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Lendo: Um olho no facho, outro no liberal

Um olho no facho, outro no liberal

Um olho no facho, outro no liberal


Acompanhando lutas ecologistas, sociais ou antifascistas, ou organizando debates sob o mote «um olho no facho, outro no liberal», desde 2022 que, a partir de Faro, o Comité Custódio Losa apela à acção colectiva num Algarve turistificado e palco de ensaio da extrema-direita do Chega.

Quais os objectivos que estiveram na base da formação do Comité Custódio Losa MD, promovendo regularmente no Algarve uma série de encontros e debates?

A sensação que tínhamos era de que no Algarve se podia fazer muita merda com total impunidade e ausência de resistência, até trocar o nome de Algarve para Allgarve ou, quando se faz a a descoberta, em Lagos, do primeiro cemitério de escravos africanos na Europa, em vez de no local se erguer um memorial, erguer-se um minigolfe. E não nos agradavam as formas muito individualizadas e institucionalizadas do «activista» que escreve a sua coluna crítica no Jornal do Algarve ou que tem a sua associação, que não é mais do que uma pequena empresa em nome individual. Sentimos que fazia falta criar um colectivo que convidasse pessoas com um tipo de discurso mais radical e que pusesse as coisas de outra maneira. Chamámos-lhe Comité Custódio Losa MD, pois, quando éramos adolescentes, tivemos um grupo, na altura do liceu, em que curtíamos aqueles primeiros livros mais selvagens da Antígona como a Declaração de Guerra às Forças Armadas e Outros Aparelhos Repressivos do Estado do Custódio Losa, Major Dissidente. Mas, mais a sério, aquilo a que nos propúnhamos ao nível de objectivos era não só a parte teórica, mas a parte prática. Ou seja, que, além dos debates, a nossa acção passasse por nos aliarmos às lutas já existentes, sem perseguirmos uma afinidade ideológica ou um método exclusivo, ainda que mantendo a nossa linha. Então começámos a juntar-nos para organizar encontros e debates que nos ajudassem a que, de forma colectiva, não nos sentíssemos tão impotentes numa zona onde a cada dia se anuncia a construção de um novo resort. Juntámo-nos ao movimento da Defesa das Alagoas Brancas (queriam destruir uma zona de biodiversidade para construir mais um centro comercial), mas não era só a defesa da «natureza» que nos interessava, era também questionar o modelo de consumo e produção que, em pouco tempo, passou dos mercados locais, onde os pequenos agricultores vinham vender os seus produtos, para grandes centros comerciais com os seus hipermercados. Interessou-nos também questionar as típicas formas de protesto institucionalizado e discutir, por exemplo, a acção directa. No último encontro, a alguns dias da greve geral, a Laure Batier, uma das tradutoras francesas da biografia da Emma Goldman, com o exemplo das suas formas de luta através das greves e da acção directa contra a burocratização sindical, veio trazer outros horizontes.

Num Algarve que se mediatiza e se expressa nas elei-ções pela extrema-direita do Chega, ou que continua a destacar-se na frente de uma economia extractivista, que resistências destacariam a essa realidade?

Na tomada de posse do novo presidente do concelho de Albufeira do Chega, quando alguns de nós por lá aparecemos com três mascaras do Salazar, fomos imediatamente abordados pela GNR à paisana. As máscaras foram confiscadas e fomos avisados de que não tínhamos nada que ir para ali atrapalhar a festa. E, se por lá se ensaia, de forma bem articulada com as forças da ordem, o laboratório da cidade Chegana, no município ao lado (Silves), governado pela CDU, aprova-se um hotel em cima da praia em Armação de Pêra, num investimento de 50 milhões. Já que fazem fronteira com o do Chega, tinham ali uma boa oportunidade para se distinguirem dos outros e terem uma proposta alternativa de vida em comunidade. Mas não, continuam a cair nos mesmos erros. Nos últimos debates que temos tido sobre habitação andamos a tentar perceber o que é isso de capitalismo rentista, quando a habitação se torna num activo financeiro, isto é, quando os grandes fundos perceberam que era mais seguro ter o dinheiro investido em projectos imobiliários do que no banco. É assim que um fundo americano, em conjunto com a Sonae, investe milhões em hotéis em Lagos, na Meia Praia, «para celebrar a essência do Algarve» e que levará ao fim do bairro auto-construído a seguir ao 25 de Abril por pescadores e que deu origem ao filme Os Índios da Meia Praia [António Cunha Teles, 1976]. Neste rentismo capitalista, a economia não precisa de crescer porque a extracção de capital se faz através do lucro que deriva da propriedade. As desigualdades sociais aumentam exponencialmente: daí termos dos maiores números de jactos privados no aeroporto de Faro e das piores redes de transportes públicos do país, e também é assim que vivem mais de 30 imigrantes numa cave sem condições, com baratas e ratos… Nesta nova forma de modelo social é o autoritarismo a forma política que melhor se encaixa nesta lógica. Ao estado cabe-lhe assegurar, com maior grau de violência, a ordem e o direito à propriedade privada. É assim que entendemos o facto de a extrema-direita ganhar e governar primeiro por cá.

De que forma as movimentações pela Palestina têm funcionado como catalisadores da acção e de encontros?

Quando o Chega ganhou no Algarve todo, nas eleições legislativas, sentia-se um desânimo grande, mas havia uma vontade de fazer qualquer coisa e de se juntar sem saber bem como. E o movimento pela Palestina veio unir essas pessoas que não se conheciam de lado nenhum e que se começaram a juntar e rapidamente organizaram debates, vigílias e manifestações de uma forma muito intensa por todo o Algarve. Essa foi a primeira grande resposta à vitória do Chega, quando as pessoas se juntaram todas de uma forma bastante espontânea, e esse é sobretudo o grande desafio: ver se esse movimento continua e, além de continuar, se consegue manter o entusiasmo e estar também nas lutas mais locais.


Texto publicado no Jornal MAPA nr. 48 [Jan. – Mar. 2026]


Written by

Filipe Nunes

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