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Lendo: Quem tem medo da Almada colonial?

Quem tem medo da Almada colonial?

Quem tem medo da Almada colonial?


Descobri a Almada de que tanto gosto há cerca de uma década, pela Trafaria, na boca do Estuário do Tejo, entre a terra e o mar. Os pescadores e gentes que ali vivem, a boa gastronomia e a natureza, da praia à mata, conquistaram-me e falaram às minhas raízes. Hoje vivo na Cova da Piedade, também lugar de gente lutadora. Tenho muito orgulho em ser Almadense e é por gostar tanto desta terra que quero partilhar o que vi – a Almada colonial que precisamos combater.

Almada colonial é uma visão, uma imaginação de quem agora toma o poder e que nos vê como coisas a dispôr, como ignorantes, ou pior, como criminosos, a partir do momento em que tenhamos os nossos pés num bairro ilegal, como têm sido encarados os moradores almadenses de Pena Joya ou do 2.º Torrão e seus companheiros de luta. A Almada colonial afecta-nos a segurança de poder viver numa casa, a nossa capacidade de encontrar um emprego, de conseguir uma escola para as crianças ou atendimento médico. Mas precisamos de não ter medo dessa Almada colonial. O medo trava-nos a auto-estima e a confiança na voz e no lugar dos outros. Sim, os moradores de Pena Joya e do 2.º Torrão são pessoas como todas nós e têm os mesmos direitos de todas e todos os munícipes de Almada.

O bairro do 2.º Torrão é como a minha segunda casa. É um bairro auto-construído com uma longa história. Na década de 1940 chegavam ali umas casas puxadas por bois desde a aldeia vizinha. Eram pescadores que ali se estabeleceram. Nessa altura, no Verão, iam para ali acampar pessoas dos bairros típicos de Lisboa, em especial de Alfama e da Mouraria. Passados todos estes anos, muito mudou. Com a revolução de Abril, muitos africanos e afrodescendentes fizeram ali a sua casa, em especial de Cabo Verde e Angola. Hoje o bairro vive essa diversidade, contando entre 2000 e 2500

moradores e uma diversidade de condições de habitação, algumas casas com melhores condições do que outras, com acesso à água e a electricidade por puxada ou «gato». Como investigador sobre participação social e líder de uma associação local, que ali trabalhava a participação nas ciências, artes e política, aprendi muito sobre este lugar. Aprendi ainda mais quando tivemos de lutar contra a Câmara Municipal de Almada. Uma altura violenta que permitiu entender muito sobre o poder local.

No final de setembro de 2022, a Câmara e a Proteção Civil impuseram seis dias de demolições e a deslcação forçada de mais de 60 famílias. Um dia acordámos e não conseguimos sentir os pássaros nas árvores logo cedo. Em vez disso, ouviam-se motores de escavadoras e um vai-e-vem de gente a bater nervosamente à porta dos vizinhos. Muita gente foi apanhada de surpresa. Eu e outros amigos que trabalhávamos noutras coisas tivemos que mudar a nossa ocupação. Depois de estarmos no bairro há vários anos a estudar o galgamento costeiro com geólogos e oceanógrafos, a Câmara Municipal anunciava com pompa um grande risco: uma vala subterrânea estava em risco de ruir. Na confusão que se instalou, conseguimos apoiar um grupo de moradores que com coragem se pôs em luta. Essas pessoas, que conhecíamos de vista há anos, não eram reconhecidas como moradoras do lugar e corriam o risco de ficar sem-abrigo.

A Almada colonial revelou-se na demolição brutal do 2.º Torrão através do papel dado à ciência e à descoberta dessa vala sob casas que foram apressadamente destruídas. Os moradores em luta resistiram nas suas casas, entre os destroços das casas dos seus vizinhos, com protecção do tribunal e querendo saber mais. Os cientistas que trabalhavam connosco, incluindo um engenheiro que integrava o grupo de resistência, percebiam que havia um risco. Mas não havia nenhuma análise material conhecida – que estudos motivaram aquela urgência? A Presidente da Câmara não dava mais informação, apenas anunciava à comunicação social que todos poderíamos cair lá dentro, o que era pouco credível. Só tivemos acesso ao estudo e a um parecer da proteção civil através do tribunal e da imprensa. Afinal, as conclusões sobre o risco de cedência da vala vinha de dados de observação directa e era desconhecida a sua espessura e composição. Estranhamente, uma grande parte desse relatório foi dedicada à subida do nível do mar por causa das alterações climáticas. Não é suposto um bairro ser destruído por causa de dados gerais sobre alterações climáticas, sem qualquer estudo local, dando dois dias para arrumar as coisas.

A Almada colonial começa nesta visão sobre os outros: a Presidente Inês de Medeiros sempre falou da poplação em luta como pessoas manipuladas por terceiros ou desprovidas de razão. O seu vice-presidente, ainda hoje com o pelouro da habitção, Filipe Pacheco, defendia a destruição do bairro feita dessa forma brutal porque as pessoas em luta eram «pessoas iletradas» ou pessoas «que não conseguem perceber o português». A realidade é diferente. Estas pessoas tinham estudos, falavam perfeitamente português e falaram em todas as sessões de Câmara e de Assembleia Municipal durante meses.

O poder, na imaginação de Inês e Filipe, reduz-se a um comando. No caso dos moradores do 2.º Torrão em luta, só lhes restava obedecer. Achille Mbembe, filósofo, descreveu o «comando colonial» na África Subsaariana: aos nativos não lhes eram reconhecidos nenhuns direitos, só lhes restava obedecer. No 2.º Torrão, a ciência que levou à deslocação forçada de tantas pessoas foi reduzida a esse comando. Não houve dados a partilhar, nenhuma hipótese de diálogo com a comunidade, os técnicos sempre alheados nunca deram a cara, ficou apenas a tática do medo, o receio do que poderia vir a acontecer. Um outro filósofo, Joseph Tonda, também tece um paralelo entre os tempos do Império e as relações de poder contemporâneas: A forma como quem detém o poder imagina o seu povo prende-nos dentro desses limites 1. Para Inês e Filipe, a esse povo negro que, na sua imaginação, é analfabeto e influenciável, só lhe resta obedecer.

Nos últimos meses, a imaginação dessa Almada colonial continuou a avançar, desta vez sobre um outro bairro negro almadense, o Pena Joya. Pena Joya cresceu muito nos últimos anos, principalmente com imigrantes de Cabo Verde, e tem hoje cerca de 800 famílias. A imaginação de Inês e Filipe volta a morder-nos. Convidam-nos a pensar em todas estas famílias como criminosas, envolvidas em negócios ilícitos. Enquanto moradores, perdem o acesso a água potável e estes responsáveis não têm nada a dizer. Quando a rede elétrica do Monte da Caparica não aguentou as suas puxadas, os moradores de Pena Joya foram responsabilizados pelos cortes de energia num abaixo-assinado onde participou a própria presidente de Câmara e duas juntas de freguesia. A essa luta contra os pobres e negros só nos resta dizer que não, que essa não é a Almada em que vivemos.

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texto de João Cão (cao.joao@gmail.com) publicado no Jornal MAPA nr. 48 [Jan. – Mar. 2026]

ilustração de Graça Santos

Notas:

  1. Joseph Tonda, 2021. Afrodystopie: La vie dans le rêve d’autrui. Karthala.

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