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Lendo: Mais Graça no quartel

Mais Graça no quartel

Mais Graça no quartel


A decisão do estado de ceder um dos principais monumentos do bairro da Graça, em Lisboa, para o grupo Sana fazer um hotel de luxo despertou a resistência da vizinhança. Há dois anos que a Assembleia da Graça se reúne em coletividades do bairro e, a 29 de março passado, juntaram-se centenas de pessoas e diversos coletivos da cidade em frente ao antigo convento, para uma «ManiFESTA», por «menos turismo, mais comunidade».

Na tradição popular Lisboa é chamada a cidade das sete colinas. Hoje em dia, na área metropolitana, existem muitas mais; no entanto, uma das mais conhecidas e amadas foi sempre a colina da Graça, famosa pelos seus lindos miradouros onde se pode admirar o pôr-do-sol sobre a cidade.

No topo desta colina ergue-se o maior e mais importante monumento da zona, o Convento da Graça. Construído pela primeira vez no século XIII, foi reconstruido no século XVI e novamente depois do terramoto de 1755. Após a extinção das ordens religiosas masculinas, em 1834, as estruturas conventuais foram ocupadas pelo Exército e, mais tarde, pela GNR. É por esta razão que, no bairro, o edifício é conhecido como o «Quartel da Graça».

Em 2016, o primeiro executivo de António Costa divulgou uma lista de 30 monumentos que seriam abrangidos pelo Revive, programa lançado para recuperar e valorizar o património histórico através do turismo, com a concessão destes imóveis a privados que ficariam responsáveis por explorar hotéis ou restaurantes. O Quartel da Graça foi um dos monumentos incluídos nesta lista.

Foi neste contexto que, em 2019, o Estado celebrou um contrato de concessão de exploração do quartel da Graça com o grupo Sana Hotels, por 50 anos, com o objetivo de o transformar, no espaço de 4 anos, num hotel de 5 estrelas.

Entretanto, o projeto sofreu várias alterações e a sua aprovação só aconteceu em 2024, numa reunião privada do executivo da CML de Lisboa, após empate entre votos a favor e votos contra (votos contra: três dos Cidadãos Por Lisboa, dois do PCP, um do BE e um do Livre; votos a favor: liderança PSD/CDS-PP que governava sem maioria absoluta e três abstenções do PS).

O projeto prevê uma grande obra de ampliação com demolição, para uma superfície de pavimento de 18.922,17 metros quadrados 1

Desde o início da concessão, em 2019, o edifício foi completamente deixado ao abandono e à degradação. Em outubro de 2023, um grupo de ativistas pelo direito à habitação decidiu apropriar-se do quartel, na noite de Halloween. Foi nessa noite de festa que muitas pessoas se aperceberam do grande desperdício que era deixar um edifício público daquelas dimensões a um grupo privado, que iria excluir completamente a população.

Passado um ano, no outono de 2024, o coletivo Stop Despejos decidiu alertar as pessoas do bairro e lançar uma campanha contra a construção de um hotel de luxo numa cidade já estrangulada pelo turismo: «O bairro da Graça já há muitos anos está a sofrer os efeitos do turismo. Muitas pessoas e lojas foram despejadas e o bairro transformou-se num parque de diversões para turistas. Nós, que ficamos, perdemos, um a um, todos os espaços da vida comunitária e os serviços de que precisamos, substituídos por serviços para turistas: fecharam as frutarias e mercearias do bairro, ficámos sem piscina e sem transportes públicos (já lá vai o tempo em que se podia apanhar o 28!), sofremos o barulho das obras constantes, quase não temos pastelarias a preços normais, não podemos andar pela Travessa do Monte invadida pelas barulhentas esplanadas, o trânsito está um caos com tantos tuk-tuks e ubers e só pode piorar com um mega-hotel! A construção do novo hotel de luxo, no centro geográfico do bairro e no lugar do seu maior prédio iria dar o golpe final ao nosso bairro».

No mesmo comunicado, a Stop Despejos convida a população a refletir sobre o uso do quartel como «espaço co-construído e utilizado pela comunidade em função das suas necessidades presentes e desejos futuros, sem o apoio ou autorização da CML ou da Junta de Freguesia», alegando que «seria uma compensação mínima por termos perdido grande parte do nosso bairro».

Crianças destroem um hotel pinhata para defender o quartel como um espaço comunitário, a 29 de março.

Nessa altura foram colados vários cartazes nas ruas a anunciar a primeira assembleia de bairro em novembro de 2024, na Graça, numa sala da Caixa Económica Operária. Foi uma assembleia muito participada, em que apareceram mais de 100 pessoas e onde se refletiu sobre como parar as obras no quartel e sobre o que a população gostaria de ter em lugar de um hotel. Em simultâneo, realizou-se também uma assembleia de crianças em que os mais pequenos expressaram os seus desejos, pintando uma grande planta do quartel.

Desde então, a «Assembleia da Graça – Parar o Hotel no Quartel» reúne-se pelo menos uma vez por mês em espaços cedidos pelas coletividades do bairro. Trata-se de uma assembleia apartidária que se desenvolve de forma horizontal (há sempre uma pessoa que modera e outra que toma notas, rotativamente) e em que todas as pessoas são bem vindas.

O manifesto explica em pormenor os propósitos da Assembleia da Graça, mas, antes de tudo, o seu objetivo principal: «Temos como objetivo comum Parar o Hotel no Quartel e reivindicar o espaço para uso, gestão e fruição comunitária». «Somos a favor de destinar toda esta área a usos mistos, ao serviço das necessidades reais da população do bairro e da cidade: fins habitacionais, educativos, culturais, artísticos, serviços de assistência e infraestruturas ligadas ao bem estar das pessoas e à qualidade de vida urbana».

As iniciativas promovidas neste primeiro ano e meio foram muitas: foi divulgada uma petição que conta com 4 mil assinaturas, foram organizadas várias manifestações e ações de sensibilização, eventos desportivos e populares no bairro, formações sobre bens comuns ou passeios sobre gentrificação. A Assembleia também tem desenvolvido trabalho no campo jurídico, analisando os documentos disponíveis relativos ao contrato de concessão estipulado com o Grupo Sana.

«Temos como objetivo comum Parar o Hotel no Quartel e reivindicar o espaço para uso, gestão e fruição comunitária»

Percebeu-se que várias das cláusulas previstas nesse documento estão agora em incumprimento: o prazo da conclusão das obras não foi respeitado (até dezembro de 2023), e não foi apresentado nenhum plano de manutenção do edifício, que, pelo contrário, continua em estado evidente de degradação. Tudo isto, provavelmente, sem pagar a renda prevista a partir de 2024 (cerca de 1,79 milhões de euros/ano ao Estado), nem as coimas pelo atraso da obra. Entretanto, depois da movimentação e dos eventos organizados pela Assembleia, o grupo Sana pareceu ficar preocupado e acelerou o processo, vedando a obra com um tapume e afixando um cartaz com o alvará (datado de 6 de março de 2026).

A Assembleia da Graça está determinada a continuar a luta, mesmo tendo consciência de que não será fácil pressionar o Estado e a CML a rescindirem o contrato de concessão e a parar a obra, por mais ilegítima que seja. Apesar de ter de enfrentar os interesses de uma empresa gigantesca e extremamente poderosa como o grupo Sana, a Assembleia quer continuar a manifestar-se, a crescer como movimento popular e a mostrar que o bairro da Graça quer resistir ao turismo predador, exigir mais habitação, mais espaços coletivos abertos a todas, e que não quer nem precisa de mais hotéis ou de alojamentos para turistas.

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Texto de Chiara Moneta publicado no Jornal MAPA nr. 49 [Abr. – Jun. 2026]
Fotos de Marisa Cardoso


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Jornal Mapa

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