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Lendo: Diógenes, o cão que ri

Diógenes, o cão que ri

Diógenes, o cão que ri


Há cerca de 2 348 anos, morre em Corinto o homem capaz de viver do ar. O seu nome era Diógenes, e aparentemente, o berço que o viu nascer foi Sinope, antiga cidade portuária construída sobre um istmo no Mar Negro, hoje parte da Turquia. No entanto, Diógenes foi repudiado – ou repudiou ele próprio – deste lugar, para se considerar o primeiro cidadão do mundo. Decidiu, próximo dos 50 anos, viver em Atenas, não por gostar da cidade, mas precisamente por não gostar.

O que sabemos sobre Diógenes não foi escrito por ele, mas por um homónimo: Diógenes Laércio. Este último Diógenes dedicou-se a documentar histórias curiosas da vida dos filósofos, em vez de se centrar nas suas filosofias. Na obra Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres, compilou os seus ditos e anedotas: narrativas ou histórias curtas, de factos históricos ou imaginários, que podem ou não provocar o riso. Mais do que aferir a verdade, estas anedotas sobre os filósofos mostram-nos como era percebido o seu caráter pelos demais; no caso de Diógenes, revelam-nos a sua filosofia.

Diógenes é considerado o filósofo cínico por excelência da Grécia Antiga. Foi contemporâneo de Platão, Aristóteles e Alexandre o Grande. Tal como eles, a sua obsessão era a virtude, e a sabedoria para viver bem. Ao contrário deles, a sua filosofia levou-o a viver destituído, debaixo de pontes e dentro de jarrões (pithos), descalço e apenas com uma manta por roupa, a mendigar junto do mercado. Chamavam-lhe «o cão», insulto que adotou para si e que deu o nome à sua forma de vida e filosofia (cínico deriva do grego kynikos, que significa «como um cão»).

Como é que os cínicos se tornaram nos cães da polis ateniense? Comecemos por dizer que eram cães com um revés: «ao contrário dos cães que mordem os inimigos, eu mordo os meus amigos para salvá-los». Para os cínicos, a polis não era uma fonte de virtude, mas um veneno que corrói a alma, afastando o homem da sua verdadeira natureza e da liberdade de decidir como quer viver. «Aristóteles toma o pequeno-almoço quando o rei manda; Diógenes come quando quiser». A submissão necessária para viver na polis era-lhe intolerável, preferindo viver destituído para desta forma assegurar a sua autossuficiência – autarkeia. Ironicamente, mendigava, mas nunca se sentiu vinculado socialmente por esta dependência. Considerava que era a paga pelos seus serviços: conta-se que recusou um convite para jantar porque o anfitrião não se mostrara devidamente grato pela sua presença.

Masturbava-se frequentemente em público, e quando o inquiriam, dizia: «que pena que não se possa matar a fome só a esfregar a barriga!»

Mendigar é uma prática que requer um treino exigente. Por um lado, é essencial viver com pouco. Conta-se que uma vez viu um rapaz a beber água usando as mãos como concha, e imediatamente deitou fora a sua taça, dizendo «não me tinha apercebido que a natureza me tinha dado mãos que servem para este propósito». Por outro, é essencial suportar a rejeição: uma vez viram-no pedir esmola a uma estátua, e quando lhe perguntaram porque o fazia, respondeu: «para me habituar a ser recusado». A sua alimentação consistia em migalhas de pão de trigo e ervas silvestres, mas gostava de bolinhos como toda a gente. A sua autarkeia levava-o a satisfazer as suas necessidades sem outros, inclusive as sexuais. Masturbava-se frequentemente em público, e quando o inquiriam, dizia: «que pena que não se possa matar a fome só a esfregar a barriga!»

Viver como um cão na polis requeria viver sem pudor, imune às críticas e insultos de outros. Um verdadeiro cínico não se rege pelas convenções sociais, e tem de ser capaz de as desafiar. Diógenes era um mestre a criar situações disruptivas no quotidiano: entrava no teatro contra a corrente, e quando lhe perguntavam porquê, respondia que passara a vida toda a fazê-lo; andava para trás na via pública, e quando se riam dele, retorquia que eram eles que deviam envergonhar-se de levar a vida na direção errada. A direção errada era a da vulnerabilidade à riqueza, que levava as pessoas a submeterem-se às que têm a capacidade de lhes conceder ou negar o acesso a prazeres e indulgências. Os cínicos procuravam a independência das próprias necessidades corporais, resistindo às intempéries, ao calor e ao frio, e praticavam de todas as formas possíveis o autodomínio, para que o seu bem-estar não ficasse refém das decisões de outros ou de acontecimentos externos. Esta era a forma de se emanciparem – quem nada tem nada precisa, e conta-se que quando Alexandre o Grande lhe perguntou o que podia fazer por ele, Diógenes respondeu: «chega-te um pouco para o lado, estás a tapar-me o sol».

O seu alvo preferido era Platão, e quando este definiu o ser humano como um bípede sem penas, Diógenes depenou uma galinha e atirou-lha para o auditório dizendo: «eis o homem de Platão!».

Diógenes ridicularizava e escarnecia todos os grupos sociais. Escarrou na cara do anfitrião de uma casa luxuosa que lhe pediu para não cuspir, dizendo que no meio de tanta limpeza não encontrou lugar pior. Frequentava bordéis e insultava as mulheres para suportar os insultos que lhe devolviam com equanimidade. Era assim que afirmava a sua importância: quando lhe perguntaram como ser uma pessoa reputada, respondeu: «tendo desdém pela reputação». Criticava Atenas e preferia Esparta, mas quando lhe perguntaram porque não ia viver para Esparta, respondeu: «porque um médico não vive entre as pessoas saudáveis». Recusou a família e não tinha mulher nem filhos. No entanto, não se afastava da polis, ia com frequência ao teatro, aos jogos e aos auditórios dos filósofos, para desdenhar de todos os virtuosos. Dizia que os artistas e desportistas não competiam entre si pela excelência da alma humana, e declarou-se vitorioso entre os homens, não entre escravos, em frente à multidão dos Jogos Olímpicos. Era um anti-intelectual e desafiava constantemente a retórica, discursos e lógica dos filósofos. O seu alvo preferido era Platão, e quando este definiu o ser humano como um bípede sem penas, Diógenes depenou uma galinha e atirou-lha para o auditório dizendo: «eis o homem de Platão!». Noutra ocasião, pisoteou uma carpete dizendo: «estou a pisar o orgulho vazio de Platão!», ao que este terá respondido: «quanta vaidade mostras, Diógenes, ao exibir que não és vaidoso». Apesar dos esforços para não se mostrar afectado pela crítica social, Aristóteles reconheceu-lhe a necessidade de ser validado pelos filósofos, e quando Diógenes lhe ofereceu figos secos, retrucou: «grande é Diógenes!».

Embora criticasse os costumes da sociedade ateniense, dava como garantida a ordem hierárquica entre homens, mulheres e escravos, e humilhava os homens efeminados. Porém, considerava a desigualdade incompatível com a amizade: «como pode um homem rico ser amigo de um pobre, e o pobre continuar miseravelmente pobre?».

A sua filosofia foi posta à prova quando piratas o venderam como escravo, e teve de suportar duros tratamentos. Conseguiu trazer ânimo aos seus companheiros de infortúnio, e não os deixou cair em desespero. Quando lhes foi negada comida e água, comentou com os esclavagistas: «curioso que os traficantes de porcos ou ovelhas os engordem para venda, e os traficantes de seres humanos os debilitem até que fiquem esqueletos, para serem vendidos por uma canção». A partir desse momento, passaram a ser alimentados. No momento da venda, perguntaram-lhe o que sabia fazer. «Governar homens», respondeu. «Muito bem, vou procurar alguém que queira ser governado», gracejou o leiloador. «Vende-me àquele», solicitou. «Tem cara de quem precisa de mim». Tratava-se de Xeníades de Corinto, que o aceitou como governante da sua casa e dos seus filhos. Os amigos, preocupados, procuraram resgatá-lo da escravatura, mas Diógenes dissuadiu-os de o fazer, dizendo «os leões não são escravos dos que os alimentam; pelo contrário, são os que os alimentam que se tornam escravos dos leões, porque o medo é que define um escravo, e as bestas selvagens causam-lhes temor».

Embora criticasse os costumes da sociedade ateniense, dava como garantida a ordem hierárquica entre homens, mulheres e escravos, e humilhava os homens efeminados.

Diógenes desempenhou um papel brilhante ao serviço de Xeníades, e teve a oportunidade de por em prática a sua pedagogia, advogando um treino simples de bem-estar, sem exagerar nos desportos nem no embelezamento. Diz-se que as crianças o adoravam. Diógenes pediu o respeito que se concede a um trabalhador especializado, médico ou timoneiro, a quem se obedece mesmo quando se solicita os serviços. Esse respeito foi-lhe concedido até ao fim da vida, e numa versão da história, Xeníades perguntou-lhe como queria ser enterrado. «De cara para baixo», respondeu, «porque em pouco tempo o mundo vai ser virado ao contrário». Noutra versão, o velho Diógenes pediu que o entregassem a aves de rapina com um pau para se defender. Mas os seus amigos preferiram a versão de que, um dia, Diógenes decidiu parar de respirar, pondo fim ao seu sustento.

A morte de Diógenes não foi a morte do cinismo, mas durante vários séculos, a não-adesão às convenções sociais perdeu o apelo. Outras filosofias imperaram, como o epicurismo e o estoicismo. Mas os cães da polis voltaram no século I, com a força de um movimento de massa. As multidões destituídas pelo império romano vagueavam sem casa, com capa, cajado e alforje, profetas que buscavam a virtude e a emancipação na miséria e na desgraça, condenando e desprezando o luxo e a hipocrisia dos poderosos. Diógenes conhecia este poder: terá dito a um pobre «vem amigo, fica a meu lado e vê-me a trabalhar». Porém, a ameaça ao império veio na forma do Cristianismo. Há quem veja Jesus como um cínico que alerta a humanidade contra o vício e a ganância, e nos diz que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus. Mas Cristo faz um passe de mágica ao duplicar o sistema de valores: um em que há bens reservados unicamente àqueles que vivem as suas palavras, com outros bens acessíveis na próxima vida; e outro onde quase tudo se consegue através de trocas, roubos ou poder, à custa da submissão da virtude. No nosso mundo, a hipocrisia é «a homenagem que o vício presta à virtude» 1; no outro mundo, será feita justiça. É esta a resposta dos cristãos à pergunta de como pode um rico ser amigo de um pobre.

O caminho cínico para as virtudes estabelecido por Diógenes estava aberto a todas as pessoas, até às mulheres, desde que deixassem de ser mulheres para serem filósofas. Esta ideia atraiu uma mulher rica, Hipárquia de Maroneia (c. 350–280 a.C.), a única filósofa que recebeu uma entrada própria nas Vidas e Doutrinas de Diógenes Laércio. Adoptou o modo de vida dos cínicos, mas para os outros filósofos, ela devia estar a tear. Ser mulher era visto como algo apesar de, um papel imposto de que uma pessoa tinha de se emancipar para viver a vida de forma autêntica e livre.

Bastein-Lepage: Diógenes

Quando a igreja se apropriou do movimento cristão, consolidou o monopólio da crítica ao poder. A única forma de falar a verdade sem ter a vida em risco era sendo um tolo, inocente, profético. O cínico era um parasitus – alguém que come ao lado dos outros mas não com eles, que se contenta com as sobras sem se curvar, como um rato se contenta com as migalhas que alcança. Mas nos tempos modernos, o descaramento mudou de lado: o riso deixou de ser a arma dos oprimidos contra os poderosos, e passou a ser usado por todos contra todos, um baile de máscaras necessário para manter o status quo. Peter Sloterdijk 2 afirma que os cínicos de hoje têm uma falsa consciência esclarecida, que os torna bem-instalados e miseráveis ao mesmo tempo. São pessoas que sabem a verdade mas não a vivem, porque perderam as práticas de Diógenes e agora estão dentro, comprometidos. Vivem divididos, sem reconciliação possível.

O apelo de viver a verdade aumentou novamente no século XXI, quando a hipocrisia social atingiu um novo auge. Mas o discurso sem medo, tal como antes, só pode ser proferido a partir de uma posição de independência radical. A tragédia do cínico moderno é ver que o imperador está nu, e continuar a aplaudir porque as alternativas lhe parecem piores ou impossíveis.

Reclamar as armas de Diógenes requer reclamá-lo da loucura, da síndrome que tem o seu nome 3. Requer reclamar o riso, para que deixe de ser sardónico e volte a ser libertador; reclamar o corpo como um lugar de verdade e resistência; não ter vergonha de não jogar o jogo; praticar a sátira; afirmar a vida em toda a sua plenitude e contradições. Os verdadeiros cínicos são os que falam quando seria melhor ficar em silêncio; são os teimosos que mantêm viva a possibilidade de viver diferente. No fim, vamos ver quem ri melhor.

 

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Texto de Borboleta Azul, publicado no Jornal MAPA nr. 49 [Abr. – Jun. 2026]
Imagem em destaque de Graça Santos

Notas:

  1. Frase atribuída ao moralista François VI, duque de La Rochefoucauld, do século XVII.
  2. Peter Sloterdijk é um filósofo alemão que escreveu a Crítica da Razão Cínica (Kritik der Vernunft zynischen) em 1983.
  3. A Síndrome de Diógenes é o nome que se dá a comportamentos de negligência extrema no autocuidado, falta de pudor, desleixo da casa e dos objectos.

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