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Lendo: Como derrubar um governo em dois dias

Como derrubar um governo em dois dias

Como derrubar um governo em dois dias


Sem medo das ruínas, a juventude do Nepal empurrou a elite política comunista para o abismo e abriu as portas à esperança de um novo país.

No início de setembro, um movimento de protesto contra a corrupção do governo tomou as ruas do Nepal ditou a queda do primeiro-ministro K.P. Sharma Oli e despoletou uma insurreição generalizada que resultou na destruição total, pelo fogo, de mais de 100 edifícios na capital, Catmandu, entre os quais o parlamento, o ministério da saúde e o palácio da justiça. Sharma Oli governava graças a uma improvável coligação que incluía o Partido Comunista do Nepal (de carácter marxista-leninista), o Partido do Congresso (representante da direita) e ainda alianças com outros grupos conservadores inclusive monárquicos. Perante um cenário político em que tinham alternado no governo os líderes dos dois partidos vencedores (marxistas-leninistas e maoistas) da revolução dos anos 2005 e 2006 que derrubou uma monarquia decrépita, e uma população que assistia ao rápido empobrecimento do país, onde as desigualdades se aprofundavam cada vez mais, acelerando a diáspora interna (das áreas rurais para as urbanas) e a externa (cerca de 6 milhões de nepaleses), a juventude, na maioria com menos de 30 anos (a geração Z), assumiu a liderança dos movimentos de protesto desde a crise da covid-19, que em 2020 viu nascer o movimento Enough is Enough, (Já Basta) 1 surgido na sequência da gestão da pandemia da Covid-19 pelo governo.

As manifestações de 8 e 9 de setembro foram o culminar de um rastilho que não parava de arder há anos. A 8 de setembro milhares de pessoas responderam à convocatória do movimento Gen Z contra vários episódios de corrupção e a aprovação recente de uma lei que permitia o bloqueio de várias redes sociais. Ao chegarem ao parlamento, os manifestantes foram reprimidos violentamente com fogo real por parte da polícia, tendo sido assassinados a sangue frio dezenas de jovens, alguns em idade escolar e com os uniformes das escolas vestidos. A indignação alastrou rapidamente e, no dia seguinte, já ninguém considerava a negociação com o governo uma opção. As manifestações de 9 de setembro rapidamente se transformaram numa insurreição generalizada, com o ataque a diversos edifícios governamentais, casas de políticos, pilhagens de cadeias de supermercados e também o edifício do hotel Hilton, inaugurado um ano antes como o hotel mais alto de Catmandu. Propriedade do filho de um político, o Hilton era também o símbolo da arrogância de uma elite popularizada nas redes sociais como «nepo babys» ou «nepo kids», filhos e netos de políticos que, sem qualquer pudor, ostentavam nas redes uma vida de luxo. A difusão destas imagens e a oposição generalizada às políticas do governo tinham sido razões pelas quais o governo decidiu avançar com a lei de bloqueio de algumas redes sociais, o que ajudou a inflamar ainda mais a revolta.

O actual governo interino é liderado por Suhila Karki, uma antiga juíza do Supremo Tribunal do Nepal e a primeira mulher a assumir o cargo de primeira-ministra. Em poucos dias, 145 mil pessoas discutiram e levaram a votos a escolha da nova líder do país no Discord, uma plataforma associada a fãs de jogos de computador. «É irónico que o governo que baniu o Discord, aqui, acabasse por ser derrubado pelas pessoas através do próprio Discord», lia-se num comentário de uma jovem nepalesa à notícia da eleição de Suhila Karki.

O novo Nepal vê-se obrigado a renascer sobre o sangue derramado de mais de 75 vítimas mortais. Num acto solene, Sushila Karki declarou oficialmente os manifestantes mortos como mártires, o Estado honrou os falecidos com uma cerimónia nacional de cremação e proclamou o dia 17 de setembro como dia oficial de luto nacional.

Tal como nas revoltas do Bangladesh, em 2024, na Indonésia, em agosto de 2025, sem esquecer a guerra civil que se trava no Myanmar (ver aqui), as massas populares na Ásia mostraram a importância da crítica radical e anticapitalista. Os ataques de 9 de setembro nas principais cidades do Nepal tiveram como objectivo, para além dos edifícios governamentais, a cadeia de supermercados Bhatbhateni, o Choudhary Group (uma das maiores corporações financeiras do país) e a NCELL (a primeira operadora privada de telecomunicações móveis). Todos estes grupos são denunciados há anos por episódios de corrupção e fuga aos impostos, acumulando milhões sobre a miséria generalizada de uma população traída e sem esperança.

As eleições para a formação do novo parlamento foram marcadas para 5 de março, a geração Z e a bandeira pirata do One Piece mantêm-se alerta.


Texto publicado no Jornal MAPA nr. 48 [Jan. – Mar. 2026]

Notas:

  1. Enough is Enough foi um movimento de protesto surgido no Nepal em 2020, na sequência da gestão da pandemia da Covid-19 pelo governo. Durante mais de duas semanas milhares de pessoas manifestaram-se contra a inacção e corrupção do governo na forma como estava a lidar com a pandemia no país. A resposta violenta da polícia à primeira manifestação contribuiu para o alastrar do protesto, incluindo também vários activistas que entraram em greve de fome exigindo o aumento da testagem ao vírus.

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Written by

Cláudio Duque

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