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  • Felizmente continua a haver luar (Abril/Junho 2024)

    Felizmente continua a haver luar (Abril/Junho 2024)

    Álbum Americano.

    Acerca do sindicalismo em tempos soturnos

    Andamos às voltas em Somerville, um subúrbio de Boston, à procura da rua onde há um restaurante português que nos haviam recomendado. Chove a cântaros. Num terminal de autocarros, abordo um motorista, um jovem afro-americano com um sorriso simpático. ‒ «Mano, não faço a mínima ideia. Nem sequer sei onde estamos! Vou começar o meu turno, mas deixámos de estar fixos numa carreira. Estamos entregues ao acaso. De manhã, não sei onde me põem e, à noite, quando acabo o meu turno, não sei onde estou. É tudo uma questão de flexibilidade, pá! Já não sabemos os nossos percursos, já não vemos os clientes habituais desta ou daquela linha. É muito cansativo, dia após dia, uma tensão constante. Não vou aguentar muito tempo. Já estou farto. Destruíram o serviço. E depois põem um cartaz a dizer: Help wanted (Estamos a contratar).» Um discurso bem conhecido, que reflecte a generalização das formas de exploração no capitalismo global.

    Sim, o Help wanted está visível em todo o lado. Mas nunca se fala dos salários ou das condições de trabalho. Ao mesmo tempo, vêem-se pessoas a vaguear pela rua, a mendigar, pessoas que não trabalham, que nunca vão trabalhar, dessocializadas, perdidas. Visto de fora, o mundo do trabalho surpreende pela sua despreocupação, com uma abundância de empregados nos estaleiros, nos serviços, nas lojas e na rede de transportes. Salários baixos, claro! Depois da «Grande Demissão», veio a grande desilusão. Em Nova Iorque, os controlos no metro são mais do que raros; em Boston, também no metro, os trabalhadores precários vagueiam sem entusiasmo nas plataformas, com coletes vermelhos onde se lê: «Embaixadores do serviço de transportes ao vosso serviço». Ainda em Boston, quando nos preparávamos, já atrasados, para apanhar o comboio para um encontro em Salem com uma bruxa conhecida, foi o próprio controlador de bilhetes que nos abriu as portas da plataforma ‒ que se lixe o bilhete, pagam da próxima vez. Num restaurante em Greenfield Massachussets, algumas palavras em espanhol e o rapaz da Guatemala muda a sua atitude distante: «Este é um país de loucos e eles querem tornar-nos a todos loucos. Por isso, amigo, tranquilo, tranquilo». Alguns dias depois, em Manhattan, ao balcão de um bar em frente ao Hudson, em Battery Park, onde nos refugiámos para encontrar um café barato por 5 dólares (!), o empregado argentino fala-nos da batalha perdida pela reforma aos 62 anos (!): «Que pena, teria sido um bom exemplo para nós. Aqui, vou ter de trabalhar até morrer!» Um cliente sentado ao nosso lado interpela-nos: «Somos o país mais rico do mundo, devíamos deixar de trabalhar aos 40 anos e é exactamente o contrário». E oferece-nos o café.

    Não vamos generalizar, mas o facto é que, cinco anos após a nossa última visita, sentimos uma falta de motivação entre as pessoas que trabalham, não respeitam as regras, adaptam-se sem acreditar nelas. Assistimos ao fim de uma era, está tudo a ir por água abaixo, é um salve-se quem puder. As violentas disparidades de rendimentos e a coexistência da pobreza e da riqueza parecem ser o único horizonte prometido. E a questão social está de novo na ordem do dia.

    Existe um fosso entre a força colectiva e a capacidade de auto-organização.

    Um amigo meu observou que, nos últimos anos, voltámos a utilizar a linguagem de classe. Falar de capitalismo, exploração e classe já não choca muita gente. Agora, os trabalhadores do sector automóvel entraram no debate. A sua greve está nas primeiras páginas do Wall Street Journal e do New York Times. E a fotografia de Shawn Fain, o novo presidente do sindicato, com uma t-shirt com o slogan de Occupy, «Comam os ricos», chocou as pessoas respeitáveis. Depois da greve de Hollywood, num contexto de sucessivos conflitos muito duros ‒ como, em Outubro, a greve de 75 000 trabalhadores do grupo privado de saúde Kayser ‒ a greve do sector automóvel adquiriu uma importância considerável. Reflecte, sobretudo, a radicalização da atitude de alguns trabalhadores face às forças capitalistas, num contexto de empobrecimento generalizado e de aumento violento das desigualdades sociais.

    Como em toda a parte nas sociedades do velho capitalismo, o sindicalismo está em crise na América do Norte. Após anos de concessões e de sacrifícios à custa de promessas nunca cumpridas pelos capitalistas, as forças sindicais enfraqueceram. O espaço de negociação diminuiu: negociar o quê? O empobrecimento? Burocracias gigantescas revelaram-se máquinas de corrupção, cada vez mais separadas da base sindical. Actualmente, a taxa média de sindicalização é de cerca de 10%, dos quais 6% no sector privado. A indústria automóvel é um bom exemplo. Apesar da tendência permanente para a desindustrialização, este sector tinha mantido uma mão-de-obra estável em relação ao conjunto dos operários da indústria, tendo mesmo o número de empregos no sector automóvel aumentado 40%. A taxa de sindicalização, por sua vez, registou uma queda vertiginosa, passando de 59% em 1983 para 16% em 2022. Tudo isto reflecte a reestruturação da indústria e a deslocalização de novas fábricas (com capitais alemães, chineses e coreanos) de produção de automóveis eléctricos para os Estados do Sul, onde os salários são baixos e a mão-de-obra menos combativa. Os sindicatos são raros e as convenções colectivas não se aplicam. Actualmente, apenas 50% dos automóveis produzidos nos Estados Unidos são fabricados por trabalhadores abrangidos pelo acordo colectivo do UAW (United Auto Workers). Os salários baixaram 20% nas últimas duas décadas e as condições de trabalho estão a piorar, com uma percentagem significativa da mão-de-obra em empregos precários, recebendo salários 50% inferiores aos dos trabalhadores sindicalizados. A longo prazo, esta é uma evolução mortal para o sindicato. A corrupção, alimentada pela cultura da negociação, corroeu a máquina. Em 2021, o governo federal foi obrigado a intervir juridicamente para limitar a corrupção. A facção da oposição dentro do sindicato, o UAWD (D de democrático), ganhou o direito a uma votação directa para eleger a nova liderança. Até então, a nova direcção tinha sido eleita dentro da própria máquina, por delegados e funcionários apoiantes da direcção. Foi assim que Shawn Fain, o homem que nos encoraja a comer os ricos, foi eleito presidente do UAW em Março de 2023. Antigo electricista da Chrysler (hoje Stellantis) e opositor ferrenho da política de concessões, Fain tornou-se uma figura nacional popular. Oriundo de um meio protestante de esquerda, utilizou um discurso de classe combativo, de influência bíblica, centrado no igualitarismo e na crítica aos ricos e poderosos. Os patrões, preocupados com esta mudança de atitude, estão a tentar reposicionar-se e contra-atacar. Os patrões das três grandes empresas (Ford, GM e Stellantis) recorreram à chantagem, acusando os grevistas de estarem a fazer o jogo dos seus concorrentes, Toyota e Tesla, ao mesmo tempo que minimizavam o carácter radical da retórica de Fain. Para o patrão, William Clay Ford Jr., «uma parte desta retórica é teatro, ou seja, uma forma de a nova direcção manter uma base descontente». E acrescentou: «Fazemos todos parte da mesma equipa. Conheço pessoalmente alguns dos negociadores do sindicato. Jogamos hóquei juntos e considero-os amigos chegados» (New York Times, 22/10/23). Basicamente, o que é importante e novo, de contornos incertos, é o estado de espírito sobreexcitado da base da classe trabalhadora. O próprio Trump, durante uma rápida visita eleitoral a uma pequena fábrica ‒ não sindicalizada, claro ‒sentiu-se obrigado a elogiar Fain de forma paternalista: «O vosso novo chefe é um bom tipo.» E acrescentou: «Tudo o que os vossos líderes sindicais têm de fazer é apoiar-me e, assim que for eleito, tratarei do resto!» (NYT, 29/09/23). Ao mesmo tempo, voltou a bater na tecla absurda de que os carros eléctricos (e, portanto, os defensores do clima…) são responsáveis pela crise da indústria automóvel americana e pelo desemprego dos trabalhadores. Biden e os democratas, por outro lado, apresentaram o argumento oposto para justificar políticas proteccionistas.

    Andre Lémos

    Esta greve, que durou mais de um mês, pode ser vista como um sinal forte da renovação do sindicalismo americano (Entrevista com Clément Petitjean, por Romaric Godin, no Mediapart, 30/09/23). Mais do que uma renovação, trata-se de uma primeira consolidação face a um declínio contínuo. No final da greve, no início de Novembro, temos de reconhecer que os ganhos obtidos foram substanciais e raros, tendo em conta as relações de classe em geral. Incluíam um aumento salarial de 25% em 4 anos, o regresso à indexação dos salários à inflação, a conversão de contratos a prazo em contratos por tempo indeterminado, com aumentos salariais substanciais no espaço de alguns anos, e o controlo sindical sobre o encerramento de fábricas e os investimentos futuros. Este é o preço que os empregadores, sob pressão da concorrência, estão dispostos a pagar para travar o movimento. Para o sindicato, a vitória tem de ser consolidada. Para que a situação penda a favor dos trabalhadores, a adesão ao sindicato deve aumentar e, sobretudo, estender-se às outras empresas que dominam o mercado dos novos automóveis eléctricos, da Mercedes à Tesla. Os trabalhadores dos Estados do Sul devem aceitar a presença sindical do UAW. Isto está longe de ser um dado adquirido. É claro que a vitória desta greve é estimulante, mostra que a luta colectiva pode dar frutos. Alguns construtores já estão a aumentar os salários para minar o apelo da sindicalização. Coisa que não desagrada aos três grandes.

    Nos Estados Unidos, na indústria automóvel como noutros sectores, as greves são hoje mais duras e a determinação é mais forte, face ao empobrecimento geral, à violência das condições de vida das classes trabalhadoras e à arrogância indecente da riqueza que cresce a olhos vistos. A inflação galopante está constantemente a corroer o nível de vida. Os dirigentes sindicais corruptos estão a dar lugar a outros mais empenhados, e as tendências de esquerda nos sindicatos estão muito presentes e são ouvidas.

    Nos Estados Unidos, na indústria automóvel como noutros sectores, as greves são hoje mais duras e a determinação é mais forte, face ao empobrecimento geral, à violência das condições de vida das classes trabalhadoras e à arrogância indecente da riqueza que cresce a olhos vistos.

    Do ponto de vista da força colectiva dos trabalhadores, da sua capacidade de autonomia, o quadro é mais obscuro. Nos Estados Unidos, o empenhamento dos trabalhadores nas lutas, a sua participação nos piquetes de greve e, inversamente, o seu respeito pelos piquetes de greve dos outros trabalhadores, são evidentes. Em contrapartida, esta energia quase nunca se encontra nas formas de auto-organização, continuando a ser regra o respeito pelo modo de funcionamento do sindicato. Existe um fosso entre a força colectiva e a capacidade de auto-organização. Ocasionalmente, a actividade autónoma ou independente pode ser vista nas redes de apoio logístico aos grevistas. Foi o que aconteceu durante as greves dos professores, em que se assistiu muitas vezes à solidariedade dos colectivos de pais. A submissão aos aparelhos e aos seus funcionários, os «organizers», como são chamados, continua a ser um facto marcante. Por altura desta greve no sector automóvel, falou-se nas grandes greves de 1936-37 em Flint, no Michigan, que se caracterizaram pela ocupação (Sit-Down Strikes) das fábricas da General Motors. Este movimento tinha permitido que o UAW conseguisse uma implantação forte no sector. No espaço de um ano, o número de membros do UAW passou de 30 000 para meio milhão. Desta vez, a greve não apelou à auto-organização, nem sequer à acção dos grevistas, para além da formação dos piquetes. O modo de acção manteve-se burocrático. As decisões de fazer greve de surpresa, nesta ou naquela fábrica ‒ inegavelmente muito eficazes ‒ foram tomadas pelo aparelho sindical sem consultar os trabalhadores. Estes eram informados (por SMS), por vezes apenas algumas horas antes da greve. O sindicato continua a ser o horizonte último, e as lutas permanecem dentro dos limites do mundo tal como ele é e tal como se reproduz. A ausência de actividade colectiva de base não permite o desenvolvimento de novas relações sociais. A esquerda sindical, a esquerda socialista ‒ que está a fazer «entrismo» na velha máquina do Partido Democrata, com Bernie Sanders à cabeça ‒ estão a colocar todo o seu empenho no reforço das tendências reformistas dos sindicatos. Dão mais vida à actividade sindical de base, mas continuam a funcionar de acordo com princípios políticos hierárquicos, com a energia da comunidade em luta canalizada para o aparecimento de novos líderes. É este, de momento, o estado de consciência dos trabalhadores, tal como está expresso na vaga de greves nos EUA.

    ***

    Num restaurante tibetano em Courtelyou Rd, em Brooklyn, uma jovem está a conversar com uma amiga. Tem vestida uma T-shirt que diz «No more Police». Olhares cúmplices. Poderíamos levar uma mensagem como esta para as ruas e restaurantes de uma cidade francesa ou europeia? A afirmação de ideias no espaço público é comum. Não são raros os cartazes «Black Lives Matter». Por vezes também «Support the Police»… Estes estão certamente mais difundidos no Sul e no Centro-Oeste conservadores do que nas ruas das cidades da Costa Leste. Mais arrepiante é o cartaz afixado à entrada de uma quinta no norte rural do Vermont: «A melhor maneira de encontrar Deus é através da oração, a maneira mais rápida é tentar invadir a nossa propriedade!» Para bom entendedor… Um amigo que nos acompanha assinala um segundo cartaz que exalta a qualidade biológica da carne produzida. Nobody is perfect!

    Apesar de tudo, são tempos difíceis para a polícia! Vejam-se as perigosas condições de trabalho dos agentes dos serviços secretos que protegem o Presidente da maior democracia do mundo. Mordidos gravemente, em duas ocasiões, por um cão descontrolado, o cão do Sr. Biden! Perante o perigo, a administração afastou o animal da Casa Branca. A polícia de Nova Iorque, um dos maiores exércitos do mundo, pensa ter encontrado uma solução. Eis o K5, um robô policial «totalmente autónomo» que em breve estará de serviço na estação de Times Square. Dotado de quatro câmaras e repleto de dispositivos de segurança de alta tecnologia, o robô, já em serviço em hospitais e casinos, é o queridinho de Adams, o presidente democrata da Câmara Municipal, ele próprio um antigo polícia. Este elogia o desempenho e o baixo custo do espécime: «O K5 custa-nos 9 dólares por hora. É menos do que o salário mínimo, não vai à casa de banho, não faz pausas para comer» (NYT, 23 de Setembro). Mas nem todos partilham do seu entusiasmo. Há quem se preocupe em saber se o K5 tem bons travões, se pode impedir ser empurrado para os carris.

    Estamos a viver uma época «fantástica», mas, nestes tempos sombrios, o futuro não está garantido.

     


    Ilustraçōes de  André Lemos


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #41, Abril|Junho 2024.

  • Felizmente continua a haver luar (Julho/Setembro 2024)

    Felizmente continua a haver luar (Julho/Setembro 2024)

    Álbum americano.

    Os maus e os bons imigrantes

    O Partido Republicano, agora dominado por um Trump que tornou cativa a sua base, opõe-se à continuação da ajuda à Ucrânia porque quer afectar o dinheiro à «verdadeira defesa da América»: a «guerra contra a imigração» e a «segurança da fronteira sul». A questão da imigração entrou, assim, no debate sobre a guerra. Os mesmos republicanos erguem-se agora, antecipadamente, contra a possibilidade de os palestinianos que escaparam ao massacre encontrarem refúgio nos Estados Unidos! Numa entrevista a um blogue racista, Trump acrescentou mais uma camada de teoria medieval: «Os imigrantes estão a envenenar o sangue do nosso país.»

    As multidões, crianças e velhos, mulheres e homens, actualmente nos caminhos do exílio, em busca de condições de sobrevivência, são um dos aspectos mais violentos da presente decadência do capitalismo. As guerras e as crises climáticas, as destruições, os massacres, as catástrofes e os colapsos políticos estão na origem da ruína das sociedades. Nos Estados Unidos, tal como na Europa, em África e na Ásia, os poderes estabelecidos, co-responsáveis por estas catástrofes, tentam encontrar uma saída isolando-se. Rejeitando o Outro. Os muros, as separações de todo o género, são a expressão do pensamento político mais primário. Sabemos que as separações não protegem nada nem ninguém, aumentam o sofrimento e não impedem o movimento das populações que nada têm a perder, porque já perderam tudo, excepto a esperança de sobreviver. Políticas que, além do mais, beneficiam as máfias e os bandos que «rentabilizam» o comércio de seres humanos. A actual administração democrata prima pela hipocrisia. Depois de ter feito promessas demagógicas, Biden prossegue as mesmas políticas que os seus antecessores, deportando pessoas a todo o momento e continuando a construir o muro entre o México e os Estados Unidos, enquanto afirma que o muro «é ineficaz» e que não é uma solução séria para o problema! A catástrofe está a alastrar e o fluxo de pessoas que fogem para a «terra prometida» não pára de crescer. Desde 2021, um recorde de dois milhões de pessoas atravessaram a fronteira sul (The Boston Globe, 6/10/23). Só em 2023, mais de 400 000 pessoas já entraram no país, 200 000 em Setembro, e todos os dias há, em média, 8000 novos pedidos de asilo. Nos últimos anos, o colapso de um grande país como a Venezuela agravou esta tendência. A fraude do socialismo bolivariano atirou centenas de milhares de pessoas para o exílio. Quase meio milhão de venezuelanos já se encontram nos Estados Unidos. Representam uma grande parte dos recém-chegados. Depois da classe média, são agora os proletários que tentam atravessar a pé a selva, a caminho do Norte. A actual administração acaba de criar um estatuto especial para os venezuelanos, mas também para os cubanos e os haitianos, que, por sua vez, fogem de um país onde os bandos substituíram o Estado. O objectivo é conceder-lhes uma autorização de residência temporária com direito a trabalhar, a fim de aliviar os centros de acolhimento.

    Uma América onde «o sonho» se desfez, onde a pobreza branca também se generaliza. Os recém-chegados são confrontados com esta nova realidade, encontrando-se em concorrência com outros pobres.

    As pequenas cidades fronteiriças do Sul dos Estados Unidos não conseguem fazer face à vaga de refugiados. Em Eagle Pass (Texas), uma pequena cidade de 28 000 habitantes, chegam mais de 10 000 pessoas por semana. O único abrigo para imigrantes está sobrelotado e as organizações de ajuda não têm recursos. O presidente da Câmara declarou o estado de emergência… (Wall Street Journal, 22/09/23). Nas grandes cidades da Costa Leste, para onde a maioria dos imigrantes se dirige na esperança de encontrar refúgio, trabalho e alojamento, bem como apoio para os seus filhos, os serviços sociais estão sobrecarregados. Os autarcas estão a pedir recursos adicionais ao governo federal. Com efeito, a lei determina que as cidades são obrigadas a dar abrigo aos imigrantes que se registam.

    Em todos os Estados Unidos, a população imigrante é já omnipresente no funcionamento da sociedade, dos serviços à construção, da agricultura à indústria. Os proletários da América Central, e agora também da América do Sul, mantêm a máquina económica a funcionar. Uma América onde «o sonho» se desfez, onde a pobreza branca também se generaliza. Os recém-chegados são confrontados com esta nova realidade, encontrando-se em concorrência com outros pobres. Por sua vez, para a classe capitalista, a imigração continua a ser uma dádiva de Deus, um factor económico de rentabilidade. A aspiração de «sobreviver» transforma os recém-chegados em presas fáceis de explorar, enquanto os «pobres autóctones» estão, na maior parte das vezes, demasiado destruídos para trabalhar. A classe política voga na indecência, fazendo equilibrismo entre o sofrimento dos que já não podem viver e o dos que querem viver. Durante uma sua visita ao México, o presidente da Câmara de Nova Iorque tentou demolir a miragem do sonho americano, avisando os futuro imigrantes de que uma vida de miséria os esperava no Norte. Sugere mesmo que o afluxo de imigrantes cria um «ambiente de desespero» e tem «um impacto no roubo de lojas» (NYT, 19/10/23). Não é certo que isso seja suficiente, há graus de miséria mais ou menos suportáveis. Depois de uma refeição bem regada, o homem foi discursar num Fórum Empresarial Americano-Mexicano, convidando as startups mexicanas a deixarem a Cidade do México e a instalarem-se em Nova Iorque! Os maus e os bons imigrantes.

     


    Ilustração [em destaque] de  André Lemos


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #42, Julho|Setembro 2024.

  • Felizmente continua a haver luar (Março/Maio 2021)

    Felizmente continua a haver luar (Março/Maio 2021)

    Quando o sonho americano se transforma em pesadelo

    Numa entrevista recente a uma revista francesa, diz o escritor irlandês-americano Colum McCann: «Ninguém sabe o que poderá vir a passar-se nos próximos anos nos Estados-Unidos da América. É exactamente isso que cria e alimenta o medo. Nenhum de nós sabe como será o futuro próximo. Ninguém tem a mínima ideia. E isso é verdadeiramente uma situação nova. Até agora as coisas eram claras: mudava-se de presidente e de administração, e o novo presidente aplicava o seu programa eleitoral, (…). Agora, temos de ter em consideração as decisões tomadas por Trump durante os últimos quatro anos, mas sobretudo este clima de incerteza, inédito, que reina no país. (…) Temos de ser lúcidos: vivemos actualmente em dois países diferentes (…) estes dois países já não se compreendem. Já nem sequer comunicam entre si. (…). Alguns intelectuais, nos quais tenho confiança, estão convencidos de que a próxima década verá o fim deste país, os Estados-Unidos da América, tal como o conhecemos. (…) é uma hipótese séria que não podemos totalmente pôr de lado tendo em conta o clima que reina actualmente» [ref] Colum McCann, «Le grand entretien», America, n°16, Inverno 2021.[/ref]. A inquietação do escritor traduz bem o sentimento partilhado por sectores importantes da sociedade americana. Depois da queda do bloco capitalista de Estado, a crise americana, que está ainda em desenvolvimento e que se agrava com as consequências económicas e sociais da pandemia, constitui provavelmente o acontecimento maior do princípio do novo século, com consequências planetárias evidentes. McCann sublinha que o consenso de crença na «democracia americana», que era o cimento interclassista da sociedade, se desmoronou, deixou de existir. A nova administração tudo fará para tentar restabelecer este «interesse geral» interclassista, mas os fundamentos da «democracia americana», a ideia segundo a qual a vitalidade do capitalismo americano cria condições para uma prosperidade partilhada por todos, já não existem. Sobre as ruínas da vitalidade do capitalismo americano, emergem agora os interesses díspares, opostos, antagónicos, de sectores e de classes sociais diversas atravessadas por questões raciais que se misturam às questões de classe e que estavam contidas por essa ideia da «democracia americana». A ideia do «cada um por si», da defesa egoísta do pouco que se tem contra os que nada têm, substitui, pouco a pouco, a ideia do consenso geral interclassista indispensável a um funcionamento minimamente conflituoso do capitalismo. Tudo isto tendo como pano de fundo uma crescente desigualdade de riqueza na sociedade que, há anos atrás, o movimento Occupy denunciou com radicalidade.

    Sem entrar de forma mais aprofundada na análise destas questões, pensamos que seria uma boa introdução dar a palavra a alguns camaradas americanos que viveram em directo e de perto os recentes acontecimentos e que reflectem sobre as suas consequências. Mais uma conversa não acabada…

    Comecemos pelo 6 de Janeiro de 2021. Como chegámos a este acontecimento?

    B.- Esta chamada «insurreição»… Privilégio branco, supremacia branca, poder branco. E a polícia do Capitólio deixou-os entrar. Estes clamores de fraude eleitoral e a tentativa de inverter o resultado de uma eleição, pondo em causa a legitimidade dos votos – o que não se sublinhou o suficiente é que estes votos são votos dos NEGROS. Foi exactamente isto que aconteceu após a Reconstrução a seguir à Guerra da Secessão. A democracia é atacada quando isso significa que os negros votaram. «Fraude eleitoral» significa: Não queremos que os negros votem.»

    A.- Vendo as coisas em retrospectiva, os acontecimentos de 6 de Janeiro parecem quase inevitáveis. Trump andava há meses a espicaçar a turba supremacista branca (veja-se, por exemplo, o ataque ao parlamento do estado do Wisconsin) e, antes da eleição, já afirmava que se preparavam para lha roubar. Continuou sempre a reivindicar para si uma vitória esmagadora. Tentou reverter a derrota através dos tribunais, das assembleias estaduais e do congresso. Organizou o motim ao dizer aos seus apoiantes para irem a Washington no dia 6 de Janeiro, que ia haver «festa».
     
    Os republicanos sempre souberam que Trump era um psicopata, mas era o seu psicopata e consideravam, com razão, que podiam tirar proveito da sua presidência. Além disso, tinham medo dele, pois toda a energia do Partido Republicano provinha dos partidários de Trump, que se contavam por milhões. Enquanto a maioria dos republicanos «respeitáveis» se apressam agora a saltar do barco Trump, que se está a afundar, o mesmo não acontece com os seus partidários.

    Tem-se discutido muito sobre como foi possível que a turba de nacionalistas brancos tivesse conseguido penetrar no Capitólio. Os polícias do Capitólio abriram as portas e inclusivamente pousaram para tirar selfies com os trumpistas. Depois do ataque, o chefe da polícia do Capitólio demitiu-se. Porém, é impossível dizer se houve um acordo entre a polícia do Capitólio e Trump ou alguns dos seus sequazes.   

    G.- Os conservadores estão ansiosos por subverter o sufrágio universal em virtude de a demografia ter diminuído a sua base potencial de eleitores brancos, rurais e suburbanos. A longo prazo, estão votados a desaparecer por causa desta mudança populacional. Mesmo assim, nesta última eleição, conseguiram angariar alguns votos de imigrantes recentes, sobretudo latinos e asiáticos. Embora estes grupos ainda continuem a votar maioritariamente nos democratas, os republicanos fizeram incursões no seu seio, porventura por eles se verem em competição directa com outras minorias urbanas, em particular afro-americanas e caraíbas. 

    Victoria_Pickering
    D.C. 6/6/20, fotografia de Victoria Pickering.

    Voltemos a esta ideia reaccionária da «supremacia branca» e à sua dimensão política hoje.

    B.- Esta supremacia branca não é nada de novo. O que estamos a assistir é à emergência das velhas contradições, vindas desde a fundação deste país de colonizadores, que levaram a uma guerra civil que foi ganha militarmente, e depois perdida politicamente, sendo sobretudo os negros a sofrer as consequências. Os negros, os latinos e os indígenas – e as mulheres durante muito tempo – nunca tiveram democracia aqui e continuam a lutar por uma verdadeira sociedade multirracial. Os próprios comentadores da imprensa de referência não puderam deixar de ficar chocados (enquanto nós, pela nossa parte, não ficámos surpreendidos) com a incrível diferença como foram tratados os supremacistas brancos pela mesma polícia que se especializou em espancar e prender manifestantes negros e de esquerda. Torna-se agora cada vez mais evidente que havia muitos polícias e militares naquela turba que tentou reverter os votos negros. A polícia, mais do que os militares, está fortemente impregnada de supremacistas brancos, e ainda mais de uma grande simpatia pelas suas opiniões e de hostilidade para com as pessoas de cor. Sabíamos isso. Mas estes acontecimentos determinaram um conhecimento mais alargado da enorme diferença como a polícia trata negros e brancos. Ninguém com olhos pode negar o que viu em 6 de Janeiro. 

    Trump pode ser visto como um personagem unificador de todas as correntes reaccionárias, racistas, conspiracionistas, religiosas, fascistas? Neste sentido, é legítimo pensar que tenha um papel político no futuro?

    G.- Trump teve de renegar a extrema-direita para manter a sua posição no partido republicano. Com uma condenação, não seria útil para ninguém. Penso que, de uma forma geral, ele não tem bons argumentos mobilizadores. Só foi capaz de unir conservadores e fascistas porque já tinha o poder supremo. Sem isso, as suas tácticas de intimidação tornar-se-ão muito menos eficazes e serão mais fontes de novas fracturas do que factores de união à sua volta.

    A aliança entre conservadores e a extrema-direita está a desfazer-se muito rapidamente. Sem um líder que esteja já no poder, não há unidade possível. Por agora, o motim na capital pode ser visto como um último fôlego, do mesmo modo que as planeadas manifestações da extrema-direita nos parlamentos estaduais no dia da posse do presidente. Suspeito que muito em breve se irão digladiar entre eles. Tal como os republicanos estavam divididos nalgumas quinze facções antes da eleição de Trump, o partido ir-se-á dividir de novo internamente e a extrema-direita desagregar em dezenas de grupos separados e conflituantes entre si. 

    Pode dizer-se que, nos Estados-Unidos, o Estado não está ao serviço da classe capitalista; pelo contrário, é a classe capitalista que é o Estado. Toda a elite política está íntima e directamente ligada ao capitalismo. De uma certa forma, a censura final das GAFAM a Trump veio sublinhar quem governa, quem tem o poder. Passamos do espectáculo político para a cena dos capitalistas que manipulam o dito espectáculo…

    G.- Sim. Hoje em dia, as empresas tecnológicas são todo-poderosas; é um verdadeiro «capitalismo monopolista». O seu controlo dos meios de comunicação social permite-lhes destruir qualquer candidato político. Agora que Trump perdeu a possibilidade de usar o twitter e outras plataformas, a extrema-direita ficou basicamente decapitada. Isto explica os apelos, tanto de democratas como de republicanos, para regular as empresas tecnológicas, e mesmo acabar com elas. Estas empresas ajudaram Trump a ascender ao poder e, depois, a espalhar as suas mentiras, e agora têm a possibilidade de o silenciar. Os políticos percebem que podem ser os próximos e, de facto, os republicanos que votaram contra o reconhecimento de Biden como presidente estão a sofrer as consequências. Muitas companhias comprometeram-se a retirar-lhes os apoios.

    Portland
    Portland, após as eleiçōes de 2020.

    E agora, o que se segue? Os Democratas podem conservar o poder político durante dois, talvez quatro anos. Biden e o seu governo de orientação liberal não parecem ser capazes de dar resposta a nenhuma das crises que o país enfrenta. Eventualmente, a crise sanitária poderá ser mitigada pela campanha de vacinação, mas a economia está a afundar-se, a miséria explode, a crise ambiental agrava-se cada dia que passa…

    A.- «Ficaria surpreendido se a democracia burguesa «ao estilo Obama-Biden» sobrevivesse nos EUA mais de dez ou quinze anos… No passado, a classe dirigente americana podia entender-se mais ou menos quanto a um rumo futuro. Esse acordo sofreu um sério rombo durante os anos 60 com o fim do compromisso no congresso. Desde então, as divisões agravaram-se. Há anos que a política norte-americana se encontra polarizada e, com a ascensão ao poder de uma figura como Trump, um governo autoritário tornou-se uma possibilidade real.

    Trump pode ter perdido a eleição, mas a ameaça trumpista mantém-se. Este ano, tal como em 2016, a maioria dos eleitores brancos votaram em Trump. Obteve mais de 72 milhões de votos e aqueles que votaram nele não vão desaparecer. Trump vai deixar o cargo, mas tentará conservar o controlo do partido republicano e continuará a vomitar ódio e a insistir em medidas autoritárias. Os EUA continuarão polarizados em termos políticos entre republicanos e democratas, ou, para dizer as coisas de um modo ligeiramente diferente, entre uma direita autoritária (partidários de Trump) e uma «esquerda» dividida entre centristas neoliberais e «progressistas».
     
    A divisão entre republicanos e democratas tem sido uma batalha entre a «Main Street», ou localistas e a «Wall Street», ou globalistas. A «Main Street» agrupa os pequenos comerciantes, o imobiliário (de onde vem Trump), retalhistas, pequenos industriais, etc. focados sobretudo nos mercados locais. A Main Street tende a ser nativista, abertamente racista, muitas vezes anti-semita e, sobretudo, antigoverno. Abarca elementos da direita libertária e é apoiada discretamente pelas grandes empresas de combustíveis fósseis e por centenas de milhares de pessoas abastadas. O partido republicano de Trump faz lembrar o movimento em França de Pierre Poujade na década de 1950 (racista, anti-impostos, antigoverno) e a Frente Nacional de Jean-Marie Le Pen (antigoverno, racista, anti-imigrantes, anti-semítico, etc.). Contudo, ao contrário destes, Trump e os seus aliados conquistaram o poder, pelo menos durante quatro anos. Durante esse tempo, com a ajuda de um Senado complacente, fizeram tudo o que estava ao seu alcance para converter a democracia burguesa, tal como é, no governo de um só homem. Trump gostaria de tentar fazer censura à imprensa («a inimiga do povo», como lhe chama), incentivar a violência contra os manifestantes, destruir tudo o que existe de cultura liberal, etc.
     
    «Wall Street» – os globalistas – dominou a política americana desde a década de 1930, embora tenha havido republicanos – Goldwater, Nixon, Reagan e, mais às claras, Trump – que cortejaram a Main Street, fazendo apelo ao racismo e alimentando-o. Pelo contrário, Biden representa um regresso ao status quo neoliberal de Obama. A sua missão, na visão dos centristas democratas, é «restituir» aos EUA o seu lugar «legítimo» no mundo, o que significa a renovação do poder imperial a nível global, domínio da NATO, «comércio livre» (eliminando as tarifas de Trump), melhores relações com a China e mesmo com o Irão, e uma política mais dura para com a Rússia e a Coreia do Norte. A nível interno, significa o apoio a programas que tiveram a sua origem com Roosevelt nos anos 30 (Segurança Social, aliança trabalhadores-governo), e com Kennedy nos anos 60 (seguros de saúde Medicare e Medicaid) e um apoio moderado aos direitos civis.

    Os conservadores estão ansiosos por subverter o sufrágio universal em virtude de a demografia ter diminuído a sua base potencial de eleitores brancos, rurais e suburbanos.

    P.- Por agora, a maior parte do país está contente por se ter visto livre de Trump e com esperança de que os democratas consigam pelo menos dar uma resposta organizada à pandemia.  Quanto ao resto, não tem grandes expectativas de que as coisas mudem. É como que um atrasar do relógio para 2016, para antes de Trump, excepto que o fosso ideológico entre os neoliberais reaccionários e os neoliberais progressistas se alargou. Biden será empurrado um pouco para a esquerda e o partido republicano pode muito bem desfazer-se. Verdadeiramente importante para a classe capitalista americana foi o facto de o populismo social-democrata de Bernie Sanders, uma preocupação nova, ter sido contido. As pessoas que não são conspiracionistas fascistas, nem notórias racistas, nem fundamentalistas religiosas ficaram tão aliviadas que estão de um modo geral contentes com o que lhes oferecem os democratas, pelo menos por agora. Mas a crença subjacente no sistema terá ficado porventura suficientemente debilitada para que, quando as disfunções do capitalismo inevitavelmente se manifestarem na degradação constante da economia, do clima e da saúde da população mundial, se comece a procurar uma alternativa.

    A.- Biden vai revogar as ordens executivas de Trump, restaurar as salvaguardas ambientais que estavam em vigor em 2016, suavizar a política de imigração de Trump, admitir mais refugiados e imigrantes «legais», trabalhar com cientistas governamentais para controlar a pandemia, etc. Os dias dos «factos alternativos» e da anti ciência terminarão, pelo menos a nível do governo, embora Biden vá enfrentar revoltas a respeito de questões como o uso obrigatório de máscara e as leis das armas, ou estabelecer alguma forma de controlo sobre a polícia. Biden não dará seguimento à exigência dos progressistas de reduzir o orçamento da polícia, mas pode tentar avançar com reformas nas forças de segurança, o que provavelmente estará votado ao fracasso. Nos EUA, a polícia mantém uma cultura de funcionamento autónomo e continua a violar grosseiramente a lei, reprimir violentamente as manifestações e a assassinar negros, muitas vezes com total impunidade.
     
    Em termos mais gerais, Biden, no seu primeiro ano no cargo, tentará prosseguir um programa neoliberal que provavelmente conjugará austeridade e globalismo amigo das grandes empresas. A sua administração tentará estancar a disseminação do coronavírus, tentar suster a queda da economia, talvez insistir num salário mínimo de 15 dólares por hora, etc. Todavia, tal como aconteceu com Obama, não conseguirá levar este programa muito longe. Entretanto, a polarização política continuará.

    Capitolio
    Apoiantes de Trump no Capitólio, fotografia de Carol Guzy | Zuma Wire.

    Voltemos à questão da tendência social-democrata que se manifestou à volta da candidatura do Bernie Sanders. Quais são as suas perspectivas futuras?

    A.- A grande maioria dos que seguem Bernie Sanders são, como o próprio Sanders, sociais-democratas moderados, muito sintonizados com o Democratic Socialists of America (DSA). Se alguém se der ao trabalho de eliminar a retórica republicana, o seu programa atrai grandes faixas da população, inclusivamente muitas pessoas que votaram no partido republicano: cuidados de saúde públicos universais («Medicare para todos»), universidades públicas sem propinas, o «New Deal Verde» (um esforço em grande escala para parar o aquecimento global), maior diversidade, uma política de imigração humana, etc. Sanders lidera uma corrente «progressista» que tem vindo a crescer no partido democrata, que teve ganhos nas eleições de 2018 e 2020 para a Câmara dos Representantes. O arauto mais conhecido da social-democracia na Câmara dos Representantes talvez seja Alexandria Ocasio-Cortez, que se tornou uma estrela da comunicação social e um dos ódios de estimação dos republicanos. O seu grupo na Câmara, conhecido por «squad» [brigada], constituída por mulheres de cor, tem também tido direito ao seu quinhão de ódio racial e de demonização.
     
    Os eleitores jovens impulsionaram o desvio para a esquerda. Muitos encontram-se a braços com dívidas de empréstimos de estudos, muitos têm empregos precários e sem futuro, e não vêem perspectivas viáveis para si próprios ou os seus amigos, e têm mais consciência do que os mais velhos da ameaça que representa o aquecimento global. Uma sondagem recente do New York Times incindindo sobre a faixa etária dos 18 aos 39 anos mostra que, perante uma escolha entre capitalismo e socialismo (estava subjacente que se tratava aqui de social-democracia), metade escolheu o socialismo. E a percentagem pró-socialista seria sem dúvida maior se a pesquisa tivesse incluído apenas a faixa dos 18 aos 29 anos. Esta é uma tendência completamente nova na América!
     
    Além disso, a análise estatística dos resultados eleitorais por idade mostra que, em estados em que os democratas ganharam, o grupo etário com maior percentagem de votos nos democratas foi o dos 18 aos 29 anos. A segunda maior percentagem referia-se às idades de 64 anos ou superior – o que não surpreende, dado que estes eleitores receavam, muito justamente, que, num segundo mandato, Trump e os republicanos eliminariam ou restringiriam a segurança social, o Medicare e o Medicaid.
     
    As manifestações do Black Lives Matter que ocorreram durante o Verão acentuaram as divisões políticas. Os republicanos classificaram as manifestações de «motins», que deviam ser «dominadas» pela polícia e pelas milícias paramilitares governamentais, descreveram o Black Lives Matter como um «grupo de ódio» e tentaram fazer passar a ideia de que se os democratas ganhassem, os «antifa» e os «anarquistas» arrasariam as cidades. Os democratas tentaram apropriar-se de um movimento que começou por ser espontâneo e basista e, em grande medida, conseguiram-no. Black Lives Matter, que surgiu durante a revolta de Ferguson em 2014, beneficiou de uma enorme vaga de aprovação popular no início do Verão. No Outono, o movimento ainda promoveu manifestações, mas também apelos às pessoas para que fossem votar.

     


    Texto de  Jorge Valadas, com a colaboração de  Luís Leitão que traduziu as passagens do Inglês.
    Ilustração de  Goncalo Salvaterra.


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #30, Março|Maio 2021.


    #democraciaamericana #capitalismo #insurreição #Trump #republicanos #Capitólio #democratas #supremaciabranca #polícia #Biden #racismo #protestos #mapa31

     

  • Felizmente continua a haver luar (Abril/Junho 2019)

    Felizmente continua a haver luar (Abril/Junho 2019)

    Alan, um velho amigo com espírito jovem e perspicácia nunca desmentida, vive em Washington a uma certa distância da Casa Branca, num bairro onde se misturam latinos, pequenos funcionários afro-americanos da administração federal e uma comunidade de imigrantes etíopes com os seus apreciados restaurantes. Das nossas trocas epistolares nasceu a ideia de uma conversa sobre o actual ocupante da Casa Branca e o significado dos seus comportamentos, que vão além dos óbvios limites mentais do individuo e exprimem interesses de sectores particulares da classe dirigente estado-unidense. Uma conversa que procura compreender o que por vezes parece incompreensível, que procura desvendar lógicas que se escondem por trás de atitudes espectaculares. Não há que negar os aspectos irracionais que existem na política capitalista, mas o irracional tem, por vezes, a sua racionalidade. Vamos, portanto, desfiando o fio da meada nesta troca livre de comentários e de opiniões.

    As recentes eleições do midterm de Novembro 2018 mostraram um relativo enfraquecimento da base eleitoral republicana e particularmente de Trump.
    Mark Twain escrevia em 1879, num dos seus textos satíricos sobre os políticos: «Recomendo-me como homem idóneo que sou —um homem que tem por base a depravação total e que se propõe ser demoníaco até ao fim. » (« Um candidato à Presidência », Um candidato Idóneo, trad. Madalena Caramona, Antígona, 2017.) Será isto hoje mais evidente para os eleitores estado-unidenses?

    Alan: Como já tinha sido o caso em 2016, a maioria dos americanos que votaram desta ultima vez, votaram em candidatos liberais. Se, em termos gerais, Trump manteve as suas posições, isso deve-se antes de mais às particularidades da Constituição americana que, desde a sua origem, foi concebida para manter no poder as elites… que chegam ao poder. Em Novembro do ano passado, os Democratas teriam obtido ainda melhores resultados se tantos eleitores não tivessem sido postos de lado a pretexto de irregularidades de identificação e administrativas. Também houve manipulações de círculos eleitorais que permitiram a um partido (neste caso os Republicanos) obter mais lugares com menos votos do que o partido da oposição.
    O que me parece mais importante é que esta última eleição confirmou o interesse crescente do eleitorado, sobretudo dos jovens e das mulheres, pelas ideias sociais-democratas defendidas pela corrente do Bernie Sanders, que é hoje um político extremamente popular nos EUA. A sua candidatura à eleição presidencial de 2020 deve ser levada a sério. Desde 2016, o Partido Democrata encontra-se dividido em dois campos bem distintos, o dos sociais-democratas, que apoiam Sanders, e o dos neoliberais, que apoiaram o clã Clinton, representado hoje por Nancy Pelosi, chefe dos Democratas no Congresso. As duas tendências pensam possuir a chave do futuro, tendo em consideração as forças demográficas em jogo nos EUA, o número crescente de eleitores negros e latinos, e de mulheres, que manifestam maioritariamente a sua rejeição da infame misoginia de Trump e do seu gangue.
    Também as próprias consequências da política de Trump contribuem para enfraquecer a sua base eleitoral. As políticas destinadas a favorecer as grandes empresas e as grandes fortunas alienam parte do seu eleitorado. Todas as pessoas estão conscientes de que as recentes reduções de impostos promulgadas pelos Republicanos deixaram de lado a maioria dos estado-unidenses e favorecem as grandes fortunas e as grandes empresas. A guerra comercial que foi declarada aos parceiros exteriores tem um enorme impacto sobre a agro-indústria, que perdeu uma parte dos seus mercados de exportação. Os trabalhadores das indústrias metalúrgica e automóvel começam também a sofrer com as consequências desta guerra e as ameaças de despedimentos voltaram a fazer parte do quotidiano dos trabalhadores. Apesar de todo o barulho que Trump faz a propósito da subida dos valores bolsistas, a vida da maioria dos estado-unidenses é a cada dia que passa mais difícil. Os cortes nas ajudas e na segurança social, nos frágeis sistemas de ajuda médica, vão igualmente ter um impacto imediato sobre os meios populares que votaram Trump. Durante a sua campanha, Trump tinha prometido proteger estes frágeis sistemas, mas, dois anos depois, é evidente, salvo para os seus adeptos mais fanáticos, que as suas promessas não foram cumpridas. Na verdade, a única promessa a que ainda se agarra de maneira obsessiva é a da construção do muro, associada ao discurso xenófobo que a acompanha.

    A palavra fascismo parece ser hoje utilizada por praticamente toda a esquerda para caracterizar a administração Trump. Por outro lado, há quem veja no fenómeno Trump a prova do declínio histórico dos Estados Unidos e da decadência da classe política.

    A.: Mesmo um jornal como o The New York Times publica regularmente editoriais, tribunas e livres opiniões em que Trump é tratado por fascista. Dois respeitáveis professores de Yale publicaram recentemente livros de grande difusão que analisam as tendências fascistas do presidente. As análises são pertinentes, mas, como seria de esperar, estas sumidades não têm a mínima ideia de como se pode resistir ao fascismo, para não falar das suas propostas de actos de heroísmo pessoal… sem consequências práticas. A verdade é que, em geral, os liberais embarcaram no jogo verbal demagógico e na retórica do Trump, na enxurrada quotidiana de insanidades e de mentiras proferidas por este charlatão, um dia apresentando uma caravana de pobres imigrantes que tentam chegar ao «eldorado» como uma «invasão» aos EUA, outro dia negando os efeitos do aquecimento global sob o pretexto de que o Inverno é demasiado frio! O tratamento violento e arrogante de todas as opiniões de contestação, os casos de corrupção e de ilegalidade que envolvem os seus mais próximos colaboradores e familiares, a atribuição de lugares de responsabilidade do Estado a incompetentes fiéis ao chefe, são outros aspectos do vaudeville do regime. Entretanto, fora do campo espectacular dos meios de comunicação, o regime de Trump prossegue a destruição sistemática do que sobrava dos serviços públicos (já bem fragilizados pelo clã neoliberal dos Clintons), suprimindo as protecções ambientais que existiam, ignorando estudos científicos, e por aí fora. Num artigo recente, publicado no The New York Review of Books, Fantin O’Toole faz uma excelente descrição de tudo o que o regime Trump foi capaz de destruir até hoje.

    E depois ? Que virá ?

    A.: O Partido Democrata faz o que pode para se apresentar como o único remédio para Trump e para os Republicanos. É uma tarefa ingrata, tendo em conta o que fizeram durante as administrações precedentes e a fraquíssima popularidade das suas elites. Não se pode compreender a vitória de Trump sem ter em conta o ódio que havia nos meios populares pelos Clintons. Agora que ganharam as recentes eleições, os Democratas já se estão a preparar para as próximas presidenciais…
    A ideologia eleitoralista parece ser de novo dominante, e há no presente imediato poucos sinais de uma oposição ou resistência que tome a forma de mobilizações colectivas. No entanto, a sociedade estado-unidense é atravessada por profundas correntes contraditórias que aspiram todas a uma mudança. Há a corrente reaccionária, animada pelo medo do declínio, que se reconhece no fenómeno Trump e que visa a restauração duma América que nunca existiu. O cineasta Frederick Wiseman, no seu último filme Monrovia, Indiana, faz um retrato de uma comunidade da América do interior que corresponde ao eleitorado de Trump. Mas a corrente mais dinâmica é a que tomou forma e se desenvolveu depois do movimento Occupy, e que defende a necessidade da actividade colectiva para criar uma mudança real na sociedade. Ao contrário do que se pode imaginar, esta corrente está também presente nesta América do interior. Depois do Occupy nasceu o Black Lives Matter, com mobilizações contra actos racistas, com movimentos maciços contra o controlo dos imigrantes nos aeroportos e com manifestações de jovens contra os massacres nas escolas e a reivindicação do controlo da posse de armas. Mas a repugnância que provoca o regime de Trump acabou por levar, pelo menos momentaneamente, a juventude a investir de novo na actividade eleitoral. Não penso que essa atitude seja definitiva, é apenas um momento transitório. Deste ponto de vista, a candidatura de Sanders vai reforçar a tendência eleitoralista. Mas é uma situação complexa, ambivalente, porque o apoio a Sanders, além de ser um apoio a medidas clássicas sociais-democratas — que ninguém sabe como poderão ser aplicadas sem confronto com a classe capitalista numa sociedade como os EUA —, exprime também, eu diria mesmo que exprime sobretudo, uma rejeição da sociedade estado-unidense tal como ela é vivida hoje pela maioria da população. Uma sociedade doente e sem perspectivas humanas, decadente. Esta rejeição traz aspirações a outra sociedade, que vão além da política eleitoral e que exprimem uma radicalidade que não cabe no programa de Sanders. Por seu lado, o velho Partido Democrata faz promessas pobres e vagas, uma simples reparação das destruições provocadas pelo regime de Trump, um regresso ao Estado de direito burguês e uma «reparação» da economia através do fim das guerras comerciais, a salvaguarda dos frágeis sistemas de ajudas sociais e médicas para os pobres e para as populações idosas. Isto é: um miserável regresso ao ponto de partida, que era já calamitoso.

    A ideologia é uma coisa e a realidade política é outra. O Fascismo só se pôde impor como sistema político quando teve o apoio da classe dirigente, ou pelo menos das fracções mais poderosas desta classe. Trump tem o apoio dos mais ricos, das suas fundações e dos seus think thank, de grandes empresas e das forças da direita religiosa. Mas a questão é saber se estas forças são suficientemente sólidas para enfrentar e vencer as coligações capitalistas neoliberais que no passado deram o apoio material, financeiro, aos Clintons e ao regime de Obama.

    A.: Voltemos a essa questão do fascismo. O fascismo como formação política é um fenómeno do passado que assenta nos valores da segurança, uma ideologia baseada no medo, no ódio e na nostalgia de um passado mítico. A retórica de Trump refere-se efectivamente a um passado que nunca existiu, um passado onde as minorias aceitavam os limites que lhes eram impostos, onde as mulheres se submetiam voluntariamente aos homens, onde o poder global dos EUA não era contestado, onde havia emprego para todos e bem pago, onde os impostos eram baixos, onde os meios de comunicação exprimiam os valores conservadores da maioria. Por outras palavras, estes EUA são uma terra incógnita que nunca ninguém conheceu.
    Durante quanto tempo uma significativa parte dos capitalistas estará disposta a aceitar as esotéricas políticas económicas do regime Trump? A guerra comercial, por exemplo, é um puro produto das suas obsessões pessoais. Da mesma forma, a sua política externa obedece a critérios arbitrários e perigosos; o último exemplo é a promessa de venda de tecnologia nuclear aos chefes tribais da Arábia Saudita. Política que encontra uma oposição crescente do Pentágono e do poder dos militares, que a exprimem abertamente, como se tem visto com a demissão de altos cargos militares na sua administração. A potente rede de corrupção que envolve o seu clã mais próximo, a sua família, é também algo que desagrada aos grandes capitalistas e a sectores conservadores. A sua popularidade desceu a ponto de vários candidatos republicanos recusarem apoiá-lo na eleições de Novembro 2018, com receio de se verem associados à sua personagem. Tudo isto se jogará nas eleições de 2020.

    No seu recente livro Crashed: How a Decade of Financial Crisis Changed the World (Nova Iorque, Viking, 2018), Adam Tooze defende a ideia segundo a qual a crise de 2008 mostrou a impossibilidade de compreender hoje o que se passa no capitalismo sem se referir ao funcionamento do sistema financeiro. Tooze argumenta também que a passagem de economias nacionais a gigantescas corporações capitalistas globais trouxe consequências radicais. Porque esta passagem esvazia o projecto da intervenção keynesiana. Se a economia mundial está dominada por este tipo de megaconglomerados, e isso é um facto irreversível, continuar a pensar em termos nacionais é submeter-se a uma estrutura de pensamento obsoleta. Esta é a lição da crise actual. Um regresso ao Estado-nação é ilusório, a menos que seja acompanhado por uma reorganização radical da economia global, o que implica uma gigantesca perturbação do estado do mundo. Como interpretar as pretensões de política proteccionista da administração Trump com base neste quadro de análise?

    A.: Neste sentido, o regime Trump pode representar uma forma de decadência, de declínio dos EUA. Os seus projectos delirantes de proteccionismo e de refúgio isolacionista são apresentados como o caminho para uma retoma económica. Ora, o que se esta a ver é justamente o contrário. Parece evidente que, neste campo, Trump deverá enfrentar, mais cedo ou mais tarde, a oposição dos sectores mais poderosos da classe capitalista que «não joga só em casa», que tem os seus interesses a defender na preservação dum quadro capitalista global. Enquanto Trump os favorece, diminuindo os impostos e reforçando a suas capacidades de apropriação da riqueza produzida, está tudo bem. Mas desde o momento em que as condições da globalização da produção do lucro são ameaçadas, a contradição é insolúvel. É a luta de classes no seio da própria classe capitalista.

    Ilustração de Ana Farias

  • Donald “American” Junk e a mentalidade fóssil!

    Donald “American” Junk e a mentalidade fóssil!

    Texto de João Vinagre

    No Mapa nr. 15 lançámos um olhar sobre a importação de Gás de Xisto (Fracking Gas) dos EUA para a Europa, com entrada em Portugal, e também sobre a resistência indígena, em Standing Rock, contra a construção do Dakota Acess Pipeline. Entretanto foi a tomada de posse de Donald Trump como presidente dos EUA.

    Enquanto todos os olhos estavam a acompanhar a tomada de posse, e alguns em sintonia com os sentimentos dos manifestantes que entraram em confronto com apoiantes de uma “América Grande Outra Vez” e impedidos pela polícia de se chegaram perto do local de tomada de posse, a violência voltou a Standing Rock.

    Durante esse fim-de-semana vários movimentos de informação alternativa divulgaram vídeos da carga policial do Departamento do Sheriff de Mounty County e da Guarda Nacional sobre os Water Protectors que estavam a montar um Tipi em Cannoball, North Dakota.

    Depois dos dois meses anteriores às eleições terem sido relativamente calmos, os campistas que ocupam o local para impedir a construção do oleoduto foram atacados com gás pimenta e balas de borracha. Não é a primeira vez que se geram conflitos em Blackwater Bridge, área onde tudo se passou, mas tudo estava calmo desde Novembro.

    Depois desta atitude, os indígenas, os ativistas e o mundo conhecem a nomeação de Trump para a Agência de Proteção Ambiental: Scott Pruitt, ex Procurador-Geral do Estado de Oklahoma, foi o pesadelo tornado realidade. Pruitt passou grande parte do seu mandato em Oklahoma a lutar contra as leis do departamento que agora vai dirigir. Enquanto Procurador esteve à frente de uma acção judicial interposta por 28 estados norte americanos em defesa da indústria do carvão, contra a agência que agora vai liderar.

    Pruitt também é dos que desmentem a interligação entre indústria fóssil e alterações climáticas e defende que não é a civilização a responsável pelo ecocídio mundial.

    As primeiras alterações na agência foram a obrigatoriedade de sigilo dos seus funcionários e a obrigação de que todos os estudos científicos passem pela Casa Branca. Ordenou também eliminar todas as referências às alterações climáticas.

    Logo depois desta nomeação, Trump (que tem ações no DAPL) assinou ordens executivas para que se reiniciassem os processos dos oleodutos Keystone XL e Dakota Acess Pipeline, que tinham sido anulados devido à pressão popular e a uma política “verde” de Obama. A TransCanada reagiu de imediato: “Apreciamos que o presidente dos EUA nos convide a recomeçar o projecto KXL”.

    As comunidades indígenas no Canadá e nos EUA já reagiram, mostrando a sua persistência na defesa do seu território e dos tratados assinados pelos antepassados de todos os intervenientes. Continuaram a “okupar” os terrenos no seu território e entraram com várias ações legais contra a construção do gasoduto…

    O novo governo dos EUA não perdeu a oportunidade para mostrar qual vai ser a sua política.

    Nos primeiros dias de Fevereiro saíram notícias de uma invasão de propriedade privada para expulsar os “proprietários”, os Water Protectors.

    Este foi o relato do jornal Santa Monica Observer:

    Parece que a polícia entrou de rompante no acampamento, prendendo os/as lideres e forçando os restantes a abandonar o local. Pegaram fogo ao que ficou para trás.”

    Depois de saírem os vídeos do ataque da polícia, foram divulgadas informações que as estradas de acesso a um dos principais acampamentos, Oceti Sakowin, foram cortadas pela polícia.

    Em resposta aos últimos meses de repressão, o movimento Stand With Santing Rock lançou um apelo global, que poder consultado aqui: http://standwithstandingrock.net/march/

    O apelo global foi o seguimento de um outro lançado pelo concelho tribal da tribo Sioux em Standing Rock.

    Nos EUA, e no mundo, várias têm sido as manifestações anti Trump, unidas as lutas contra o sexismo, racismo, capitalismo, islamofobia, de modo a que a política externa e interna dos EUA não se alastre livremente pelo mundo. Este apelo junta a todas elas a resistência ao colonialismo, seja ele económico, cultural, político e corporativo. Não é fraqueza – pelo contrário – ter medo do futuro que vamos deixar. O que se passa em Standing Rock são duas ideias para o futuro. Qual delas te mete medo?