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Malbusca: a corrida ao Espaço

MALBUSCA

O anúncio de 14 propostas internacionais de interessados em construir e operar um Porto Espacial para o lançamento de pequenos satélites na ilha de Santa Maria, veio demonstrar como este projeto longe de se encontrar numa fase prévia de avaliação, prepara-se para ser encerrado até Maio de 2019. Tudo isso sem que haja lugar a qualquer processo e consulta de avaliação de impactes ambientais e menos ainda que seja levado à consideração vinculativa dos habitantes de Santa Maria.

Apesar disso os pedidos de esclarecimento ou de oposição permanecem bem vivos, como demonstra a petição pública a decorrer dirigida a Vasco Cordeiro, Presidente do Governo Regional dos Açores, para “impedir a construção de um porto espacial numa pequena ilha dos Açores” (em  https://bit.ly/2QltMOP). Porém todo o processo avança à margem de qualquer auscultação pública e, sobretudo, da apresentação dos riscos implicados no lançamento de foguetões. Parece cada vez mais evidente o receio de uma movimentação cívica similar à que soube questionar e travar o “Furo” de petróleo que ameaçava a costa sul portuguesa.

Negociação silenciosa

Nesta ilha açoriana o projeto do Porto Espacial no lugar da Malbusca tem sido motivo de inquietação nos últimos dois anos junto da população açoriana. Mantêm-se a incerteza e a falta de respostas do que possa advir do Porto Espacial que pretende acolher o novo mercado do lançamento de foguetões. Perante os receios fundamentados dos impactes ambientais e da alteração profunda à vida desse lugar atlântico, rural e recôndito da europa, nenhum dos responsáveis da Estrutura de Missão para o Espaço dos Açores soube à data esclarecer cabalmente as pessoas sobre o que podem esperar do seu futuro.

Esta ausência de resposta contrasta com a campanha entusiasta que colocou os Açores e a Santa Maria no epicentro da Estratégia Nacional do Espaço (Portugal Espaço 2030). Aí se vende o lugar de Malbusca ao novo e emergente mercado internacional de pequenos satélites, promovendo a obra já para 2019 e o lançamento de foguetões para 2021, acompanhado da promessa de apoio público de milhões de euros à sua concretização. Quanto aos esclarecimentos sobre os impactes ambientais e sociais implícitos a um Porto Espacial, esses esbarram em respostas evasivas. Por entre “fases de estudos” que se prolongaram, o negócio rapidamente avançou, com a entrega de propostas de interessados no passado dia 31 de Outubro e a apresentação a 6 de Novembro, pelo principal mentor da ideia o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior Manuel Heitor, dos 14 consórcios que responderam à chamada.

As propostas vêm de empresas alemãs (Astos Solutions GmbH; Isar Aerospace Technologies GmbH; Rocket Factory Augsburg; Vertiv Integrated Systems GmbH e a Valispace com escritório em Portugal), espanholas (PLD Space; Elecnor DEIMOS Group; GMVIS SKYSOFT S.A. e a GTD), italianas (AVIO), francesas/holandesas (Ariane Group cujo acionista maioritário é a Airbus), americanas (Sierra Nevada Corporation e Virgin Orbit LLC) e russas (a ROSCOSMOS da Agência Espacial Russa). Nesses consórcios estão envolvidos centros de investigação portugueses e empresas nacionais como a Edisoft, a Tekever e a Omnidea.

Conforme anunciado pelo ministro Manuel Heitor, estas propostas serão agora analisadas por uma Comissão Internacional de Alto Nível composta por nove peritos nacionais e estrangeiros, numa equipa coordenada por Jean Jacques Dordain, antigo diretor-geral da Agência Espacial Europeia (ESA), integrando o ex-diretor de lançadores da ESA Gaele Winters, a antiga vice-administradora da agência espacial norte-americana NASA Dava Newman, o presidente da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal, Luís Castro Henriques, o ex-reitor da Universidade do Minho António Cunha; o professor emérito da universidade do Texas Byron Tapley (a Universidade que em Janeiro apresentara favoravelmente um estudo encomendado sobre o Porto Espacial em Malbusca), Vitor Fraga, presidente da Sociedade para o Desenvolvimento Empresarial dos Açores (SDEA); Luís Castro Henriques, presidente do AICEP; José Toscano, diretor de Relações Internacionais da IntelSAT; António Cunha, professor da Universidade do Minho; e um representante da ESA a designar. Excluída a avaliação de impactes ambientais e sociais, cabe a esta comissão eleger as propostas para a abertura de um processo negocial no âmbito do Código de Contratação Pública, sendo “natural que algumas das propostas sejam fundidas, de modo a criar um grande consórcio que torne o projeto do Porto Espacial em Santa Maria bem-sucedido” referiu o ministro Manuel Heitor ao anunciar o fecho das negociações para Maio de 2019. Seguir-se-ão dois anos, até junho de 2021, para a implementação do Porto Espacial.

A decisão final não estará porém nas mãos desses peritos de alto nível. A concretização do Porto Espacial depende exclusivamente, pese o aliciamento dos fundos públicos, dos milhões da iniciativa privada. E as opções neste negócio astronómico não se cingem à ilha de Santa Maria, decorrendo atualmente processos similares na Escócia, Suécia e Noruega, entre outros lugares à escala mundial, promovidos com particular ênfase, pela indústria norte-americana e chinesa.

O Porto Espacial da Malbusca

Este compromisso do governo português e dos Açores “em estabelecer um quadro financeiro, legal e técnico capaz de atrair empresas/consórcios mundiais interessados em trabalhar com empresas portuguesas e laboratórios de pesquisa no desenvolvimento de um porto espacial e operacionalizar serviços de lançamento internacional da Ilha de Santa Maria”, não se coaduna com as inquietações da opinião pública.

No passado dia 12 de Setembro as muitas pessoas que encheram a sala do Núcleo de Vila do Porto do Museu de Santa Maria para ouvir explicações do Secretário Regional do Mar, Ciência e Tecnologia, Gui Menezes, relatam ter saído de lá como chegaram: sem saber o que acontecerá à ilha com um Porto Espacial. Apesar do discurso que desde 2016 diz querer ouvir a população sobre um projeto anunciado de grande valor económico para a região, nunca foram apresentados quaisquer elementos que pudessem acalmar os ânimos. Ânimos acesos, porque a única reação às legítimas interrogações que se levantam – já em maio de 2017 um abaixo-assinado de mais de 400 pessoas exigia respostas ao Governo Regional – tem sido a dualidade de ser-se a favor ou contra, em que quem está contra o Porto Espacial, é inimigo, não gosta de Santa Maria, é desfavorável ao progresso. Quem está a favor é amigo, gosta de Santa Maria.

Nessa crispação a balança pesa por um lado entre a cega aceitação do projeto, confiante da habitual argumentação, pouco ou nada demonstrada, de empregos e retorno económico local, e por outro lado pelo questionamento fundado na evidência de que uma infraestrutura de lançamento de foguetões alterará profundamente o dia-a-dia de Malbusca. Condenará os valores naturais e rurais que vêm sendo promovidos na sua dinamização turística e acarreta perigos ainda não sistematizados ao ambiente e à saúde pública, para além de se desconhecerem as implicações diretas e concretas sobre os que vivem no “perímetro de segurança” do Porto Espacial. Como se coaduna, enfim, a agenda e a escala mundial implícita e que preside a um Porto Espacial, com a escala local de Malbusca e da ilha de Santa Maria.

O projeto incide no lançamento de pequenos satélites (menos do que 500 quilos), aproveitando o posicionamento geográfico vantajoso para lançamento de satélites polares de baixa órbita (entre 400 e 600 quilómetros) que circundam a Terra de norte a sul. Num mundo em que o quotidiano está preso ao gesto individual num smartphone, à gestão remota, administrativa, económica e militar dos territórios, é grande a corrida ao acesso ao espaço para colocar satélites de menor dimensão em larga escala e formar constelações de satélites em órbita baixa, para fornecer serviços de comunicações, observação da terra e cobertura global de internet. São na ordem de milhares os previstos anualmente num aumento exponencial do número de satélites e de detritos em órbita, cuja monitorização está, aliás, na base do projeto europeu Space Surveillance and Tracking, do qual os governos de Portugal, Açores e Madeira fazem parte, e que visa tomar as rédeas do espaço para a economia e a segurança europeias, dada a dependência crítica dos sistemas e serviços de e para o espaço na europa.

O Porto Espacial é todo ele orientado para lançamentos verticais e em terra no lugar da Malbusca, cujas infraestruturas e impactes das operações de lançamento estão no cerne da polémica. Porém não são excluídos também lançamentos horizontais a partir dos meios aéreos a operar desde o aeroporto de Santa Maria, o que aferiria outra situação em jogo e uma análise mais consensual, mas que pode estar a ser invocada apenas para amenizar a oposição ao Porto Espacial, não sendo descartada essa opção em função da outra.

O projeto de Malbusca é por sua vez inserido no projeto mais vasto do AIR Center – Azores International Reaserch Center, uma plataforma de múltiplas atividades de investigação nas áreas do clima, terra e espaço. Mas, em certo contraciclo com as declarações dos governantes portugueses, o diretor-geral da Agência Espacial Europeia (ESA), Johann-Dietrich Wörner, por ocasião do lançamento do AIR Center em julho passado na Ilha da Terceira, observa ambos os projetos de modo separado: de um lado o projeto colaborativo e de investigação internacional para o tratamento e recolha de dados em terra e no espaço a partir dos Açores, de outro lado um porto espacial promovido e dependente das empresas privadas ligadas ao espaço e aos lançamentos de pequenos satélites.

As evasivas respostas dos Governos Regional e Nacional em esclarecer o projeto de Malbusca têm vindo a assentar em duas desculpas: que o projeto está ainda numa fase prévia e que aguarda o desenvolvimento de legislação própria no âmbito da exploração do espaço. Com a apresentação dos interessados ao “concurso internacional de ideias para a instalação em Santa Maria de serviços de lançamento de satélites”, lançado no âmbito do programa do Atlantic ISL (International Satellite Launch em http://www.atlanticsatelliteprogramme.org/), o estado português prossegue assim, como referia o jornal Público (24.09.18), os esforços para concretizar “este negócio e convencer os que terão de conviver com ele”. É nesse apelo aos investidores que surgiram as contrapartidas de cerca de seis milhões de euros em infraestruturas para Santa Maria, tal como solicitado por empresas como a Airbus em julho de 2018; a promessa de dez milhões em investimento anual à investigação na área de pequenos lançadores (foguetões), pequenos satélites e aplicações associadas, além do compromisso governamental de ser cliente âncora a quem vier a se instalar.

MALBUSCA

Descendo à terra: Quais os custos deste negócio astronómico?

Ao mesmo tempo, neste processo negocial, foram solicitados às candidaturas alguns dos elementos básicos que, estranhamente – e aqui residindo a principal crítica na condução de todo este projeto – só depois de garantido o compromisso na execução do Porto Espacial são requeridos e expressos: qual o tipo de lançamento (vertical ou horizontal), qual a carga a transportar e o número de lançamentos anuais e, em função disso, os detalhes básicos sobre o impacte ambiental da instalação do Porto Espacial.

Todo um conjunto de premissas pensadas á posteriori da decisão pública nacional e regional em levar adiante um Porto Espacial, até aqui publicitado sem quaisquer dados concretos públicos por Manuel Heitor, ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, como associado a “uma nova geração de pequenos lançadores, de baixo impacte ambiental e de ruído, com uma nova geração de combustíveis”. Mas o guião da audição prévia de interessados é claro ao afirmar numa única frase que “análises detalhadas mais aprofundadas são agora necessárias para garantir a segurança adequada, um impacte ambiental reduzido, condições de estabilidade geológica e o uso sustentável de energia elétrica e da água.”

Nuno Ávila Martins, diretor da Deimos em Portugal, não escondera que a preferência por Santa Maria passou mesmo, para além das infraestruturas aero-espaciais já instaladas, pela sua escassa densidade populacional, sem esconder que “um projeto como este altera o tecido socioeconómico da ilha. Cria oportunidades de emprego e desenvolvimento, mas também tem um impacto no modo de vida e no ambiente. Temos de acautelar um equilíbrio” (Público, 20.03.2017). A sua empresa subsidiária da Elecnor Deimos, em consórcio com a britânica Orbex, publicara em julho passado um relatório sobre a viabilidade técnica do lançamento vertical de foguetes com menos de 20m em Malbusca, que dispõe das “condições de segurança necessárias para operações críticas” como estas.

Seguindo a mesma estratégia, o problema invocado de ausência de legislação enquadrante seguiu diferentes caminhos. A produção legislativa foi centrada inteiramente na regulação e nos dividendos económicos que advêm do New Space, assim designado o emergente setor aeroespacial. Nada sucedeu no que respeita ao desenvolvimento legislativo, nacional ou regional, que avalie e previna os impactes desta tipologia de projetos, apenas remetendo as propostas dos interessados para as orientações determinadas nesta matéria nos Estados Unidos da América, e sem determinar sequer que estudos de avaliação ambiental a apresentar sejam avaliados conforme tal, isto é, no âmbito de um processo de avaliação ambiental. Tarefa que, como já referido, não preside à Comissão Internacional de peritos que cuidará do negócio.

Mas as indicações enumeradas pela Estrutura de Missão para o Espaço dos Açores em finais de setembro aos possíveis investidores projetam luzes sobre a razão fundamentada da inquietação da população de Santa Maria. Desde logo é referido que o lançamento não possa ocorrer sobre “áreas povoadas até que as consequências de uma falha se tornem insignificantes” (?), que pese a área marítima nesta localização, se impõem áreas tampão em terra para os lançamentos, que devem atender a “outras variáveis de segurança, incluindo ruído, poluição e ambiente radio-elétrico”, assim como “o impacte na vida selvagem e nas populações humanas”, elencando em seguida os parâmetros a seguir e normalmente atendidos num estudo de impacte ambiental.

O certo é que o destino de Malbusca vem sendo trabalhado afincadamente e consta da chamada Lei do Espaço. O projeto de lei 251/2017, aprovado em Conselho de Ministros a 15 de fevereiro de 2018, determina o contexto legal das atividades de lançamento de satélites em Portugal – respondendo à Estratégia Nacional do Espaço (RCM n.º 30/2018) que colocara como um dos seus 3 eixos a promoção de mercados relacionados com o espaço, em estreita colaboração com a ESA, a Comissão Europeia e outros parceiros internacionais relevantes. Fomenta-se a fileira do New Space “com ênfase em mini, micro e nanossatélites, mas também abrindo novas áreas de intervenção em Portugal para serviços de lançadores e alargando as atuais atividades de monitorização e rastreio de satélites e observação da Terra”.

Por decreto, o lugar de Malbusca subiria aos céus. E o que disseram as pessoas e o lugar? Segundo o ministro Manuel Heitor, em cima da mesa estão as propostas do mercado aeroespacial, cabendo agora a Portugal avançar com um “concurso realista” para a concretização do projeto. Aconselha-se assim que se desça à terra e se olhe, de uma vez por todas, para a realidade ameaçada numa das tais verdejantes ilhas dos Açores.

 

Texto de Filipe Nunes [filipenunes@dev.jornalmapa.pt]

5 Comments

  1. Sarmento 15 de Dezembro de 2018

    A quem sugere que antes de falar se visite Santa Maria: deveriam ter a mesma preocupação com quem faz projectos irrealistas para inglês ver, com a ideia que Malbusca é uma zona inabitada, que tudo vai ficar contido num raio de 750m e ninguém vai ser despejado das suas casas!

  2. Nelson Rodrigues 15 de Novembro de 2018

    Os seis milhões, não são uma contrapartida, são, sim, um investimento na ilha, nomeadamente, em estradas, porto e aeroporto! Mais valias, por assim dizer…

  3. Manuel 8 de Novembro de 2018

    Acho que o jornalista que publicou este artigo nunca veio a Santa Maria. Podia pegar em muita informação e desmontar aos poucos, mas vai dar muito trabalho. Basta apenas pegar no último parágrafo para ver o quão irrealista é. Santa Maria é a ilha mais seca do arquipélago, é a ilha com menos pastagens verdes dos Açores, basta só desembarcar no aeroporto para ver que mais de metade da ilha é amarela da secura. É a sua natureza e é esta natureza que a destingue das outras. Apesar das ilhas açorianas terem características parecidas, no fim são muitos diferentes entre si.Tome isto como uma informação e não como uma critica ao seu trabalho!
    Mas deixo o conselho para quando escrever uma notícia que pesquise, todos os aspectos da noticia e sobre a região onde a mesma é situada, para não cometer lapsos como este! Cumprimentos

  4. Fernando Braga 7 de Novembro de 2018

    Caro Filipe Nunes, tendo em conta a imensidão de informação que escreve, poderá citar as suas fontes?
    Obrigado

  5. Manuel Reis 7 de Novembro de 2018

    Uma oportunidade UNICA para o desenvolvimento da Ilha de Santa Maria!!! Como nos tempos em que os Americanos, que construiram o MAIOR aeroporto (em questao de pistas) durante a Segunda Guerra Mundial, e depois da saida da Ilha,Santa Maria voltou uma centenna de anos atraz, alguem anda a por os travoes nessa nova aventura, que a Ilha e as suas vizinhas tanto precisam! Raios partam todos aqueles que se opoem a este novo projecto! (Montreal, Canada)

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