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Lendo: “Lenine perante os Camponeses”

“Lenine perante os Camponeses”

“Lenine perante os Camponeses”


Em 2017, por ocasião dos cem anos da Revolução Russa, a editora francesa La Lenteur teve a excelente ideia de reeditar o livro “Lénine face aux moujiks”, nada de semelhante ocorreu neste jardim à beira-mar plantado. O livro de Chantal de Crisenoy foi editado pela primeira vez em 1978 na Seuil.

No momento em que os recuperadores do costume acreditam poder misturar o vermelho do interior da melancia com o verde do seu exterior e, como quem não quer a coisa, impingem o bio-bolchevismo, esta obra debruça-se sobre o essencial. Explica muito claramente o quanto os soldados de Lenine foram fanáticos da modernização e liquidadores de camponeses. «O camponês é um obstáculo real ao seu sonho de industrialização com os olhos postos no modelo europeu», analisa Chantal de Crisenoy. Lenine estava fascinado pelo desenvolvimento do capitalismo, que ele queria acelerar. De resto, todos os aceleracionistas se reivindicam de Marx e Engels, para quem a ditadura do proletariado deve permitir «aumentar mais rapidamente a quantidade das forças produtivas» (“Manifesto do Partido Comunista”). Lenine defendia «a necessidade urgente e imperiosa de aniquilar todas as instituições caducas que entravam o desenvolvimento do capitalismo» 1. Inteiramente devotado ao desenvolvimento das forças produtivas, o ditador jacobino quer urbanizar o país, electrificar, instaurar a organização científica de Taylor, alastrar as fábricas e os caminhos-de-ferro, aumentar a divisão do trabalho, a mobilidade e a troca de mercadorias, concentrar o poder e reprimir os opositores. Na via do Progresso, o «proletariado» deve assegurar uma hegemonia sobre esses saloios, os camponeses, acusados de serem pequeno-burgueses arcaicos, incultos e contra-revolucionários. São estas as referências dos universitários que querem carregar no pedal do acelerador. «O processo de libertação só pode acontecer acelerando o desenvolvimento capitalista», martela o com marrada Antonio Negri no seu livro “Accélération!” (PUF, 2016). “Lénine face aux moujiks” desmonta de modo magistral essa vulgata marxista. Os camponeses contra-revolucionários? Eles que durante séculos se sublevaram contra os poderes, contra a apropriação das terras e pela autonomia aldeã? Eles que produziam para responder às suas necessidades, no quadro de uma economia doméstica que não se submete ao mercado, ao salariato, ao dinheiro? Eles, esses autênticos anticapitalistas?

«Assim, há um século atrás, em nome da eficácia, da racionalidade, da economia ou do necessário desenvolvimento das forças produtivas, em resumo, em nome do progresso, os ideólogos da burguesia, mas também a maioria dos marxistas, vaticinam um ‘mundo sem camponeses’. Um mesmo ponto de vista guia estes dois discursos: o da acumulação de capital. Um mesmo fim: a grande indústria!»

Eis aqui um grande livro para desmistificar a nostalgia do bolchevismo.

Lenine perante os Camponeses

 

 

 

 

 

 

 

Lenine face aux moujiks
Chantal de Crisenoy
La Lenteur, 2017

 


Artigo publicado no JornalMapa, edição #28, Agosto|Outubro 2020.

Notas:

  1. “O desenvolvimento do capitalismo na Rússia. Processo de formação do mercado interior pela grande indústria”, in Obras Completas VOL V.

Written by

José Tavares

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