Categoria: Transumanismo

  • Hibridando arte e ciência para uma resistência cultural

    Hibridando arte e ciência para uma resistência cultural

    O coletivo Critical Art Ensemble foi fundado em Talahasse na Florida, em 1987 por um colectivo de artistas, performers, web designers, fotógrafos. Desde a sua criação, pratica aquilo a que chama Recombinant Theatre, uma hibridação de performatividade artística, activismo político radical e teoria crítica da sociedade tecnológica. Através da sua intervenção cultural, o CAE ambiciona contribuir para a emergência de um tactical media movement, um movimento cultural organizado, antagonista ao “pancapitalismo”, que ponha em prática uma reapropriação criativa e subversiva dos meios de comunicação e uma real socialização dos saberes tecnocientíficos.

    Com certas afinidades com o détournement situacionista e partilhando algumas das inquietações e estratégias dos San Francisco Diggers, de Augusto Boal e o Teatro do Oprimido, do Living Theater ou das performances surgidas no âmago dos movimentos feministas dos anos 70, “o media táctico é anti-monumental, desterritorializante”. O teatro tecnoactivista pretende “mostrar como os instrumentos da opressão podem ser usados para a libertação” e para a “resistência cultural” (outros grupos, referidos pelo CAE, que trabalham com media tácticos são os Institute for Applied Autonomy, The Yes Men, Carbon Defense League, Finishing School, Temporary Services, Preemptive Media Collective, My Dad’s Strip Club, Space Hijackers, Conglomco.org, irational.org, Bureau of Inverse Technology…).

    Depois de se terem dedicado à  “resistência digital”, com uma forma de guerilha teatral em que a prática artística se misturava com as mais recentes tecnologias informáticas em acções de sabotagem electrónica, que foram acompanhadas pela publicação do livro Civil Electronic Disobiedience (com o famoso apelo Cyber Rights Now!), o CAE tem passado à “bio-resistência”: “Assim como se combate um poder nómada (virtual) com tácticas nómadas, a moderna invasão molecular deve ser combatida no âmbito molecular, o seu campo de batalha. É preciso desenvolver laboratórios rebeldes e pessoal sedicioso para que a resistência possa progredir a um nível credível e eficaz”. Com efeito, as suas últimas performances, acompanhadas por laboratórios móveis montados “em qualquer lugar desde que as pessoas lá vão para fazer algo e não apenas para ver algo”, enfrentam vários temas concernentes às biotecnologias, contestando as modalidades científicas da pesquisa biológica actual, assim como a ausência de controlo por parte de agências independentes, os excessos na experimentação selvagem, a falta de critérios razoáveis para a avaliação dos riscos ambientais e sociais, os interesses militares e as especulações económicas por parte de multinacionais farmacêuticas e alimentares. Encenações teatrais, palestras informativas de divulgação científica e experiências biotécnicas, como a análise dos alimentos para identificar a presença de OGM, a fertilização em vidro, ou a manipulação de bactérias fazem parte de eventos performativos como o Free Range Grains, Molecular Invasion, GenTerra, Germs of Deception ou Marching Plague. O CAE tem como objectivo desmistificar a retórica utopista, usada como propaganda pelo oligopólio tecnocrático, e criar uma cultura popular capaz de avaliar e influenciar os êxitos da actividade científica: “Não podemos permitir que estes instrumentos de poder se tornem propriedade exclusiva de militares e corporações. […] Se um produto ou um processo é uma ameaça ou uma fortuna, isso deve ser examinado caso a caso. Não existe uma posição geral. […] Dada a natureza predatória do capitalismo quase qualquer coisa pode ser uma ameaça: é o sistema que deve ser mudado e não a ciência”.

    No livro The Molecular Invasion (copyleft 2001), o CAE propõe-se a sete objectivos estratégicos: “1. Desmistificar a produção e os produtos transgénicos; 2. Neutralizar o medo público; 3. Promover o pensamento crítico; 4. Minar e atacar a retórica edénica utopista; 5. Abrir os gabinetes da ciência; 6. Dissolver os confins culturais da especialização; 7. Afirmar o respeito pelo diletantismo”. A respeito das biotecnologias, a primeira tarefa é construir um discurso público informado, que evite as posições extremas, igualmente emotivas, entre a confiança cega no progresso tecnológico enquanto fonte automática de bem-estar e o receio derivante da secular ideologia da autenticidade, que vê no monstruoso a consequência da impureza recombinante: “A representação contestatária precisa de abraçar as informações, complexas mas acessíveis, sobre a natureza dos projectos biotecnológicos, antes de assumir a política muitas vezes reaccionária dos movimentos ambientalistas”. Se por um lado é preciso reconhecer que nem todos os avanços biotecnológicos são desastrosos, a outra face da acção pedagógica perseguida pelo CAE é denunciar a falsidade do mito edénico da abundância, que serve a opressão: “O mundo podia ser desfomeado antes da chegada das biotecnologias. […] a fome tem sido pouco mais que uma táctica militar para repor na linha as nações mais rebeldes ou para eliminar os excessos de população”.

    O que faz falta é tranformar as dúvidas e as reacções emotivas em instâncias críticas, dotadas de “instrumentos simples e práticos para avaliar o risco, baseados na ciência e inseridos no contexto histórico e cultural”, “abrindo as portas à participação dos indivíduos na formação das políticas, das leis, dos produtos, etc. relativos às biotecnologias”.

    O capítulo intitulado “Sabotagem biológica «fuzzy»”, começa afirmando que “se a esquerda tem aprendido alguma coisa na resistência contra a tecnocracia capitalista, é que os processos democráticos funcionam só no mínimo, quando se trata de travar a máquina do lucro pancapitalista”. Querendo interferir nos mecanismos de produção e distribuição capitalista, “a cultura resistente deve sempre encontrar o modo de responder ao fogo com o fogo” sem “tornar demasiado fácil ao espectáculo capitalista aplicar a quem resiste a etiqueta de sabotador ou pior, de eco-terrorista, termos que a autoridade usa generosamente e que tendem a ter um efeito profundamente negativo na opinião pública”. Por um lado, as “tácticas tradicionais”, como a desobediência civil electrónica devem entrar numa fase “dura” (bloqueios de sistemas de comunicação internas, bloqueios de bases de dados, desarticulação de routers, etc.), aumentando o nível de distúrbio nos serviços informáticos sobre os quais se apoiam as clínicas comerciais ou instituições tecnocientíficas mercantis. Por outro lado, “o modelo de acção biológica directa” que o CAE e outros “cientistas-patifes” têm desenvolvido, a sabotagem fuzzy (indistinta, vaga), consiste em procurar e aproveitar as falhas do sistema, com acções no limiar entre o legal e o ilegal, “brincadeiras” postas em acção mediante organismos viventes ou os seus constituintes e funcionalidades, utilizados como “agentes de desordem”: “microrganismos, plantas, insectos, répteis, mamíferos, OGM tácticos e compostos orgânicos podem todos fazer parte da resistência”. Por exemplo, sugere o CAE, adquirir ou criar mosquitos mutantes não perigosos é relativamente barato e, uma vez espalhados nas redondezas de um laboratório de pesquisa ou de uma central nuclear, podem desencadear um alarme que leve a uma investigação sobre a sua origem, implicando custos financeiros e atrasos na agenda das estruturas tecnocientíficas. E isto tudo sem grandes riscos para os activistas, os trabalhadores ou os vizinhos.

    No dia 11 de Maio de 2004, aquando da morte por ataque cardíaco da sua mulher Hope, Steve Kurtz chamara a polícia que, alarmada pela presença em sua casa de culturas de bactérias, não nocivas, e de aparelhos científicos para testar comida geneticamente modificada, resolveu detê-lo ilegalmente no dia seguinte, durante 22 horas. O FBI e a Task Force anti-terrorismo informaram Steve que estava a ser investigado por “bioterrorismo”. Depois desta acusação ter caído, Steve juntamente com Robert Ferrel (primeiro presidente do Departamento de Genética da Universidade Graduate School of Public Health de Pittsburgh e colaborador do CAE), foi acusado de “fraude fiscal”, arriscando conforme o estabelecido no USA Patriot Act, uma condenação de 20 anos, tal como a implicada por “bioterrorismo”: “O caso ameaçou criar um precedente muito perigoso, desbastando os confins entre direito civil e criminal e criminalizando aqueles que ousaram julgar a política governativa. […] ameaça interromper a pesquisa independente e dana seriamente a capacidade pública de criticar corporações económicas e instituições militares, os quais exercerão um cada vez mais restrito controlo do conhecimento científico
    (para mais info sobre este caso: www.caedefensefund.org).

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  • A ditadura dos dados

    A ditadura dos dados

    A ditadura dos dados (1)

    O colectivo de escrita convivial Ippolita (2) reflete há anos sobre a Californian Ideology (3), a estranha confluência de ideais que guia o pensamento neoliberal na implementação do Web 2.0. A sociedade do conhecimento propagandeada pelo variadamente chamado capitalismo imaterial, ou anarco-capitalismo, ou turbo-capitalismo, assenta num ingénuo optimismo tecnológico, para o qual o progresso dos meios informáticos de comunicação de massa levaria automaticamente ao progresso social e cultural dos netizen (net + citizen) da aldeia global. Os membros de Ippolita convidam-nos a reflectir de forma crítica face esta ideologia tecno-determinista, desvendando os interesses escondidos atrás do evangelho da transparência total, os perigos advenientes deste, tentando remediar mediante técnicas de auto-defesa digital, e sobretudo, mediante um cuidado de si e das relações com os outros que trave a colonização do espaço tanto íntimo quanto comum por parte de multinacionais e instituições políticas.

    Com acutilante denego de qualquer tipo de postura tecnófoba, Ippolita convida-nos a não abdicar da compreensão e uso consciente das tecnologias digitais, a não delegar aos tecnocratas e aos Evangelists da boa novela 2.0 a escolha das modalidades de relacionamento entre as pessoas. Pois é preciso reconhecer como as chamadas redes sociais, e as outras formas de conexão digital entre indivíduos, não são neutras, nem sequer proeminentemente técnicas, mas representam antes um conjunto de comportamentos e hábitos que incidem nas funções cognitivas e emotivas de cada um, modificando a nossa identidade, quer individual quer colectiva.

    Reparem, por exemplo, que a prática do profiling é um dispositivo que deriva da criminologia, agora estendido a todas as pessoas, cuja pegada digital é aglomerada pelos detentores dos Big Data de forma a obter uma ficha detalhada dos actos e opiniões, dos interesses e relações de cada um. Se por um lado estas informações, que disponibilizamos voluntária e gratuitamente, são um recurso que proporciona lucros aos seus exploradores na economia de mercado, por outro lado podem igualmente ser cedidos a regimes ditatoriais. Desde a publicidade e outros serviços personalizados à repressão personalizada, o passo é curto, como foi denunciado por Eugeny Morozov (4) entre outros.

    Além do facto de a censura na Web ser uma realidade, assim como a guerra informática é parte das estratégias militares não convencionais, a ideologia da partilha digital da democracia 2.0, na qual o que é publicado se torna propriedade de empresas privadas coniventes com governos, militares e serviços de segurança, torna-se de forma latente numa espécie de cibertotalitarismo ou maoismo digital (Jaron Lanier) (5), devido ao facto de “transformar a delação dos comportamentos dos outros numa prática social aceite e encorajada, e a auto-delação em regra dourada” (Ippolita).

    A socialização digital promove o culto da pertença a uma massa indiferenciada em que a dissidência é dificultada à partida (reparem como no Facebook existe um botão “gosto”, mas não um que diga “não gosto”; além do facto que é menos problemático, em termos cognitivos e emotivos, partilhar com um “gosto” uma imagem de guerra). Ippolita analisa as dinâmicas de exclusão e de auto-censura advenientes da pressão social que age nas psique dos utilizadores das redes digitais, narcisos que ao dedicar-se ao “exibicionismo masturbatório” e à “pornografia emotiva e relacional” moldam a sua identidade à imagem de parâmetros pré-fabricados e de expectativas externas, seguindo modalidades expressivas unidirecionais que empobrecem o espírito reflexivo. Além disso, a rapidez das trocas comunicativas digitais, que na sua fragmentação absorve uma quantidade sempre maior do dia-a-dia das pessoas, impossibilita os esforços e a demora necessários à gestação e construção de um pensamento crítico. Ainda, a existência de programas informáticos (bots dedicados ao sentimental analysis e ao opinion mining, por exemplo) injectados nas redes sociais e noutros serviços digitais ao fim de estudar e influenciar o comportamento dos utilizadores/consumidores, torna-os alvos inconscientes de técnicas de engenharia social, de estratégias mercantis e de controlo político. Default power é o termo técnico que exprime a capacidade de mudar as formas de vida online de milhões de pessoas ajustando poucos parâmetros. À já suficientemente pertinaz tendência conformista de que os seres humanos tem dado prova, acrescentam-se estes meios personalizados de manipulação de massa, quase que aos avanços da inteligência artificial corresponda um proporcional desenvolvimento da estupidez artificial.

    Apesar disso, os muros para abater erguem-se na política, na sociedade e na cultura fora dos ecrãs. O panóptico generalizado, implementado pela “religiosidade tecnofascista” (Ippolita) dos evangelistas dos Big Data, não é inevitável. A nossa é, como sempre foi, uma “servidão voluntária” (Etienne de La Boétie, 1576). Com Ippolita, acreditamos que opor-se ao avanço do deserto é possível, e que há sempre margens de manobra para práticas de resistência: cuidar do nosso presente é também uma responsabilidade perante o futuro. Analisar e denunciar as derivas monopolistas e totalitárias subjacentes ao Web 2.0; dar-se ao trabalho para se emancipar de um uso passivo e conformista que contribui para a exploração de todas as relações sociais na economia de mercado; combater com acções de boicote e desobediência civil; tornar a criptografia de uma suspeita excepção numa medida precaucional generalizada; construir redes cibernéticas autónomas que proporcionem alternativas viáveis. Para finalizar, dedicar-se à criação e manutenção de espaços conviviais auto-geridos nos quais a identidade individual se desenvolva na articulação com a identidade dos outros, estimulando a empatia e a maturação através vivências comuns e um cuidado recíproco, de forma a construir dinâmicas locais de aprendizagem e expressão que possam dignificar a nossa humanidade, e, sobretudo, a dos mais novos. Cabe a nós fertilizar o tecido rizomático da vida, de forma a fazê-lo frutificar; cabe a nós reduzir o virtual a uma esfera residual apropriada a momentos estrategicamente escolhidos; cabe a nós apoderar-nos do virtual, sem que ele, ou melhor, os seus actuais detentores, se apoderem de nós.

    Notas:
    (1)
    Expressão usada por V. Mayer-Schönberger e K. Cukier em Big Data: A Revolution That Will Transform How We Live, Work, and Think (2013).
    (2) Open non è free. Comunità digitali tra etica hacker e mercato globale (2005); Luci e ombre di Google. Futuro e passato dell’industria dei metadati (2007); Nell’acquario di Facebook. Viaggio nella resistibile ascesa dellâanarco-capitalismo (2012); La Rete è libera e democratica – FALSO! (2014); Anime Elettriche (2016)
    (3)
    Expressão cunhada por R. Barbrook e A. Cameron a 1995: http://www.imaginaryfutures.net/2007/04/17/the-californian-ideology-2/
    (4) Morozov denuncia a crença, que ele chama iPod liberalism, de que a inovação tecnológica promova a liberdade. Vejam-se, por exemplo: The Digital Dictatorship ou Political Repression 2.0, acesso disponível em Wikipedia, ou os livros The Net Delusion: The Dark Side of Internet Freedom (2012) e To Save Everything, Click Here: The Folly of Technological Solutionism (2014).
    (5) J. Lanier, You are not a gadget (2011) e Who Owns the Future? (2014).

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  • Psiquiatria 2.0: a tecno-colonização da mente

    Psiquiatria 2.0: a tecno-colonização da mente

    Quando, em 1952, José M. R. Delgado publicou os seus primeiros artigos científicos sobre a implantação de eléctrodos no cérebro, a lobotomia, desenvolvida pelos cirurgiões americanos como aperfeiçoamento da leucotomia pré-frontal (inventada em 1936 pelo A. Egas Moniz e que lhe valeu o prémio Nobel a 1949), era uma das técnicas médicas mais difundidas para tratar comportamentos definidos como doenças mentais, tais como a depressão, a esquizofrenia, os distúrbios obsessivo-compulsivos, entre outras. Uma das muitas vítimas desta abjecta prática foi Rose Marie Kennedy (irmã do presidente Kennedy) cujas mudanças de humor e livres relações com os homens impulsionaram as queixas do pai aos médicos que, em 1941, a mutilaram, constrangido-a a um estado vegetativo: a olhar para o vazio, incontinente e dizendo palavras sem sentido. Vis instituições e clínicas do terror continuaram com estas atrocidades até meados dos anos 80. Entretanto, querendo dar a sua contribuição ao progresso, Delgado implantava os seus stimoceiver em cérebros de chimpanzé, gatos, touros e humanos, demonstrando que é possível telecontrolar tanto as reacções motoras quanto as emotivas: foi-lhe possível induzir medo, raiva, luxúria, hilaridade, loquacidade e há um vídeo na internet com as imagens de uma tourada em 1963, em que Delgado toureia com um dispositivo telemático nas mãos. Um dos seus pacientes, que tinha tentado resistir aos estímulos, afirmou que a electricidade controlada pelo doutor era mais forte que a sua vontade. Chamado de technological wizard pelos colegas, Delgado concentrou a sua atenção no controlo da agressividade e na cura da epilepsia em sujeitos refractários aos fármacos. Acerca da primeira afirmou: “The old dream of an individual overpowering the strength of a dictator by remote control has been fulfilled, at least in our monkey colonies1. Em 1969, publica Physical Control of the Mind: Toward a Psychocivilized Society no qual afirmou que a conquista da mente irá produzir um humano melhor, menos cruel e mais feliz. Em 1970, os investigadores F. Ervin e V. Mark, em Violence and the Brain, sugeriram resolver por estes meios o problema das revoltas dos afro-americanos nos centros urbanos e em 1972, R. G. Heath tentou mudar através da estimulação eléctrica, a orientação sexual de um homossexual. Desde os anos cinquenta Heath, financiado tal como Delgado pelo exército, levou avante experiências com afro-americanos da penitenciária de Louisiana, que serviram como cobaias humanas. Ainda em 1972, numa audição perante o Congresso, o psiquiatra Peter Breggin, que combate até hoje os abusos da psiquiatria e da indústria farmacêutica, com especial atenção à medicalização das crianças, acusou estes cientistas de estarem a criar uma sociedade onde quem se desvia da norma é mutilado, definindo Delgado como o maior apologista do totalitarismo tecnológico. Em 1974, Delgado foi convidado a ajudar a organizar a escola de medicina da universidade de Madrid, e aí dedicou-se a métodos menos invasivos, como a alteração de estados emotivos através de capacetes dotados de eléctrodos. O seu último livro, de 1989, chama-se Happiness.

    Na sequela do projecto BRAIN Initiative (Brain Research through Advancing Innovative Neurotechnologies), lançado em 2013 pelo governo Obama e financiado com 300 milhões de dólares cada ano para dez anos, a DARPA (ver Mapa n.8 Dez.2014/Fev.2015) destinou 70 milhões de dólares à universidade da Califórnia de São Francisco (UCSF) e ao hospital geral do Massachusetts, para desenvolver implantações neuronais capazes de controlar as emoções dos pacientes psiquiátricos. Esta nova linha de investigação tem sido chamada “affective brain computer interfaces. Um dos investigadores assoldado é José Carmena, que depois de ter adestrado por anos macacos a mexer braços robóticos com a mente (mediante eléctrodos espetados no cérebro), convida-nos a imaginar a possibilidade de um mini dispositivo telemático interceptar os nossos impulsos neuronais, para por exemplo bloquear o desejo de álcool. Como explica Justin Sanchez, manager do programa da DARPA conhecido como Subnets (Systems-Based Neurotechnology for Emerging Therapies), os EUA estão a sofrer uma epidemia de doenças psíquicas e o aumento de três a quatro vezes no número de suicídios. Os veteranos de guerra que apresentam distúrbios pós-traumáticos (PTSD) também poderiam ser alvo de intervenção tecno-médica, sendo as crises de pânico de que sofrem ligadas à amígdala, área cerebral conexa às memórias emocionais. Influenciando as emoções e as percepções, os tecnocratas querem controlar o comportamento. O gigante dos dispositivos médicos Medtronic e a startup Cortera Neurotechnologies, uma spin-out do laboratório wireless da UC de Berkeley, fornecerão a tecnologia necessária, que, nos primeiros anos, será experimentada nos animais. Entretanto, o mercado dos estimuladores eletrónicos, tanto internos quanto externos ao cérebro, está em crescimento. Mais do que cem mil doentes de Parkinson já têm sido tratados com dispositivos da Medtronic e há dois anos a Food & Drugs Administration (FDA) aprovou a comercialização por parte da Neuropace de uma implantação para controlar as convulsões epiléticas. A facturação anual dos estimuladores neuronais vai à volta de 2.6 biliões de dólares. E com a injecção de dinheiro que vem da BRAIN Initiative, começou uma nova época de frenesim em torno das tecnologias, e desta vez o alvo são as nossas emoções, desejos e pensamentos.

    No âmbito europeu, o Human Brain Project responde à corrida ao armamento neurológico americano. O seu decenal objectivo, financiado com um bilião de euros, é a criação de um supercomputer replica of the human brain. Coordenado pelo israelita Henry Markral, este projecto foi alvo de uma petição assinada por mais de seiscentos cientistas e investigadores europeus (há um ano atrás) que, além de denunciar a falta de transparência na gestão do orçamento, protestam pelo facto desta iniciativa ter surgido como uma decisão tomada do alto, embora implique uma participação de cinquenta por cento dos custos por parte dos Estados singulares. Para os cientistas indignados, não é honesto propôr a construção do supercomputador como uma solução para os problemas concretos da saúde pública, ainda por cima faltando bases científicas consistentes.

    A ciência, sendo um empreendimento humano, sempre foi e sempre será alvo de controvérsias e brigas de poder. Vigiar a actividade da comunidade científica é uma tarefa política. Uma crítica da economia política da investigação científica é o mínimo que se pode fazer quando somos obrigados a pagar impostos e a ser afectados e arrastados pelas consequências das inovações tecnocientíficas. Vigiar e denunciar os abusos é a fase inicial de um processo de apoderamento do conhecimento e da sua organização social. Ficar na paranóia conspiratória é que não presta. Antes pelo contrário. Conspiremos em resposta às intrigas do poder. A ideologia transhumanista está a infiltrar-se nas instituições, influenciando o imaginário e explorando o trabalho de muitos. Por isto, não se podem aceitar, sem mais, as palavras do Delgado que dizia: “Pode-se evitar o conhecimento? Não se pode! Pode-se evitar a tecnologia? Não se pode! As coisas seguirão em frente apesar da ética, apesar das crenças pessoais, apesar de tudo”.

    Denunciar o enredo e o emaranhar actual de ciência, indústria, mercado, militares e política é uma maneira de salvar o potencial emancipador da ciência, contra os mitos, a arrogância e a ignorância opressora.

    1 O velho sonho de um indivíduo que domine a força de um ditador por controlo remoto foi concretizado, pelo menos nas nossas colónias de macacos.

    Texto de κοινωνία
    Ilustração de José Smith Vargas

  • O cibertotalitarismo que vem

    Em 2001 a administração Bush, secretamente, ordenou à NSA (Nacional Security Agency) que interceptasse as comunicações electrónicas dos cidadãos americanos, isentando-a da necessidade de obter os mandados previstos pelo direito penal dos Estados Unidos. O governo coloca em prática este programa clandestino justificando-se numa concepção extremista do poder executivo: para tutelar a segurança do país, o presidente pode desvincular-se de qualquer norma jurídica, eludindo os sistemas de tutela e garantia dos direitos civis e o dever de transparência. Interessante será recordar que uma das questões que levou à independência dos EUA. foi a luta contra a invasão da privacidade operada pelas autoridades britânicas: em consequência desta história, a constituição norte-americana sancionou, na sua quarta emenda, a inviolabilidade da privacidade, proibindo as rusgas e sequestros arbitrários. No entanto, já na primeira metade do século XX, o Bureau of Investigation (primeira encarnação do FBI) interceptava as comunicações telefónicas e telegráficas, vigiava o serviço postal e contratava informadores para controlar aqueles que contestavam as políticas do governo. Nos anos 70, uma investigação conduzida por Frank Church demonstrou que o FBI tinha registado como potenciais subversivos 500 mil cidadãos, que eram vigiados por causa das suas convicções políticas.

    O FISA Amendments Act, a actual norma que rege as práticas de vigilância da NSA, aprovada por um congresso bipartidário e no rasto do escândalo das intercepções não autorizadas da Administração Bush, tornou legal aquelas práticas inconstitucionais, ilibando a agência norte-americana da obrigação de obter mandados do tribunal para poder proceder a operações de espionagem. Este estado de excepçãotornado norma reduz os indivíduos a apólidas digitais.

    Um dos documentos secretos revelado por Edward Snowden demonstra a existência de um programa chamado PRISM, uma parceria secreta entre a NSA, agência estatal, com nove das maiores empresas privadas de serviços telemáticos, tais como a Microsoft, PalTalk, AOL, Facebook, Yahoo!, Apple, Google, Skype e Outlook. Quando a Yahoo! se opôs, em sede judiciária, a permitir o acesso directo às suas bases de dados, o tribunal obrigou à sua colaboração no PRISM, defraudando os seus utilizadores aos quais garantia o respeito pela privacidade.

    O objectivo de esmagar a dissidência e impor a obediência é uma característica comum a todos os regimes de poder: em reacção aos protestos populares das primaveras árabes, os regimes da Síria, Egipto e Líbia têm modernizado as suas próprias tecnologias de vigilância, adquirindo-as de empresas como a italiana AREA SPA, a francesa AMESYS ou a israelita CAMERO.

    Perante tais práticas generalizadas de abusos de poder, esfumam-se as clássicas distinções entre regimes democráticos e ditatoriais, conluiados pela mesma ambição de controlo total (Reino Unido, Canadá, Nova Zelândia e Austrália são as nações que mais estreitamente colaboram com a NSA, formando uma aliança denominada Five Eyes).

    No place to hide, Edward Snowden, the NSA and de U.S. surveillance state (Glenn Greenwald, 2014) revela um sinistro retrato do jornalismo oficial: a imprensa, como por exemplo o New York Times e o Washington Post, obedece as leis não escritasde vassalagem, manipulação e censura por parte do governo, traindo assim a sua missão de quarto poder. As políticas autoritárias, belicosas, inconstitucionais e contrárias aos direitos humanos têm sido umas vezes propagandeadas e outras ocultadas, e em qualquer caso legitimadas por uma máquina de produção de consenso ideológico que tem implementado, sob o comando do governo, uma estratégia de tensãomediática através de notícias perturbadoras ansiogénicas, exacerbando as ameaças terroristas e criando na opinião pública um estado de fobia patológica, induzindo-a a aceitar apaticamente tanto guerras de agressão quanto um regime policial de detenção, tortura e assassinato de americanos e estrangeiros, ramificado internacionalmente e desvinculado de qualquer procedimento de supervisão jurídica.

    Este estado de excepçãogeneralizado exibe a real natureza da soberania, desmentindo a retórica cidadanista dos democráticos. Assim como os migrantes são passíveis de ser alvo de dispositivos coercivos sem procedimentos jurídicos e sem ter cometido crime algum, e portanto apólidas tanto quanto os judeus e outras minorias na alvorada da II Grande Guerra, todos os indivíduos da comunidade virtualnão são formalmente cidadãos, nem pessoas, sendo este um conceito jurídico, mas apólidas digitais reificados: peças e mercadorias, controláveis, geríveis, substituíveis e elimináveis na engrenagem totalitária.

    A espectacular guerra ao Terrorismo não abrange apenas operações militares contra os Estados Canalhasmas implica também a renúncia dos direitos políticos e civis fundamentais. No clima de alarmismo retórico, em nome da segurança nacional, o jornalismo tem-se submetido ao poder executivo, a cuja censura deve sujeitar a informação de que tem conhecimento: quando tal não acontece, como no caso Snowden, quer o denunciante quer o jornalista são perseguidos penalmente.

    Não só o crime de opiniãocontinua a vigorar e o espírito crítico a ser ostracizado, como ainda a divulgação de factos históricos e informações objectivas é considerada crime que atentam contra a manutenção do status quo dominante.

    O que é premente salientar para caracterizar a novidadeda nossa época é a ubíqua presença de tecnologias informáticas, que torna possível uma monitorização total e indiscriminada da vida das pessoas. Não só a internet se tornou, para muitos, o ar que respiramos, vital nas suas multimediais funcionalidades comerciais, sociais e cognitivas como, através da proliferação de gadgets como os IP-Phones e as IP-Cameras (IP é o código identificativo dos dispositivos telemáticos), das próximas novidades do mercado ligadas à expansão da chamada Domótica (instalação de dispositivos informáticos nos mais variados electrodomésticos) e da monitorização informática dos espaços públicos (como é exemplo o projecto Future Cities, em desenvolvimento no Porto (1), a recolha, arquivamento e utilização de dados (conteúdos) e meta-dados (localização, hora, remetente, destinatário) de indivíduos insuspeitos de qualquer crime, tornar-se-á omnipresente. A transformação da realidade em dados acarreta uma forma de ditadura impessoal, automática, sistémica, infra-estrutural. Impossível escapar ao temor da instauração de uma forma de cibertotalitarismo planetário, capaz de influenciar as consciências e as identidades individuais e colectivas. Abundam estudos de psicologia que mostram como o comportamento das pessoas muda no momento em que estas se sabem ou sentem observadas: nesta situação as pessoas tendem a fazer aquilo que se espera delas, não ultrapassando os limites impostos, não tendo as condições para manifestar a sua própria autonomia de decisão e capacidades críticas. Apenas no respeito da privacidade podem garantir-se autênticas possibilidades de escolha assim a satisfação implícita do ser si próprios.

    Desde sempre o poder limitou e controlou a liberdade de escolha dos indivíduos, fazendo-os sentir-se observados através dos mais diversos dispositivos culturais, desde os espíritos do xamanismo ao deus único do monoteísmo, que nos vigia na mais profunda intimidade do nosso ser. O que hoje em dia parece ser novo não são as grotescas perversões humanas quanto os instrumentos tecnológicos para realizá-las. Conhecendo a plasticidade das estruturas das nossas mentes ao imprinting e experiências que nos ocorrem e reconhecendo a função educativaque os media e as tecnologias informáticas desempenham na era da atomização social, e a sua sempre maior invasividade, não é injustificado perguntar-se a que tipo de (des)umanidade poderão levar as actuais tendências tecno-políticas. Nesse sentido a privacidade e o seu esmagamento no actual panóptico digital é hoje em dia uma questão de relevância não só política e social mas também antropológica.

    NOTAS
    (1)
    ver artigo MAPA nr. 9

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  • Sê tudo o que podes ser

    Sê tudo o que podes ser

    transhuman

    “O futuro já chegou;
    mas não está uniformemente distribuído.”

    William Gibson

     

     

     

     

     

    Joel Garreau, com o seu Radical Evolution (2007), tenta fazer-nos abrir os olhos para as possíveis consequências das tecnologias GRIN – Genética, Robótica, Informática e Nanotecnologia. Ao ser entrevistado no documentário francês An monde sans humain (?), diz-nos que encontra sérias dificuldades em partilhar com os seus leitores a actualidade, a relevância e o alcance do fenómeno: “Se apenas 10% das investigações científicas em curso – diz – tivessem de dar resultados positivos, a natureza humana seria completamente transformada”; “Faz lembrar um tema dos livros de ficção científica, mas a linha que divide o imaginário do concreto é hoje mais subtil do que nunca”: parece incrível, mas está tudo a acontecer de facto! E não é fácil responder, psicologicamente e cognitivamente, de forma adequada à “mudança exponencial”, à “mutação” em acção.

    Grande parte dos super-poderes dos heróis de banda desenhada dos anos trinta e quarenta já existem ou estão a ser desenvolvidos (a “visão raio-x”, por exemplo, parece ter sido criada pela Camero, uma empresa israelita que afirma ter idealizado um sistema radar de forma a produzir imagens tridimensionais daquilo que se encontra entre paredes a uma distância de vinte metros, ou ainda o exoesqueleto que permite carregar pesos enormes, correr quilómetros sem fadiga ou saltar bastantes metros).

    Se até agora o desenvolvimento tecnológico estava voltado para o exterior, para o controlo do ambiente circundante, hoje a sua direcção está apontada, sem mediações, para a nossa mente, memórias, metabolismo, personalidade e descendência. Os agentes deste processo histórico encontram-se difundidos de forma tentacular na sociedade civil: através da dopagem no desporto (aguardando o doping genético), da cirurgia plástica, das clínicas de reprodução assistida, da investigação científica institucional no seu conjunto e, por fim, de todos os consumidores de inovações hi-tech.

    Seja como for, um dos aspectos mais controversos e inquietantes diz respeito ao poder, ao papel e às intenções dos militares. Ainda que a divulgação mediática insista na retórica filantrópica da cura das pessoas doentes ou com handicap, discurso que recebe o aplauso natural das pessoas, os mais sinceros profetas não excluem o advento de uma super-raça “aprimorada”: os primeiros candidatos são, para além dos mais ricos, o exército e as forças da ordem. O facto da tecnologia ser o volante da supremacia militar tornou-se ordem do dia da agenda das forças armadas estado-unidenses desde a Segunda Guerra Mundial, quando, através de calculadoras electrónicas, se tornou possível “simular” os efeitos de uma explosão atómica.

    Ainda que não seja a única das organizações envolvidas na criação de engenheira da humanidade que vem, hoje falaremos da DARPA – Defense Advanced Research Project Agency. A sua sede central, na Virginia, acolhida pelo Pentágono, encontra-se próxima dos grandes edifícios da National Science Foundation e da Federal Deposit Insurance Corporation, topografia que simboliza adequadamente o entrelaçamento dos interesses científicos, financeiros e militares. No seu plano estratégico encontra-se escrito que “o único estatuto é a inovação radical”, pesquisas de alto risco, de alto rendimento e que visam mudar o mundo. “Acelerar a gestação do futuro” é a sua razão de ser: não considerar nada impossível, desafiar mesmo as leis da física (sem falar na dos homens): nos primeiros anos da década de sessenta, J.C.R. Licklider, director das pesquisas de comando e controlo para a ARPA (progenitora da DARPA), formulou a visão de algo a que chamou Intergalactic Computer Network, algo que alterou desde já as nossas vidas (a Internet de hoje é o resultado transitório de uma evolução iniciada com a Arpanet, usada exclusivamente pelas instituições militares e académicas). O seu curriculum é conspícuo: pioneira da Internet e do correio electrónico, ajudou a financiar o rato, o sector da computer graphics, circuitos integrados de grandíssima escala, computadores que reconhecem a voz humana e traduzem línguas, as workstation informáticas, o sistema operativo Unix de Berkeley, a elaboração paralela massiva e o head-mounted display; foi protagonista no desenvolvimento do GPS, do telemóvel, dos sensores de visão nocturna, dos satélites meteorológicos, dos satélites espião e do foguete Saturn V que levou o homem à lua; colaborou na criação dos supercondensadores, células a combustível destinadas à próxima geração de automóveis, e da telecirurgia; no campo militar, todos os aviões, misseis, navios e veículos, incluindo os materiais e os processos produtivos, e tudo aquilo que tem stealth no nome, poderiam ter a marca “DARPA inside”; deu início a vários armamentos a raios, como as armas a laser, a feixes de partículas e a impulsos electromagnéticos; e às legiões de robots aéreos, terrestres e marítimos, entre os quais o drone Predator, que no ano 2002 foi o primeiro robot da história a incinerar seres humanos. A DARPA promove as instituições necessárias à realização do futuro por ela auspiciado e investe 90% do seu orçamento na universidade e na indústria: a NASA é uma filiação sua; o MIT, a Stanford e a Carnegie Mellon, centros académicos fundamentais no desenvolvimento da tecnologia de informação, estão unidas graças à DARPA; contribuiu para a promoção da Sun Microsystems, da Silicon Graphics e da Cisco System; e intervém no estabelecimento do protocolo TCP/IP, que é o fundamento da Internet.

    darpa-robotic-mission-startsHoje em dia, a DARPA ocupa-se da criação de seres humanos melhorados, imunes a limitações físicas, fisiológicas, emotivas e cognitivas, capazes de comunicar apenas com o pensamento, com corpos montáveis e reparáveis, com “aprendizagem instantânea”, soldados que “serão no futuro a chave da sobrevivência e do predomínio operativo” e a “nossa futura força histórica”, como diz M. Goldblatt, ex-dirigente do DSO – Defense Sciences Office – da DARPA, pai de uma rapariga com paralisia cerebral e um entusiástico apoiante das (ameaçadoras) promessas encerradas na realização do Belle, o primeiro símio telecinético. Belle, num laboratório da Universidade de Duke na Carolina do Norte comanda, através dos impulsos eléctricos emitidos pela sua mente, dois braços robóticos situados no Massachussets. Em Dezembro de 2013, um parágrafo do Público informou-nos do estado da arte desta pesquisa: uma símia, desta vez, telecomandou não um braço mecânico, mas o de uma outra símia.

    O objectivo final perseguido é criar uma conexão entre diferentes tipos de inteligência, seja artificial ou humana, entre máquinas e mentes, em todo o lado (programa primeiramente denominado Brain-Machine Interface e posteriormente chamado Human Assisted Neural Devices). Poder canalizar os conteúdos de um dispositivo telemático para a mente do seu utilizador, tornar “acessível” às nossas mentes os conteúdos da cloud instantaneamente e, porque não, tornar acessível os conteúdos das nossas mentes! Este são os objectivos do programa de desenvolvimento de tecnologias “neuroprotéticas” promovido sob a égide da ajuda aos veteranos de guerra ou a outra vítimas de distúrbios que afectam o sistema nervoso, como os paraplégicos.

    Deve salientar-se, para compreender o estado de desenvolvimento destas tendências distópicas da tecnociência, que foi através dos trabalhos pioneiros do neurólogo José Delgado que se conseguiu, nos anos sessenta, telecomandar pela primeira vez um rato (para além da estimulação motora era também efectuada a estimulação da serotonina) e, a seguir, um touro (é possível encontrar as imagens de uma corrida em cujo toureiro era o próprio Delgado com um joystick em vez das farpas). Num artigo de 1968, Delgado declarava: “a radioestimulação de diferentes pontos na amígdala e no hipocampo nos quatro pacientes, produziu vários efeitos, incluindo sensações de prazer, exaltação, uma concentração pensativa e profunda, sentimentos estranhos, um super-relaxamento, visões coloridas, entre outras respostas”[ref]Intracerebral Radio Stimulation an recording in Completely Free Patients, Journal of Nervous and Mental Disease, Vol. 147(4), 1968, 329-340. [/ref]. O filósofo alemão, P. Sloterdijk, numa conferência em Roma em 2004, declarou que dentro de poucos anos servirão capacetes blindados para proteger os próprios pensamentos.

    Alguns funcionários da Comissão Orçamental do Senado americano redefiniram os financiamentos à DARPA, por causa do carácter sinistro dos muitos projectos que sugerem a intenção de criar uma raça padrão de super-homens. Depois de uma breve tempestade, o sigilo sobre os financiamentos e sobre os projectos da DARPA aumentou drasticamente e a direcção do DSO é assumida por um oficial da US Air Force, S. Wax, e por um pediatra de fama mundial, B. Giroir, oficial sanitário na direcção da Children’s Medical Center de Dallas, encarregado de resolver as questões éticas, sem renunciar às potencialidades do futuro e à vontade de “fazer do mundo um lugar melhor”.

    Depois de terminar o seu mandato como dirigente da DSO, Goldblatt passou a trabalhar com a Functional Genetics, fundada por S.N. Cohen, a quem se atribuiu, conjuntamente com H. Boyer, o início da indústria da engenharia genética em 1973. Os dois transformaram a medicina molecular, demonstrando ser possível inserir o DNA de um organismo nas células de um outro. O objectivo dessa companhia é remover ou desactivar os genes que desempenham um papel na propagação das doenças. Um dos seus projectos de pesquisa visa a criação de uma raça de suínos que seja imune à febre suína africana. Quando Garreau lhe pergunta se esta pesquisa “terapêutica” pode abrir o caminho para uma raça de humanos aperfeiçoados, Goldbaltt, excitado, responde: “Exacto, é algo muito parecido.”

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  • “Terminator Studies”

    “Terminator Studies”

    terminator_studies2Desde 2011 que o projecto “Terminator Studies”  funciona como um observatório do cenário catastrófico de Terminator (“O Exterminador Implacável”, na versão portuguesa), filme realizado há trinta anos por James Cameron. Rompendo a linha temporal dos acontecimentos, parte da ciência e da ficção para criar um arquivo de acontecimentos, produzindo assim uma cartografia subjectiva. Este texto segue alguns passos do mapeamento criado pelo projecto.

    «Uma vantagem assinalável destas máquinas é a constante vigilância que elas exercem sobre a distracção, a negligência e a preguiça do homem» – Charles Babbage, Tratado sobre a economia das máquinas e das manufacturas, Paris, 1833

    A ideia de «risco tecnológico» surgiu em 1945, quando um grupo de génios da época fez surgir a bomba atómica. Alguns desses homens foram também responsáveis pela cibernética pioneira, pela inteligência artificial e pela ciência informática, que nos dominam e ameaçam nos dias de hoje.

    Cientistas de vários horizontes, investigadores, jornalistas, peritos, investidores e activistas, todos concordam que o actual desenvolvimento tecnológico constitui, mesmo a curto prazo, uma ameaça à espécie humana. Muito frequentemente, a referência cultural para falar deste tema é o filme de 1984, “Terminator”.

    William Wisher, co-argumentista do filme, em conjunto com Cameron, confessou numa entrevista recente que se inspirou no trabalho da DARPA, a agência de desenvolvimento tecnológico de defesa norte-americana, para escrever o argumento do filme.

     

    A indústria da distracção

    De Reagan a Schwarzenegger, ambos actores famosos tornados governadores, a fusão entre entretenimento e política sempre foi uma realidade integrada na Califórnia. «O entretenimento faz parte da nossa diplomacia americana» disse Barack Obama em 2013, durante um encontro no quartel-general da DreamWorks , um dos maiores estúdios norte-americanos de cinema e entretenimento  e, simultaneamente, uma das maiores doadoras da última campanha presidencial de Obama.
    Por isso, quando a Wikileaks publicou milhares de documentos diplomáticos confidenciais, coube à Dreamworks produzir The Fifth Estate, um thriller baseado nos factos controversos relacionados com a revelação de milhares de ligações secretas. Enquanto isso, Julian Assange, o rosto mediático relacionado com o fenómeno Wikileaks, não está de todo descontente com a sua personagem nos Simpsons:

    «Quando os Simpsons fazem qualquer coisa contigo não pode ser completamente mau.»

    Pouco tempo passado e já a vida de Edward Snowden, o agente da NSA (Agência Nacional de Segurança norte-americana) ,que recentemente pôs a boca no trombone em relação aos esquemas e ao alcance da vigilância da dita agência , e que agora vive grande parte do seu tempo no interior de um robô de tele-presença, inspirou um livro cujos direitos de adaptação cinematográfica foram imediatamente comprados pelos produtores de James Bond.

    A CIA, que durante a Guerra Fria dos anos 50 e 60 usou a arte moderna como arma ideológica contra a URSS, aprovou em 2012 o argumento do filme que narra a captura de Osama Bin Laden, produzido por Megan Ellison, filha de um dos magnatas de Silicon Valley, zona californiana conhecida pelas indústrias de desenvolvimento tecnológico, e que recentemente comprou o franchise de “Terminator”.

    «Estamos a construir o Homem-de-Ferro» declarou também o presidente norte-americano, desta vez durante um congresso sobre inovação. O que acontece é que não só Hollywood é a maior empresa de exportação norte-americana, como o cinema e a inovação técnico-militar parecem trabalhar lado a lado.

    Hollywood tem uma longa história de receber estímulos e apoio logístico de vários sectores do exército dos Estados Unidos: por exemplo, o laboratório ICT, fundado por militares, é frequentemente premiado pela qualidade dos seus efeitos especiais em filmes de acção.

     

    We are the Robots

    Se a imagem musculada do Super-Homem é frequentemente associada a personagens cyborg ficcionadas , Jéremie Zimmermann, um defensor das liberdades na Internet, assinala, num artigo de Maio de 2014 que estamos actualmente a viver uma era cyborg:

    “Funções básicas dos nossos corpos, tais como comunicar, recordar, reconhecermos-nos, as nossas memórias pessoais e partilhadas e a maior parte dos nossos trabalhos são agora inseparáveis das funções das máquinas.”

    A vigilância tornou-se comum à necessidade da população de tudo registar, tornando-nos assim a todos empregados voluntários das corporações californianas, que estão actualmente a construir um império com o conhecimento que lhes fornecemos, ou, por outras palavras, com o que nos retiram à nossa privacidade.

    Os “Jetsons” deram-nos o sonho dum robô desenhado para nos ajudar. Com o “The Terminador” deram-nos o pesadelo duma máquina desenhada para matar. Aparentemente o futuro está aqui” – CNN, 05/14/2014

    Trinta anos após o filme, a Google adquiriu as máquinas de guerra da DARPA, ao mesmo tempo que uma campanha contra os “robôs assassinos”, lançada pelo Professor Noel Sharkey, está a iniciar um debate nas Nações Unidas, na presença de representantes de todos os países, solicitando a possibilidade de os banir. A Google torna-se assim Skynet, o antagonista de «O Exterminador Implacável», uma máquina criada pelo homem que luta pelo domínio do planeta.

    Vivemos agora num mundo onde as pessoas são assassinadas à distância com base na sua meta-informação. Do “Capitão América” ao “Toy Story”, do “Apelo do Dever” ao “Assassinato Colateral”, do “Terminator” ao Google, a fronteira entre informação e entretenimento, jogos de vídeo e crimes de guerra, privacidade e vigilância, alucinação e realidade, está a desaparecer.

    As formas de inteligência artificial que hão-de vir, tal como as corporações as estão a desenhar, irão necessitar de cada vez menos seres humanos e apenas do mais aptos, mais previsíveis e mais bem entretidos. Ou como Bill Joy disse em 2000: «O futuro não precisa de nós».

    Texto: JBB
    Ilustração: Binau