127), não hesita em afirmar que «o revolucionário russo no exílio, Léon Trótski, exprimiu a aspiração H+ da esquerda marxista». Sendo que o termo «H+ é sinónimo de autoevolucionista», faríamos melhor, na opinião de Campa, em manter uma atitude muito inclusiva a seu respeito, pois «a evolução autodirigida é no fundo uma ideia que tem atravessado todo o espectro de propostas políticas dos séculos xix e xx, influenciando socialistas fabianos, futuristas italianos, fascistas nietzchianos, comunistas soviéticos e liberalistas americanos». O tecno-progressismo (TechnoProg) centralista e autoritário presente no materialismo dialético, expresso, por exemplo, no escrito Sobre a Autoridade do Friedrich Engels, estará condensado no lema de Lenine – «o socialismo é o poder soviético mais a eletrificação de todo o país» – ou nos planos quinquenais do regime de Estaline (cuja alcunha era «o homem de aço»), nos quais progresso técnico, crescimento económico e potência nacional formaram uma trindade indissolúvel. Edificação de centenas de cidades, cinquenta das quais com cerca de 50 a 250 mil habitantes, construção do sistema eléctrico e da rede viária e rodoviária, extracção massiva de minérios, produção em série de máquinas e bens: o caminho do desenvolvimento estava desbastado. E com ele vieram as purgas e os milhões de mortos de fome na Ucrânia e noutros territórios do império socialista, devido à «colectivização» das fábricas e à gestão centralizada dos cereais11. É também do conhecimento geral que os governos socialistas e comunistas que constelaram a história do século xx jamais se dispensaram de deter e torturar os opositores do progresso. Em simultâneo, e com o mesmo teor cativo, os regimes fascistas continuavam a modernização da sociedade industrial burguesa e da paisagem, tanto natural quanto social, dos países por eles dominados12. Em todo o mundo, a agricultura continua a ser industrializada – com a consequente concentração em monopólios da propriedade, da produção e da distribuição dos alimentos, e os seus subsequentes estragos; a física e a química multiplicam os seus sucessos – cujas aplicações se tornam sempre mais rapidamente noutras tantas potencializações da produtividade e em bens de consumo massivos; com a eletricidade penetram nas aldeias a rádio, a televisão e o cinema – e com estes a estética do «sublime tecnológico» coloniza os imaginários13. A ficção científica começara a entrar no apogeu da sua fecundidade…

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    1H. F. Judson, The Eighth Day of Creation: Makers of the Revolution in Biology, New York, Cold Spring Harbor Laboratory Press, 1996. G. Stock, Redesigning Humans: Our Inevitable Genetic Future, Houghton Mifflin Harcourt, 2002. Para uma leitura crítica da «tecnociência de mercado», da eugénica contemporânea e do H+, com uma abundante bibliografia, veja-se o livro fundamental do H. Martins, Experimentum Humanum, Civilização Tecnológica e Condição Humana, Lisboa, Relógio d’Agua, 2011.

    2A. V. Baichik – S. B. Nikonov, Noopolitik as Global Information Strategy, in «Vestnik St. Petersburg University», IX, 2012, 1, 207-213; J. M. Noyer – B. Juanals, La stratégie américaine du contrôle continu. De la “Noopolitik” (1999) à “Byting Back” (2007), une création de concepts et de dispositifs de contrôle des populations, 2008, <http:// archivesic.ccsd.cnrs.fr/file/index/docid/292207/filename/Noopolitik_Byting_Back5.pdf

    3http://www.ewao.com/a/mindboggling-scientists-create-system-predicts-events-hours-happening/

    4L. Suarez-Villa, Globalization and Technocapitalism: The Political Economy of Corporate Power and Technological Domination, Londra, Ashgate, 2012; Id., Technocapitalism: A Critical Perspective on Technological Innovation and Corporatism, Philadelphia, Temple University Press, 2009.

    5L. Trótski, Letteratura, arte, libertà, Swarz. Milano, 1957.

    6M. Polanyi, The Foundations of Academic Freedom, em «The Lancet», 3 de Maio 1947.

    7J. Sastre, Philanthropy, Mass Media and Cultural Hegemony: the Rockefeller Foundation and the Politics of Science Popularization in the 1930s, em M. Badino, P. D. Omodeo, (eds.), Gramsci Today: Cultural Hegemony in a Scientific World, Leiden, Brill (no prelo).

    8P. J. Kuznik, Beyond the Laboratory: Scientists as Political Activists in 1930s America, Chicago and London, University of Chicago Press, 1987; G. Werskey, The Visible College: A Collective Biography of Britisch Scientists and Socialists in the 1930’s, London, Allen Lane, 1978.

    9 T. Glander, Origins of Mass Communications Research During the American Cold War: Educational Effects and Contemporary Implications, London, LEA, 2000; D. Schiller, Theorizing Communication: A History, New York, Oxford University Press, 1996.

    10http://www.divenire.org/stampa.asp?id=4

    11D. Shelton, Encyclopedia of Genocide and Crimes Against Humanity, Detroit-Munich, Macmillan Reference, 2005.

    12T. Saraiva, Fascist Modernist Landscapes: Wheat, Dams, Forests, and the Making of the Portuguese NewState, em «Environmental History» 0 (2016): 1–22; Inventing the Technological Nation: The Example of Portugal (1851–1898), em «History and Technology» Vol. 23, No. 3, September 2007, pp. 263–273; Marta Macedo, Projectar e construir a Nação. Engenheiros, ciência e território em Portugal no séc. XIX, Lisboa, ICS, 2012.

    13L. Marx, The machine in the garden;Technology and the pastoral ideal in America, New York, Oxford University Press, 1964.

  • Mas afinal o que é o transhumanismo? E quem são os transhumanistas?

    Mas afinal o que é o transhumanismo? E quem são os transhumanistas?

    II Parte


    Uma das fases porventura menos conhecida da genealogia do
    H+ é o “cosmismo” russo. O propulsionador deste movimento é Nikolai Fedorov (1828-1903), que fazia seminários informais no Museu Rumiantsev de Moscovo. O cosmismo pode ser interpretado como o resultado do sincretismo dum xamanismo autóctone de origem eslava com o misticismo derivado do cristianismo ortodoxo, com o interesse das classes altas russas pela tradição maçónica, as ciências ocultas, os Rosacruz e o esoterismo europeu, tudo misturado num molho de sabor positivista. Personagens notórias como Dostoevkji, Solov’ov, Tolstoj, Gorsky, Chekrygin e Murav’ev aderiam com entusiasmo ao “projecto” ou à “nossa tarefa comum”, que segundo Fedorov era nada menos que a ressurreição física dos mortos através de meios científicos. Para isto acontecer todos os humanos, deixando-se às costas as diferenças ideológicas ou religiosas, deveriam unir-se como irmãos e irmãs na luta contra a morte. O Czar, enquanto bom pai-autocrata, deveria ser o guia político da realização da síntese da trindade: deus, homem e natureza. Pensamento e acção fundir-se-ão, assim como religião, ciência e arte. Pois o saber deve ser entendido não como objectivo, nem como subjectivo, mas como “projectivo”: mundo natural e ideias são dois pólos dum único projecto que é preciso reconhecer e dirigir. Todos os indivíduos devem tornar-se filósofos-ativistas, conscientes do destino comum de todas as vontades e actividades particulares. Neste ecumenismo cientista haverá uma “mobilização geral”, voluntária, na “guerra contra a natureza”. Os exércitos deverão juntar-se nesta guerra, transformando-se numa “força experimental” pela libertação da humanidade, adaptando todas as armas em instrumentos do bem-estar humano: Fedorov refere, como exemplo, a descoberta feita por certos cientistas americanos da possibilidade de causar a chuva disparando com canhões para as nuvens. Ainda, Fedorov sustinha que era preciso conquistar o espaço sideral, para reencontrar as “partículas” dispersas dos antepassados, e que a colonização de outros planetas era necessária para estes serem destinados à habitação e uso dos ressuscitados. Pois segundo Fedorov os biólogos do futuro iriam conseguir sintetizar os corpos humanos, modificando-os para os tornar aptos a viver em condições extremas: corpos que deverão por exemplo dispensar a reprodução sexual e que deverão evitar alimentar-se de matéria orgânica, também para evitar que se nutram das partículas dos antepassados, que, entretanto, serão objecto de manipulação por parte de animais miudíssimos dotados de potentes microscópios. Este projecto de um paraíso terreno interplanetário passava, segundo Fedorov, pela reforma dos museus, que de lugar de conservação antiquária deviam torna-se em escolas-laboratórios-templos da arte científica e sagrada da ressurreição dos mortos. Com este objectivo último, os museus interactivos assim entendidos servirão para armazenar e processar todas as informações disponíveis sobre os defuntos. Fedorov promoveu ainda a extensão do pensamento a todas as forças materiais, até chegar àquilo que ele definia como “psicocracia”, uma unificação de matéria e espírito capaz de “instilar” a consciência em todas as funções materiais, conduzindo assim o homem a “olhar deus cara a cara”.

    Apesar de ter-se na altura recusado, por óbvias razões, a publicar as suas ideias, para um olhar contemporâneo, Fedorov apresenta-se mais próximo dos projectos tecnocientíficos actuais do que poderemos pensar à primeira. De facto, menos púdicos do que ele, abundam na literatura contemporânea novas versões destas bizarras visões futuristas. Basta pensar no actual engenheiro chefe da Google, Ray Kurzweil, que mediante a digitalização do património bibliotecário mundial e a recolha e tratamento dos dados dos usuários da rede pretende obter algoritmos que funcionem como a mente humana, a fim de conseguir instilar a consciência na matéria. Kurzweil afirma explicitamente querer ressuscitar o seu pai, e para tal conservou meticulosamente todos os fragmentos escritos e de outro tipo do seu querido defunto. Reparem que a Google está a estabelecer parcerias com as maiores bibliotecas, museus, fundações e institutos do mundo (além de com laboratórios, empresas, universidades e ministérios públicos), segundo uma linha estratégica que o Fedorov teria aprovado com entusiasmo. E com o objectivo declarado de arquivar e analisar a memória colectiva à espera que daí surja a nova etapa da evolução, a máquina sapientíssima. A partir da página do Google Cultural Institute de Paris (que merece uma espreitadela, também pelo estilo interactivo e pelos gráficos), ficamos a saber que as parcerias espalhadas pelo planeta fora são mais de mil (fartei-me de contar depois do primeiro milhar). Para uma reconstrução da história dos museus que funde a teoria do Gramsci da luta para a hegemonia cultural com a as análises da “governamentalidade” do Foucault vejam-se os estudos do Tony Bennett. Kurzweil fundou em 2008, com Peter H. Diamandis, a Singularity University, cujos cursos de formação intensiva podem custar dezenas de milhares de dólares. O que nos interessa aqui a respeito de Kurzweil não é, como é óbvio, a discutível validade científica da maioria das suas propostas, mas a função catequista e doutrinal em favor da ideologia do desenvolvimento tecno-económico ilimitado desempenhada por esta e outras personagens do mesmo teor. Como se pode ler na página web, a Singularity University «is a benefit corporation that provides educational programs, innovative partnerships and a startup accelerator to help individuals, businesses, institutions, investors, NGOs and governments understand cutting-edge technologies, and how to utilize these technologies to positively impact billions of people» (http://singularityu.org/).

    Outra espantosa analogia reside na tentativa de decifrar por meios tecnocientíficos o “código da vida”. Pois, há que referir que a Google, desde 2008, deixou de ser apenas um dos grandes monopólios do mercado informático, passando a investir na investigação biomédica também: veja-se a propósito a empresa 23andME, ou o projecto Google Genomics que se propõe implementar soluções biotecnológicas inovadoras mediante a análise computacional da informação genética de milhões de indivíduos. Graças à aplicação dos sistemas de bases de dados, ou seja, graças ao armazenamento e processamento de uma quantidade humanamente ingerível de dados genéticos e biomédicos, está-se a criar uma “Internet-do-ADN” que viabilizaria a substituição de uma biologia artesanal, de pequena escala, para uma nova à escala industrial. O sonho da longevidade, e por que não, da imortalidade, é o objectivo explícito da Calico, outra empresa fundada pela Google. E isto num panorama cultural que entre as outras aberrações tem visto J. Craig Ventor, um pioneiro no sequenciamento do genoma humano, proclamar na revista Science, a 2 de Julho de 2010, ter conseguido realizar a “vida sintética”, ou “vida artificial”, ou seja, uma bactéria cujo genoma natural tem sido substituído por um cromossoma obtido em laboratório. Entretanto, no ano passado o Human Fertilisation and Embryology Authority (HFEA) inglês tem autorizado a criação de embriões humanos geneticamente modificados.

    Para apreciar devidamente este recente acontecimento e o canto das sereias H+ nele contido, será preciso desaguar noutro trilho das suas labirínticas origens: eis o que leva ao encontro de três personalidades activas no contexto cultural anglo-saxónico e cuja influência foi marcante na formação da chamada nova “síntese da biologia moderna”. Pois a primeira ocorrência histórica do termo H+ encontra-se em Religion without revelation, uma obra de 1927 do Julian Huxley (1887-1975), destacado biólogo evolucionista, primeiro director da UNESCO e membro fundador do WWF. Nas palavras do Huxley “o homem tem sido nomeado administrador da maior de todas as empresas, a empresa da evolução”, uma tarefa à qual não se pode subtrair, sendo “um destino inevitável, e quanto antes se dê conta e comece a acreditar nisto, tanto melhor para todos aqueles que estão nela envolvidos”. Para Huxley quando houver um número suficiente de pessoas a dizer “acredito no H+”, então “a espécie humana estará no limiar de um novo tipo de existência”, “finalmente cumprirá conscientemente o seu verdadeiro destino”. Convicto propagador da eugénica, avisou que “a espécie humana pode, se o quiser, transcender-se a si própria – e não apenas esporadicamente, um indivíduo aqui, num modo, um indivíduo acolá, noutro modo – mas na sua inteireza, enquanto humanidade. Faz falta um nome para esta nova fé. Talvez o termo H+ sirva: o homem que fica homem, mas que se transcende a si próprio, realizando novas possibilidades da sua natureza humana e para a sua natureza humana”.

    Outro destacado biólogo britânico, o comunista John B. S. Haldane (1892-1964), será alistado nesta curta genealogia do H+ por ter avisado durante uma palestra sua, sucessivamente publicada com o título Daedalus, or Science and the Future (1924), que o inventor é como uma sorte de Prometeu, cuja obra é inevitavelmente destinada a ver-se acusada de constituir uma ofensa aos deuses (isto é, aos supersticiosos valores estabelecidos). Neste sentido é previsível que as possibilidades da biologia, como a ectogénese, a saber, a geração de seres humanos em laboratório, ou o controle da evolução mediante mutações dirigidas (engenharia genética), ou ainda, o controle das paixões, dos sentimentos e da imaginação mediante métodos farmacológicos, irão enfrentar incómodos obstáculos morais.

    Ainda outra notável voz cujo canto no coro dos preconizadores do H+ é preciso escutar é a do John D. Bernal (1901-1971). Marxista e simpatizante filo-soviético, especialista em cristalografia aplicada à biologia molecular, proporcionou diversos contributos científicos em âmbito militar. Bernal publicou em 1929 The World, the Flesh and the Devil. An Enquiry into the Future of the Three Enemies of Rational Soul. Nesta obra Bernal elabora com grande detalhe tanto a proposta de colonizar o espaço quanto a oportunidade para o homem do futuro de enxertar dentro de si os engenhos tecnológicos ou de alterar quimicamente o corpo: o humano porvir disporá de um órgão para sentir as ondas rádios; olhos com vista aos raios X, infravermelhos e ultravioletas; ouvidos ultra-sónicos; órgãos capazes de detectar os potenciais eléctricos; poderá controlar as máquinas com a própria vontade, tendo estabelecido com elas uma relação simbiótica e uma “comunicação etérea”; neste sentido haverá máquinas-órgãos para manipular e reparar outros órgãos-máquinas. Os seres humanos vindouros serão produzidos por via ectogenética e terão duas fases de existência, uma “larval”, não especializada, semelhante à nossa, e uma de “crisálida” em que subirão à instalação de novos órgãos e de novos sentidos, fase completada por uma reeducação. A visão do Bernal é interessante no que tem de antecipação das mais recentes propostas H+. Pois imagina um pluralismo existencial em que cada indivíduo poderá escolher as possibilidades evolutivas e as melhorias que mais lhe agradam. Pode acontecer, continua Bernal, que nem todos aceitem o facto de o humano natural ser um beco evolutivo sem saída e, em consequência disso, seguir-se-á um cisma entre os “humanizadores” e os “mecanizadores”. Estes últimos, prosseguindo a própria evolução tecno-orgânica no espaço, acabarão por olhar a Terra como um “zoo humano”. Nesta ascensão do ciborgue os cérebros conectar-se-ão até criar um organismo colectivo em que as lembranças serão partilhadas e a comunicação deixará de enfrentar os obstáculos da linguagem. As emoções serão finalmente controladas e induzidas voluntariamente de forma a favorecer o desempenho das diversas tarefas. Como Trotskij, também Bernal, recolhendo o legado da tradição racionalista do iluminismo, vai apontar nos sentimentos escatológicos expressos na religião uma das grandes limitações humanas que é preciso ultrapassar por meios tecnocientíficos. Agora, bastante curioso, é de notar como, inadvertidamente, o materialista marxista acabe por imaginar o desfecho do percurso evolutivo como dando, à maneira do jesuíta de Chardin, em seres “etéreos”, massa de átomos a comunicar por radiações, até que finalmente dissolver-se-ão em pura luz…

    Foi com o vislumbrar destes imaginários que Aldous Huxley (1894-1963), irmão do Julian e amigo do Haldane, concebeu a sua novela distópica O admirável mundo novo (1932): a engenharia social dos “dez governadores do mundo” seguram o conformismo da população, mantida apaziguada e contente com o condicionamento psicológico e com as biotecnologias, a começar pela gestação artificial das crianças em “clínicas da fertilidade” nas quais, aos membros das castas inferiores, durante o crescimento, lhes é limitado o desenvolvimento físico e intelectual mediante uma calibrada falta de oxigénio. Além disso, a propaganda age durante o sono através de vozes gravadas que repetem os mandamentos da religião fordista da eficiência, e todos são persuadidos a acreditar que a casta à qual pertencem é a melhor; e por fim, há drogas diversificadas para todas as circunstâncias, tanto produtivas quanto lúdicas.

    Mas os proclamados ciber-artistas e bio-artistas de hoje sugerem-nos ir procurar no movimento futurista do começo do século XX uma outra fase de gestação do H+. Antecipando a cultura da propaganda mediática e da publicidade, os futuristas italianos cunharam frases altissonantes do tipo “lançar o desafio às estrelas”, “reconstruir o universo”, “criar o homem mecânico com partes intercambiáveis”. Em 1910, num período em que os efeitos cumulativos do desenvolvimento tecnológico já eram espantosos, sai L’Uomo Moltiplicato ed il Regno della Macchina, no qual Filippo Tommaso Marinetti (1876-1944), que posteriormente aderirá ao fascismo, descreve como objectivo dos futuristas “preparar a iminente e inevitável identificação do homem com o motor”, num mundo porvir em que a velocidade levará o ser humano a dotar-se de “órgãos inesperados, adaptados a um ambiente feito de choques”. Marinetti, com outros, almejava a realização dum “antropóide mecânico” que conjugue instintividade dionisíaca e progresso tecnológico, um homem-máquina “sem desgaste, quase eterno”, libertado das exigências, tarefas, e limites intrínsecos da condição biológica: “para preparar a formação do tipo não humano e mecânico do homem multiplicado mediante a exteriorização da sua vontade, é preciso diminuir a necessidade de afeito”, pois o ciborgue “será naturalmente cruel, omnisciente e combativo”. No Manifesto della ricostruzione futurista dell’Universo (1915), Giacomo Balla e Fortunato Deplero afirmaram que irão “encontrar os equivalentes abstractos de todas as formas e de todos os elementos do universo, e logo os combinaremos segundo os caprichos da nossa inspiração”, construindo “milhões de animais mecânicos, para a maior das guerras”.

    No horizonte actual a hibridação bio-mecânica, sobretudo bio-informática, largou as amarras do imaginário literário e artístico para entrar a fazer parte dos objectivos declarados de numerosos programas de investigação científica. A possibilidade de ligar ou inserir no “suporte biológico” do corpo vários tipos de dispositivos tecnológicos é vista por muitos como uma práctica desejável. Levantam-se, contudo, questões e inquietações pelo facto de o estatuto da prática médica se estar a transformar de uma abordagem preventiva, como no caso da medicina chinesa, ou de uma abordagem terapêutica, numa abordagem onde aquilo que se ambiciona é remediar os danos ocorridos e reduzir o sofrimento do doente, em um tipo de intervencionismo melhorativo que, segundo a estratégia retórica utilizada das pares oportunidades, estará ao dispor dos indivíduos-consumidores, deixados livres de aceder ao mercado do potenciamento bio-tecnológico, e que na práctica estará apenas ao alcance da minoria dos mais abastados, além dos fanáticos e dos mercenários. Perante o actual contexto de desmoronamento do estado social e dos sentimentos de solidariedade – contexto em que há sempre mais pessoas a verem-lhes negados os cuidados de saúde básicos – e perante as multidões de pessoas que ainda morrem pelo mundo fora por causa das doenças da miséria artificialmente produzida, as ulteriores desigualdades acarretadas pelas clínicas-oficinas da tecno-medicina neoliberal deixam entrever cenários ainda mais sombrios. Além disso, num panorama em que as agências militares governativas, como a DARPA, e os centros de I&D (Investigação e Desenvolvimento) multiplicam o panteão de drones e máquinas robóticas, assim como as experiências de manipulação genética e de hibridação tecno-orgânica, a complacência dos artistas contemporâneos com as instituições parece-nos dar mais um contributo corporativo à irradiação e à aceitação conformista do imaginário H+.

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    (ilustrações de Catarina Santos)

  • Mas afinal o que é o transhumanismo? E quem são os transhumanistas?

    Mas afinal o que é o transhumanismo? E quem são os transhumanistas?

    I Parte

    O mundo não tem sido feito por amor dos seres humano e não se tornou mais humano

    Herbert Marcuse(1)

    Neste e nos próximos números, apresentaremos uma breve resenha genealógica, algo labiríntica, dos motivos culturais que directa ou indirectamente têm inspirado o transhumanismo (H+). Ao mesmo tempo, desenhar-se-ão algumas das linhas de fuga e das sobreposições temáticas que da história mais ou menos remota conduzem até a actualidade.

    O H+ é, em poucas palavras, um movimento que procura ultrapassar deliberadamente, com meios científicos e tecnológicos, os limites da condição biológica do ser humano e, em última análise, almeja alcançar a imortalidade terrena. A adjetivação “terrena” serve para expressar o aspecto mundano e laico desta nova figura da mais antiga inquietação humana. Da Epopeia de Gilgamesh e do terceiro milénio antes de Cristo, à pratica da mumificação dos egípcios, do pensamento taoista à alquimia esotérica, o H+ considera-se o legítimo herdeiro dos esforços históricos da humanidade para ganhar o seu jogo de xadrez com a morte. Nesse sentido, os teóricos do H+ interpretam a tecno-revolução em curso e por vir como o resultado cumulativo de um processo histórico contínuo. O ser humano seria desde sempre um animal insatisfeito consigo próprio, em luta com a frágil condição que lhe foi dada e, portanto, sempre à procura do potenciamento das suas capacidades psicossomáticas. Se a recusa da animalidade inscrita na condição humana teve nas religiões o seu desafogo, o H+ seria então a resposta laica às aspirações escatológicas das religiões tradicionais. Na perspectiva do Nick Bostrom, docente em Oxford e um dos líderes deste movimento, o H+ é a expressão contemporânea do humanismo renascentista – exemplificado por Giovanni Pico della Mirandola (1463-1494), para o qual o indivíduo deve ser um livre criador de si próprio, atingindo “formas mais altas, divinas” – do projecto prometeico da ciência empírica – entendida no Novum Organum do Francis Bacon (1561-1626), como o método para “tornar tudo possível” através da submissão da natureza aos fins humanos – ou ainda do racionalismo da idade das luzes.(2) A estratégia discursiva com a qual Bostrom persegue a hegemonia cultural do H+ enxerta-o na tradição racionalista e no utilitarismo anglo-americano, visando acentuar a natureza democrática e liberal da reivindicação do direito incondicional à auto-determinação psicossomática, tentando desajeitadamente demarcar-se dos fantasmas da eugénica do século XX. Por outro lado, o norueguês Stefan Lorenz Sorgner assimila o “potenciamento tecnológico”, tanto genético como de outros tipos, ao impulso de auto-melhoramento e ao “sentimento da potência que cresce”, caros para Nietzsche.(3) Outro defensor desta filiação é Max More, que conta como o seu ensaio Tranhumanism: Towards a Futurist Philosophy (2009), tendo sido inspirado pelos seus estudos do pensamento do Nietzsche.(4) No entender de More, fundador de orientação anarco-capitalista do Extropy Institute, o H+ é um conjunto de filosofias heterogéneas que nos guiarão até à condição pós-humana.

    Mas se quisermos fazer uma aproximação ao H+, será porventura necessário fazer algum desvio das narrativas na primeira pessoa dos protagonistas contemporâneos, dando preferência a um itinerário histórico, social e cultural ziguezagueante. O primeiro desvio conduz-nos aos tempos da Primeira Revolução Industrial e a uma das primeiras fases da construção de um ideal de tecnociência como factor de progresso e de emancipação: o pensamento do Saint-Simon (1760-1825) e a sua influência na Escola Politécnica de Paris. Eis algumas das pérolas do profético pensador da “sociedade industrial”: “Uma nação não é senão uma grande empresa industrial»; «A sociedade moderna só tem um objectivo: a produção, a indústria»; «O trabalho, eis o novo culto, a religião moderna» e o engenheiro é «o sacerdote da indústria»(5). Tendo em conta que hoje em dia não é raro encontrar, confundidas na mesma pessoa, a figura do cientista, do engenheiro, do empreendedor e do consulente de instituições governamentais,(6) também a previsão do Auguste Comte, no seu Cours de philosophie positive (1830-1842), parece ter sido cumprida. Pois ele intuiu que os engenheiros iriam ter um papel histórico preeminente: o de serem os mediadores entre os savants e os entrepreneurs, entre ciência e economia industrial. O saint-simonismo está nas origens da retórica do mundo como uma rede e como um espaço de fluxos, uma economia-mundo articulada em circuitos sempre mais densos, amplos e homogéneos, circuitos capazes de aumentar a circulação de bens materiais e imateriais: produtos, informações, pessoas e capitais. Daí o seu entusiasmo tecno-optimista quanto à construção de estradas, pontes e canais que levariam à “associação universal”, à comunhão entre os povos e à paz perpétua.(7) Parece que ouvimos os motivos saint-simonianos ressoar nas intenções e nos discursos dos criadores da Internet, vista como uma ferramenta para a descentralização e a desierarquização das relações sociais. Apesar das questões e das dúvidas que se podem levantar acerca do potencial emancipador das tecnologias digitais, e apesar das denúncias dos seus impactos psicológicos, políticos, económicos, sociais e ecológicos, continuam a florescer varias versões de “utopismo digital” inspirado pelo conceito de reticularidade.(8) É um facto que a Califórnia é a nação do mundo à qual mais se deve a revolução social que estamos a viver, a saber, a invasão tentacular das tecnologias informáticas em todas as esferas da existência humana. A transformação em curso dos modos de viver e de pensar têm as suas raízes na California Ideology,(9) isto é, na hibridação dos factores culturais mais variados, desde a contracultura comunitarista dos anos ’60 ao neoliberalismo – que resultou no oxímoro do “anarco-capitalismo”.(10) A Silicon Valley pode ser chamada a terra santa, o epicentro mundial do H+, pois é a partir daí que operam muitos dos profetas-empreendedores-cientistas do H+ e as suas instituições: World Transhumanist Association, Singularity University, Google, Facebook, PayPal…

    Mas convém regressar ao tempo de Saint-Simon e de Comte, quando as lutas dos luditas estouraram como movimento operário organizado, levando ao acrescento do crime de destruição de máquinas aos já mais de cem crimes passíveis de pena de morte na jurisdição inglesa. A revolta dos artistas das “artes menores”(11) face à grande inovação da altura, o tear mecânico, foi silenciada. Marx afirmara em O Capital (Liv. I, Sec. IV, Cap. 13) que “A história universal não oferece espetáculo mais horrendo do que a extinção dos artesãos tecelões de algodão ingleses […], muitos morreram à fome”, enquanto que nas colónias “os ossos dos tecelões de algodão embranquecem as planície indianas”. A sua análise levou-o a concluir que, sob o capitalismo, “o efeito ‘temporário’ das máquinas é permanente, uma vez que se vai apropriando de cada vez mais campos de produção”. Entre máquinas e operários há, portanto, “um antagonismo completo”. Visto que “o meio de trabalho esmaga o operário”, “dá-se pela primeira vez a revolta brutal do operário contra o meio de trabalho”. Apesar disso, Marx será sempre um tecno-progressista (TechnoProg), pois, segundo ele, a “socialização” dos meios de produção teria remediado todos os estragos devido ao estranhamento do produto do trabalho face ao seu realizador. Friedrich Engels, de resto, cristalizou a atitude centralista e autoritária do materialismo dialético ao escrever em On Authority (1982) que a máquina a vapor, a rede rodoviária, e, em geral, a agricultura e a indústria em larga escala, são intrinsecamente autoritárias e é preciso aceitá-las, pois combater esse autoritarismo coincidiria com a pretensão de abolir a indústria enquanto tal, coisa que, como é óbvio, para ele não fazia sentido. A “questão da maquinaria” foi, de qualquer forma, um tema muito debatido pelos economistas da altura, e as suas implicações humanas estavam ao alcance de cada um.(12) É, alias, bem provável que Marx e Engels conhecessem The Philosophy of Manufactures (1835), de Andrew Ure, uma declaração de intenção (de guerra) que frisava como, além das vantagens quantitativas e técnicas, um dos benefícios “morais” da introdução da maquinaria residia na desqualificação do trabalhador, o que, por sua vez, era suposto induzir desânimo no trabalhador, levando ao abrandamento das greves. Todos sabemos o quão sangrentas foram as lutas das décadas sucessivas. Anos também notáveis pelas exposições universais (a primeira, em Londres em 1851, chamava-se Great Exhibition of the Works of Industry of All Nations) e pela aceleração dos ritmos de exploração e manipulação do existente, finalmente reduzido a recurso. O estudo da fisiologia humana e da rentabilidade dos organismos foram acompanhados pelos avanços da termodinâmica, do eletromagnetismo, da biologia, da psicologia e de outras tantas disciplinas. Se o corpo é uma máquina, a psique é o seu motor. Ambos devem ser analisados, seccionados, medidos e contabilizados.(13) Pondo os doutores de um lado e os industriais do outro, os engenheiros também começaram a estudar os movimentos e as suas coordenações na execução das tarefas, usando a cronometragem como critério para o estabelecimento dos standards de eficiência laboral. Os salários passaram a ser proporcionais à produtividade cronométrica. Estes métodos, segundo o seu mais celebre teórico, Frederick Taylor (The Principles of Scientific Management, 1919), conduziriam ao aumento dos rendimentos e dos salários, e daí ao minguar da conflitualidade social. Inspirado pelo taylorismo, o industrial Henry Ford, em 1913, com a cadeia de montagem, põe definitivamente os humanos sob a dependência das máquinas, que naquele momento passaram a ditar o ritmo das actividades produtivas. Também no contexto russo, o “amerikanismus” era visto com admiração e imitado, mas seguiremos um desvio que nos levará até à Rússia noutra ocasião.

    Na primeira metade do século XX, a “tecnocracia”, ou “gestão técnica da sociedade”, descrita por Saint-Simon há cerca de cento e cinquenta anos, encontrava-se já em pleno funcionamento, mas dava frutos inesperados: duas Guerras Mundiais. Pensando nelas, somos atraídos por outro possível cruzamento na labiríntica origem do H+: a obra do Ernst Jünger (1895-1998). Alemão de família burguesa e protestante, depois de se alistar voluntariamente, ainda menor de idade, na legião estrangeira francesa e sucessivamente no exército alemão durante a Primeira Guerra Mundial, defendeu que a guerra, além de ser inevitável, tem um valor positivo. Para ele, a guerra não seria uma distorção mas antes o cumprimento da vocação da técnica, com o trabalhador-soldado da “mobilização total” industrializada como marca da nossa época. A sua apologia do estatuto epocal da técnica e do modo como esta começava a reconfigurar a velha ordem europeia, levou-o a intuir, pouco depois da Segunda Guerra Mundial, que a progressiva conquista do mundo pela técnica corresponde logicamente à progressiva tecnicização do próprio conquistador: quando o mundo for uma paisagem tecnológica exclusiva sem alteridade, nada mais sobrará para o ser humano porque o ser humano ter-se-á, então, transformado noutra “coisa”. A imagem da técnica por ele esboçada, conjuntamente com alguns elementos do pensamento do Oswald Spengler (1880-1936), influenciarão o filósofo colaborador do nazismo Martin Heidegger (1889-1976). Deste contexto cultural surge uma imagem da ciência natural moderna como estando ao serviço de um “a priori tecnológico”. A ciência moderna, também quando se encontra aparentemente livre de compromissos utilitários, estaria numa relação de dependência face à técnica, reduzindo-se o conhecimento à acessibilidade do mundo, à manipulação experimental e ao controle prático. A racionalidade instrumental da ciência responderia à insaciável vontade de poder, uma fatal vontade de vontade sem término, inscrita na técnica. Em paralelo com o surgir desta visão, quer as “ciências duras”, quer as ciências humanas e sociais, acabaram por ser devidamente contratadas e harmoniosamente orquestras pelos exércitos, pela administração pública e pela indústria.(14) As “variáveis sociais” serão sujeitadas pela racionalidade do sistema produtivo industrial, num regime que muitos autores descreveram como totalitário.(15) O complexo militar-industrial-cientifico-administrativo-financeiro reforça os seus laços.(16) É notório que os imperativos trazidos pelo esforço bélico continuarão a agir durante a Guerra Fria, com a sua corrida aos armamentos tecnocientíficos e a sua série ininterrupta de guerras civis, apoiadas, fomentadas e manipuladas em toda a parte pelos dois grandes blocos imperiais, o soviético e o das democracias liberais.(17)

    Reparem como ainda hoje, na vulgar filosofia da ciência do empirismo lógico,(18) muito influente nos EUA assim como na Europa, os testes de cientificidade se sobrepõem às exigências de relevância técnica: considere-se a tese da simetria lógica entre a explicação científica e o sucesso preditivo; ou a exigência de quantificação, que envolve a posse de laboratórios e modelos matemáticos tanto sofisticados quanto caros. Segundo uma metáfora bastante comum, “uma teoria científica é um instrumento para prever os fenómenos”; ou, noutra versão, “uma teoria é uma ferramenta que produz outras ferramentas”. A aplicabilidade de uma teoria e os seus impactos práticos são parte valente dos critérios de avaliação no financiamento da investigação cientifica, tanto público quanto privado. Estes critérios, em larga medida extra-científicos, a saber, social e politicamente guiados, tendem a preferir um projecto a outro, uma teoria a outra, ou um artefacto a outro. A falta de acesso da maior parte das comunidades humanas à “objectividade” tecnocientífica, por razões tanto económicas quanto culturais, tem sido um aliado na subordinação política dos países “sub-desenvolvidos”, levando a práticas de colonialismo científico como a expropriação dos saberes tradicionais por parte das multinacionais da agro-indústria, a “bio-pirataria” denunciada pela cientista-ativista Vandana Shiva.(19) Segundo Bruno Latour, o “positivismo estratégico” é uma maneira de fazer a guerra por outros meios, ou seja, é a utilização da alegada neutralidade e objectividade da ciência como princípio de autoridade através do qual se escondem os verdadeiros interesses perseguidos.(10) Segundo este autor, deveríamos abrir os olhos perante a guerra em curso, para nos posicionarmos e começarmos a preparar o contra-ataque, sendo que de momento são os capitalistas os mais aguerridos e preparados.

    De facto, o resultado concreto da retórica da ciência neoliberal no quadro da concorrência bélica e comercial internacional, ciência descrita como mentirosa e habilidosa por Vannevar Bush, o director do programa atómico dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial, como “livre jogo de intelectos livres” motivados pela “curiosidade de sondar o desconhecido”,(21) não é tão diferente daquilo a que se propunham os regimes comunistas ou fascistas, a saber, um conhecimento instrumental dirigido pelos valores, pretensamente transcendentes, das elites dominantes e tomado como próprio pelas classes subalternas. O imaginário do “sublime tecnológico” e a nova fé laica na ciência como panaceia de todos os males, apresentam-se como factores comuns de todas as ideologias de massa do século XX. A cultura moderna, fazendo eco das outras fases da civilização, apela de todos os lados para um “homem novo”. Ora bem, importa lembrar que Hannah Arendt justamente escreveu, no seu livro clássico sobre o totalitarismo, que o que era mais espantoso nesses regimes não era tanto a sua tendência para o poder absoluto, como as suas ambições de transformar a natureza humana. Enxertando-se no tronco de sociedades religiosas e autoritárias, baseadas na opressão e na “estupidez artificial”, o “pentágono do poder” nascido da coligação de política, potência energética, produtividade, publicidade e lucro, faz de toda a inovação um fortalecimento das dinâmicas totalitárias nelas pré-existentes.(22) Estas dinâmicas arrastam todo o existente numa mobilização frenética, usando como alavanca os arquétipos judaico-cristãos de dominação da natureza, por um lado, e o utilitarismo da optimização técnica e da eficiência das prestações, por outro. Consequentemente, hoje todos os indivíduos são levados a cooperar voluntariamente na exploração e na manipulação de si próprios, dos outros e do ambiente. Toda a gente é impingida a participar levianamente na espionagem generalizada através das redes sociais e dos dispositivos smart, garantindo à “mão visível”(23) do complexo científico-industrial-militar, ao abrigo da jurisdição estatal, as rédeas da cega corrida que se persevera a chamar de progresso. Isto tudo, estando-se criminosamente nas tintas para com os resultados do departamento de investigação do Banco Mundial, que, segundo o que é reportado pelo seu chefe, o economista Branko Milanović, demonstram a falsidade das teses neoliberais acerca da suposta tendência espontânea para o nivelamento das desigualdades entre países, ou no interior de cada país. O que os dados mostram inequivocamente é que nos últimos quarenta anos a riqueza tem-se concentrado sempre mais, quer à escala de cada país, quer à escala planetária, com a maioria das pessoas a sofrer as consequências ecológicas e sociais da perpetuação da pilhagem e da opressão colonial.(24)

    (1) Herbert Marcuse, La dimensione estetica, em La dimensione estetica. Un’educazione politica tra rivolta e trascendenza, Milano, Guerini e Associati, 2002, p. 48.
    (2) N. Bostrom,
    A history of transhumanist thought, «Journal of Evolution and Technology», Vol. 14, n.1, 2005 http://www.nickbostrom.com/papers/history.pdf
    (3) S. L. Sorgner,
    Nietzsche, the Overhuman, and Tranhumanism, «Journal of Evolution and Technology», Vol. 20, n.1, março 2009 – http://jetpress.org/v20/sorgner.htm
    (4) M. More,
    The Overhuman in the Transhuman, «Journal of Evolution and Technology», Vol. 21, n. 1 Ganeiro 2010 – http://jetpress.org/more.htm
    (5) R. Pernoud,
    A Burguesia, Mem Martins (Po), Publicações Europa-América, 1995, p. 113.
    (6) R. Bud – S. E. Cozzens (a cura di),
    Invisible Connections: Instruments, Institutions and Science, Bellingham (Wa), Spie Optical Engineering Press, 1992.
    (7) P. Musso,
    Télécommunications et philosophie des réseaux: la postérité radicale de Saint-Simon, Paris, PUF, 1997; Id., La religion du monde industriel: analyse de la pensée de Saint-Simon, Paris, Éditions de l’Aube, 2006.
    (8) . Breton,
    L’utopie de la communication, Paris, La Découverte, 1990; A. Mattelart, Histoire de l’utopie planétaire: de la cité prophétique à la société globale, Paris, La Découverte, 1999; J. Brockman, Digerati: Encounters With the Cyber Elite, San Francisco, Hardwired, 1996; F. Turner, From Counterculture to Cyberculture: Stewart Brand, the Whole Earth Network, and the Rise of Digital Utopianism, Chicago, University of Chicago Press, 2006; C. Formenti, Incantati dalla rete. Immaginari, utopie e conflitti nell’epoca di Internet, Milano, Cortina, 2000.
    (9) R.
    Barbrook, A. Cameron, The Californian Ideologogy, em «Science as Culture» 6.1 (1996): 44-72.
    (10) Ippolita,
    Nell’acquario di Facebook; La resistibile ascesa dell’anarco-capitalismo, Ledizioni, Milano, 2012.
    (11) W. Morris,
    As Artes Menores e outros ensaios, Lisboa, Antigona, 2003.
    (12) M. Berg,
    The Machinery Question and the Making of Political Economy : 1815-1848, Cambridge University Press 2008.
    (13) A. Rabinbach,
    The Human Motor; Energy, Fatigue, and the Origins of Modernity, University of California Press, 1992.
    (14) L. Baritz,
    The Servants of Power; A History of the Use of Social Science in American Industry, Wesleyan University, 1960.
    (15)
    J. Ellul, La technique ou l’enjeu du siècle. Paris, Armand Colin, 1954; Propagandes, Paris, A. Colin, 1962; H. Marcuse, One-dimensional Man; Studies in the Ideology of Advanced Industrial Society, Boston, Beacon, 1964; G. Anders, L’obsolescence d’homme: Sur l’âme à l’époque de la deuxième révolution industrielle, Encyclopédie des nuisances, 2002 (1956).
    (16) D. Noble,
    America by Design: Science, Technology and the Rise of Corporate Capitalism, Oxford University Press, 1979.
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    (18) G. A. Reisch,
    How the Cold War Transformed Philosophy of Science: To the Icy Slopes of Logic, Cambridge University Press, 2005.
    (19) V. Shiva,
    Stolen Harvest: The Hijacking of the Global Food Supply, Boston, South End Press, 2000.
    (20) B. Latour,
    Telling Friends from Foes in the Time of the Anthropocene, em C. Hamilton et al. (eds), The Anthropocene and the Global Environmental Crisis; Rethinking modernity in a new epoch, Routledge, New York, 2015.
    (21) V. Bush,
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    (22) L. Mumford, The Myth of the Machine;
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    (23) A. D. Chandler,
    The Visible Hand; The Managerial Revolution in American Business, Belknap Press, 1977.
    (24) B.
    Milanović, Worlds Apart. Measuring International and Global Inequality, Princeton/Oxford, 2005; The Haves and the Have-Nots: A Brief and Idiosyncratic History of Global Inequality, Basic Books, New York, 2010; Global inequality: A New Approach for the Age of Globalization, Harvard University Press, 2016.

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  • Controlar o espaço através da dor

    Controlar o espaço através da dor

     

    Cortar os limites da nossa pele pode servir para proteger os limites de uma propriedade, de uma prisão ou de uma fronteira.”

    Reviel Netz, Barbed Wire: An Ecology of Modernity (2004)


    O arame farpado é um símbolo da silenciosa e ubíqua privação de liberdade. A sua história permite pensar o papel do controle do espaço nas formas de dominação contemporâneas, onde a biopolítica e a geopolítica se fundem, facultando uma análise sobre as lutas pelo poder em torno do controle do meio-ambiente e dos corpos que nele vivem (controle de fluxos migratórios, planificação do território, gentrificação de espaços urbanos, etc.).

    No livro Barbed Wire: An Ecology of Modernity (2004), o historiador Reviel Netz encara o arame farpado enquanto ferramenta para a reconfiguração do espaço através da dor. O seu desempenho infame é descrito como uma história ambiental do impedimento do movimento através de uma tecnologia rudimental mas omnipresente, apresentada como um paradigma da modernidade. Em particular, Netz defende que a modernidade foi moldada pela gestão centralizada do movimento em larga escala, o que foi funcional tanto para a exploração económica quanto para a dominação política em todo o planeta. Barbed Wire é dividido em três capítulos que tratam, respectivamente, o uso agrícola, militar e repressivo do arame farpado, entre 1874 e 1954. O primeiro capítulo, Expansion, estuda o arame farpado como um dos agentes-chave da profunda transformação ecológica da grande planície norte-americana no final do século XIX, quando foi inventado para evitar o movimento das vacas no oeste dos Estados Unidos. Netz analisa como a conquista do oeste significou o extermínio dos búfalos e dos índios e a sua substituição pelas vacas e colonos euro-americanos, bem como a introdução de uma economia capitalista que reorganizara a região no interesse das elites dos centros urbanos do norte East Coast, os vencedores da Guerra Civil norte-americana. O arame farpado surgiu no decorrer do processo de uma maciça e rápida colonização devido aos conflitos suscitados pela coexistência entre a pecuária extensiva e a agricultura intensiva. Se inicialmente foram as plantações a ficarem vedadas, para impedir que fossem devastadas pelo gado que andava solto, não demorou muito para que se resolvesse passar ao encerramento das vacas nas cercas das fazendas.

    O segundo capítulo, Confrontation, descreve como, no virar do século, o arame farpado viu as suas funções multiplicarem-se, sendo adotado para impedir o movimento dos seres humanos em contextos de guerra colonial. Na rápida expansão agrícola à escala mundial o arame farpado, graças à sua leveza, flexibilidade, custo e consequente produção em massa, permitiu que fosse usado em conflitos entre os antigos poderes locais e as novas potências invasoras, como foi o caso da Guerra dos Bôeres de 1899-1902. Finalmente, a combinação de arame farpado e metralhadoras, testada nas trincheiras da Manchúria durante a Guerra Russo-Japonesa de 1904-1905, culminou com a estática apoteose dos quatro anos de massacres da Primeira Guerra Mundial.

    O terceiro capítulo, Contention, analisa o nascimento do campo de concentração. O arame farpado foi usado em vários conflitos para o controle de civis inimigos e de prisioneiros de guerra, tornando-se uma peça central na gestão da repressão política e social na União Soviética e na Alemanha nazista. É neste terceiro capítulo que os paralelos entre a história dos humanos e a história dos animais se tornam mais explícitos e mais ameaçadores. Os campos de concentração, onde a carne humana foi coisificada, limitando o seu movimento a um espaço cada vez menor, são comparados às gaiolas e cercas para os animais. Segundo Netz, tanto a vida dos presos como os currais eram o produto do mesmo sistema técnico de controle do espaço mediante a dor. Em ambos os casos, estamos perante as vítimas da ecologia política moderna, em que orgânico e o inorgânico se emaranham numa interdependência indissociável.

    Ao longo do livro de Netz, o arame farpado é analisado como o principal protagonista de uma inversão topológica típica do nosso período histórico: certos pontos num plano, e as linhas que os conectam, levaram ao controle de grandes superfícies, com os corpos forçadamente confinados e controlados em lugares isolados, únicas áreas onde lhes é permitido mover-se. A este respeito, o arame farpado, enquanto tecnologia de gestão biopolítica do espaço, permitiu definir de forma rápida, barata, eficaz e em grande escala, um interior e um exterior, quem está incluído e quem está excluído. Por exemplo, num primeiro momento, os euro-americanos controlavam alguns pontos (os fortes) e algumas linhas (estradas e ferrovias) das grande planícies, enquanto que os índios e o gado se moviam livremente em todo o plano. O arame farpado alterou essa situação, encerrando os indígenas nas reservas e as vacas nos currais. Um outro exemplo da mesma dinâmica foi a guerra dos Bôeres na África do Sul. Os britânicos, a partir de cidades e caminhos de ferro, como pontos e linhas num plano, terão como objetivo o controle de todo o território por onde os guerrilheiros bôeres se moviam livremente. Foi com estes elementos topológicos, implantando arame farpado ao longo dos trilhos ferroviários, que os britânicos conseguiram quadricular o território, encurralar a população civil e internar os rebeldes em campos de concentração.

    Ao longo do livro são abordados sob este foco eco-político a guerra química, a invenção do tanque, as origens do conflito israelo-árabe, a arquitectura dos campos de extermínio nazis, a colectivização agrícola soviética, o crescimento e declínio da cavalaria na Europa ou a estreita relação que houve ao longo da história entre agricultura e guerra.

    Netz, professor na Universidade de Stanford, é um dos historiadores mais destacados e originais da matemática helenística (Netz, 1999). Foi precisamente o seu interesse pelas práticas materiais da geometria dos antigos gregos que o fez adoptar um olhar topológico sobre os processos de sangrenta reconfiguração da ecologia humana. De acordo com Netz, a história é uma dinâmica de interacção entre corpos em movimento no espaço. Portanto, com os seus corpos e desejos, os animais também pertencem à nossa paisagem social, são actores históricos e vítimas dos dispositivos biopolíticos que, alicerçados na dor, transcendem as fronteiras entre espécies. Pois, Barbed Wire é uma história de como a dor em grande escala foi utilizada para prevenir a livre circulação dos corpos e de como, em consequência disso, tem sido utilizada para aumentar a exploração económica e o despotismo político. Em suma, Barbed Wire representa um estímulo para repensar a história económica, ecológica e política do século XX não apenas em termos do aumento da circulação, como, inversamente, em termos do impedimento do movimento, com indefectível empatia e solidariedade para com as vítimas da violência autoritária. Faltou-lhe desenvolver uma análise do papel do arame farpado na segunda metade do século XX, em contextos de segregação racial, de classe e noutros usos que marcam a biopolítica contemporânea. Para colmatar esta lacuna consulte-se o livro de Olivier Razac, Histoire politique du barbelé (2009), que inventaria os seus múltiplos empregos, num subtil equilíbrio entre a eficiência do instrumento securitário e a sua aceitabilidade simbólica, dialogando com as análises do poder disciplinar de Foucault e das sociedades de controle de Deleuze: “As formas atuais da violência política reconhecem-se menos pela sua intensidade manifesta do que pelos seus meandros refinados”.

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